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15 julho, 2010

Batida - Sincretismo Sem Secretismo



Os Batida vão protagonizar, na madrugada de dia 31 de Julho, o concerto de encerramento do FMM de Sines deste ano. É mais que justo: o grupo luso-angolano é uma das maiores revelações musicais dos últimos anos da música que se faz em Lisboa mas que tem as suas raízes em África. Hoje, neste blog, recupero uma entrevista que fiz com eles o ano passado, quando saiu o álbum «Dance Mwangolé», originalmente publicada na «Time Out Lisboa».


As pontes que a Batida faz

Entre Lisboa e Luanda, os Batida gravaram um dos álbuns mais importantes de sempre da música portuguesa e angolana: "Dance Mwangolé". António Pires investigou, junto de DJ Mpula e Ikonoklasta, as coordenadas deste mapa do tesouro onde entram o kuduro, mas não só, e antigas gravações de música angolana.

Apesar de, nas últimas décadas, terem surgido novas expressões musicais em vários países da Europa continental – mercê da modernização de músicas tradicionais através do seu diálogo com géneros modernos, ou de músicas híbridas criadas em zonas essencialmente portuárias, de cruzamento de vários povos e culturas (Lisboa, Barcelona, Paris, Marselha, Istambul, Berlim...) – não nasceu, pelo menos de forma visível, nenhum novo género musical importante ou relevante para a história da música actual. Pelo contrário – e quase sempre tendo como base várias tipologias da música negra, anglo-saxónicas ou não –, Nova Iorque assistiu ao nascimento do hip-hop; Kingston ao do dancehall; Joanesburgo ao do kwaito; Londres ao do grime; Rio de Janeiro ao do baile funk; Luanda ao do kuduro... E o início do mapa Batida fica assim feito. Mas com um acrescento fundamental e o toque que torna este disco o documento histórico que ele realmente é: o mergulho nos arquivos da Valentim de Carvalho, em busca de samples e de bases dadas por antigas gravações de música angolana, velhos sembas e merengues, ritmos dados por reco-recos ou por berimbaus de Cabinda.

DJ Mpula – da Rádio Fazuma e iniciador deste processo todo – e Ikonoklasta – do seminal Conjunto Ngonguenha – são, nesta conversa, os porta-vozes dos Batida. E não, dizem eles, quando todo este processo começou não tiveram consciência da ponte de gerações e do sincretismo quase perfeito de várias músicas angolanas em que "Dance Mwangolé" viria a tornar-se. DJ Mpula diz: “Curiosamente, eu rejeitava a música angolana que os meus pais ouviam, o que acaba por ser normal numa criança ou num adolescente, geralmente mais atraído por coisas como o hip-hop ou o punk...”. Mas, se o respeito que tanto Mpula quanto Ikonoklasta têm por formas mais antigas de música angolana cresceu bastante nos últimos muitos anos, os Batida são a cristalização definitiva desse respeito pelos “cotas”.

Diz Ikonoklasta que “o Conjunto Ngonguenha sempre procurou fazer um hip-hop fortemente personalizado e enraizado na música angolana, logo um hip-hop angolano” (e o álbum “Ngonguenhação”, editado em 2004 era um passo decisivo neste sentido). Anos depois, DJ Mpula e Ikonoklasta (ambos angolanos), Beat Laden (português) e mais uma série de cúmplices – Sacerdote, Roda (no design dos elementos visuais do colectivo), Limão (no vídeo), o remisturador brasileiro DJ Chernobyl, a lenda da música angolana Carlos Burity, os grupos e artistas samplados no disco e ainda “clips” sonoros actuais presentes no documentário paralelo “É Dreda Ser Angolano” fazem a banda-sonora deste surpreendente e fabuloso "Dance Mwangolé".

DJ Mpula faz questão de dizer que “este não é um disco de kuduro! Há lá kuduro, mas há lá também os ritmos antigos e outros mais novos como o kwaito, o kwassa kwassa do Congo, o dancehall, o baile funk, etc... Não andámos à procura da variedade pela variedade, mas entre as “recolhas”, a intervenção nossa e dos MCs, as remisturas, as participações especiais, acabou tudo por ficar assim”.

Um dos momentos mais marcantes do álbum é quando uma voz anónima termina o fortíssimo e hiper-dançável “Bazuka” com a frase, aproximadamente, “Tenho dois estilhaços da guerra. Um aqui e outro na cabeça. Era só isso”. E tanto Mpula como Ikonoklasta dizem que nunca pensaram “em fazer um disco com estas características que não fosse, de certa forma, de intervenção e que não falasse dos problemas de Angola: os resquícios da guerra, a corrupção, etc...”. É que, para completar o ramalhete de "Dance Mwangolé", ainda faltava esta parte!

08 outubro, 2008

Michael Franti & Spearhead - Um Admirável Mergulho nos Mares da Jamaica


Michael Franti - ele que foi o cérebro dos seminais Disposable Heroes of Hiphoprisy - e os seus Spearhead estão de volta com um fabuloso álbum em que o reggae e outras linguagens musicais nascidas na Jamaica têm a parte de leão. É ouvir, as palavras e a música!


Michael Franti & Spearhead
«All Rebel Rockers»
Anti-/Edel

É impossível falar de Michael Franti, o cantor/declamador/músico/compositor, sem falar do homem/poeta/cidadão Michael Franti: um homem que desde os longínquos tempos dos Beatnigs e dos Disposable Heroes of Hiphoprisy - um dos mais influentes, desviantes e originais grupos de hip-hop alguma vez nascidos nos Estados Unidos - faz das suas palavras uma arma ao serviço de causas como a paz no Médio Oriente, a harmonia universal, o anti-capitalismo e o anti-imperialismo norte-americanos, embrulhando tudo, sempre, em poesia de altíssima qualidade (muitas vezes directa, bruta, violenta; de outras sarcástica ou terna ou falsamente ingénua). Mas, agora, ao sexto álbum de Michael Franti com os seus Spearhead também é impossível falar de Michael Franti sem falar da evolução que a sua música sofreu ao longo de pouco mais de duas décadas de carreira: do punk, do industrial e do hip-hop experimental dos primeiros projectos a - já com os Spearhead - à soul, ao funk, à world music, ao reggae... E é ao reggae e a outras formas de música jamaicana (o dub, o dancehall, o ska...) que Michael Franti & Spearhead se atiram de cabeça neste novo álbum, «All Rebel Rockers». A mensagem política continua lá, viva e actual, ainda há lá rock e hip-hop... mas neste álbum também há lugar para umas raras e bem conseguidas canções de amor («All I Want Is You», «I Got Love For You»...) e, acima de tudo!, há lá um sentido dançável, lúdico e quente que é raro na obra de Franti e da sua banda. Gravado em Kingston, na Jamaica, com o apoio da fabulosa dupla de produtores formada pelo baterista Sly Dunbar e o baixista Robbie Shakespeare - só estes nomes chegam para se perceber por onde o álbum anda - e com colaborações de Marie Daulne e também das suas Zap Mama, e da jamaicana Cherine Anderson, «All Rebel Rockers» é ao mesmo tempo uma grande festa e (mais) uma grande manifestação. E com alguns deliciosos "wallies" musicais chamados OutKast e Ben Harper (descubra-os!). (*****)

(Texto originalmente publicado na «Time Out Lisboa» há algumas semanas)

01 outubro, 2008

Cacharolete de Discos - Tango, Hip-Hop Latino e... Bongós!


A música latino-americana - e entenda-se aqui a música latino-americana como um mundo inteiro de músicas, da Argentina a Cuba, passando pelas comunidades imigrantes nos Estados Unidos - já fez muitas viagens. Em críticas a álbuns recentemente publicadas na «Time Out Lisboa» falei dos novos caminhos do tango trilhados pelos argentinos La Camorra Tango, pelo hip-hop de raiz cubana dos Orishas (na foto) e por uma lenda chamada Incredible Bongo Band. Aqui ficam os textos, recuperados da edição em papel.


LA CAMORRA TANGO
«12 POSTALES»
(Galileo/Megamúsica)

Nos últimos anos, o tango - género maior da música argentina e uruguaia - tem ficado mais mais conhecido pelos projectos em que, ao tango, se juntam electrónicas em maior ou menor grau: o Gotan Project, os Bajofondo Tango Club, os Tango Crash, Tanghetto... Mas a verdade é que o tango feito à base de vozes e/ou instrumentos acústicos continua de belíssima saúde, como se pode verificar em nomes como La Chicana, Escalandrum, 34 Puñaladas, Cristobal Repetto ou Adriana Varela. Ou na música deste grupo, La Camorra Tango, em que se reúnem cinco músicos - quase todos eles também compositores dos temas do grupo - de elevadíssima qualidade técnica, mas sem que isso obscureça a emoção avassaladora de que é feita a sua música. E com uma formação «clássica» do tango - guitarra, contrabaixo, violino, piano e bandoneón -, sem recursos a voz nem a electrónicas nem a outros instrumentos, os argentinos La Camorra Tango tocam tango e milongas, sim!, mas aliando-as a muitas outras músicas - o apelo improvisador do jazz, o rock em distorção (mesmo que a distorção seja sempre feita por instrumentos acústicos), um lirismo lindíssimo e por vezes exacerbado, o experimentalismo, a música erudita tratada à maneira do Kronos Quartet -, de um modo orgânico, apaixonado, arrebatador. A influência de Astor Piazzolla na sua música é uma evidência, mas é-o ainda mais porque lhes permite - à semelhança do que acontecia com Piazzolla - levar o tango para paragens distantes sem que deixe de ser tango. (*****)


ORISHAS
«COSITA BUENA»
(Capitol/EMI)

Desde os seus tempos como Amenaza - quando em Havana se atreveram a juntar percussões afro-cubanas ao seu hip-hop -, que os Orishas estabeleceram uma sonoridade originalíssima e muito própria, depois seguida por inúmeros outros grupos, tanto em Cuba como nas comunidades imigrantes cubanas nos Estados Unidos ou noutros países, como a Alemanha (de onde são os Culcha Candela, uma excelente alternativa para quem acha os Orishas demasiado «moles» ou «pop»). E «moles» e «pop» são epítetos que, de vez em quando, até se podem aplicar aos Orishas... Mas faça-se-lhes justiça: eles estiveram sempre na linha da frente da fusão de um género norte-americano - o hip-hop - com músicas locais, de raiz, influenciando decisivamente outros projectos um pouco por todo o lado (e não só os que misturam hip-hop com música latino-americana). No seu novo álbum, «Cosita Buena», o seu quarto de originais, os Orishas não se afastam dessa «missão», continuando a usar as características do hip-hop - o «flow», os beats, o scratch... e até as letras, muitas vezes intervenientes (como em «Maní» e «Que Quede Claro», entre outras) - como desculpa, uma excelente desculpa, para nelas injectarem ritmos como a salsa, o mambo, a rumba, o cha-cha-cha, a guajira ou, no tema «Machete», o reggaeton (género maior que vai ao hip-hop mais duro para o misturar com ritmos locais, à semelhança do dancehall jamaicano, do kwaito sul-africano, do kuduro angolano ou do baile funk brasileiro). Produzido por Tim Latham e masterizado por Tom Coyne, «Cosita Buena» é mais um passo seguro no caminho dos Orishas, que vai agradar novamente aos seus fãs e, eventualmente, desgostar mais uma vez os fãs... dos Culcha Candela. (****)


INCREDIBLE BONGO BAND
«BONGO ROCK»
Mr. Bongo Records/Multidisc

O tema "Apache", na versão da Incredible Bongo Band - e não na original, a dos Shadows - encontra-se na pré-história e na história do hip-hop como um dos temas mais samplados pelos maiores nomes do género (e aparentados) desde a sua pré-história: de Kool Herc, Grandmaster Flash e os Sugarhill Gang a Missy Elliot, Coldcut, Will Smith, Jurassic 5, Run DMC, Beastie Boys, Massive Attack, Moby... O mais engraçado disto tudo é que, durante décadas, pouco se soube sobre a lendária Incredible Bongo Band. Até que a Mr.Bongo Records - editora que deve o nome, em tributo, à banda - veio repor a História no seu lugar e reeditar agora os dois álbuns que fizeram o culto, subterrâneo, da Incredible Bongo Band: «Bongo Rock» e «The Return of The Incredible Bongo Band», ambos editados na primeira metade dos anos 70 e agora reunidos no CD «Bongo Rock». E o que era a Incredible Bongo Band?... Uma ideia, uma ideia de génio, de Michael Viner (na altura A&R da editora MGM), que reuniu uma banda formada por King Herrison (percussionista de mérito - e o tocador dos bongós que dão nome à banda - que tocava com Barbara Streisand e os Jackson 5), Hal Blaine (baterista de sessão com Phil Spector e os Beach Boys, entre muitos outros) e, conta a lenda, Ringo Starr, John Lennon e Harry Nilsson também participaram nas sessões de gravação dos álbuns da Incredible Bongo Band. Álbuns em que o funk, o jazz, a soul, guitarras em distorção, longos duelos de bateria e percussões, especiarias afro e latinas são uma constante quer nas versões de temas de outros - «Apache» (Shadows), «(I Can't Get No) Satisfaction» (Rolling Stones), «Sing Sing Sing» (Louis Prima), «In-A-Gadda-da-Vida» (Iron Butterfly), «Wipe Out» (Surfaris) quer nos originais que se encontram lá pelo meio. Esta reedição também inclui, como bónus bem-vindo, a versão de Grandmaster Flash para «Apache». (*****)

11 fevereiro, 2008

La MC Malcriado e Izé - Entre Cabo Verde e... O Mundo


A diáspora cabo-verdiana é, desde há décadas, um alfobre de excelente música (feita por grupos e artistas de Cabo Verde em França, Holanda, Portugal, Estados Unidos...) e muitas vezes mantendo a pureza das suas raízes. Mas, de outras vezes, fundindo-a com outras músicas, como é o caso desta crew de rappers cabo-verdianos sediados em França, os La MC Malcriado (na foto), colectivo que mistura muitas músicas tradicionais com músicas exteriores e ao qual também pertence Izé, cujo novo álbum a solo apresenta uma fórmula nova e mágica: a mistura de funaná com... kuduro.


LA MC MALCRIADO
«NOS POBREZA KÉ NOS RIKÉZA»
Lusafrica

Cabo-verdianos - ou filhos de cabo-verdianos - baseados em Paris, os La MC Malcriado (noutras grafias: LA MC Malcriado, LA-MC Malcriado ou, simplesmente, MC Malcriado) são um quarteto que mistura, com saber e um imenso amor pelas suas origens, géneros musicais habitualmente associados a Cabo Verde (coladeiras, batuques, funanás, kizombas, etc, etc) com beats de hip-hop, electrónicas, ragga, funk e tudo o mais que lhes venha à mão e que faça sentido nesta música. Nascido em 1998, o colectivo é agora formado por Stomy Bugsy, Jacky Brown (também dos Neg'Marrons), Izé e JP (este também dos 2 Doigts). E no seu álbum «Nos Pobreza Ké Nos Rikéza», a mistura de referências atinge um ponto de perfeição difícil de igualar. Com a participação, entre outros, de nomes grandes da kizomba (como Philippe Monteiro), do funaná (o mítico Zéca di Nha Reinalda) e das divas Cesária Évora e Mayra Andrade, os La MC Malcriado assinam um álbum variadíssimo, quase sempre absolutamente dançável e com uma universalidade - pela mistura perfeita de elementos sonoros tradicionais com elementos «universais» - rara. Muitas vezes politizado (oiça-se a fabulosa homenagem a Amílcar Cabral, último tema do álbum) e cantado em crioulo e francês, «Nos Pobreza Ké Nos Rikéza» é um grandíssimo álbum. (8/10)


IZÉ
«KUNANA SPIRIT»
Lusafrica/Tumbao

Já com dois álbuns a solo em nome próprio anteriores a este «Kunana Spirit» («Double Nationalité» e «Mobilizé»), Izé - um dos quatro La MC Malcriado - chega aqui a uma fórmula sonora novíssima e explosiva: a mistura de funaná com... kuduro!!! E o resultado é um álbum todo ele virado para as pistas de dança, não querendo isto dizer que não possa ser ouvido - e com prazer! - no sofá aqui de casa. E, se bem que andem por lá outras referências musicais (o batuque e a morna de um lado, o hip-hop do outro...), são mesmo os temas em que o acordeão e o «ferro» do funaná se juntam à batida irresistível do kuduro que Izé cumpre a sua missão: a criação de uma nitroglicerina musical em que a tradição cabo-verdiana se mistura com elementos exteriores (o kuduro angolano, que por sua vez já é uma mistura de kizomba, zouk, ragga, hip-hop, kwaito...). Com samples bem metidos (a voz de Lura em «Oh Narina», do falecido Orlando Pantera...) e vários convidados (como JP, seu companheiro nos La MC Malcriado, entre outros), «Kunana Spirit» é um fabuloso exemplo de como se podem fundir, e tão bem!, músicas aparentemente tão distantes entre si. (9/10)

25 setembro, 2007

Os N'Gapas, Ritchaz & Kéke e Kotalume - Novos Sons Africanos na ZDB


A semana passada falou-se aqui de música nascida ou a desenvolver-se em Angola (e também em Cabo Verde, via kizomba). E, há alguns meses, um longo texto publicado neste blog dava conta de muita música mestiça, crioula, cruzada, de fusão que se faz em Lisboa e arredores, em que eram referidos, entre outros, os Buraka Som Sistema, agrupamento em que se juntam músicos, DJs e cantores de várias origens - portuguesa, angolana, indo-moçambicana... - e que está desde há alguns meses a ser o ponta-de-lança da visibilidade de uma nova música feita na capital portuguesa mas com elementos africanos e de actualíssimas músicas anglo-saxónicas (os BSS foram recentemente nomeados para os Prémios MTV Europa, depois de terem tocado por todo esse continente fora). Mas as fusões não começam nem acabam nos nomes referidos nesses dois textos. No próximo sábado, dia 29, na ZDB, Bairro Alto, em Lisboa, apresentam-se mais três projectos de origem africana que fazem da mistura de muitas músicas o seu habitat: Os N'Gapas (quarteto de angolanos que vivem em Monte Abraão, Queluz, e que se dedicam ao kuduro e à tarrachinha); Ritchaz & Kéke (cabo-verdianos, habitantes da Outorela/Portela, estreiam-se na ZDB com uma mistura de kizomba, zouk, hip hop e reggae - na foto, de Marta Pina); e Kotalume (aka Adilson Moreno, também cabo-verdiano, que tanto faz funaná ao jeito dos Ferro Gaita quanto funaná electrónico - pode-se chamar funanhouse??? - ou kizomba). A produção do concerto é da Filho Único, com bilhetes a cinco euros que podem ser comprados antecipadamente na Flur ou, no próprio dia, na ZDB. Mais informações aqui.

19 setembro, 2007

Tarrachinha - A Música Mais Sexy do Mundo (e Outras Músicas de Angola)


A paz em Angola - depois de décadas de guerra (primeiro a guerra contra as tropas portuguesas, depois uma guerra fratricida igualmente sangrenta) - proporcionou o desenvolvimento de variadíssimas e riquíssimas formas musicais e a sua divulgação interna e externa. Não que muita música não se fizesse e gravasse antes - vejam-se as gravações contidas na caixa «Angola», já referida há alguns meses neste blog, ou na recente compilação «Os Reis do Semba», todas feitas durante os anos finais de dominação portuguesa - ou as inúmeras gravações de artistas de kizomba editadas ainda durante a guerra civil. Mas, nos últimos anos, outros géneros foram nascendo e crescendo com uma força imparável: a versão muito própria e angolana do hip-hop e também o kuduro e a tarrachinha. De todos estes estilos, antigos ou modernos, damos conta a seguir.

O espantoso documentário «Mãe Ju» (na foto que encima este texto), realizado por Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves, é um espelho quase perfeito do que é um alfobre de novas músicas - assim como se fosse uma Factory de Manchester transposta para um bairro pobre de Luanda e reconvertida numa espécie de barracão com bola de espelhos incorporada, o botequim da Mãe Ju. Realizado paralelamente à preparação da exposição «Agora Angola» (foto das noivas, ao lado), «Mãe Ju» mostra os fazedores e dançarinos de kuduro e da mais recente tarrachinha no local em que, segundo eles, estas músicas nasceram e se desenvolveram. Nele estão nomes como DJ Znobia, Puto Português, Gata Agressiva, Nacobeta, Come Todas ou Bobani King, nomes de ponta do bem conhecido kuduro mas também da tarrachinha. E o que é a tarrachinha (ou tarraxinha ou tarracha)?... É tão só um kuduro despido de muita da sua carga interventiva, com beats mais lentos e letras de forte carga erótica, mas igualmente electrónico e feito com samples. Mas o resultado é inacreditável: a música é quente, erótica, pulsante; dançada quase como se o casal (homem e mulher) mexessem apenas as ancas, corpo colado ao outro corpo, «roça roça» ou «esfrega esfrega» - nas palavras dos protagonistas - ou, em palavras de escritor, José Eduardo Agualusa, no seu recente e maravilhoso livro «As Mulheres do Meu Pai»: «É uma dança de um erotismo violento. Supera em muito tudo o que vi (e vi bastante) nos bailes funk das favelas cariocas. A moça enrosca-sa ao peito do rapaz, segurando-o pela nuca, e vai-se atarraxando a ele com lentíssimos movimentos dos quadris».

Há letras - e sons! - de tarrachinhas que fariam o «Je T'Aime Moi Non Plus», de Serge Gainsbourg, ou o «I Feel Love», de Donna Summer, parecerem aulas de catequese. E há, percebe-se bem vendo o filme (e ouvindo-se muita da música contida nos discos de que se fala a seguir), que há uma linha invisível que une muitas das músicas angolanas: o semba tem uma continuidade óbvia na kizomba e esta na tarrachinha; o hip-hop à angolana evoluiu naturalmente para o kuduro, na mesma medida em que, noutros locais, o hip-hop influenciou decisivamente o kwaito sul-africano, o baile funk brasileiro ou o reggaeton latino-americano. Na Mãe Ju é possível um kuduro feito ao vivo dar lugar, naturalmente, a uma tarrachinha ou uma kizomba ter como contraponto imediato uma... tarrachinha. E atrevo-me a dizer - embora sem grau absoluto de certeza - que a tarrachinha é o culminar perfeito, a súmula quase completa de todas estas músicas já referidas: do semba e da kizomba pelo lado do calor, do sexo, do contacto. E do hip-hop e do kuduro pela parte «mecânica» de como a tarrachinha é feita. Desses outros géneros, aqui representados por quatro discos recentes e disponíveis em Portugal (via lojas ou sites), fazem-se curtas fichas a seguir:

Na sequência lógica da caixa «Angola» - e com as mesmas estruturas envolvidas (os arquivos da Valentim de Carvalho, a pesquisa da equipa da Difference Music e com distribuição da Som Livre) - surge agora uma maravilhosa colecção de sembas gravados durante os últimos anos de dominação portuguesa. Infelizmente parco em informação de carácter musicológico - tal como já acontecia na caixa «Angola» -, o livreto do disco aponta porém os locais em que o semba (género musical antigo, já referenciado em Angola desde há séculos) resistia a outras músicas, importadas, durante os anos 50 do séc. XX: os musseques, bairros pobres de Luanda, onde o semba era preservado, amado e dançado, evoluindo naturalmente com a chegada de instrumentos novos, eléctricos. Nas gravações presentes em «Os Reis do Semba» - álbum que reúne 50 temas de numerosos grupos e artistas angolanos dos anos 60 e 70 - as guitarras eléctricas e os órgãos competem com percussões acústicas na criação de uma música que faz a ponte entre as músicas tradicionais angolanas com as músicas anglo-saxónicas emergentes, abrindo espaço para a criação posterior da kizomba.

Mais de 50 mil exemplares!!! Foi isso que vendeu a colectânea «O Midjor di Kizomba», editada o ano passado pela Farol - e não se pense que foram só africanos a comprar o disco. Na continuação, o recente «O Midjor di Kizomba 2», a Farol volta a apostar em alguns dos nomes já presentes na primeira compilação e juntou-lhe alguns outros. Artistas angolanos, cabo-verdianos e imigrados na Europa, todos juntos em mais um caldeirão de dança pura, na festa desta música que tem as suas raízes no semba, os ramos no zouk das Antilhas e algumas folhas já a serem «contaminadas» pelo hip-hop ou o R&B. Artistas como Philipe Monteiro, Paulinha, Irmãos Verdades, Roger, Miss S, Isidora, Contu Nobo, Mel, Micas Cabral, Scarlette... E, como bónus, um DVD com mais aulas de como bem dançar kizomba e vídeos de dois dos artistas presentes (Roger e Paulinha).

Banda-sonora de um documentário que ainda aí vem, a colectânea «É Dreda Ser Angolano» (edição da U-hu Fazmisso! Filmes, com o apoio da Rádio Fazuma) contém parte da música captada nas gravações feitas para o documentário em Luanda. O ponto de partida, contam, é o Conjunto Ngonguenha (que aqui dão voz ao tema-título), mas nela estão também muitos outros nomes que protagonizaram o álbum «Ngonguenhação», do Conjunto Ngonguenha, e outros MCs e Djs emblemáticos da cena hip-hop angolana. A lista de participações na compilação é impressionante: Conjunto Ngonguenha, Conductor, Ikonoklasta, Keita Mayanda (os três do Conjunto Ngonguenha), Phay Grand, MCK, Cocas o FSM, Leonardo Wawati, Das Primeiro e Os Turbantes. E, ouvindo-se o álbum (à venda no site da Fazuma pelo preço simbólico de cinco euros), fica a certeza de que o hip-hop em Angola é uma voz livre na luta contra a corrupção e outros males da sociedade e, por outro lado, uma música que, apesar de ser devedora do hip-hop norte-americano, nela estão contidas - em samples, em ritmos, em cadências - muita música local: sembas, kizombas e, obviamente, kuduro (o último tema, d'Os Turbantes, é kuduro puro e duro).

Finalmente, e em «raccord», o último disco deste lote é o CD que reúne os melhores temas de dois discos de Dog Murras - um dos expoentes máximos do kuduro -, editado pela Frikyiwa de Frédéric Galliano, o mesmo que editou «Frédéric Galliano Presents Kuduro Sound System». E «Um Golpe na Obscuridade», assim se chama este álbum de Dog Murras, é uma surpresa para quem poderá ter do kuduro a ideia de esta ser uma música primitiva, simplista, até boçal. Dog Murras é um MC de voz potentíssima, grave e marcante, uma voz que está sempre ao serviço das mensagens fortemente politizadas do cantor. E, na sua música, há inúmeras referências a músicas tradicionais angolanas, batuques a servir de contraponto às programações electrónicas, coros que só poderiam sair de Angola. É um disco extraordinário, para pôr ao lado, nos escaparates da modernidade - de uma modernidade feita de elementos locais e/ou globais -, dos álbuns de M.I.A., dos Konono Nº1, dos Bonde do Rolê e, claro, dos Buraka Som Sistema. A descobrir com urgência.

20 junho, 2007

«FMI» de José Mário Branco - Em Novas Vozes, 25 Anos Depois



Saquei esta notícia ao Pimenta Negra, um dos meus blogs preferidos, pela liberdade de pensamento que se vive ali, pelos textos magníficos que por lá leio (veja-se o fabuloso texto sobre James Joyce), pela sua coragem interventiva. E mesmo que o Pimenta Negra refira, por sua vez, outra fonte, é justo que esta notícia, pelo menos aqui, lhe seja «creditada». E a notícia é: alguns jovens (ou menos jovens) cantores, músicos, DJs e VJs portugueses - Armando Teixeira, Ana Deus, Kalaf, DJ Nel Assassin, Melo D, Sagas, Spaceboys (na foto), Video Jack e Tiago Santos - comemoram os 25 anos da edição do extraordinário, violentíssimo e importantíssimo «FMI», de José Mário Branco, com um espectáculo no Music Box, ao Cais do Sodré, em Lisboa, dia 28 deste mês. Como mestre de cerimónias da iniciativa (intitulada 25º Aniversário do «FMI» - Give Me Some Money) está o jornalista, DJ, editor e músico Rui Miguel Abreu, autor de um texto que enquadra perfeitamente o que antes se passou e o que agora se vai passar:

«“É o internacionalismo monetário,” explicava José Mário Branco na introdução do mítico “FMI”. Na verdade é muito mais do que isso. É um retrato poético e satírico de um Portugal às voltas com a responsabilidade de ser, enfim, livre. “(…) estas coisas já nem querem dizer nada, não é? Ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão(…)” Mas de facto as palavras – como “comunismo” e “fascismo” a que aqueles “ismos” se referiam – eram bem mais do que bolinhas de sabão. Eram uma ferramenta num tempo em que o futuro ainda se construía com ideias. E nesse tempo, a música tinha outro valor, outro peso e outra força. José Mário Branco escreveu “FMI” em 1979, quando muitos sentiam já que Portugal e Abril tinham deixado de rimar, de andar lado a lado. Este foi o período em que a chamada música de intervenção se pode estender para lá das metáforas que desafiavam o lápis azul dos censores. Mas as raízes de José Mário Branco estavam no exílio, onde a sua carreira arrancou, ainda durante a década de 60. Ao longo dos anos, José Mário não se limitou a trabalhar nas suas próprias composições e emprestou o seu talento de arranjador a clássicos de José Afonso, por exemplo. O pós-25 de Abril foi período e terreno de utopias: formou o GAC, trabalhou como actor na Comuna, fez bandas sonoras para filmes e, em 1979, foi expulso do PCP. “FMI” é filho directo de todas essas experiências e muito provavelmente o resultado de uma desilusão crescente. Mas, “FMI” só seria editado em 1982, no fomato maxi single que entretanto se tinha tornado na medida certa de uma outra revolução de palavras que do lado de lá do oceano tomava conta de Nova Iorque e se preparava para conquistar o mundo. Esta forma cadenciada de dizer textos – uns mais inflamados do que outros, naturalmente – tinha raízes fortes nas Américas (Gil Scott-Heron, Isaac Hayes e até Pete Seeger), mas também na França onde José Mário recolheu o seu próprio universo de referências (Leo Ferre…). No ano em que “FMI” foi editado, Portugal andava às voltas com o boom do rock português: os Xutos editavam o clássico “1978-1982” onde um eléctrico “Avé Maria” atentava à moral e aos bons e velhos costumes; os GNR espalhavam as suas “Avarias” pelo segundo lado inteiro de “Independança”; e Portugal, enfim, lá ia inventando a sua própria modernidade, com direito à segunda edição de Vilar de Mouros em Agosto de 82 e tudo. E José Mário Branco? Editava “FMI”, uma espécie de “vómito emotivo” como lhe chamou Nuno Pacheco em 96. Um jorro de emoções que vão da raiva ao lamento, do grito ao sussurro enquanto se pinta um Portugal perdido, às voltas sobre a sua memória e sobre os novos caminhos que se abrem à sua frente. José Mário Branco é mordaz, violento, certeiro nas suas observações, com acompanhamento simples de viola acústica ou flauta para não distrair ninguém do verdadeiro centro desta peça – as palavras. Curiosamente, na sua edição, José Mário Branco proibia a execução pública e radiodifusão deste trabalho, talvez por causa do conteúdo severo das palavras, talvez por achar que a catarse em que tinha investido só podia ser experimentada por uma pessoa de cada vez. 25 anos depois, o mito cresceu, e essas palavras continuam a fazer pleno sentido. Entretanto, uma nova geração de autores, filhos da liberdade de 74, mas também das ideias exportadas do Bronx, também mexe nas palavras para descrever a realidade que nos rodeia a todos. E tal como no “FMI” de 82, também o que se cospe em 2007 não é bonito».

Para saber mais pormenores sobre o 25º Aniversário do «FMI» - Give Me Some Money pode ir ao myspace da iniciativa. Para ouvir e ler o texto completo de «FMI», de José Mário Branco, aconselha-se a visita a este site.

16 maio, 2007

Festival Mestiço - Um Porto Para a World, o Hip-Hop, o Kuduro...



E com este são três posts seguidos dedicados a concertos no Porto (ou a inveja, felizmente saudável, de um «mouro» a falar): segundo adianta o sempre atento Crónicas da Terra, a segunda edição do Festival Mestiço decorre no parque de estacionamento da Casa da Música, dias 7, 8 e 9 de Junho, com um programa variadíssimo e invejável. Ora veja-se só: na primeira noite actuam os turco-austríacos Coup de Bam (que fundem electrónica com música tradicional turca), o francês Sergent Garcia (e a sua «salsamuffin», mistura de rock, reggae e ritmos latino-americanos; na foto) e o alemão Shantel com a sua Bucovina Club Orkestar (música cigana dos Balcãs com electrónicas). Na segunda noite há concertos do fabuloso grupo franco-magrebino Orchestre National de Barbès (fusão de rai, gnawa, funk, jazz...), dos luso-italo-africanos Terrakota (com a sua música global) e de um contingente alargado de hip-hop com Sagas & Family Complow, Ikonoklasta & Amigos e Nigga Poison. Na terceira noite as coisas acalmam um bocadinho com o flamenco-chill dos espanhóis Chambao (liderados pela carismática cantora Mari) e a cantora brasileira Fernanda Abreu, mas promete-se festa rija com os kuduristas angolanos Nacobeta, Puto Português e Gata Agressiva. Mais informações aqui.

19 fevereiro, 2007

África Global - Reggae, Hip-Hop e Rock Ácido na Terra-Mãe


Se o «bom filho à casa torna», o mesmo acontece muitas vezes com a música, em viagens contínuas entre lugares de partida e chegada e partida outra vez. Hoje falo aqui de quatro álbuns, uns mais recentes que outros, quatro excelentes exemplos de músicos e grupos africanos que vão a Ocidente buscar de volta muita da música que um dia partiu de África e a este continente está agora a voltar: K'Naan e o grupo Daara J (na foto) no hip-hop, Tiken Jah Fakoly no reggae e Ba Cissoko na música mandinga mas com os blues e rock ácidos de Jimi Hendrix transpostos para koras acústicas e electrificadas.



BA CISSOKO
«ELECTRIC GRIOT LAND»
Totolo Limited/Megamúsica

O título do álbum não engana e é bem uma prova de que a influência de Jimi Hendrix é assumida claramente por Ba Cissoko e o seu grupo homónimo: «Electric Griot Land», variação sobre o título «Electric Ladyland», de Hendrix. Mas também está lá bem presente a palavra «griot». Um título perfeito para um álbum em que a música mandinga de raiz - e estão lá as koras e os balafons, as cabaças e os djembés em estado puro, e algumas canções tradicionais que os griots passaram de geração em geração, nas vozes - se funde na perfeição com os blues, o rock ácido de Hendrix, o psicadelismo, o dub (em «Adouna»), o hip-hop (K'naan é a voz convidada em «Silani»), o reggae (Tiken Jah Fakoly canta em «Africa» e em «On Veut Se Marier») e híbridos disto tudo com a ajuda do duo feminino franco-camaronês Les Nubians (em «Women [Dounia Guinee]» e em «Tjedo»), e também via guitarras eléctricas e koras em distorção. Um disco variadíssimo, riquíssimo, pulsante de ideias e uma música novíssima que só podia partir de África. Neste caso, da Guiné-Conacri, casa do cantor, compositor e tocador de kora acústica Ba Cissoko (Kemintan Cissoko) e da sua banda, onde pontifica Sekou Kouyaté, na kora electrificada, transformada e distorcida. (9/10)


TIKEN JAH FAKOLY
«TIKEN JAH FAKOLY»
Wrasse Records/Universal Music

Originário da Costa do Marfim, tal como Alpha Blondy, Tiken Jah Fakoly está também a crescer no circuito reggae mundial mercê de uma fusão muitíssimo bem-conseguida deste género jamaicano com músicas africanas de diversas proveniências (oiça-se o belíssimo «Alou Maye», que até tem ecos de fado!, um qualquer fado africano irmão da morna e primo da música mandinga), do norte árabe ao Ocidente dos griots - Fakoly nasceu no seio de uma família de griots -, com passagens pelo ragga e pelo funk. E neste álbum, homónimo (edição para o mercado anglo-saxónico do álbum «Coup de Gueule»), produzido por Tyrone Downie (o ex-teclista dos Wailers de Bob Marley), com a fabulosa secção rítmica formada por Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo), Fakoly dispara mensagens de paz, de solidariedade, de intervenção política (verificar por exemplo em «Quitte Le Pouvoir», endereçado ao presidente Laurent Gbagbo, que mandou assassinar vários amigos de Fakoly), cantadas em francês ou em línguas africanas. No álbum, para além de Sly & Robbie, participam ainda mais uns quantos convidados de luxo, entre jamaicanos e africanos, como U-Roy, Anthony B., o rapper Didier Awadi (dos Positive Black Soul), o griot Saramba Kouyaté e Yaniss Odua (cantor emergente da cena dancehall). Uma festa feita, também, para pensar e agir. (8/10)


DAARA J
«BOOMERANG»
Wrasse Records

O hip-hop é actualmente uma realidade incontornável em todo o continente africano - com grupos, DJs e MCs a nascerem um pouco por todo o lado. Entre eles, os senegaleses Daara J estão na linha da frente com um hip-hop nunca fechado nos parâmetros do género, antes abrindo-o a mil outros géneros musicais. À música africana, claro (e basta ouvir este álbum para perceber a riqueza meódica, rítmica e harmónica que os três Daara J encontram na música da sua terra-mãe), mas também indo a ritmos latino-americanos (como em «Esperanza» (numa electrizante parceria com Sergent Garcia), funk, reggae, música árabe, etc, etc., para desembocar por vezes numa música que só podia vir dali, de África (cf. em «Le Cycle», com a fabulosa cantora Rokia Traoré a dar uma ajuda). Curiosamente, ou talvez não, os Daara J defendem que o hip-hop não é uma invenção recente, norte-americana, mas que o «flow» dos rappers descende directamente de um estilo vocal senegalês, o tasso. Diz Faada Freddy, o líder dos Daara J, que «o "tasso" é a forma original do rap, uma antiga poesia rítmica passada de pais para filhos; uma poesia que fala da realidade envolvente, das condições de vida, da situação do país e das esperanças para o futuro». E o hip-hop faz a sua viagem de volta num «Boomerang». (8/10)


K'NAAN
«THE DUSTY FOOT PHILOSOPHER»
Track & Field Productions/SonyBMG Canada

Quem viu o concerto de K'Naan, o ano passado, em Sines, sabe perfeitamente do que se fala aqui: de um rapper inteligentíssimo, com uma escrita fabulosa, um «flow» pessoalíssimo, uma ideia de hip-hop que está nos antípodas daquilo que algum hip-hop norte-americano (e outros) tem de pior na actualidade: a promoção da violência, de hábitos luxuosos, de ideias machistas... Oiçam-se os tambores de água e a voz feminina em «Wash It Down», o ritmo imparável e irresistível das percussões africanas e das vozes (que fazem por vezes lembrar os cantos tuaregues) em «Soobax», a crítica directa ao gangsta-rap em «What's Hardcore», a irreverência quasi-pop de «I Was Stabbed by Satan» (que faz lembrar... Beck), as guitarras eléctricas incendiárias do fabuloso tema rock «If Rap Gets Jealous», o gnawa de «Hoobaale», os arranjos sempre diversos e sempre inventivos presentes neste álbum e perceber-se-á que K'Naan é um dos mais excitantes e originais cantores e compositores da actualidade. Nascido em Mogadíscio, na Somália, mas radicado no Canadá, com parcerias com gente tão diferente quanto Tricky, Zap Mama, Youssou N'Dour, Mos Def ou Damian Marley, com uma visão do mundo fortemente engajada em ideais de justiça e desenvolvimento para o seu país de origem e a África em geral, K'Naan faz a ponte perfeita entre o hip-hop, a música africana, muitas outras músicas e uma música ainda por vir. (10/10)

07 julho, 2006

Cacharolete de Discos


Ainda à boleia de Lila Downs, aqui ficam algumas críticas de discos («La Cantina», o mais recente de Lila Downs, e também La Chicana - na foto -, Emmanuel Jal & Abdel Gadir Salim, Cheikh Lô e os irlandeses Clannad) publicadas originalmente no BLITZ há alguns meses...

LILA DOWNS
«LA CANTINA»
Narada/EMI

Belas canções rancheras mexicanas, entre a alegria e a tristeza. Só a electricidade está a mais.

O novo álbum da cantora e compositora mexicana Lila Downs, «La Cantina – Entre Copa y Copa...», é um excelente exemplo daquilo que a chamada world music tem de melhor e, em alguns temas (felizmente poucos), de pior. Logo a abrir, «La Cumbia del Mole», é uma canção alegre e lindíssima, que fala de culinária (!), com cavaquinhos e acordeão, mas lá para a frente há um solo de guitarra eléctrica à la Carlos Santana que só estraga o conjunto. Mas o álbum continua bem, sempre bem. Há uma canção sobre casas de alterne na fronteira do México com os Estados Unidos (entre o disco-sound e o cajun), outra – lindíssima - sobre as feiticeiras índias («Agua de Rosas») e muitas versões de temas de José Alfredo Jiménez, um dos mitos da canção ranchera dos anos 50. Canção ranchera que fala de amores fatais e muito álcool (tequilla, pois...) e que está, muitas vezes, próxima – pelo menos aqui, nas versões de Lila Downs – da música árabe, do son cubano, do fado, do flamenco, da morna. Mesmo que, lá pelo meio, se enfiem a espaços, momentos de voz com flow de hip-hop, o clarinete klezmer de Paul Cohen (marido de Lila Downs) ou uma pulsão de baixo funk. O pior, sempre que aparecem, são mesmo os solos de guitarra eléctrica. Principalmente porque aquilo resulta sempre melhor quando está mais próximo da «verdade», como no tema mariachi «El Relámpago» ou num espantoso tema interpretado a capella por Lila Downs e os seus músicos (aqui só em voz, claro), «Yo Ya Me Voy» (uma canção polifónica que faz, estranhamente, lembrar o cante alentejano e os cantos polifónicos da Córsega). (8/10)

EMMANUEL JAL & ABDEL GADIR SALIM
«CEASEFIRE»
Riverboat/World Music Network/Megamúsica

A música nunca fez a paz. Mas pode contribuir decisivamente para que ela aconteça...

Há muitos exemplos: a editora israelita Magda, que reúne artistas judeus e muçulmanos; o respeito e amor que o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan sentia na Índia; o Festival au Desert, que reúne etnias anteriormente desavindas do Mali, etc, etc... E ouvir um álbum como «Ceasefire» (o título - «cessar fogo» - diz tudo!), colaboração entre o rapper do norte do Sudão Emmanuel Jal (que foi guerrilheiro quando era adolescente) e o respeitadíssimo Abdel Gadir Salim, cantor, compositor e tocador de oud, originário do sul do Sudão, é arrepiante: é ouvir o diálogo entre os dois lados até há pouco tempo em guerra, o choque entre o passado e o futuro, a África negra e o norte do país (árabe), a música tradicional e as electrónicas ocidentais, com o hip-hop bem presente. Paz! (8/10)


LA CHICANA
«CANCIÓN LLORADA»
Galileo/Megamúsica

Grupo argentino leva o tango para todo o lado.

Às vezes há surpresas destas: um grupo argentino com dois ou três álbuns editados no seu país, começa agora a lançar-se na Europa reunindo muitos dos temas do seus dois primeiros discos (Ayer Hoy era Mañana e Un Giro Extraño) num único álbum, Canción Llorada, juntando-lhe ainda alguns inéditos, uma versão de um tema de Tom Waits («Frank’s Wild Years» aqui rebaptizado «Los Años de Joda de Aníbal»), convida o extraordinário acordeonista Chango Spasiuk para lhes dar uma mãozinha fugaz e... surpreendem-nos com um álbum onde há tango, sim, do melhor tango, mas também valsas, milongas, chamames (olá Spasiuk), cheirinhos a Brasil (com um forró delicioso), África (andam kissanges em «Imposible») e Portugal – a guitarra portuguesa surge várias vezes nas mãos de Acho Estol (o principal compositor do grupo). Há sangue e risos, lágrimas e dança. E a voz fabulosa de Dolores Solá. (8/10)


CHEIKH LÔ
«LAMP FALL»
World Circuit/Megamúsica

Cantor senegalês em viagem pelo mundo.

Cheikh Lô – cantor senegalês (de pais senegaleses e radicado há muitos anos no Senegal, apesar de ter nascido no Burkina-Faso) que se deu a conhecer, em meados dos anos 90, com uma curiosa e atraente fusão de mbalax, funk, reggae e soukou – está de regresso, ao fim de cinco anos sem nenhum disco de originais editado, com um novo álbum em que as fronteiras da sua música são ainda mais alargadas. Em «Lamp Fall» há lugar para o jazz-funk de sabor afro e com uma fabulosa talking-drum a pairar lá atrás (o tema-título) e aproximações às baterias de samba (no absolutamente dançável «Sénégal-Brésil»), à música árabe («Zikroulah») ou às guajiras, sem deixar de lado um reggae fresquinho fresquinho (cf. em «Bamba Mô Woor»), o mbalax ou a repescagem das rumbas que fizeram parte da sua escola musical na juventude. (7/10)


CLANNAD
«LIVE IN CONCERT»
MDM/Keltia Musique/Megamúsica

Música irlandesa «light» e ao vivo.

O segredo do sucesso dos Clannad (como, de certa maneira, do sucesso de Enya, que é irmã de Maire e Ciaran Brennan e passou em tempos pelos Clannad) é também o motivo de menor aceitação da música da banda por parte de muitos dos «puristas» da música irlandesa: a fusão da música tradicional irlandesa («céltica», se se quiser usar o palavrão) com outros géneros mais ou menos nobres (aos olhos dos puristas do «celtismo»): o jazz, o rock, a pop, a - vileza maior entre as maiores - a new age. Certo: é verdade que os Clannad estragam muitas vezes a sua música (ou os temas tradicionais que levam para o reportório) adicionando saxofones, guitarras eléctricas, vozes convidadas assustadoras (neste álbum ao vivo, gravado em 1996, um tal Brian Kennedy substitui mal Bono no dueto com Maire Brennan de «In a Lifetime») e carpetes de sintetizadores cheios de azeite. E que são capazes de estuchas de rock sinfónico/medieval/foleiro como o «Robin of Sherwood Medley» que está neste álbum. Mas também é verdade que há momentos que ainda dão um arrepio na espinha (como as harmonias vocais do tradicional «Dulaman»ou, apesar da tal alcatifa de sintetizadores, «Theme From Harry's Game» - a canção que serviu de prefácio, no início dos anos 80, a muitos concertos dos U2). Se os Clannad servirem para que, através deles, se conheçam os Chieftains e a boa música irlandesa, já valeram a pena. (6/10)