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26 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLIX.1 - Serge Gainsbourg


Polémico, provocador, alcoólico, pianista, pederasta, poeta genial, namorado de algumas das mulheres mais bonitas do mundo, realizador de cinema, fumador compulsivo, pintor, actor, compositor de muitas e desvairadas músicas (e com flirts... musicais variadíssimos, da chanson ao rock, ao reggae e ao jazz), Serge Gainsbourg (de verdadeiro nome Lucien Ginsburg, nascido a 2 de Abril de 1928; falecido a 2 de Março de 1991) foi uma das personagens mais importantes da música francesa do Séc.XX. Nascido numa família de judeus russos exilados em França, Gainsbourg iniciou a sua carreira como pianista em bares mas, durante os anos 60 e 70, firmou o seu nome como um dos cantores e, principalmente, compositores mais criativos da sua geração. Compôs - e com elas por vezes fez duetos e com elas, muitas vezes, se envolveu sentimentalmente - para cantoras e actrizes como Brigitte Bardot, Jane Birkin, Juliette Gréco, Françoise Hardy, Catherine Deneuve, Vanessa Paradis e, para disfarçar, para alguns homens como Alain Bashung ou Jacques Dutronc. Canções inesquecíveis: a sexualmente explícita «Je T'Aime... Moi Non Plus», «Bonnie and Clyde», «La Javanaise» ou a sua versão reggae, «Aux Armes et cetera», do hino francês.


Cromo XLIX.2 - «Il Canto di Malavita»


Envolta em controvérsia quando foi editada em Itália (e também, junto da comunidade italo-americana, nos Estados Unidos) por alegadamente fazer a apologia da Máfia, a colectânea «Il Canto de Malavita - La Musica Della Mafia» não deixa, por isso, de ser um extraordinário mostruário de uma música antiga, secreta, também ela cheia de códigos internos - à semelhança da organização que canta - e, sempre, de uma grande beleza. Feitas de raiva e tristeza, vingança e amor, sangue e honra, interpretadas muitas vezes num calão próprio, as canções de «Il Canto di Malavita» (editada em 2000 pela PIAS) foram resgatadas às ruas, casas e caves da Calábria pelos produtores Francesco Sbano, Maximillian Dax e Peter Cadera. Em «Il Canto di Malavita» ouvem-se ecos de tarantelas e canções napolitanas, rembetika e fado, amplificados pela voz de alguns intérpretes extraordinários como El Domingo, F. Cimbalo, Franco Caruso ou Salvatore Macheda. Uma segunda colectânea com a mesma temática, «Omertà, Onuri e Sangu — La Musica della Mafia Vol.2», foi editada dois anos depois.


Cromo XLIX.3 - DJ Dolores


Na música do brasileiro DJ Dolores, os géneros musicais do seu país, tradicionais ou não - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, ciranda, tropicalismo, samba, bossa-nova e muito mais... - cruzam-se com géneros exteriores - reggae, funk, rock, hip-hop, dancehall, surf music, klezmer, dub, house... - como se tivessem surgido, desde sempre!, para se cruzarem assim. DJ Dolores (de seu verdadeiro nome Helder Aragão) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» - são inesquecíveis as suas actuações com a Orquestra Santa Massa - e faz isso tudo por igual e muitíssimo bem. Começando a sua carreira, no Recife, como designer gráfico, produtor de cinema e autor de bandas-sonoras, foi como DJ que o seu nome se tornou mundialmente conhecido, tendo - para além da sua obra em nome próprio - feito remisturas para nomes como os Taraf de Haidouks, Gilberto Gil, Fernanda Porto ou Tribalistas. Audição aconselhada: os álbuns «Contraditório» (2002), «Aparelhagem» (2005) e «1 Real» (2008).


Cromo XLIX.4 - L'Ham de Foc



Objecto raro e originalíssimo no meio da folk feita em Espanha, o duo valenciano L'Ham de Foc atirou-se com saber e mestria - e sempre ao longo dos seus vinte anos de existência - a uma música que vai beber a sua inspiração à música medieval, árabe, grega e sefardita transportando-as para a modernidade, podendo ser encontrados vários pontos de contacto entre o grupo e os Dead Can Dance, os Hedningarna ou até os Corvus Corax. Criados em 1998, em Valência, pela cantora e multi-instrumentista Mara Aranda e o multi-instrumentista Efrén López, os L'Ham de Foc fizeram um percurso sempre ascendente nos meandros da folk europeia, mercê da sua coerência na utilização apenas de instrumentos acústicos - sanfonas, alaúdes, sitar, harpa, vários saltérios e gaitas-de-foles a inúmeras percussões, europeias, asiáticas ou norte-africanas (num total de mais de trinta instrumentos). Em 1999 editaram o álbum de estreia, «U», seguido por «Cançó de Dona i Home» (2002) e «Cor de Porc» (2005). Desfeita a dupla, os seus membros encontram-se agora ligados a grupos como os Aman Aman, Sabir, Saba, Capella de Ministrers, Mara Aranda & Solatge ou Al Andaluz Project. (1)

(1) - Texto adaptado de um outro escrito por mim para o Festival MED de 2007.

07 fevereiro, 2008

DJ Dolores no Santiago Alquimista


Vi-o duas vezes: uma delas no Festival do Meco, com a Orquestra Santa Massa, e de outra na WOMEX, em Sevilha, como DJ, numa sessão histórica em que centenas de pessoas dançaram à chuva até de madrugada. E de ambas as vezes, o homem foi um espectáculo total: o brasileiro DJ Dolores (na foto, de Barbara Wagner) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» e faz isso tudo, sempre, muito bem. Na sua música entram ritmos tradicionais brasileiros - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, tropicalismo, samba... - e muitas músicas exteriores - electrónicas variadas, reggae, funk, rock, hip-hop, surf music e até klezmer, juntando todos os componentes num caldo único e pessoalíssimo. E sempre com mensagens políticas explícitas ou implícitas nas letras das suas canções, como se poderá confirmar no concerto que DJ Dolores tem marcado para dia 21 deste mês, em Lisboa, no Santiago Alquimista. Um concerto que servirá de apresentação ao seu novíssimo álbum «1 Real», mas onde não deverão ficar esquecidos alguns temas mais emblemáticos dos álbuns «Contraditório» (2002) e «Aparelhagem» (2005).

09 agosto, 2006

(Outro) Cacharolete de Discos



E mais uma recuperação de algumas críticas de discos: uma colectânea dos Dropkick Murphys (a que interessa mais porque a primeira da série - «Singles Collection Volume 1» - é de temas mais facilmente encontráveis em álbum do que estes), DJ Dolores (na foto), Daby Balde e uma compilação de música balcânica.


DROPKICK MURPHYS
«SINGLES COLLECTION VOLUME 2 - 1998-2004»
Hellcat Records/Edel

O canal por cabo Mezzo apresentou a semana passada um excelente documentário sobre a música de intervenção irlandesa - que tem as suas raízes nas canções que surgiram durante a Grande Fome do séc. XIX e, mais recentemente, no reforço da ocupação militar inglesa no final dos anos 60 do séc.XX. São canções ancoradas na tradição irlandesa e com uma forte carga lírica anti-Inglaterra, pró-independência da Irlanda e de apoio à resistência e, muitas vezes, ao IRA (um dos hinos apresentados é de Bobby Sands). O documentário passa depois para o lado de lá do Atlântico, onde a comunidade imigrante de origem irlandesa nos Estados Unidos representa 40 milhões de pessoas, grande parte dela ainda com um enorme grau de ligação à terra-mãe (as paradas do dia de S.Patrício com cartazes que dizem «England out of Ireland»; um casal de rappers que misturam hip-hop com música irlandesa...).

Não sei se o documentário falava dos Dropkick Murphys (não o vi todo), mas se não falava, devia fazê-lo. Originários de Boston, estes americanos quase todos de origem irlandesa misturam muitas vezes a fúria do punk (nas vertentes oi e hardcore) com gaitas-de-foles, tin whistles, bandolins e letras de luta e contestação, mantendo a alma verde sobre um corpo de betão - e onde a influência dos Pogues (Shane MacGowan chegou a colaborar com eles) é evidente. Em «Singles Collection Volume 2 - 1998-2004», a banda dá-nos lados-B, versões e mais um conjunto de raridades (de singles, splits, colectâneas...), óptimo para juntar aos álbuns que já temos. Ouvir, por exemplo, «It's a Long Way To The Top (If you wanna rock'n'roll)», dos AC/DC, com uma gaita-de-foles a serpentear lá pelo meio é uma delícia. Mas há mais: vários originais e versões dos Creedence Clearwater Revival, The Misfits, Danzig ou Motorhead. Bem bom. (7/10)

DJ DOLORES
«APARELHAGEM»
Ziriguiboom/Crammed/Megamúsica

Teoria: E se todas as músicas fossem apenas uma e tivessem todas uma mesma raiz, perdida algures perto do Lago Vitória, no momento em que Lucy, a Australopithecus Afarensis, se encontrou com o Ardipithecus Ramidus e trocaram canções guturais, alguns ritmos percutidos num tronco e dançaram os dois?... E se as fronteiras de géneros e estilos não tivessem importância nenhuma mas tivessem todos a mesma importância relativa entre si? E se, coisa rara, muitas e desvairadas e diferentes músicas - às dezenas, sem vergonha e sem preconceitos -, se encontrassem num único disco?

Prática: «Aparelhagem», o novo projecto do brasileiro DJ Dolores e designação que também dá título ao novo álbum, sucedendo à Orquestra Santa Massa, mostra o DJ e compositor novamente à frente de uma aventura global que - com coerência, elevadíssimo bom-gosto e muito saber (e aqui está a grande mais-valia de DJ Dolores em comparação com muitos outros) -, funde músicas tradicionais e/ou populares brasileiras (frevo, baião, forró, maracatú, ciranda, emboladas, música brega, bossa-nova, tropicalismo, samba...) com formas exteriores: jazz, funk, drum'n'bass, rock, hip-hop, surf music, dub, reggae, electrónica noisy e experimental e até a música klezmer (Frank London, o extraordinário trompetista dos Klezmatics, participa nalguns temas). E é sempre, sempre, uma música para dançar até cair, sem pudores nem papas na língua - a mensagem política está lá, quando se quiser escutá-la -, através das palavras cantadas por Isaar, a vocalista da «Aparelhagem», ou ditas por Dolores nalguns interlúdios. (9/10)

VÁRIOS
«BALKAN GYPSIES - THE ROUGH GUIDE»
World Music Network/Megamúsica

A música cigana dos países do Leste da Europa foi, durante séculos, um segredo bem guardado (por contingências históricas, geográficas, políticas...). Mas nos últimos 20 anos a sua música está, cada vez mais, em todo o mundo: nas lojas de discos, em festivais, em filmes, na cabeça de muita gente. «The Rough Guide To The Music of Balkan Gypsies» é mais uma boa amostra que pode abrir as portas desta música riquíssima a quem não a conhece: da festa e alegria dos metais da Mahala Rai Banda, Boban Markovic Orkestar e Fanfare Ciocarlia às vozes cruzadas com violinos e acordeões dos Taraf de Haidouks, do diálogo de voz com o clarinete de Ivo Papapsov e o saxofone de Yuri Yunakov ao jazz-klezmer de Nikolae Simion, da espantosa voz da diva Esma Redzepova a extensões «óbvias» à Grécia, Albânia e Turquia. (7/10)

DABY BALDE
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica

Cantor e guitarrista senegalês mistura koras com violino e acordeão. E dá-se bem.

Originário de Casamance, região do sul do Senegal paredes-meias com a Guiné-Bissau, a Guiné e a Gâmbia, o cantor e guitarrista Daby Balde apresenta-se internacionalmente com este álbum, «Introducing... Daby Balde», um disco aberto, alegre, vivo, em que Balde faz conviver koras e percussões com a sua voz e guitarra, coros femininos e alguns instrumentos menos habituais na música africana como o violino ou o acordeão. Instrumentos que aqui dão uma riqueza e variedade de timbres fundamental para a luminosidade desta música cantada por Daby em fula, mandinga, wolof e francês. O segundo tema, «Heli», tem um início igual ao do «Fadinho Simples» (António Chaínho e Marta Dias). Há, lá pelo meio, um blues-flamenco fabuloso, «Waino Blues». E há, sempre, música muito boa. (8/10)