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16 fevereiro, 2009

Mercedes Peón - Concerto em Sines (Não, Ainda Não É o FMM)


A cantora, gaiteira e pandeireteira galega Mercedes Peón - uma das mais importantes figuras da renovação da música tradicional da Galiza - dá um concerto em Sines, na Av. Vasco da Gama - mesmo junto à praia -, a 24 de Abril, nas comemorações do 25 de Abril desta cidade alentejana. Aqui em baixo segue o texto de apresentação do concerto em Sines, já a deixar água na boca para o próximo FMM:

«Uma das grandes figuras da folk europeia, nomeada para os prémios de "world music" da BBC Radio 3 e merecedora de distinções por revistas como a Folkworld ou a Songlines, Mercedes Peón representa o melhor da música galega no século XXI: um conhecimento profundo da tradição e a mais contemporânea imaginação. Com raízes na cidade A Corunha, esta intérprete e compositora nascida em 1967 enche o palco com a sua voz, dança, gaita-de-foles e pandeireta. Três discos gravados ("Iusé", em 2000, "Ajrú", em 2003, e "Sihá", em 2007) e participação em mais de 300 festivais em todo o mundo, dão-lhe repertório e experiência para dar aquele que se adivinha vir a ser um dos concertos do ano em Sines».

06 agosto, 2008

Celtirock - Encontros Ibéricos em Vilar de Perdizes


A quinta edição do festival Celtirock decorre nos dias 16 e 17 de Agosto em Vilar de Perdizes (Montalegre, Trás-os-Montes) com concertos no primeiro dia e outras actividades no segundo. Dia 16, há espectáculos com os Gaiteiros de Pitões (Portugal), AnxoBlas (Galiza), Zamburiel (Espanha) e Hyubris (Portugal; na foto), para além do esconjuro da queimada (a bebida sagrada da Galiza). Já no segundo dia, não há concertos mas há projecções de um documentário («L'Horlage du Village») e de imagens da edição anterior do Celtirock, animações de rua, barraquinhas, jogos populares e visitas guiadas ao património local. Durante os dois dias há também venda de artesanato e workshops. Mais informações, aqui.

03 abril, 2008

Névoa, Marful e Acetre - Bons Ventos e Bons Casamentos


Há um velho ditado popular português - conhecido de toda a gente - que diz «De Espanha nem bom vento nem bom casamento». Mas no caso destes três discos hoje falados no Raízes e Antenas, esse ditado terá que ser completamente virado ao contrário: tanto nos galegos Marful como nos Acetre, de Olivença (pois, Olivença!) e na catalã Névoa (na foto; de Noemí Elías) há, para além de muito boa música, íntimos pontos de contacto com Portugal - respectivamente, na língua galega, na música que fazem e no fado... cantado em catalão. Isto é, ventos que se cruzam de cá para lá; casamentos felizes e com mútuo consentimento.


MARFUL
«MARFUL»
Galileo/Megamúsica

A língua galega nasce da mesma raiz que a língua portuguesa. É uma língua irmã, atrever-me-ia a dizer uma língua-gémea; viva, bela e pulsante de poesia e nuances linguísticas deliciosas. E é tão bonito ouvi-la quando ela, para além de muito bem cantada, está tão próxima do português que, muitas vezes, é português mesmo. E é isso que acontece quando se ouve cantar Ugia Pedreira - ela que canta tão bem! - a fazer voar as palavras sobre a música ao mesmo tempo antiga e tão nova que os seus companheiros - Pedro Pascual (acordeão), Pablo Pascual (clarinete-baixo) e Marcos Teira (guitarra), mais os convidados Luis Alberto Rodriguez (bateria) e Xacobe Martinez (contrabaixo) - vão tecendo por baixo da sua voz. Uma música que recria - com originalidade, elegância e paixão - a música de baile que se ouvia e dançava na Galiza nos anos 30 e 40, tanto a tradicional galega (oiça-se a belíssima «Jota Gagarim») mas também a música que muitos emigrantes galegos traziam para a sua terra: twist, habaneras, tangos, paso-dobles e até uns laivos de fado (cf. em «Tris-Tras»). Com alguns originais à mistura com adaptações de tradicionais ou canções de outros autores «de época» e cantado todo ele em galego (à excepção de «Je Suis Comme Je Suis», com música de Ugia sobre um poema de Jacques Prévert), este álbum de estreia dos Marful - eles que vão estar na próxima edição do FMM de Sines - é uma declaração de amor desta cantora e destes músicos à sua terra, à sua história, às suas memórias... Lindíssimo! (9/10)


ACETRE
«DEHESARIO»
Nufolk/Galileo/Megamúsica

Apesar de terem mais de vinte anos de carreira, os Acetre são infelizmente quase desconhecidos em Portugal - que me lembre, passaram por cá há alguns anos num festival Sete Sóis Sete Luas e não sei se passaram mais alguma vez. E é pena por várias razões: a sua música é, independentemente das suas ligações à música portuguesa, muitíssimo boa. E é, por essas ligações, um curiosíssimo exemplo de hibridismo «raiano» que - tirando a anteriormente referida Galiza - é muito raro e bem-vindo. Um hibridismo que é quase natural atendendo ao local de onde é originário o grupo, Olivença - e não, ao contrário do que dizem os nacional-saudosistas, «Olivença não é nossa!» -, ali paredes-meias com o Alentejo, e à curiosidade própria destes cinco músicos e quatro cantoras/intrumentistas que se aventuram em viagens musicais que passam pela Extremadura espanhola, pelo Alentejo, pela Galiza e pelo norte de África (cf. em «Al-Zerandeo», que faz a ponte entre Marrocos e as «pandeireteiras» galegas), fazendo uso de um folk-rock ora mais «musculado» ora mais ambiental ora mais progressivo, mas sempre de um bom-gosto enorme e uma inventividade constante. Mas o mais curioso deste «Dehesario», o sétimo álbum dos Acetre, é mesmo a quantidade de temas cantados em português e/ou com referências a Portugal e à música portuguesa: o tradicional «Mãe Bruxa» («À entrada de Elvas/Achei uma agulha...»); a guitarra portuguesa em «Amores Corridiños» (um tema «afadistado», original de José-Tomás Sousa, guitarrista do grupo); «A Rola» (tradicional alentejano que aqui surge numa versão para vozes femininas e uma «cama» instrumental muito bonita!); ou no vira que fecha o disco e que tanto pode ser galego como minhoto. É necessário conhecê-los. (8/10)


NÉVOA
«ENTRE LES PEDRES E ELS PEIXOS»
Temps Record/Harmonia Mundi

Há alguns meses, fiz neste blog o levantamento de fadistas estrangeiros ou instrumentistas de guitarra portuguesa e espantei-me (e sei que houve mais quem se tenha espantado) com a quantidade de gente, não portuguesa, que lá fora mantém uma relação íntima com o fado. Nesse texto referi a ideia, comum a muita gente, de que «o fado só pode ser cantado por portugueses... A alma, a saudade, a emoção, etc...». Uma ideia completamente errada como se pode comprovar ouvindo muitos dos nomes referidos, nomeadamente esta fadista de corpo e voz e alma inteiros de que se fala aqui hoje: Névoa (aka Núria Piferrer). Porque, se se perguntar «É fado?», a resposta só pode ser: «É, e muito bom!». Quase todo ele cantado em catalão - com excepção de dois temas em espanhol, um deles o arrepiante «No Te Quiero», sobre poema de Pablo Neruda - e, pergunto eu, não será este um espantoso texto de fado? -, o disco tem como base variadíssimos fados tradicionais (Fado menor do Porto, Fado Pintadinho, Fado Amora, Fado Triplicado, etc, etc...) e conta com a participação de vários músicos portugueses: Manuel Mendes (guitarra portuguesa), José «Carvalhinho» (viola e direcção musical), Jorge Carreira (viola-baixo) e o cantor Gonçalo Salgueiro (produção). E basta ouvir como Névoa - ela que já contava com três álbuns dedicados ao fado anteriores a este «Entre les Pedres i els Peixos» - lança a sua voz na interpretação destes poemas para se perceber, imediatamente, que temos aqui uma excelentíssima cantora e, mais do que isso, uma fadista imensa e de alma enorme. E, embora seguindo uma via muito respeitosa do fado tradicional de Lisboa, ela acaba por inovar - com coragem - ao injectar outras línguas no nosso (e de quem o quiser fazer seu) fado. (8/10)

06 março, 2008

Budiño, Beoga, Galandum Galundaina e Encontros da Eira no Intercéltico do Porto


A 17ª edição do histórico e pioneiro Festival Intercéltico do Porto está confirmada para os dias 11 e 12 de Abril, no Cinema Batalha, segundo informa o site Divergências. E, no cartaz, está uma ementa suculenta e equilibrada, sem adiposidades nem gordurinhas desnecessárias: a abertura, dia 11, é feita - surpresa! - pelo grupo de música tradicional madeirense Encontros da Eira e pelo jovem grupo irlandês Beoga (na foto), um grupo em que - outra surpresa! - são duas concertinas a comandar a festa na interpretação dos temas tradicionais. Na segunda noite, são os cada vez mais maduros, variados timbricamente e consistentes mirandeses Galandum Galundaina que abrem o palco; palco que é depois ocupado por um dos mais respeitados e virtuosos gaiteiros galegos: Xosé Manuel Budiño. Para já, não se sabe se vai haver «after-hours» como o ano passado (e que bem que correram, com os Bailebúrdia a mandarem o baile pela noite fora!), mas sabe-se que há novamente uma extensão do festival a Arcos de Valdevez, com as Noites Intercélticas a serem ocupadas, na Casa das Artes, com concertos dos Galandum Galundaina (dia 11 de Abril) e dos Beoga (um dia depois).

19 fevereiro, 2008

Marful no Porto e no FMM de Sines


O excelente grupo galego Marful tem dois concertos marcados para Portugal: dia 1 de Março nos Maus Hábitos, Porto, e dia 24 de Julho no FMM de Sines. O concerto no Porto está integrado na programação do «Galiza em Trânsito» - que inclui ainda um showcase da banda galega, à tarde, na FNAC de Sta. Catarina, e à noite, nos Maus Hábitos, lançamentos de livros, uma exposição, a apresentação da fanzine «1 folio», dança por Fran Riveiro, teatro («Flores Migratórias» pelo Teatro d2) e uma actuação do VJ The Chemical Orange. Em Sines, os Marful apresentar-se-ão na sua versão «salón de baile», em que ritmos de vários cantos do mundo - tangos, habaneras, foxtrot, twist ou passodobles - namoram intimamente com a folk galega. Tanto um como o outro espectáculo são uma estupenda oportunidade de conhecer este grupo - formado por Ugia Pedreira (voz), Pedro Pascual (acordeão diatónico), Pablo Pascual (clarinete-baixo) e Marcos Teira (guitarra), geralmente acompanhados por Luis Alberto Rodríguez (bateria) e Xacobe Martínez(contrabaixo) - cada vez mais importante da nossa irmã Galiza. E com o acrescento, saboroso, de que na sua versão «salón de baile», em Sines, os Marful terão a sua formação alargada a mais alguns músicos: Quim Farinha (dos Berrogüetto) no violino, a cantora Guadi Galego (ex-Berrogüetto e companheira de Ugia no projecto Nordestin@s) e o cantor Xabier Díaz, para além de quatro bailarinos.

13 fevereiro, 2008

Intercéltico de Sendim - As Nações Unidas de Miranda


E mais uma grande notícia chegada via Crónicas da Terra: a oitava edição do Festival Intercéltico de Sendim - mais uma vez organizado por Mário Correia, do Sons da Terra - decorre de 1 a 3 de Agosto, com algumas escolhas dentro do espírito habitual do festival mas também com algumas novidades absolutas, como a abertura às sonoridades do Leste da Europa! Por Sendim, este ano, vão passar músicas e músicos da Escócia, Portugal, Galiza, Astúrias, Hungria e Ucrânia. Ora veja-se: na primeira noite, a de dia 1, actuam os conimbricenses Ginga, seguidos dos asturianos Skanda e dos respeitadíssimos galegos (com voz portuguesa, a da cantora Sara Vidal, nossa camarada blogosférica nos Sons Vadios) Luar na Lubre. Mas as verdadeiras surpresas ficam reservadas para a segunda noite, a de dia 2, com actuações dos húngaros Kerekes Band (ver crítica ao disco «Pimasz» neste blog) e dos ucranianos Voanerges (na foto), ficando o encerramento oficial por conta da folk-progressiva dos escoceses Shooglenifty. Um encerramento que, como sempre em Sendim, não é bem encerramento já que no dia seguinte, domingo, dia 3, ainda haverá lugar para a «missa céltica» e para mais um concerto, desta vez com o rock cantado em mirandês dos Pica Tumilho. A programação fica completa com jams na Taberna dos Celtas, animação de rua e concertos temáticos com os gaiteiros da família Fernandes e uma evocação do tamborileiro Virgílio Cristal. Mais informações aqui.

23 novembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXII.1 - Johnny Clegg


O cantor, guitarrista e compositor Johnny Clegg tem uma história de vida riquíssima e marcou com bravura a história da música sul-africana e do activismo anti-apartheid, através do seu trabalho a solo e nas suas bandas Savuka e Juluka. Nascido em Rochdale, Inglaterra, em 1953, de origem judia, Clegg passa por Israel, Zâmbia e Zimbabué, antes de chegar à África do Sul, com apenas nove anos. Na adolescência, Clegg conhece Charlie Mizla, um zulu, com quem começa a tocar e a aprender os fundamentos da música desta etnia, música que foi a sua principal fonte de inspiração ao longo de toda a carreira. E desde muito cedo, por ser branco, aprendeu que o facto de tocar com e para negros lhe traria dissabores no futuro. Mas Clegg nunca desisitiu e, com Sipho Mchuno, forma o grupo multiracial Juluka, que deu depois origem aos Savuka (já sem Mchuno). É, justamente, um herói na África do Sul.


Cromo XXXII.2 - Leilía


Belo exemplo de como se consegue revivificar a música tradicional de uma região, as Leilía, de Santiago de Compostela, iniciam no Verão de 1989 uma curiosíssima e importante cruzada de recuperação de velhas cantigas galegas. Excelentes cantoras e percussionistas (todas elas são exímias na antiga arte das pandereteiras; a complexa maneira de tocar pandeireta na Galiza), as Leilía têm mostrado ao longo dos anos como se consegue permanecer fiel às raízes ao mesmo tempo que se pode enriquecer a música com outros arranjos e harmonias. Da sua discografia fazem parte os álbuns «Leilía» (1994), «I é Verdade i é Mentira» (1998), «Madama» (2003) e a colectânea «Son de Leilía» (2005), que reúne raridades e colaborações com os Milladoiro, o gaiteiro Budiño e os bretões Bleizi Ruz, entre outros.


Cromo XXXII.3 - La Bottine Souriante


Um dos mais importantes grupos folk do Quebeque - se não o mais importante -, La Bottine Souriante é uma trupe de alegres foliões que fazem de cada concerto e de cada disco uma festarola pegada. Com influências maiores na folk dita celta (da Bretanha mas também, naturalmente, da Irlanda , Escócia...) mas também no rock, country, blues, salsa e na música acadiana - de forte influência francesa, tanto em várias zonas do Canadá como no sul dos Estados Unidos, nomeadamente na zona «nobre» do cajun, a Louisiana -, o grupo tem como principal missão não deixar morrer as tradições do Quebeque, levando-as para o futuro. Nascidos em 1976, editam o seu primeiro álbum «Y'a Ben du Changement» em 1979 e, desde aí, já deram várias voltas ao mundo, aproveitando também para, através da sua música, passar a mensagem de um Quebeque livre e francófono.


Cromo XXXII.4 - Afro Celt Sound System


Saídos do sonho e da visão de um músico e produtor inglês, Simon Emmerson, os Afro Celt Sound System (aka Afro Celts) são por ele formados em 1992 com a ajuda do produtor e multi-instrumentista James McNally, do vocalista e letrista Iarla O Lionaird e do produtor e programador Martin Russell. A ideia: fundir de forma orgânica e inteligente a música «celta» com a música africana, tudo junto num caldo de electrónicas subtis e elegantes. Um sonho que se transformou em realidade quando Peter Gabriel lhes abriu as portas da Real World para a gravação do seu primeiro álbum, «Volume 1: Sound Magic» (1996). E para a Real World gravaram os seus cinco álbuns até agora - e com um leque de músicos impressionante neles arrolados: Johnny Kalsi, N'Faly Koyate, Robert Plant, Sinéad O'Connor, Davy Spillane, Peter Gabriel, Ayub Ogada. Um mundo.

02 agosto, 2007

Uxía - Um Álbum Luso-Galego-Africano



Quando se fala do grande caldeirão que é a lusofonia - se é que a lusofonia existe, e na minha opinião existe enquanto ideia de irmandade de povos próximos, histórica ou geograficamente, que partilham uma língua ou várias línguas que têm o longínquo galaico-português como raiz comum - muitas vezes esquece-se, exactamente, a Galiza, a Galiza que nos está aqui tão perto. E esquecêmo-lo mais, muito mais, do que muitos dos nossos irmãos galegos. Por isso, não é de estranhar que - depois de várias iniciativas ocorridas na Galiza, nomeadamente os espectáculos «Cantos na Maré» ou a recente homenagem luso-galega-africana a José Afonso - o novo álbum da cantora galega Uxía seja uma celebração desse conceito alargado de «lusofonia» e em que colaboram músicos e cantores como os cabo-verdianos Tito Paris e Jon Luz, a luso-cabo-verdiana Sara Tavares, os açorianos Zeca Medeiros e Paulo Borges, os portugueses Sérgio Godinho, Rui Veloso, Júlio Pereira, Mário Delgado, Filipa Pais, Amélia Muge e João Afonso, o guineense Manecas Costa ou as cantoras galegas Ugía Pedreira (Marful e Nordestin@s) e Guadi Galego (Berrogüetto e Nordestin@s), entre outros. O álbum, que tem edição marcada através da Nordesia para Outubro, é apresentado como o trilhar de «camiños partindo da tradición galega para encontrar sonoridades atlánticas e ritmos africanos... Dende varios puntos da Lusofonía veñen sons e ritmos que se mesturan coa melodiosa voz e o estilo intimista de Uxía, nunha pluralidade de linguaxes oídas nun só idioma». Promete!

19 abril, 2007

José Afonso - Outras Homenagens



Dia 24 (ou, segundo outras fontes, dia 25) de Abril, a RTP e a TV Galiza vão transmitir um espectáculo de homenagem a José Afonso (na foto), «Gala Homenaxe a Zeca», que, contam as crónicas - vf. na reportagem do Diário de Notícias - foi um momento de comunhão único entre artistas portugueses, galegos e africanos, irmanados à volta da música e da memória de José Afonso. No concerto, realizado no Paço da Cultura de Pontevedra, participaram, pelo lado espanhol Luis Pastor; pelo lado galego as cantoras Uxia e Mercedes Péon, as pandeireteiras e cantoras Faltriqueira, Trexadura, Narf, duas velhas glórias do rock galego - Víctor Coyote e Antón Reixa (dos Resentidos) - e ainda Benedicto, Miro Casabella e Xico de Cariño; pelo lado português Dulce Pontes, Vitorino, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Zeca Medeiros, João Afonso e Cantadores do Redondo; e, pelo lado africano, Tito Paris, Manecas Costa e Jon Luz. O grande ausente da Gala, por motivo de doença, foi Suso Iglesias, director da TV Galiza, organizador do espectácilo e ex-companheiro de José Afonso em muitos espectáculos, tocando gaita.

Entretanto - e numa altura em que se multiplicam as homenagens a José Afonso, agora que passam vinte anos sobre a sua morte -, a conimbricense Banda Futrica, projecto paralelo aos Ginga numa vertente mais acústica, apresenta o seu primeiro álbum, «Com Zeca no Coração», dia 30 de Abril no Convento de São Francisco, em Coimbra. O álbum - em que participam como convidados Isabel Silvestre, Helena Lavouras, Emiliano Toste, Luís Peixoto, Luis Ferreira e Gaiteiros da Espiral - é, segundo a banda, um tributo «àquele que tanto nos ensinou através da sua música e poemas! Foi em Coimbra que Zeca Afonso, ainda estudante, teve os primeiros contactos com a dureza da vida do povo, dos “futricas” de Coimbra». O álbum da Banda Futrica sucede a outros lançamentos discográficos que têm José Afonso como mote e inspiração - dos Frei Fado d'El Rei, Couple Coffee e Erva de Cheiro - e a espectáculos baseados na sua obra assinados pelo grupo Drumming, a fadista Cristina Branco e o Opus Ensemble, entre muitos outros. Venham mais...

17 março, 2007

Rare Folk, Cadencia e Nordestin@s - Os Bons Ventos de Espanha



Três grupos de várias regiões de Espanha e de estilos muito diferentes mostram a vitalidade e a variedade da música de raiz tradicional - e não só das raízes mais «óbvias», como se verá - feita no país vizinho. São três álbuns recentes dos «celtas» Rare Folk, dos flamenquistas Cadencia (na foto) e do trio galego Nordestin@s.


RARE FOLK
«NATURAL FRACTALS»
Ed. de Autor/Galileo

Sexteto de Sevilha já com quinze anos de existência, os Rare Folk mostram em «Natural Fractals» uma música que passa quase sempre pelos ambientes ditos «celtas» - andam jigs e reels sempre a pular por ali - mas também por outros espaços em que a electrónica, o jazz-rock de fusão, a música africana, o flamenco, o rock sinfónico e progressivo, a música árabe e turca se misturam naquilo a que o grupo chama «freestyle folk». Inteiramente instrumental - pelo menos neste álbum -, o grupo é constituído por Rubén Diaz de La Cortina (flauta, tin whistle, «Mangu» Díaz (bandolim, bouzouki, glissentar e programações), Marcos Munné (guitarras), Pedro Silva (teclas), Oscar Valero «Mufas» (baixo eléctrico) e Fernando Reina (bateria), tendo neste álbum a colaboração de Elo Sánchez (violino) e Nacho Gil (saxofone soprano e clarinete turco). E, por muito longe que esteja de um qualquer purismo ou tradicionalismo qualquer (excepto na faixa escondida que encerra o álbum, um solo de flauta que parece saído de um pub irlandês), nota-se sempre na sua música um amor tremendo pelas raízes da música «celta», uma escolha curiosa e bem-vinda de um grupo oriundo da Andaluzia. (6/10)


CADENCIA
«SIN TI»
Fonoruz

Também de Sevilha, e neste caso fazendo «justiça» às suas origens, os Cadencia são um excelente grupo que parte do flamenco - que está sempre muito presente nas suas canções - para visitar também outros géneros musicais como o jazz, a bossa-nova, a música medieval e a música «celta», tudo espalhado por originais de membros do grupo que são de um bom-gosto a toda a prova. Tendo como ponta-de-lança a voz verdadeira, quente, sanguínea, lindíssima, de Dolores Berg, do grupo fazem também parte J.A. Mazo «Gori» (guitarrista e compositor da maioria das canções), Enrique Mengual (baixo), Sofia Bermudez (percussões) e Pepo Herrera (flautas), usando exclusivamente instrumentos acústicos. Longe do radicalismo, da loucura e do experimentalismo de uns Ojos de Brujo, por exemplo, os Cadencia estão muito mais perto da essência do flamenco (e dos vários sub-géneros que o flamenco inclui), mas estão também sempre prontos a na sua música incluir um ou mais elementos desviantes e surpreendentes. «Sin Ti» é o álbum de estreia do quinteto mas é já uma obra madura, cheia de certezas e prova maior de que há um novíssimo e bastante excitante flamenco a nascer na Andaluzia. (8/10)


NORDESTIN@S
«NORDESTIN@S»
Falcatruada

Ainda mais surpreendente do que os dois álbuns anteriores é o álbum homónimo dos galegos Nordestin@s, projecto que reúne duas cantoras maravilhosas - Guadi Galego (dos Berrogüetto) e Ugia Pedreira (dos Marful) - e o extraordinário pianista de jazz Abe Rábade. Neste grupo, os três atiram-se com bom-gosto, elegância e originalidade à interpretação de muitos tradicionais galegos e alguns originais deles e de alguns outros. O álbum está cheio de belíssimas harmonias vocais entre as duas cantoras (embora por vezes também cantem a solo), sublinhadas pelo voo pelas teclas do piano de um Rábade swingante, inventivo, livre. E o resultado é sempre uma maravilha completa, não se sabendo nunca o que é que tem mais peso aqui, se o jazz se a inspiração tradicional - e ainda bem que não se sabe! O álbum, que foi gravado ao vivo (mas sem audiência) no Teatro Principal de Santiago de Compostela, em 2006, inclui canções «populares do norte de Galicia, composicións que ulen a mar e a taberna, que falan de lendas de mulleres e sereas e que foron trasmitidas por varias xeracións». Só mais uma coisa: raramente como neste álbum a língua galega - nossa língua irmã - soa tão doce e subtil. (9/10)

16 fevereiro, 2007

Luar na Lubre - Os Nossos Irmãos Galegos



Os Luar na Lubre são um dos mais importantes grupos folk galegos. Com uma carreira que conta agora cerca de vinte anos, o grupo difundiu por todo o mundo a música da nossa irmã Galiza, cruzou-se com muitos e variados músicos - irlandeses e mexicanos, bretões e argentinos e portugueses, da folk ou de outras áreas musicais -, numa busca incessante das raízes da música galega na sua Galiza, sim, mas também em Portugal, nos territórios e países ditos «celtas» e na América Latina. Um grande amor pela obra de José Afonso e, mais recentemente, a entrada na banda da cantora portuguesa Sara Vidal (que substituiu Rosa Cedrón) estreitaram ainda mais os laços entre nós, portugueses, e os Luar na Lubre. Em homenagem à banda, aqui fica uma entrevista publicada originalmente no BLITZ em Abril de 2002.



LUAR NA LUBRE
A LUA É UMA BARQUINHA

Ao longo de dezasseis anos, os Luar na Lubre confirmaram-se como um dos mais importantes nomes da cena folk da Galiza. De A Coruña para o mundo foi um passo, dado com firmeza e classe, por um grupo que respeita a tradição mas não se deixa dominar por ela, abrindo o seu som e ideias a outras músicas e culturas. Nesta conversa com Bieito Romero - gaiteiro, sanfoneiro e acordeonista do grupo - falou-se de tradição, de política, do movimento folk galego, do novo álbum que vem aí - «Espiral» - e do concerto que vão dar em Lisboa, esta semana.

Os Luar na Lubre nasceram em 1986, tendo como ideia-base a recriação do cancioneiro tradicional galego e cantando numa língua, o galego, que centenas de anos de tentativas de unificação espanhola e dezenas de anos de franquismo tinham tentado remeter para um canto esconso da memória. Diz Bieito: «No início começámos com a ideia de trabalhar sobre a cultura tradicional da Galiza. No aspecto da música tradicional havia muitas carências e a ideia era fazer chegar a música tradicional - que na sua origem é mais dura do que a nossa - a muito mais gente. Temos sete discos editados - já contando com "Espiral" - e a nossa trajectória é reconhecível desde o início até agora. Mas é claro que há uma evolução a nível pessoal, como músicos, a nível de grupo e até a nível ideológico - passados todos estes anos podemos falar com mais propriedade sobre muitas coisas». O percurso dos Luar na Lubre - uma viagem em que à música galega se podem juntar a música do norte de Portugal, bretã, irlandesa e escocesa, como se a barca tripulada pelos Luar na Lubre fosse aportar nos centros principais da cultura céltica - é paralelo ao de outros grupos e artistas galegos que partiram em busca de raízes comuns. «A folk, na Galiza, evoluiu mais ou menos da mesma maneira que nós. Há quinze, vinte anos, não havia nada mas acreditava-se que poderia haver um movimento; movimento que, de facto, aconteceu. No final dos anos 90 teve o seu pico, até a nível comercial, com alguns sucessos de vendas, não só na Galiza como em outras regiões de Espanha».

A questão seguinte é tentar saber se há algum posicionamento evidente, em termos políticos, dos Luar na Lubre, coisa que nas suas letras é, muitas vezes, mais indiciada do que declarada. Diz Bieito: «A música, mesmo quando está desligada da política, assume através da cultura um compromisso social, com a terra, com o idioma, com as nossas raízes...». Acrescento que, de uma maneira mais evidente, os autores de quem eles fizeram ou fazem versões, não eram propriamente inocentes em termos de posicionamento político: o português José Afonso, o chileno Victor Jara ou o poeta - assassinado durante a guerra civil espanhola - Federico Garcia Lorca. «Não queria dizê-lo de uma maneira tão óbvia, mas já que tu o dizes... (risos) Não queremos que nos liguem a nenhuma formação política concreta, mas há, de facto, directrizes, uma maneira de trabalhar, umas ideias e uns ideais... Somos galegos e temos um importante compromisso social e, principalmente, cultural com a nossa região. Os 25 anos de democracia em Espanha não trouxeram grande coisa à Galiza. No campo da música, não há o mínimo apoio político ou institucional ao nosso trabalho ou ao trabalho de outros grupos da mesma linha, ao contrário do que aconteceu na Irlanda, onde a música se tornou uma das mais importantes fontes de entrada de divisas. Na Galiza apoia-se a moda, os vinhos, o marisco. Não tenho nada contra, mas porque não a música?... É um valor tão exportável como os outros».

O desinteresse do poder central perante o movimento folk e da música tradicional na Galiza não impediu, contudo, que esse movimento crescesse imenso nos últimos anos, tanto a nível de grupos e artistas, como de escolas e orquestras que pegam nas gaitas-de-foles ou nas pandeiretas para se exprimir e transmitir as músicas ancestrais da Galiza. «A chave está no interesse genuíno das pessoas pelas raízes. Há uma consciência e uma militância muito grandes nas escolas de música tradicional. Antes de nós aparecermos, praticamente esse movimento não existia. Havia gaiteiros dispersos, praticamente não havia pandeireteiras e daí surgiu um mundo que, todavia, estava vivo. Nós surgimos nas cidades, alimentando-nos do património importantíssimo que vem das aldeias mas, ao mesmo tempo, pelo nosso trabalho, esse património regressa às aldeias e cresce».

Num grupo como os Luar na Lubre a etiqueta "música celta" é redutora ou não?... «Nós assumimos a etiqueta de música celta. Pertencemos a um universo atlântico, que engloba uma forma de ser, de viver, de compreender as coisas. E esta é uma cultura universal, ao contrário do que muita gente pensa. Encontramos galegos, irlandeses, etc., e os seus descendentes em muitas partes do mundo. Por exemplo, na América, com descendentes de irlandeses no Norte e de galegos no sul. Um dos nossos próximos projectos é, precisamente, tentar recolher de volta a música que os galegos levaram para a América do Sul e aí se desenvolveu» [Nota actual: projecto que veio a concretizar-se no álbum «Saudade»].

Este eixo «céltico» será ainda mais perceptível no próximo álbum do grupo, «Espiral», que conta com a produção - e gravação de alguns instrumentos - de um dos nomes maiores da folk irlandesa, Donal Lunny (fundador de grupos seminais como os Planxty, Bothy Band e Moving Hearts e produtor e/ou colaborador de gente tão diversa como Elvis Costello, Sinéad O'Connor, Clannad, Mark Knopfler ou Van Morrison), para além do acordeonista Mairtin O'Connor e da violinista Nollaig Casey. E Bieito está encantado: «A nossa música é muito mais bem compreendida em Dublim do que em Madrid. E esta foi a nossa primeira oprtunidade de trabalhar com músicos irlandeses... Donal manteve connosco uma relação de respeito absoluto. Mudou alguns pormenores aqui e ali, mas 99 por cento dos nossos arranjos foram mantidos. Ele - e o técnico de som Tim Martin - deu uma cor especial à nossa música. O som ficou mais aberto». Os Luar na Lubre são muitas vezes caracterizados como «folk de câmara», não sendo tão festivos, dançáveis ou físicos quanto outros grupos galegos. Bieito concorda, mas só até certo ponto: «Isso acontece mais nos discos do que nos concertos. Ao vivo temos essa parte da festa, apesar de termos uma parte lírica que gostamos que seja ouvida. Mas é verdade que por vezes nos acusam disso. Acho que o "Espiral" já se aproxima mais - se não totalmente, pelo menos em parte -, do nosso som ao vivo».

Falando em «som ao vivo», os Luar na Lubre tocam esta semana, dia 14, na Aula Magna, em Lisboa. E aí poderemos constatar a beleza das canções e dos arranjos de um grupo que através da voz e violoncelo de Rosa Cedrón, nas gaitas, acordeão e sanfona de Bieito e nas flautas, percussões, guitarra e bouzouki dos outros músicos do grupo, está com os pés bem plantados na tradição mas com a cabeça posta no futuro. Para Bieito, o concerto vai ser uma revisão de carreira - ao jeito do que se pode ouvir no álbum «Lo Mejor de Luar na Lubre - XV Aniversario», editado o ano passado -, mas também «já com alguns temas de "Espiral"». Da contribuição de Mike Oldfield para o reconhecimento internacional do grupo acabou por não se falar. Mas depois de tantas provas dadas pelo grupo, ainda seria necessário?

06 dezembro, 2006

Cromos Raízes e Antenas VI



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo VI.1 - Lee «Scratch» Perry


Lee «Scratch» Perry (nascido a 20 de Março de 1936, em Kendal, Jamaica) é um dos nomes mais importantes da música jamaicana, estando o seu nome associado a estilos como o ska, o reggae e o o dub. Com uma profícua carreira iniciada nos anos 50, funda a sua própria editora em 1968, a Upsetter, que também daria nome à sua banda acompanhante, The Upsetters. E o seu primeiro single editado através desta etiqueta, «People Funny Boy» é por muita gente considerado como o primeiro tema verdadeiramente reggae, para além de ter ficado para a história da música por conter um dos primeiros exemplos de samples (o choro de uma criança). No seu estúdio, o lendário The Black Ark, lançou as fundações daquilo que viria a ser a arte do dub. E produziu discos de Bob Marley & the Wailers, Max Romeo, Junior Byles e The Heptones, entre outros. Mais recentemente colaborou com Adrian Sherwood, Beastie Boys e Mad Professor. Boa porta de entrada na sua música: a magnífica caixa «Arkology».


Cromo VI.2 - Berrogüetto


Os Berrogüetto - cujos fundadores tinham pertencido, na sua maior parte, aos seminais Matto Congrio - são um dos exemplos mais originais da música feita pelos nossos irmãos galegos. Editaram o seu álbum de estreia, «Navicularia», em 1996 e rapidamente se impuseram como uma voz própria e poderosa na cena musical da Galiza, misturando na sua música elementos tradicionais, sim, mas muitas outras linguagens sonoras. Logo a seguir à saída do seu primeiro álbum iniciaram um périplo internacional que os trouxe a Portugal e também os levou à Alemanha, França e Reino Unido. Três outros excelentes álbuns se seguiram, «Viaxe por Urticaria», «Hepta» (este baseado num conceito à volta do número sete: sete é o número de músicos do grupo, sete são as notas musicais, sete são as cores do arco-íris...) e «10.0». Os Berrogüetto são Anxo Pintos, Guillermo Fernandez, Quico Comesaña, Santiago Cribeiro, Isaac Palacín, Quim Farinha e Xabier Díaz, tendo a sua emblemática vocalista e gaiteira Guadi Galego deixado a banda em 2008.


Cromo VI.3 - Pã


O deus grego Pã é uma das primeiras divindades europeias directamente associadas à música. Semi-homem semi-carneiro (tem deste animal os cornos, as orelhas e as pernas), Pã é o deus protector dos pastores e dos rebanhos, mas é também muitas vezes apresentado como um ser vingativo, violento e um predador sexual - muitas das suas representações mostram-no com o falo erecto. Filho de Zeus (noutras fontes, de Hermes ou de Cronos) e de uma ninfa, Pã conseguia, com a sua música, provocar sensações de calma, medo ou desejo sexual. A sua flauta - hoje conhecida como Flauta de Pã - tem, segundo a lenda, origem na tentativa falhada de sedução de uma ninfa, Siringe, que para se lhe escapar se transformou num canavial. Dessas canas - nas quais o vento provocava um som terno e triste -, Pã faria o seu instrumento musical. Ficou famoso um duelo entre a flauta tocada por Pã e a lira de Apolo, que a lira viria a ganhar (numa das versões desta lenda, a lira ganhou porque ambos os tocadores estavam de cabeça para baixo e é impossível tirar som da flauta de Pã nessa posição).


Cromo VI.4 - Laïs


As Laïs são três espantosas cantoras flamengas (originárias de Kalmthout) que iniciaram a sua carreira discográfica em 1998, rejuvenescendo velhas canções folk belgas com a adição de sonoridades sacadas ao norte da Europa (nomeadamente a Bulgária), à chamada música celta, ao rock e às electrónicas. Constituídas por Jorunn Bauweraerts, Annelies Brosens e Nathalie Delcroix - esta formação manteve-se estável ao longo de toda a sua carreira -, as Laïs têm entre os seus fãs gente graúda como Emmylou Harris, Sting e Daniel Lanois. O seu álbum de 2008, «Documenta», editado este ano, é um triplo que inclui um CD ao vivo, outro com interpretações à capella e outro com as Laïs a serem acompanhadas por outros músicos e pode ser um bom cartão-de-visita do grupo para quem não as conhece. Mas outros discos como os anteriores «Dorothea» (2000), «Douce Victime» (2004) e os posteriores «The Ladies' Second Song» (2007) e «Laïs Lenski» (2009) são também bastante aconselháveis.

02 dezembro, 2006

Cantos na Maré - A Lusofonia da Galiza ao Brasil


A quarta edição do encontro de músicos e cantores lusófonos Cantos na Maré realiza-se este ano em Pontevedra (Auditorio do Pazo da Cultura), Galiza, no dia 16 de Dezembro. O Cantos na Maré terá desta vez como mote «Mulleres na Lusofonia» e como protagonistas as cantoras Uxía (Galiza; na foto), Dulce Pontes (Portugal), Eneida Marta (Guiné-Bissau), Luanda Cozetti (dos Couple Coffee; Brasil), Ugía Pedreira (dos Marful; Galiza) e Amélia Muge (Portugal/Moçambique), todas juntas em «cantos que están lonxe do patriarcal discurso musical e que logran reivindicar o recoñecemento do peso da tradición cultural feminina nestes territorios; esta ten un peso relevante tamén na nosa terra, por iso tentamos buscar eses mesmos referentes nos países de fala portuguesa».

O Cantos na Maré, cuja primeira edição decorreu em 2003, já apresentou espectáculos conjuntos de variadíssimos artistas lusófonos. Neles já participaram, para além de alguns nomes também presentes este ano, Chico César, Astra Harris, Jon Luz, Manecas Costa, Filipa Pais, Batuko Tabanka, Zezo Ribeiro, Vanessa Forhagian, João Afonso, Ana Firmino, Kimi Djabate, Zeca Medeiros, Maria João e Mário Laginha, Guadi Galego, Alberto Mvundi, Tcheka, Renata Rosa e NARF. A organização é da
Nordesía Produccións.

16 agosto, 2006

Sons do Atlântico - CeltiMouros Aos Pulos na Lagoa


O festival Sons do Atlântico, que decorreu em Lagoa, no passado fim-de-semana, merecia - pela qualidade dos concertos apresentados e pela envolvência do local - muito mais público do que aquele que teve. O local é lindíssimo (na ermida de N.Sra. da Rocha, a cerca de 30 metros do Oceano Atlântico... e a 30 metros na horizontal - é só um «pulinho» e vamos ao banho) e o festival teve dignas actividades paralelas a juntar aos concertos: teatro de rua, uma interessante exposição de gaitas-de-foles, comidas e bebidas variadas, artesanato, cordofones populares portugueses, concertos mais pequenos no palco secundário... O problema é que o promontório da Sra. da Rocha é um istmozinho rodeado por hectares e hectares de hotéis e urbanizações de luxo que dão como resultado um público de festival maioritariamente formado por algumas centenas de turistas bifes de meia-idade que não estão para se levantar das cadeiras e dançar as violentas muiñeiras de Mercedes Peón (na foto), o elegante sufi-house de Mercan Dede ou o zydeco rude de Lisa Haley. Mas que ele e elas mereciam que isso tivesse acontecido, lá isso mereciam...

Na primeira noite, a mais radical renovadora da música galega, Mercedes Peón, deu um excelente concerto em que à música de raiz (galega mas também com mergulhos na música medieval, no flamenco e na música árabe) juntou, quase sempre, uma boa dose de rock, de funk, por vezes de metal. E isto percebe-se bem: o vozeirão de Mercedes, a sua gaita com pedaleira de efeitos vários, a sua técnica de percussão bruta das pandeiretas ou de um estranho instrumento terrivelmente eficaz em termos rítmicos (uma chapa de metal percutida por uma pedra) não se compadeceriam, jamais, com um envolvimento acústico e domesticado. O concerto - maioritariamente dedicado ao seu novo álbum (com destaque para temas como o notável «Neniñué», o delicadíssimo, quase canção de embalar, «Ese Es Ti», e o violentíssimo «Ajrú») - terminou, em encore, com uma versão selvagem do mais antigo «Isué», e com, por fim, algumas dezenas de pessoas a dançar.

Na segunda noite, o turco Mercan Dede (ele que trata das electrónicas, samples, flauta, percussões) deu um espectáculo fantástico onde a sua música - sempre com uma raiz turca, sufi, árabe e, a espaços, indiana e andaluza (uma trompete puxou um dos temas claramente para o flamenco) - namora abertamente com a house, o ambient, o drum'n'bass ou o tecno. E aquilo resulta quase sempre magnificamente bem, embora de vez em quando se sinta alguma facilidade nos arranjos (eu e o Luís, do Crónicas da Terra murmurámos por vezes a palavra «azeite» seguida da frase «...mas este é do bom»). Destaques, ao longo do concerto, para alguns solos cristalinos de quanun (uma espécie de saltério), para um percussionista que faz maravilhas com a darabuka e, obviamente, para uma extraordinária bailarina que, por duas vezes, hipnotizou o público com as danças circulares dos dervixes (a dança sagrada dos sufis, reservada aos homens), em transe absoluto.

Na última noite, a norte-americana Lisa Haley foi ao fundo dos pântanos povoados de crocodilos e cobras d'água da Louisiana para trazer consigo o húmus do zydeco e do cajun: parte rock'n'roll, parte blues, parte jazz, parte música francesa (principalmente no acordeão-gingão), parte folk irlandesa. E tudo lá em cima, com uma energia e uma alegria inacreditáveis. Lisa é um mulherão de voz rouca, bagaceira, e violino (mais, muito mais rabeca) roufenho e incendiário, acompanhada por uns compinchas armados de guitarras Gibson e baixos Fender e também com ar de bons-viventes. Zydeco e cajun a rodos, mais dança do que nas outras noites, apelos à paz no mundo e pelas vítimas do Katrina, algumas piadas de teor alcoólico e uma versão divertidíssima de «When The Saints Go Marchin'In» encerraram, bem, esta edição do Sons do Atlântico.

No palco principal do festival também actuaram, todas as noites, grupos portugueses: os Mu com as suas danças tradicionais europeias, alguns temas novos que não estão no álbum «Mundanças» e muita alegria; a Orquestrinha do Terror com o seu interessante jazz, por vezes etno-jazz, por vezes mais free-jazz, por vezes num interessante exercício de jazz aplicado a imagens em movimento (foram três as curtas-metragens que acompanharam neste concerto); e as Moçoilas, grupo algarvio à capella que teve um concerto em crescendo na última noite, com temas do reportório tradicional algarvio e alentejano mas também de outros lugares, de José Afonso, do GAC, das próprias Moçoilas e de Amélia Muge (um delicioso rap)... e com muitos apartes divertidos nos entretantos.