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04 dezembro, 2011

A Naifa Vai Ter Novo Álbum... E Lança Um Desafio!


Mais importante do que comemorar a passagem (ou elevação?) do fado a Património Imaterial da Humanidade é perceber que o fado é uma música -- e um espírito, uma identidade, um estado maior que o Estado -- mutante e que é nessa mutabilidade que pode e deve sobreviver. Exemplos: Amália (sempre!), Carlos do Carmo, José Mário Branco, António Variações, Ocaso Épico, Anamar, Heróis do Mar, Nuno Rebelo, Paulo Bragança, Mísia, Ovelha Negra... E mais uns quantos mais recentes e que toda a gente conhece. E, agora, a boa notícia: A Naifa vai ter um novo álbum e, ainda melhor, um álbum em que todos podem participar criativamente... O comunicado oficial reza assim:


"A NAIFA REGRESSA COM NOVO ÁLBUM EM 2012

Depois de em 2010, ter editado o livro/DVD "Esta depressão que me anima", de homenagem a João Aguardela, A Naifa prepara agora o lançamento do quarto álbum de originais.

O novo disco, com 11 canções compostas a partir de textos de Adília Lopes, Ana Paula Inácio, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira e Renata Correia Botelho, tem saída marcada para Fevereiro de 2012.

CONVITE A ARTISTAS GRÁFICOS PARA COLABORAÇÃO NO NOVO DISCO

A Naifa convida artistas plásticos, gráficos, ilustradores, fotógrafos e todos os interessados a desenvolverem propostas de intervenção gráfica com base nos 11 poemas que serão disponibilizados no Facebook d'A Naifa.

Os trabalhos escolhidos irão integrar a arte final do novo álbum"

Todos os detalhes desta iniciativa, aqui.

02 dezembro, 2011

O Povo É Quem Mais Ordena!


Isto de não ter tempo nem para me coçar (ou só mesmo na zona da... zona), dá nisto: há duas semanas que eu e outros DJs dão música a uma nova casa de fados (e não só!) no Cais do Sodré, em Lisboa. É mesmo ao lado do Music Box, os donos são os mesmos, o ambiente é excelente e há petiscos maravilhosos: pataniscas, pimentos de Padron (uns picam, outros non), salada de polvo, pica-pau, etc, etc... E muita música: fados durante os dias de semana -- no mês inicial a fadista tem sido a jovem e hiper-talentosa Inês Pereira -- e muita world music, ora mais ambiental ora mais dançável, nas noites de sexta e sábado. Passem por lá que serão bem-vindos! Todas as informações sobre o Povo na sua página de Facebook: http://pt-br.facebook.com/povolisboa.

23 abril, 2011

Flamenco, Rumba Catalã, Folk e... Fado Vindos de Espanha


Hoje recupero aqui quatro textos publicados originalmente na Time Out Lisboa, todos a propósito de artistas de vários territórios espanhóis e de diversas áreas musicais: críticas a álbuns da maravilhosa cantora de flamenco Concha Buika, da herdeira do espítito dos L'Ham de Foc, Mara Aranda, e dos rumberos catalães Sabor de Gràcia, para além de uma entrevista com a fadista basca María Berasarte (na foto), que depois da edição deste álbum "Todas Las Horas Son Viejas" passou a integrar o projecto Aduf, de José Salgueiro.

Buika
"El Último Trago"
Casa Limon

Abençoada hispanidade que permite a junção de personagens musicais como estas e deste calibre para a realização de um álbum genial: o produtor espanhol Javier Limón (o mesmo que trabalhou no último álbum de Mariza), a extraordinária cantora de flamenco e não só Concha Buika e o fabuloso pianista cubano Chucho Valdés, mais a sua banda, juntaram-se para um disco de homenagem às canções de Chavela Vargas (a lendária cantora nascida na Costa Rica mas mexicana de alma). E o resultado é absolutamente sublime! Ouve-se este disco e, nele, as canções interpretadas por Chavela – e nem por isso as mais óbvias, faltando aqui “La Llorona”, por exemplo – ganham outras cores e sabores com as rancheras e outros ritmos do México a encontrar o flamenco, a rumba, o tango, o jazz. (*****)


Sabor de Gràcia
"Sabor Pa'Rato"
World Village/Harmonia Mundi

A rumba catalã – que está bem presente na música dos Ojos de Brujo mas também aparece como referência recorrente na música de Manu Chao, Amparanoia ou Macaco – tem nos Sabor de Gràcia uns mais que dignos representantes. Ciganos que homenageiam no seu nome o bairro de Barcelona onde os gitanos mesclaram vários palos do flamenco com a salsa e outros ritmos latino-americanos, os Sabor de Gracìa têm neste seu quarto álbum, "Sabor Pa'Rato", uma abordagem à “tradição” (mesmo que nascida nos anos 50 do Séc. XX) semelhante à que os Oquestrada fazem do fado e das marchas: estão lá o rock, o funk e outras músicas mas também o respeito por ícones como Peret e Gato Pérez e, como convidados, Marina Cañailla (Ojos de Brujo), o brasileiro Wagner Pá ou Los Manolos. (***)


Mara Aranda & Solatge
"Dèria"
Galileo

Durante muitos anos foi uma das metades dos L'Ham de Foc, ao lado de Éfren López, com quem viajou pelas músicas da sua cidade (Valência) mas também de outras sonoridades ibéricas, gregas ou árabes, sempre com a memória da música medieval por trás e os ensinamentos dos Hedningarna e dos Dead Can Dance pela frente. E, com ou sem López, entrou noutras aventuras como os Aman Aman (música espanhola, grega e do resto da baía do Mediterrâneo) ou o Al Andaluz Project (música da Andaluzia da Idade Média, num convívio de géneros cristãos, muçulmanos e judeus). Agora, no álbum de estreia do primeiro projecto de Mara em nome próprio (com os Solatge) tudo isto lá continua, vivo e sempre selvaticamente acústico. É um álbum sisudo mas também há lugar para o divertimento gaiato de um fandango. (****)



María Berasarte
O fado que vem do País Basco


Há alguns, mas não muitos, os álbuns de fado gravados por artistas estrangeiros. Mas raros serão os que têm a qualidade, a ousadia e, ao mesmo tempo, um amor tão grande por este género português quanto "Todas Las Horas Son Viejas", disco de estreia da cantora basca María Berasarte, com produção de José Peixoto e letras originais, em castelhano, de Tiago Torres da Silva. Nele, não há guitarra portuguesa, mas há fados tradicionais de Lisboa em novas roupagens e uma belíssima voz a coroar isto tudo. Carlos do Carmo chama-lhe fadista.

O que é que leva uma rapariga basca a interessar-se por um género como o fado?

A minha mãe é galega e tive sempre uma relação muito estreita com Portugal. E desde há muito que comecei a ouvir fado e a apaixonar-me por esta linguagem, que é belíssima. Também gosto de flamenco, mas este é mais duro; gosto mais das melodias do fado. E, quando comecei a falar sobre o que seria o meu primeiro disco, a minha mãe disse-me “Maria, tens que gravar um disco de fados”. Primeiro, não liguei muito mas... isto ficou a maturar na minha cabeça.

Lembra-se de qual foi o primeiro fado que ouviu ou qual a primeira ou primeiro fadista que ouviu?

Foi a Amália Rodrigues. E coincidiu mais ou menos com uma altura em que a Dulce Pontes estava a ter muito sucesso em Espanha com a “Canção do Mar”. Estamos a falar de há treze anos e, nessa altura, não havia muitos discos de fado em Espanha. Mas eu comecei a comprar todos os que encontrava. E aprendi a cantá-los!

Antes da entrevista começar, disse que não quis fazer um disco de fado tradicional porque já há muitos e muito bem feitos. Este álbum, apesar de ter o fado como base navega também por outras músicas como o tango, o flamenco, a música árabe... Acha que há ligações entre todos estes géneros?

Sim. Principalmente, entre as músicas que nascem em cidades portuárias. Sevilha, onde nasceu o flamenco, foi um porto importantíssimo. Lisboa também; Buenos Aires também... as viagens que as músicas
fazem enriquecem-nas. Mas não houve nenhuma intenção inicial de irmos a essas ou outras músicas. A ideia era: vamos tocar, vamos sentir e aí vamos ver o que acontece... Poderíamos ter ido por um lado como por outros. Mas, sendo espanhola e não sendo fadista, tenho mais liberdade para percorrer esses caminhos...

“Fadista” é um carimbo muito forte...

Sim, eu prefiro dizer que sou cantora; também pela liberdade que me dá. Mas quando o Carlos do Carmo me apresentou (NR: no espectáculo comemorativo dos seus 45 anos de carreira) como uma “fadista espanhola” senti um grande orgulho! E participar nessa festa foi é importantíssimo para mim.

O José Peixoto esteve sempre nas margens do fado – lá perto mas sem lá estar. Com os seus projectos a solo, com os Madredeus, o Sal... Ele era o parceiro perfeito para esta aventura, não era?

Sim, claro. Ele foi importantíssimo em tudo isto. Costumo dizer que foi o pai do disco. Os arranjos, a produção, a sonoridade, o sentimento... E acho que para ele também foi importante, porque acho que foi a primeira vez que trabalhou sobre composições feitas há já muito tempo (NR: todas as músicas do disco são fados tradicionais de Lisboa).

Continuando na “família” que fez este disco, se a mãe é a María, se o pai é o José Peixoto, também há um tio...

Que é o Tiago Torres da Silva. Ele deu-nos muita força para fazermos o disco e arriscou ainda mais do que nós, ao fazer letras originais para aqueles fados, directamente em castelhano. E, ainda mais, a fazer letras pensando em mim. Eu gosto de cantar coisas com que me identifico e ele conseguiu conhecer-me.

O disco está a ser agora editado em Portugal e já foi editado em Espanha. Acha que Espanha já está suficientemente familiarizada com o fado para aceitar um álbum como este e... cantado em espanhol?

Em Espanha há muita gente que conhece e gosta de fado. Mas há muita gente que não percebe as palavras do que se canta. Gosto desta ideia de poder explicar, e em castelhano, do que é que o fado fala.

27 julho, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (VII)


O futuro do fado no masculino
por António Pires, Publicado em 17 de Setembro de 2009


Quando se fala de fado - e, principalmente, de novo fado ou de novos fadistas - pensa-se geralmente na geração de novas cantoras, muitas delas excelentíssimas, que o fado de Lisboa gerou nos últimos quinze ou vinte anos: Mísia, Mariza, Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth, Joana Amendoeira, Ana Sofia Varela, Kátia Guerreiro, Cristina Branco, Carminho... A lista é quase infindável. Fala-se menos dos homens, alguns deles com uma qualidade idêntica à de algumas das mulheres referidas, ou por vezes maior. Quando se fala dos homens, vêm sempre à baila - e com justiça, aliás - os irmãos Moutinho: Camané, Hélder e Pedro. Mas não é deles que se fala aqui hoje. É de dois fadistas menos conhecidos mas que merecem ser seguidos com a máxima atenção nos próximos anos: Ricardo Ribeiro e António Zambujo (na foto). Com apenas um álbum, homónimo, em nome próprio - mas com uma parceria fundamental no surpreendente e histórico álbum "Em Português", do mestre do oud libanês Rabih Abou-Khalil, em que o fado se cruza com a música árabe e faz também algumas tangentes ao flamenco -, Ricardo Ribeiro é dono de uma voz (ia escrever "vozeirão") única e completamente arrepiante. Já António Zambujo é o homem que tem na sua voz não apenas as vozes do fado mas também outras vozes (Cateano Veloso, Brel, Antony Hagerty...), e isso faz do seu fado um outro fado, fresco e originalíssimo. É necessário descobri-los e ouvi-los.





Estamos todos com os azuis
por António Pires, Publicado em 24 de Setembro de 2009

Um dos maiores segredos da música feita em Portugal é um grupo que se prepara agora para editar o seu primeiro álbum de estúdio, depois de um outro gravado ao vivo na Capela da Misericórdia de Sines. Chama-se Nobody's Bizness e faz dos melhores blues que se podem ouvir em qualquer parte do mundo. Quem já teve o privilégio de os ver nas suas (agora raras) residências mensais no Catacumbas, Bairro Alto, ou em mais alguns sítios, sabe com o que vai contar. Ou talvez não, porque os Nobody's Bizness também apresentam no disco temas originais, e excelentes!, em que os blues se cruzam com a folk norte-americana, o jazz ou a música country de uma forma original, emotiva e, de certa forma, portuguesa: os blues não estão distantes, na essência e talvez na sua origem ancestral, do fado (como também não o estarão da morna, da milonga ou do chorinho). E os Nobody's Bizness não estão sós nesta releitura à portuguesa dos blues, da country, da folk e de outras formas musicais cristalizadas nos Estados Unidos no século XIX ou inícios do século XX: The Soaked Lamb é outro grupo que parte da nascente dos blues e depois os leva para o céu; Old Jerusalem é um cantautor de enorme talento que vai à folk ianque para a personalizar e transformar; os Unplayable Sofa Guitar pegam na country e fazem dela gato-sapato, electrificando-a e distorcendo-a em rock; e os A Jigsaw (na foto) fazem canções maravilhosas a partir das mesmas bases musicais. Estamos muito bem servidos.




Amália Hoje, Rão Kyao Amanhã?
por António Pires, Publicado em 01 de Outubro de 2009

O incrível sucesso do projecto Hoje - embora muito mais relevante do ponto de vista comercial que artístico, tal como aponta uma das melhores "críticas de música" jamais feitas em Portugal, num sketch d'Os Contemporâneos - é, pelo menos, revelador de que o fado, quando mudado com profissionalismo, tem tantas potencialidades de renovação como o tango (via Gotan Project), o jazz manouche (via Caravan Palace), o flamenco (via Ojos de Brujo) ou a música balcânica (via Shantel), etc. No entanto, o colectivo que já vendeu mais de 40 mil exemplares do seu disco "Amália Hoje" - e que inicia hoje, dia 1, uma mini-digressão de apresentação do disco que o leva à Figueira da Foz, aos Coliseus de Lisboa e Porto e a Vila do Conde - não descobriu a pólvora. No já longínquo ano de 1983, Rão Kyao (na foto), directamente saído do circuito do jazz, teve igualmente um enorme sucesso com o álbum "Fado Bailado", em que o saxofone substituía a voz na interpretação de muitos fados e, muitos deles, bem conhecidos na voz de... Amália Rodrigues. O mesmo Rão Kyao que depois gravaria álbuns próximos do fado como "Viva o Fado", "Fado Virado a Nascente" ou o novíssimo "Em'Cantado", editado esta semana, em que o músico conta com as vozes de fadistas como Camané, Carminho, Ricardo Ribeiro ou Ana Sofia Varela. Vai ser curioso observar como "Em'Cantado" poderá ou não sofrer - para o bem e para o mal - os efeitos do furacão Hoje.

19 agosto, 2009

Dulce Pontes - Há Um Shane MacGowan na Música Portuguesa...



Desde há alguns meses tenho o prazer de escrever no jornal «i». O primeiro texto que publiquei neste jornal tinha como mote esta canção de Dulce Pontes, «Júlia Galdéria», que na minha humilde opinião é o pico maior desta cantora. Pelo arrojo, pela coragem, pela imaginação... Oiçam-na sem preconceitos (ou «listen without prejudice», na tradução livre de George Michael). O texto publicado:

«Há um Shane MacGowan na música portuguesa e ele chama-se... Dulce Pontes! No seu novo álbum, "Encontros" - um "best of" com muitas regravações e novas versões de temas editados anteriormente nos seus álbuns de originais, incluindo parcerias com o tenor José Carreras e com o cantor e músico grego George Dalaras -, Dulce Pontes canta "Júlia Galdéria", adaptação do clássico do fado "Júlia Florista" (popularizado por Amália Rodrigues, Max e Carlos do Carmo, entre outros), que acrescenta alguns pontos ao conto desta mítica fadista, guitarrista e vendedeira de flores do início do Séc.XX. E interpretando-o com voz de bêbeda e de mulher muito mais velha do que os quarenta anos que ela, Dulce Pontes, tem. Mostrei o tema, sem dizer quem o cantava, a várias pessoas e ninguém reconheceu a voz da cantora do Montijo. E os comentários, depois, foram: "Ela passou-se!" ou "Então, agora a Dulce Pontes dá nos copos?". Mas eu prefiro acreditar que a inclusão de "Júlia Galdéria" - do qual gosto muito! - neste álbum é antes um genial golpe de marketing. Há-de ser tão falado quanto o "Sem Eira Nem Beira" (mais popularmente conhecido por "Sr. Engenheiro") dos Xutos & Pontapés.

Nota 1: Aparentemente, ainda ninguém deu por esta minha previsão e esta fabulosa "Júlia Galdéria" (adaptação da "Júlia Florista" feita pelo tio de Dulce Pontes) passou, infelizmente, ao lado de toda a gente...

Nota 2: O teledisco (que eu desconhecia quando escrevi sobre o disco) é, tal como a canção, uma surpresa completa: a recriação, genial e animada!, do quadro "O Fado", de José Malhoa (o pintor, não o cantor pimba, claro!).

17 fevereiro, 2009

Helder Moutinho - Os Fados Que Ele Nos Traz


A propósito de um dos melhores álbuns de fado editados nos últimos anos em Portugal, «Que Fado É Este Que Trago?», de Helder Moutinho, aqui recupero a crítica ao disco e a entrevista com o cantor, compositor e letrista que foram originalmente publicadas na revista «Time Out Lisboa» há alguns meses.


HELDER MOUTINHO
«QUE FADO É ESTE QUE TRAGO?»
HM Música/Farol

Manager, agente, editor, Helder Moutinho é - acima disso tudo - um grande fadista, dos maiores que o fado nos deu na última década. De voz contida, grave, por vezes a fazer lembrar crooners como Bing Crosby, Frank Sinatra ou Johnny Hartman… E um autor de excelência, compositor de músicas e, mais ainda, um poeta que escreve para a sua própria voz - neste novo álbum, «Que Fado É Este Que Trago?», oito dos quinze temas têm letra de Helder Moutinho - e para a voz de muitos outros e outras fadistas. Como se isto tudo não bastasse, Helder Moutinho é ainda um estudioso e um pensador do fado, do fado antigo e dos fados que se poderão fazer no futuro, não sendo portanto de espantar que este seu terceiro álbum seja uma reflexão - inteligente - sobre a essência do fado e quais os caminhos que percorreu e irá percorrer. E uma reflexão que não se limita, nunca, à teoria, mas que apresenta exemplos práticos - e musicalmente e liricamente extraordinários, muitos deles - de como se pode renovar o fado tradicional (exemplos: «Perdi-me nos Olhos Teus», em que Helder Moutinho encaixa na perfeição um poema seu no Fado Mouraria, e «A Cor dos Olhos», em que a utilização de acordeão e percussões faz o fado conviver naturalmente com o fandango), de como a ponte entre o fado tradicional e muito do novo fado foi feito através do fado-canção (exemplo: o belíssimo «Esta Voz», com letra de Helder Moutinho e música do guitarrista Ricardo Parreira, que parece uma homenagem a Carlos do Carmo e à poesia de Ary dos Santos) ou como pode haver boa pop - pop mesmo! - no fado («À Espera de Uma Paixão», novamente com letra de Moutinho e com música de Yami). (*****)


SOB O FOCO
HELDER MOUTINHO

Homem de sete ofícios - mas sempre com o fado como fio que os une a todos -, Helder Moutinho acaba de editar um novo álbum, «Que Fado É Este Que Trago?», uma pergunta que tem várias respostas mas que se resumem numa só: o seu enorme amor ao fado, ao antigo das vielas de Alfama ou da Madragoa, ou aos outros, outros fados, que aí virão ou que, nele, já convivem com a tradição. Porque o fado até pode ser «maldito» sem deixar de ser possível trocar as voltas ao destino.

A primeira pergunta, inevitável, é: afinal, que fado é este que trazes?

Se eu próprio faço essa pergunta, é porque também não sei muito bem. É o meu fado, o fado em que eu acredito. E é todo o fado, desde o tradicional até aos chamados fados-canção e aos originais, que ainda não sabemos muito bem se são fados e que, obviamente, ainda não são clássicos porque são novos, embora um dia possam vir a ser considerados como tal se forem aceites pelo grande público e até pela comunidade fadista. Sei que sou fadista, não caí aqui de pára-quedas, mas no fundo não sei lá muito bem qual é o meu fado.

Neste álbum, criaste ou recriaste fados ao jeito tradicional, embora com letras ou músicas novas…

Sim. O «Labirinto ou Não foi Nada» tem letra de David Mourão-Ferreira mas a música é minha, uma música que eu compus com a estrutura de um fado tradicional, sem refrão. E chamei-lhe Fado Labirinto porque muitas das músicas de fados antigos onde podem caber várias letras diferentes assumem o nome da letra original - por exemplo, o Fado Cravo, do Alfredo Marceneiro, chama-se assim porque a letra original falava de um cravo.

O tema que dá nome ao disco, «Que Fado É Este Que Trago?», levanta uma questão curiosa: a música é do Yami, que é angolano. E há quem diga que o fado nasceu em Angola, viajando depois para o Brasil e do Brasil para cá…

Pois, mas este fado não tem nada a ver com isso. O Yami tem uma particularidade interessante: ele nasceu em Angola, filho de mãe angolana, mas o pai é minhoto. Mas, apesar de na sua maneira de tocar ele ter muitas raízes africanas, ele veio para Portugal muito novo e está muito integrado no meio do fado. Ele toca baixo com outros fadistas e comigo sempre. Em relação à origem do fado, acho que ele nasce a partir de uma série de outros estilos musicais que se encontram numa cidade portuária, Lisboa. E essas influências vêm de Angola, do Brasil - para onde nós também levámos muitas músicas -, Índia, Moçambique… e é bom não esquecer os 700 anos em que os mouros cá estiveram. E o fado é a convergência dessas melodias todas.

Neste álbum - à semelhança do que já acontecia no teu espectáculo «Maldito Fado» - há alguns instrumentos exteriores ao formato do fado: o acordeão e as percussões.

Sim, e o «Maldito Fado» - que esteve para ser este meu novo álbum, e gravado ao vivo - teve bastante influência na génese deste disco de estúdio. Os outros instrumentos… não são uma novidade - a Amália e o Carlos do Carmo fizeram-no - mas foi uma experiência que decidi fazer, porque são instrumentos vindos de outros géneros musicais. Como se fossem outras perguntas que eu faço.

23 janeiro, 2009

Lula Pena e Norberto Lobo - Um Encontro Feito no Céu


É o melhor encontro (improvável... ou nem por isso tão improvável quanto isso) da estação: uma das melhores cantoras portuguesas (e não só!!) junta-se a um dos melhores guitarristas portugueses (e não só!!) para um concerto único e que se espera inesquecível: Lula Pena (a cantora) e Norberto Lobo (o guitarrista) actuam amanhã, na ZDB, em Lisboa... E eu espero ter bilhetes (dois, pelo menos). A seguir, o comunicado da ZDB. que lhes faz toda a justiça:


«Sábado, 24 de Janeiro às 23h00

LULA PENA & NORBERTO LOBO (PT)

A convite da ZDB, Lula Pena e Norberto Lobo encontram-se pela primeira vez em palco para um concerto em conjunto, concretizando os esboços traçados num breve e fortuito encontro na edição de 2008 do Festival Bom, no Barreiro.

O acaso juntou-os, e juntos descobrem agora as palpitações da forma, estabelecem cadeias de relação, encadeiam experiências na procura da emoção pura. Voz e guitarra que ficam na pele, como se tivesse sido sempre assim, como se não pudesse ser de outro modo.


Lula Pena
Lula Pena ouve sons e quer expressá-los através do seu corpo, tendo como instrumento uma voz; como som do rio a tremer, da terra a respirar, do céu a crescer. Uma voz, um apelo da memória de alguém que ouve com os sentidos todos e quer revelar, naturalmente, as conversas secretas com o seu próprio coração; esse músculo vermelho e esponjoso, que sobrevive de irrigações constantes e vive de ritmos ora mais lentos ora mais rápidos.
Ela sente a idade da terra e o peso de tão grande dimensão, quer cantar as suas memórias mais antigas, quer cantar as raízes do mundo com a fatalidade de quem sabe que a vida é curta para tão longa viagem. Dar a voz ao canto da fatalidade. Da lonjura. Do destino. Da tragédia.
(...)
Musicalmente, pretende mexer na raiz do fado inventado por Amália, na raiz da música inventada por Caetano Veloso e Chico Buarque, na raiz da morna de Cesária Évora, nas raízes Populares de autores anónimos. O caminho é muito longo e a vida muito curta, Lula Pena aceita a tragédia e quer protagonizá-la... Hoje lusófona, amanhã árabe, depois africana... A fusão musical de raízes comuns e distintas, próximas e longínquas. Os desafios, os riscos e as metas, o culminar duma crença – a Terra mãe de todas as músicas – isto é Lula Pena.
In www.attambur.com

+ Info: Myspace|Vídeo|vídeo|Entrevista


Norberto Lobo
Com apenas uma guitarra, invariavelmente acústica, Norberto Lobo - 26 anos de Lisboa inscritos na pele - procede a um pequeno grande milagre. O seu recente "Mudar de Bina", concentra em pouco mais de trinta minutos, dez imaculadas canções - sempre instrumentais - de uma maturidade rara, num todo profundamente português. Traz Carlos Paredes no coração, dedicando-lhe o disco. Mas a música do jovem guitarrista apropria-se de outros elementos: as melodias e as harmonias tanto evocam a nossa música popular, como sugerem anos e anos a ouvir e tocar música brasileira. O dedilhado recorda-nos os ensinamentos de John Fahey e toda a Escola Takoma. Apesar da curta carreira, Norberto Lobo já partilhou palcos com incontornáveis como Devendra Banhart, Larkin Grimm ou Lhasa».

06 novembro, 2008

Grão - Nova Editora Lança Discos de Maria João Quadros e El Fad


Tiago Torres da Silva - reconhecido poeta e letrista que já colaborou com variadíssimos artistas e compositores portugueses e brasileiros - fundou uma editora, a Grão, onde vai lançar projectos próprios ou exteriores ao seu trabalho mas com os quais se sente especialmente identificado. Para já, os primeiros lançamentos da Grão são um originalíssimo álbum da fadista Maria João Quadros, em que ela canta poemas de Tiago Torres da Silva musicados por compositores brasileiros, e um álbum ao vivo do projecto El Fad, do guitarrista José Peixoto (na foto).

«Fado Mulato», de Maria João Quadros, é um álbum único no universo do fado: aqui ela canta poemas de Tiago Torres da Silva (com duas excepções - uma letra de Paulo César Pinheiro e «Gota de Água», com letra e música de Chico Buarque), sobre fados compostos por vários autores brasileiros, nomeadamente Ivan Lins, Zeca Baleiro, Olivia Byington, Pedro Luís (de Pedro Luís e A Parede), Chico César e Francis Hime, entre outros. E neste álbum - que visita os universos do fado mas também os de vários géneros brasileiros, do tango e da música cabo-verdiana - participam como convidados especiais os cantores Tito Paris, Olivia Byington e Francis Hime, Custódio Castelo na guitarra portuguesa e Pedro Jóia e José Peixoto na guitarra clássica.

No projecto El Fad, do guitarrista e compositor José Peixoto - que nos últimos anos tem repartido o seu tempo pelos Madredeus, pelos Sal, por parcerias com Maria João ou Fernando Júdice, entre outros - participam também Carlos Zíngaro (violino), Miguel Leiria Pereira (contrabaixo) e Vicky (bateria). O álbum agora editado, «Vivo», foi gravado em concertos no Auditório Fernando Lopes Graça (Almada), Onda Jazz (Lisboa) e Tambor Q Fala (Seixal), realizados em Dezembro de 2007. O primeiro álbum do projecto El Fad tinha sido editado em 1988 com uma formação completamente diferente em que José Peixoto era acompanhado por Martin Fredebeul (saxofone alto e soprano, flauta e clarinete baixo), Klaus Nymark (trombone), Mário Laginha (piano e sintetizador), Carlos Bica (contrabaixo), José Martins (percussões e sintetizador) e Mário Barreiros (bateria).

04 novembro, 2008

Mafalda Arnauth - Mais Flor Que Fado


Sempre na linha da frente da renovação do fado, a cantora e compositora Mafalda Arnauth editou há algumas semanas o seu novo álbum, «Flor de Fado». Aqui, para fãs e simples curiosos, deixo a transcrição da entrevista que lhe fiz para a «Time Out Lisboa» e da crítica ao álbum, igualmente publicada na mesma revista há algumas semanas.


MAFALDA ARNAUTH
MAIS FLOR QUE FADO...

E ao quinto álbum de originais, «Flor de Fado», Mafalda Arnauth - ela que canta, que produz, que compõe boa parte dos temas do álbum, sozinha ou em parcerias - cria um disco brilhante, pessoalíssimo e um disco que... não é de fado, apesar de o fado estar lá, em flor.

Em 2005, Mafalda Arnauth lançou o seu «best of», de nome «Talvez se Chame Saudade», súmula de uma carreira discográfica com seis anos, três álbuns - todos eles bem inscritos no universo do fado - e uma crescente adesão de público e de crítica em Portugal e no estrangeiro. Uma fadista estava na calha mas, em contramão ou nem tanto, o seu caminho seguinte - o álbum «Diário» (editado nesse mesmo ano, alguns meses depois) mostrava Mafalda a experimentar outras linguagens para além do fado - de uma milonga argentina a uma canção de Vinicius de Moraes, de Charles Aznavour à música basca... - e o recentíssimo «Flor de Fado» mostra a cantora e compositora com um pé no fado e outro em territórios musicais portugueses, muitíssimo portugueses sim, mas que do fado - se é que de fado sempre se trata - só conservam uma essência primordial. Diz ela: «Ainda há poucos dias falava com os meus músicos acerca do título do novo álbum, "Flor de Fado", porque este é de facto o meu disco menos de fado, de fado no sentido tradicional da palavra. Mas sinto-me mais fadista do que nunca. Nos valores, nas intenções, na ideia de cantar a vida real. E nesse sentido acho que continuo a ser extremamente fadista... Mas é verdade que há aqui um depurar, um ir à essência... A "Flor de Fado" é como a flor de sal, quando a água evapora e aquilo que fica...».

A analogia, lindíssima e que facilmente se explica por si, com a flor de sal tem uma continuação lógica na explicação de Mafalda de que este disco vive muito dos diálogos entre duas guitarras clássicas, a viola de fado de Luís Pontes e a viola do argentino Ramon Mascio, e em que a guitarra portuguesa - tocada soberbamente por Ângelo Freire, um jovem de apenas 19 anos a quem Mafalda Arnauth augura um futuro brilhante - aparece muito menos em destaque do que seria de esperar, embora quando apareça, como na sua versão de «Povo Que Lavas no Rio», seja, nas palavras de Mafalda, um «leão na selva». Mafalda Arnauth diz que a viola de fado fica muitas vezes «num ponto absurdamente esquecido. E há muitos anos que queria ter duas guitarras clássicas como base da minha música». E estiveram quase a ser três, se Pedro Jóia - com o seu lado flamenco - se tivesse juntado ao projecto, hipótese que se pôs depois de um concerto no Porto. E a estes guitarristas juntou-se também o baixista Fernando Júdice (ex-Madredeus), que já tinha trabalhado com Mafalda Arnauth no passado mas que do fado só tinha tido essa experiência.

Mafalda justifica, se tal preciso fosse, o seu mergulho em «outras músicas» no anterior álbum «Diário» como consequência de alguém que «quando era nova não ouvia fado, de todo. Ouvia música brasileira, música de outros países de América do Sul, música francesa... Só comecei a ouvir fado com 18, 19 anos. E no "Diário" alarguei os meus horizontes para me exprimir noutras linguagens». E todo o universo fraternal de «Flor de Fado» - um universo em que podem entrar nomes da chamada «canção ligeira» portuguesa dos anos 60 como Fernando Tordo, Simone de Oliveira e até, de forma lateral, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo ou José Afonso - tem também uma razão de ser. «Tenho uma admiração profunda por todos esses nomes. E nunca percebi muito bem porque é que se chamava "canção ligeira" à música do Fernando Tordo, da Simone, do Carlos do Carmo... Ligeira no sentido de superficial, de pouco profundo, de efémero... Acho que não são nada disso. E são mesmo capazes de estar na minha memória genética».

E, em defesa - repete-se, se tal defesa fosse necessária - das suas canções, Mafalda diz que «actualmente há muita gente talentosa a defender, e a defender de forma brilhante, o fado mais tradicional. Mas qual é o interesse de eu ir, só para mostrar que sou capaz, fazer um reportório integral de fado tradicional?... Posso vir a fazer um disco de fado clássico em qualquer altura da minha vida». Mas, enquanto isso não acontece, está aí «Flor de Fado» - onde Mafalda também realça a participação do poeta Tiago Torres da Silva na escrita de alguns temas e o muito bem-disposto dueto com a cantora brasileira Olivia Byington (em «Entre a Voz e o Oceano», tema com música de Olivia e letra de Tiago Torres da Silva) - e uma infinidade de colaborações de Mafalda com gente como o mítico cantor cubano Pablo Milanés (num concerto, há alguns meses, no País Basco), com o importantíssimo grupo galego Milladoiro (numa participação que irá aparecer no próximo álbum deste grupo), com o brasileiro Vinicius Cantuária (num concerto conjunto previsto para a próxima edição do festival Atlantic Waves, em Londres) ou a gravação de um tema para o próximo disco do mestre da trikitixa basca Kepa Junkera. E que melhores parcerias é que se poderiam querer?


MAFALDA ARNAUTH
«FLOR DE FADO»
Universal Music Portugal

Se em «Diário», o seu álbum anterior (de 2005), Mafalda Arnauth levava muitas vezes, e bem, o fado para as «músicas do mundo» - nesse disco Mafalda cantava Vinicius de Moraes, uma milonga, «La Bohéme» (de Charles Aznavour), um tema do basco Fran Lasuen (ex-Oskorri)... - neste novo «Flor de Fado», a cantora salta do fado para uma música portuguesa «mítica» que remete muitas vezes para a grande canção, ligeira ou não, dos anos 60 e 70 no nosso país. Uma música imaginária que convoca em partes praticamente iguais José Afonso e Amália Rodrigues (e está aqui «Povo Que Lavas no Rio», embora numa versão pessoalíssima e que se afasta bastante da matriz amaliana), Simone de Oliveira e Fernando Tordo, Carlos do Carmo e Vitorino Salomé (e está aqui uma versão de «Tinta Verde», de Vitorino). Como está também um delicioso fado-bossa, «Entre a Voz e o Oceano», num dueto com a cantora brasileira Olivia Byington e uma versão lindíssima de «Flor do Verde Pinho» (de Manuel Alegre e José Niza).

Pensado originalmente como «alinhamento» para um concerto, este álbum (de estúdio) tem Mafalda Arnauth rodeada pelo letrista Tiago Torres da Silva e pelos compositores e guitarristas Luís Pontes e Ramon Maschio, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Fernando Júdice no baixo e Davide Zaccaria no violoncelo. Uma equipa de luxo que fez deste disco aquilo que ele é. «Quem Me Desata» é capaz de ser o fado mais fado de todo o álbum e mostra que, se Mafalda Arnauth e os seus músicos tivessem querido, este poderia ter sido, todo ele, um excelente álbum de fado e de uma excelente fadista. Assim, é - e ainda bem - um excelente álbum de música e de uma excelente cantora. (*****)

02 outubro, 2008

Rodrigo Leão, Cristina Branco e Hélder Moutinho na Coreia do Sul


A cidade de Ulsan, no sudeste da Coreia do Sul, é a partir de hoje palco de um dos maiores festivais de world music do Extremo Oriente: o Ulsan World Music Festival. Um evento que tem este ano Portugal como convidado de honra e três nomes da nossa música em destaque: Rodrigo Leão - que pré-inaugurou o festival ontem e ainda actuará amanhã -, Cristina Branco (na foto) e Hélder Moutinho. Uma notícia da Lusa explica tudo:

«Portugal é o convidado de honra do Ulsan World Music Festival, na Coreia do Sul, que começa quinta-feira, sendo a representação nacional assegurada por Cristina Branco, Rodrigo Leão e Hélder Moutinho.

Rodrigo Leão foi o artista escolhido para actuar na cerimónia inaugural no Grand Hall do Ulsan Culture & Arts Center, quarta-feira, acompanhado pelo Cinema Ensemble.

O álbum "Alma Mater" de Leão, editado em 2000, foi lançado este ano na Coreia do Sul, tendo estado a vender a um ritmo de três mil exemplares por semana, segundo informação da sua promotora.

O álbum "Cinema" está também já distribuído naquele país asiático, prevendo-se «para breve» a colocação à venda da compilação "O Mundo".

A cantora Ângela Silva acompanha o músico, já que os concertos incluem algumas canções em latim, entre elas, "O Imortal" a pedido da organização, segundo a mesma fonte.

Depois da actuação quarta-feira, Rodrigo Leão e os seus músicos voltam ao palco sexta-feira, o mesmo dia em que actuará, duas horas antes, a cantora Cristina Branco.

Cristina Branco irá apresentar fados de Amália Rodrigues, acompanhada à guitarra portuguesa por Bernardo Couto, à viola por Fernando Maia, no baixo por Alexandre Silva e ao piano por Ricardo Dias.

A criadora de "Há palavras que nos beijam" (Alexandre O'Neil/Alain Oulman) volta ao palco do King Theatre, sábado, sendo antecedida por Helder Moutinho.

O fadista Hélder Moutinho, acompanhado por Daniel Pinto (baixo), Ricardo Parreira (guitarra portuguesa) e Marco Oliveira (viola de fado), actuará sábado e domingo.

Autor e intérprete, Hélder Moutinho apresentará em Ulsan temas do seu novo álbum, "Que fado é este que trago", que editará em Novembro.

Cristina Branco foi distinguida o ano passado com o Prémio Amália Rodrigues Internacional e, há três anos, Hélder Moutinho recebeu o Prémio Amália para o Melhor Álbum de Fado».

03 junho, 2008

Mariza e Javier Limón - O Fado Encontra a Música Espanhola


Se ontem demos conta da parceria entre o fadista Ricardo Ribeiro e o mestre libanês do oud Rabih Abou-Khalil, hoje há outra novidade sobre os cruzamentos do fado com outras músicas e outros músicos: o da edição do novo álbum de Mariza, «Terra», produzido por Javier Limón e com convidados como a extraordinária cantora afro-espanhola Concha Buika, Chucho Valdés ou Tito Paris. E, em tempos de menos tempo para dar a este blog, aqui vai a notícia da Lusa acerca do assunto, o que poupa trabalho e explica tudo o que há para explicar:

«O novo álbum de Mariza, intitulado "Terra", o quarto de originais, será editado a 30 de Junho, devendo a fadista fazer "uma apresentação exclusiva à imprensa, dia 16, na Fundação Caixa", em Lisboa...

O início da digressão mundial da criadora de "Os anéis do meu cabelo" (António Botto/Tiago Machado) será a 21 de Junho, em Santarém, na Monumental Celestino Graça.

O novo álbum é produzido pelo espanhol Javier Limón e conta com as participações de Concha Buika, que editou recentemente o CD "Niña de fuego", Chucho Valdés, Dominic Miller, Tito Paris, Horácio `El Negro` Hernández, Ivan `Melon` Lewis, Piraña, Dany Noel, Carlos Sarduy, e Ivan Lins que assina o tema "As guitarras".

Acompanham também a fadista Marino de Freitas (baixo acústico), Diogo Clemente (viola) e Bernardo Couto (guitarra portuguesa).

Entre os 14 temas que integram o álbum, a fadista volta a interpretar Florbela Espanca, designadamente o poema "Vozes do mar", com música de Diogo Clemente.

Outra presença desde o primeiro álbum é do compositor Tiago Machado, o autor da música de "Ó gente da minha terra" assina agora a pauta para "Recurso" de David Mourão-Ferreira de quem a fadista já gravou "Primavera" e "Maria Lisboa".

Tal como em "Transparente" editado em 2005, o seu último álbum de originais, Mariza recria três temas nacionais, designadamente "Já me deixou" (Artur Ribeiro/Max), "Rosa branca" (José de Jesus Guimarães/Resende Dias) e "Alfama" (Ary dos Santos/Alain Oulman"), este último, criação de Amália Rodrigues, nome que acompanha também desde "Fado em mim".

Não é a primeira vez que a fadista recupera um tema da dupla Alberto Ribeiro/Max, no seu álbum de estreia, desta parceria gravou "Vielas de Alfama".

Do repertório muiscal cabo-verdiano escolheu uma morna de B. Leza, "Beijo de saudade", que interpreta com Tito Paris.

Outros autores escolhidos são Pedro Homem de Mello, "Fronteira", musicado por Mário Pacheco que é o autor da música de "Cavaleiro monge", e Paulo de Carvalho, com "Minh`Alma", que assinara em 2005 "Meu fado, meu".

Paulo Abreu Lima e Rui Veloso, autores já habituais da fadista, assinam "Tasco da Mouraria", que Mariza afirmou, no seu concerto na Torre de Belém, este mês, ser uma homenagem ao seu pai.

Rui Veloso faz, aliás, outra parceria, com Carlos Tê, assinando "Morada aberta".

Outro autor também já habitual é Fernando Tordo que assina "Se eu mandasse nas palavras".

O produtor Javier Limón assina o tema "Pequenas verdades" e Diogo Clemente bisa presença com Dominic Miller na autoria do tema "Alma de vento".

Em "Terra" Mariza faz dois duetos, designadamente com Concha Buika, em "Pequenas verdades" e com Tito Paris no tema de B. Leza.

Ao longo da sua carreira de cerca de 10 anos, Mariza tem sido distinguida com vários galardões, nomeadamente, o First Award - Most Outstanding Performance no Festival do Quebeque (2002), dois Deutscheschalplatten pela crítica alemã pelos seus álbuns "Fado em mim" (2001) e "Fado curvo" (2003), o European Border Breakers Award, no MIDEM em Cannes, em 2004 e, em 2005, o Prémio Amália Rodrigues Internacional.

Este ano, a fadista foi agraciada com Medalha de Vermeil da Sociedade de Artes, Ciências e Letras de Paris».

02 junho, 2008

Rabih Abou-Khalil e Ricardo Ribeiro - O Fado Encontra a Música Árabe


Independentemente das teorias que se tenham sobre as origens do fado - se veio de África, do Brasil, dos países árabes, da Europa do norte ou de muitas e desconhecidas ondas perdidas em mares e oceanos... -, a verdade é que uma experiência como a de que aqui damos conta hoje é extremamente importante para se tentar perceber as pontes que o fado já teve, ou tem agora ou terá um dia, com outras músicas suas familiares. O álbum que reúne o fadista Ricardo Ribeiro e o mestre do oud Rabih Abou-Khalil (na foto, de Markus Lackinger) sai já esta semana, através da Enja, segundo dá conta uma notícia da agência Lusa que aqui publicamos na íntegra:

«À música do libanês Rabih Abou-Khalil juntou-se pela primeira vez uma voz, a do fadista Ricardo Ribeiro, que escolheu poemas em português de autores como José Luís Gordo, Mário Raínho ou Rui Manuel, originando um disco invulgar.

O projecto começou o ano passado por intermédio do encenador Ricardo Pais que os apresentou, seguiram-se dois espectáculos em Lisboa e no Porto, e esta semana surge o álbum, "Rabih Abou-Khalil em português".

"É um projecto que me enche de orgulho pela satisfação que foi trabalhar com um extraordinário músico, e pela forma como o trabalho fluiu, sem forçar nada, correndo tudo muito naturalmente", disse à Lusa Ricardo Ribeiro.

Pela primeira vez, Abou-Khalil juntou voz à sua música.

Os poemas, todos inéditos, foram propositadamente escolhidos para o projecto, à excepção de "Casa da Mariquinhas", de Silva Tavares, que Alfredo Marceneiro popularizou.

"Escolhi letras de poetas com os quais me identificava, todos os autores são contemporâneos e estão vivos, exceptuando Silva Tavares", disse o fadista.

"Casa da Mariquinhas", "Adolescência perdida", de autoria do fadista António Rocha, "Já não dá como está", de Rui Manuel, e "No mar das tuas pernas", de Tiago Torres da Silva, são os favoritos de Ricardo, de um grupo de 12 temas.

"Na realidade gosto de todos os poemas, por isso os escolhi, mas estes têm um gosto especial", justificou.

"`No mar das tuas pernas` surgiu porque o Rabih queria uma letra erótica, quase pornográfica, como indicava a cadência da sua composição musical", explicou.

"No caso de `Casa da Mariquinhas` que é um poema que permite uma leitura nas entrelinhas, a música de Khalil é muito subtil, com descida nas escalas nessas segundas leituras, e depois um ritmo mais acelerado".

"`Adolescência perdida`, de que gosto muito, mostrei-a ao Rabih, e numa semana, durante as gravações em estúdio, aprendi a música e gravámos", afirmou.

Para o fadista, vencedor de uma Grande Noite do Fado (1998) e detentor de um Prémio Amália Rodrigues Revelação (2005), "há na música de Abou-Khalil laivos de fado e até do cante alentejano, mas não houve qualquer tipo de tentativa de aproximação".

"Claro que está lá fado, porque canto fado, mas procurei desligar-me e corresponder ao registo pretendido, à cadência e ao ritmo", disse.

"Essas reminiscências quer do fado quer do cante são naturais, pois os árabes estiveram 800 anos na Península Ibérica", acrescentou.

Fadista da linha tradicional, habituado ao público das casas de fado e das noites de tertúlia fadista, Ricardo Ribeiro afirmou à Lusa que se sentiu "assustado" com o projecto que lhe parecia "complicado".

"Fiquei assustado, com um músico do calibre do Rabih que nunca tinha juntado voz à sua música, mas depois correu muito bem", disse.

"Na música de Khalil tanto o ritmo, muito forte, como a melodia são muito improvisados e não há uma base harmónica como estou habituado no fado", acrescentou.

O fadista realçou que "intuitivamente" se aproximou da música de cariz árabe e quanto a mudanças de estilo afirma: "Sou eu na mesma, porque afinal é a minha alma que canta".

Com Ricardo Ribeiro (voz) e Rabih Abou-Khalil (alaúde) estão Michel Godard (tuba), Jarrod Cagwin (tambor tradicional árabe) e Luciano Biondini (acordeão).

Mannheim, na Alemanha, e Dudelange, no Luxemburgo, são os dois próximos palcos deste projecto, respectivamente a 06 e 14 de Junho.

Agendados estão já mais de uma dezena de espectáculos na Europa: Vila Nova de Cerveira será a primeira localidade portuguesa a recebê-los, dia 26 de Julho. Dia 04 de Agosto estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e dia 10 do mesmo mês na casa da Música, no Porto».

29 maio, 2008

Festa do Fado - Parcerias Inesperadas no Castelo


Mais uma vez, a Festa do Fado - que decorre no Castelo de S.Jorge, de 6 a 28 de Junho, integrada nas Festas de Lisboa propõe uma série de concertos com parcerias - muitas delas inesperadas, outras nem tanto - entre gente do fado e de outras áreas musicais. Este ano, o programa inclui concertos de Camané com o seu produtor e cúmplice de longa data José Mário Branco (dia 6); de Teresa Tapadas com a cantora de jazz Paula Oliveira (dia 7); de Jorge Fernando com o rapper Sam the Kid (dia 13), de Lula Pena com o acordeonista Richard Galliano, o guitarrista Custódio Castelo a as Adufeiras de Monsanto (dia 14); de Mafalda Arnauth com o Ensemble Costa do Castelo (dia 20); de Joana Amendoeira com o Mar Ensemble cantam (dia 21); de Carminho (na foto, de Margarida Martins) e do seu irmão Francisco Andrade com a mãe de ambos Teresa Siqueira (dia 27); e, finalmente, de Carlos do Carmo com o pianista e maestro António Victorino d'Almeida (dia 28).

28 abril, 2008

III Gala Amália - Os Prémios do Fado


Mais do que um espectáculo, a Gala Amália - este ano na sua terceira edição, a decorrer no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, dia 21 de Maio - é também um momento de homenagem, não só à cantora que o inspira mas também ao fado como forma músical e artística. Melhor explicado, e citando o comunicado de imprensa, «no próximo dia 21 de Maio o Centro Cultural Olga Cadaval abre as suas portas para receber a terceira Gala Amália. Este espectáculo destina-se a premiar os melhores no fado, tendo como principal objectivo divulgar, incentivar e premiar a criação e divulgação da música portuguesa». Na gala vão actuar Ana Moura (na foto), Beatriz da Conceição, Camané, Machado Soares, Marco Rodrigues e Pedro Moutinho. Os prémios Amália, referentes a 2007 e já conhecidos, contemplaram Beatriz da Conceição (Prémio Carreira), Marco Rodrigues (Prémio Revelação), Ana Moura (Melhor Intérprete), Moniz Pereira (Prémio Composição/Poesia), Carlos Manuel Proença (Melhor Instrumentista), Pedro Moutinho (Melhor Álbum) e Victor Duarte Marceneiro (Prémio Ensaio/Divulgação), votados por um júri constituído por Machado Soares (autor/compositor e intérprete de fado de Coimbra), Gabriela Canavilhas, (pianista e presidente da Orquestra Metropolitana de Lisboa), Nuno Lopes (jornalista da Lusa), Hélder Moutinho (fadista), Nélson Tereso (vogal da Fundação Amália) e A. Lourenço (vogal da Fundação Amália).

20 abril, 2008

A Naifa no Maria Matos - Um Concerto Inolvidável!


É um post rápido, domingueiro, e domingueiro de chuva..., mas que não poderia deixar de fazer: o concerto d'A Naifa (na foto; de Alexandre Nobre), ontem, no Teatro Maria Matos, foi absolutamente maravilhoso, arrepiante, extraordinário!!! Nas canções novas de «Uma Inocente Inclinação Para o Mal» - canções onde o fado é ainda mais fado e o rock é ainda mais rock - ou nas novas roupagens de canções mais antigas - com destaque para o arranjo de «A Verdade Apanha-se com Enganos» e para a interpretação sublime de «Todo o Amor do Mundo Não Foi Suficiente» - ou nas versões inesperadas de «Subida aos Céus», dos Três Tristes Tigres (mas porque é que soa, tanto!, a UHF do início?) e de «Desfolhada», de Simone de Oliveira, sente-se um'A Naifa maior, mais madura, com um sentido musical e poético apuradíssimo. A Mitó tem cada vez mais luz na sua voz, um sol inteiro ou mesmo quando a luz é contida e é apenas uma chama de vela quando ela é preciso; o Luís Varatojo rasga a guitarra portuguesa com riffs e fados (riffados?) cada vez mais personalizados; João Aguardela é a invenção e a segurança e até uns acordes (acordes!) num baixo cada vez mais melódico; Paulo Martins é o cimento, discreto, daquilo tudo. E as luzes, as luzes mesmo - as luzes que não saem da voz de Mitó ou dos instrumentos dos seus companheiros - são o enquadramento perfeito do espectáculo. Um espectáculo inesquecível.

16 abril, 2008

Deolinda - Cantar a Tristeza, Rindo!


O álbum de estreia dos Deolinda (na foto, de Mário Pires, da Retorta), «Canção ao Lado», está prestes a ser editado. E, a propósito do projecto e do álbum, o texto que se pode ler a seguir é o «press-release» oficial de lançamento do disco, que o grupo me pediu para fazer. Convite a que acedi, com muita honra...

Há uma longa série de clichés associados ao fado. Por exemplo, o fado tem que ter guitarra portuguesa. Os Deolinda não usam guitarra portuguesa. Ou, o fado tem que ser sisudo, sério, compenetrado, fatalista e triste. Os Deolinda não são nada disso. Ou ainda, o fado não pode ser dançado. E dança-se com os Deolinda. Ou, para terminar, a fadista tem que vestir de preto, como se estivesse no seu próprio funeral. Ana Bacalhau, a voz dos Deolinda (a Deolinda, ela própria?), veste roupas garridas, alegres, coloridas.

Mas os Deolinda são... fado, apesar disso tudo, e são muito mais que fado, por causa disso tudo e de tudo o mais que a sua música contém. Uma música que vai à música popular portuguesa - um universo que aqui abarca José Afonso e António Variações, Sérgio Godinho, Madredeus e os «muito mais que fadistas» Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro - e vai ainda à rembetika grega, à música ranchera mexicana, ao samba, à música havaiana, ao jazz e à pop, numa confluência original e rara de músicas-irmãs ou primas umas das outras e que, nos Deolinda, fazem todo o sentido.

Nos Deolinda, a música e as letras (geralmente de um humor fino, mordaz, por vezes absurdo, de outras surrealista, mas também capazes de fazer lembrar a pena de José Afonso, como em «Clandestino») são, em todas as canções, de Pedro da Silva Martins, guitarrista do grupo que, juntamente com o irmão - e igualmente guitarrista dos Deolinda - Luís José Martins, tinha antes feito parte dos Bicho de 7 Cabeças. Há dois anos, convidaram a prima Ana Bacalhau, então vocalista dos Lupanar, a cantar algumas das primeiras canções compostas para um novo projecto, ainda sem nome. E foi com ela - e com o contrabaixista Zé Pedro Leitão, também dos Lupanar, que se juntou ao projecto logo de seguida - que o conceito Deolinda começou a tomar forma. Um conceito que, com o desmembramento das duas bandas anteriores (Lupanar e Bicho de 7 Cabeças) nesse ano de 2006 e a vontade dos quatro em abraçar um projecto novo e original, cristalizou nos Deolinda.

Dois anos - e vários concertos memoráveis depois -, os Deolinda lançam agora o seu álbum de estreia, «Canção ao Lado», com catorze temas originais gravados pelos quatro nos estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, com produção do grupo e de Nélson Carvalho. No álbum participam ainda o percussionista João Lobo (pandeiro em «Garçonete da Casa de Fado») e muitos amigos dos Deolinda - Mitó Mendes (A Naifa), Norberto Lobo (Norman/Munchen), Mariana Ricardo (ex-Pinhead Society/Munchen), Joana Sá (também ex-Pinhead Society, agora nos Power Trio, ao lado de Luís José Martins), Gonçalo Tocha, Didio Pestana (ambos ex-Lupanar), Artur Serra e Carlos Penedo (ambos ex-Bicho de 7 Cabeças), entre outros - nos coros de «Movimento Perpétuo Associativo» e «Garçonete da Casa de Fado». Um grupo de amigos que se estende ao autor de banda-desenhada João Fazenda, que ilustrou o disco, e a Catherine Villeret e (mais uma vez) Gonçalo Tocha, que realizaram o divertidíssimo e surreal teledisco de «Fado Toninho», o primeiro single retirado de «Canção ao Lado».

O álbum «Canção ao Lado» é editado dia 21 de Abril, numa parceria da Sons em Trânsito com a iPlay.


Os Deolinda são:

Ana Bacalhau (voz)

Pedro da Silva Martins (composição, textos, guitarra clássica e voz)

Zé Pedro Leitão (contrabaixo e voz)

Luís José Martins (guitarra clássica, ukelele, cavaco, guitalele, viola braguesa e voz)



Alinhamento de «Canção ao Lado»:

1 - «Mal Por Mal»
2 - «Fado Toninho»
3 - «Não Sei Falar de Amor»
4 - «Contado Ninguém Acredita»
5 - «Eu Tenho Um Melro»
6 - «Movimento Perpétuo Associativo»
7 - «O Fado Não É Mau»
8 - «Lisboa Não É a Cidade Perfeita»
9 - «Fon-Fon-Fon»
10 - «Fado Castigo»
11 - «Ai Rapaz»
12 - «Canção ao Lado»
13 - «Garçonete da Casa de Fado»
14 - «Clandestino»

Próximos concertos:

25 de Abril: Festival de Música "Sirenes" Estarreja, Aveiro
26 de Abril: Showcase - Fnac Coimbra
27 de Abril: Showcase - Fnac Viseu
29 de Abril: Showcase - Fnac Chiado Lisboa
30 de Abril: Showcase - Fnac Colombo Lisboa
7 de Maio: Concerto de Lançamento - Cinema S. Jorge - Lisboa
9 de Maio: Valado de Frades
10 de Maio: Centro Cultural Vila Flor- Guimarães
17 de Maio: Centro Cultural de Ílhavo
24 de Maio: Centro de Artes de Sines
30 de Maio: Salão Brazil - Coimbra
31 de Maio: Passos Manuel - Porto
27 de Junho: Festival MED - Loulé
28 de Junho: Galeria do Desassossego - Beja
12 de Julho - Festas do Almonda - Torres Novas
19 de Julho: Teatro Municipal da Guarda
31 de Julho: Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha
1 de Agosto - Tavira
9 de Agosto: Festival Sudoeste - Zambujeira do Mar
23 de Agosto: Festival Bons Sons - Tomar

Myspace:

http://www.myspace.com/deolindalisboa

03 abril, 2008

Névoa, Marful e Acetre - Bons Ventos e Bons Casamentos


Há um velho ditado popular português - conhecido de toda a gente - que diz «De Espanha nem bom vento nem bom casamento». Mas no caso destes três discos hoje falados no Raízes e Antenas, esse ditado terá que ser completamente virado ao contrário: tanto nos galegos Marful como nos Acetre, de Olivença (pois, Olivença!) e na catalã Névoa (na foto; de Noemí Elías) há, para além de muito boa música, íntimos pontos de contacto com Portugal - respectivamente, na língua galega, na música que fazem e no fado... cantado em catalão. Isto é, ventos que se cruzam de cá para lá; casamentos felizes e com mútuo consentimento.


MARFUL
«MARFUL»
Galileo/Megamúsica

A língua galega nasce da mesma raiz que a língua portuguesa. É uma língua irmã, atrever-me-ia a dizer uma língua-gémea; viva, bela e pulsante de poesia e nuances linguísticas deliciosas. E é tão bonito ouvi-la quando ela, para além de muito bem cantada, está tão próxima do português que, muitas vezes, é português mesmo. E é isso que acontece quando se ouve cantar Ugia Pedreira - ela que canta tão bem! - a fazer voar as palavras sobre a música ao mesmo tempo antiga e tão nova que os seus companheiros - Pedro Pascual (acordeão), Pablo Pascual (clarinete-baixo) e Marcos Teira (guitarra), mais os convidados Luis Alberto Rodriguez (bateria) e Xacobe Martinez (contrabaixo) - vão tecendo por baixo da sua voz. Uma música que recria - com originalidade, elegância e paixão - a música de baile que se ouvia e dançava na Galiza nos anos 30 e 40, tanto a tradicional galega (oiça-se a belíssima «Jota Gagarim») mas também a música que muitos emigrantes galegos traziam para a sua terra: twist, habaneras, tangos, paso-dobles e até uns laivos de fado (cf. em «Tris-Tras»). Com alguns originais à mistura com adaptações de tradicionais ou canções de outros autores «de época» e cantado todo ele em galego (à excepção de «Je Suis Comme Je Suis», com música de Ugia sobre um poema de Jacques Prévert), este álbum de estreia dos Marful - eles que vão estar na próxima edição do FMM de Sines - é uma declaração de amor desta cantora e destes músicos à sua terra, à sua história, às suas memórias... Lindíssimo! (9/10)


ACETRE
«DEHESARIO»
Nufolk/Galileo/Megamúsica

Apesar de terem mais de vinte anos de carreira, os Acetre são infelizmente quase desconhecidos em Portugal - que me lembre, passaram por cá há alguns anos num festival Sete Sóis Sete Luas e não sei se passaram mais alguma vez. E é pena por várias razões: a sua música é, independentemente das suas ligações à música portuguesa, muitíssimo boa. E é, por essas ligações, um curiosíssimo exemplo de hibridismo «raiano» que - tirando a anteriormente referida Galiza - é muito raro e bem-vindo. Um hibridismo que é quase natural atendendo ao local de onde é originário o grupo, Olivença - e não, ao contrário do que dizem os nacional-saudosistas, «Olivença não é nossa!» -, ali paredes-meias com o Alentejo, e à curiosidade própria destes cinco músicos e quatro cantoras/intrumentistas que se aventuram em viagens musicais que passam pela Extremadura espanhola, pelo Alentejo, pela Galiza e pelo norte de África (cf. em «Al-Zerandeo», que faz a ponte entre Marrocos e as «pandeireteiras» galegas), fazendo uso de um folk-rock ora mais «musculado» ora mais ambiental ora mais progressivo, mas sempre de um bom-gosto enorme e uma inventividade constante. Mas o mais curioso deste «Dehesario», o sétimo álbum dos Acetre, é mesmo a quantidade de temas cantados em português e/ou com referências a Portugal e à música portuguesa: o tradicional «Mãe Bruxa» («À entrada de Elvas/Achei uma agulha...»); a guitarra portuguesa em «Amores Corridiños» (um tema «afadistado», original de José-Tomás Sousa, guitarrista do grupo); «A Rola» (tradicional alentejano que aqui surge numa versão para vozes femininas e uma «cama» instrumental muito bonita!); ou no vira que fecha o disco e que tanto pode ser galego como minhoto. É necessário conhecê-los. (8/10)


NÉVOA
«ENTRE LES PEDRES E ELS PEIXOS»
Temps Record/Harmonia Mundi

Há alguns meses, fiz neste blog o levantamento de fadistas estrangeiros ou instrumentistas de guitarra portuguesa e espantei-me (e sei que houve mais quem se tenha espantado) com a quantidade de gente, não portuguesa, que lá fora mantém uma relação íntima com o fado. Nesse texto referi a ideia, comum a muita gente, de que «o fado só pode ser cantado por portugueses... A alma, a saudade, a emoção, etc...». Uma ideia completamente errada como se pode comprovar ouvindo muitos dos nomes referidos, nomeadamente esta fadista de corpo e voz e alma inteiros de que se fala aqui hoje: Névoa (aka Núria Piferrer). Porque, se se perguntar «É fado?», a resposta só pode ser: «É, e muito bom!». Quase todo ele cantado em catalão - com excepção de dois temas em espanhol, um deles o arrepiante «No Te Quiero», sobre poema de Pablo Neruda - e, pergunto eu, não será este um espantoso texto de fado? -, o disco tem como base variadíssimos fados tradicionais (Fado menor do Porto, Fado Pintadinho, Fado Amora, Fado Triplicado, etc, etc...) e conta com a participação de vários músicos portugueses: Manuel Mendes (guitarra portuguesa), José «Carvalhinho» (viola e direcção musical), Jorge Carreira (viola-baixo) e o cantor Gonçalo Salgueiro (produção). E basta ouvir como Névoa - ela que já contava com três álbuns dedicados ao fado anteriores a este «Entre les Pedres i els Peixos» - lança a sua voz na interpretação destes poemas para se perceber, imediatamente, que temos aqui uma excelentíssima cantora e, mais do que isso, uma fadista imensa e de alma enorme. E, embora seguindo uma via muito respeitosa do fado tradicional de Lisboa, ela acaba por inovar - com coragem - ao injectar outras línguas no nosso (e de quem o quiser fazer seu) fado. (8/10)

13 março, 2008

A Naifa - A Cortar Pela Terceira Vez


Depois dos (excelentes) álbuns «Canções Subterrâneas» e «3 Minutos Antes de a Maré Encher», A Naifa edita agora um novo álbum, «Uma Inocente Inclinação Para o Mal», desta vez - e ao contrário dos anteriores, em que apostou na divulgação de variadíssimos novos poetas portugueses - recorrendo apena à poesia de um único autor, a escitora Maria Rodrigues Teixeira. O novo álbum d'A Naifa - Mitó (voz), Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo eléctrico) e Paulo Martins (bateria) - tem como primeiro single a canção «Filha de Duas Mães», sendo os restantes temas «Um Feitio de Rainha», «Na Página Seguinte», «Esta Depressão Que Me Anima», «Um Rapaz Mal Desenhado», «Dona de Muitas Casas», «O Ferro de Engomar», «Apenas Durmo Mal», «Pequenos Romances», «Na Aula de Dança», «O Ar Cansado dos Meus Vestidos», «Nas Tuas Mãos Vazias», «Uma Ligeira Indisposição» e «Apanhada a Roubar». O álbum estará disponível, a preço de lançamento, a partir de dia 15 de Março (depois de amanhã), nas bilheteiras dos teatros por onde vai passar a digressão de apresentação. Uma digressão que tem datas marcadas para Abril - Coimbra (Teatrão, dias 3 e 4), Horta (Cine-Teatro Faialense, dia 5), Guarda (Teatro Municipal, dia 11), Tondela (ACERT, dia 12), Lisboa (Teatro Maria Matos, dias 18 e 19), Sesimbra (Fortaleza de Santiago, dia 24) e Portalegre (CAE, dia 26) - e Maio - Santarém (Teatro Sá da Bandeira, dia 3), Águeda (Cine-Teatro S. Pedro, dia 9), Setúbal (Fórum Luísa Todi, dia 10), Moita (Fórum J.M. Figueiredo, dia 16), Montemor-o-Novo (Cine-Teatro Curvo Semedo, dia 17), Loulé (Convento de Sto. António, dia 23), Aveiro (Teatro Aveirense, dia 30) e Braga (Theatro Circo, dia 31). Mais informações aqui.

28 fevereiro, 2008

Donna Maria, M-PeX e Novembro - Ou Como Passar Tangentes ao Fado


De Amália Rodrigues a Carlos do Carmo - nomes que agora já ninguém se atreveria a não associar imediatamente ao fado -, dos Madredeus a Paulo Bragança, dos Ovelha Negra a Lula Pena, de Liana aos Sal, d'A Naifa* aos Fado em Si Bemol, de Cristina Branco aos Deolinda**, muitos são os artistas e grupos que, em alturas variadas e em contextos diferentes, têm levado o fado para alguns desvios saudáveis e territórios que não são exclusivos do fado. Nos últimos meses, três álbuns voltam a colocar a questão: pode o fado fundir-se com outras músicas? E como?... As respostas vêm dos Donna Maria, de M-PeX e dos Novembro (na imagem, desenhada por Miguel Filipe, cantor e guitarrista dos próprios Novembro).


DONNA MARIA
«MÚSICA PARA SER HUMANO»
EMI Music Portugal

É uma pena, mas não consigo gostar da música dos Donna Maria. Não tinha gostado no primeiro álbum, «Tudo É Para Sempre», e continuo a não gostar no segundo, o recente «Música Para Ser Humano», apesar de haver neste um peso menor das electrónicas - embora as electrónicas por lá continuem bem presentes - e um recurso maior a instrumentos acústicos, mais caminhos sonoros percorridos, um alargado leque de convidados de luxo (Rui Veloso, Luís Represas, Rão Kyao, Raquel Tavares, Júlio Pereira, Ricardo Parreira na guitarra portuguesa...). Mas muitas das canções do álbum continuam a soar demasiado a pompa e circunstância, a um artificialismo qualquer, a uma mistura de Madredeus com Gotan Project, sem grandes acrescentos de originalidade a essa fórmula. E é pena porque, se a voz de Marisa Pinto nem sempre se sente à vontade em algumas canções, há outras em que ela já voa livremente sobre as composições dos dois colegas de grupo - Miguel Ângelo Majer (samples, bateria e voz) e Ricardo Santos (piano acústico, sintetizadores e voz). E é pena porque o fado - e a música portuguesa em geral - precisava de um grande projecto de fusão do fado com as electrónicas, projecto que os Donna Maria não são e, infelizmente, ainda não existe. E é pena, finalmente, porque há no álbum alguns temas bastante bons, como o divertidíssimo «Zé Lisboa», onde ao fado se juntam a música brasileira e indiana, num exercício pop sem pudores, ou a bonita versão de «Pomba Branca», de Max. (5/10)



M-PEX
«PHADO»
This.co

M-PeX é o nome de um curiosíssimo projecto protagonizado, em solo absoluto, por Marco Miranda (guitarra portuguesa, guitarra clássica e programações). Um disco em que às bases electrónicas se junta uma guitarra portuguesa bastante bem tocada por Marco Miranda - ele também o compositor de todos os temas -, uma guitarra portuguesa que deve alguma coisa a Carlos Paredes (cf. em «Melodia da Saudade») mas, ainda mais, aos grandes mestres da guitarra de Lisboa, essencialmente a Armandinho. Tendo aprendido guitarra portuguesa com o seu avô, Luís Tomás Pinheiro, a quem o álbum «Phado» é dedicado, Miranda embrulha belíssimos ecos e memórias de fado - e de fados - em invólucros pouco usuais: o rock progressivo, o ambientalismo à Brian Eno, o drum'n'bass, o dub, o electro ou algumas invenções deliciosas (oiça-se o vocoder de «The Cloud's Whispering Song», a fazer lembrar os Air). Com a guitarra portuguesa usada em estado puro ou sujeita a transformações, cortes, distorções, manipulações, o que é estranho - e muito bom! - em «Phado» é que esta música nunca deixa, por uma vez que seja, de ser música portuguesa, mesmo quando as sonoridades de base estão muito longe daquilo que nós entendemos como «fado» ou como «música portuguesa». Uma excelente surpresa! (8/10)


NOVEMBRO
«À DERIVA»
Lisboa Records

Outra boa surpresa é o álbum de estreia dos Novembro, grupo liderado por Miguel Filipe - que compôs a totalidade dos temas do álbum «À Deriva», excepto «Algemas» e «Gastei Contigo as Palavras» -, que canta, toca guitarra portuguesa e guitarras acústicas e eléctricas, para além de ser o responsável pelas programações, e do qual também fazem parte Mark William Harding (bateria), Luís Aires (baixo eléctrico) e, só ao vivo, João Portela (guitarras), aos quais se juntaram em alguns temas do álbum Rodrigo Leão, Guto Pires e Tiago Lopes, entre outros. E uma boa surpresa porque, nos Novembro, conseguem coabitar muitas sonoridades que há alguns anos seria impensável conciliar: o fado, sim, mas também a abordagem desviante do fado encetada há vinte e tal anos por António Variações, aliados a um rock inteligente e fundo, que deve quase tudo ao movimento indie dos anos 80: os Joy Division, os Cocteau Twins, os Clan of Xymox, os Kitchens of Distinction... E, por aqui, já se pode ter uma ideia que os ambientes percorridos pelos Novembro estão, quase sempre, associados a conceitos como nostalgia, tristeza, saudade, ausência, desespero ou depressão. E isto tem tudo a ver com o fado, ou não tem? (7/10)

Notas:

* O terceiro álbum d'A Naifa, «Uma Inocente Inclinação Para o Mal», é editado no dia 31 de Março.

** O álbum de estreia dos Deolinda, «Canção ao Lado», está agora a ser finalizado nos estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, e sairá dentro de mês e meio. Amanhã, dia 29, os Deolinda dão o seu último concerto - no Auditório Carlos Paredes, em Benfica, Lisboa - antes da digressão de apresentação do álbum.

12 fevereiro, 2008

Camané - Mais Um Centímetro na Linha da Vida


Uns longos sete anos depois da edição do seu último álbum de originais, «Pelo Dia Dentro», Camané apresta-se para lançar o seu novo álbum a 4 de Abril, através da EMI Music Iberia. Novamente com produção do velho cúmplice José Mário Branco, o novo álbum - ainda sem título conhecido - conta com a participação de José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contrabaixo), para além de uma intervenção especial de Ricardo Rocha (guitarra portuguesa), uma parceria que Camané desejava há muito. Camané, recorde-se, editou até agora os álbuns de originais «Uma Noite de Fados» (1995), «Na Linha da Vida» (1998), «Esta Coisa da Alma» (2000) e «Pelo Dia Dentro» (2001), tendo nos últimos anos editado apenas registos ao vivo: o álbum «Como sempre... Como dantes» (2003) e o DVD «Ao Vivo no São Luíz» (2006). Paralelamente à sua carreira a solo, Camané esteve também envolvido, em 2004 e 2005, no projecto Humanos (em que cantava ao lado de Manuela Azevedo, dos Clã, e David Fonseca), de recuperação de temas inéditos de António Variações.