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20 março, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLI.1 - José Afonso


José Afonso - mais popularmente conhecido como Zeca Afonso - foi, provavelmente, o mais importante cantor e compositor português do século XX. José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (nascido em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, falecido em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987) foi um compositor musical atentíssimo a muita música que o rodeava - do fado de Coimbra à música moçambicana, das canções beirãs ao cante alentejano... -, criando uma música nova em que as suas palavras - ele também um poeta criativo, vanguardista, interventivo - tinham igualmente um peso extraordinário. Do seu álbum «Cantigas do Maio», editado em 1971, foi retirada a senha para a revolução de 25 de Abril de 1974: «Grândola, Vila Morena». E ele próprio - fortemente activo politicamente desde quase o início da sua carreira musical - tornou-se também um símbolo da revolução.


Cromo XLI.2 - Konono Nº1


Nascidos há cerca de trinta anos em Kinshasa, no Congo, tendo como membro fundador o músico Mawangu Mingiedi, os Konono Nº1 são um grupo de músicos, cantores e dançarinos cuja música se baseia nas tradições da etnia Bazombo - que habita numa zona próxima de Angola - mas com a particularidade de muitos dos seus instrumentos serem electrificados, nomeadamente os seus emblemáticos likembés (kissanges ou m'biras). Outros elementos imediatamente identificativos do seu som são os seus microfones rudimentares e os seus sistemas de amplificação (feitos a partir de pedaços de automóveis ou velhos altifalantes de rua), que contribuem igualmente para uma música de transe, repetitiva, eléctrica, originalíssima. O álbum «Congotronics» (Crammed, 2005) projectou-os para a ribalta internacional e Bjork convidou-os para colaborar com ela no álbum «Volta».


Cromo XLI.3 - June Tabor


Figura maior da música folk britânica, June Tabor (nascida a 31 de Dezembro de 1947, em Warwick, Inglaterra) iniciou a sua carreira em 1972 e, partir daí, nunca mais deixou de encantar o mundo com a sua voz pessoalíssima e a sua arte aberta a várias músicas que ela escolhe, sempre!, a dedo: a folk britânica, sim, mas também a canção francesa, standards de jazz e algum rock de bom-gosto, que ela reinventa e reinterpreta como ninguém. A solo - ou em grupos e parcerias como as Silly Sisters (ao lado de Maddy Prior), com o grupo de folk-rock Oysterband ou no projecto The Big Session (com a Oyster Band e outros músicos e cantores ingleses e norte-americanos) - a sua voz e a sua presença são sempre luminosas e marcantes. E a sua música, da melhor que alguma vez se pôde ouvir vinda da folk feita nas ilhas britânicas. Audição aconselhada: a caixa «Always» (2005).


Cromo XLI.4 - Tarnation


Apesar de antes e depois dos Tarnation, a cantora - e mentora, líder e principal compositora do grupo - Paula Frazer ter uma carreira em nome próprio, a verdade é que foi com este grupo, formado em San Francisco, em 1992, que ela se deu a conhecer em toda a sua plenitude musical. Apenas com três álbuns no curriculum - «I’ll Give You Something To Cry About» (1993), «Gentle Creatures» (1995) e «Mirador» (1997) -, estes discos chegaram para estabelecer os Tarnation como um dos grupos de ponta da renovação da country nos Estados Unidos; uma country infectada pela música mexicana, as bandas-sonoras de Ennio Morricone para westerns e algum rock alternativo. Tudo enfeitado pela voz única e pessoalíssima de Frazer. E, embora tenha continuado com uma carreira a solo de sucesso, Frazer «ressuscitou» de algum modo a ideia da banda no seu álbum «Now It's Time» (2007), assinado Paula Frazer and Tarnation.

16 janeiro, 2008

June Tabor, The Imagined Village e Rachel Unthank & The Winterset - Folk Inglesa, Com Certeza!


Por muita música que oiça - de vários géneros e de todo o mundo... ou quase - e por muito prazer que tenha a ouvi-la, e a escrever sobre ela aqui neste blog, há sempre um porto de abrigo que procuro para descansar os ossos destas viagens: a folk britânica. Um porto de abrigo onde se podem encontrar «velhas» conhecidas como June Tabor ou deparar com excelentes surpresas como o segundo álbum de Rachel Unthank & The Winterset (na foto) e o disco de estreia do alargado projecto The Imagined Village.


JUNE TABOR
«APPLES»
Topic Records/Megamúsica

Falar de June Tabor é falar de uma paixão antiga, de uma paixão permanente, que cresce de disco para disco, de concerto para concerto, como se de uma companhia boa, simples e continuada se tratasse. Uma paixão enorme mas que tem ainda espaço para crescer. E «Apples», o seu álbum mais recente, só não é uma surpresa porque desta cantora se pode esperar sempre mais e mais. Os discos imediatamente anteriores - «Rosa Mundi» (2001), «An Echo of Hooves» (2003) e «At the Wood's Heart» (2005) - já apontavam para este descarnamento, esta simplicidade, esta beleza em estado puro que se encontra agora em «Apples», mas que aqui se encontra num grau de depuração muitas vezes próximo do silêncio; de um silêncio preenchido por alguma da música mais bonita que se pode imaginar. Acompanhada apenas por Andy Cutting (dos Blowzabella) na concertina, Mark Emerson no piano, violino e viola d'arco e Tim Harries no contrabaixo, June Tabor interpreta - essencialmente - canções tradicionais inglesas e francesas (algumas com centenas de anos!) com uma emoção e um grão de voz únicos, tanto em baladas de amor como em histórias de guerra e abandono ou em antigas danças campesinas. Destacar temas no álbum é complicadíssimo, mas atrevo-me a eleger quatro ou cinco: «The Dancing», «The Auld Beggarman», «Soldiers Three», «Au Logis de Mon Père» e o arrepiante de tão belo «My Love Came To Dublin». (10/10)


THE IMAGINED VILLAGE
«THE IMAGINED VILLAGE»
Real World/Virgin

As sucessivas tentativas de modernização das músicas tradicionais, sejam elas bem ou mal sucedidas, correm sempre o risco de desagradar aos mais puristas, aos Velhos do Restelo que gostam que tudo se mantenha inalterado, igual, mesmo que o «antigo» definhe, apodreça ou cheire a mofo. Não faço a mínima ideia de como é que os puristas da folk britânica terão reagido a este projecto, The Imagined Village, e ao seu álbum de estreia homónimo. Nem isso interessa. O que é importante, aqui, é que este é um fabuloso álbum de folk, de canções tradicionais das ilhas britânicas - e são muitas, ao lado de alguns originais dos participantes - reinventadas para o Séc. XXI por Simon Emmerson (dos Afro Celt Sound System), mentor da ideia, acompanhado por um naipe luxuoso de gente vinda do rock, da folk mais clássica e das suas margens, da fusão indo-britânica, do «spoken-word». Veja-se só: Billy Bragg, Martin Carthy e a sua filha Eliza, o «diseur» Benjamin Zephaniah, Paul Weller (sim, o dos Jam e dos Style Council), a cantora indiana Sheila Chandra, os Transglobal Underground, The Copper Family, The Gloworms e os Tunng, entre outros, e todos a contribuirem para um caldo em ebulição permanente e em que canções tradicionais são mergulhadas em violinos, guitarras e outros instrumentos acústicos, sim, mas também em programações e electrónicas várias, mas sem que alguma vez os elementos constituintes deste som soem deslocados. Se se quiser, isto já não é bem folk. Mas é música, seja lá ela qual for; grande música! (9/10)


RACHEL UNTHANK & THE WINTERSET
«THE BAIRNS»
Rabble Rouser/EMI

Sem ser uma revisitação, digamos, radical da tradição como é «The Imagined Village», «The Bairns», o segundo álbum da cantora e violoncelista Rachel Unthank e das suas companheiras The Winterset - a sua irmã Becky Unthank (voz e sapateado), Belinda O'Hooley (piano e voz) e Niopha Keegan (violino e voz) - é também um belíssimo exemplo de como se pode pegar em canções tradicionais e dar-lhes roupagens actuais, vivas e vibrantes. Completamente acústico - para além dos instrumentos referidos só há mais um cavaquinho (tocado pela própria Rachel) e, aqui e ali, uma secção de cordas, um contrabaixo e um acordeão -, o álbum é preenchido por uma fabulosa colecção de canções escolhidas a dedo por Rachel, de tradicionais a algumas surpresas como «A Minor Place», do geniozinho da alt.country norte-americana Will Oldham (aka Bonnie «Prince» Billy), e a fabulosa «Sea Song», de Robert Wyatt, para além de dois temas originais de Belinda O'Hooley (um deles cantado a solo por Becky, que também protagoniza mais uma ou duas canções). As outras todas são interpretadas de forma exemplar pela voz de Rachel - uma voz que faz lembrar... Joanna Newsom -, sobre arranjos variados, inventivos (oiçam-se as harmonias vocais das quatro em alguns temas) e de permanente bom-gosto. E aqui a tradição não está no passado nem num futuro qualquer, mas num presente mais que perfeito. (9/10)

18 agosto, 2006

June Tabor - N. Sra. da Folk


Comprei há muitos meses a caixa de quatro CDs «Always», de June Tabor, mas só agora tive tempo de a ouvir de seguida e na íntegra, com calma, paixão e disponibilidade mental. E é maravilhoso «assistir», assim, ao longo de mais de 60 canções, ao percurso da maior cantora folk das ilhas britânicas, a solo ou em múltiplas colaborações (com Martin Simpson, com Richard Thompson, com Maddy Prior nas Silly Sisters, com a Oysterband, com os Filarfolket...). Em sua honra, aqui fica a recuperação de uma entrevista publicada no BLITZ em Novembro do ano passado, a propósito da edição do seu álbum «At The Wood's Heart» e da sua vinda ao SET de Aveiro.


JUNE TABOR
O AMOR É UNIVERSAL

Mais do que uma cantora folk, June Tabor é uma cantora de todas as músicas, de canções de todos os tempos e lugares. E dos sentimentos, como o Amor, em «At The Wood's Heart», o seu novo álbum. Esta semana, June Tabor estará em Aveiro. Antes, falou ao BLITZ.

Em discos recentes cantou sobre rosas (em «Rosa Mundi») e sobre cavalos (em «An Echo of Hooves»). Agora, no seu novo álbum, «At The Wood's Heart», canta principalmente sobre o amor. Para si, o amor é mais como uma rosa ou como um cavalo?

Depende, se alguém estiver apaixonado por um cavalo... (risos). Mas, definitivamente, comparo mais o amor a uma rosa. À sua beleza mas também aos espinhos que nos ferem os dedos. A rosa é beleza e é sofrimento, tal como o amor... E «An Echo of Hooves» não era, na realidade, sobre cavalos. Eram contos e canções tradicionais de Inglaterra, Escócia, e muitas dessas canções falam, por coincidência, de cavalos...

Muitas das canções do seu novo álbum foram compostas há séculos. Acredita que o amor é um sentimento que se altera ao longo do tempo - de geração para geração, de século para século - ou nem por isso?

Não acredito que mude. A maneira como sentimos e escrevemos o amor ao longo do tempo tem sido sempre igual. Há quinhentos anos atrás era igual ao que é hoje: esta sensação de alegria, ansiedade, de sofrimento quando as coisas não correm bem. Pode-se falar do amor de maneiras diferentes, mas o sentimento é sempre o mesmo. E também é igual de país para país, de cultura para cultura, de língua para língua... E de pessoa para pessoa. Quando eu estou apaixonada, acredito que todas as pessoas apaixonadas tenham o mesmo sentimento que eu. É universal.

Na capa e no livreto do disco, há fotos de um jardim, anjos, uma imagem de Buda. Mas o álbum não fala só de paz e harmonia...

Não. Na realidade, essas fotos foram tiradas perto da casa em que o álbum foi gravado e são uma maneira de mostrar o lado bom do amor. E há canções no álbum que falam da alegria e da paz que uma pessoa sente quando o amor dá certo. Como diz a primeira canção, «The Banks of the Sweet Primrose»: não desesperes, por muitas nuvens que haja de manhã, o sol está aí e há-de aparecer...

Porque é que incluiu neste álbum algumas canções mais contemporâneas como um tema de Duke Ellington, «Do Nothing 'Til You Hear From Me», ou um do francês Gabriel Yacoub, «Les Choses les Plus Simples»?

Não dou muita importância a de onde vêm as canções. Não têm que ser canções tradicionais... Se contarem uma boa história, se forem boas, se me disserem algo importante, eu canto-as. Podem ser canções de diferentes estilos, podem ter um ano ou quinhentos anos. E, depois, faço-as minhas - porque também passam a fazer parte de mim e dão-me tanto - e transmito-as à minha maneira às pessoas que me ouvem...

Tive exactamente essa sensação quando ouvi a sua interpretação de «Heart Like a Wheel», de Anna McGarrigle. Parece que aquela canção foi feita a pensar na sua voz...

Essa canção começou, de certa maneira, a fazer parte de mim e eu a fazer parte dessa canção. A Anna McGarrigle escreveu «Heart Like a Wheel» muito tempo antes de nós nos conhecermos, mas é uma canção tão forte, sobre o amor, sobre a dor que o amor provoca no coração, que quando eu a ouvi senti-a como minha. É uma canção muito pessoal da Anna, mas senti que houve ali uma transferência...

Há pouco mais de um ano gravou uma versão - com a Oysterband (para o álbum «The Big Session») -, de «Love Will Tear Us Apart», dos Joy Division. Acha que essa canção também encaixaria bem em «At The Wood's Heart»?

Sim, absolutamente. Se não a tivesse gravado nessas sessões [Nota: que juntaram, para além da Oysterband e Tabor, o duo americano The Handsome Family e Jim Moray, entre outros], de certeza que a incluiria neste álbum. É uma canção extraordinária. Há milhões de canções sobre o amor e só algumas que dizem algo que ainda não tinha sido dito antes. «Love Will Tear Us Apart» é uma delas. E sempre que oiço essa canção descubro uma coisa nova...

Neste álbum tocam alguns músicos fantásticos como Martin Simpson [guitarrista que colaborou com June Tabor em álbuns emblemáticos da cantora nos anos 80, como «A Cut Above», «Abyssinians» e «Aqaba»] ou Andy Cutting [em concertina]. É importante estar sempre rodeada pelos melhores músicos?

Oh sim! E tenho tanta sorte por poder trabalhar com estes músicos tão bons... O que eles fazem é tão ou mais importante do que aquilo que eu faço. O seu contributo, o que eles trazem para a minha música, é fundamental. Eu preciso dos melhores para o meu trabalho e tenho os melhores... Não destaco ninguém - porque eles são todos tão bons - mas a maneira como eles se preocupam comigo, o seu modo de me envolverem instrumentalmente, é algo de maravilhoso.

Numa entrevista recente, Martin Simpson disse: «Com June Tabor aprendi a flexibilidade. Quando se trabalha com uma cantora tão boa quanto June, não se fazem perguntas sobre o que ela vai fazer a seguir. Ela tem uma maneira de cantar "desacompanhada" » [desacompanhada no sentido de livre e difícil de acompanhar instrumentalmente]». Concorda com ele?

Sim (risos). É verdade que tenho esse lado do improviso e do imprevisto. Quando começo a cantar, o instrumentista tem, às vezes, que ir atrás de mim. Mas um bom músico acompanhador, e o Martin é um guitarrista que já me acompanhou muitas vezes, pode adivinhar as mudanças que eu vou fazer. Às vezes não é só ouvir, é olhar: posso fazer um movimento quase imperceptível com o peito e ele e os outros músicos que me acompanham percebem o que vou fazer a seguir. É uma grande arte, da parte deles. E são raros os músicos assim...

Este ano editou uma caixa com quatro CDs, «Always». Acha que é uma boa fotografia - ou um bom filme - da sua carreira?

Oh sim! E é importante porque mostra muitas coisas que não estão nos meus álbuns, principalmente as diferentes interpretações de canções em concerto. Os concertos são uma realidade diferente do meu trabalho porque, ao vivo, as canções mudam. A minha interpretação, os músicos envolvidos... E é uma edição que me deixa muito orgulhosa!

Falou agora mesmo da importância dos concertos: o que é que podemos esperar do seu concerto em Aveiro?

Vou cantar algumas canções do novo álbum mas também canções que gravei anteriormente e algumas que não se encontram em disco nenhum. E vão estar comigo alguns dos músicos que gravaram o álbum: Huw Warren no piano, Andy Cutting na concertina, Mark Emerson em violino e viola d'arco e Tim Harries em contrabaixo. Estamos a preparar um alinhamento especial, com algumas coisas inesperadas, especialmente para Portugal.

No passado teve alguns projectos lendários como a sua antiga colaboração com a Oysterband ou o duo Silly Sisters, com Maddy Prior. Há algumas coisas diferentes que queira fazer no futuro?

Gostava de voltar a cantar com um grupo a capella masculino, Coope, Boyes & Simpson, com quem trabalhei uma vez no passado. São um grupo espantoso, de três vozes masculinas, e resultou muito bem. Gostava de fazer mais coisas com eles porque foi uma experiência especial. E gostava de trabalhar novamente com uma orquestra, num projecto que junta canções, poemas e narrativas do sudoeste de Inglaterra. E mais coisas. Ainda tenho tantas coisas para fazer...