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10 dezembro, 2010

Ricardo Rocha - Um Prémio e... Um Tributo


A notícia já tem umas semanas, mas serve de mote possível ao que vem a seguir: Ricardo Rocha foi o vencedor do Prémio Carlos Paredes 2010, atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, pelo seu último álbum, "Luminismo". Um prémio mais que apropriado e que me serve de justificação para recuperar aqui a crítica a esse disco e a entrevista que fiz com Ricardo Rocha a propósito deste álbum desviante, revolucionário e, por isso mesmo, absolutamente sedutor. Os textos originais foram publicados na revista "Time Out".


Ricardo Rocha
"Luminismo"
Mbari Música

Num ano (2009) de excelente produção discográfica portuguesa, o prémio de álbum mais surpreendente (e, de certa forma, também o mais marado) de todos vai, sem dúvida, para Ricardo Rocha. Mestre, embora relutante, da guitarra portuguesa, Ricardo Rocha editou o histórico "Voluptuária" em 2003, seguindo-se "Tributo à Guitarra Portuguesa" – em que visita os grandes guitarristas do fado de Lisboa. Agora, no duplo-álbum "Luminismo" faz os seus originais viajarem pelo fado, a folk livre à maneira de John Fahey/Norberto Lobo ou o serialismo e apresenta versões pessoais de temas de Carlos Paredes (oiça-se “Canto do Trabalho” em speed-metal!), Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral. O segundo CD, ainda mais surpreendente!, são temas dele compostos para... piano, interpretados por Ingeborg Baldaszt. *****


Entrevista
Eu Tenho Dois Amores...

Que em nada são iguais: um é a guitarra portuguesa mas é o piano que amo mais. Nesta conversa com António Pires, Ricardo Rocha assume a bigamia.

A letra da célebre canção de Marco Paulo, embora aparentemente desajustada neste contexto, pode aplicar-se na perfeição a Ricardo Rocha, um génio da guitarra portuguesa mas igualmente perdido de amores pelo piano. No seu novo álbum, "Luminismo", o CD1 inclui originais e versões de temas de Artur Paredes, Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral, interpretadas por ele na guitarra portuguesa, enquanto o CD2 inclui peças para piano compostas por ele e tocadas por Ingeborg Baldaszti.

Há um pequeno pormenor neste novo álbum, "Luminismo", que não existe nos outros dois que gravaste, "Voluptuária" e "Tributo à Guitarra Portuguesa": ouve-se a tua respiração, como se ouvia a respiração do Carlos Paredes nos discos dele.

E também se ouve a minha voz (como acontecia com o pianista Glenn Gould).

Mas isso leva-me a uma questão de que falaste há alguns anos noutra entrevista: a dificuldade que é, para ti, tocar guitarra portuguesa.

Sim, continua a ser doloroso. E quanto mais dificuldade técnica tiver a peça, mais esforço físico está implícito.

No "Voluptuária" tinhas, para além de inúmeros originais, versões de Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral. Neste repetes estes dois nomes mas também tens um tema de Artur Paredes (pai de Carlos Paredes).

Fiz uma adaptação – não gosto da palavra “arranjo” - de uma peça dele, “Passatempo”, que é muito bonita e que é fantástica para abordar a solo dentro de um esquema muito clássico, o que é interessante.

A referência a estes três nomes – os Paredes e Caldeira Cabral – leva-nos a outra questão inevitável: há pouquíssimos compositores para guitarra portuguesa a solo. São eles e poucos mais e, numa geração muito mais nova, existes tu. Achas que há preguiça ou falta de vontade dos outros guitarristas?

Não, não acho que seja preguiça ou falta de vontade. A guitarra está é tão associada a um género musical específico, o fado, que não são duas ou três pessoas que a conseguem resgatar ao seu papel de instrumento de acompanhamento (da voz). Eu sozinho não consigo. O Carlos Paredes não conseguiu, o Pedro não conseguiu, eu não irei conseguir...

Mas isso já aconteceu noutros géneros musicais: o bandoneón foi resgatado ao tango, a kora está agora a ser assumida como um instrumento solista...

Mas o bandoneón teve o Piazzolla, com uma projecção internacional fortíssima... Em Portugal, a guitarra portuguesa só há poucos anos entrou no meio académico, em alguns Conservatórios. Estas iniciativas são saudáveis. E talvez, por causa disso, daqui por dez, quinze anos, poderá vir a dar frutos e possamos vir a ter solistas e compositores para guitarra portuguesa.

Falando dos teus temas originais no novo disco, aquilo que sinto é que, embora havendo aqui e ali umas alusões ao fado, há ali muitas outras coisas: o serialismo, a música minimal-repetitiva, a influência da guitarra clássica aplicada à free-folk...

Não acho que aquilo que faço seja original. Acho é que se está a ouvir pela primeira vez uma guitarra portuguesa fora do contexto que é esperado. A surpresa para as pessoas é “estou a ouvir uma música que reconheço mas os sons são emitidos por um instrumento diferente daqueles a que estou habituado”. E de fado não tem nada. Só, talvez, por ser o instrumento que é. Uma coisa de que tenho a certeza é a de que, se não tocasse piano – e toco mal piano -, e se não conhecesse o seu reportório, não comporia para guitarra portuguesa como componho. A minha visão e abordagem racional da música, vinda do piano, é muitas vezes transposta para a guitarra. Adoro o piano.

Concordarias comigo se dissesse que a guitarra portuguesa é a tua mulher e o piano é a tua amante?

(risos) Essa é uma visão engraçada. Mas, sim, pode ser encarado dessa forma. E isto, com o máximo respeito para as mulheres.

Este álbum é duplo e, surpreendentemente, o segundo CD tem peças tuas compostas para piano. Foi uma maneira de mostrar que há vários Ricardos Rocha no Ricardo Rocha?

Não. E quase aconteceu por acaso. Fui convidado para tocar num programa, extraordinário, do António Victorino d'Almeida que passou há dois anos na televisão mas que ninguém viu – aquilo era transmitido às duas da manhã! E nesse programa conheci a Ingeborg, que é uma pianista absolutamente genial. Isso inspirou-me a compor algumas novas peças a pensar nela como intérprete, às quais juntei três que já tinha composto antes. Na editora, quando ouviram o piano, perguntaram-me se era eu a tocar. Eu? Quem me dera tocar assim!

30 novembro, 2010

Mais Cinco Mergulhos na Música Cabo-Verdiana


Novamente recuperados do "acervo" de textos escritos há vários meses para a Time Out, aqui deixo críticas a discos de Cesária Évora, Bau, Vasco Martins, Mário Lúcio e Carmen Souza (na foto, de Patrícia Pascal), e ainda uma entrevista com esta magnífica cantora radicada em Londres. Com todos eles a provar, se tal fosse preciso, como são diversos os caminhos da música de Cabo Verde.



Cesária Évora
"Nha Sentimento"
Lusáfrica/Tumbao

No limiar dos 70 anos de idade, Cesária Évora aparece neste "Nha Sentimento" renascida – e, se calhar, “renascer” é a palavra correcta se pensarmos que sofreu um AVC antes de iniciar as gravações do álbum - e com o grão da sua voz num pico elevadíssimo! Com canções escritas, quase todas, por Manuel de Novas (recentemente falecido) e Teófilo Chantre, "Nha Sentimento" mostra a voz de Cesária a voar livremente sobre dançantes coladeiras - que estão aqui em maioria - infectadas pelo samba e por ritmos cubanos, para além de algumas belíssimas mornas que contam com um ás de trunfo: uma orquestra de cordas egípcia, fazendo a ponte entre a música cabo-verdiana e a música árabe. E curiosamente (ou talvez não), uma delas, “Vento de Sueste” chega, via instrumentos árabes, ao... fado. *****



Bau
"Café Musique"
Lusáfrica/Tumbao


Bau (pseudónimo de Rufino Almeida) é um dos mais importantes, versáteis e talentosos músicos cabo-verdianos. Multi-instrumentista, brilhante no violino, na guitarra e no cavaquinho, Bau já foi o director musical de Cesária Évora durante alguns anos e a sua música foi usada em coreografias de Pina Bausch e filmes de Pedro Almodovar. E, agora, edita esta colectânea que é bem o espelho de uma carreira coerentíssima em que a sua música, sempre instrumental, faz a ponte entre a música cabo-verdiana e outras músicas – a mazurka do norte da Europa (“Mazurka”), os Andes (“Blimundo”), o flamenco (“Ilha Azul”) ou, muitas vezes, os fados que se escondem nas mornas e vice- versa (p. ex., “Som di Nha Esperança” e “Pescador”). Para provar que não há só boas vozes em Cabo Verde. ****



Vasco Martins
"Li Sin"
Lusáfrica/Tumbao

Começa a ouvir-se o novo álbum do músico e compositor Vasco Martins e quase que duvidamos que este disco saia de uma editora de world music, mesmo que essa editora seja a prestigiadíssima Lusáfrica (Cesária Évora and so on, passe o anglicismo). Preconceito? É, pois! É que "Li Sin" bem poderia sair de uma Deutsche Grammophon (clássica, pois) ou de uma ENJA (jazz sofisticado, pois)... Mas, avança-se na audição do disco e percebe-se mais uma vez que a música de Vasco Martins (ele que tem sangue misto, luso e cabo-verdiano) quebra todos os preconceitos e avança, firme, na criação de um corpus sinfónico – digamos assim, por facilidade – que deve tudo ao sal, ao fogo e a todos os santos que fazem de Cabo Verde uma paisagem (musical, cultural e humana) única. Belíssimo! ****

Mário Lúcio
"Kreol"
Lusáfrica/Tumbao

Fundador dos Simentera, poeta e político – e por isso mesmo – com uma voz activa na realidade cabo-verdiana, o cantor e compositor Mário Lúcio foi também deputado, membro do governo (na área da cultura) e embaixador do governo de Cabo Verde. Mas a música, no que tem de (en)canto e paixão, sempre foi o seu natural amor primeiro. Já foi assim em "Mar e Luz" (trocadilho fonético com o seu nome), em "Badyo" e, ainda mais, neste "Kreol", onde Mário Lúcio reinventa o perdido conceito de balada (em quase todo o mundo a balada é uma lamechice pegada, nele é todo um novo género musical a descobrir!) e assina duetos memoráveis e históricos com o maliano Toumani Diabaté, os portugueses Pedro Jóia e Teresa Salgueiro, o brasileiro Milton Nascimento ou o norte-americano Harry Belafonte. Maravilha! *****



Carmen Souza
"Protegid"
Galileo

É um prazer enorme verificar como a nova geração de cantoras cabo-verdianas – e refiro-me aqui às mais conhecidas, Sara Tavares, Lura, Mayra Andrade e Carmen Souza – está, cada vez mais, a abrir caminhos novos e muito diferentes para a música das ilhas. No caso de Carmen, a opção –- coerente e absolutamente consistente -– é, na maior parte das vezes, levar as mornas, as coladeiras, os funanás ou as mazurkas para o jazz (norte ou latino-americano – não por acaso, Omar Sosa é um dos convidados de honra), através da sua voz originalíssima e da instrumentação – vf., por exemplo, na surpreendente versão de “Sodade”. Mas também há experiências ainda mais radicais como o arrepiante “Mara Marga”, com uma dupla palestiniana presente neste tema: Adel Salameh (oud) e a cantora Naziha Azzouz. ****


Sob o Foco
Carmen Souza

Com canções que viajam livremente entre Cabo Verde, o jazz e outros mundos, Carmen Souza é uma das vozes mais originais da nova música cabo-verdiana. Em conversa com António Pires, ela fala do novo álbum e dos concertos que aí vêm.

Como é que te situas, musicalmente, entre a tradição cabo-verdiana e as outras músicas que fazem a tua música?

Há géneros que são absolutamente tradicionais, como a morna – ou o fado -, mas há sempre uma vontade de evoluir. No meu caso, nesse evoluir não se altera nada da estrutura, da essência, mas evolui-se para algo de diferente. Neste disco, "Protegid", transformei uma morna num jazz-swing e, para quem esteja a ouvir de forma desatenta, até é capaz de pensar “isto é um standard de jazz”...

Estás a falar da tua versão do “Sodade”.

Sim, mas quem ouvir detalhadamente, aquilo que está por trás é uma morna. Tento sempre dar o meu cunho pessoal àquilo que eu faço e aí o jazz é uma presença real. No caso do “Sodade”, estava com o pianista Victor Zamora e quisemos dar a esta morna algo de Brad Mehldau ou de Bill Evans...

Tu escreves as letras, és cantora, tocas guitarra e órgão. É importante juntares isso tudo?

Eu quero ser sempre muito verdadeira, muito fiel àquilo que eu sou. E as minhas letras reflectem sempre o que se passa comigo e à minha volta. O título do álbum tem a ver com isso: eu sinto-me protegida e sinto o dever de proteger, alertando as pessoas e levando-lhes uma mensagem de paz. E não me vejo como cantora, mas como músico, porque a minha voz é muito mais instrumental do que cantada. Na minha voz sou muito mais influenciada por solos de piano ou de trompete do que por formas de cantar.

A quase totalidade da música, por sua vez, é composta pelo Theo Pas'cal...

Sim, estamos os dois em Londres há dez anos a desenvolver este projecto, ele é fundamental para isto tudo e já não conseguimos deixar de estar nos projectos um do outro. Ele é do Algarve e, para o futuro próximo, estamos a pensar num trabalho em que juntamos o sul de Portugal, o norte de África e Cabo Verde.

Neste disco já tens, pelo menos, um oud (alaúde árabe)...

Sim, tocado pelo Adel Salameh, que é palestiniano. Acredito que há ligações entre a música cabo-verdiana e a música árabe, assim como já me disseram que os primeiros escravos que chegaram a Cuba eram cabo-verdianos e daí haver semelhanças entre a música cubana e a música cabo-verdiana.

Aliás, para além do Victor Zamora, que é cubano, no disco também tens a presença do grande pianista Omar Sosa...

Sim, e de muitos outros músicos, como o acordeonista francês Marc Berthoumieux, os Tora Tora Big Band e tantos outros que fomos encontrando pelo caminho.

26 julho, 2010

Kimi Djabaté - Um dos Destaques de Sines em Entrevista


Originalmente publicada na "Time Out Lisboa", esta entrevista com Kimi Djabaté pode também servir de aperitivo ao concerto que este cantor e músico guineense vai dar esta semana no FMM de Sines. Mais em baixo segue a crítica ao novo álbum de Djabaté, "Karam".

Sob o Foco
Kimi Djabaté

Ao segundo álbum, o griot guineense Kimi Djabaté chega a uma grande editora internacional de world music, a Cumbancha, o selo da Putumayo dedicado à descoberta de novos valores musicais. E “Karam”, o álbum, merece todos os elogios entusiásticos que anda a receber um pouco por todo o lado...

Kimi, podes começar por explicar o que é um griot?

Há griots na Guiné-Bissau e noutros países ali à volta desde há séculos. Um griot é um músico que conta as histórias do povo e dos reis. Muitas vezes, eram os griots que, nas zonas de conflito, iam lá para obter a paz. Também servem para dar o devido reconhecimento, através da sua música, às pessoas que fazem coisas importantes ou que estão no bom caminho ou para levantar a moral das pessoas que estão em baixo.

O teu novo álbum, “Karam”, é quase um álbum conceptual, ao antigo estilo do rock progressivo, não musicalmente mas no sentido de cada canção ter uma dedicatória a alguém ou a alguma coisa que achas importante.

O álbum reflecte a minha maneira de ver o mundo, hoje. Mais especificamente, desde que estou na Europa comecei a olhar para África de uma maneira diferente e tenho que dizer que há coisas que não me agradam muito por lá – e falo delas nas minhas canções. Mas também presto homenagem a pessoas com quem concordo ou que eu admiro, como Dabó ou Fatumata. Mas também falo dos conflitos entre etnias, dos fulas e dos mandingas, na Guiné-Bissau e noutros países africanos. Falta democracia, falta estabilidade – um país pode estar calmo num dia e no outro já não estar -, há muita miséria... E é disso que fala o disco. Do sofrimento dos povos e também de coisas que sofro dentro de mim.

Tu falas de assuntos tristes – por vezes, trágicos – mas sobre uma base musical muitas vezes luminosa, alegre, dançável...

Não concordo. As pessoas podem achar que a música é alegre, mas eu sinto-a triste, quando falo de coisas tristes. Quando eu componho e me inspiro, por exemplo, na situação do meu país – que está muitas vezes em guerra e onde eu continuo a ter a família – não consigo dar à música a alegria de que muita gente pode estar à espera.

Uma característica muito bonita dos músicos da Guiné-Bissau que vivem em Portugal é colaborarem muitas vezes todos juntos. Neste teu álbum também tens muitos deles (Braima Galissá, N'dara Sumano, Maio Coppé...), os Guiné All Stars todos!

Sim, foi de propósito. Eu busco sempre a união entre todos. Nós, guineenses, temos que nos unir e ajudarmo-nos uns aos outros. Um músico sozinho não faz nada! Mas também há músicos de outros países: portugueses, moçambicanos, uma senegalesa, um guitarrista dinamarquês...

O teu primeiro álbum, que saiu há cerca de cinco anos, era uma gravação caseira, muito simples... Este, ao contrário, tem uma excelente produção e estás numa grande editora. É um grande salto.

É, é um grande salto. Mas não me esqueço das pessoas que trabalharam comigo no primeiro e que me acompanharam até aqui. Também foi importante. Mas estou muito feliz por fazer parte da Cumbancha: está a levar o meu trabalho a sítios com que nunca sonhei.




Kimi Djabaté
"Karam"
Cumbancha/LeveMuisc

Radicado em Portugal há quinze anos, o cantor, guitarrista e balafonista (o balafon é um xilofone tradicional da África Ocidental) Kimi Djabaté nasceu na Guiné-Bissau, no seio de uma família de griots – os transmissores ancestrais da sabedoria dos povos da África Ocidental. E não fugiu ao seu destino. Músico desde criança, editou há alguns anos o álbum de estreia, "Terike", mas é agora, com o segundo Karam, que está a gerar um grande sururu no circuito da world. Sururu merecido: em "Karam" está toda a tradição griot – dos textos cantados aos instrumentos (balafon, kora, etc...) - mas também uma magnífica pulsão eléctrica que a leva para o futuro. Em “Mogolu”, uma canção lindíssima (mas não a única), a guitarra e o resto parecem Ali Farka Touré. E isso é bom. (****)

19 maio, 2009

Dazkarieh - «Hemisférios» em Entrevista e Crítica ao Disco...


Poucos meses passados sobre a edição do novo álbum dos Dazkarieh, «Hemisférios» - e numa altura em que a sua agenda de concertos um pouco por todo o lado está mais que bem preenchida - aqui recupero dois textos publicados originalmente na revista «Time Out Lisboa». Uma entrevista ao grupo e a crítica ao disco.

A MEMÓRIA E A CRIAÇÃO

A comemorar dez anos de existência, os Dazkarieh lançam o seu melhor disco de sempre, «Hemisférios». António Pires falou com Joana Negrão, Vasco Ribeiro Casais e, lá mais para o fim, Luís Peixoto. «Hemisférios» é um álbum duplo em que um dos «lados» é composto por originais e o outro por versões de temas tradicionais portugueses. Isto é, nele estão bem presentes o lado da criação e o lado da memória. Ou as duas coisas juntas e/ou baralhadas.

No vosso trabalho há uma grande parte que vem da memória e da sua recriação e outra que vem da vossa própria criação, que por sua vez carrega também uma forte carga de outras memórias musicais. Há bocadinho, antes da entrevista começar, disseram-me que saíram de Lisboa para trabalhar neste disco. Vocês fizeram recolhas de temas tradicionais?


Joana Negrão - Não, nós ouvimos recolhas já feitas por outros. Nós sentimos foi a necessidade de sair do nosso meio habitual, a cidade, para nos concentrarmos no nosso trabalho; ter uma maior disponibilidade mental para ouvir, pensar, criar... Estivemos numa casa no Algarve e noutra na Arrábida.

Vasco Ribeiro Casais - Há cerca de dez anos - quando começaram os Dazkarieh - comecei a interessar-me e a ouvir músicas tradicionais, étnicas, a chamada world music. Antes estava mais ligado ao rock e à música clássica. E durante algum tempo houve muitas experiências, no seio do grupo, de canções influenciadas pela world music e muito acústicas. Há alguns anos senti a necessidade - uma necessidade que foi acompanhada pelos outros membros do grupo - de avançar para uma sonoridade mais eléctrica, mais próxima do rock. E neste disco temos o acústico sempre presente, o eléctrico por vezes presente e tentamos ter as coisas equilibradas. Tanto nas nossas canções como naquelas que são a nossa visão dos temas tradicionais.

E, paralelamente a isso, uma muito maior ligação à música portuguesa. Como é que vocês fazem a escolha dos temas tradicionais?

VRC - No meu caso, essa escolha não é imediata. Muitas das recolhas têm um som rude, mesmo para nós que estamos habituados.

JN - Eu fui ouvir muitas coisas que já sabia, à partida, que me iriam dizer alguma coisa. Ouvi muito a Catarina Chitas, mesmo não aparecendo nada do que ouvi dela no nosso disco. As Adufeiras de Monsanto, com quem já estive muitas vezes e com quem já aprendi muito. Os Velhos da Torre, do Algarve. E houve uma experiência muito engraçada, que foi começar a ouvir coisas dos Açores... Dos Açores usámos no disco uma canção a que chamámos «Coroar», que originalmente faz parte dos rituais do Espírito Santo, e que tem uma carga muito forte, não tanto por ser uma coisa católica mas mais pela força que emana: a força da fé, a força do acreditar...

VRC - Também há casos em que os originais se misturam com as versões. Uma das músicas, a «Borda d'Água», é uma versão mas, ao mesmo tempo, estávamos a trabalhar num original e não conseguíamos fazer nada nem do original nem da «Borda d'Água». Até que, por acaso, se juntaram as duas.

Neste álbum - apesar de ser uma evolução óbvia do anterior, Incógnita Alquimia - há novos instrumentos como o cavaquinho e a sanfona - tocados muitas vezes em estado "puro" e não em distorção, ao contrário do que acontece com o bouzouki, a nyckelhapra ou o bandolim... - e, claro, a substituição das percussões do Baltazar Molina pela bateria...

VRC - Mas olha que a sanfona às vezes também tem distorção... O André a tocar bateria é muito original: ele tem uns pratos que não são pratos normais, são pratos partidos, empilhados uns por cima dos outros; um kit com adufes e djembé. Mas ele toca bateria à séria, com força.

JN - Às vezes sentimos a necessidade de introduzir momentos mais acústicos, para abrir o som, para dar equilíbrio. No «Hemisfério A» temos uma música muito lenta, muito acústica, que é só voz, cavaquinho e nyckelharpa.

VRC - Os instrumentos que nós tocamos são todos acústicos. Mas um bandolim com distorção ou fuzz não soa ao mesmo que uma guitarra eléctrica em distorção ou com fuzz. E nós usamos os dois sons em simultâneo: há sempre o som limpo, acústico, e o processado.

Vocês andam a tocar muito mais no estrangeiro do que em Portugal. Em dezenas de concertos este ano...


Luís Peixoto - Há cerca de setenta por cento no estrangeiro e cerca de trinta em Portugal. Mas ao longo do ano é capaz de variar: em Portugal marcam-se as coisas muito mais em cima da hora...

VRC - Ainda há poucos dias estivemos num grande festival de world music na Lituânia...

As pessoas apercebem-se de que muitas das vossas canções são temas tradicionais portugueses?

JN - Sim, e têm muita curiosidade. Principalmente, curiosidade por saber de música portuguesa que não é o fado.




DAZKARIEH
«HEMISFÉRIOS»
Hepta Trad

«Incógnita Alquimia» (2006), o álbum anterior a este novo «Hemisférios», marcou uma ruptura com o passado do grupo: os Dazkarieh passaram então de um grupo essencialmente acústico e com uma sonoridade baseada em músicas étnicas de variadíssimas proveniências («celtas», norte-europeias, africanas, árabes, brasileiras...) para um grupo em que à vertente acústica se juntou uma pulsão eléctrica bastante forte usando instrumentos acústicos, sim, mas processados, alterados, muitas vezes em distorção rock - dir-se-ia, por vezes, metal - e, paralelamente, um grupo em que as influências da música tradicional portuguesa se faziam sentir muito mais fortemente do que no passado (e a inclusão, nesse disco, dos tradicionais «Senhora da Azenha», «Vitorina» e «Meninas Vamos à Murta» era já disso um bom sinal). E o novo álbum, «Hemisférios» - um duplo que apresenta no «Hemisfério A» temas originais e no «Hemisfério B» versões de temas tradicionais, mas num todo coerente e em que muitas vezes - se não houvesse essa indicação - dificilmente se adivinhariam quais os originais e quais as versões -, é a continuação e evolução lógica e bem-vinda desse álbum. Com algumas diferenças importantes: a voz de Joana Negrão integra-se agora, em perfeição absoluta, na massa sonora envolvente. O domínio técnico dos intrumentos tocados por Vasco Ribeiro Casais e Luís Peixoto - da nyckelharpa sueca e do bouzouki grego/irlandês às gaitas, bandolins ou às novas «aquisições» como o cavaquinho, a sanfona ou o bouzoucão (um bouzouki-baixo), que abrem bastante o leque tímbrico e as soluções harmónicas - atingiu um pico extraordinário. As percussões de Baltazar Molina foram substituídas pela bateria de André Silva, que dá mais peso e consistência ao conjunto. Vai ficar para a história da música portuguesa (ou já lá está - na história do passado e na história que se fizer no futuro). (*****)

17 fevereiro, 2009

Helder Moutinho - Os Fados Que Ele Nos Traz


A propósito de um dos melhores álbuns de fado editados nos últimos anos em Portugal, «Que Fado É Este Que Trago?», de Helder Moutinho, aqui recupero a crítica ao disco e a entrevista com o cantor, compositor e letrista que foram originalmente publicadas na revista «Time Out Lisboa» há alguns meses.


HELDER MOUTINHO
«QUE FADO É ESTE QUE TRAGO?»
HM Música/Farol

Manager, agente, editor, Helder Moutinho é - acima disso tudo - um grande fadista, dos maiores que o fado nos deu na última década. De voz contida, grave, por vezes a fazer lembrar crooners como Bing Crosby, Frank Sinatra ou Johnny Hartman… E um autor de excelência, compositor de músicas e, mais ainda, um poeta que escreve para a sua própria voz - neste novo álbum, «Que Fado É Este Que Trago?», oito dos quinze temas têm letra de Helder Moutinho - e para a voz de muitos outros e outras fadistas. Como se isto tudo não bastasse, Helder Moutinho é ainda um estudioso e um pensador do fado, do fado antigo e dos fados que se poderão fazer no futuro, não sendo portanto de espantar que este seu terceiro álbum seja uma reflexão - inteligente - sobre a essência do fado e quais os caminhos que percorreu e irá percorrer. E uma reflexão que não se limita, nunca, à teoria, mas que apresenta exemplos práticos - e musicalmente e liricamente extraordinários, muitos deles - de como se pode renovar o fado tradicional (exemplos: «Perdi-me nos Olhos Teus», em que Helder Moutinho encaixa na perfeição um poema seu no Fado Mouraria, e «A Cor dos Olhos», em que a utilização de acordeão e percussões faz o fado conviver naturalmente com o fandango), de como a ponte entre o fado tradicional e muito do novo fado foi feito através do fado-canção (exemplo: o belíssimo «Esta Voz», com letra de Helder Moutinho e música do guitarrista Ricardo Parreira, que parece uma homenagem a Carlos do Carmo e à poesia de Ary dos Santos) ou como pode haver boa pop - pop mesmo! - no fado («À Espera de Uma Paixão», novamente com letra de Moutinho e com música de Yami). (*****)


SOB O FOCO
HELDER MOUTINHO

Homem de sete ofícios - mas sempre com o fado como fio que os une a todos -, Helder Moutinho acaba de editar um novo álbum, «Que Fado É Este Que Trago?», uma pergunta que tem várias respostas mas que se resumem numa só: o seu enorme amor ao fado, ao antigo das vielas de Alfama ou da Madragoa, ou aos outros, outros fados, que aí virão ou que, nele, já convivem com a tradição. Porque o fado até pode ser «maldito» sem deixar de ser possível trocar as voltas ao destino.

A primeira pergunta, inevitável, é: afinal, que fado é este que trazes?

Se eu próprio faço essa pergunta, é porque também não sei muito bem. É o meu fado, o fado em que eu acredito. E é todo o fado, desde o tradicional até aos chamados fados-canção e aos originais, que ainda não sabemos muito bem se são fados e que, obviamente, ainda não são clássicos porque são novos, embora um dia possam vir a ser considerados como tal se forem aceites pelo grande público e até pela comunidade fadista. Sei que sou fadista, não caí aqui de pára-quedas, mas no fundo não sei lá muito bem qual é o meu fado.

Neste álbum, criaste ou recriaste fados ao jeito tradicional, embora com letras ou músicas novas…

Sim. O «Labirinto ou Não foi Nada» tem letra de David Mourão-Ferreira mas a música é minha, uma música que eu compus com a estrutura de um fado tradicional, sem refrão. E chamei-lhe Fado Labirinto porque muitas das músicas de fados antigos onde podem caber várias letras diferentes assumem o nome da letra original - por exemplo, o Fado Cravo, do Alfredo Marceneiro, chama-se assim porque a letra original falava de um cravo.

O tema que dá nome ao disco, «Que Fado É Este Que Trago?», levanta uma questão curiosa: a música é do Yami, que é angolano. E há quem diga que o fado nasceu em Angola, viajando depois para o Brasil e do Brasil para cá…

Pois, mas este fado não tem nada a ver com isso. O Yami tem uma particularidade interessante: ele nasceu em Angola, filho de mãe angolana, mas o pai é minhoto. Mas, apesar de na sua maneira de tocar ele ter muitas raízes africanas, ele veio para Portugal muito novo e está muito integrado no meio do fado. Ele toca baixo com outros fadistas e comigo sempre. Em relação à origem do fado, acho que ele nasce a partir de uma série de outros estilos musicais que se encontram numa cidade portuária, Lisboa. E essas influências vêm de Angola, do Brasil - para onde nós também levámos muitas músicas -, Índia, Moçambique… e é bom não esquecer os 700 anos em que os mouros cá estiveram. E o fado é a convergência dessas melodias todas.

Neste álbum - à semelhança do que já acontecia no teu espectáculo «Maldito Fado» - há alguns instrumentos exteriores ao formato do fado: o acordeão e as percussões.

Sim, e o «Maldito Fado» - que esteve para ser este meu novo álbum, e gravado ao vivo - teve bastante influência na génese deste disco de estúdio. Os outros instrumentos… não são uma novidade - a Amália e o Carlos do Carmo fizeram-no - mas foi uma experiência que decidi fazer, porque são instrumentos vindos de outros géneros musicais. Como se fossem outras perguntas que eu faço.

04 novembro, 2008

Mafalda Arnauth - Mais Flor Que Fado


Sempre na linha da frente da renovação do fado, a cantora e compositora Mafalda Arnauth editou há algumas semanas o seu novo álbum, «Flor de Fado». Aqui, para fãs e simples curiosos, deixo a transcrição da entrevista que lhe fiz para a «Time Out Lisboa» e da crítica ao álbum, igualmente publicada na mesma revista há algumas semanas.


MAFALDA ARNAUTH
MAIS FLOR QUE FADO...

E ao quinto álbum de originais, «Flor de Fado», Mafalda Arnauth - ela que canta, que produz, que compõe boa parte dos temas do álbum, sozinha ou em parcerias - cria um disco brilhante, pessoalíssimo e um disco que... não é de fado, apesar de o fado estar lá, em flor.

Em 2005, Mafalda Arnauth lançou o seu «best of», de nome «Talvez se Chame Saudade», súmula de uma carreira discográfica com seis anos, três álbuns - todos eles bem inscritos no universo do fado - e uma crescente adesão de público e de crítica em Portugal e no estrangeiro. Uma fadista estava na calha mas, em contramão ou nem tanto, o seu caminho seguinte - o álbum «Diário» (editado nesse mesmo ano, alguns meses depois) mostrava Mafalda a experimentar outras linguagens para além do fado - de uma milonga argentina a uma canção de Vinicius de Moraes, de Charles Aznavour à música basca... - e o recentíssimo «Flor de Fado» mostra a cantora e compositora com um pé no fado e outro em territórios musicais portugueses, muitíssimo portugueses sim, mas que do fado - se é que de fado sempre se trata - só conservam uma essência primordial. Diz ela: «Ainda há poucos dias falava com os meus músicos acerca do título do novo álbum, "Flor de Fado", porque este é de facto o meu disco menos de fado, de fado no sentido tradicional da palavra. Mas sinto-me mais fadista do que nunca. Nos valores, nas intenções, na ideia de cantar a vida real. E nesse sentido acho que continuo a ser extremamente fadista... Mas é verdade que há aqui um depurar, um ir à essência... A "Flor de Fado" é como a flor de sal, quando a água evapora e aquilo que fica...».

A analogia, lindíssima e que facilmente se explica por si, com a flor de sal tem uma continuação lógica na explicação de Mafalda de que este disco vive muito dos diálogos entre duas guitarras clássicas, a viola de fado de Luís Pontes e a viola do argentino Ramon Mascio, e em que a guitarra portuguesa - tocada soberbamente por Ângelo Freire, um jovem de apenas 19 anos a quem Mafalda Arnauth augura um futuro brilhante - aparece muito menos em destaque do que seria de esperar, embora quando apareça, como na sua versão de «Povo Que Lavas no Rio», seja, nas palavras de Mafalda, um «leão na selva». Mafalda Arnauth diz que a viola de fado fica muitas vezes «num ponto absurdamente esquecido. E há muitos anos que queria ter duas guitarras clássicas como base da minha música». E estiveram quase a ser três, se Pedro Jóia - com o seu lado flamenco - se tivesse juntado ao projecto, hipótese que se pôs depois de um concerto no Porto. E a estes guitarristas juntou-se também o baixista Fernando Júdice (ex-Madredeus), que já tinha trabalhado com Mafalda Arnauth no passado mas que do fado só tinha tido essa experiência.

Mafalda justifica, se tal preciso fosse, o seu mergulho em «outras músicas» no anterior álbum «Diário» como consequência de alguém que «quando era nova não ouvia fado, de todo. Ouvia música brasileira, música de outros países de América do Sul, música francesa... Só comecei a ouvir fado com 18, 19 anos. E no "Diário" alarguei os meus horizontes para me exprimir noutras linguagens». E todo o universo fraternal de «Flor de Fado» - um universo em que podem entrar nomes da chamada «canção ligeira» portuguesa dos anos 60 como Fernando Tordo, Simone de Oliveira e até, de forma lateral, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo ou José Afonso - tem também uma razão de ser. «Tenho uma admiração profunda por todos esses nomes. E nunca percebi muito bem porque é que se chamava "canção ligeira" à música do Fernando Tordo, da Simone, do Carlos do Carmo... Ligeira no sentido de superficial, de pouco profundo, de efémero... Acho que não são nada disso. E são mesmo capazes de estar na minha memória genética».

E, em defesa - repete-se, se tal defesa fosse necessária - das suas canções, Mafalda diz que «actualmente há muita gente talentosa a defender, e a defender de forma brilhante, o fado mais tradicional. Mas qual é o interesse de eu ir, só para mostrar que sou capaz, fazer um reportório integral de fado tradicional?... Posso vir a fazer um disco de fado clássico em qualquer altura da minha vida». Mas, enquanto isso não acontece, está aí «Flor de Fado» - onde Mafalda também realça a participação do poeta Tiago Torres da Silva na escrita de alguns temas e o muito bem-disposto dueto com a cantora brasileira Olivia Byington (em «Entre a Voz e o Oceano», tema com música de Olivia e letra de Tiago Torres da Silva) - e uma infinidade de colaborações de Mafalda com gente como o mítico cantor cubano Pablo Milanés (num concerto, há alguns meses, no País Basco), com o importantíssimo grupo galego Milladoiro (numa participação que irá aparecer no próximo álbum deste grupo), com o brasileiro Vinicius Cantuária (num concerto conjunto previsto para a próxima edição do festival Atlantic Waves, em Londres) ou a gravação de um tema para o próximo disco do mestre da trikitixa basca Kepa Junkera. E que melhores parcerias é que se poderiam querer?


MAFALDA ARNAUTH
«FLOR DE FADO»
Universal Music Portugal

Se em «Diário», o seu álbum anterior (de 2005), Mafalda Arnauth levava muitas vezes, e bem, o fado para as «músicas do mundo» - nesse disco Mafalda cantava Vinicius de Moraes, uma milonga, «La Bohéme» (de Charles Aznavour), um tema do basco Fran Lasuen (ex-Oskorri)... - neste novo «Flor de Fado», a cantora salta do fado para uma música portuguesa «mítica» que remete muitas vezes para a grande canção, ligeira ou não, dos anos 60 e 70 no nosso país. Uma música imaginária que convoca em partes praticamente iguais José Afonso e Amália Rodrigues (e está aqui «Povo Que Lavas no Rio», embora numa versão pessoalíssima e que se afasta bastante da matriz amaliana), Simone de Oliveira e Fernando Tordo, Carlos do Carmo e Vitorino Salomé (e está aqui uma versão de «Tinta Verde», de Vitorino). Como está também um delicioso fado-bossa, «Entre a Voz e o Oceano», num dueto com a cantora brasileira Olivia Byington e uma versão lindíssima de «Flor do Verde Pinho» (de Manuel Alegre e José Niza).

Pensado originalmente como «alinhamento» para um concerto, este álbum (de estúdio) tem Mafalda Arnauth rodeada pelo letrista Tiago Torres da Silva e pelos compositores e guitarristas Luís Pontes e Ramon Maschio, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Fernando Júdice no baixo e Davide Zaccaria no violoncelo. Uma equipa de luxo que fez deste disco aquilo que ele é. «Quem Me Desata» é capaz de ser o fado mais fado de todo o álbum e mostra que, se Mafalda Arnauth e os seus músicos tivessem querido, este poderia ter sido, todo ele, um excelente álbum de fado e de uma excelente fadista. Assim, é - e ainda bem - um excelente álbum de música e de uma excelente cantora. (*****)

28 outubro, 2008

Ry Cooder e o Buena Vista Social Club - O Meu Coração É Cubano


Ouvir agora o álbum gravado ao vivo pelo colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall em Nova Iorque é voltar a sentir o mesmo arrepio que se teve quando se ouviu pela primeira vez o álbum de estúdio do «grupo» e se viu pela primeira vez o documentário de Wim Wenders com o mesmo nome. Há algumas semanas, na «Time Out Lisboa», foram publicados estes meus dois trabalhos a propósito dessa edição: uma entrevista com Ry Cooder (na foto), produtor do «Buena Vista Social Club», e uma crítica ao álbum ao vivo recentemente editado pela World Circuit.


RY COODER
O MEU CORAÇÃO É CUBANO

Este título é mentira. Ou é só uma semi-mentira. Nunca, ao longo desta entrevista, Ry Cooder disse a frase. Mas sente-se - no decorrer de toda a conversa que tem como mote a edição em disco do mítico concerto do Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, em Nova Iorque - que Cooder está quase, quase a dizê-la.

Quem viu o filme «Buena Vista Social Club», de Wim Wenders, sabe bem do que se está a falar aqui: o concerto que juntou velhas e novas glórias da música cubana - as mesmas que protagonizaram o disco homónimo editado um ano antes - no palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, em Julho de 1998. O encantamento, o espanto, de muitos daqueles músicos e cantores perante a grandeza da cidade; o encantamento, o espanto, de quem os ouvia no concerto - «gringos», centenas de «gringos», rendidos à verdade e à beleza daquela música antiga que vinha dali de tão perto, de Cuba, e dali de tão longe - a Cuba inimiga de Fidel. No centro do palco, mas lá atrás, de óculos e discreto, está Ry Cooder - o padrinho da iniciativa, produtor do álbum que então começava a tornar-se no maior best-seller da história da world music e um exemplo maior de que a música pode muitas vezes derrubar muros políticos e ultrapassar fronteiras geográficas.

No início deste processo está uma ideia de Nick Gold, director da editora World Circuit, que, recorda Ry Cooder nesta conversa, «queria gravar um álbum de colaboração entre guitarristas africanos - nunca cheguei a saber quem eles eram! - com músicos cubanos. Mas os músicos africanos nunca conseguiram os vistos para poder ir a Cuba na altura e tivemos que mudar o foco do disco». O próprio Ry Cooder teve que deslocar-se a Cuba através do México, devido ao embargo norte-americano à ilha. «Mas tivemos a felicidade de conseguir juntar em estúdio os melhores músicos e cantores cubanos que, em 1996, ainda podíamos encontrar. E todo o processo de gravação foi muito improvisado, gravando com quem ia aparecendo no estúdio. Não houve um plano». Questionado sobre se se teria apercebido, durante as gravações em Havana, de que estava envolvido num disco que viria a tornar-se histórico, Ry Cooder diz que «não. Estava ali a divertir-me, a conhecer pessoas maravilhosas - e, acima de tudo, a aprender com elas - e a tentar fazer o meu trabalho o melhor possível». O resultado comercial deste disco que deu a conhecer ao mundo artistas como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo ou Omara Portuondo foi uma coisa que surpreendeu Ry Cooder e o próprio Nick Gold. Diz Ry Cooder que «o Nick, optimista como é (risos), apontou as vendas para a ordem dos cem mil. E acho que já vendeu mais de oito milhões de exemplares até agora...».

Passados todos estes anos, alguns dos músicos presentes em «Buena Vista...» já não se contam no reino dos vivos (Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Pio Levya, Rubén González...). Ry Cooder relembra-os com saudade e diz-se «um homem de sorte por tê-los conhecido. Tenho um grande orgulho por ter estado com eles, por tê-los visto tocar e cantar. Tenho tido a sorte de tocar e colaborar com muita gente ao longo destes anos, gente deste calibre, com quem aprendi imenso». Em sentido contrário, as gravações em Havana tiveram consequências perversas na vida de Ry Cooder, cidadão norte-americano: «O Departamento de Estado - cheio de reaccionários anti-cubanos - ameaçou-me com a prisão, escreveu-me uma carta a dizer que eu estava "sob suspeita". Isto não teria acontecido se o disco ("Buena Vista...") não tivesse tido sucesso, mas como estava a ter aquela visibilidade toda, isso virou-se contra mim. Felizmente, tive o apoio do presidente Clinton que, apesar do embargo, não se opunha a trocas culturais com Cuba». Essa abertura de Clinton possibilitou a realização do concerto do colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, cujo registo discográfico é por estes dias posto à venda, e a deslocação de Ry Cooder a Cuba para a gravação de discos em nome individual de algumas das estrelas reveladas pelo álbum original. Mas este estado de graça terminou em 2001, quando George W Bush e a sua administração - a quem Ry Cooder chama «evil clowns» - chegaram ao poder. E deixa o desejo de que, nas próximas eleições, seja o Partido Democrata a vencer.

Ao longo de uma carreira longa e riquíssima de experiências em várias áreas musicais - do rock aos blues, passando pelas bandas-sonoras de vários filmes, as trocas com músicos extraordinários (a sua parceria com Ali Farka Touré também foi recordada com saudade durante a entrevista) -, Ry Cooder tem, nos anos mais recentes, flirtado de forma mais aberta com a música mexicana e com as suas ligações à música norte-americana (numa fabulosa trilogia de álbuns: «Chávez Ravine», «My Name Is Buddy» e «I, Flathead»), preparando-se agora para, de certa forma, continuar essa aventura produzindo um álbum que vai juntar o mais prestigiado grupo folk irlandês, The Chieftains, com músicos mexicanos.


BUENA VISTA SOCIAL CLUB
«AT CARNEGIE HALL»
World Circuit/Megamúsica

«Buena Vista Social Club», o álbum de estúdio - gravado em 1996, em Havana, com produção executiva de Nick Gold (o patrão da World Circuit), produção musical de Ry Cooder e com Juan de Marcos González como ligação no local aos outros músicos cubanos, novos ou antigos -, veio a ser o maior fenómeno de vendas da história da chamada world music, com mais de oito milhões de cópias vendidas pouco mais de dez anos sobre a sua edição. E, para além de ser um campeão de vendas, tornou-se também um paradigma para outras produções semelhantes - já há um disco chamado «Samba Social Club»; já há outras aproximações à «fórmula» feitas com músicos de outras latitudes, incluindo em Portugal com o projecto «Cabelo Branco É Saudade»... Mas nada disto - nem as vendas, nem o paradigma - são importantes quando se ouve, se ouve mesmo!, o álbum: um registo em que a verdade absoluta de uma música, e quase sempre de um género entre os muitos géneros cubanos, o son, transparece em cada nota, em cada palavra respirada, em cada silêncio...

E agora, os fãs do «Buena Vista...» original já podem deliciar-se, de novo, com a voz de Ibrahim Ferrer, de Omara Portuondo, de Pio Levya, de Compay Segundo ou de Eliades Ochoa, com o piano mágico de Rubén González e com a trompete falante de Manuel «Guajiro» Mirabal porque é editada, finalmente, a gravação do mítico concerto que este grupo de cantores e músicos cubanos - mais os outros que também por lá estão - deram no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1998; o mesmo do qual temos algumas imagens no documentário homónimo de Wim Wenders. E o que é que ganhamos neste álbum ao vivo que não há no original de estúdio?... Resposta fácil: uma maior dose de improvisação em alguns dos temas (oiça-se González brilhar no seu solo do tema-título «Buena Vista Social Club»), algumas canções que não estavam no original - como «Mandinga», ponte feita entre Cuba e a África Ocidental, uma deliciosa versão de "Quizás, Quizás" ou a belíssima "Silencio". E, acima de tudo, a certeza de que o álbum de estúdio não foi apenas um milagre de... estúdio mas que tudo aquilo, principalmente «ao vivo», é música da melhor e da mais genuína que alguma vez existiu. (******)

20 outubro, 2008

Dany Silva - Quarenta Anos Entre Cabo Verde e... O Mundo


A comemorar - sem oficialmente o comemorar - quarenta anos de carreira profissional no mundo da música, Dany Silva lançou recentemente o álbum «Caminho Longi», um excelente regresso para este cantor e compositor que foi pioneiro na mostra da música cabo-verdiana aos portugueses. Aqui em baixo seguem uma entrevista a Dany Silva e uma crítica ao disco «Caminho Longi» originalmente publicadas na «Time Out Lisboa» há algumas semanas.


SOB O FOCO
DANY SILVA

«Caminho Longi» é o novo álbum de originais de Dany Silva, oito longos anos passados sobre «Tradiçon». Gravado em Portugal e nos Estados Unidos, com Cabo Verde no horizonte, e sempre a meio caminho. Dany Silva conversa com António Pires.

Pelas minhas contas, se calhar mal feitas, o Dany tem cerca de quarenta anos de carreira feita em Portugal...

Comecei a ser músico profissional em 1968. Por isso estou mesmo a fazer quarenta anos de carreira!

E começou pelo rock...

Sim, com Os Charruas, Quinteto Académico+2, em grupos de casino... N'Os Charruas tocávamos versões dos Beatles, dos Bee Gees, etc... E no Quinteto Académico íamos mais à música negra norte-americana, ao rhythm'n'blues, à soul, ao funk, Otis Redding, James Brown...

E essas influências ficaram-lhe, não ficaram? Porque a sua música, apesar das raízes cabo-verdianas, não é somente cabo-verdiana...

É verdade. Não sou aquele músico típico cabo-verdiano, tradicional. Quando comecei a gravar música cabo-verdiana, utilizei sempre as influências que eu tive de outras músicas, não só a música norte-americana mas também a música popular portuguesa, a música brasileira, a música angolana... Quando comecei a gravar a solo, no fim da década de 70, para a Valentim de Carvalho, não podia cantar em crioulo, tinha que ser em português. Mas quando editei o meu primeiro álbum, «Lua Vagabunda», já tinha muitas canções em crioulo, com algumas em português. Aliás, em todos os meus discos tenho canções em português, que é uma língua fabulosa.

O Dany não tem a sensação de que passou ao lado de uma grande carreira internacional? E a razão para isso não será o facto de sempre ter vivido em Portugal?

Há músicos cabo-verdianos que chegaram à música muito depois de mim e que andam por todo o mundo... E ainda bem! Mas eles tiveram a sorte - e eu tive também a minha sorte - ou a oportunidade que eu não tive, que foi a de cair em mãos com indivíduos que trabalham lá fora, empresários, agentes, editores, que distribuem as coisas de outra maneira. Nunca fui aventureiro, no sentido de pegar nas minhas coisas e ir lá para fora.

Excepto agora, em que gravou boa parte do seu novo álbum, «Caminho Longi», nos Estados Unidos...

Sim, mas lá está! Vieram buscar-me. Não fui eu que procurei isto... Foi um acaso. O Barry Marshall (produtor do álbum) esteve em Portugal, em 2005, a acompanhar um cantor que ele produziu , o Philip Hamilton - que trabalhou com o Pat Metheny, a LaVern Baker... -, e conhecemo-nos na Casa da Morna, onde eu estava a tocar. E ele convidou-me a gravar um álbum com ele. Parte do álbum foi gravado nos estúdios de uma escola em que ele dá aulas, The New England Institute of Art, em Brookline (na zona de Boston). E o álbum foi gravado como um projecto de interesse para a escola. Gravei com músicos cabo-verdianos residentes lá e com músicos americanos. E o resto foi gravado cá, no estúdio do Rui Veloso... Com muito boa vontade de toda a gente! E, para além deste disco de originais, também aproveitámos para gravar um outro, com temas de toda a minha carreira - em duetos com Rui Veloso, Jorge Palma, Tito Paris, Nancy Vieira... -, que vai ser editado no próximo ano.

Para terminar: o tema «Caminho Longi» tem depois um parêntesis, «(In Memoriam)»... Pode explicar?

Esse tema é dedicado ao meu irmão, que morreu em 2001. O «caminho longi» é a eternidade...



DANY SILVA
«CAMINHO LONGI»
SaturdayNight/Fantasy Day

Um «longo caminho» foi percorrido por Dany Silva entre «Tradiçon», o seu álbum anterior, editado em 2000, e este novo «Caminho Longi», gravado entre Boston e Vale de Lobos, com a ajuda do produtor Barry Marshall - líder da banda The Marshalls e produtor de discos de LaVern Baker, Peter Wolf, Aimee Mann, Rev. Lee Mitchell, Patricia Vlieg, etc. Mas a espera valeu a pena! Não sendo um álbum absolutamente genial, «Caminho Longi» é, sem dúvida, o melhor álbum de sempre de Dany Silva, mostrando este cantor, músico e compositor cabo-verdiano radicado há muito em Portugal - e um verdadeiro cidadão do mundo que integra na sua música muitíssimas músicas - a cruzar sabiamente mornas, coladeiras e funanás com funk, latin-jazz, cheirinhos de salsa, blues, ritmos angolanos... O primeiro tema do álbum, «Farra na Sanzala» é um passaporte directo para a festa. O segundo, «Festa di Nôs Santos», é uma explosão de estilos diferentes (contem-nos!). O terceiro, «Nunca N'ca Odjal Só Tisna» (composto por Zézé di Nha Reinalda) mergulha de cabeça na tradição cabo-verdiana. E ao longo do álbum há algumas outras belas surpresas como o fabuloso «Nha Cretcheu Nha Perdiçon» (que parece uma balada dos Beatles transmutada em morna), o pungente «Caminho Longi», a coladeira apontada a sul de «Na Quês Temp», a versão de «Foi Por Ela» (de Fausto), em ritmo mais lento e dolente, morna absoluta!, ou a regravação de «Mamã África» (em dueto com o cantor norte-americano Philip Hamilton). Com vários temas de Dany Silva (alguns em parceria com o letrista angolano Cuca) e outros de autores como o já referido Zézé di Nha Reinalda e Fausto, mas também Toy Vieira ou Baptista Dias, «Caminho Longi» pode bem não ser o fim do "caminho", mas um bom re-início para Dany Silva. (*****)

28 maio, 2007

Terrakota - Próxima Estação: Aula Magna



A propósito do lançamento do álbum «Oba Train» e do concerto de apresentação do disco, dia 31, próxima quinta-feira, na Aula Magna, em Lisboa, a cantora Romi e o guitarrista Alex deram uma entrevista ao Raízes e Antenas. Um resumo da conversa segue aqui em baixo como mais um aperitivo para a audição do álbum (ver também crítica ao disco) e/ou para o concerto...

Quais são as principais motivações para continuarem a lutar pela vossa música?

Alex - Para já, continuamos todos muito apaixonados por aquilo que fazemos. E também recebemos muitos estímulos das pessoas que nos ouvem que nos motivam a continuar. Quando fazes o que gostas e percebes que a coisa também passa para o público, isso dá muita força. Também temos tido oportunidade, graças ao nosso trabalho, de não estarmos fechados numa carreira apenas em Portugal. E os nossos concertos no estrangeiro, perante públicos novos, e apesar do cansaço, vai-nos estimulando.

Romi - Se só tocássemos em Portugal, tenho a sensação de que estaríamos muitas vezes a andar em círculos fechados. O facto de tocarmos lá fora é importante para essa motivação e também para tentar melhorar sempre.

Este álbum dos Terrakota estreia uma nova editora, a Gumalaka, associada à Matarroa e à Rádio Fazuma. como é que surgiu essa associação de vontades?

Alex - O trabalho das grandes editoras, que são cada vez menos, é um trabalho repetitivo e feito com pouca paixão. E então nós fomos ter com pessoas que, ao longo dos anos, gostam daquilo que fazem e daquilo que nós fazemos. Fomos falar com a Rádio Fazuma e, a partir dali, o processo foi correndo: fomos falar com a Matarroa e também sentimos muito boa energia. E isto alargou-se às outras pessoas que trabalharam connosco, os técnicos, as pessoas do estúdio, as pessoas que acreditam em nós e contribuíram com dinheiro. E isso nota-se no disco: há, por exemplo, uma voz que é de uma das pessoas da Rádio Fazuma...

Romi - Reuniu-se aqui um grupo alargado de pessoas que têm a mesma forma de sentir, de estar; o mesmo gosto. E uma maneira de fazer as coisas que tem mais a ver com a cultura verdadeira e não com o comércio.

O vosso técnico nas gravações foi, mais uma vez, o Dominique Borde. Ele é quase um membro honorário dos Terrakota, ou não?

Alex - Quando vamos para estúdio, sim. Não sei se mais alguém teria paciência para suportar aquela quantidade de pistas que nós gravamos. «Olha, vamos pôr mais um instrumento; olha...». E o estúdio dos Blasted Mechanism, em que o nosso álbum foi gravado, tem muito bom som. Tem uma ligeira reverberação que é muito melhor para os nossos instrumentos acústicos do que outros estúdios, de acústica mais seca e abafada, em que já gravámos.

Há, pelo menos, uma grande diferença neste álbum em relação ao anterior («Húmus Sapiens»): o Junior tem novamente uma presença importante nas vozes, a juntar à Romi...

Romi - Sim, no primeiro álbum nós dividíamos muito as vozes entre os dois, mas no segundo fui eu que cantei mais. Neste novo voltámos um pouco à espontaneiade do primeiro e as coisas aconteceram assim naturalmente, mas com mais maturidade...

A vossa música passa por imensos géneros e o novo álbum ainda passa por mais alguns que nunca tinham visitado. Mas há, aqui, uma presença maior do chamado «som mestiço» (Manu Chao, etc.) e de temas cantados em espanhol...

Romi - Nós estivemos em Barcelona e gostamos imenso do trabalho do Manu Chao, mas tudo isso foi por acaso. Lisboa também seria o lugar ideal para se fazer um «som mestiço», à semelhança de Barcelona ou de Paris, mas isso não acontece porque cá ainda há muitos preconceitos a vários níveis. É quase como se fosse uma borbulha que Lisboa tem e que tenta esconder com base em vez de a extrair e tentar curá-la.

Mas, ao menos, já há alguns casos em Lisboa de mestiçagem musical...

Romi - Sim, mas as mais visíveis são mais na área da electrónica. Se se meter um bocadinho de drum'n'bass já a coisa vai, como no caso dos Buraka Som Sistema... Mas o mesmo já não acontece em relação a outros grupos. Esta situação poderá mudar: a minha filha é filha de um pai italiano e de uma mãe semi-angolana semi-portuguesa e, assim, a mente dela é mais aberta em termos culturais e de linguagens.

Alex - Mas tens razão em relação ao «som mestiço»... Nós somos um grupo de «global-fusion», como dizem os ingleses; somos uma coisa híbrida, numa sociedade híbrida, a fazer uma música híbrida.

Romi - E, ainda em relação ao cantar em espanhol, digo-te que, a primeira vez que ouvi flamenco, aquilo tocou-me tanto quanto a música africana. Eu acredito que já fui cigana numa outra vida... O flamenco tem uma energia vital.

Qual foi a intenção de convidarem tanto os rapazes do hip-hop angolano quanto o lendário U-Roy para as gravações do álbum?

Alex - O Ikonoklasta e o Conductor do Conjunto Ngonguenha têm um trabalho que está muito à frente em termos de mensagem e há entre nós uma grande identificação na leitura do mundo. A colaboração correu muito bem e ainda havemos de fazer mais coisas juntos. Quanto ao U-Roy, houve, para além da admiração que temos por ele, uma oportunidade única que foi o facto de ele vir cá a um festival. E gravámos a participação dele no quarto de hotel porque ele tinha que ir para Espanha umas horas depois. Mas foi muito giro.

Há agora alguns concertos de apresentação do álbum...

Alex - Já houve um, em Milão, que correu muito bem! Tínhamos três mil pessoas a ver-nos. E agora há o de apresentação oficial na Aula Magna, dia 3, produzido por nós, por uma associação cultural, a Bigorna, e a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa. Vão lá!!! O bilhete custa só 5 euros!!! É simbólico... E vai acabar antes de o Metro terminar. Depois vamos ao Porto, ao Festival Mestiço, dia 8 de Junho. Em Lisboa vamos ter como convidado o Conductor e no Porto vamos ter os dois: o Conductor e o Ikonoklasta. E a seguir, os Terrakota fazem de banda de suporte de um concerto deles...

07 março, 2007

José Fortes - O Senhor do Som



José Fortes (à direita na foto, com o músico Júlio Pereira) é o mais importante engenheiro-de-som da música portuguesa. Com um curriculum em que entram gravações de campo com Michel Giacometti e trabalhos com José Afonso (é a José Fortes que se deve a existência do álbum «Galinhas do Mato» e já se vai perceber porquê), Fausto, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral, José Peixoto... e até bandas rock como os UHF ou os Mão Morta, José Fortes é um músico sem o ser, o mestre e exemplo para muitos dos mais recentes engenheiros-de-som, como Tó Pinheiro da Silva. A entrevista que se segue foi publicada originalmente no BLITZ em Agosto de 2004, para a série «52 Personalidades da Música Portuguesa».


JOSÉ FORTES
FICHA:

José Manuel Nunes Fortes nasceu a 16 de Fevereiro de 1943. Precoce na profissão, com apenas 13 anos deixaram-no sozinho a fazer o som de uma emissão de rádio em directo e com 15 anos capta o som de um disco de poesia. E elege como marcantes para a sua vida o filme «O Caçador», de Michael Cimino, o livro «Por Quem os Sinos Dobram», de Ernest Hemingway, e como disco «Galinhas do Mato», de José Afonso, álbum em que Fortes tem uma contribuição decisiva (e não só como engenheiro-de-som, como se verá a seguir).

ENTREVISTA:

José Fortes é um veterano da captação de som em Portugal e um guru de vários dos mais recentes engenheiros-de-som portugueses (Tó Pinheiro da Silva, em entrevista a publicar nestas páginas, aponta-o como o seu grande mestre). No infindável curriculum de Fortes contam-se inúmeras gravações de gente tão diversa quanto Carlos Paredes e José Afonso ou os UHF, efectuadas ao longo de cinco décadas. Nos últimos anos tem-se dedicado fundamentalmente à gravação de música clássica, mas às vezes ainda há gente diferente que vai pedir a sua ajuda, como os Mão Morta. E não acha que o seu trabalho seja uma arte, mas sim uma técnica.

Com nove anos, José Fortes fazia de paquete nos estúdios do Porto da Emissora Nacional (actual RDP). Levava bicas ao pessoal da estação de rádio e observava o trabalho dos outros. «Entusiasmei-me com a parafernália do equipamento e os técnicos acharam graça ao puto». O «puto» Fortes começou a mexer no material, aprendeu e, com 13 anos, os técnicos mais velhos «praxaram-no» e deixaram-no sozinho a fazer o som de uma transmissão directa para a Emissora de um espectáculo no Teatro S. João, no Porto. E aos 15 anos é o responsável pela gravação de um disco de poemas de José Régio, ditos pelo próprio, para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade. E em seis meses grava «imensos discos» para esta editora, uma das mais corajosas independentes do pré-25 de Abril (para ela gravaram artistas como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Fausto, Sérgio Godinho...).

Nos primeiros anos de carreira, Fortes gravou muita música folclórica - «dezenas e dezenas de ranchos folclóricos, nas eiras e noutros recintos das aldeias onde se faziam as festas, com um material rudimentar, os gravadores Ampex 601» - e também conjuntos populares como o Pais e Filhos e o Conjunto Maria Albertina. Em 1962 abre um estúdio no Porto, que ainda existe, o Fortes & Rangel. Mas quando volta da tropa - em 1969 - recebe um convite para dirigir um estúdio em Lisboa, pertencente à Rádio Triunfo, onde permanece durante muitos anos. Para esta editora grava fadistas como Fernanda Maria, Carlos do Carmo, Cecília do Carmo, «dezenas deles». E da música ligeira grava Fernando Tordo - que Fortes destaca como o exemplo de um cantor que gravava tudo ao primeiro «take» -, Paulo de Carvalho, Teresa Silva Carvalho, José Calvário, Maria José Valério, Marco Paulo... «Gravei quase todos». Em alturas diversas também trabalha com Michel Giacometti, em recolhas de música tradicional. Sai da Rádio Triunfo porque «o estúdio estagnou em termos técnicos. E a política da editora era muito import-export, sem grande interesse na criação artística».

Por essa altura, 1979, Fortes pensa abandonar a actividade de engenheiro-de-som. «Pensei: vou parar, fazer outra coisa na vida. Mas ao fim de 15 dias de estar em casa aparece-me o maestro Correia Martins, que me convida para ir gravar com ele num estúdio, RPE, que estava um caos. Comecei por recusar, mas lá fui "desenrascar" o trabalho». E tanto desenrascou que ficou: o estúdio estava falido, era «um buraco» e transformou-se num desafio remodelar o estúdio e criar condições profissionais para nele fazer boas gravações. Nascia assim o Angel Studio, do qual Fortes viria a ser sócio. Em 1984, ano de nascimento do BLITZ, Fortes está de corpo e alma neste estúdio, onde grava ao longo da década de 80 mais umas boas centenas de artistas, entre grupos rock, cantores ligeiros, músicos de MPP... Com José Afonso, por exemplo, trabalha várias vezes. E é ele o responsável por haver um álbum chamado «Galinhas do Mato«, o último de originais de José Afonso (e onde participam também cantores como Luís Represas, Janita e Né Ladeiras, entre outros). Fortes conta a história: «Temas cantados pelo Zeca nesse álbum foram gravados alguns anos antes, para um álbum a editar pela Sassetti. Essas gravações acabaram por não sair na altura porque a editora se recusou a pagar uma ninharia pelas fitas. Toda a gente pensava que as fitas tinham sido apagadas, mas eu guardei-as e as gravações acabaram por aparecer no "Galinhas do Mato"», disco editado em 1985 pela Transmédia.

José Fortes é, em alguns discos, para além de engenheiro-de-som, creditado como produtor. «Há alguns amigos que me envolveram na produção ou eu envolvi-me na produção, não sei bem. Mas às vezes comecei a opinar e essa opinião começou a ser bem recebida. Mas não sou produtor nem tenho pretensões a isso». Nessa função de produtor e/ou co-produtor trabalhou com José Peixoto, Júlio Pereira e até os Mão Morta. A propósito da banda rock de Braga, Fortes diz que «eles têm uma qualidade, independentemente do estilo, que é a honestidade. Aquilo que eles são é aquilo que eles fazem. Como é que um homem como eu, mais ligado à música acústica e à música clássica, trabalha com os Mão Morta?... Porque são pessoas de boa formação e fazem um trabalho honesto. E não renego o estilo deles, pelo contrário: gosto e oiço. Eles têm um estilo ímpar neste país».

No início dos anos 90, Fortes passa alguns meses nos estúdios Valentim de Carvalho, «de passagem», quando o Angel Studio se alia à VC. Mas sai por incompatibilidades várias, «dei-me mal com aquilo». E vai para a Edipim, empresa de televisão, embora nunca perdendo o «contacto com as gravações de música acústica, principalmente na área da música clássica». Na Edipim permanece durante seis anos. Actualmente trabalha por conta própria e possui um estúdio móvel montado numa carrinha Iveco, que utiliza para gravar concertos de música clássica, a sua música preferida. «Faço gravações a preços módicos e suaves prestações mensais, orçamentos grátis e vou a casa do freguês». E acrescenta, com humor: «Sou mais camionista que técnico, talvez». Mas ele prefere assim, continuar a viajar milhares de quilómetros por ano, na sua carrinha, para gravar aqui e ali, sem estar dependente de outras pessoas. Diz: «Prefiro comer uma tigela de sopa todos os dias e não fazer fretes a comer caviar todos os dias mas não me sentir feliz». «Estive muitos anos enclausurado numa régie. E de manhã, tarde, noite, madrugada, sábados, domingos, dias santos... Isso dá uma grande saturação. E ficamos azedos... principalmente com a saturação do faz-de-conta». Um faz-de-conta que se prende com a má qualidade de alguns artistas, que cantam mal, tocam mal e contam com os técnicos para disfarçar, com as máquinas do estúdio, a sua inabilidade como cantores ou músicos. E pergunta: «o que é que isso tem de arte?».

É também por isso que, agora, só trabalha com quem lhe dá prazer estar, conviver, gravar. Entre todos os artistas com que já trabalhou, José Fortes destaca ainda Miguel Graça Moura com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, António Pinho Vargas, Pedro Caldeira Cabral ou o guitarrista José Peixoto (desde há alguns anos a trabalhar com os Madredeus). Fortes diz de Peixoto: «Deu-me imenso prazer ver crescer o José Peixoto como músico. Há muitos anos, ele fez uma sessão de estúdio, reparei nele e falei com as pessoas que ali estavam, "este gajo funciona bem, é porreiro", mas ninguém deu muita importância. Mas convidei-o para gravar as coisas dele. Fomos para o estúdio gravar fora de horas, editou e a seguir as pessoas começaram a reparar nele. E só não tem mais sucesso porque há políticas editoriais que não se compreendem. Ou então se, em vez de se chamar José Peixoto, tivesse um nome qualquer em alemão. Gravei um concerto belíssimo do Peixoto com o Mário Franco, no CCB, que tinha apenas duas dezenas de pessoas na sala».

Para Fortes, ser engenheiro-de-som não é uma arte: «Faço captação de som. E isso é pura e simplesmente técnica, não é arte. Agora, podemos é ter técnicos de melhor ou pior qualidade, de quem gostamos mais ou menos, que se adaptam melhor a este tipo de trabalho ou àquele tipo de trabalho. Pela sua formação, pela sua instrução... A gravação não tem nada a ver com arte. Mas, se gostamos de música, aí já podemos aproveitar-nos disso. Gostamos, ouvimos e aí poderemos dar nuances diferentes ao trabalho que estamos a fazer». E acrescenta: «quando fazemos o equilíbrio de um grupo, de uma orquestra, seja do que for, para que soe bem - quer em termos de dinâmica, de espaço, de qualidade - estamos a usar parâmetros técnicos, não artísticos. Já ouvi dizer que a técnica é uma arte... mas só se for ao nível do artífice, como o sapateiro que também é um artista. A captação de som é uma actividade objectiva, não é subjectiva; porque assente em leis rígidas - a acústica é matemática, a electrónica é matemática, a física é matemática. Por exemplo, se temos distorção, essa distorção é mensurável; se temos excesso de nível, também podemos medi-lo em decibéis... A apreciação do trabalho é que poderá, depois, ser subjectiva». E deixa uma «dica», algo enigmática (ou irónica), aos novos técnicos de som: «também se fazem boas gravações com bons equipamentos».

Só para terminar. De José Fortes traça Júlio Pereira, na sua página de internet, o resumo de vida quase perfeito: «Dedicou toda a sua vida a estudar a melhor maneira de gravar os sons. De gravar o som. O seu curriculum não caberia nesta página. Dele constam centenas e centenas de discos, gravações de espectáculos e concertos ao vivo e recolhas de carácter etnográfico. Sempre se disponibilizou para ajudar o músico, dando horas sem remuneração, noites sem dormir e material emprestado. E um sorriso constante que lhe vem da sua ascendência galega».

30 janeiro, 2007

Maria Ana Bobone - O Fado Não Tem Uma Redoma à Volta


Maria Ana Bobone é uma das melhores fadistas emergentes da nova geração. Com uma carreira única onde entram aventuras «desviantes» com Ricardo Rocha e João Paulo Esteves da Silva, Maria Ana editou há um ano o excelente álbum de fado (e de outras coisas à volta) «Nome de Mar». A entrevista e a crítica que publico aqui hoje apareceram originalmente no BLITZ em Janeiro de 2006.


MARIA ANA BOBONE
É FADO (E À SUA VOLTA)

«Nome de Mar», o novo álbum de Maria Ana Bobone, mostra a fadista a assumir a música como carreira. Para levar a sério, mesmo que o fado seja, com ela, o fado e muitas coisas à volta.

Como é que se explica que, tendo já uma carreira tão longa no fado, este álbum («Nome de Mar»), seja o seu primeiro grande lançamento, em nome próprio, numa editora nacional?

Não gosto muito da palavra «carreira». Até costumo dizer que «carreira» só tenho uma, que é uma casa no Minho chamada a Casa da Carreira. Já canto profissionalmente há muitos anos, mas não investi de uma forma absoluta e total nesse campo. Porque achei que era importante tirar um curso, fazer outras coisas... Mas acabei sempre, por força do destino, por viver da música. E só o ano passado percebi claramente que era isto que eu queria fazer. E quero cantar como profissão, se for possível...

Como caracterizaria, então, os discos que ficaram para trás: «Alma Nova» (1993), partilhado com os fadistas Miguel Capucho e Rodrigo da Costa Félix; «Luz Destino» (1995), com o guitarrista Ricardo Rocha e João Paulo Esteves da Silva no cravo; e «Senhora da Lapa» (1999)...

Esses são discos que fazem parte da minha... carreira (risos) e que me honra muito estar neles. No primeiro tinha 19, 20 anos, e era uma debutante mas fi-lo com todo o empenho. Já o «Luz Destino» é um projecto do Ricardo e do João Paulo para o qual eu fui chamada para ser um terceiro instrumento. Não é um disco meu, é mais deles, mas foi o disco em que conheci o Ricardo e que marca a minha vida de uma forma transversal, porque é um disco em que há fado mas não há só fado...

Esse disco é quase um OVNI da história do fado...

Sim, tem fado com guitarra portuguesa e cravo e tem música contemporânea erudita, música dodecafónica, música improvisada do João Paulo... Mas adoro-o, é extraordinário. E fazer parte disso foi um privilégio...

E aí começa uma relação com o Ricardo Rocha que continua depois no «Senhora da Lapa» e agora no «Nome de Mar»...

Sim, e o Ricardo Rocha é muito importante porque com ele comecei a experimentar novos arranjos para o fado... E, neste novo disco, o desenho abstracto é meu, mas os arranjos e a direcção musical são dele e ele dá um cunho inconfundível a este trabalho. Sente-se que é ele que ali está... Foi ele que me permitiu que eu me aventurasse pelos caminhos por onde eu queria ir.

E neste álbum também vai buscar o João Paulo Esteves da Silva...

O João Paulo toca piano num dos temas («Senhora do Monte»), também porque neste álbum quis mostrar muitos dos caminhos da minha música. Isto, apesar de depois soar coerente e articulado. Mas tenho aqui fado, música barroca, música coral...

O que é que lhe deu para ir buscar tanta gente -- principalmente tantas vozes - para colaborarem no disco? No fado há raríssimos duetos e coros muito menos... Geralmente, a ideia é «olhem para a minha voz!»...

Eu não tenho essa postura. A música não é isso. E neste trabalho, com os guitarristas, o conceito é «nada é mais importante que nada», isto é, a minha voz não é mais importante do que os instrumentos deles. O facto de, geralmente, ser o cantor a receber todos os louros é uma coisa que me encanita um bocado. E não tem razão de ser. É também por isso que há um tema instrumental no disco. No dueto com a Filipa Pais é ela que começa a cantar, não sou eu, e não é um acto de generosidade, é porque fica muito melhor assim. Para além de que a Filipa tem das melhores vozes que eu conheço. E os coros aparecem... Este, mais do que um disco de fado, é um disco de música que radica no fado, parte do fado, mas vai para outros lados... No tema com os Tetvocal - que nunca achei que fossem aceitar o convite para participar - pensei num arranjo barroco para um coro, e o Ricardo começou por não ligar muito, mas depois apareceu-me com o arranjo, os Tetvocal aceitaram participar e o resultado foi espectacular... As Vozes Privadas são um grupo amador e participam num tema que não é um fado, o «Natal d'Elvas», que é uma pérola da música tradicional alentejana...

Outra pessoa importante do seu passado que «recuperou» para este disco foi o João Braga, do qual canta três fados, «Meu Nome É Nome de Mar», «Espera» e «O Achado»...

Trabalhei muito tempo com o João Braga e descobri, no reportório dele, coisas muito bonitas. E porque não cantar João Braga? Gosto dos temas e, ainda por cima, é ele o responsável pela minha vinda para o fado. E ele gostou imenso da minha interpretação...

Pode falar um pouco da escolha dos poetas que canta neste disco? Tem aqui poemas de Manuel Alegre, Miguel Torga, Pedro Homem de Mello e, também, Fernando Pessoa (em temas com música de Ricardo Rocha)...

Os do Fernando Pessoa, foi o Ricardo que me apareceu com os temas. Mas as minhas escolhas de poemas, normalmente, têm sempre a ver com uma preocupação estética, cuidada, em que o mais importante é a beleza. Neste disco não há propriamente uma mensagem, uma ideologia, mas quero transmitir... beleza. Se calhar, beleza é menos interessante do que tragédia ou drama... Mas é isso que eu quero transmitir através destes poemas e desta música... O poema «Meu Nome É Nome de Mar» foi um poema que o Manuel Alegre me deu, depois de o ter conhecido na Suécia e de me ter dito que ia fazer um poema para mim. Vou esperar sentada, pensei (risos)... Mas fez, e o poema chegou-me pela mão do João Braga, que o conhece muito bem e que, entretanto, já tinha feito a melodia para o poema... Esse poema dá nome ao disco porque me revejo muito nele. Sou uma pessoa muito sonhadora - o amor impossível; o outro lado da lua... - e esse poema tem que ver muito com essa minha característica. E com a diversidade que se encontra neste disco, uma diversidade que também pode ser uma característica e não um problema...

Porque é que decidiu fechar este álbum com uma canção religiosa, «Avé Maria»?...

Essa música fez parte do meu percurso em várias ocasiões. Cantava muitas vezes essa canção na missa e quando eu cantava essa canção, na missa ou em casamentos, havia pessoas que se sentiam muito tocadas por ela. E houve pessoas que me perguntavam onde é que podiam encontrar uma gravação minha dessa canção do Frei Hermano da Câmara. Para responder a essas pessoas decidi incluir essa canção como tema-extra no álbum. E é uma canção que já faz parte de mim...

Considera-se como fazendo parte da chamada «nova geração do fado» ou acha que, de alguma maneira, está fora dela?

Eu canto fado e vivo do fado. Posso fazer desvios, mas a essência, a raiz, está no fado... É verdade que cada pessoa tem a sua abordagem e a minha é a minha...

Este disco vai ser apresentado ao vivo?

Sim, vai haver um concerto de apresentação - que, curiosamente, é o meu primeiro concerto a solo em Portugal -, dia 4 de Fevereiro, no Auditório Romeu Correia, em Almada. Isto, quando já fiz muitos concertos a solo noutros países. Essa [a aposta no mercado português] é outra das razões porque troquei a AM Records [editora americana mas com sede em Tóquio] pela Farol. Muitas vezes os discos saíam e cá não tinham expressão, eram para guardar a gaveta...


MARIA ANA BOBONE
«NOME DE MAR»
Vachier/Farol

Desde há muito tempo que o fado já não é só fado ou pode ser muitas coisas ancoradas no fado mas dele mais ou menos distantes. «Nome de Mar», o novo álbum de Maria Ana Bobone, leva a cantora para os territórios que tem experimentado ao longo dos anos, a solo ou com os seus cúmplices habituais – Ricardo Rocha que, neste disco, brilha a grande altura na guitarra portuguesa (ouvi-lo num disco é sempre um privilégio!) e é ainda o responsável pelos arranjos e direcção musical, e o pianista João Paulo Esteves da Silva, que aqui a acompanha em «Senhora do Monte» -, desde o fado, sim (e o álbum é, em larga maioria, um álbum de fado), mas também música barroca, música tradicional portuguesa, música religiosa («Avé Maria») ou algo muito dificilmente catalogável (os dois lindíssimos temas com música de Ricardo Rocha sobre poemas de Fernando Pessoa). O mais espantoso, e bonito, é que a voz de Maria Ana Bobone move-se completamente à vontade nestes territórios diversos. E casa na perfeição com as outras vozes que convocou para este disco: no dueto com Filipa Pais e nas colaborações com as Vozes Privadas (no tradicional alentejano «Natal d’Elvas») e os Tetvocal (em «Súplica», fado na voz de Maria Ana, barroco nas vozes dos Tetvocal). Por sua vez, o génio de Ricardo Rocha – se preciso fosse – fica bem marcado na versão da «Canção de Alcipe», onde Maria Ana deixa os músicos brilhar sozinhos. (8/10)

17 janeiro, 2007

Rui Júnior: O Senhor-Tambor


Rui Júnior (na foto, de Lia Costa Carvalho) é o mais respeitado percussionista e mestre das percussões português. Companheiro de estrada e de estúdio de compositores e cantores como José Afonso, José Mário Branco, Fausto, Janita Salomé ou Amélia Muge; criador do inventivo grupo de percussões O Ó Que Som Tem? no início dos anos 80; inventor da frutuosíssima escola/orquestra Tocárufar (por onde já passaram centenas e centenas de percussionistas) e das suas veredas como o WOK, Rui Júnior lançou há dois anos o Festival Portugal a Rufar, do qual se espera este ano a terceira edição (em adenda: entretanto já com datas e local confirmados, tal como informa o Crónicas da Terra: dias 1, 2 e 3 de Junho na Fábrica Mundet, Seixal). Aqui recordo a entrevista de apresentação desse festival, publicada originalmente no BLITZ em Maio de 2005.


RUI JÚNIOR/PORTUGAL A RUFAR
À FLOR DAS PELES

Este fim-de-semana, o Seixal vai receber o 1º Festival Portugal a Rufar, dedicado essencialmente às percussões. Rui Júnior explica a ideia...

Rui Júnior - um dos mais respeitados percussionistas portugueses, fundador do O Ó Que Som Tem?, ideológo da orquestra Tocá Rufar e do C.A.I.S. (Centro de Artes e Ideias Sonoras) - tinha este sonho há muitos anos: fazer um festival centrado nas percussões - nacionais e estrangeiras -, embora não se fechando apenas nelas. Há poucos meses, com a ajuda de António Miguel Guimarães (da Magic Music), o sonho tomou corpo. Pela Quinta da Fidalga, no Seixal, vão passar, nos dias 27, 28 e 29, os O Ó Que Som Tem? - que também actuam, com o convidado Pedro Carneiro (percussionista de música erudita) no Fórum Cultural do Seixal, dia 27 -, Mercado Negro, Tucanas, Maria Léon, Wok, Batoto Yetu, Tocá Rufar, Djamboonda, Bácoto, Entredanzas, Finka-Pé, Tocandar, Bardoada, Morabeza, Grupo Khapaz e Awaav, entre outros.

A génese do festival está, diz Rui Júnior, nos tempos remotos da primeira encarnação do grupo de percussionistas e bateristas O Ó que Som Tem?, no início dos anos 80. «Este festival está pensado há muitos anos, cerca de 20, mas há que esperar que as coisas se conjuguem para poderem ser concretizadas. E já desde os tempos da Farol, quando o António Miguel Guimarães editou o álbum "Ó Tambor", do O Ó Que Som Tem? (1996), ficámos com a ideia de fazer um festival internacional de percussão. Há uns meses sentámo-nos à mesa e avançámos com a ideia do festival, que se vai concretizar agora».

Rui Júnior trabalhou em discos e/ou espectáculos de Fausto, Júlio Pereira, José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Vitorino, Janita e Jorge Palma, entre muitos outros. E é, muitas vezes, considerado como o «pai» dos percussionistas portugueses - mercê do seu trabalho como músico, divulgador e aglutinador de vontades (e a Orquestra Tocá Rufar, que chega a juntar centenas de percussionistas nalguns espectáculos, é um bom exemplo da sua persistência e vontade de fazer). Mas ele recusa o «rótulo». «Há quem diga que sou o pai ou até o avô das percussões. Mas eu sinto-me muito mais o filho das percussões. Lido com as percussões tradicionais portuguesas desde os seis anos, quando comecei a tocar caixa de rufo, nos Mareantes do Rio Douro, em Gaia. Se calhar, fui tão só um pioneiro na revitalização das percussões tradicionais portuguesas».

Durante o festival será apresentada a nova formação dos O Ó Que Som Tem?, grupo por onde passaram bateristas e percussionistas como José Salgueiro, Fernando Molina, Nuno Patrício, João Luís Lobo, João Nuno Represas e José Martins, entre outros. Os novos O Ó Que Som Tem? incluem, para além de Júnior, «Filipe Henda e Carlos Mil-Homens, que começaram há alguns anos no Tocá Rufar e passaram pelo WOK; e também o Vicky, que vi a tocar num bar e me impressionou bastante como baterista. São três jovens fogosos (risos)».

O festival Portugal a Rufar não tem apenas grupos exclusivamente de percussões. A razão é simples: «Há uma grande componente de percussão, mas não queremos limitar-nos ao nosso próprio umbigo. E isso acontece em relação aos instrumentos e ao âmbito internacional do festival - vamos ter grupos africanos, indianos, espanhóis, etc. E podemos ter um espectáculo de mímica ou teatro, porque o ritmo não é apenas sonoro». Durante o Festival vai haver uma grande exposição de instrumentos de percussão de todo o mundo «onde as pessoas vão poder mexer nos instrumentos. As pessoas podem experimentá-los, tocá-los, senti-los. E isto é inovador - mas não quero esconder os instrumentos atrás de uma vitrine». Workshops, showcases, ateliers, debates e um seminário sobre instrumentos de percussão por Domingos Morais completam a ementa, suculenta, do festival. E uma boa notícia é que já estão garantidos, para além deste, mais três festivais Portugal a Rufar -- em 2006, 2007 e 2008.

Rui Júnior acompanha com interesse e carinho o crescimento do número de projectos nacionais nas áreas da música folk/tradicional - «tem havido um crescimento da valorização das culturas tradicionais. Mas penso que andamos, ainda, a passo de caracol. O que o Tocá Rufar - uma orquestra de bombos - trouxe ao panorama nacional foi uma prova de que é possível fazer alguma coisa a partir do nada. E fazer no sentido de mexer na cultura, trazê-la para a actualidade e valorizá-la». Neste momento, o Tocá Rufar está em actividade nos concelhos do Seixal e do Fundão, trabalhando com quase todas as escolas primárias dos dois concelhos, movimentando cerca de 900 alunos. Isto, apesar de por vezes se ver confrontado com dificuldades. Rui Júnior dá um exemplo: «O Tocá Rufar tem realizado projectos, com o apoio da Comunidade Europeia, de terapia pela percussão com grupos de risco. E tem realizado projectos de intercâmbio com países da baía mediterrânica, nomeadamente Tunísia, Turquia, Grécia, Malta e Chipre. Vimos recentemente um projecto recusado pelo IPJ (Instituto Português da Juventude), porque repetimos o convite a um grupo de 10 autistas profundos, vindos de Malta, para se integrarem num grupo com 50 autistas portugueses. E repetimos esse convite porque a terapia tem que ser continuada durante seis, sete anos, não se esgota numa acção anual. E o IPJ recusa o projecto porque, segundo eles, "carece de inovação". Eu não conto com o poder, mas às vezes espero que o Poder, pelo menos, saiba ler relatórios».