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19 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVIII.1 - Rupa and The April Fishes


Ainda só têm um álbum editado no circuito internacional, mas são já uma das maiores promessas - OK, são já uma certeza! - daquilo que de melhor e mais abrangente se pode esperar de um grupo de «world music». E, aqui, o termo até está bem aplicado. Com base em San Francisco, Estados Unidos, Rupa and The April Fishes são liderados pela compositora, cantora e guitarrista Rupa, sendo os April Fishes formados por Marcus Cohen (trompete), Isabel Douglass (acordeão e voz), Aaron Kierbel (percussões), Safa Shokrai (contrabaixo) e Ara Anderson (trompete). Com influências que vêm da música indiana (Rupa, que é médica de profissão, tem as suas raízes no Punjab e viveu alguns anos em França), do tango, da canção francesa, do jazz (inclusive na sua variante cigana à Django, o jazz manouche), da cumbia, da pop... Rupa and The April Fishes lançaram em 2008 o álbum de estreia «eXtraOrdinary rendition», e já fazem parte, por direito próprio, do firmamento mais brilhante da música actual.


Cromo XLVIII.2 - Franco


Franco (aka Franco Luambo, François Luambo Makiadi e L'Okanga La Ndju Pene Luambo Lwanzo Makiadi; nascido a 6 de Julho de 1938, em Sona Bata, no Congo Belga, actual Zaire; falecido a 12 de Outubro de 1989) foi o mais importante compositor, cantor e guitarrista congolês do Séc. XX. Ao longo da sua carreira, deixou - em discos a solo ou com os grupos OK Jazz e TPOK Jazz - mais de mil canções gravadas, espalhadas por cerca de 150 álbuns. Com um estilo muito pessoal de tocar guitarra - era cognominado «O Feiticeiro da Guitarra» -, Franco misturou na sua música sonoridades africanas, jazz, ritmos latino-americanos (muito em especial a rumba), funk e soukous. Um fenómeno musical desde a adolescência - Franco gravou o seu primeiro single, «Bolingo Na Ngai Beatrice», com apenas 15 anos -, em 1956 fundou o OK Jazz (mais tarde rebaptizado TPOK Jazz), que rapidamente se tornou o grupo mais importante do Congo e com o qual tocou até à sua morte. Era um ídolo no seu país (e noutros países de África) e o seu funeral foi acompanhado por dezenas de milhares de pessoas.


Cromo XLVIII.3 - DJ Click


Membro do colectivo electro-jazz-world UHT, director da editora No Fridge, DJ e remisturador apaixonado por inúmeras músicas do mundo - e como ele as conhece bem! -, o francês DJ Click é um dos melhores, talvez mesmo o melhor, exemplo de como se podem transportar muitas músicas tradicionais para um futuro em que a música de judeus e muçulmanos, de ciganos espanhóis e do leste da Europa, de negros, de brancos e de mestiços de várias origens conseguem conviver, cruzar-se e obrigar toda a gente a dançar numa nave espacial utópica e cheia de músicas novas. E em que músicas novas como o dub, o electro ou o drum'n'bass e músicas antigas como o gnawa, o klezmer ou a música cigana dos Balcãs têm o mesmo espaço e importância. Com DJ Click já se cruzaram (em remisturas ou colaborações) nomes como Mitsoura, Gnawa Njoum Experience, Transglobal Underground, Rachid Taha, Leontina Vaduva, Burhan Öçal, Recycler, Tziganiada ou Estelle Goldfarb. (1)


Cromo XLVIII.4 - Pentangle


Um dos mais importantes grupos da folk britânica de sempre, os Pentangle nasceram em 1967, em Londres, à volta de Bert Jansch e John Renbourn - dois guitarristas geniais que já tinham um passado comum na folk -, uma cantora apaixonada pela tradição, Jacqui McShee, e dois músicos de jazz, Danny Thompson (baixo) e Terry Cox (bateria). E o resultado desse encontro foi explosivo: canções que iam à folk, aos blues, ao psicadelismo, ao jazz, ao rock progressivo ou à música barroca; canções que se encaixavam perfeitamente na música do seu tempo mas que também deixavam - pelo grau de abertura que demonstravam - muitas pistas para o futuro. Os Pentangle separaram-se em 1973 e ressurgiram nos anos 80, tendo passado inúmeros outros músicos pelas suas várias formações. E em 2007 os cinco membros fundadores voltaram a reunir-se para receber o Prémio Carreira dos Folk Awards atribuídos pela BBC Radio 2 e, no ano seguinte, fizeram uma digressão de enorme sucesso pelas Ilhas Britânicas. Audição aconselhada: os álbuns «The Pentangle», «Sweet Child», «Basket of Light» e «Solomon's Seal».

(1) - Texto adaptado de uma prosa anterior minha acerca do álbum «Flavour», de DJ Click.

07 novembro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVI.1 - Extra Golden


Quando uma tese de doutoramento acaba por dar origem a uma das melhores e mais excitantes bandas da actualidade, é caso de dar graças aos céus por haver universidades norte-americanas que aceitam trabalhos sobre... a música benga do Quénia. Foi o que aconteceu a Ian Eagleson (ele que pertencia a um grupo rock chamado Golden), quando foi para Nairobi terminar a sua tese sobre este tema e conheceu um músico local, Otieno Jagwasi, da Orchestra Extra Solar Africa. Foi com ele - e com Alex Minoff (também dos Golden e Weird War, ex-Six Finger Sattelite) - que Ian gravou em 2004 o primeiro álbum dos Extra Golden, «Ok-Oyot System» (editado em 2006). Infelizamente, Otieno morreu, tendo sido substituído por Opiyo Bilongo, com quem foi gravado o segundo álbum, «Hera Ma Nono» (2007), ao qual se seguiu «Thank You Very Quickly» (2009). Mesmo com uma história trágica por trás, a música dos Extra Golden é uma celebração de vida, de alegria e de multiculturalismo no melhor que esta palavra tem.


Cromo XLVI.2 - Rizwan-Muazzam Qawwali



Depois da morte de Nusrat Fateh Ali Khan - o nome maior da música qawwali do Paquistão - outros intérpretes dessa música sagrada inspirada pelo sufismo emergiram como eventuais substitutos da sua arte. Uma substituição impossível. Mas que há continuadores talentosos e genuínos, lá isso há. Faiz Ali Faiz, Asif Ali Khan & Party ou Fareed Ayaz são alguns dos nomes mais bem posicionados para preencher esse vazio. Mas os Rizwan-Muazzam Qawwali - formados por dois jovens sobrinhos de Nusrat Fateh Ali Khan - estão há alguns anos a reclamar o legado do tio e a assinar uma carreira tão consistente que podem mesmo bem ser eles os legítimos herdeiros do génio de Nusrat. Com três álbuns editados até agora - «Sacrifice To Love», «A Better Destiny» e «Day of Colours» - e com colaborações em discos de Adrian Sherwood e Temple of Sound, os Rizwan-Muazzam Qawwali são uma lufada de ar fresco nesta música centenária.


Cromo XLVI.3 - Banco de Gaia


Há inúmeros exemplos de má (e de péssima!) música electrónica que usa samples de músicas de vários lugares do mundo só porque soam a exótico, a diferente, a estranho ou a «moderno». E há tantos que nem haverá espaço aqui para referir um que seja. Mas, no outro extremo, há também alguns belos exemplos de como a electrónica pode ir à world music para com ela se fundir na perfeição. Um desses - e dos melhores - exemplos é o do compositor e músico inglês Toby Marks (mais conhecido pelo pseudónimo Banco de Gaia), que desde o início dos anos 90 junta várias tipologias de música electrónica (ambient, house, dub...) com música asiática e música do norte de África e de outros lugares do planeta, sempre com um talento e um bom-gosto notáveis. Audição aconselhada: os álbuns pioneiros «Maya» (1994), «Last Train to Lhasa» (1995) e «Big Men Cry» (1997).


Cromo XLVI.4 - Russendisko


Em Berlim (Alemanha), 1999, dois imigrantes oriundos da ex-União Soviética, Wladimir Kaminer - ele também jornalista e escritor, inclusive de um livro de nome... «Russendisko» (editado em Portugal pela Cavalo de Ferro), onde conta esta história, entre outras - e o DJ Yuriy Gurzhy começam a organizar festas para imigrantes de Leste com o nome Russendisko. Festas que depois se alargaram a uma crescente legião de fãs formada também por alemães e pessoas de outras nacionalidades, subitamente apaixonadas pelo ska, o punk, o klezmer ou a pop feita por grupos da Rússia, da Ucrânia, da Geórgia e de outros novos países saídos da separação da União Soviética, como os Leningrad, os RotFront ou os Nogu Svelo. E, a partir de 2003, há colectâneas Russendisko espalhadas por todo o mundo: «Russendisko Hits», «Russendisko Hits 2» e «Radio Russendisko» são as mais aconselháveis.

28 fevereiro, 2008

Donna Maria, M-PeX e Novembro - Ou Como Passar Tangentes ao Fado


De Amália Rodrigues a Carlos do Carmo - nomes que agora já ninguém se atreveria a não associar imediatamente ao fado -, dos Madredeus a Paulo Bragança, dos Ovelha Negra a Lula Pena, de Liana aos Sal, d'A Naifa* aos Fado em Si Bemol, de Cristina Branco aos Deolinda**, muitos são os artistas e grupos que, em alturas variadas e em contextos diferentes, têm levado o fado para alguns desvios saudáveis e territórios que não são exclusivos do fado. Nos últimos meses, três álbuns voltam a colocar a questão: pode o fado fundir-se com outras músicas? E como?... As respostas vêm dos Donna Maria, de M-PeX e dos Novembro (na imagem, desenhada por Miguel Filipe, cantor e guitarrista dos próprios Novembro).


DONNA MARIA
«MÚSICA PARA SER HUMANO»
EMI Music Portugal

É uma pena, mas não consigo gostar da música dos Donna Maria. Não tinha gostado no primeiro álbum, «Tudo É Para Sempre», e continuo a não gostar no segundo, o recente «Música Para Ser Humano», apesar de haver neste um peso menor das electrónicas - embora as electrónicas por lá continuem bem presentes - e um recurso maior a instrumentos acústicos, mais caminhos sonoros percorridos, um alargado leque de convidados de luxo (Rui Veloso, Luís Represas, Rão Kyao, Raquel Tavares, Júlio Pereira, Ricardo Parreira na guitarra portuguesa...). Mas muitas das canções do álbum continuam a soar demasiado a pompa e circunstância, a um artificialismo qualquer, a uma mistura de Madredeus com Gotan Project, sem grandes acrescentos de originalidade a essa fórmula. E é pena porque, se a voz de Marisa Pinto nem sempre se sente à vontade em algumas canções, há outras em que ela já voa livremente sobre as composições dos dois colegas de grupo - Miguel Ângelo Majer (samples, bateria e voz) e Ricardo Santos (piano acústico, sintetizadores e voz). E é pena porque o fado - e a música portuguesa em geral - precisava de um grande projecto de fusão do fado com as electrónicas, projecto que os Donna Maria não são e, infelizmente, ainda não existe. E é pena, finalmente, porque há no álbum alguns temas bastante bons, como o divertidíssimo «Zé Lisboa», onde ao fado se juntam a música brasileira e indiana, num exercício pop sem pudores, ou a bonita versão de «Pomba Branca», de Max. (5/10)



M-PEX
«PHADO»
This.co

M-PeX é o nome de um curiosíssimo projecto protagonizado, em solo absoluto, por Marco Miranda (guitarra portuguesa, guitarra clássica e programações). Um disco em que às bases electrónicas se junta uma guitarra portuguesa bastante bem tocada por Marco Miranda - ele também o compositor de todos os temas -, uma guitarra portuguesa que deve alguma coisa a Carlos Paredes (cf. em «Melodia da Saudade») mas, ainda mais, aos grandes mestres da guitarra de Lisboa, essencialmente a Armandinho. Tendo aprendido guitarra portuguesa com o seu avô, Luís Tomás Pinheiro, a quem o álbum «Phado» é dedicado, Miranda embrulha belíssimos ecos e memórias de fado - e de fados - em invólucros pouco usuais: o rock progressivo, o ambientalismo à Brian Eno, o drum'n'bass, o dub, o electro ou algumas invenções deliciosas (oiça-se o vocoder de «The Cloud's Whispering Song», a fazer lembrar os Air). Com a guitarra portuguesa usada em estado puro ou sujeita a transformações, cortes, distorções, manipulações, o que é estranho - e muito bom! - em «Phado» é que esta música nunca deixa, por uma vez que seja, de ser música portuguesa, mesmo quando as sonoridades de base estão muito longe daquilo que nós entendemos como «fado» ou como «música portuguesa». Uma excelente surpresa! (8/10)


NOVEMBRO
«À DERIVA»
Lisboa Records

Outra boa surpresa é o álbum de estreia dos Novembro, grupo liderado por Miguel Filipe - que compôs a totalidade dos temas do álbum «À Deriva», excepto «Algemas» e «Gastei Contigo as Palavras» -, que canta, toca guitarra portuguesa e guitarras acústicas e eléctricas, para além de ser o responsável pelas programações, e do qual também fazem parte Mark William Harding (bateria), Luís Aires (baixo eléctrico) e, só ao vivo, João Portela (guitarras), aos quais se juntaram em alguns temas do álbum Rodrigo Leão, Guto Pires e Tiago Lopes, entre outros. E uma boa surpresa porque, nos Novembro, conseguem coabitar muitas sonoridades que há alguns anos seria impensável conciliar: o fado, sim, mas também a abordagem desviante do fado encetada há vinte e tal anos por António Variações, aliados a um rock inteligente e fundo, que deve quase tudo ao movimento indie dos anos 80: os Joy Division, os Cocteau Twins, os Clan of Xymox, os Kitchens of Distinction... E, por aqui, já se pode ter uma ideia que os ambientes percorridos pelos Novembro estão, quase sempre, associados a conceitos como nostalgia, tristeza, saudade, ausência, desespero ou depressão. E isto tem tudo a ver com o fado, ou não tem? (7/10)

Notas:

* O terceiro álbum d'A Naifa, «Uma Inocente Inclinação Para o Mal», é editado no dia 31 de Março.

** O álbum de estreia dos Deolinda, «Canção ao Lado», está agora a ser finalizado nos estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, e sairá dentro de mês e meio. Amanhã, dia 29, os Deolinda dão o seu último concerto - no Auditório Carlos Paredes, em Benfica, Lisboa - antes da digressão de apresentação do álbum.

25 fevereiro, 2008

Meredith Monk em Lisboa, Torres Vedras e Portalegre


A espantosa cantora Meredith Monk - uma das maiores aventureiras no desbravar dos limites da voz humana - vai regressar a Portugal para, pelo menos, três concertos: dia 26 de Abril no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, dia 30 de Abril no Teatro-Cine de Torres Vedras (onde também orientará um workshop, no dia anterior) e dia 1 de Maio no Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre. Nestes concertos, Monk será acompanhada pelo Vocal Ensemble, agrupamento que reúne cantores de várias origens (Ásia, África, Europa e América Latina) e que domina várias técnicas vocais (do bel-canto ocidental à ópera chinesa e aos musicais da Broadway). O reportório dos concertos incluirá temas dos álbuns «Book of Days», «The Games», «Atlas», «Mercy» e do novo «Impermanence». Também para o CAE de Portalegre estão confirmados epectáculos de Señor Coconut and His Orchestra com Argenis Brito (dia 7 de Junho) e do enormíssimo John Cale (dia 17 de Maio), entre outros concertos bastante apetecíveis. Mais informações aqui, aqui e aqui.

22 fevereiro, 2008

DuOud, Maghrebika e Bodyshock - Mais Música de Fusão (Com e Sem Confusão)


O Ocidente (e quando falo em «ocidente» falo da Europa e dos Estados Unidos) sempre teve um grande fascínio pelos sons vindos do, em sentido lato, Oriente. E aqui o Oriente pode assumir a forma do Japão, da China, da Índia ou, um pouco mais perto de nós, da Turquia e dos países do norte de África. Hoje, no Raízes e Antenas, há lugar para a fusão de músicas (e músicos) ocidentais com músicas (e músicos) do norte de África e da Turquia: o álbum de colaboração dos DuOud - o duo de Smadj e Mehdi Haddab (na foto) - com Abdulatif Yagoub, Bodyshock e Maghrebika com Bill Laswell.


DUOUD & ABDULATIF YAGOUB
«SAKAT»
Indigo Records

Os DuOud são um maravilhoso exemplo de como as músicas tradicionais se podem misturar na perfeição com programações electrónicas, efeitos de estúdio, estilos «ocidentais» (dub, breakbeats, rock vindo de guitarras eléctricas, etc, etc...), sempre sem perder a essência e a verdade da música de raiz e a pureza dos seus instrumentos: as vozes, os sopros, as percussões, as cordas. DuOud, trocadilho - e se se reparar bem, DuOud pode ler-se de trás para a frente - com as palavras «duo» e «oud» (o alaúde árabe), é o grupo de dois músicos residentes em Paris, o tunisino Jean-Pierre Smadja (também conhecido como o DJ, produtor e engenheiro-de-som Smadj) e o argelino Mehdi Haddab (também dos Ekova). E, apesar de ambos tocarem oud - o que está bem presente no seu álbum de estreia, «Wild Serenade» -, para este segundo disco, «Sakat», os dois convocaram o cantor e mestre do alaúde Abdulatif Yagoub e ainda Ahmed Taher (que toca mismar, um instrumento de sopro), músicos que os DuOud «descobriram» no Iémen, durante uma digressão pelo norte de África. E foi no Iémen que o duo gravou, com Yagoub, Taher e os seus percussionistas, vários temas tradicionais que depois trabalharam e pós-produziram em Paris. Mas fizeram-no com tal paixão e arte que o resultado final nunca sufoca a música de raiz, antes sublinhando-a e levando-a para lugares belos e inesperados. Faz lembrar, só por vezes, o que Brian Eno e David Byrne fizeram em «My Life In The Bush of Ghosts»; e isso é bom! (9/10)


MAGHREBIKA
«NEFTAKHIR»
Barraka el Farnatshi/Barbarity

Embora não seja tão bom quanto «Sakat», o primeiro álbum de estreia dos Maghrebika, «Neftakhir», é também um feliz encontro entre músicos e produtores «ocidentais» - o germano-suiço Pat Jabbar (fundador da editora Barraka el Farnatshi, colaborador da cantora Sapho e o «descobridor» dos históricos Aisha Kandisha's Jarring Effects) e o «maior trabalhador do mundo da música depois de Frank Zappa» Bill Laswell (tal é a quantidade de discos e projectos em que se ele mete) - com dois argelinos radicados na Suiça, Abdelkader Belkacem e Abdelaziz Lamari, mais alguns músicos do norte de África e ainda as cantoras das B-Net Marrakech (cinco mulheres berberes que já tinham antes colaborado com Rachid Taha e Cheb I Sabbah). E o resultado do encontro é uma viagem, em primeira classe, por géneros norte-africanos - o rai, o gnawa, o shabee... - polvilhados por electrónicas variadas (lounge, trip-hop, dub, até o tecno - cf. em «Matkhafsh»), tudo locomovido pelo baixo eléctrico de Laswell. E se bem que, comparativamente com o álbum dos DuOud, as electrónicas e os efeitos de estúdio tenham em «Neftakhir» um peso maior, o álbum dos Maghrebika ouve-se quase com o mesmo agrado, sendo muitas vezes também viciosamente dançável. (8/10)


BODYSHOCK
«THE BELLYDANCE PROJECT»
Caravan Records

Claramente o menos interessante deste lote de três discos, «The Bellydance Project», dos Bodyshock - projecto de um homem só, o compositor, produtor e autor de bandas-sonoras Rabih Merhi - poderá ser, no entanto, um rebuçadinho para muitos DJs em busca de músicas exóticas/orientais propulsionadas a ritmos das pistas de dança ocidentais. Com inúmeras alusões à música turca, à música árabe, até à música indiana (em «Namaste») e à rembetika grega (em «Athena») - e fazendo uso de imensos instrumentos tradicionais (alaúdes, bendires, darabukas, bouzouki, ney, etc, etc), os géneros e os intrumentos tradicionais são depois mergulhados num caldo de efeitos electrónicos, sintetizadores, beats que nem sempre resultam - o primeiro tema, «Sahara Spirit», é simplesmente horrível! - mas que por vezes até conseguem passar mais ou menos despercebidos, lá mais para o fim do disco. E, para fazer alguma justiça ao título, quase todos os temas até são bons para exercícios variados de «dança-do-ventre». (5/10)

21 fevereiro, 2008

Festival MED de Loulé Com Balkan Beat Box


A edição deste ano do Festival MED de Loulé - mais uma vez a decorrer na última semana de Junho - já tem um nome confirmado, o dos fabulosos Balkan Beat Box, segundo avança o blog Crónicas da Terra. Os Balkan Beat Box são um duo constituído por dois israelitas, Ori Kaplan e Tamir Muskat, radicados em Nova Iorque e apaixonados por variadíssimos géneros de música - a música balcânica, o klezmer, a música árabe, o flamenco, as polifonias búlgaras e... as electrónicas, o punk, o ragga, o trance, o funk, o ska, o hip-hop. Géneros que, na sua música em disco - e muito epecialmente ao vivo, onde são acompanhados pelo MC Tomer Yosef, uma banda completa e dançarinas da dança-do-ventre - tomam formas novas e inesperadas, aliados a mensagens de apelo à paz entre judeus e árabes no Médio Oriente. Os leitores deste blog podem ler (ou reler) críticas aos dois álbuns editados até agora pelos Balkan Beat Box, «Balkan Beat Box» e «Nu-Med», em posts do Raízes e Antenas de 12 de Outubro de 2006 e 19 de Outubro de 2007, respectivamente.

07 fevereiro, 2008

DJ Dolores no Santiago Alquimista


Vi-o duas vezes: uma delas no Festival do Meco, com a Orquestra Santa Massa, e de outra na WOMEX, em Sevilha, como DJ, numa sessão histórica em que centenas de pessoas dançaram à chuva até de madrugada. E de ambas as vezes, o homem foi um espectáculo total: o brasileiro DJ Dolores (na foto, de Barbara Wagner) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» e faz isso tudo, sempre, muito bem. Na sua música entram ritmos tradicionais brasileiros - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, tropicalismo, samba... - e muitas músicas exteriores - electrónicas variadas, reggae, funk, rock, hip-hop, surf music e até klezmer, juntando todos os componentes num caldo único e pessoalíssimo. E sempre com mensagens políticas explícitas ou implícitas nas letras das suas canções, como se poderá confirmar no concerto que DJ Dolores tem marcado para dia 21 deste mês, em Lisboa, no Santiago Alquimista. Um concerto que servirá de apresentação ao seu novíssimo álbum «1 Real», mas onde não deverão ficar esquecidos alguns temas mais emblemáticos dos álbuns «Contraditório» (2002) e «Aparelhagem» (2005).

29 janeiro, 2008

DJ Click, [dunkelbunt] e Gaetano Fabri - Quando o Mundo É a Pista de Dança (e Vice-Versa)


No passado fim-de-semana, depois dos concertos de Emir Kusturica, houve sessões after-hours «balcânicas» em Lisboa, no Santiago Alquimista, e no Porto, no Contagiarte, com vários DJs a passar música cigana de Leste. E, um pouco por todo o lado, há cada vez mais gente a fazer remisturas ou a especializar-se como DJs de variadíssimos géneros «locais» e/ou «globais». Podem-se citar alguns nomes, entre uma miríade de outros: Shantel, DJ Dolores, Mercan Dede, o menos conhecido mas excelente Uptown Joji (Daladala Soundz), etc, etc... Desta vez fala-se aqui de três outros DJs há muito rendidos à world music: DJ Click (na foto com a violinista de klezmer Estelle Goldfarb), Gateano Fabri e [dunkelbunt].


DJ CLICK
«FLAVOUR»
No Fridge

Membro do colectivo electro-jazz-world UHT, director da editora No Fridge, DJ e remisturador apaixonado por inúmeras músicas do mundo - e como ele as conhece bem, raios o partam! -, o francês DJ Click é um dos melhores, talvez mesmo o melhor, exemplo de como se podem transportar muitas músicas tradicionais para um futuro em que a música de judeus e muçulmanos, de ciganos espanhóis e do leste da Europa, de negros, de brancos e de mestiços de várias origens conseguem todas conviver, cruzar-se e obrigar toda a gente a dançar numa nave espacial utópica e cheia de músicas novas. Músicas novas como o dub, o electro, o drum'n'bass. Neste álbum estão cá, em estado puro ou muitas vezes remisturados por DJ Click, temas do turco Burhan Öçal, da espantosa cantora húngara Mitsoura, do alemão [dunkelbunt] - de quem falaremos a seguir -, dos Transglobal Underground, dos espanhóis Laxula, do argelino Rachid Taha, do projecto balcânico (produzido por DJ Click) Tziganiada, entre muitos outros. Uma festa pegada, sempre futurista mas sem deixar de ter, lá bem funda, a tradição. (9/10)


[DUNKELBUNT]
«MORGENLANDFAHRT»
Chat Chapeau/Soulseduction

Outro excelente álbum!... «Morgenlandfahrt» é apresentado, conceptualmente, como uma viagem ao longo do dia por vários países (Hungria, Sérvia, Turquia, Bulgária...), com gravações feitas nos locais pelo próprio [dunkelbunt]. Conceito à parte, o álbum é um cocktail sempre impecavelmente misturado num «shaker» onde convivem imensos sabores, de muita música original do alemão sediado na Áustria [dunkelbunt] a música já conhecida - ou especialmente feita para este álbum - de gente como a Amsterdam Klezmer Band, a Fanfare Ciocarlia, Ostblocket, Orient Expressions ou os 17 Hippies. Com vários MCs a puxar, e bem, pelas vozes e a dar pujança ao conteúdo da música, a música dos Balcãs, o klezmer, a música turca surgem aqui mergulhados num caldo onde o dub, o reggae, o jazz ou o trip-hop alteram marcadamente as músicas de raiz, sempre com o fito de criar uma música nova e original. Um objectivo mais que conseguido por [dunkelbunt], nome artístico de Ulf Lindemann. (8/10)


GAETANO FABRI
«NUIT TSIGANE»
Le Divan du Monde/Crammed Discs/Megamúsica

Embora seja o álbum musicalmente menos interessante deste lote, «Nuit Tsigane - Gypsy Night at Le Divan du Monde» é aquele que é capaz de ter mais apelo comercial: nele, o DJ belga Gaetano Fabri faz uma selecção avassaladora dos nomes mais - e alguns, menos - conhecidos da música cigana dos Balcãs, reunindo-os num todo homogéneo e, sempre, dançável. Com subtis alterações de pitch, acelerações, algum uso e abuso do dub, um ou outro efeito electrónico, Gateano Fabri remistura temas dos KAL, da Koçani Orkestar, da Fanfare Ciocarlia, dos Balkan Beat Box e dos Taraf de Haidouks, juntando ainda ao lote temas assinados por DJ Eastender, Beltuner, Romashka ou... o já referido DJ Click, aqui em parceria com a cantora Rona Hartner. E este álbum é o resultado, passado ao suporte CD, de muitas sessões de DJing de Gaetano Fabri no mítico teatro Le Divan du Monde, em Paris, um resultado que pode não ser absolutamente brilhante mas é uma boa fonte de referências para os apaixonados da música balcânica e uma mina de «pilhagens» possíveis para sets de DJ dos outros DJs todos. (7/10)

10 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXV.1 - Woody Guthrie


O cantor, músico e compositor Woody Guthrie (Woodrow Wilson Guthrie, nascido a 14 de Julho de 1912, no Oklahoma, Estados Unidos, falecido a 3 de Outubro de 1967, em Nova Iorque) foi o principal pioneiro da folk de intervenção norte-americana, tendo influenciado decisivamente cantores como Bob Dylan, Phil Ochs ou Joan Baez. Compositor de centenas de canções (entre as quais a emblemática «This Land Is Your Land»), sempre do lado das ideologias socialistas - não por acaso, a sua guitarra exibia a inscrição «this machine kills fascists» -, Guthrie lançou as sementes da folk com uma música inspirada na country, na música tradicional irlandesa e nos blues. Fez parte dos importantíssimos Almanac Singers - ao lado de Pete Seeger e outros - e deixou um legado ainda hoje glosado por dezenas de artistas (de Ani DiFranco aos Klezmatics, de Bruce Springsteen a Billy Bragg e os Wilco).


Cromo XXXV.2 - Stella Chiweshe


Instrumento transversal a variadíssimos países africanos, a m'bira (aka kalimba ou kissange ou sansa ou likembe, entre outras designações) é um lamelofone que consiste num jogo de lamelas de metal presas a uma caixa de ressonância de madeira. Há milhares de tocadores de m'bira em África, mas a embaixadora principal do instrumento é a cantora e instrumentista Stella Chiweshe (nascida a 8 de Julho de 1946, em Mhondoro, no Zimbabué). Curiosamente, em várias culturas africanas o acesso à m'bira está interdito às mulheres mas ela aprendeu a tocá-la (à m'bira dzavadzimu, típica do povo Shona, a que Stella pertence) no final dos anos 60, quando ainda por cima qualquer aprendizagem cultural estava proibida à população negra da então Rodésia. Stella é cantora, intérprete de m'bira e compositora, dançarina, actriz, activista. Tudo numa só, e grande, mulher.


Cromo XXXV.3 - Tinariwen


Ainda só têm três álbuns no circuito internacional - «The Radio Tisdas Sessions» (2000), «Amassakoul» (2004) e «Aman Iman» (2007) - mas são uma lenda da música africana, com dezenas de cassetes gravadas desde a fundação do grupo, em 1982. Formados por músicos que, no início, faziam parte da guerrilha tuaregue treinada nos campos militares líbios e apadrinhada pelo Coronel Khadafi, os malianos Tinariwen começaram a desenvolver um estilo musical próprio - o «tishoumaren» -, em que estão presentes elementos de músicas tradicionais tuaregues e de outros povos do norte e oeste de África, os blues e o rock. Não é por isso de estranhar que os seus instrumentos de eleição sejam, ao lado do djembé, várias guitarras eléctricas e um baixo eléctrico. Os seus espectáculos, sempre memoráveis, são uma intensa celebração musical e de vida.


Cromo XXXV.4 - Mercan Dede


Na vanguarda da fusão entre músicas tradicionais e as mais modernas tendências da pop e das electrónicas, o músico, compositor, produtor, DJ, misturador e, só por vezes, cantor turco Mercan Dede é um dos mais notáveis exemplos de como se podem misturar músicas ancestrais (como a música sagrada dos sufis) com as novas linguagens sonoras. Mercan Dede (de verdadeiro nome Arkın Ilıcalı e também conhecido como DJ Arkin Allen; nascido em 1966) aprendeu em jovem a tocar ney (uma flauta tradicional), bendir (instrumento de percussão) e oud (o alaúde dos países árabes), mas a sua paixão pela música ocidental levou-o a seguir para cruzamentos inspirados de música tradicional do Médio Oriente com outras músicas (da música indiana e espanhola ao drum'n'bass, ao dub, ao house...). Entre os seus colaboradores contam-se a cantora indiana Susheela Raman, a turca Aynur ou Peter Murphy (dos Bauhaus).

20 dezembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIV.1 - Mikis Theodorakis


O fascínio que a música tradicional dos seus locais de origem provoca em compositores eruditos é, se não banal e habitual, pelo menos comum a muitos deles e das mais variadas origens. Pense-se em George Gershwin, em Béla Bartók, em Manuel de Falla ou em Fernando Lopes-Graça... E pense-se, aqui, em Mikis Theodorakis, o compositor grego que tem na música do seu país - e de países à volta, como a Turquia e as regiões dos Balcãs - o mote principal para muitas das suas obras. Nascido a 29 de Julho de 1925 na ilha de Chios, Grécia, desde muito cedo o jovem Mikis se deixou conquistar pela música popular e pelos cantos polifónicos da igreja ortodoxa. Exilado em Paris devido ao seu activismo político, começou a desenvolver um riquíssimo reportório que, ao longo da sua vida, se revelou em sinfonias, óperas, cantatas, concertos para piano, partituras para bailado e filmes (a música para «Zorba, O Grego» e «Serpico» ficarão como marcas indeléveis do seu génio).


Cromo XXXIV.2 - Zap Mama


O excelentíssimo grupo afro-belga Zap Mama, liderado por Marie Daulne (na foto), é um dos melhores exemplos de como - a partir da voz, e de muitas vozes femininas em polifonias e harmonias africanas - se pode fazer a ponte entre músicas tradicionais e músicas apanhadas nas ondas do éter: o rock, o reggae, o hip-hop... Marie Daulne, nascida no Congo, criada na Bélgica, formada musicalmente no cadinho efervescente de Londres e ideologicamente quando fez uma longa viagem ao Congo e a outros países de África, e as suas companheiras (e os seus companheiros) de jornada, deram e dão ao mundo uma música viva, actual, fundada em raízes antigas mas com as antenas apontadas ao presente e ao futuro das músicas. No início (o álbum de estreia, «Adventures in Afropea» é de 1993) as Zap Mama eram um grupo a capella, mas há muito tempo que são outra coisa: muitas vozes e muitos instrumentos directamente ligados ao Céu.


Cromo XXXIV.3 - Gotan Project


Tendo como inspiração para o seu nome o calão da bandidagem de Buenos Aires, os Gotan Project («gotan» são as sílabas de «tango» ao contrário, tal como no referido calão, o vesre - ou «revés» ao contrário! - «madre» é «drema» e «carne» é «necar»), têm base em Paris mas como inspiração maior o tango e as milongas. E é um dos mais importantes - e o primeiro a ser massivamente conhecido na Europa e Estados Unidos - projectos a fundir a música urbana argentina com sonoridades contemporâneas, nomeadamente com uma fortíssima componente electrónica. Nascidos em Paris, em 1999, os Gotan Project são formados pelo francês Philippe Cohen Solal, pelo argentino Eduardo Makaroff e pelo suiço Christoph H. Müller, que editaram um ano depois o álbum «Vuelvo Al Sur/El Capitalismo Foraneo». Mas foi com «La Revancha del Tango» (2001) que se tornaram internacionalmente conhecidos.


Cromo XXXIV.4 - Stomp


Break-dance, tambores vagamente taiko/vagamente japoneses, danças e percussões africanas e brasileiras, os ritmos industriais dos Test Dept e dos Einsturzende Neubauten do início, vassouras, esfregonas e baldes de lixo usados como instrumentos musicais, o «Singin' In The Rain» tal como se tivesse sido coreografado por replicants do «Blade Runner», o corpo humano como uma imensa caixa-de-ritmos... Tudo isto - e mais, muito mais! - são os Stomp. Grupo alargado - neste momento são, aliás, vários grupos com o mesmo nome - de dançarinos, percussionistas, actores e acrobatas, todos irmanados numa missão comum, os Stomp são uma fabulosa ideia de espectáculo nascida em Brighton, Inglaterra, que já originou filmes, discos, anúncios de televisão... Mas é ao vivo que a arte total - só lá faltam as palavras, que, vendo bem, não fazem falta nenhuma - deste colectivo pode ser mais bem apreciada.

10 dezembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIII.1 - Mari Boine


A extraordinária cantora norueguesa Mari Boine (nascida a 8 de Novembro de 1956, em Finnmark, Noruega) é, ao mesmo tempo que carrega consigo as tradições mais antigas do povo sami (a designação correcta dos lapões), uma criadora aberta a diversas influências - rock, jazz, electrónicas -, que inclui na sua música. Dona de uma voz moldada no estudo e na prática do canto yoik - comum ao povo sami, que se espalha pela Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia -, Boine soube sempre fazer a ponte entre músicas diferentes e, sempre também, pôr o todo ao serviço da defesa do seu povo, vítima de abusos por parte das diversas autoridades escandinavas, à semelhança do que se passa com os índios da Amazónia e da América do Norte ou os aborígenes australianos. O seu primeiro álbum internacional, «Gula Gula» (1989), foi editado pela Real World e parte do mundo tomou conhecimento dela, e através dela, da música dos samis.


Cromo XXXIII.2 - Antibalas Afrobeat Orchestra


Grupo nova-iorquino, de Brooklyn, mas com músicos de várias origens, a Antibalas Afrobeat Orchestra (agrupamento também conhecido, simplesmente, como os Antibalas e, mesmo no início, como Conjunto Antibalas) foi formada em 1998 por músicos que tinham tocado na banda Africa 70 (do lendário Fela Kuti) e da Eddie Palmieri's Harlem River Drive Orchestra. E, naturalmente, a base da sua sonoridade é o afro-beat tal como desenhado por Kuti, mas integrando também outras influências (música mandinga, música cubana, funk, jazz, dub, hip-hop...). Incluindo nas letras dos seus originais fortes mensagens políticas - à semelhança do seu «mentor» nigeriano -, os Antibalas editaram o seu primeiro álbum, «Liberation Afrobeat Vol. 1», em 2000, ao qual se seguiram «Talkatif» (2002), «Who is This America?» (2004) e «Security» (2007), este último surpreendentemente produzido John McEntire (dos Tortoise).


Cromo XXXIII.3 - Nitin Sawhney


Nitin Sawhney (nascido em Rochester, Kent, em 1964) é inglês mas de origem indiana e um verdadeiro cidadão do mundo, no sentido em que busca inúmeras sonoridades para as incluir na sua música. Nitin é um mago das electrónicas mas também toca piano, guitarra clássica (chegou a estudar flamenco na sua juventude), sitar e tablas. É produtor, compositor, DJ, arranjador, remisturador... e sempre com um bom-gosto acima de qualquer suspeita. A sua chegada à alta-roda musical deu-se quando começou a fazer parte do grupo de acid-jazz The James Taylor Quartet, do qual saiu para formar a sua própria banda The Jazztones. Outro marco fundamental da sua carreira foi a colaboração com outra luminária, Talvin Singh, no Tihai Trio. Depois, chegou a fazer comédia - com sucesso - na BBC, antes de se ter lançado numa frutuosíssima carreira musical a solo, em 1993, com o álbum «Spirit Dance». Temas de Sting, Natacha Atlas, Nusrat Fateh Ali Khan ou Paul McCartney - que também canta num tema do seu último álbum, «London Undersound» (2008) - já foram remisturados por ele.


Cromo XXXIII.4 - Spaccanapoli


Spaccanapoli é a enorme avenida que separa Nápoles em duas metades. Mas é também o nome de uma banda musical que tem as suas origens longínquas num grupo operário de intervenção criado durante os anos 70, o ‘E Zezi, de Pomigliano D’Arco, onde se reuniam trabalhadores da indústria automóvel para fazer teatro, música, política... E a base teórica da sua música é a pesquisa exaustiva de canções tradicionais napolitanas, de outras regiões italianas e da bacia do Mediterrâneo. Mas dizer isso é dizer muito pouco para se caracterizar a música dos Spaccanapoli: uma música viva, pulsante, actualíssima. Formados por Marcello Colasurdo (voz e tammorra - uma enorme pandeireta), Monica Pinto (voz), Antonio Fraioli (violino e percussão), Oscar Montalbano (baixo e guitarra) e Emilio De Matteo (guitarra), os Spaccanapoli tiveram no seu álbum «Lost Souls - Aneme Perze», publicado pela Real World, um marco da folk europeia.

14 novembro, 2007

Bonde do Rolê, M.I.A. e Mexican Institute of Sound - Das Margens Para o Centro


Vêm de lugares exóticos como o Sri Lanka, o Brasil e o México e fazem das músicas mais excitantes da actualidade, contaminando géneros locais com sonoridades globais (e vice-versa), num caldeirão em que o hip-hop, o punk, as electrónicas, o baile funk ou a cumbia têm lugar reservado. M.I.A. (na foto), Bonde do Rolê e Mexican Institute of Sound: para ouvir sem preconceitos («listen without prejudice», como diria o outro)...


M.I.A.
«KALA»
XL Recordings

Depois do fabuloso álbum «Arular» (dedicado ao pai, cujo nome é Arul, aka Arular), a MC, cantora, produtora e compositora M.I.A. volta ao ataque, literalmente, com «Kala» (desta vez, o nome da sua mãe), um álbum em que ela regressa aos «statements» políticos do anterior e a uma missão que ela leva muito a sério: fazer uma música universal, aberta, cheia de referências e prenhe de sentido. Uma música em que o hip-hop, o reggaeton, o grime, o baile funk, o electro, o punk dos Clash, ritmos africanos, didgeridoos e beats violentíssimos, melodias sacadas a filmes indianos e do Sri Lanka se harmonizam num todo único, variadíssimo, sempre dançável e exemplo máximo de como se pode fazer uma música que pode conter em si tantas mas tantas músicas. M.I.A. (que significa «missed in action») chama-se na realidade Mathangi Arulpragasam, nasceu em Londres mas os seus pais são do Sri Lanka (o pai de M.I.A. foi um destacado guerrilheiro Tamil e fundador da Eelam Revolutionary Organisation of Students), país ao qual voltaram depois do nascimento de M.I.A. - a causa Tamil está, aliás, sempre presente nas suas letras, tendo M.I.A. abraçado a causa dos seus pais de corpo e alma. Regressada a Londres, M.I.A. iniciou a sua carreira como pintora, designer, fotógrafa e, principalmente, uma cantora e compositora de enorme sucesso que tem agora em «Kala» (em que participam Timbaland, Diplo, Switch, Afrikan Boy, Blaqstarr...) um pico de criatividade fabuloso. (9/10)


BONDE DO ROLÊ
«WITH LASERS»
Domino Records

Os Bonde do Rolê são um divertidíssimo trio brasileiro de Curitiba que junta os ritmos saídos directamente do baile funk carioca com samples de guitarras eléctricas vindas do metal e letras que fariam corar o Quim Barreiros («Esfrega daqui e roça de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar/pega daqui e lambe de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar»; «James Bond dá o cu; James Bond chupa rôla...»; «Meu ursinho de pelúcia, eu roçava na infância...», entre muitos outros exemplos e com uma boa dose de gemidos sugestivos a ajudar...). A fórmula é simples e absolutamente irresistível! Pegue-se no álbum «With Lasers», ponha-se a rodar e é um nunca mais acabar de dança, risos, boa-disposição: «Dança do Zumbi», «Solta o Frango», «Divine Gosa», «Marina Gasolina», «Bondallica» (este, obviamente, inspirado nos Metallica) levam o baile funk para territórios mais orgânicos, mais rock, mais «universais». E são um achado de criatividade. Os Bonde do Rolê - os DJs e MCs Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot e a vocalista Marina Vello - foram «descobertos» por Diplo (ele também presente no álbum de M.I.A.) e cruzam agora os palcos de todo o mundo. Com justiça. (8/10)


MEXICAN INSTITUTE OF SOUND
«PIÑATA»
Mico/Cooking Vinyl

Produto de uma surpreendente escola mexicana de excelentes DJs que misturam electrónicas com músicas latino-americanas - ouçam-se também os óptimos Nortec Collective, por exemplo -, o Mexican Institute of Sound é a criação de um geniozinho, Camilo Lara, que neste seu segundo álbum, «Piñata» (o primeiro tinha sido «Méjico Máxico»), continua no seu laboratório a misturar de forma inteligente e bastante original géneros completamente diferentes entre si: cumbia, música ranchera (com um vira lá pelo meio, em «Para No Vivir Desesperado»), cha-cha-cha, hip-hop, dub e, por vezes, também baile funk (especialmente presente em «La Kebradita», a fazer o «raccord» com os discos anteriores - e através, se bem que de forma enviesada, da vocalista brasileira Pat C, que canta em dois temas do álbum). E apesar de, por vezes, o trabalho de estúdio estar demasiado presente - no mau sentido - na sua música, de outras estamo-nos completamente nas tintas para que esta música seja «artificial» (feita de samples, de colagens electrónicas...), tal é o apelo dançável que contém. Uma música experimental, arrojada, moderna, muitas vezes a desenhar bandas-sonoras perfeitas para «fiestas» globais e em que os preconceitos não têm lugar. No tema «A Todos Ellos» (no livreto chamado «Por Los Caídos») há uma sentida homenagem aos seus heróis: Johnny Cash, William Burroughs, Nusrat Fateh Ali Khan, Jaco Pastorius, Ian Dury, Ritchie Valens, Nick Drake, James Brown, Jack Kerouak, Joey Ramone, Kurt Cobain, Compay Segundo, Camaron de la Isla, Klaus Nomi, Ali Farka Touré, entre muitos outros... Arrepiante! (8/10)

Nota: os Bonde do Rolê tocam hoje à noite no Santiago Alquimista, em Lisboa, com primeira parte dos nova-iorquinos Holy Hail.

17 maio, 2007

Blasted Mechanism, Terrakota, Tora Tora Big Band - Fusão, Fusão (Sem Confusão)



Uns vão mais ao rock e às electrónicas, outros mais ao reggae, outros mais ao jazz, mas estes três grupos portugueses (ou de músicos de variadíssimas nacionalidades radicados em Portugal) têm sempre muitas outras músicas deste mundo como elementos fundamentais da sua música, nela integrados com propriedade e saber. E, diga-se, também por isso são dos melhores grupos musicais que existem no nosso país. Para conferir em disco e, ainda mais, nos fabulosos concertos que todos eles - os Blasted Mechanism, os Terrakota (na foto) e a Tora Tora Big Band - dão.


BLASTED MECHANISM
«SOUND IN LIGHT»
Toolateman/Universal Music Portugal

Já não é novidade para ninguém que os Blasted Mechanism são uma das mais amadas e acarinhadas bandas, digamos, rock, em Portugal, donos de um culto e de uma paixão que arrasta atrás de si dezenas de fãs por todo o lado. A sua história, já com cerca de quinze anos, é feita de uma música híbrida, excitante, verdadeira (e verdadeira mesmo quando se possa pensar em eventuais «artifícios» como os fatos ou as encenações), que já os levou a milhentos caminhos musicais, do rock ao trance ou à música balcânica; de uma mensagem que faz, sempre, as pessoas pensar (por muitos mistérios e esoterismos que contenha); de uma ideia global de música, imagem, palavra e ideologia. Uma arte global. E «Sound in Light», o novo álbum, é mais um capítulo daquela que, esperamos, seja a «never ending story» dos Blasted. Neste álbum - e falando apenas do CD «oficial», não do segundo que é possível descarregar da net -, os BM apuram, com subtileza e «savoir faire», vários caminhos já trilhados e avançam por alguns outros, fundindo coerentemente rock tribal e charangas balcânicas, banghra e punk, glam e guitarra portuguesa, som mestiço e rock progressivo, transes hipnóticos, dub, psicadelismo, shoegazing e variadíssimos delírios globais. E, ainda por cima, se garimparmos bem pelo meio dos arranjos quase «wall of sound» de cada tema, encontraremos, sempre, grandíssimas canções! (9/10)


TERRAKOTA
«OBA TRAIN»
Gumalaka/Matarroa

Grupo-irmão (ou, pelo menos, primo) dos Blasted Mechanism - alguns dos Terrakota estiveram no início dos Blasted, o novo álbum foi gravado no Toolateman, estúdio pertença dos BM, e os dois grupos partilham o mesmo engenheiro-de-som (Dominique Borde) -, os Terrakota assinam em «Oba Train», o seu terceiro álbum oficial, o melhor disco que alguma vez fizeram. Em «Oba Train» a música dos Terrakota está mais encorpada, coerente, realista (no sentido de «mais próxima das realidades musicais que visitam»), riquíssima em variações, nuances e inesperadas misturas. E com um cada vez maior domínio dos muitos instrumentos «étnicos» que os músicos tocam e da voz (nunca Romi cantou tão bem como neste disco!). Sempre com uma fortíssima carga política e interventiva nas suas canções (que falam de corrupção, emigração, racismo... e em variadíssimas línguas), os Terrakota viajam por variadíssimos territórios musicais, muitas vezes unindo dois ou mais continentes diferentes: salsa, música mandinga, som mestiço, hip-hop (com a ajuda de Ikonoklasta, do Conjunto Ngonguenha, e Conductor, do Conjunto Ngonguenha e dos Buraka Som Sistema), uma sitar a dar colorações indianas, a utilização de separadores-unificadores (à maneira de Manu Chao ou Radio Zumbido), gnawa, flamenco, variadíssimo ritmos jamaicanos (com o inesperado U-Roy a «toastar» num tema) e africanos, etc, etc... Uma viagem que é de viajante e não de turista - e acho que se percebe perfeitamente qual é a diferença. (9/10)


TORA TORA BIG BAND
«TORA TORA CULT»
Music Mob


E mais um raccord, óbvio, entre estas três bandas: o italiano Francesco (contrabaixo) e os portugueses Davide (bateria) e Junior (percussões) são peças fundamentais dos Terrakota e da... Tora Tora Big Band, um colectivo transnacional que ainda integra músicos vindos do Brasil, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos. São seis nações e doze músicos, mas os números ainda se inflacionam mais se às contas juntarmos os convidados presentes em «Tora Tora Cult», o segundo álbum do colectivo, e as músicas por onde eles passam. Quase todos com escola feita no jazz - e o nome de família Big Band não engana -, a Tora Tora Big Band não se fecha no swing que a designação indicia (embora haja swing e outras formas de jazz com fartura) e abre-se convictamente a outras músicas. Mais global ainda do que o álbum de estreia, homónimo, o novo álbum da TTBB leva-os do jardim do Éden a vários «jazzes» (como o jazz de fusão à Herbie Hancock, com uma «mano» dada pela espanholíssima cantora Silvia, dos Bad Lovers & Hysteria Ibérica) e também à música brasileira («Velho Samba», com a cantora Kika Santos, que também «protagoniza» o fabuloso «Elephants Run»), ao reggae, à música africana (com o cantor moçambicano André Cabaço a brilhar em «Moca Man»), a uma milonga fumarenta, uma valsa saída do Metro do Martim Moniz e remisturas electrónicas, no disco-bónus, a dar um final feliz a isto tudo. (9/10)

Nota: o concerto de lançamento do álbum dos Terrakota é na Aula Magna, em Lisboa, dia 31 deste mês.

08 janeiro, 2007

Los de Abajo, Forro In The Dark, Karsh Kale - Uma Festa Global


Festa. Festa. Festa. Uma festa global, sem fronteiras, com mensagens políticas incluídas como no caso dos Los de Abajo (na foto) ou de Karsh Kale ou sem mensagem nenhuma, como nos Forro In The Dark: só o prazer de dançar, de fazer música, de misturar ritmos com outros ritmos, géneros com outros géneros, sons com outros sons. Festa é Festa!


LOS DE ABAJO
«LDA V THE LUNATICS»
Real World

Porta-estandarte do movimento zapatista e na linha da frente da fusão de géneros mexicanos com muitas outras músicas, autor do inesquecível «Cybertropic Chilango Power», o grupo mexicano Los de Abajo regressou à ribalta há alguns meses com o fantástico álbum «LDA V The Lunatics», em que conta com a ajuda da dupla de produtores Neil Sparkes e Count Dubulah, isto é, os Temple of Sound (eles que também convocaram a sua antiga companheira nos Tranglobal Underground, Natacha Atlas, para o último tema deste álbum) e com outro convidado especialíssimo: Neville Staples, que foi dos Fun Boy Three, nas versões em espanhol e inglês do hit desta banda inglesa «The Lunatics (Have Taken Over The Asylum)», versões em que também participa o trombonista inglês Dennis «Badbone» Rollins. E o resultado global é uma festa pegada - feita de groove, hip-hop, ska, ritmos latinos de origens variadas (salsa, cumbia, banda ou o mariachi que assombra o ska de «The Lunatics...») e permanentemente dançável, sempre tocada e cantada com um saber e uma alegria enormes. Mas não se pense, por isso, que Los de Abajo perderam o seu empenhamento político: logo a abrir, o tema «Resistencia» (o título diz tudo) inclui uma gravação da Comandante Zapatista Esther. (8/10)


FORRO IN THE DARK
«FORRO IN THE DARK»
Nublu Records/Ponderosa

Aparentemente, o que os Forro In The Dark fazem é tão simples quanto isso: forró, aquele género muitas vezes mal-amado do nordeste brasileiro. Mas, quando se ouve bem este álbum descobrem-se - nos interstícios dos temas de Luiz Gonzaga (muitos) ou de Sivuca (menos), e por entre o acordeão, os ferrinhos, a zabumba, o pífano e... uma guitarra eléctrica - ecozinhos de country, de swing, de pop sixties, de música havaiana, de música russa, de experimentalismo. Mas sempre com um sentido de festa e de dança e de folia inexcedíveis. Conta a lenda que os Forro In The Dark - formados pelos brasileiros Rob Curto e Mauro Refosco e pelo norte-americano Smokey Hormel (o guitarrista), neste álbum acolitados por Seu Jorge (que dá voz a «Suor de Pele Fina») e Jon Birdsong (trompetista dos Brass Monkey) - tocam durante horas e horas seguidas no clube de jazz nova-iorquino Nublu - onde têm residência todas as quartas-feiras -, deixando toda a gente alagada em suor. Ouvindo-se o disco não custa acreditar nesta história. Assim como não custa acreditar que «Bonfires of São João» (álbum editado apenas alguns meses depois deste «Forro In The Dark»), que inclui participações de David Byrne, Bebel Gilberto e Miho Hatori (das Cibo Matto) poderá ainda ser melhor que este. (8/10)


KARSH KALE
«BROKEN ENGLISH»
Six Degrees Records


Músico, produtor, DJ, por vezes cantor, Karsh Kale nasceu em Inglaterra mas cresceu nos Estados Unidos, onde reside. De ascendência indiana, Kale inclui na sua música variadíssimos elementos indianos (desde instrumentos como as tablas, que ele também toca, ou a inevitável sitar, a referências às bandas-sonoras de Bollywood, ao bhangra ou a géneros tradicionais e clássicos indianos), mas na sua música entram muitíssimos outros géneros e ouvir um álbum como «Broken English» é uma surpresa constante. O primeiro tema, «Manifest» - que começou por se chamar «Resistance» (olá Los de Abajo) - é um rap, protagonizado por MC Napoleon, hiper-politizado e fortíssimo; o segundo, «Dancing at Sunset», é uma cançãozona pop iluminada por uma secção de cordas indiana; o terceiro, «Beautiful», é uma balada electrónica com flautas mágicas (bansuris) e a voz de Sophie Mitchalitsianos (dos Sparklehorse) a flutuar por cima. E o resto do álbum, que se ouve sempre em estado de encantamento e surpresa, é umas vezes mais electrónico, outras vezes mais rock (como em «Free Fall», com Trixie Reiss na voz) ou mais ambiental ou mais trip-hop («Innocence and Power», com Dierdre Dubois, dos Ekova), mas sempre com a dose certa de elementos «étnicos» a compor, bem, o ramalhete. (8/10)