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29 junho, 2011

Viagem ao Norte de África (e de lés-a-lés!)


Hoje, o Raízes e Antenas recupera críticas (originalmente publicadas na Time Out) dedicadas à música do norte de África, do seu oeste ao seu leste e dos dois lados do deserto do Sahara. Mais especifiicamente de Marrocos à Eritreia, do Niger à Tunísia e à Argélia. Os nomes? Hasna El-Becharia, Ghalia Benali, Souad Massi (na foto), Etran Finatawa, Asmara All Stars e todos os que protagonizam mais uma colectânea dedicada à música árabe pela Rough Guide.




Hasna El-Becharia
"Smaa Smaa"
Lusafrica/Tumbao

Os gnawa, do sul de Marrocos, são o povo que descende dos escravos negros da África Ocidental levados para o norte do Sahara pelos árabes. Com uma música de transe – igualmente conhecida como gnawa – que traça a ponte entre os dois lados do grande deserto, no gnawa tradicional encontram-se os habituais gritos guturais das mulheres berberes, instrumentos típicos da música árabe (como as darabukas), mas também instrumentos próprios como as krakabs ou o guimbri, um baixo acústico. E Hasna El Becharia – um dos raros exemplos de argelinos a praticar esta música -, cantora de voz grave, exímia tocadora de guimbri e guitarrista, transporta sempre consigo esta tradição, mas nunca deixando de a levar para o futuro: como neste belo e novo álbum, "Smaa Smaa", em que o gnawa por vezes se aproxima do rai, outras vezes dos blues, outras até de um proto-flamenco. Uma lição. (****)



Ghalia Benali
"...Sings Om Kalthoum"
Zimbraz

Já há alguns anos, a cantora tunisina Ghalia Benali – então acompanhada pelo seu grupo Timnaa -, deu no saudoso Intercéltico do Porto um dos concertos obviamente menos “celtas” deste festival. Na altura ela fundia música árabe com flamenco, Balcãs e até havia lá uma... guitarra portuguesa. Agora, no seu novo álbum, Ghalia presta homenagem a uma das maiores cantoras de sempre do norte de África e Médio Oriente, a diva egípcia Umm Kulthum (ou Om Kalthoum ou outra das inúmeras maneiras ocidentalizadas de escrever o seu nome), que se notabilizou pela sua voz inimitável e pelos longuíssimos concertos que protagonizava. E Ghalia faz-lhe aqui justiça, recorrendo a um pequeno ensemble acústico, com arranjos descarnados e nenhuma tentativa de modernização da música de Umm. É um acto de amor e vale por isso. (****)


Etran Finatawa
"Tarkat Tajje/Let's Go!"
World Music Network/Megamúsica

A pouco e pouco, os Etran Finatawa – banda originária do Niger que agrupa músicos tuaregues e de etnia wodaabe (todos eles nómadas que já se cruzaram nos inúmeros caminhos do deserto do Sahara, ora combatendo e roubando esposas, ora convivendo pacificamente e participando nas festas familiares uns dos outros) – foram estabelecendo o seu nome, no sentido que Malcolm McLaren deu aos Sex Pistols, definitivamente no circuito da world music. Não são a coisa mais original do mundo (os Tinariwen, Tartit e Ali Farka Touré estão na sua base e inspiração maior), mas o desvio dado aos blues do deserto pelas harmonias vocais e os meneios musicais/transe quase “transgender” dos wodaabe fazem, e neste "Tarkat Taaje" ainda mais!, dos Etran Finatawa um objecto musical único. (****)


Vários
"The Rough Guide to... Arabic Lounge"
World Music Network/Megamúsica

Há centenas de colectâneas – e de variadíssimas editoras – de música árabe, do norte de África do próximo e médio Oriente... Umas mais electrónicas, outras mais chill out, outras mais pop, outras mais acústicas e jazzy. E "The Rough Guide to... Arabic Lounge" é uma amálgama disto tudo. Algo desequilibrado também por isso, o álbum contém no entanto algumas pérolas como a canção gainsbourguiana interpretada, logo a abrir, pelo libanês Ghazi Abdel Baki, alguns desvios jazz curiosos (outros, mais jazz de hotel, nem por isso) ou as vozes mágicas de Natacha Atlas e da palestiniana Rim Banna e, mais importante que o resto, traz como bónus o álbum de estreia de Akim El Sikameya, cantor e músico argelino que faz uma excelente ponte entre a Andaluzia e o norte de África. (***)


Asmara All Stars
"Eritrea's Got Soul"
Out Here Records/Megamúsica

Encravada entre o Sudão e a Etiópia, a Eritreia é – tal como os seus vizinhos próximos – um dos países mais pobres do mundo e, devido a sucessivos conflitos (incluindo uma longa guerra com a Etiópia), é igualmente um dos territórios mais isolados e imunes às influências das “antenas” viradas para o éter exterior. Talvez por isso, este álbum do super-grupo Asmara All Stars, gravado em Asmara (a capital do país) pelo produtor francês Bruno Blum, mostra uma música que poderia ter sido registada nos anos 70 e não em 2008 (data da gravação), onde, ao lado de sonoridades próximas do ethio-jazz tal como estabelecido por Mulatu Astatke se ouvem reggae, hard-rock, funk e soul. E, ao contrário de parecer requentado ou simplesmente retro, "Eritrea's Got Soul" soa a fresco e actualíssimo. (*****)


Souad Massi
"Ô Houria"
Island Records/Universal Music

Numa entrevista que deu a propósito do seu quarto álbum, "Ô Houria" – que significa “liberdade” –, a cantora argelina Souad Massi refere que continua a ter Leonard Cohen, Neil Young e Bruce Springsteen – ela começou a carreira num grupo rock – como principais referências musicais. Mas, ouvindo-se este novo álbum, pode dizer-se que nunca a sua música foi ao mesmo tempo tão argelina ou, se quisermos, magrebina (está aqui o fabuloso intérprete de oud Mehdi Habbad, dos DuOud e Speed Caravan) nem tão francesa (estão aqui, também bem presentes, Francis Cabrel e Michel Françoise), embora lá esteja também um “bife” inesperado: Paul Weller! Mas o que fica disto tudo é o melhor e mais maduro disco de Souad até à data: interventivo, apaixonado, sem fronteiras. (****)

30 julho, 2009

CCB Fora de Si Com Susheela Raman, Yungchen Lhamo, Etran Finatawa e Seun Kuti


A recta final do festival CCB Fora de Si apresenta, já a partir de sábado, uma bela mini-programação de world music. Com a anglo-indiana Susheela Raman, a tibetana Yungchen Lhamo, os tuaregues e wodaabe Etran Finatawa (na foto) e o nigeriano Seun Kuti. Ora veja-se o comunicado:


«SUSHEELA RAMAN / Índia

1 Ago - 22:00

PRAÇA MUSEU

ENTRADA LIVRE

Inglesa de origem indiana que passou parte da juventude na Austrália, reúne na sua música os vários continentes que formam a sua identidade. Detentora de uma extraordinária voz, é reconhecida pelas suas performances intensas e únicas. Susheela traz ao CCB uma sonoridade única que reúne a inevitável influência da música tradicional indiana com os ritmos folk, jazz, pop e rock. Surpreendente!

http://www.susheelaraman.com



YUNGCHEN LHAMO “AMA” / Tibete

8 Ago - 22:00

PRAÇA MUSEU

ENTRADA LIVRE

Após mais de uma década de surpreendentes performances, aclamação internacional e colaboração com os músicos Sheryl Crow, Michael Stipe ou Annie Lennox, Yungchen Lhamo tornou-se para muitos a voz do Tibete. Nasceu em Lhasa, mas aos 23 anos fugiu da opressão chinesa, atravessando os Himalaias e estabelecendo-se na Índia. Foi na Índia que iniciou a sua carreira musical, recordando as canções tradicionais que aprendera com a mãe e avó. Hoje, reside em Nova Iorque e a sua música reflecte a confluência da pureza e autenticidade da tradição tibetana e da contemporaneidade das sonoridades urbanas do melting pot nova-iorquino.

http://www.yungchenlhamo.com/discography.html



ETRAN FINATAWA / Níger

22 Ago - 22:00

PRAÇA MUSEU

ENTRADA LIVRE

Oriundo do Níger, um dos países mais pobres do mundo, o grupo Etran Finatawa é uma formação de tuaregues e wodaabe, dois povos nómadas com culturas e sonoridades muito diferentes que coabitam nesta região africana. A música dos Etran Finatawa (literalmente “as estrelas da tradição”) combina a riqueza de duas linguagens: tradicionalmente, os wodaabe não utilizam instrumentos e centram-se na voz e ritmos que convidam à dança; por sua vez, os tuaregues sempre recorreram a violinos e tambores para animar as suas músicas e danças. Blues do deserto na sua forma mais pura.

http://www.etranfinatawa.com



SEUN KUTI / Nigéria

29 Ago - 21:00

GRANDE AUDITÓRIO

PREÇO 5€

Filho do lendário Fela Kuti, dirige a banda Egypt 80. Herdou do seu pai a música por ele criada nos anos sessenta, o afro-beat, uma fusão entre o jazz, o funk e os ritmos africanos. As suas canções revelam uma preocupação pelas graves questões políticas e sociais que afectam a África, mas nem por isso perdem a energia e a alegria que caracterizam o afro-beat. Prepare-se para ficar fora de si!

http://www.myspace.com/seunkuti».

Mais informações, aqui.

19 julho, 2007

FMM de Sines - Falta Um Dia!



A um dia do início do FMM de Sines - começa amanhã, sexta-feira, na sua extensão em Porto Covo, e o Raízes e Antenas promete contar muito do que por lá se vai passar -, aqui fica a recuperação do fabuloso programa do festival: A 9ª edição do Festival Músicas do Mundo de Sines - que decorre de 20 a 28 de Julho - é, mais uma vez, promessa de grandes, grandes concertos, nos vários palcos que lhe vão servir de cenário (Porto Covo e, em Sines, o Castelo, a Avenida da Praia e o Centro de Artes). Com organização da Câmara Municipal de Sines, a programação do FMM deste ano inclui concertos dos Galandum Galundaina (Portugal), Darko Rundek & Cargo Orkestar (Sérvia/França) e Etran Finatawa (Níger), dia 20, em Porto Covo; Don Byron (a fazer versões de Junior Walker, Estados Unidos), Mamani Keita & Nicolas Repac (Mali/França) e Deti Picasso (Arménia/Rússia), dia 21, em Porto Covo; Djabe (Hungria), Rão Kyao & Karl Seglem (Portugal/Noruega) e Haydamaky (Ucrânia), dia 22, em Porto Covo; Marcel Kanche (França) e Ttukunak (País Basco), dia 23, no Centro de Artes; Lula Pena (Portugal) e Jacky Molard Acoustic Quartet (Bretanha), dia 24, no Centro de Artes; Trilok Gurtu (Índia), Bellowhead (Inglaterra) e Oumou Sangaré (Mali), no Castelo, e Oki Ainu Dub Band (Japão), na Av. da Praia, dia 25; Harry Manx (Canadá), na Av. da Praia, e Carlos Bica & Azul (com o DJ Ill Vibe, Portugal/Estados Unidos/Alemanha), Tartit (Mali) e Mahmoud Ahmed (Etiópia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Bitty McLean (Inglaterra; infelizmente sem Sly Dunbar & Robbie Shakespeare, devido a um acidente de Robbie), dia 26; Aronas (Nova Zelândia/Austrália), na Av. da Praia, e Hamilton de Holanda Quinteto (Brasil), World Saxophone Quartet (com as sonoridades do álbum «Political Blues»; Estados Unidos) e Rachid Taha (Argélia/França; na foto) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, La Etruria Criminale Banda (Itália), dia 27; Norkst (Bretanha), na Av. da Praia, e Erika Stucky & Roots of Communication (Suiça), K'naan (Somália; na foto) e Gogol Bordello (Estados Unidos/Ucrânia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Senõr Coconut (Chile/Alemanha), dia 28. Pelas ruas de Sines toca, dias 25 e 26, o Hypnotic Brass Ensemble (Estados Unidos). E para dançar até de madrugada, os últimos quatro dias de festival têm também, na Av. da Praia, sessões de DJ por, huuuum, António Pires & Gonçalo Frota (dia 25), Raquel Bulha & Álvaro Costa (dia 26), DJ Mankala & Freestylaz (dia 27) e Bailarico Sofisticado (dia 28). Ainda há uma exposição de fotografia de Kiluanji kia Henda, «Ngola Bar», um ciclo de cinema dedicado ao tema «Música e Trabalho» - que inclui alguns episódios da mítica série «Povo Que Canta», de Michel Giacometti -, conversas com alguns dos artistas presentes e workshops para crianças coordenados, também, por alguns dos artistas (exemplo: dia 23, as irmãs Maika e Sara Gómez, as Ttukunak, dirigem um workshop de txalaparta). É um programa fabuloso! Mais informações aqui.

22 maio, 2007

FMM de Sines - E Agora, Tudo!



A 9ª edição do Festival Músicas do Mundo de Sines - que decorre de 20 a 28 de Julho - foi oficialmente apresentada há poucas horas e é, mais uma vez, promessa de grandes, grandes concertos, nos vários palcos que lhe vão servir de cenário (Porto Covo e, em Sines, o Castelo, a Avenida da Praia e o Centro de Artes). Com organização da Câmara Municipal de Sines, a programação do FMM deste ano inclui concertos dos Galandum Galundaina (Portugal), Darko Rundek & Cargo Orkestar (Sérvia/França) e Etran Finatawa (Níger), dia 20, em Porto Covo; Don Byron (a fazer versões de Junior Walker, Estados Unidos), Mamani Keita & Nicolas Repac (Mali/França) e Deti Picasso (Arménia/Rússia), dia 21, em Porto Covo; Djabe (Hungria), Rão Kyao & Karl Seglem (Portugal/Noruega) e Haydamaky (Ucrânia), dia 22, em Porto Covo; Marcel Kanche (França) e Ttukunak (País Basco), dia 23, no Centro de Artes; Lula Pena (Portugal) e Jacky Molard Acoustic Quartet (Bretanha), dia 24, no Centro de Artes; Trilok Gurtu & Arkè String Quartet (Índia/Itália), Bellowhead (Inglaterra) e Kasai All Stars (Congo), no Castelo, e Oki Ainu Dub Band (Japão), na Av. da Praia, dia 25; Harry Manx (Canadá), na Av. da Praia, e Carlos Bica & Azul (com o DJ Ill Vibe, Portugal/Estados Unidos/Alemanha), Tartit (Mali) e Mahmoud Ahmed (Etiópia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Bitty McLean com Sly Dunbar & Robbie Shakespeare (Inglaterra/Jamaica), dia 26; Aronas (Nova Zelândia/Austrália), na Av. da Praia, e Hamilton de Holanda Quinteto (Brasil), World Saxophone Quartet (com as sonoridades do álbum «Political Blues»; Estados Unidos) e Rachid Taha (Argélia/França; na foto) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, La Etruria Criminale Banda (Itália), dia 27; Norkst (Bretanha), na Av. da Praia, e Erika Stucky & Roots of Communication (Suiça), K'naan (Somália) e Gogol Bordello (Estados Unidos/Ucrânia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Senõr Coconut (Chile/Alemanha), dia 28. Para dançar até de madrugada, os últimos quatro dias de festival têm também, na Av. da Praia, sessões de DJ por, huuuum, António Pires & Gonçalo Frota (dia 25), Raquel Bulha & Álvaro Costa (dia 26), DJ Mankala & Freestylaz (dia 27) e Bailarico Sofisticado (dia 28). E ainda há uma exposição de fotografia de Kiluanji kia Henda, «Ngola Bar», um ciclo de cinema dedicado ao tema «Música e Trabalho» - que inclui alguns episódios da mítica série «Povo Que Canta», de Michel Giacometti -, conversas com alguns dos artistas presentes e workshops para crianças coordenados, também, por alguns dos artistas (exemplo: dia 23, as irmãs Maika e Sara Gómez, as Ttukunak, dirigem um workshop de txalaparta). É um programa fabuloso! Mais informações aqui.

18 novembro, 2006

«Planet Rock» - Levámos Todos Com Uma Pedra na Cabeça


Se há alguns dias falei de «Rhythms del Mundo», em que artistas e grupos de rock anglo-saxónicos se deixam «contaminar» por géneros cubanos, desta vez falo de «The Rough Guide To Planet Rock», álbum em que músicas «locais» são mergulhadas em cadinhos borbulhantes de rock e funk e psicadelismo e punk e... E o resultado destas experiências vagamente científicas - entre muitos outros, andam por aqui os Tinariwen, Albert Kuvezin & Yat-Kha (na foto), Ba Cissoko, Dengue Fever, Konono Nº1, Gogol Bordello, Etran Finatawa e os portugueses Donna Maria - é muitas vezes uma maravilha completa.


VÁRIOS
«THE ROUGH GUIDE TO PLANET ROCK»
World Music Network/Megamúsica

«Planet Rock» é mais uma excelente colectânea da série «The Rough Guide To...», desta vez compilando grupos de várias zonas do globo que partem de músicas próprias, tradicionais, para depois se lançarem de cabeça a vários géneros de rock ou de músicos rock dos mais variados países que, num momento ou noutro, descobriram ou redescobriram as suas próprias músicas tradicionais - não se sabendo muito bem qual a ordem destes factores em cada um deles - e também projectos multinacionais em que a mistura de influências se faz a partir da origem de cada um dos seus músicos. O álbum começa muito bem, com os Dengue Fever, grupo recente de Los Angeles com uma cambojana como vocalista - e a sua música parece directamente saída do «Bom-Dia Vietname», com um rock sixties, misto de garage e psicadelismo, mas cantado em... khmer - e Les Boukakes - bando de franceses, argelinos e tunisinos que misturam, em festa, guitarras em distorção com rai e gnawa. Seguem-se, muito bem, os malianos Tinariwen com a sua música tuaregue infectada por blues ácidos e os Ba Cissoko (da Guiné-Conakry), com koras electrificadas e o fantasma de Jimi Hendrix a assombrar a música mandinga. E depois, uma surpresa, os fantásticos norte-americanos Hip Hop Hoodios, que misturam hip-hop, klezmer, ritmos latino-americanos, jazz, guitarras eléctricas em voo livre etc, etc... (nos HHH juntam-se músicos dos Klezmatics, Orishas, Midnight Minyan e da banda de apoio de Carlos Santana), que colam muito bem com os Balkan Beat Box - aqui num tema que tanto deve à música cigana do centro europeu quanto ao gnawa, ao klezmer e à electrónica - e com os Yat-Kha - numa estranhíssima versão «vozes de Tuva em molho country-punk» de «In A Gadda da Vida», dos Iron Butterfly (retirada do álbum «Re-Covers», com versões de variadíssimos temas rock ocidentais visitados por Albert Kuvezin e os seus Yat-Kha). Depois, mais surpresas: os fabulosos Alms For Shanti (banda indiana que sucedeu aos Indus Creed) misturando canto konokol, gaitas em fogo, rock e breakbeats; Yela, cantora da Ilha da Reunião que junta smooth jazz a ritmos locais como o maloya; e os portugueses Donna Maria, num fado-tango-electrónica discreta (qualquer canção d'A Naifa ficaria aqui bem melhor, mas pronto...). O ritmo volta a acelerar com os Transsilvanyans, grupo berlinense em que se juntam húngaros e alemães e que parecem uma Marta Sebestyen pop acompanhada por uns Muzsikas electrificados e em alta velocidade; os Haydamaky, numa canção lindíssima que liga a tradição ucraniana ao reggae e à soul; e a maravihosa cantora palestiniana Rim Banna, num tema que parece um misto de Talking Heads, Material (de Bill Laswell) e música árabe - a banda que a acompanha, para aumentar ainda mais esta parte boa da globalização, inclui um ucraniano e alguns noruegueses. A recta final da colectânea fica reservada para os Etran Finatawa (do Niger) e a sua mistura sempre bem conseguida de música tuaregue e wodaabe com blues eléctricos; o ritmo infernal dos kissanges e tralha percutida dos congoleses Konono Nº1; e o punk ucraniano, balcânico e interventivo dos incontornáveis Gogol Bordello. «Planet Rock» é especialmente aconselhado, claro, aos amantes de rock que desconfiam de outras músicas e aos amantes de músicas tradicionais que desconfiam do rock. (9/10)

23 setembro, 2006

Tartit e Etran Finatawa - A Magia da Música Tuaregue (e Wodaabe)


Os Tinariwen são, provavelmente, o grupo de música tuaregue mais conhecido no Ocidente. Mas antes deles já os Tartit (na foto) tinham mostrado ao mundo estas melodias hipnóticas e estes ritmos concêntricos, em círculo e espiral, que nos sugam lá para dentro para deles dificilmente sair. O seu novo álbum, «Abacabok», é editado por estes dias. E, depois dos Tinariwen - e com semelhanças evidentes com eles -, surgem agora os Etran Finatawa, estes uma interessante junção de músicos tuaregues com músicos de etnia wodaabe. O seu álbum de estreia, «Introducing Etran Finatawa», foi editado há alguns meses.


TARTIT
«ABACABOK»
Crammed Discs/Megamúsica

Imagine-se uma brisa de vento quente, um movimento suave e lento, como se toda a areia do deserto levasse a eternidade inteira a escorrer na garganta de uma ampulheta. E imagine-se agora que este estilhaçar do conceito de tempo é feito de notas musicais raras e belas, de vozes - quase sempre cinco vozes femininas (que cantam ou que gritam e ululam, batem palmas e tocam percussões) - e de instrumentos de cordas que estão nas mãos de quatro homens velados por panos azuis indigo: o imzad (violino de uma corda) e, aqui e ali, guitarras eléctricas. É assim a música dos tuaregues Tartit: como um chamamento que vem dos confins do tempo, como uma melopeia de despedida ao amante ou ao irmão que parte na caravana, como um grito de igualdade entre homens e mulheres (os tuaregues, que pertencem à imensa família berbere, são dos poucos povos do norte de África que, apesar de tendencialmente muçulmano, permite às mulheres escolher marido e divorciar-se), como uma luz apontada a um futuro mítico em que todos os povos do mundo terão uma voz que é ouvida. E é sempre de uma beleza imensa, tanto na sua (aparente) lentidão hipnótica como (oiça-se o final de «Achachore I Chachare Akale», com a colaboração de Afel Bocoum e da sua banda) quando acelera em direcção às estrelas. Ou quando faz a ponte - uma ponte frágil, feita de areia e de barro - entre a música gnawa e os blues de Ali Farka Touré (os Tartit vivem em Timbuktu, no Mali). Ou quando, como em «Tihou Beyatene», há um travelling de aproximação a uma música perigosa, urgente, insidiosa, com uma respiração que vem do fundo dos tempos e onde duas vozes parecem conter toda a sabedoria do universo. A mesma respiração, em uníssono, que se ouve em «Al Afete», com vozes e uma flauta, numa oração pela paz, e no incandescente tema final, «Inbahwa», tocado só com imzad. (9/10)

ETRAN FINATAWA
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica

Embora ligeiramente menos interessante e menos rico em nuances que o novo álbum dos Tartit, «Introducing Etran Finatawa» (com o sub-título «Desert Crossroads: Tuareg and Wodaabe Nomads Unite»), álbum de estreia dos Etran Finatawa, é também uma excelente porta de entrada na música dos tuaregues e, neste caso, também dos wodaabe (tribo nómada, tal como os tuaregues, mas de origem, língua e culturas diferentes - os tuaregues são berberes e falam tamashek enquanto os wodaabe são de etnia fulani). Originários do Niger, os Etran Finatawa (nome que significa «as estrelas da tradição») são seis wodaabe e quatro tuaregues, unidos pelo mesmo gosto pela música e pelo mesmo desejo de paz entre todas as etnias que vivem ou viajam pelo rio Niger (Nota: não esquecer que o Festival do Deserto, no norte do Mali, é exactamente uma celebração pacífica de comunhão entre tribos daquela imensa região há ainda poucos anos desavindas). E um gosto pela música que os faz viajar livremente pela música tuaregue, sim, por solistas e coros ricos em harmonias (os cantos wodaabe são polifónicos e ricos em jogos de chamada-resposta), sim, mas também pelo rock ácido e pelos blues eléctricos, pela experimentação e pelo funk, numa linha às vezes próxima dos Tinariwen, outras mais perto de Ali Farka Touré. Isto é, nos Etran Finatawa há guitarras eléctricas, muitas, mas também há espaço para surpresas como as vozes em transe, as palmas a compasso e uma flauta em espasmos no belíssimo «Maleele», ou a fabulosa «Anadjibo», uma canção wodaabe que fala das dificuldades que um nómada tem para cumprir os preceitos da religião muçulmana (se o fiel pára a uma hora certa para rezar a Alá, a sua vaca foge-lhe; já se não rezar fica com a vaca, mas...) ou ainda a canção/dança mágica «Ronde». (8/10)