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16 novembro, 2011

Lisboa Mistura -- A Capital Volta a Ser Um Caldeirão (Mágico)


Ora, veja-se só: no programa musical estão Hamid El Kasri, Yogistragong, Irmãos Makossa, DJ Azzedine Berhilia, Fadomorse, Cacique 97 (na foto), Omiri, Virgem Suta, Samuel Úria, Márcia, Pinto Ferreira e o que mais se verá. É no último fim-de-semana de Novembro, no S. Luiz, em Lisboa.

"25 A 27 NOV
FESTIVAL LISBOA MISTURA
SEXTA A DOMINGO A PARTIR DAS 17H30
SALA PRINCIPAL E JARDIM DE INVERNO
M/3 (salvo quando classificada especificamente)

Cidade diversa, Lisboa pode também ser uma cidade de ilhas que não se encontram. Lisboa Mistura funciona como uma espécie de agitador que baralha os percursos e faz afluir ao centro aquilo que todos jurariam que é da periferia. E assim mostra uma via para o cumprimento da missão de um Teatro Municipal.

Lisboa Mistura é um espaço de encontro, no centro da cidade, entre pessoas e artes e artistas de várias proveniências geoculturais. Lisboa Mistura músicas, dança, vídeo, poesia: artistas contadores de estórias em formatos variados. Lisboa Mistura pessoas e dá-lhes a conhecer outros convidados, pessoas de bairros tão próximos dos nossos e que muitas vezes não ‘vemos’ ou viajantes de outros países que se encontram em Lisboa. Mistura também jovens, amigos, familiares e apoiantes de Associações dos bairros a que estes pertencem. Lisboa Mistura é o primeiro encontro intercultural organizado pelos lisboetas de todos os lugares. Esta 6ª edição é feita para ouvir os sons do Mundo, para dançar livremente os sons da Terra, para nos envolvermos em causas de todos, para nos celebrarmos e para pensar no futuro enquanto comunidade. É também um espaço de debate. E convidamos todos, não a irem aos bairros, mas a virem ao centro de Lisboa assistir a uma grande peça, com dramaturgias variadas, em que nós e os outros somos os protagonistas. Mistura o Mundo em Lisboa.
Carlos Martins, director Associação Sons da Lusofonia

Produção Associação Sons da Lusofonia

Preçário
Jardim de Inverno: entrada livre
Sala Principal: € 10 (por dia e com os habituais descontos São Luiz Teatro Municipal)
Passes Lisboa Mistura: 2 dias €15 / 3 dias €20 (não acumuláveis com outros descontos)

PROGRAMA:

SEXTA, 25
19H30: ABERTURA (JI)
21H30: HAMID EL KASRI (SP)
22H30: DJ AZZEDINE BERHILIA (JI)

SÁBADO, 26
16H00: A NOSSA VOZ (JI)
17H00: FADO MORSE (SP)
18H00: DOCUMENTÁRIO “DAMAIA FILME MAKING PROJECT” (JI)
19H00: CACIQUE 97 (SP)
20H00: A NOSSA VOZ (JI)
21H30: LIS-NAVE COM: SAMUEL ÚRIA+ MÁRCIA, PINTO FERREIRA E VIRGEM SUTA (SP)
23H30: OMIRI (JI)
00H15: DJ MAKOSSA (JI)

DOMINGO, 27
16H30: FESTA INTERCULTURAL (JI)
18H30: YOGISTRAGONG (SP)


(JI) JARDIM DE INVERNO (SP) SALA PRINCIPAL
lisboa mistura 2011
Lisboa Mistura é um espaço de debate e de celebração que surgiu em 2005, fruto da necessidade de criação de um fórum intercultural na cidade de Lisboa. Alegra-nos o facto de termos inspirado outros eventos que fazem um trabalho complementar ao nosso. Muitos mais deveriam brotar desta maravilhosa oportunidade criada pela diferença e curiosidade. E todos devemos trabalhar para a construção do ‘espaço’ comum. A vivência entre culturas e mundos diferentes é tão importante para a harmonização evolutiva da vida conjunta como o talento ou a tecnologia. Todos os anos criamos pontes entre as comunidades que habitam a Grande Lisboa e os públicos de dentro e fora da cidade. Os elencos que temos mostrado, nacionais e internacionais, amadores e profissionais, são uma prova da vitalidade criativa que surge dos encontros e celebrações que a cidade inspira. Acreditamos que o Lisboa Mistura virá futuramente para a rua, alargar o seu público, com performances e outras formas de representação da diversidade social e cultural de Lisboa como uma grande ‘praça pública’ do Mundo.
Vivemos nestes dias (como há muito vivemos) vizinhanças em que há um desconhecimento íntimo. Somos próximos geograficamente e historicamente mas com a nossa falta de curiosidade e excesso de televisão, desconhecemos culturas que divergiram estruturalmente de nós ao longo do séc. XX, mesmo que mantenhamos contactos desde há mais de 500 anos... Isto acontece ao nível de vizinhanças urbanas, à volta de Lisboa por exemplo, e de países. Sobre as primeiras o Lisboa Mistura e a Associação Sons da Lusofonia têm trabalhado ao longo dos últimos 15 anos. No que diz respeito às segundas vizinhanças, de países, quisemos relembrar a todos que a capital mais próxima de Lisboa é Rabat, inaugurando esta edição com a Noite de ‘Marrocos em Lisboa’.
O programa dos seguintes dias é pautado pela celebração da vida multicultural nacional com projectos de grande nível performativo e de produção. Projectos como Fado Morse, Cacique 97 e Lisnave (Samuel Uria e Márcia; Pinto Ferreira e Virgem Suta) mostram a transversalidade de influências da cultura portuguesa e a riqueza que daí advém. Como é habitual, há espaço para uma mostra de talento jovem, através da apresentação do CD ‘A Nossa Voz’, do Projecto Escolhas e do documentário ‘A Realidade na Tela’, fruto do Projecto Damaia Film Making. Acabamos o Lisboa Mistura com a incontornável Festa Intercultural, a que se segue a ‘Viagens Exóticas - Gamelão e Dança’, um projecto liderado pela percussionista inglesa Elizabeth Davies, que conta com a participação especial da bailarina Indiana Lajja Sambhavnath. Elizabeth e Lajja são dois exemplos no feminino de como é benéfico para Lisboa manter na vida cultural da cidade emigrantes com nível performativo muito alto.
Convidamos todos, mais uma vez, a assistir a uma grande peça, com dramaturgias variadas, em que ‘nós’ somos os protagonistas. É um convite irresistível que Lisboa vos faz quando mostra o que de melhor e alternativo habita ao nosso lado, na cidade ou num país, nos vizinhos que por vezes desconhecemos intimamente.
Carlos Martins
Associação Sons da Lusofonia
Noite ‘Marrocos em Lisboa’
“No mundo em que vivemos, a diferença cultural é sinónimo de riqueza, mas não é menos sinónimo de descriminação e muitas vezes de incompreensão.” Neste sentido, foi feito um convite à Embaixada do Reino de Marrocos em Lisboa – que foi prontamente aceite pela Senhora Embaixadora – para participarem no Lisboa Mistura. O objectivo é celebrar a relação com os nossos vizinhos do Mediterrâneo e o que de comum nos aproxima, os laços de amizade que há tanto nos fascinam mutuamente e que se sobrepõem às questões religiosas, politicas ou socioculturais. “A arte, em todas as suas variações, é uma das muitas janelas que os nossos dois países se comprometem a abrir, o mais rapidamente possível”.

Hamid El Kasri
Hamid El Kasri tem uma voz poderosa e conseguiu estabelecer-se como uma verdadeira referência da música Gnawa marroquina. Graças ao seu perfeito entendimento e domínio deste estilo musical espiritual, Hamid El Kasri desenvolveu a mistura perfeita entre a música Gnawa do Norte e Sul de Marrocos, imprimindo um novo estilo com esta fusão. A sua música deriva do folclore marroquino, apresentando canções com nuances religiosas, interpretadas com emoção e eloquência. Sendo ele próprio descendente de uma longa linhagem ligada à música Gnawa, a sua filha de 13 anos também já colabora no seu repertório, procurando transmitir a sua herança cultural. Entre outras colaborações, Hamid El Kasri surge na compilação de 2007 "Gnawa House Songs" e no dueto de 2010 com Cheb Khaled, com a música "Mimoun".

Dj Azzedine Berhilia
Azzedine Berhilia faz parte dos Darga, um dos mais importantes grupos musicais da cena musical contemporânea de Marrocos. Darga é conhecido pela sua originalidade e fusão musical, com influências tão distintas como o reggae, gnawa, funk, rock, ska, ragga, dub ou jazz. Assim, podemos esperar um set de música bastante eclético, cheio de ritmo e energia, com a música árabe como ponto de partida.

CD ‘A Nossa Voz’
No ano em que se comemoram os 10 anos do Programa Escolhas e o Ano Internacional da Juventude, o Lisboa Mistura apresenta ao vivo e na íntegra o cd “A Nossa Voz” com as participações dos projectos vencedores do concurso de jovens talentos: Ana Cabral, K-One, Sena 1 MC, Key Money, Redrum, SoulJah, 2aRegra, Skill i9, Zé di Piku, Mentes Em Progresso, Manga Del, Sally.


Documentário ‘Realidade na Tela’
O projecto Damaia Film Making Workshop, dinamizado pela Associação Máquina do Mundo em parceria com a Embaixada dos E.U.A em Portugal, ofereceu a possibilidade a 12 jovens (entre os 15 e os 19 anos de idade) de desenvolverem as suas competências nas áreas da comunicação, imagem e produção de vídeo. Entre os dias 22 de Agosto e 2 de Setembro, Jared Katsiane (realizador dos E.U.A.) apresentou um workshop que resultou num documentário, desenvolvido pelos jovens participantes no workshop, intitulado ‘Realidade na Tela’, no qual estão espelhadas as percepções e inquietações destes jovens, perante a realidade que há tanto conhecem, mas que gostariam de ver alterada.

Fadomorse
Os Fadomorse celebram treze anos de música genuinamente embebida nas raízes portuguesas e no expoente contemporâneo da sonoridade do mundo. Como prenda, um novo disco de originais ‘ Magala Invisível’, que os conduz a um concerto singular com estreias absolutas e o revisitar do lado mais conceptual da sua arte sonora.

Cacique 97
Os grandes percussores dos Afrobeat em Portugal encerram a tour do seu primeiro disco homónimo com este concerto, e apresentam alguns dos temas do próximo algum de originais. Este colectivo Portugal/Moçambique apresentará ainda uma homenagem, juntamente com alguns convidados especiais, ao Zé da Guiné, figura incontornável da interculturalidade de Lisboa.

Lis-Nave
Quatro artistas da vaga de grupos e cantautores da nova música portuguesa apresentam-se em concertos intimistas, misturando influências e canções: Samuel Múria e Márcia em duo acústico, seguidos dos Pinto Ferreira e dos Virgem Suta que vão cruzar vozes, instrumentos e canções num espectáculo único especialmente concebido para o Lisboa Mistura.

Omiri
Omiri é, acima de tudo, remix, a cultura do século XXI, ao misturar num só espectáculo práticas musicais já esquecidas, tornando-as permeáveis e acessíveis à cultura dos nossos dias, isto é, sincronizando formas e músicas da nossa tradição rural com a linguagem da cultura urbana. Com recolhas de imagem realizadas por Tiago Pereira, transformadas e manipuladas em tempo real, servindo de base para a composição e improvisação musical de Vasco Ribeiro Casais.

Irmãos Makossa
Da amizade nasceu o nome Irmãos, da paixão pela música, surgiu Makossa e juntos, Paolo e Nelson formam os Irmãos Makossa. Do Afrobeat à Marrabenta, do Soukous ao Funk, passando pelo caloroso Semba e sem esquecer o Samba, dança e alegria são sempre bons motivos para uma grande festa!!!

Festa Intercultural
O Lisboa Mistura apresenta o tradicional encontro de culturas, que este ano contará com a participação de grupos oriundos da Ucrânia, Índia, Guiné e Brasil, entre outros, numa festa para todas as idades, pautada pelo humor de Jel, o ‘homem da luta’, como Mestre de Cerimónias.

Viagens Exóticas – Gamelão e Dança
Trata-se de um espectáculo inédito, que oferece ao público a possibilidade de sentir o sabor de uma viagem exótica e cativante, entre a Indonésia (Ilha de Java), a Índia e o Ocidente, através da música, imagem e dança. Tudo isto vai criar um espectáculo único, misturando nesta viagem duas culturas orientais com a cultura ocidental. Uma fusão cheia de poesia e linguagem corporal e musical, uma ponte entre culturas e pessoas. Yogistragong é um grupo Lisboeta de Gamelão de Java, dirigido por Elizabeth Davis e que neste espectáculo contará com a colaboração da bailarina Lajja Sambhavnath e da Compania de Dança Diana Rego."

20 junho, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (V)


Os poetas que vão ao rock
por António Pires, Publicado em 06 de Agosto de 2009

O rock e a poesia sempre andaram de mãos dadas. E, em muitos casos, com resultados que fazem do rock a melhor plataforma "editorial" para os poemas dos seus autores, sejam eles também os seus cantores/intérpretes ou não. Mais especificamente, há poetas para quem a música foi o veículo encontrado para assim darem a conhecer o seu trabalho a muito mais gente do que aquela que habitualmente lê poesia: Leonard Cohen, Laurie Anderson, Gil Scott-Heron ou Ursula Rucker (para além de um número infindável de MC do hip-hop) são apenas alguns exemplos.

Em Portugal, nos últimos meses, três poetas "de raiz" - ou, se se preferir, três escritores que também são poetas - editaram temas em que se revelam como declamadores ou cantores. Tiago Gomes - já há muito ligado ao circuito musical, quer como letrista (A Naifa/Linha da Frente), quer como performer/diseur (Os Inspectores), lançou com Tó Trips (Dead Combo) um álbum dedicado a Jack Kerouac, "Vi-os Desaparecer na Noite", com textos de "On the Road" adaptados ou "improvisados" por Tiago Gomes. Jacinto Lucas Pires editou o EP de estreia d'Os Quais (na foto), "Meio Disco", onde também canta, e muito bem!... E valter hugo mãe surpreende igualmente com a sua voz - muito semelhante à de Antony Hegarty - no tema "Meio Bicho e Fogo" da banda Governo, em que é acompanhado por músicos dos Mão Morta. É tão bom ouvi-los quanto lê-los, ou um bocadinho ainda melhor.




Nova música tradicional portuguesa
por António Pires, Publicado em 13 de Agosto de 2009

Desde há alguns meses, nesta coluna, têm sido referidos vários nomes de artistas e grupos portugueses que cruzam, sem complexos, o fado com outras linguagens musicais (de Mísia aos Deolinda e OqueStrada) ou a chamada música ligeira portuguesa dos anos 60 e 70 com a modernidade (Real Combo Lisbonense, Rui Reininho, David Fonseca). Hoje chegou a vez de uma outra tendência actual, e mais que saudável, de mistura de uma música enraizadamente portuguesa - do interior, das aldeias, de um canto antigo, e agora de novo tão actual - com o rock e seus derivados.

Filhos de José Afonso, das recolhas de Michel Giacometti e de outros, da Brigada Victor Jara e dos Gaiteiros de Lisboa, de Júlio Pereira e de Rui Júnior, do festival Andanças e do Intercéltico do Porto, grupos como os Dazkarieh, Assobio, Uxu Kalhus, Fadomorse (na foto), Toques do Caramulo, Pé na Terra, Marenostrum, Mandrágora ou Diabo a Sete (entre muitos outros) mantêm viva, porque renovada, a memória da música tradicional portuguesa. Há quem electrifique os instrumentos e da tradição faça uma bela distorção (Dazkarieh); há quem inclua mil músicas - do hip-hop ao funk e a Frank Zappa - nesta nova música portuguesa (Fadomorse ou Uxu Kalhus); há quem recupere o rock progressivo para revificar a nossa e outras músicas (Mandrágora).

E há cada vez mais gente do rock, do rock mesmo, a seguir as mesmas ou semelhantes pisadas: B Fachada, Diabo na Cruz, Virgem Suta ou Ludo. Mas estes ficam para a próxima semana.


Nova música tradicional portuguesa (II)
por António Pires, Publicado em 20 de Agosto de 2009

Se a semana passada se falou de grupos que partem da música tradicional portuguesa para chegar ao rock, aqui fala-se de outros grupos e artistas, que partem do rock para chegar à música tradicional, uma linhagem que teve em nomes do passado como o Conjunto Mistério (nos anos 60), a Banda do Casaco (nos 70), António Variações (nos 80) e os Sitiados (anos 90), exemplos maiores de gente que tinha um pé na modernidade e outro na memória da música portuguesa rural.

Actualmente, uma nova fornada de nomes vem juntar-se a este clube: os algarvios Ludo, que fazem uma excelente e actualíssima pop, mas deixam bem expressa a sua portugalidade no início do EP "Nascituro", com uns bombos que partem de Lavacolhos para o espaço. Os Virgem Suta, que na canção "Vovó Joaquina" mergulham na tradição via António Variações (e... Ornatos Violeta). João Coração, que finaliza o seu magnífico álbum "Muda Que Muda" (em que passa pelos Talking Heads, Jorge Palma, a country-americana...) com "Abre a Janela", uma canção em que se ouve música tradicional portuguesa revista por Fausto e Júlio Pereira. B Fachada, com a sua releitura brilhante do centenário - e sangrento, como muitos outros poemas do romanceiro nacional - romance "D. Filomena". E, acima de todos, os Diabo na Cruz (na foto), um supergrupo nacional que junta Jorge Cruz, B Fachada e Bernardo Barata, entre outros, na união definitiva e quase perfeita do melhor rock com a tradição portuguesa que se pode ouvir. Bastam os quatro temas do "Dona Ligeirinha EP" para nos rendermos a essa evidência.

22 setembro, 2009

d'Orfeu - Vêm Aí Mais Três Festivais!


São logo três, quase de uma vez: o OuTonalidades (em que dezenas de grupos nacionais e galegos visitam muitos locais de Portugal e da Galiza, a começar já no dia 25 de Setembro, decorrendo até 19 de Dezembro); e, em Águeda, O Gesto Orelhudo (festival de música, humor, teatro, mímica...), de 2 a 9 de Outubro, e com outro festival lá dentro, o Festival i, dedicado ao público infanto-juvenil (dias 4 e 5 de Outubro). Os nomes dos participantes nestes dois festivais seguem aqui mais à frente, os do OuTonalidades vão já aqui: Fadomorse (na foto), Som do Galpóm, Taberna Revisitada, Mu, Son+d2, Mistura Pura, Raspa de Tacho, OliveTreeDance, Fases da Lua, Velha Gaiteira, Samasati, A Barca dos Castiços, Pé na Terra, De Outra Margem, Ósmavati, Beatriz Portugal Jazz Quintet, Paul da Silva, Carmen Dor, Banda Potemkin, Uxu Kalhus, Chauffeur Navarrus, Country Dust, Quarteto Sofia Ribeiro, Bukowski Blues Trio?, Aló Django, Coanhadeira, Amar Guitarra, Lamatumbá, Comcordas, Quimera Quinteto, Portrait, Toques do Caramulo, Modulok Trio, Noiserv e Trisonte.


OUTONALIDADES:

«Quando, a 24 de Setembro, arrancar o roteiro de 74 concertos desta 13º edição do OuTonalidades, um mapa imaginário unirá os 24 espaços de música ao vivo que compõem esta grande rede que se estende de Ferrol, no topo norte da Galiza, até Tavira, em plena costa algarvia. A relação transfronteiriça com a Galiza desde 2008, fruto do convénio entre d’Orfeu e AGADIC, veio apurar o modelo do evento coordenado, sempre em franca expansão geográfica, pela associação aguedense.

Um grande evento dedicado ao pequeno formato: assim se entende o OuTonalidades, cada vez mais. Pelas novas oportunidades de circulação que proporciona a dezenas de pequenos grupos e artistas. E pela inigualável bolsa de programação de que beneficia o nicho cultural de espaços de música ao vivo, bares associativos e cafés-concerto que constitui, a cada edição, a rede do OuTonalidades.

Este ano, inscreveram-se 217 grupos portugueses e galegos, dos quais, numa 1ª fase, foram pré-seleccionados 95. Após um longo processo de programação, em função das preferências dos espaços parceiros, o cartaz de 2009 apresenta um total de 33 grupos que farão os 74 concertos do circuito. Em 2009, o evento cresce em número de espaços, de grupos e de concertos programados, tanto em Portugal como na Galiza. A cooperação iniciada em 2008 entre o OuTonalidades e a Rede Galega de Música ao Vivo, circuitos congéneres dos dois lados da fronteira, proporciona agora a presença de 7 grupos portugueses na Galiza e 11 grupos galegos em Portugal, num total de 47 concertos em regime de intercâmbio.

De 24 de Setembro a 19 de Dezembro, durante 13 fins-de-semana, o cartaz vai do jazz ao tradicional, do rock ao fado, do ska aos blues, do experimental às músicas do mundo. A festa e a diversidade são marcas distintivas das programações do OuTonalidades, evento rotativo de música ao vivo que começou por ser, há treze anos, um pequeno circuito local de bares em Águeda, cidade que continua a ser epicentro do circuito agora luso-galaico».

O GESTO ORELHUDO E FESTIVAL I:

«Já é conhecido o programa do 8º Festival ‘O Gesto Orelhudo’, certame de referência dedicado à musicomédia internacional que se realiza em Águeda. Abre com uma estrela mundial - Michel Lauzière - no Cine-Teatro São Pedro e prossegue toda a semana na Tenda do Espaço d’Orfeu. A edição deste ano, de 2 a 9 de Outubro, reserva ainda espaço para o surgimento de um cartaz dedicado ao público infantil e familiar, o Festival i, nas tardes de 4 e 5 de Outubro, com programação non-stop repartida por vários espaços da cidade.

Este ano, são destaques d’ O Gesto Orelhudo a excentricidade musical do canadiano Michel Lauzière, as acrobacias dos musiclowns italianos Teatro Necesario, as incríveis e pouco convencionais marionetas do catalão Jordi Bertran, a irresistível animação de rua dos britânicos The Hot Potato Syncopators, a comicidade musical dos italianos Microband - que regressam este ano -, a delícia do teatro músico-gestual dos Peripécia, o irónico choques de culturas de Africanízate da dupla Carlos Branco / Manecas Costa, a estupenda presença cénica dos norte-americanos Moriarty e a inigualável revolução dos Homens da Luta.

Entretanto, nos dias 4 e 5 de Outubro (domingo e segunda-feira feriado), apresenta-se a mais fresca novidade do calendário cultural d’Orfeu: o Festival i, um evento dedicado ao público infantil e familiar, após as bem sucedidas experiências pontuais de programação para este segmento nos últimos dois anos. O programa do festival i, non-stop em ambos os dias, apresenta a consagrada Companhia do Chapitô, as marionetas do catalão Jordi Bertran, o espectáculo músico-teatral do tubista Sérgio Carolino com a SA Marionetas, o projecto de percussão Crassh, as danças para crianças de Carlos Alves com coros infantis, as novas tecnologias da Miso Music, a excentricidade de Niño Costrini, os chapéus de Oswaldo Maggi, os contos infantis do Pinto Pançudo e ainda, pelas manhãs, duas diferentes propostas artísticas para bebés.

A 8ª edição do Festival “O Gesto Orelhudo”, tal como o novo Festival i, é uma co-produção da d’Orfeu Associação Cultural e da Câmara Municipal de Águeda, com o apoio oficial do Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes, para além de uma imensa série de apoios locais, regionais e nacionais, para um festival que é uma referência temática no país e um dos grandes veículos de projecção cultural exterior da cidade de Águeda».

Programa detalhado d'O gesto Orelhudo, aqui.

Programa detalhado do Festival i, aqui.

Programa detalhado do OuTonalidades, aqui e aqui.

11 junho, 2008

Folk e World Feitas em Portugal - Relatório de Existências


Os últimos meses têm sido riquíssimos em edições de música portuguesa que navega pela música tradicional, seja ela portuguesa ou de outras proveniências - e muita dela também pelo rock ou pelo hip-hop ou por onde quer que seja... - mas toda ela feita em Portugal. Hoje, fala-se aqui dos discos, novos, dos Gnomon, Pé na Terra, Fadomorse, Mu, Kumpa'nia Al-gazarra, Tucanas, Mandrágora, Melech Mechaya, Dead Combo, Projecto Fuga (na foto), Joana Pessoa e Navegante. Uma dúzia inteira de discos!!


DEAD COMBO - «LUSITÂNIA PLAYBOYS» (Dead & Company/Universal Music Portugal)


E, ao terceiro álbum, os Dead Combo têm um disco que roça a perfeição. A sua linguagem está completamente estruturada e com um léxico cada vez mais próprio... Continuam por lá, é certo, as referências primordiais a Morricone, a Badalamenti e Ry Cooder, a Carlos Paredes e ao fado de Lisboa, mas avançando cada vez mais para outras paisagens sonoras onde se encontram a música «exotica» (na extraordinária e encantatória versão de «Like a Drug», dos Queens of The Stone Age, com a cantora Ana Lains a brilhar lá em cima), o son cubano transformado em fado e Durutti Column (em «Cuba 1970») ou a recolha de Michel Giacometti do «Canto de Trabalho» dos pescadores de Ovar usada como mote para uns blues ácidos (em «Canção do Trabalho D.C.»). A presença de convidados ilustres como Howe Gelb, Kid Congo Powers, Nuno Rafael, Carlos Bica ou Alexandre Frazão ajudam a dar a este «Lusitânia Playboys» os «efeitos especiais» que um filme destes precisa.


FADOMORSE - «FOLKLORE HARDCORE» (Hepta Trad/Compact Records)


O Hugo Correia é um génio, um louco, um Frank Zappa de alguma forma reencarnado num rapaz transmontano que tanto gosta de músicas tradicionais de várias proveniências como de jazz, de rock, de hip-hop, de música clássica?... Se calhar é isso tudo, mas ainda bem... Hiper-activo, mentor, músico e compositor de não se sabe bem quantos projectos musicais - Só Vicente, Triste Sistre, Upsz Jazz, DeusSémen, Vipassana, entre outros -, Hugo Correia tem nos Fadomorse o seu projecto mais conhecido. Um projecto que, ao fim de vários álbuns, cristaliza em «Folklore Hardcore» o melhor que antes já tinha «ameaçado» fazer. E se nos discos anteriores, o cacharolete interminável de referências musicais dos Fadomorse dava por vezes uma amálgama confusa e atabalhoada, neste novo álbum tudo - e quando se diz tudo é mesmo tudo, de recolhas de temas tradicionais ao hip-hop, de gaitas-de-foles a sitares, de uma voz feminina que parece a Dulce Pontes sem os trejeitos a citações dos Procol Harum ou do «Avé Avé Maria» até ao kuduro arraçado de música transmontana e galega (!!) ou ao drum'n'bass arraçada de ragas indianas e riffs punk hardcore (!!!) - faz sentido e contribui por igual para um álbum fresco, inventivo e surpreendente. E com um sentido de humor, felizmente, incorrigível.

GNOMON - «GNOMON» (Edição de Autor)


É um EP de estreia com apenas três temas (embora o terceiro tenha vários «actos»), mas que deixam água na boca para o que vem aí a seguir. Os Gnomon são um grupo de Joane que vai à música tradicional portuguesa e à folk - e vai lá tanto via nomes portugueses como José Afonso, Trovante, Brigada Victor Jara e Banda do Casaco como via folk britânica da tendência mais psicadélica, jazzy e progressiva - sem medos nem preconceitos. Soam de alguma forma a anos 60 e 70, mas soam muito bem. Neste EP promocional estão os temas «Paz do Gerês», «Uvas do Monte» e os lindíssimos «actos» de «Rosa dos Ventos». Os Gnomon são Tiago Machado (guitarra acústica), Carlos Ribeiro (guitarra eléctrica), Mário Gonçalves (bateria), Carlos Barros (percussão), Rui Ferreira (piano, acordeão e cavaquinho), David Leão (flauta transversal e gaita-de-foles) e João Guimarães (baixo eléctrico) e deles se espera agora um álbum inteiro.


JOANA PESSOA - «FLUIR» (iPlay)


O trabalho de renovação da música portuguesa de raiz tradicional já passou por várias fases - de José Afonso à Banda do Casaco, dos Ocaso Épico aos Madredeus, dos Trovante aos Sitiados, de Né Ladeiras e dos Gaiteiros de Lisboa aos Chuchurumel ou aos Xaile... - e tem agora, em Joana Pessoa, mais uma tentativa de tornar o antigo... novo. Uma tarefa que neste álbum de estreia da cantora, produzido por Rodrigo Serrão, fica pela metade: há nele uma tentativa honesta de revitalização de temas tradicionais já conhecidos noutras vozes («Este Linho É Mourisco», «Altinho» ou o romance «Oh Laurinda, Linda Linda») e de uma versão de José Afonso («Era Um Redondo Vocábulo»), mas às vezes as programações electrónicas, a secção de cordas ou uma guitarra portuguesa deslocada dão ao «todo» um lado artificial que o «todo» não merecia. (texto originalmente publicado na revista «Time Out Lisboa»)


KUMPA'NIA AL-GAZARRA - «KUMPA'NIA AL-GAZARRA» (Edição de Autor)


A vida da Kumpania Algazarra (ou, se não nos perdermos entre apóstrofos e hífens, Kumpa'nia Al-gazarra) tem sido feita nas ruas, em praças, em festivais - um dos primeiros concertos do grupo, no Andanças, foi um marco deste festival - e muita da sua arte perde-se quando transposta para o formato CD. É que se uma fotografia do Homem-Estátua da Rua Augusta não é muito diferente de assistir a uma performance do Homem-Estátua da Rua Augusta, num CD perde-se boa parte daquilo que a Kumpania Algazarra é ao vivo: a espontaneidade, a interacção com as pessoas, a improvisação, a dança compulsiva. Mas, felizmente, o fundamental da arte da Kumpania até está preservado neste álbum de estreia do grupo: a sua alegria a fazer música, o seu domínio de instrumentos - muitos sopros, acordeão, contrabaixo, percussões, voz -, o seu sentido de humor (oiça-se, por exemplo, «Supercali», uma balcanice cantada em português com o «Mary Poppins» como referência), as suas influências vindas de vários pontos do globo, mas perfeitamente digeridas por este bando de portugueses (e alguns estrangeiros): a música cigana dos Balcãs, o son cubano, o afro-beat, o ska, o reggae, o swing, o klezmer, o gnawa, o rock da antiga esfera soviética (da Rússia, da Ucrânia, da ex-Jugoslávia), tudo separado ou tudo junto em alguns «cocktails» de música inesperada e excitante. Um belo exemplo é «Maribor», onde vários géneros convivem facilmente e como se sempre tivessem estado assim unidos. Os Kumpania Algazarra podem facilmente agradar a fãs dos Clash, Madness, Fela Kuti, Klezmatics, Gogol Bordello, Buena Vista Social Club, Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, Fanfare Ciocarlia, Blasted Mechanism, Manu Chao, Bob Marley, Rachid Taha, Nogu Svelo ou Leningrad. Isto é, a tudo quanto é festa pegada. (texto originalmente publicado na revista «Time Out Lisboa»)



MANDRÁGORA - «ESCARPA» (Hepta Trad/Compact Records)



Oiço este segundo álbum dos Mandrágora e não consigo deixar de pensar como seria bom ler um texto do Fernando Magalhães sobre ele. Porque está aqui, neste álbum, tudo o que o Fernando mais gostava: um amor imenso à música tradicional portuguesa mas um amor que não se fecha em si próprio, antes abrindo-se a muitas, tantas, outras músicas: a folk galega, inglesa, irlandesa, escocesa e escandinava, o rock progressivo e psicadélico, as derivações jazz, as doses certas de experimentalismo, aventura e arrojo. «Escarpa», dos Mandrágora, eleva este grupo portuense ao patamar dos grandes grupos folk europeus da actualidade. E é justo que eles lá estejam! Para além de Filipa Santos (flautas, saxofone e gaita-de-foles), Ricardo Lopes (percussões, flautas e throat-singing), Pedro Viana (guitarra clássica), Sérgio Calisto (violoncelo, moraharpa, bouzouki e nyckelharpa) e João Serrador (baixo), em «Escarpa» colaboraram Simone Bottasso (acordeão diatónico), Matteo Dorigo (sanfona), a cantora Helena Madeira, do Projecto Iara, no hipnótico e selvático «Turbilhão», e Francisco Silva (aka Old Jerusalem) a dar a voz e a guitarra à deliciosa canção - canção mesmo! - que é «Abaixo Esta Serra».


MELECH MECHAYA - «MELECH MECHAYA» (Edição de Autor)


Que se saiba nenhum dos almadenses Melech Mechaya é judeu, mas isso também não interessa nada (não é preciso ser jamaicano para fazer reggae ou de Liverpool para se fazer música influenciada pelos Beatles): a verdade é que o grupo toca klezmer e que o toca muitíssimo bem!! Eles ao vivo são uma maravilha e neste EP de estreia, com cinco temas, está apenas uma amostra daquilo que eles são: festivos, inventivos, dançantes, por vezes doidos varridos, a irem à música dos judeus do centro e norte europeu como se esta fosse a coisa mais natural para quem vive na margem sul do Tejo. Em três temas originais do grupo - «Noite Tribal», «Zemerl Biffs» e «Fresta Fresca» - e duas versões - «Bulgar de Odessa» (Ucrânia) e «Miserlou» (o tema grego que Dick Dale popularizou) -, o quinteto passa pelo klezmer e por alusões a outras músicas suas irmãs, da música árabe à música cigana dos Balcãs, com uma facilidade e uma alegria contagiantes. Não é tão bom ouvir o EP quanto é vê-los ao vivo, mas já é uma aproximação.


MU - «CASA NOSTRA» (Edição de Autor)


De onde é que vem esta música que não se sabe bem de onde vem?... Nos Mu - e, recorde-se, Mu era o nome de um mítico continente perdido, terra de atlantes, sereias e outros seres míticos - a música parece vir de todo o lado e de um lado só deles, dali de dentro, das suas almas e dos seus corações. Se calhar, os Mu recriam sem o saber temas tradicionais de Mu, o continente do Oceano Pacífico onde se teriam cruzado povos ainda agora existentes e outros que deixaram de existir, seres verdadeiros e imaginários, se é que a verdade e a imaginação não são uma e a mesma coisa, como o são na música dos Mu. Porque uma música que tem tanto de verdade como de... imaginação. E uma alegria e um brilho imensos, um encanto permanente tanto nos temas originais - mas que reflectem tantas e tantas músicas de tantos e tantos lugares! - como nas versões de tradicionais russos ou húngaros. A música dos portuenses Mu serve para dançar, serve agora ao segundo álbum (este «Casa Nostra» em que tem como colaboradores Helena Madeira, do Projecto Iara, o grupo de percussões Semente e Quico Serrano como produtor) como já servia ao primeiro, mas serve também para ensinar a ouvir - a ouvir a sua música e a de muitos outros. E isso é o que torna os discípulos mestres.


NAVEGANTE - «MEU BEM MEU MAL» (Tradisom/iPlay)


«Meu Bem Meu Mal», o novo álbum dos Navegante - ainda e sempre liderados por José Barros, embora tenha deixado cair o seu nome do nome do grupo -, é sem dúvida o melhor de sempre deste projecto. E o facto de José Barros ter contado com José Manuel David (dos Gaiteiros de Lisboa) como cúmplice principal nos arranjos e na produção deste disco foi um trunfo importante. Assim como o alargadíssimo leque de convidados presentes: de vários dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Rui Júnior, as txalapartistas bascas Ttukunak, Manuel Rocha, Janita Salomé, João Afonso, Edu Miranda, etc, etc... Mas isso não impede, mais uma vez, uma certa sensação de frustração quando se ouve o álbum de início ao fim e se fica com a sensação de que muitas destas canções - tanto os originais de José Barros quanto os tradicionais adaptados - poderiam, e deveriam, ir muito mais longe em arrojo e aventura. Oiçam-se as excepções, como por exemplo «Sábado d'Aleluia», onde o universo é muito mais Gaiteiros de Lisboa do que Navegante, ou o divertido e fresquinho «Fado do Tu Cá Tu Lá» (um dos dois temas co-compostos por Barros e Amélia Muge), para se perceber o que quero dizer.


PÉ NA TERRA - «PÉ NA TERRA» (Açor)


É tão bonito e fresquinho este álbum de estreia dos Pé na Terra! Um álbum em que se sente um amor enorme pela tradição - quer seja a tradição portuguesa (presente em «Menino Ó» e «Maria Faia») quer por outras tradições de outros lugares (e andam por aqui valsas e chapeloises) quer pela «tradição» que já é a música de José Afonso (a lindíssima e, no final, arrojada versão rock de «Balada do Sino) - e uma vontade de, tomando balanço nessa tradição, avançar para temas originais mas que cheiram a terra, a raízes, a aldeias (aldeias portuguesas, sim, mas também aldeias perdidas no interior da Galiza, de França, das ilhas britânicas...). Depois, Cristina Castro é uma excelente cantora e acordeonista, Ricardo Coelho é um fabuloso gaiteiro e flautista - e neste álbum ele usa gaitas de várias proveniências, low whistle, requinta, gralha, numa panóplia de instrumentos interminável - e o resto da banda - Hélio Ribeiro (guitarras), Adérito Pinto (baixo), Tiago Soares (bateria e percussões variadas) e a convidada permanente Silvana Dias (violoncelo) - dá uma consistência única ao som final do grupo. Abertos, livres de preconceitos e hiper-criativos, os Pé na Terra são já uma das mais importantes bandas folk portuguesas.


PROJECTO FUGA - «01» (Fuga/Compact Records)


E que bela surpresa esta!! «01», o primeiro álbum do Projecto Fuga foi um «work in progress» que juntou um trio «nuclear» - Pedro Pereira (principal compositor e teclados, samples, guitarras...), Maria Pedro (principal letrista) e Milton Batera (bateria) com muitíssimos e diferenciados músicos e cantores convidados: Celina da Piedade (acordeão e voz), JP Simões, o guineense José Galissá (kora e voz), Teresa Gabriel), a brasileira Fernanda Takai (Pato Fu), o cantor nigeriano Enjel Eneh, Ana Deus e Adolfo Luxúria Canibal, entre outros. E em «01» há lugar para tudo o que se possa imaginar: há uma valsinha deliciosa, há alusões à música brasileira e a Fausto (em «De Fugida»), à música árabe, ao jazz, à música africana, ao rock de tendência sixties («Verso Inverso», com a voz de Pedro Bonifrate, dos Supercordas) e de outras tendências, ao fado («Outro Tema»), aos blues («Dakun Baby») e até a algum experimentalismo. «01» não é um álbum homogéneo - e ainda bem! - nem é sempre bom... Mas quando é bom é mesmo muito bom!

TUCANAS - «MARIA CAFÉ» (Spot/Farol)


Muitas delas saídas dos Tocá Rufar, as raparigas das Tucanas sempre foram umas excelentes percussionistas - e sempre tiveram nas percussões a sua base de trabalho primordial (percussões tradicionais ou por elas inventadas, os próprios corpos como instrumento de percussão...) -, mas, a pouco e pouco, também as harmonias vocais foram tomando um papel importantíssimo no seu processo de composição. Finalmente, e para acabar de compor o ramalhete, a adição da acordeonista Marina Henriques deu-lhes a «carpete» melódica e harmónica que muitos dos seus temas precisavam. E este intróito todo é necessário para explicar o grau de excelência, de virtuosismo e de criatividade que «Maria Café», o primeiro álbum das Tucanas, conseguiu atingir. Um grau elevadíssimo, mesmo que não tivesse sido necessário gravar tantos temas para o conseguir. Em «Maria Café», as Tucanas passeiam alegremente pela música africana (anda por lá o batuque cabo-verdiano e muitas outras alusões a África), a música brasileira e latino-americana - mesmo quando a latino-americana se une à... música cigana dos Balcãs (na versão de «Peruano» com a Kumpa'nia Al-gazarra) -, os bailes tradicionais europeus (oiça-se o delicioso final de «Domingão/Niará») e o divertimento puro e simples («Kazoo», com Carmen Miranda incorporada), seguindo os ensinamentos do O Ó Que Som Tem - e está lá Rui Júnior (também seu mestre nos Tocá Rufar) - e das Zap Mama, dos Stomp e de Bobby McFerrin. E seguindo-os muito bem!