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06 maio, 2008

Rotas e Rituais – O Povo das Estrelas: Um Festival de Cultura Cigana


Segundo mais uma notícia sumarenta avançada pelas Crónicas da Terra, as Festas da Cidade de Lisboa integram este ano o festival Rotas e Rituais – O Povo das Estrelas, dedicado à música e cultura cigana. O festival - que decorre no início de Julho e se reparte entre o Cinema S.Jorge e o Padrão dos Descobrimentos - inclui concertos dos romenos Fanfare Ciocarlia acompanhados por várias outras estrelas europeias da música cigana reunidas no disco/espectáculo «Queens and Kings», dia 1; dos sérvios Kal (na foto, de Mike Bowring) e dos franceses Bratsch, dia 2; e dos espanhóis Son De La Frontera, dia 3. O festival inclui ainda uma mostra de filmes de Tony Gatlif - «Les Princes», «Gadjo Dilo», «Transylvania», «Exils» e o seminal «Latcho Drom» -, exposições de pintura e fotografia, uma mostra de trajes femininos, conferências, ateliers para crianças e teatro infantil.

31 outubro, 2006

WOMEX - Todo o Mundo num Palácio


A WOMEX decorreu este fim-de-semana em Sevilha com centenas de participantes na feira e milhares de pessoas de todo o mundo a circular entre os concertos. São centenas de anos de música e todos os quilómetros quadrados da Terra concentrados num palácio de Sevilha de cúpula dourada.

Concertos, showcases, mostras paralelas, foram às dezenas. Da máquina sonora com 19-elementos-19 da fabulosa La Etruria Criminale Banda (na foto), grupo italiano que mistura ska, punk, klezmer, Balcãs e jazz selvagem à John Zorn, big-band com duas secções de metais, duas baterias, laptop, etc, etc... à beleza de The Shin/Project "EgAri", que junta jazz, flamenco e canto e música tradicional georgiana. Da abertura de novos e excitantes caminhos para a música cigana dos Balcãs feita pelos sérvios KAL à tentativa de emulação de Ali Farka Touré feita por Afel Bocoum (no seu trabalho de guitarra... e até num chapéu). Da constatação de que, ao vivo, o francês Sergent Garcia é acompanhado por uma bandona e aquilo é muito mais orgânico, salseiro e festivo ao encantamento dos Adjagas, um gnomozinho e uma fadinha noruegueses a cantarem canções yoik com banda indie Cocteau Twins/Low/Spain por trás. Da confirmação do cabo-verdiano Tcheka (mais, muito mais do que no África Festival em Lisboa) como um enorme compositor, cantor e guitarrista ao delírio klezmer/árabe/Balcãs/surf-rock dos israelitas Boom Pam, com tuba a fazer de baixo e guitarras eléctricas entre Dick Dale e os Beach Boys.

E mais, muito mais. O efeito Peste & Sida dos andaluzes Eskorzo. A música ancestral dos egípcios El Tanbura. O híbrido, quase sempre bem conseguido (ai, os sintetizadores), entre a tradição e a modernidade da fabulosa cantora turca Aynur. O ritmo infernal dos tambores que rodeiam a cantora colombiana Petrona Martínez (na linha de Toto La Momposina). A pop bem feita mas apenas pop dos também colombianos Aterciopelados. O rock global e bastas vezes alucinado do croata Darko Rundek. A fusão nem sempre feliz de música árabe com electrónicas do projecto multinacional Orange Blossom (que nos melhores momentos faz lembrar os Ekova e nos piores os... Deep Forest). O virtuosismo do bandolinista brasileiro Hamilton de Holanda. A festa dos veteraníssimos catalães Los Patriarcas de La Rumba (devem ser todos eles os avós dos Ojos de Brujo!). A mistura, igualmente festiva e absolutamente dançável, de ritmos cubanos com jigs e reels dos escoceses Salsa Celtica. O acordeão alucinado do catalão Tomás San Miguel com as gémeas Txalaparta (que tocam, claro e tão bem!, txalaparta) e um dos Dissidenten nas percussões... E todos os outros que eu não vi, porque era impossível ver tudo (horas e horas de concertos à noite, sempre três em simultâneo em três locais diferentes, um deles, o pavilhão, infelizmente com um som pouco aceitável para um evento destes).

Na feira, durante o dia, o formigar de gente de todos os continentes - e ligada a estas músicas de todo o mundo - dava ao Palácio dos Congressos-FIBES um aspecto de Nações Unidas freak ou de um Baile de Máscaras global. Editores, produtores de espectáculos, agentes, bandas, estruturas governamentais dos países mais esclarecidos (pois: na WOMEX não há nenhum stand do ICEP nem da Secretaria de Estado da Cultura portuguesa nem...). Gente de todo o lado e de Portugal também: dois para a estrutura que junta várias empresas portuguesa, Musica.pt; outro dos Dazkarieh (quase sempre com animadas jam-sessions que juntavam os músicos portugueses a muitos outros); outro dos Blasted Mechanism (o mais cyber de toda a WOMEX, com as máscaras do grupo e a adição de baterias eléctricas feitas com... limões, cortesia de um eco-activista inglês); do Sons em Trânsito; da Bartilotti Produções/Megamúsica.


E, como é habitual na WOMEX, as actividades foram coroadas com o anúncio dos nomeados para os apetecidos Prémios de World Music da BBC - Radio 3, este ano com dois nomes portugueses (e de sangue africano) no rol - Sara Tavares (na foto; autoria de Jurrien Wouterse) e Mariza - e algumas surpresas. A lista completa de categorias e nomeados é este ano como segue: África - Ali Farka Touré (Mali), Bongo Maffin (África do Sul), Mahmoud Ahmed (Etiópia) e Toumani Diabaté (Mali). Américas: Ben Harper (Estados Unidos), Fonseca (Colômbia), Gogol Bordello (Estados Unidos) e Lila Downs (México). Médio-Oriente e Norte de África: Les Boukakes (Argélia/França), Ghada Shbeir (Líbano), Natacha Atlas (Egipto/Reino Unido) e Yasmin Levy (Israel). Ásia/Pacífico: Anoushka Shankar (Índia), Dadawa (China), Debashish Bhattacharya (Índia) e Fat Freddy's Drop (Nova Zelândia). Europa: Camille (França), Lo’Jo (França), Mariza (Portugal) e Ojos de Brujo (Espanha). Revelação: Etran Finatawa (Niger), K’Naan (Somália), Nuru Kane (Senegal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde). Fusão: Aida Nadeem (Iraque/Dinamarca), Maurice El Medini & Robert Rodriguez (Argélia/Cuba), Ska Cubano (Reino Unido/Cuba/Jamaica) e Think of One (Bélgica/Brasil). Dança/Discoteca Global: Balkan Beat Box (Estados Unidos/Israel), Cheb I Sabbah (Argélia/Estados Unidos), Gotan Project (França/Argentina) e Mercan Dede (Turquia/Canadá).

23 outubro, 2006

WOMEX - Esta Semana Em Sevilha



Se tudo correr bem, o final desta semana será passado em Sevilha, na WOMEX, feira que junta muitos artistas consagrados e emergentes da chamada world music e os mas importantes editores, agentes, managers, DJs, divulgadores e jornalistas desta área. De Portugal segue uma representação alargada, se bem que não haja nenhum concerto/showcase oficial agendado com artistas portugueses. Entre os concertos/showcases marcados contam-se actuações de vários nomes espanhóis - Banda de la María, Mártires Del Compás, Son De La Frontera, Electroputas, Guadiana, Los Patriarcas de la Rumba e Tomás San Miguel+Txalaparta - e de variadíssimos artistas e bandas de vários continentes: Adjágas (Noruega), Afel Bocoum & Alkibar (Mali), Aterciopelados (Colômbia), Aynur (Turquia), Boom Pam (Israel), Brina (Eslovénia), Calypso @ Dirty Jim's (Trinidad e Tobago), Darko Rundek & Cargo Orkestar (Croácia/França), El Tanbura (Egipto), Free Hole Negro (Cuba), Hamilton de Holanda (Brasil), Homayun Sakhi (Afeganistão/Estados Unidos), Juan Carlos Cáceres (Argentina/França), Kal (Sérvia), Kassaï Allstars (Congo), La Etruria Criminale Banda (Itália), Menwar (Ilhas Maurícias), Niyaz (Irão/Canadá/Estados Unidos), Nomo (Estados Unidos), Orange Blossom (Argélia/México/França), Petrona Martínez (Colômbia), Salsa Celtica (Reino Unido), Sergent Garcia (França), Tcheka (Cabo Verde), The Shin/Project «EgAri» (Geórgia), The Silk String Quartet (China/Reino Unido) e X Alfonso (Cuba). Os DJs que vão terminar as sempre longas noites da WOMEX são DJ Awal e DJ Click (ambos franceses) e Los Rumbers (Espanha). Mais informações sobre a WOMEX (que decorre de 25 a 29) podem ser encontradas aqui.

15 setembro, 2006

Música Cigana dos Balcãs - Novos Caminhos


A Música Cigana dos países do leste europeu é um alfobre riquíssimo de ritmos, melodias, orquestras de metais em alta velocidade, alguns violinos que mais parecem metralhadoras sónicas, vozes dulcíssimas ou rudes e vindas do fundo dos tempos. E uma história, antiga, que só há poucas décadas começou a ter visibilidade fora das fronteiras (tantos anos fechadas) da Roménia, Hungria ou dos novos países que faziam parte da Jugoslávia. Nos últimos anos, esta música antiga começou a fundir-se, naturalmente, com outras músicas, exteriores, estrangeiras, modernas. Aqui deixo a crítica a três álbuns recentes de alguns dos fusionistas mais radicais que têm como raiz a música cigana do Leste: KAL, Gogol Bordello (na foto) e Shukar Collective. E isto numa altura em que também já andam por aí um álbum do grupo inglês de música de dança Basement Jaxx, «Crazy Itch Radio», que também vai lá beber inspiração e o segundo volume do álbum de remisturas «Electric Gypsyland».


KAL
«KAL»
Asphalt Tango/Megamúsica

Originários da Sérvia, os Kal são liderados pelo cantor e guitarrista cigano Dragan Ristic, cuja visão musical tanto lhe permite mergulhar na tradição genuína da música romani como experimentar outros territórios como o drum'n'bass, o jazz, ska, klezmer, música turca ou o hip-hop, todos presentes em «Kal» em doses pequenas e equilibradas, especiarias de exotismo e/ou modernidade que nunca estragam, antes sublinham, o carácter autêntico e antigo desta música. Este primeiro álbum do grupo com difusão internacional foi produzido por Mike Nielsen (Underworld, Jamiroquai, Natacha Atlas...), que soube - na mesma linha - balancear os dois lados do som Kal - a tradição e o futuro. Em «Kal» há violinos em voo picado, um acordeão que navega, por vezes, em diracção à Argentina, uma voz que tanto cavalga a tradição como se atira a estilizações de crooner ou de jazz, e vários temas fantásticos como «Boro Boro» (este com uma bonita voz feminina), o alegre e divertido instrumental «Mozzarella» ou o Piazzolla-meets-Havai-music-in-Belgrade «Gurbetski Tango». (9/10)


SHUKAR COLLECTIVE
«URBAN GYPSY»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Menos interessante do que o álbum homónimo dos Kal, o álbum «Urban Gypsy» dos Shukar Collective perde-se demasiado na repetição da fórmula em que esta banda da Roménia embarcou há alguns anos: a interpretação de antigas canções ursari (dos ciganos que exibiam ursos amestrados nas feiras romenas, prática violenta entretanto caída em desuso mas ainda existente em alguns países, tal como o grupo refere no livreto), com uma base electrónica, jazzy e experimental. Andam por aqui ritmos house, mid-tempo e drum'n'bass, algum dub, algum industrial e temas mais ambentiais, à mistura com as canções dos ursari, cantos próximos do konnokol indiano, daraboukas e colheres percutidas. E, se o resultado disto tudo, durante as primeiras canções do álbum, impressiona pela vivacidade e até coerência interna, o agradável efeito de surpresa vai desaparecendo à medida que o álbum vai avançando para a sua conclusão e se vai notando alguma repetição de processos. Fazendo justiça aos Shukar Collective, a sua música nunca descamba para o lado azeiteiro, mas, paradoxalmente, às vezes quase que apetecia que descambasse, para nos divertirmos mais um bocadinho. (6/10)


GOGOL BORDELLO
«GYPSY PUNKS»
SideOneDummy

Diversão é coisa que não falta, bem pelo contrário, nos Gogol Bordello. Banda de ucranianos imigrados em Nova Iorque (não são balcânicos mas a música que fazem é lá que vai buscar a essência), liderada por uma espécie de Shane MacGowan tresloucado de nome Eugene Hutz, os Gogol Bordello são qualquer coisa como os Pogues em versão cigana, os Clash armados em surfistas prateados a deslizar a 300 à hora sobre o Muro de Berlim, Manu Chao a voar sobre a música de todo o antigo Bloco de Leste em vez de o fazer sobre os países da América Latina. Nos Gogol Bordello há skazadas, punkalhadas, surfbillyzadas, metaladas, espaço para o rap e para algumas frases em espanhol. Sexo, bebedeiras, revolução, a condição dos imigrantes. Palavras de ordem em inglês e ucraniano. Gritos oi em luta com violinos supersónicos, baladas assassinas sobre acordeões afogados em vodka, folias e tragédias variadas. E «Gypsy Punks» é um álbum quase sempre muito bom, apesar de se deixar ir abaixo um bocadinho nos últimos temas (à excepção do extraordinário «Underdog World Strike»). Ah, só um pormenor: a produção é de Steve Albini (pois, o produtor de álbuns dos Nirvana, Sonic Youth, etc, etc...). (7/10)