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10 dezembro, 2010

Ricardo Rocha - Um Prémio e... Um Tributo


A notícia já tem umas semanas, mas serve de mote possível ao que vem a seguir: Ricardo Rocha foi o vencedor do Prémio Carlos Paredes 2010, atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, pelo seu último álbum, "Luminismo". Um prémio mais que apropriado e que me serve de justificação para recuperar aqui a crítica a esse disco e a entrevista que fiz com Ricardo Rocha a propósito deste álbum desviante, revolucionário e, por isso mesmo, absolutamente sedutor. Os textos originais foram publicados na revista "Time Out".


Ricardo Rocha
"Luminismo"
Mbari Música

Num ano (2009) de excelente produção discográfica portuguesa, o prémio de álbum mais surpreendente (e, de certa forma, também o mais marado) de todos vai, sem dúvida, para Ricardo Rocha. Mestre, embora relutante, da guitarra portuguesa, Ricardo Rocha editou o histórico "Voluptuária" em 2003, seguindo-se "Tributo à Guitarra Portuguesa" – em que visita os grandes guitarristas do fado de Lisboa. Agora, no duplo-álbum "Luminismo" faz os seus originais viajarem pelo fado, a folk livre à maneira de John Fahey/Norberto Lobo ou o serialismo e apresenta versões pessoais de temas de Carlos Paredes (oiça-se “Canto do Trabalho” em speed-metal!), Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral. O segundo CD, ainda mais surpreendente!, são temas dele compostos para... piano, interpretados por Ingeborg Baldaszt. *****


Entrevista
Eu Tenho Dois Amores...

Que em nada são iguais: um é a guitarra portuguesa mas é o piano que amo mais. Nesta conversa com António Pires, Ricardo Rocha assume a bigamia.

A letra da célebre canção de Marco Paulo, embora aparentemente desajustada neste contexto, pode aplicar-se na perfeição a Ricardo Rocha, um génio da guitarra portuguesa mas igualmente perdido de amores pelo piano. No seu novo álbum, "Luminismo", o CD1 inclui originais e versões de temas de Artur Paredes, Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral, interpretadas por ele na guitarra portuguesa, enquanto o CD2 inclui peças para piano compostas por ele e tocadas por Ingeborg Baldaszti.

Há um pequeno pormenor neste novo álbum, "Luminismo", que não existe nos outros dois que gravaste, "Voluptuária" e "Tributo à Guitarra Portuguesa": ouve-se a tua respiração, como se ouvia a respiração do Carlos Paredes nos discos dele.

E também se ouve a minha voz (como acontecia com o pianista Glenn Gould).

Mas isso leva-me a uma questão de que falaste há alguns anos noutra entrevista: a dificuldade que é, para ti, tocar guitarra portuguesa.

Sim, continua a ser doloroso. E quanto mais dificuldade técnica tiver a peça, mais esforço físico está implícito.

No "Voluptuária" tinhas, para além de inúmeros originais, versões de Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral. Neste repetes estes dois nomes mas também tens um tema de Artur Paredes (pai de Carlos Paredes).

Fiz uma adaptação – não gosto da palavra “arranjo” - de uma peça dele, “Passatempo”, que é muito bonita e que é fantástica para abordar a solo dentro de um esquema muito clássico, o que é interessante.

A referência a estes três nomes – os Paredes e Caldeira Cabral – leva-nos a outra questão inevitável: há pouquíssimos compositores para guitarra portuguesa a solo. São eles e poucos mais e, numa geração muito mais nova, existes tu. Achas que há preguiça ou falta de vontade dos outros guitarristas?

Não, não acho que seja preguiça ou falta de vontade. A guitarra está é tão associada a um género musical específico, o fado, que não são duas ou três pessoas que a conseguem resgatar ao seu papel de instrumento de acompanhamento (da voz). Eu sozinho não consigo. O Carlos Paredes não conseguiu, o Pedro não conseguiu, eu não irei conseguir...

Mas isso já aconteceu noutros géneros musicais: o bandoneón foi resgatado ao tango, a kora está agora a ser assumida como um instrumento solista...

Mas o bandoneón teve o Piazzolla, com uma projecção internacional fortíssima... Em Portugal, a guitarra portuguesa só há poucos anos entrou no meio académico, em alguns Conservatórios. Estas iniciativas são saudáveis. E talvez, por causa disso, daqui por dez, quinze anos, poderá vir a dar frutos e possamos vir a ter solistas e compositores para guitarra portuguesa.

Falando dos teus temas originais no novo disco, aquilo que sinto é que, embora havendo aqui e ali umas alusões ao fado, há ali muitas outras coisas: o serialismo, a música minimal-repetitiva, a influência da guitarra clássica aplicada à free-folk...

Não acho que aquilo que faço seja original. Acho é que se está a ouvir pela primeira vez uma guitarra portuguesa fora do contexto que é esperado. A surpresa para as pessoas é “estou a ouvir uma música que reconheço mas os sons são emitidos por um instrumento diferente daqueles a que estou habituado”. E de fado não tem nada. Só, talvez, por ser o instrumento que é. Uma coisa de que tenho a certeza é a de que, se não tocasse piano – e toco mal piano -, e se não conhecesse o seu reportório, não comporia para guitarra portuguesa como componho. A minha visão e abordagem racional da música, vinda do piano, é muitas vezes transposta para a guitarra. Adoro o piano.

Concordarias comigo se dissesse que a guitarra portuguesa é a tua mulher e o piano é a tua amante?

(risos) Essa é uma visão engraçada. Mas, sim, pode ser encarado dessa forma. E isto, com o máximo respeito para as mulheres.

Este álbum é duplo e, surpreendentemente, o segundo CD tem peças tuas compostas para piano. Foi uma maneira de mostrar que há vários Ricardos Rocha no Ricardo Rocha?

Não. E quase aconteceu por acaso. Fui convidado para tocar num programa, extraordinário, do António Victorino d'Almeida que passou há dois anos na televisão mas que ninguém viu – aquilo era transmitido às duas da manhã! E nesse programa conheci a Ingeborg, que é uma pianista absolutamente genial. Isso inspirou-me a compor algumas novas peças a pensar nela como intérprete, às quais juntei três que já tinha composto antes. Na editora, quando ouviram o piano, perguntaram-me se era eu a tocar. Eu? Quem me dera tocar assim!

21 novembro, 2007

Norberto Lobo, Pedro Jóia, Ricardo Parreira e Fernando Alvim - A Nossa Alma nas Cordas das Guitarras


Abençoado país este - e digo-o sem ponta nenhuma de nacionalismo serôdio e passadista - que estas músicas e estas emoções e estas guitarras tem (e que tem numa conjugação improvável: três guitarras acústicas «contra» uma guitarra portuguesa, mesmo que as acústicas às portuguesas vão beber a sua inspiração)! É tão bom ouvir estes discos que, entre versões (muitas) e originais (alguns) estão cheios de grande música. Música portuguesa, da melhor que alguma vez se ouviu ou re-ouviu: Pedro Jóia em tributo a Armandinho; Ricardo Parreira e Fernando Alvim em homenagem a Carlos Paredes e a outros guitarristas; e Norberto Lobo (na foto) a fazer de Carlos Paredes as pontes para muitas outras músicas.


PEDRO JÓIA
«À ESPERA DE ARMANDINHO»
HM Música

Ouvir «À Espera de Armandinho», de Pedro Jóia, é, só!, ouvir-se uma das mais belas homenagens que um músico pode fazer a outro músico (e compositor) seu antecessor. O álbum ouve-se e lá vai ele, fluindo, fluindo, entrando nos ouvidos como faca quente em manteiga. É tão bonita esta homenagem, em que um jovem músico presta tributo e vassalagem a Armandinho (Armando Freire Salgado, um dos mais importantes compositores para guitarra portuguesa e para fado de Lisboa da primeira metade do séc. XX). Neste álbum, todas as composições são de Armandinho (à excepção de «Maldito Fado», de Camané), transpostas, adaptadas, revivificadas para guitarra clássica - e não guitarra portuguesa, apesar de muitas vezes, ao ouvir-se «À Espera de Armandinho», não nos apercebermos da diferença entre os dois instrumentos (oiça-se «Fado Conde da Anadia», por exemplo), tal é o brilho transmitido às cordas da guitarra - por Pedro Jóia com um amor, uma sabedoria, uma execução técnica e uma alma ímpares. Nada que espante: Jóia é um dos melhores guitarristas portugueses, com escola feita no flamenco (o flamenco que por vezes ainda o assombra aqui, e bem, nomeadamente em «Variações em Lá menor II»), nos últimos anos residente no Brasil (onde tem feito parte da selecta banda acompanhante de Ney Matogrosso e onde «desenhou» este álbum) e o autor de outro fabuloso álbum de homenagem a outro mestre da guitarra portuguesa, este de Coimbra, Carlos Paredes (no álbum «Variações sobre Carlos Paredes»). E, se é bonito ter amor e respeito pela arte que ficou para trás, ainda é mais bonito tê-lo desta maneira, quando o amor e o respeito se conjugam com um brilhantismo enorme. (9/10)


RICARDO PARREIRA/FERNANDO ALVIM
«NAS VEIAS DE UMA GUITARRA»
HM Música

«E, se é bonito ter amor e respeito pela arte que ficou para trás...», escrevia-se aqui em cima e continua a escrever-se aqui, a propósito de outro álbum lindíssimo, este de um jovem executante de guitarra portuguesa, Ricardo Parreira, que fez uma viagem semelhante à de Jóia há alguns anos: ir em busca da música de Carlos Paredes - e de outros mestres da guitarra portuguesa como... Armandinho - e transportá-la para a actualidade: foi um risco enorme, assumido sem medos por um «miúdo» que, para além da diferença de (várias) gerações em relação aos compositores tinha outro «impedimento» em cima: a sua escola é a guitarra portuguesa de Lisboa e não a de Coimbra, de onde provém a maior parte do reportório do álbum «Nas Veias de Uma Guitarra». Mas o risco foi ultrapassado e o resultado, se não é sempre brilhante, é pelo menos mais uma grande prova de amor. A Carlos Paredes e a... Fernando Alvim, o homem da viola que acompanhou Paredes durante os seus anos de maior produção discográfica e que aqui acompanha - em belíssima forma apesar da sua avançada idade - Parreira, dando assim a sua bênção a esta aventura que tem, muito justamente, o sub-título de «Homenagem a Fernando Alvim». No álbum há composições de Artur Paredes (uma), Carlos Paredes (cinco), Afonso Correia Leite (uma), Armandinho (uma), José Nunes (duas), Francisco Carvalhinho (uma) e do homenageado Fernando Alvim (uma). E o resultado é, quase sempre, um encantamento permanente pela forma como um discípulo ouve (e interage!) com os seus mestres. (8/10)


NORBERTO LOBO
«MUDAR DE BINA»
BorLand

Diga-se desde já, e para não haver confusões, que «Mudar de Bina», o primeiro álbum a solo de Norberto Lobo (membro dos Norman e dos Munchen), é para mim o melhor álbum português deste ano e, se lhe quiser puxar mais um bocadinho pelo lustro (mais que merecido!), o melhor álbum português de muitos dos últimos anos. E digo-o em plena consciência das minhas faculdades mentais, podendo jurar por ele em tribunal. «Mudar de Bina» é um álbum simples - e simples na mesma acepção de «Uma História Simples» de David Lynch - e quase fácil e estupidamente explicável numa crítica discográfica: em «Mudar de Bina» há uma guitarra acústica, a de Norberto Lobo, sempre, uma guitarra acústica em que há ecos de Carlos Paredes (não muitos mas os suficientes para que o título do álbum e outras coisas lá dentro façam sentido), Nick Drake, John Fahey, Leonard Cohen, Sérgio Godinho, The Beatles, Neil Young (fase «Harvest»), Papa M (e outros da pandilha alt-country e/ou rock indie lo-fi e/ou neo-folk), Django Reinhardt, Bert Jansch... Isto é, os melhores ecos que um guitarrista poderia ter! E o tema «Mudar de Bina» - «bina» é petit-nom para bicicleta - é apenas vagamente inspirado em «Mudar de Vida», de Carlos Paredes, enquanto a versão aqui presente do próprio «Mudar de Vida» é uma declaração de amor, uma coisa linda e viva e frágil e bela, que leva o tema do mestre da guitarra portuguesa para o Oriente e para uma country marada e para a estratosfera... Num álbum constituído na sua maioria por originais ainda há lugar, para além de «Mudar de Vida», de Paredes, para dois temas tradicionais - «Cantiga da Ceifa» e «Ó Ribeira» - tocados, obviamente, de forma não tradicional, mas a fazer pontes entre a música alentejana (se se preferir, a música portuguesa), o flamenco e a música árabe... E ao longo do álbum há imperfeições, falhas, notas ao lado mas que soam tão bem, assim como soam bem o «corta» e o contrabaixo do primeiro tema, o canto dos pássaros e o som dos automóveis lá mais para a frente. E há uma slide-guitar - tocada a faca afiada??? - a encher de dissonâncias os blues do fabuloso «Jogo do Bicho». E há uma guitarra free em «Festa do Fim da Folque» (sim, o título é irónico) e há uma luz imensa no matinal e lindíssimo «Laura» (marcado pelo cantar de galos e por sinos e por uma música que nunca antes se tinha ouvido - apesar das alusões a Penguin Cafe Orchestra e... ao «Natal dos Simples» de José Afonso? - ou, pelo menos, que nunca antes se tinha ouvido desta maneira até aqui). É uma maravilha, este álbum! (10/10)

02 janeiro, 2007

Dossier Guitarra Portuguesa - 5º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


ECOS DISTANTES

De onde vem a guitarra que viria a chamar-se portuguesa?... Da cítara? Da cítola medieval (na foto)? Da guitarra inglesa? Da guitarra mourisca?... As origens de um dos mais antigos cordofones nacionais em tentativa de explicação.

E mais perguntas... Há uma guitarra portuguesa? Não, há pelo menos três (as de Lisboa, Coimbra e Porto, cada uma com as suas características próprias). E o instrumento é de origem portuguesa? Também não, embora tenha sido aqui que tenha tomado a(s) forma(s) que actualmente lhe(s) conhecemos no último século e meio. E é só tocada em Portugal? Agora sim, mas no século XIX era ainda popular, com outros nomes, em vários países. E mais perguntas e respostas, recolhidas em vários sítios de internet (principalmente no imprescindível at-tambur.com) e livros consultados, e aqui apresentadas em jeito de «digest» para principiantes...

Segundo José Lúcio (construtor de cordofones e investigador), em Portugal «a palavra guitarra deve ser unicamente aplicada à guitarra portuguesa (Porto, Lisboa e Coimbra) e a palavra viola a um outro instrumento, com uma caixa acústica em forma de oito.... Em vez de "Guitarra Clássica" devia ser Viola Dedilhada, para não confundir com a Viola de Arco, ou simplesmente Violão. A palavra Violão é de grande utilidade para distinguir o instrumento de 6 cordas, das violas de arame portuguesas (Amarantina, Braguesa, Toeira, Beiroa, Campaniça, Arame da Madeira, da Terra, S.Miguel, Açores, e de 15 e 18 cordas da Terceira, Açores)».

E quais são as principais diferenças entre as guitarras de Lisboa, Coimbra e Porto?... Ainda segundo José Lúcio, «a Guitarra do Porto, com uma caixa acústica de menor dimensão e uma "voluta" terminando em cabeça humana de animal ou flor; a Guitarra de Lisboa, com uma maior caixa de ressonância e uma voluta em caracol; e finalmente a escola de Coimbra, com uma escala maior, afinando um tom abaixo da de Lisboa e voluta em lágrima. A escola do Porto, que fabricava Guitarras mais pequenas, perdeu adeptos e está praticamente extinta, só se fabricando por encomenda».

Actualmente, o uso de instrumentos semelhantes à guitarra portuguesa caiu em desuso noutros países, mas no séc. XIX não era assim. Segundo Pedro Caldeira Cabral (músico, compositor e estudioso de instrumentos antigos), «o instrumento a que damos hoje o nome de Guitarra Portuguesa foi conhecido até ao século XIX em toda a Europa sob os nomes de Cítara (Portugal e Espanha), Cetra (Itália e Córsega), Cistre (França), Cittern (Ilhas Britânicas), Cister e Zittern (Alemanha e Países Baixos)».

A guitarra portuguesa poderá ter origem árabe?... Parece que não. Segundo Ernesto Veiga de Oliveira (musicólogo já falecido), «tal orientação funda-se em geral, sem crítica, na razão meramente verbal de uma suposta equiparação do nosso instrumento actual à velha "guitarra mourisca" ou "sarracenica", e no facto da sua associação ao fado, a que essas mesmas orientações atribuem também, por via de regra, origens árabes... A "guitarra mourisca" está na origem de uma linhagem instrumental completamente diferente - as mandolas e mandolinas -, e que a associação da actual guitarra ao fado é um fenómeno muito recente».

Qual é então a origem remota da guitarra portuguesa?... Diz Manuel Portugal (guitarrista) que «etimologicamente, a designação de Guitarra advém do vocábulo grego Kythara, que mais tarde os latinos converteram em Cithara. Conta uma lenda que este nome provém de Cyterón, o nome de uma montanha situada algures entre a Beócia e a Ática. Mas há quem, discordando desta opinião, defenda que deriva sim de Cythara, o antigo nome da ilha grega Cerigo, a qual era considerada como o paraíso da poesia e do amor, e na qual existia um templo dedicado a Vénus».

Pedro Caldeira Cabral defende que a guitarra portuguesa tem como origem directa «a Cítara europeia do Renascimento, por sua vez filiada na Cítola Medieval, a actual Guitarra Portuguesa sofreu importantes modificações técnicas no último século (nas dimensões, no sistema mecânico de afinação, etc.), tendo no entanto conservado a afinação peculiar das cítaras, igual número de cordas e a técnica de dedilho própria deste género de instrumentos. Em Portugal, o seu uso está documentado desde o século XIII (Cítola), nas mãos de trovadores e menestréis, e no século XVI (Cítara), estando de início confinado aos círculos da côrte, terá posteriormente sido alargado a outros níveis populares e por isso encontramos referências à utilização da Cítara no teatro e também nas tabernas e barbearias, sobretudo nos séculos XVII/XVIII».


E onde é que entra a guitarra inglesa (na foto)?... Segundo Manuel Portugal, a guitarra inglesa foi «introduzida [em Portugal] no século XVIII, no Porto, difundindo-se depois rapidamente a norte de Coimbra. Isto poderá explicar as diferenças de construção, de estrutura e de afinação entre a guitarra de Coimbra, com origem no Porto, e a de Lisboa», acrescentando que «a conclusão que se tira deste estudo é que a evolução da Guitarra se pode formular a partir de uma teoria baseada nas coincidências existentes entre estes dois instrumentos - o Cistro e a Guitarra Inglesa - dando-se a adopção de elementos de um e de outro e mantendo-se a sua prática ligada, desde o início, à musica de tradição oral. Tal facto não terá também sido alheio à deslocação da Corte para Coimbra, sendo bastante provável que estes dois antepassados da guitarra tenham continuado a ser cultivados entre nós, mesmo depois da época trovadoresca».

E como surge a associação da guitarra portuguesa ao fado?... Segundo a explicação simples, mas sugestiva, do guitarrista José Pracana, «de facto o "acasalamento" da guitarra com a viola, é perfeito. A guitarra é um instrumento que se adapta com facilidade aos "requebros" e à ternura das canções galantes e "sentidas" e adaptando a sua "afinação natural" para a "afinação do fado" passa a ser preferida ao seu rival, o bandolim». O casamento acontece ainda no século XIX, mas é no século XX que tem o seu desenvolvimento mais íntimo e quase exclusivo (há gravações de fado do início do século XX em que os fadistas eram acompanhados a piano).

26 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 4º Fascículo
























Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
CORDAS UMBILICAIS

Pode um instrumento musical espelhar - com o seu som, o seu timbre, a sua respiração e movimento e vibração - a alma de um povo? Pode. Ouve-se um didgeridoo na Austrália, um berimbau no Brasil, uma kora no Senegal, uma flauta de Pã nos Andes, um tambor taiko no Japão, e sabemos que aquele instrumento específico está a ser tocado pela alma certa, mesmo que possa ser tocado por «corpos» de toda a gente em todo o mundo.

Pode a guitarra portuguesa espelhar a alma do povo português? Pode. Há guitarra portuguesa de Lisboa e guitarra portuguesa de Coimbra e guitarra portuguesa do Porto e Braga. E há gente a tocá-la em todo o país. E há um género (dois?, se falarmos de Lisboa e de Coimbra separadamente) que lhe está colado como uma segunda pele, o Fado - ou, dizem os mais críticos, em vez de uma pele, um casaco grande e grosso que por vezes lhe abafa o respirar. E há intérpretes e compositores que fizeram da guitarra portuguesa um instrumento maior. João Maria dos Anjos, Antero Alte da Veiga, o clã Paredes - Gonçalo, Artur e Carlos -, Armandinho, Raúl Nery, António Portugal, António Brojo, Fontes Rocha, Augusto Hilário, Pedro Caldeira Cabral, António Chaínho e muitos, muitos outros... E, mais recentemente, há músicos mais novos que se atiram à guitarra sem complexos e com vontade de a levar para o futuro como Ricardo Rocha, Paulo Parreira, Custódio Castelo ou Paulo Soares... E algumas mulheres, como Marta Costa, perderam o medo de tocar este instrumento difícil e extremamente exigente em termos físicos (a posição; a dureza das cordas...). E há gente do rock a virar-se para ela: na invenção e recriação física do instrumento através das «guitarras portuguesas mutantes» de Nuno Rebelo; na paixão com que Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga) trocou a guitarra eléctrica pela guitarra portuguesa e contribuiu para fazer A Naifa; na aventura que é usar guitarra portuguesa no heavy-metal (os Thragedium, cujo líder, Eclipse, também toca guitarra portuguesa). E os ecos do instrumento não ficam por aqui. Mesmo que não estejam lá, fisicamente, estão nos samples de Sam The Kid ou nas guitarras eléctricas dos Dead Combo, de The Legendary Tiger Man e de Gonçalo Pereira (cf. na versão de «Movimentos Perpétuos», de Carlos Paredes, no álbum «Upgrade»).

A guitarra portuguesa, dizem alguns historiadores, evoluiu a partir de uma fusão da cítara com a guitarra inglesa e faz parte de uma imensa família de cordofones. Pelo som, e pelo sentimento, é irmã do oud (o alaúde árabe), é prima do bouzouki grego (que, por uma estranha emigração, foi adoptado também pelos irlandeses) e do bandolim siciliano, e é vizinha da guitarra espanhola - tão vizinha que, geralmente, para cada guitarra portuguesa há uma viola - uma guitarra espanhola - ali mesmo ao pé. Mas as ligações genealógicas dos cordofones podem ir mais além no tempo e longe no espaço: podem ir ao shamisen das gueixas japonesas, à sitar indiana, à balalaika russa, ao ukelele havaiano (neto dos cavaquinhos portugueses), à kora dos griots mandingas, às violas de lata dos blues do Mississippi.

São cordas que prendem a música, as canções, à terra onde nascem, como cordões umbilicais que nunca são cortados, como fios de Ariadne que nos servem de bússola permanente, como uma teia de relações que se prendem - e nos prendem - a um tempo, a um espaço, a uma poesia, a um gosto, a um destino. E à alma dos povos que as dedilham.

22 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 3º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
DISCOGRAFIA BÁSICA

A guitarra portuguesa está, quase sempre, escondida atrás de um fadista ou de uma fadista. E não são muitos os registos discográficos existentes que dêem ao instrumento o protagonismo absoluto. O BLITZ foi à procura dos discos que julga serem os que mais e melhor justiça fazem à nossa guitarra:

António Brojo e António Portugal - «Variações Inacabadas» (CD 1994 EMI). Dois dos mais importantes guitarristas de Coimbra colaboram num álbum que foi deixado inacabado devido ao falecimento dos dois intervenientes. Neste disco, Brojo e Portugal interpretam temas próprios e de Artur Paredes, Gonçalo Paredes, Augusto Hilário e Flávio Rodrigues, entre outros.

António Chaínho - «A Guitarra e Outras Mulheres»(CD 1998 Movieplay). Acompanhante de fadistas como Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo e Carlos do Carmo, entre outros, Chaínho mostra neste disco que também é um talentoso compositor de originais. É aqui acompanhado por cantoras como Teresa Salgueiro, Marta Dias, Elba Ramalho ou Filipa Pais e músicos como Fernando Alvim, Vinicius Cantuária, Greg Cohen, Peter Sherer e Eyvind Kang.

Artur Paredes - «Artur Paredes» (LP 1961 Alvorada, CD 2003 Movieplay). Filho de Gonçalo Paredes e pai de Carlos Paredes, Artur Paredes foi «o génio revolucionário da guitarra coimbrã» (diz José Niza). Neste disco, Artur Paredes interpreta originais seus acompanhado por Carlos Paredes (também na guitarra portuguesa) e Arménio Silva (viola).

Carlos Paredes - «Guitarra Portuguesa» (LP 1968 Columbia, CD 1987 EMI-VC) e «Movimento Perpétuo» (LP 1971 Columbia, CD 1988 EMI-VC). Se Artur Paredes, pai de Carlos, revolucionou a guitarra coimbrã, Carlos Paredes revolucionou toda a música nacional e fez da guitarra portuguesa um instrumento maior na galáxia dos sons. Génio absoluto, Carlos Paredes - acompanhado nestes dois álbuns pela viola de Fernando Alvim - lança as sementes do futuro para o instrumento em temas imortais por si compostos e interpretados («Canção Verdes Anos», «Movimento Perpétuo», «Mudar de Vida»...).

Domingos Camarinha e Santos Moreira - «Guitarras Portuguesas» (LP 1960 Decca, CD 2001 EMI-VC). O guitarrista Domingos Camarinha (neste disco acompanhado à viola por Santos Moreira) foi acompanhante e autor de músicas para Amália Rodrigues e um dos mais importantes intérpretes de guitarra de Lisboa. Neste álbum toca temas de Lisboa mas também de Coimbra e do folclore nacional.

José Nunes - «O Melhor de José Nunes» (CD 2001 EMI-VC). Acompanhador de fadistas (nomeadamente Amália) mas também solista, José Nunes foi o melhor exemplo de como a guitarra portuguesa é mesmo... portuguesa. Nascido no Porto, é tido como um genial fusionista entre os estilos de Coimbra e Lisboa. Neste disco interpreta temas seus e de outros (Raul Ferrão, Max, populares...).

Pedro Caldeira Cabral - «Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII» (CD 2003 Tradisom). Instrumentista, investigador, especialista em música antiga, Pedro Caldeira Cabral (na foto) é também um apaixonado pela guitarra portuguesa. Neste disco duplo, Cabral vai em busca de formas clássicas/eruditas (embora não se resuma a isto) interpretadas em guitarra portuguesa: pavanas, sonatas, tocatas, minuetos...

Ricardo Rocha - «Voluptuária» (CD 2003 Vachier & Associados) e «Tributo à Guitarra Portuguesa» (CD 2004 Público/Vachier & Associados). O mais talentoso guitarrista de Lisboa da nova geração, Ricardo Rocha tanto inova, revoluciona e leva a guitarra para novos e inexplorados territórios (no álbum em solo absoluto - excepto quando é acompanhado por cravo e violino - e maioritarimente com composições suas, «Voluptuária») como é respeitoso e reverente na transmissão de temas de compositores do passado como Armandinho, José Nunes, Domingos Camarinha, José Cavalheiro ou Jaime Santos (em «Tributo à Guitarra Portuguesa», em que é acompanhado pela viola de Paquito).

Vários - «Guitarra Diversa» (CD 2004 Músicactiva). Álbum editado com o apoio de Coimbra - Capital Nacional da Cultura, inclui participações de Ricardo Rocha, Pedro Caldeira Cabral, Nuno Rebelo, Cândido Lima e Paulo Soares.

Vários - «Guitarras do Fado - Ao Vivo na Aula Magna» (CD 2001 EMI-VC). Inclui gravações ao vivo de Fontes Rocha, Carlos Gonçalves, Mário Pacheco, Manuel Mendes, Paulo Parreira e Ricardo Rocha.

20 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 2º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


A INCLINADA GERAÇÃO (II)
TOCAR GUITARRA PORTUGUESA É DOLOROSO

No ano passado, quando Ricardo Rocha editou o seu álbum a solo «Voluptuária», o guitarrista referiu em várias entrevistas uma relação de amor/ódio com o instrumento. Relação que ele agora clarifica: «Quando falo um bocado mal da guitarra, isso tem a ver simplesmente com a parte técnica e a parte física do instrumento. É um instrumento que exige não só boas condições técnicas como uma boa condição física para tocar, pela tensão e dureza das cordas. Tudo aquilo exige uma forma muscular muito boa para se conseguir tocar, porque tudo é duro, muito tenso. Isso dificulta a técnica, a articulação. É uma grande canseira. É um desporto radical». E também Marta Costa refere a dificuldade que é tocar o instrumento: «É difícil para qualquer pessoa, mas para uma mulher é ainda mais difícil. Temos uma pele mais fina do que a dos homens, temos que criar calos nos dedos, as cordas são muito finas e têm uma tensão enorme - é um bocado doloroso. Quando os calos chegam está tudo bem».

INFLUÊNCIAS, REFERÊNCIAS, OS PAREDES E ARMANDINHO...

E quem é que ouvem os guitarristas da nova geração? Quais são as suas principais influências e referências?... Diz Ricardo Rocha: «O Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral são uma referência pela sua actividade de solistas. Mas há outras pessoas que são uma referência fundamental na linguagem da guitarra tradicional: Jaime Santos, Domingos Camarinha, Armandinho, são guitarristas fundamentais para quem aprende guitarra portuguesa e se interessa pelo instrumento. Eles tocavam com uma complexidade enorme e já ninguém toca aquela linguagem, porque é muito difícil».

Por sua vez, Paulo Soares contrapõe com a escola de Coimbra: «A minha grande influência é, sobretudo, dos Paredes, porque na música deles - Artur e Carlos - existe uma energia anímica e de aproveitamento sonoro do instrumento que não encontramos em mais nenhum guitarrista. E sempre procurei essa energia. Mas também admiro muito o trabalho de Octávio Sérgio, que podemos pôr ao lado do de Carlos Paredes, em termos de qualidade da composição e da adaptação ao instrumento. O Pedro Caldeira Cabral faz um trabalho extraordinário, com influências da música erudita, e isso leva-nos a sofisticar o uso que se faz da guitarra». E lança algumas farpas ao estilo de Lisboa: «Historicamente, houve uma tentativa de se adaptar a construção do instrumento ao uso e ao estilo de cada cidade. Mas essas diferenças estão a atenuar-se cada vez mais e de uma forma geral é o modelo físico de guitarra de Coimbra que tende a prevalecer. Mas do ponto de vista da técnica, e da forma como o reportório se desenvolveu, as principais diferenças são que a guitarra de Lisboa procurou muitos rodriguinhos, muitos ornamentos, cantar as melodias mas ornamentá-las com um certo jeito malabarista, algum virtuosismo exibicionista, que caracterizava o Armandinho, que serve de modelo inicial a esse estilo de guitarra. Na guitarra de Coimbra, temos outra atitude, representada pelo Artur Paredes, onde não são os efeitos sonoros que estão em causa, mas a sonoridade intrínseca, completa, cheia, do instrumento e da música que nele se faz».

Farpas que são repegadas por Varatojo: «Não posso dizer que tenha influências, porque tenho tão pouca experiência no instrumento que não consigo avaliar se a minha maneira de tocar tem mais a ver com este ou aquele. Gosto de ouvir alguns guitarristas, mas gosto de descobrir os meus próprios caminhos... Gosto das coisas simples e a guitarra portuguesa tocada de uma forma clássica é uma coisa muito rendilhada, muito barroca, muito promenorizada, e gosto de "passar isso a ferro" e fazer umas coisas um bocado mais cubistas. Já fazia isso com a guitarra eléctrica». Por sua vez, Marta, humilde, refere: «Gosto muito do Mário Pacheco, do Fontes Rocha, do Ricardo Rocha - que ao seu estilo é genial. E é mais a essas pessoas com quem me dou a quem eu me agarro. Tenho poucos CDs, é uma vergonha...».

O PRESENTE E O FUTURO

Neste momento, e entre outros projectos, Nuno Rebelo (na imagem, um dos esboços de uma «guitarra portuguesa mutante») está envolvido no grupo Mark Lewis & The Standards, mas As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! continuam vivas, quanto mais não seja através da projecção de filmes originalmente feitos para o projecto a serem exibidos num festival em Atenas. Para além disso, diz Rebelo, «não está nada encerrado no capítulo As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!; é bem possível que volte a acontecer. É preciso apenas chegar o momento certo e a ocasião ideal».

Ricardo Rocha está a trabalhar em originais para um novo álbum, embora ainda não saiba quando será editado: «Eu também acompanho o Carlos do Carmo, mas prefiro ficar sozinho a gravar, nem sequer é a tocar em público». E, diz, sente «uma solidão e uma tristeza muito grande» por ser dos poucos a compor para o instrumento: «E isso só se passa em Portugal. Portugal é único em tudo: na decadência, na miséria e na pobreza. Existir aqui um instrumento como este, único no mundo, e só haver um ou dois compositores que o encaram de uma forma solística e compor e fazer peças para o instrumento a solo. E mesmo noutras gerações, houve só o Pedro Caldeira Cabral e o Carlos Paredes e pouco mais. É caricato e absurdo».

Paulo Soares tem um álbum na forja: «Tenho um álbum gravado, mas não gostei da captação de som e vou gravá-lo outra vez. O disco tem a ver com toda a guitarra de Coimbra, desde o Gonçalo Paredes até aos dias de hoje, incluindo composições minhas». Para já, dedica-se a «recitais a solo, acompanhado por uma viola, com um reportório baseado na guitarra de Coimbra, e também com composições mais recentes, algumas minhas. E também tenho feito alguns espectáculos com a Orquestra de Câmara de Coimbra e com a Orquestra do Norte». O ano passado fez um espectáculo, no encerramento do Festival da Guitarra, integrado em Coimbra - Capital da Cultura, estreando um concerto para guitarra portuguesa e orquestra da autoria de Fernando Lapa.

Por estes dias, Luís Varatojo continua a apresentar ao vivo o projecto A Naifa - que partilha com João Aguardela, a cantora Mitó e o baterista Vasco Vaz - e os temas do álbum «Canções Subterrâneas», cujos originais «foram todos construídos, de base, por mim na guitarra portuguesa e pelo João no baixo eléctrico. As minhas partes de composição nasceram na guitarra portuguesa, e isso foi propositado porque acabei por descobrir ali uma série de coisas, inclusive fazer acordes que não estão correctos mas que me soam bem e que não soariam dessa maneira se tivesse composto noutro instrumento qualquer... A guitarra portuguesa é um instrumento acústico, mas eu electrifico-a e uso efeitos, tanto em estúdio como ao vivo... Mantenho algumas características acústicas - o timbre e a ressonância -, mas dando algum cunho eléctrico ao instrumento». E num próximo álbum do projecto, lá continuará a guitarra portuguesa, também, à sua maneira, mutante.

Marta Costa está no último ano de Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mas, depois de terminado o curso, promete dedicar-se mais à guitarra do que às engenharias: «Desde pequena que gosto imenso de música». E esta frase de Marta ilumina na perfeição tudo o que ficou para trás e as declarações dos outros todos.

15 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 1º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
A INCLINADA GERAÇÃO

Ricardo Rocha. Paulo Soares. Marta Costa. Luís Varatojo (na foto - de Mário Pires, da Retorta). Nuno Rebelo. Cada um à sua maneira, todos eles se apaixonaram pela guitarra portuguesa. São uma nova geração de músicos que, pegando na tradição, dela se aproximam ou afastam consoante os gostos e personalidades e intenções próprias. O BLITZ falou com eles.

O que leva as pessoas a interessar-se por um instrumento difícil de tocar e raramente procurado pelos mais novos, mais interessados em guitarras eléctricas ou baterias, djembés ou «laptops»?... Cada caso é um caso, mas a verdade é que, como refere Paulo Soares, intérprete de guitarra de Coimbra, compositor, professor de guitarra portuguesa e autor de um manual («Método de Guitarra Portuguesa») dedicado ao ensino do instrumento, «o interesse na guitarra portuguesa está a crescer bastante entre os jovens. E o que é curioso é que em Coimbra quase ninguém se interessa pela guitarra de Lisboa, mas em Lisboa há muita gente interessada na guitarra de Coimbra, nomeadamente no Museu do Fado, onde na escola, 50 por cento dos pedidos de aprendizagem têm a ver com a música de Carlos Paredes, ou seja, com a guitarra de Coimbra. Mas há aprendizes dos dois géneros em todo o país». Paulo começou a tocar guitarra portuguesa na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, em 1983, quando tinha 16 anos, e porque havia um grupo de fados: «Aprendi essencialmente como autodidacta, apesar de ter procurado mestres. Desses mestres, os mais importantes foram Jorge Gomes - pela forma como me apresentou a guitarra e me motivou - e Octávio Sérgio, que foi o último guitarrista a acompanhar o José Afonso. Mas também estudei e tenho estudado, através da audição e da observação dos mais diversos guitarristas, toda a obra da guitarra de Coimbra, apesar de não enjeitar estudar outras obras, mormente a de Pedro Caldeira Cabral e a guitarra de Lisboa. Mas o meu maior interesse é mesmo a guitarra de Coimbra, onde incluo a obra dos Paredes todos - Gonçalo, Artur e Carlos».

Dos outros, todos oriundos de Lisboa, Ricardo Rocha - um dos pouquíssimos novos intérpretes de guitarra portuguesa a fazer recitais a solo baseados nas suas próprias composições; autor do álbum «Voluptuária» -, chega à guitarra por influência familiar, tendo aprendido com o avô, Fontes Rocha: «Não aprendi numa escola, porque não havia essa escola. Nos conservatórios havia e há disciplinas de guitarra clássica e violoncelo, por exemplo, mas não de guitarra portuguesa. Uma pessoa para aprender tem que ter um interesse natural. É um tipo de aprendizagem que muitas vezes acontece de geração em geração». Marta Costa (um raríssimo exemplo de intérprete de guitarra portuguesa no feminino, que costuma tocar em espectáculos de Mário Pacheco e no Clube do Fado, onde acompanha fadistas como Joana Amendoeira, Ana Sofia Varela, Rodrigo Costa Félix, José da Câmara, Maria da Nazaré ou Alcindo Carvalho) também começa a tocar por influência familiar, se bem que aqui indirecta: «De inicio não gostava de fado nem conhecia a guitarra portuguesa. Desde os cinco anos que toco piano, mas o meu pai, que adora fado, convenceu-me a tocar guitarra portuguesa. Comecei a aprender com o Carlos Gonçalves, que foi guitarrista da Amália, há cinco anos, e comecei a descobrir o instrumento e a entusiasmar-me. Depois mostrei a minha evolução ao guitarrista Mário Pacheco, do Clube do Fado, e ele achou piada - nos últimos anos tenho estudado com ele».

QUANDO O ROCK
E A MÚSICA IMPROVISADA VÃO À GUITARRA PORTUGUESA

Com uma abordagem diferente da guitarra, menos purista e mais longe da tradição, estão dois nomes saídos do rock - Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga; que agora toca guitarra portuguesa n'A Naifa) e Nuno Rebelo (que foi dos Street Kids e dos Mler Ife Dada antes de enveredar pela nova música improvisada e por uma aventura chamada As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!). Varatojo começou a tocar guitarra portuguesa «há dois anos e pouco. E por dois motivos: um, a curiosidade, e outro, eu e o João (Aguardela) andávamos a discutir umas ideias em relação à Naifa e pareceu-me apropriado pegar na guitarra portuguesa para desenvolver este projecto», sendo essencialmente autodidacta: «Fiz uma tentativa de aprender com um mestre, conforme o método clássico, mas as aulas eram demasiado caras. E optei por averiguar e apanhar por aí alguns manuais, que são raros. O Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa disponibilizou-me fotocópias de um manual dos anos 50...». Mas a escola do rock e da pop ainda está lá: «A minha forma de tocar guitarra acaba por ser um misto da técnica mais clássica - porque faço os acordes e as posições dos dedos de acordo com essa linha - e o trabalho que tinha feito para trás com a guitarra eléctrica. Mas ainda tenho muito a desbravar...».

Ainda mais longe do convencional está Nuno Rebelo, que se meteu na aventura de transformar o próprio instrumento: «A exploração que eu andava a levar a cabo (e que continuo a desenvolver) na guitarra eléctrica integra-se, à escala internacional, num universo constituído por imensos guitarristas, cada qual com a sua linguagem e abordagem, ou seja, somos todos um entre muitos. Quis aplicar essa abordagem do instrumento à guitarra portuguesa, com a certeza de que seria um dos poucos senão o único a transfigurar este instrumento. Mas também confesso que me moveu o facto de estar a subverter um ícone da nação com uma carga de memória ligada ao passado, à tradição, à saudade. Quis pôr a guitarra portuguesa a olhar para o futuro». Nuno Rebelo chamou à sua aventura As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!: «Fiz as primeiras experiências e os primeiros concertos, a solo, em 1993 [ver CD "Way Out, New Music from Portugal – Vol 1", editado pela Ananana; o tema "Pink Pong" foi gravado num concerto solo de guitarra portuguesa mutante em 93]. O projecto As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! aparece mais tarde, em 1998», no âmbito da Expo'98.

Questionado sobre a reacção de outros guitarristas às suas «invenções», Rebelo diz: «Os dois guitarristas que trabalharam comigo neste projecto foram o Júlio Pereira e o Ricardo Rocha. Ambos se dedicaram ao projecto com ânimo e abertura de espírito e penso que terá sido uma boa experiência para eles. O papel que lhes coube foi o de fazer a ponte entre a linguagem e técnicas da guitarra portuguesa tradicional e a "nova música" que eu pretendia fazer, ou seja, tocando em harmonias pouco usuais no repertório deste instrumento. Neste aspecto o cunho pessoal do Ricardo Rocha foi uma grande contribuição. Quanto ao Júlio Pereira, não sendo um especialista da guitarra portuguesa mas antes de outros cordofones nacionais, teve um papel mais discreto, mas igualmente importante, de contraponto à guitarra do Ricardo Rocha». Os restantes músicos do projecto «eram todos bateristas, os Tim Tim Por Tim Tum – Marco Franco, José Salgueiro, Alexandre Frazão e Acácio Salero. Cada um dispunha de duas guitarras portuguesas mutantes, colocadas na horizontal. Estas eram tocadas simultaneamente com baquetas, arcos de violino ou simplesmente com as mãos, numa abordagem percussionística».

05 dezembro, 2006

Ricardo Rocha - Em Defesa... da Guitarra Portuguesa


Se Ricardo Rocha, o futebolista, joga sempre à defesa (apesar de agora andar a marcar uns golitos jeitosos) - raios!, tinha jurado a mim próprio nunca falar de futebol neste blog! -, Ricardo Rocha, o músico e compositor, joga sempre ao ataque, um ataque único das cordas da guitarra portuguesa, um génio mesmo que contra a sua vontade, um revolucionário mesmo quando sente nele, e sente-o, um amor profundo pelos guitarristas que vieram antes de si. Mas sempre, também, em defesa da guitarra. E é tão raro ouvi-lo num concerto em nome próprio que o espectáculo marcado para dia 15 de Dezembro, na Casa da Música, Porto, é motivo de celebração.

Nascido em 1974, neto do guitarrista Fontes Rocha, Ricardo Rocha aprendeu a tocar guitarra portuguesa na infância e começou a acompanhar fadistas com apenas 14 anos. Gravou e tocou com Sérgio Godinho, Vitorino, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral, Maria João e Mário Laginha, entre outros. Em 1996 edita, juntamente com Maria Ana Bobone (voz), João Paulo Esteves da Silva (cravo) e Mário Franco (contrabaixo), o álbum de fusão de fado, música barroca e jazz «Luz Destino». Em 2003 edita o fabuloso álbum «Voluptuária», em que apresenta originais seus e também temas de Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral. Em 2004, no álbum «Tributo À Guitarra Portuguesa», editado na colecção de discos de fado do jornal Público, Ricardo Rocha e Paquito (viola) interpretam temas clássicos de Armandinho, José Cavalheiro, Francisco Carvalhinho, Domingos Camarinha, José Nunes e Jaime Santos.

13 novembro, 2006

Cromos Raízes e Antenas IV



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo IV.1 - Nusrat Fateh Ali Khan



O cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan (nascido a 13 de Outubro de 1948, em Faisalabad, Paquistão; falecido a 16 de Agosto de 1997, em Londres, Inglaterra) foi o maior embaixador do qawwali, o canto sagrado dos sufis (um dos ramos do islamismo). Amado no seu país natal e no Ocidente (onde colaborou com gente como Peter Gabriel, Michael Brook ou Eddie Vedder, dos Pearl Jam, para além de ter sido homenageado por Jeff Buckley, no álbum «Live at Sin-é», em que se ouve Buckley dizer «Nusrat é o meu Elvis»), era também muitíssimo admirado na Índia - país «inimigo» do Paquistão -, onde fez duetos com vedetas de Bollywood como Asha Bhosle. Com uma voz potente, incrivelmente bem timbrada e inimitável, Nusrat foi o continuador - apesar de ter dado passos decisivos para a renovação do género - de uma tradição musical que, na sua família, remonta a seis séculos de interpretação de qawwali, seguindo as pisadas do pai, o também respeitadíssimo cantor Ustad Fateh Ali Khan. Deixou inúmeros continuadores, nomeadamente os seus sobrinhos agrupados no Rizwan-Muazzam Qawwali.


Cromo IV.2 - Djembé



O djembé é, provavelmente, um dos mais antigos instrumentos de percussão da humanidade. Com um corpo oco de madeira e coberto por uma pele de bovídeo,, o djembé desenvolveu-se na região ocidental de África, sendo um dos instrumentos mais importantes da música mandinga (juntamente com a kora, o balafon e o n'goni) e, desde há algumas décadas, um instrumento emblemático de toda a música africana em geral e de muita «world music» exterior a África, jazz e até algum rock. A sua invenção é atribuída a antiquíssimos artesãos mandingas (os «numus»), que teriam difundido o djembé por toda a África Ocidental durante o primeiro milénio antes de Cristo. Uma lenda comum a vários povos refere que o djembé contém três almas: a da árvore que cedeu a madeira, a do animal que cedeu a pele e a do homem que o fabricou. Alguns intérpretes importantes de djembé: Mamady Keita, Thione Diop, Abdoulaye Diakite, Babatunde Olatunji e Famoudou Konaté. E um filme que lhe presta justiça: «O Visitante», realizado por Thomas McCarthy.


Cromo IV.3 - Carlos Paredes



Génio absoluto da guitarra portuguesa, Carlos Paredes (nascido em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925; falecido em Lisboa a 23 de Julho de 2004) foi o maior responsável pela emancipação deste instrumento e pela percepção de que a guitarra não tem que ser necessariamente o humilde acompanhante dos cantores de fado. Apesar de antes dele já ter havido, em Lisboa e em Coimbra - onde o pai de Carlos, Artur Paredes, foi um dos pioneiros da autonomização da guitarra portuguesa -, outros músicos a fazer o mesmo movimento, foi Carlos Paredes que deu à guitarra portuguesa uma voz própria, brilhante, inventiva, a um mesmo tempo terna, mágica e revoltada. E apesar de ter gravado com outros músicos (de Charlie Haden a António Victorino d'Almeida e os Madredeus) era sempre sozinho, ou com os seus companheiros mais íntimos, como Fernando Alvim ou Luísa Amaro (a discípula e companheira que agora transporta e reinventa muito do seu legado) que se sentia melhor. Álbuns aconselhados: «Guitarra Portuguesa», «Movimento Perpétuo» e «Espelho de Sons».


Cromo IV.4 - Firewater



Liderados por Tod A. (Tod Ashley, ex-Cop Shoot Cop), os Firewater formaram-se em 1995 e deram um abanão na cena musical nova-iorquina ao destilarem uma música negra e sombria, mas a espaços iluminada - e com que luz! - por sonoridades geralmente estranhas ao rock como a música de cabaret, de circo e de strip-tease, jazz, klezmer, mariachis e blues sangrentos. Com Nick Cave, Tom Waits, Henry Mancini, Lee Hazlewood e Johnny Cash como referências maiores, os Firewater lançaram alguns álbuns - «Get Off The Cross (We Need The Wood For The Fire)», «The Ponzi Scheme», «Psychopharmacology», «The Man on the Burning Tightrope» e «Songs We Should Have Written» -, antes de Tod A. ter partido para a Índia, alegadamente por já não suportar viver no país liderado por George W Bush. O último álbum da banda, «The Golden Hour» (2008), mostra-a num pico de forma absoluto!