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23 abril, 2011

Flamenco, Rumba Catalã, Folk e... Fado Vindos de Espanha


Hoje recupero aqui quatro textos publicados originalmente na Time Out Lisboa, todos a propósito de artistas de vários territórios espanhóis e de diversas áreas musicais: críticas a álbuns da maravilhosa cantora de flamenco Concha Buika, da herdeira do espítito dos L'Ham de Foc, Mara Aranda, e dos rumberos catalães Sabor de Gràcia, para além de uma entrevista com a fadista basca María Berasarte (na foto), que depois da edição deste álbum "Todas Las Horas Son Viejas" passou a integrar o projecto Aduf, de José Salgueiro.

Buika
"El Último Trago"
Casa Limon

Abençoada hispanidade que permite a junção de personagens musicais como estas e deste calibre para a realização de um álbum genial: o produtor espanhol Javier Limón (o mesmo que trabalhou no último álbum de Mariza), a extraordinária cantora de flamenco e não só Concha Buika e o fabuloso pianista cubano Chucho Valdés, mais a sua banda, juntaram-se para um disco de homenagem às canções de Chavela Vargas (a lendária cantora nascida na Costa Rica mas mexicana de alma). E o resultado é absolutamente sublime! Ouve-se este disco e, nele, as canções interpretadas por Chavela – e nem por isso as mais óbvias, faltando aqui “La Llorona”, por exemplo – ganham outras cores e sabores com as rancheras e outros ritmos do México a encontrar o flamenco, a rumba, o tango, o jazz. (*****)


Sabor de Gràcia
"Sabor Pa'Rato"
World Village/Harmonia Mundi

A rumba catalã – que está bem presente na música dos Ojos de Brujo mas também aparece como referência recorrente na música de Manu Chao, Amparanoia ou Macaco – tem nos Sabor de Gràcia uns mais que dignos representantes. Ciganos que homenageiam no seu nome o bairro de Barcelona onde os gitanos mesclaram vários palos do flamenco com a salsa e outros ritmos latino-americanos, os Sabor de Gracìa têm neste seu quarto álbum, "Sabor Pa'Rato", uma abordagem à “tradição” (mesmo que nascida nos anos 50 do Séc. XX) semelhante à que os Oquestrada fazem do fado e das marchas: estão lá o rock, o funk e outras músicas mas também o respeito por ícones como Peret e Gato Pérez e, como convidados, Marina Cañailla (Ojos de Brujo), o brasileiro Wagner Pá ou Los Manolos. (***)


Mara Aranda & Solatge
"Dèria"
Galileo

Durante muitos anos foi uma das metades dos L'Ham de Foc, ao lado de Éfren López, com quem viajou pelas músicas da sua cidade (Valência) mas também de outras sonoridades ibéricas, gregas ou árabes, sempre com a memória da música medieval por trás e os ensinamentos dos Hedningarna e dos Dead Can Dance pela frente. E, com ou sem López, entrou noutras aventuras como os Aman Aman (música espanhola, grega e do resto da baía do Mediterrâneo) ou o Al Andaluz Project (música da Andaluzia da Idade Média, num convívio de géneros cristãos, muçulmanos e judeus). Agora, no álbum de estreia do primeiro projecto de Mara em nome próprio (com os Solatge) tudo isto lá continua, vivo e sempre selvaticamente acústico. É um álbum sisudo mas também há lugar para o divertimento gaiato de um fandango. (****)



María Berasarte
O fado que vem do País Basco


Há alguns, mas não muitos, os álbuns de fado gravados por artistas estrangeiros. Mas raros serão os que têm a qualidade, a ousadia e, ao mesmo tempo, um amor tão grande por este género português quanto "Todas Las Horas Son Viejas", disco de estreia da cantora basca María Berasarte, com produção de José Peixoto e letras originais, em castelhano, de Tiago Torres da Silva. Nele, não há guitarra portuguesa, mas há fados tradicionais de Lisboa em novas roupagens e uma belíssima voz a coroar isto tudo. Carlos do Carmo chama-lhe fadista.

O que é que leva uma rapariga basca a interessar-se por um género como o fado?

A minha mãe é galega e tive sempre uma relação muito estreita com Portugal. E desde há muito que comecei a ouvir fado e a apaixonar-me por esta linguagem, que é belíssima. Também gosto de flamenco, mas este é mais duro; gosto mais das melodias do fado. E, quando comecei a falar sobre o que seria o meu primeiro disco, a minha mãe disse-me “Maria, tens que gravar um disco de fados”. Primeiro, não liguei muito mas... isto ficou a maturar na minha cabeça.

Lembra-se de qual foi o primeiro fado que ouviu ou qual a primeira ou primeiro fadista que ouviu?

Foi a Amália Rodrigues. E coincidiu mais ou menos com uma altura em que a Dulce Pontes estava a ter muito sucesso em Espanha com a “Canção do Mar”. Estamos a falar de há treze anos e, nessa altura, não havia muitos discos de fado em Espanha. Mas eu comecei a comprar todos os que encontrava. E aprendi a cantá-los!

Antes da entrevista começar, disse que não quis fazer um disco de fado tradicional porque já há muitos e muito bem feitos. Este álbum, apesar de ter o fado como base navega também por outras músicas como o tango, o flamenco, a música árabe... Acha que há ligações entre todos estes géneros?

Sim. Principalmente, entre as músicas que nascem em cidades portuárias. Sevilha, onde nasceu o flamenco, foi um porto importantíssimo. Lisboa também; Buenos Aires também... as viagens que as músicas
fazem enriquecem-nas. Mas não houve nenhuma intenção inicial de irmos a essas ou outras músicas. A ideia era: vamos tocar, vamos sentir e aí vamos ver o que acontece... Poderíamos ter ido por um lado como por outros. Mas, sendo espanhola e não sendo fadista, tenho mais liberdade para percorrer esses caminhos...

“Fadista” é um carimbo muito forte...

Sim, eu prefiro dizer que sou cantora; também pela liberdade que me dá. Mas quando o Carlos do Carmo me apresentou (NR: no espectáculo comemorativo dos seus 45 anos de carreira) como uma “fadista espanhola” senti um grande orgulho! E participar nessa festa foi é importantíssimo para mim.

O José Peixoto esteve sempre nas margens do fado – lá perto mas sem lá estar. Com os seus projectos a solo, com os Madredeus, o Sal... Ele era o parceiro perfeito para esta aventura, não era?

Sim, claro. Ele foi importantíssimo em tudo isto. Costumo dizer que foi o pai do disco. Os arranjos, a produção, a sonoridade, o sentimento... E acho que para ele também foi importante, porque acho que foi a primeira vez que trabalhou sobre composições feitas há já muito tempo (NR: todas as músicas do disco são fados tradicionais de Lisboa).

Continuando na “família” que fez este disco, se a mãe é a María, se o pai é o José Peixoto, também há um tio...

Que é o Tiago Torres da Silva. Ele deu-nos muita força para fazermos o disco e arriscou ainda mais do que nós, ao fazer letras originais para aqueles fados, directamente em castelhano. E, ainda mais, a fazer letras pensando em mim. Eu gosto de cantar coisas com que me identifico e ele conseguiu conhecer-me.

O disco está a ser agora editado em Portugal e já foi editado em Espanha. Acha que Espanha já está suficientemente familiarizada com o fado para aceitar um álbum como este e... cantado em espanhol?

Em Espanha há muita gente que conhece e gosta de fado. Mas há muita gente que não percebe as palavras do que se canta. Gosto desta ideia de poder explicar, e em castelhano, do que é que o fado fala.

18 agosto, 2009

Há Mais Jazz em... Sines!


O FMM acabou (acabou mas há-de recomeçar daqui a 11 meses!) e ainda há música veraneante em Sines. Desta vez, com o belíssimo espaço do CAS a ser ocupado pelo jazz nacional - Paula Oliveira (na foto), Afonso Pais, Acácio Salero, El Fad (do guitarrista José Peixoto e do violinista Carlos Zíngaro), Low Budget Research Kitchen (projecto de homenagem a Frank Zappa) e os In Tempus, de Vasco Agostinho - e por iniciativas paralelas. O programa completo:


«Programação Agosto 2009
O Centro de Artes de Sines e a Escola das Artes de Sines recebem, nos dias 21, 22 e 23 de Agosto, o Sines em Jazz 2009, com seis concertos, palestras e workshops.

Sines em Jazz : Concertos


Afonso Pais Trio »
Afonso Pais é um dos mais promissores guitarristas da cena jazz em Portugal, combinando o idioma jazzístico com outras influências, como a MPB e a música erudita.
Auditório do Centro de Artes | 21 de Agosto | 22h00 | 5 euros / noite


Acácio Salero - Secret Apache »
O segundo projecto da noite inaugural do Sines em Jazz foca-se na mistura de música orquestrada com música improvisada, tomando como alicerces o jazz tradicional, o rock e a música contemporânea.
Auditório do Centro de Artes | 21 de Agosto | 23h15 | 5 euros / noite


El Fad »
Com El Fad, José Peixoto junta-se a três grandes músicos portugueses (Carlos Zíngaro, Yuri Daniel e José Salgueiro) para recuperar, num projecto de jazz contemporâneo, os séculos de presença moura na Península Ibérica.
Auditório do Centro de Artes | 22 de Agosto | 22h00 | 5 euros / noite


Low Budget Research Kitchen plays Zappa »
Octeto instrumental dedicado exclusivamente à música de Frank Zappa. A obra deste compositor norte-americano é um caso único na música da segunda metade do séc. XX.
Auditório do Centro de Artes | 22 de Agosto | 23h15 | 5 euros / noite


Paula Oliveira »
Paula Oliveira é uma das maiores referências do jazz vocal em Portugal. Voz quente e melodiosa, canta um jazz completamente seu, escolhendo repertório, na sua maioria, em língua portuguesa.
Auditório do Centro de Artes | 23 de Agosto | 22h00 | 5 euros / noite


In Tempus - Quarteto de Vasco Agostinho »
No quarteto In Tempus, Vasco Agostinho reúne, sob a sua direcção, músicos que partilham com ele a convicção de que, mais do que as linguagens, as estéticas, as tradições ou as modas, a música vive na tradução do íntimo de cada interveniente.
Auditório do Centro de Artes | 23 de Agosto | 23h15 | 5 euros / noite

Sines em Jazz : Iniciativas paralelas


Palestras »
Pensar e debater o jazz em oito palestras com especialistas do género: Luís Lapa, Virgil Mihaiu, Carlos Azevedo, José Duarte e Zé Eduardo.
Escola das Artes de Sines | 21, 22 e 23 de Agosto | Gratuitas, mediante inscrição na Escola das Artes | Org. CM Sines. Parceria Escola das Artes de Sines


Workshops »
Workshop "Fundamentos rítmicos do jazz", com Acácio Salero, e workshop "Técnica de estudo para música improvisada", com Vasco Agostinho.
Escola das Artes de Sines | 21 e 23 de Agosto | Gratuitos para os alunos da Escola das Artes e 5 euros para não alunos | Org. CMS. Parceria Escola das Artes de Sines

Centro de Exposições


FMM: "Caravançarai: 10 de FMM em fotografia" »
Dez fotógrafos que, nas mais diferentes qualidades, acompanharam o FMM Sines ao longo de 10 anos mostram imagens que captam a alma de um festival que é já muito mais do que um evento musical.
11 de Julho - 23 de Agosto | Todos os dias, 14h00-20h00 | Entrada livre

Biblioteca

Biblioteca no Verão »
O principal tesouro da Biblioteca são os seus livros, mas durante os meses de Julho e Agosto há ainda mais motivos para as crianças e as suas famílias a visitarem.
Ver programação no interior

Serviço Educativo e Cultural
O que é o SEC? | O que é o Passaporte do SEC?

Ateliês do Arquivo Histórico Arnaldo Soledade »
Durante os meses de Verão, o Arquivo Histórico Arnaldo Soledade continua aberto e realiza visitas-guiadas para famílias e crianças. Saiba como fazer a sua marcação
Ver detalhes no interior

Verão no Museu de Sines | Casa de Vasco da Gama »
Durante o Verão, as crianças, as famílias e o público em geral podem continuar a desfrutar a Casa de Vasco da Gama e o Museu de Sines em visitas-guiadas e ateliês.
Ver detalhes no interior


Ateliês de Movimento e Dança - Inscrições abertas »
As aulas dos Ateliês de Movimento e Dança do Centro de Artes de Sines terminam no dia 4 de Julho. Ao longo de Julho e Agosto, estão abertas as inscrições para o ano lectivo 2009/2010, que tem início no dia 7 de Setembro.
Ver detalhes no interior

"Do Centro para Dentro", visitas guiadas para grupos ao CAS »
O Centro de Artes tornou-se, por magia, um imenso labirinto que será necessário percorrer. Com a ajuda de um fio mágico iremos encontrar os caminhos perdidos, passagens secretas…
Todo o CAS | Todo o ano | Para toda a comunidade

Torne-se Amigo do CAS»

Mais informações, aqui.

06 novembro, 2008

Grão - Nova Editora Lança Discos de Maria João Quadros e El Fad


Tiago Torres da Silva - reconhecido poeta e letrista que já colaborou com variadíssimos artistas e compositores portugueses e brasileiros - fundou uma editora, a Grão, onde vai lançar projectos próprios ou exteriores ao seu trabalho mas com os quais se sente especialmente identificado. Para já, os primeiros lançamentos da Grão são um originalíssimo álbum da fadista Maria João Quadros, em que ela canta poemas de Tiago Torres da Silva musicados por compositores brasileiros, e um álbum ao vivo do projecto El Fad, do guitarrista José Peixoto (na foto).

«Fado Mulato», de Maria João Quadros, é um álbum único no universo do fado: aqui ela canta poemas de Tiago Torres da Silva (com duas excepções - uma letra de Paulo César Pinheiro e «Gota de Água», com letra e música de Chico Buarque), sobre fados compostos por vários autores brasileiros, nomeadamente Ivan Lins, Zeca Baleiro, Olivia Byington, Pedro Luís (de Pedro Luís e A Parede), Chico César e Francis Hime, entre outros. E neste álbum - que visita os universos do fado mas também os de vários géneros brasileiros, do tango e da música cabo-verdiana - participam como convidados especiais os cantores Tito Paris, Olivia Byington e Francis Hime, Custódio Castelo na guitarra portuguesa e Pedro Jóia e José Peixoto na guitarra clássica.

No projecto El Fad, do guitarrista e compositor José Peixoto - que nos últimos anos tem repartido o seu tempo pelos Madredeus, pelos Sal, por parcerias com Maria João ou Fernando Júdice, entre outros - participam também Carlos Zíngaro (violino), Miguel Leiria Pereira (contrabaixo) e Vicky (bateria). O álbum agora editado, «Vivo», foi gravado em concertos no Auditório Fernando Lopes Graça (Almada), Onda Jazz (Lisboa) e Tambor Q Fala (Seixal), realizados em Dezembro de 2007. O primeiro álbum do projecto El Fad tinha sido editado em 1988 com uma formação completamente diferente em que José Peixoto era acompanhado por Martin Fredebeul (saxofone alto e soprano, flauta e clarinete baixo), Klaus Nymark (trombone), Mário Laginha (piano e sintetizador), Carlos Bica (contrabaixo), José Martins (percussões e sintetizador) e Mário Barreiros (bateria).

24 setembro, 2008

José Mário Branco - Mudar de Vida (em Lisboa)


Falta quase um mês para os dois concertos que José Mário Branco (na foto, de Lia Costa Carvalho) vai dar na Culturgest, em Lisboa - dias 30 e 31 de Outubro - mas nunca é cedo de mais para falar neles: concertos únicos e com alguns convidados especiais, como os Gaiteiros de Lisboa, que com José Mário vão recriar aquilo que já muita gente considera como a sua nova versão do mítico «FMI»: «Mudar de Vida», estreado no Porto o ano passado e aqui apresentado pela primeira vez em Lisboa. O texto de antecipação do espectáculo explica tudo:

«Convidado pela Culturgest para criar um espectáculo único e específico para o Grande Auditório, José Mário Branco fará aquilo que sempre fez nos seus álbuns e espectáculos: uma referência – como alguém escreveu, sempre autobiográfica – ao estado em que, no seu sentir, se encontra a sociedade de que faz parte. Tomando como base o mais recente repertório, José Mário Branco decidiu optar por um formato "em tripé" para os músicos que o acompanharão em palco. Primeiro, um conjunto de músicos, todos eles excelentes intérpretes-compositores que o têm acompanhado nos últimos anos nos momentos cruciais: José Peixoto, Carlos Bica, Rui Júnior, Filipe Raposo ou Guto Lucena, instrumentistas de excepção. Segundo, como no seu álbum mais recente Resistir É Vencer (2004), a presença de um quarteto de cordas (liderado pelo jovem Luís Morais, concertino e professor em Viena) irá reforçar o pendor introspectivo que sempre existe quando José Mário Branco nos fala do mundo e da vida. E, terceiro, os convidados muito especiais deste espectáculo: os Gaiteiros de Lisboa (grupo de que José Mário Branco fez parte na sua primeira fase) irão garantir duas componentes sempre presentes na sua música, as partes corais e as percussões. Este conjunto de músicos permitirá apresentar em Lisboa (pela primeira vez, e talvez única) a canção-rap-fleuve Mudar de Vida, escrita para o concerto de Abril de 2007 na Casa da Música, no Porto. Por isso este concerto se chama Mudar de Vida - 2.

José Mário Branco é um artista do seu tempo e da sua comunidade. E este tempo é de introspecção e de eterna busca, mas também de denúncia ("Isto não é sociedade que se apresente") e de acção ("Vamos mudar de vida!")»

Mais informações, aqui.

12 março, 2008

Uma Casa Portuguesa Com Perfume Escandinavo


Segundo mais uma excelente notícia avançada pelas Crónicas da Terra, a Casa da Música, no Porto, vai acolher um festival - Uma Casa Portuguesa, que decorre de 15 a 18 de Maio - em que junta projectos musicais portugueses com músicos nórdicos, festival inserido na temática alargada deste ano na Casa da Música: Focus Nórdico. Com concertos dos Realejo e de Rão Kyao, nas flautas, com o saxofonista norueguês Karl Seglem (na foto), o guitarrista José Peixoto e o percussionista Ruca Rebordão (dia 15); dos Galandum Galundaina e do quarteto vocal sueco Kraja (dia 16); dos Toques do Caramulo e do duo da fabulosa cantora finlandesa Anna Kaisa-Liedes com Timo Vaananen, no kantele electrificado (dia 17); de Júlio Pereira e do duo de música tradicional dinamarquesa Haugaard & Hoirup (dia 18). Mais informações aqui.

18 outubro, 2006

José Peixoto - Para Além dos Madredeus


Agora que o futuro dos Madredeus está em aberto - a sua agência espanhola, Syntorama, anunciou o final do grupo e o início da carreira a solo de Teresa Salgueiro; Pedro Ayres Magalhães nega o fim mas confirma 2007 como «ano sabático» dedicado aos projectos individuais dos seus integrantes -, recupero aqui duas entrevistas com José Peixoto, o genial guitarrista dos Madredeus e o mais prolífico dos seus músicos, e com os seus dois companheiros nestas aventuras: o igualmente Madredeus Fernando Júdice (com José Peixoto, na foto) no projecto que deu origem ao álbum «Carinhoso» (2002) e a cantora Filipa Pais no duo que produziu «Estrela» (2004). Entre os dois ficou «Aceno» (2003) e, depois disso, o guitarrista também já nos ofereceu «Cacus», em parceria com o violinista Carlos Zíngaro (2005), e «Pele», em parceria com a cantora Maria João (2006).


CARINHOSO
UM CHORINHO (FELIZ)

Dentro de uma viagem podem coabitar muitas viagens. No caso destes dois músicos, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice, as viagens dos Madredeus também lhes serviram para iniciar uma outra, rumo à música de Pixinguinha e de outros chorinhos brasileiros. No regresso a casa, há um disco, «Carinhoso», onde ao lado de vários instrumentais surgem três temas cantados (Maria João, Manuela Azevedo, dos Clã, e Luís Represas são as vozes presentes). Um disco de amor com final feliz.

Como é que dois músicos portugueses se apaixonam pela música de um compositor brasileiro?

Fernando Júdice - Isso acontece um bocado por acaso. E o factor «acaso» é importante na génese deste projecto. O que nós queríamos de início era alguma coisa que nos entretivesse nas nossas viagens, nos tempos livres. Nós vamos ocupando os tempos livres a tocar, nos quartos de hotel...

Não vão para os copos e coisas assim?

José Peixoto - Não, não. Se o fizéssemos não podíamos depois trabalhar de manhã.

F.J. - E temos famílias. A nossa vida é mais virada para o dia do que para a noite, senão quando chegamos a casa o choque é muito grande. E precisávamos de praticar nas guitarras... Depois de muito procurar, sem encontrar nada que nos agradasse, estávamos em S. Paulo, no Brasil, e o Zé apareceu com um livro de chorinhos. Tinha dois do Pixinguinha, mas o resto não era dele. Pegámos em duas músicas ao acaso e começámos a tocar. Um deles chama-se «Chorando em S.Paulo», o que fazia sentido, e imediatamente sentimos empatia com aquela música e que era uma boa matéria-prima. Aquilo dava-nos espaço para imaginar coisas e funcionava bem com os nossos dois instrumentos. No meio do livro estava o «Carinhoso», do Pixinguinha, e isso foi definitivo. O tema bateu de uma maneira! No dia seguinte voltámos à mesma loja e comprámos um livro só com coisas do Pixinguinha. Isto foi o início do processo.

J.P. - A revelação dessa música fez-nos procurar mais coisas dele. Não houve qualquer ideia prévia, do género «vamos tocar Pixinguinha».

Querem falar um pouco da importância do Pixinguinha no contexto da música brasileira? A obra dele, cá, não é muito conhecida...

J.P. - E nós também fomos constatando a sua importância à medida que íamos descobrindo a música dele. O Pixinguinha é uma figura incontornável na música brasileira, sendo considerado por muitos como o pai da música popular brasileira. Antes do Pixinguinha, a composição e orquestração eram muito importadas da Europa ou da América. E o Pixinguinha deu-lhe um carácter regional, brasileiro, que até aí não tinha. Há como que uma divisão temporal - Antes de Pixinguinha e Depois de Pixinguinha.

Pode dizer-se, então, que o Pixinguinha deu «brasileiridade» à música brasileira?

J.P. - Exacto. E ele conjugava esse talento de compositor e orquestrador com o de instrumentista. De tal maneira que influenciou definitivamente muitos outros músicos brasileiros nestas três áreas. Também era muito bom improvisador. Ele sintetizou o choro, a forma do choro, naquilo que ele se tornou, estando também na génese de vários movimentos musicais, como a bossa-nova. Todos foram beber ao Pixinguinha. O Hermeto Pascoal, o Egberto Gismonti... E até um compositor erudito como o Villa-Lobos dizia que o mestre dele era o Pixinguinha.

F.J. - O Villa-Lobos dizia que tinha sido formado na Universidade de Pixinguinha. Ele foi o primeiro brasileiro a levar a música brasileira para fora do Brasil. Com excelentes críticas em França - era para ficar a tocar um mês em Paris, ficou seis.

Vocês encontram algum ponto de contacto entre o chorinho e a música portuguesa, nomeadamente o fado?

F.J - Não, não me parece. Há muitas teorias sobre a génese do fado e há uma, especificamente, sobre as ligações do fado ao Brasil. Mas provavelmente o fado não tem uma origem, tem várias. E não há nenhuma teoria definitiva.

J.P. - Mas talvez essa ligação exista em termos emocionais. A saudade, a tristeza, o fado dos portugueses degredados no Brasil podem ter estado presentes na origem do chorão, que deu origem ao choro e ao chorinho. Só os nomes dizem tudo. Há quem defenda que o choro é uma música negra com uma melodia branca. Pode haver uma raiz comum...

F.J. - Mas se isso existe é dessa forma subliminar. Musicalmente não há uma ligação directa, nem uma derivação directa. A música vem da alma e, a esse nível, pode sempre haver ligações.

No álbum não surgem apenas temas do Pixinguinha. Há dois ou três de outros compositores...

J.P. -- Um é o «Chorando em S.Paulo», porque foi o primeiro que tocámos e se revelou uma música extraordinária. E o outro é o célebre «Tico Tico no Fubá», que apesar de não ser do Pixinguinha, ele gravou em dueto: o Pixinguinha no saxofone e o Lacerda, flautista.

Como é que vocês passaram de «estudos de técnica instrumental» - como referem os vossos press-releases - para uma obra de arte, que é o disco?

F.J. - Foi uma coisa que aconteceu com naturalidade. A nossa ideia não era fazer um disco, mas quando nos centrámos naquelas músicas, começámos a gravá-las, até para referência nossa, quando tínhamos o arranjo de cada música feito. E começámos a gostar daquilo que estávamos a fazer, para além de termos recebido opiniões entusiásticas de amigos nossos a quem nós mostrávamos aquilo. A ideia do disco foi crescendo gradualmente, derivando do resultado do nosso trabalho. A própria ideia dos cantores só surgiu quando já estávamos quase a começar a gravar o álbum...

Porque é que convidaram aqueles cantores e não outros para colaborar? A Maria João trabalhou muitas vezes com o José Peixoto; o Luís Represas e o Fernando Júdice foram colegas nos Trovante durante muitos anos. A Manuela Azevedo é que é uma surpresa.

J.P. - Foi fácil. Como eram três canções, eu escolhi um, o Fernando escolheu outro, e o terceiro escolhíamos os dois. E foram um bocado óbvias as nossas escolhas pessoais, por causa do passado comum da Maria João comigo - apesar de há dez anos não fazer nada com ela - e do Luís Represas com ele. Com a Maria João havia a certeza de que o resultado iria ser bom...

F.J. - E para mim era óbvio que só podia ser a voz do Luís que cabia naquela canção («Lamentos»). Sempre o ouvi cantar música brasileira, como segunda paixão, fora do Trovante.

J.P. - Entretanto, descobrimos que quer eu quer o Fernando éramos grandes admiradores da voz da Manuela Azevedo. Nós não a conhecíamos pessoalmente mas desafiámo-la e ela aceitou. E foi ela que decidiu que ia cantar a música («Carinhoso») em português de Portugal e não do Brasil, ao contrário dos outros dois que cantaram naturalmente em «brasileiro». Achámos um pouco estranho, mas ela fez o primeiro «take» e ficou - estava tão bom que não era preciso dizer mais nada.

Porque é que não convidaram a vossa colega de Madredeus, Teresa Salgueiro? E, já agora, o que é que os outros pensam disto? Acham bem? Acham mal?

F.J. - Não sei se acham bem ou mal, mas naturalmente acham bem.

J.P. - Acham bem, quanto mais não seja porque há um ano e meio que levam connosco nos camarins a tocar estas coisas (risos).

F.J. - A questão da Teresa... A Teresa é uma cantora extraordinária. E é uma pessoa com quem dá um prazer enorme ter a cantar ao lado. Mas isto foi uma coisa feita num contexto perfeitamente marginal ao nosso trabalho nos Madredeus. E quando se pôs a questão dos cantores, já muito tarde neste processo, todo este universo musical estava construído e definido. Quando começámos a falar em cantores, quisemos, quase naturalmente, puxar isto para um contexto exterior ao nosso universo normal de trabalho. Não evitámos a Teresa.

J.P. - Não há nenhuma obrigação, dentro dos Madredeus, de estarmos sempre a trabalhar uns com os outros. E uma das coisas mais gratificantes da actividade artística é podermos descobrir coisas novas e trabalhar com pessoas diferentes. Se temos o privilégio de trabalhar, quase diariamente, com a Teresa, não é uma rejeição não trabalharmos com ela numa coisa destas.

Apesar de já terem tocado com muita gente e passado por estilos diferentes, vocês têm os dois formação de jazz. Como é vocês se sentem num projecto com pauta escrita? Houve algum espaço para a improvisação neste trabalho?

J.P. - Houve espaço para a composição do arranjo. Improvisação não, porque até chegar àquela forma cristalizada já o Pixinguinha devia ter feito todas as improvisações possíveis. Nós tínhamos uma linha melódica e uma cifra, e não nos desviámos disso - tocámos exactamente o que lá estava -, mas com essa criatividade nos arranjos.

F.J. - Apesar de haver uma melodia escrita e uma cifra harmónica, podemos ter um espaço de manobra considerável, que é o tal espaço em que se constrói o arranjo; em que se pode seguir a harmonia que ali está mas também se pode alterar ligeiramente de acordo com a construção do arranjo que vai sendo construído. Tu ouves um disco genuíno de choros brasileiros, e o nosso não se parece nada com eles, porque a linguagem é outra, a instrumentação é outra, a nossa alma é outra. Aquilo surge na nossa cabeça de uma maneira particular.

O José Peixoto também é compositor, o Fernando Júdice - tanto quanto eu sei - não tanto. Porque é que avançaram para um disco de versões em vez de fazer um de originais?

J.P. - Porque os livros que nós comprámos já lá tinham a música escrita. Se estivessem em branco (risos)... Isso tem a ver com a primeira pergunta. Isto tem tudo a ver com o facto de querermos qualquer coisa com que nos entretêssemos a tocar. Nunca nos passou pela cabeça fazermos uma coisa de raiz, de originais. Não era esse o objectivo.

Como é que está a carreira a solo de José Peixoto?

J.P. - Está boa. Em princípio, vou gravar um novo álbum agora. E apesar de ser uma coisa marginal e com pouca visibilidade, enquanto eu tiver saúde vai continuar.

E haverá alguma vez um álbum de Fernando Júdice?

F.J. - Essa é uma questão que não se põe.

Vai haver continuidade para este projecto? Concertos? Um novo disco?

J.P. - Não sabemos. Assim como não pensávamos fazer um disco, também ainda não pensámos o que vai ser o futuro. Não há espectáculos pensados.

F.J. - Vai ser difícil fazermos espectáculos, até pelo tipo de ocupação que nós temos, com os Madredeus. E isto é uma coisa pequena, especial, com pouco reportório...

J.P. - Isto tem um carácter amador. A eventual profissionalização deste projecto iria mudar tudo, mas isso não está no nosso horizonte.



SINTETIZADOR
FILIPA PAIS/JOSÉ PEIXOTO

Trabalharam juntos na Lua Extravagante, cruzaram-se fugazmente no álbum Aceno, encontraram-se agora a tempo inteiro para um álbum completo: «Estrela».

«Estrela» é um álbum de canções compostas por José Peixoto (guitarrista dos Madredeus e dono de uma já considerável discografia a solo) que só precisavam de uma voz. E a escolha do músico recaiu em Filipa Pais (que foi da Lua Extravagante e editou dois álbuns a solo; nos últimos anos também envolvida em espectáculos do grupo de teatro O Bando). Diz Peixoto: «Conhecemo-nos nos concertos e na gravação do disco da Lua Extravagante [início dos anos 90]. E houve logo ali um entendimento que deu pistas para a vontade futura de fazermos qualquer coisa em conjunto. Essa vontade existiu sempre, mas o encontro foi sendo sucessivamente adiado... até que aconteceu», e acrescenta Filipa: «Voltámos a encontrar-nos para o álbum dele, "Aceno", em que canto dois temas... E no final do ano passado começámos a trabalhar neste álbum, "Estrela"».

Pergunto a Peixoto se existiu desde o início da composição destes temas a consciência de que estas seriam canções para uma voz e não instrumentais. Diz que sim: «Tenho logo a noção de quando uma peça é instrumental e quando não é. A própria estrutura melódica conduz-me à forma canção ou não». Já Filipa, diz ela, sentiu-se «muito confortável nestas canções. Aqui estou a cantar num registo mais grave, mais intimista, mas há muito tempo que queria experimentar este registo da minha voz». Pelo meio do processo surge também o poeta João Monge (autor de letras para os Trovante, Ala dos Namorados e Rio Grande), responsável pelos textos cantados em «Estrela» - Filipa conta, arrepiada com a coincidência, que só descobriu depois que vive na mesma casa em que Monge passou a sua infância e juventude.

Outros cúmplices activos no processo foram o produtor Mário Barreiros e os outros músicos participantes: Mário Delgado (guitarra, steel-guitar, sitar eléctrica...), Yuri Daniel (contrabaixo) e Quiné (percussões). Peixoto diz que «já tínhamos trabalhado com todos eles, mas nunca tínhamos estado todos juntos como estamos aqui. E já sabia que trabalhando com eles ia ter boas surpresas. São pessoas criativas, que acrescentaram coisas e optimizaram aquelas canções».

O álbum vive de universos sonoros bastante variados - da música tradicional ao psicadelismo, do jazz à pop, de ambientes de Norte de África ao Brasil... E não é nada fácil «encaixá-lo» em prateleiras ou géneros. José Peixoto diz que não se preocupa muito com isso, «mas é capaz de caber naquele grande saco, lato e abrangente, da world music. Se formos por exclusão de partes, isto não é jazz, não é música tradicional, não é música erudita...». Já Filipa diz, divertida, que chama a esta música «pop cota». E Peixoto acrescenta entre risos que o próximo disco dos dois será o «pós-cota». Outra promessa: as canções do álbum já foram «testadas» ao vivo em showcases nas FNACs e num festival em Castro Verde, mas haverá mais concertos assim que as agendas dos dois - ou dos cinco - o permitirem.