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20 janeiro, 2012

Hootenanny (E os... Blues) de Volta à Culturgest


Para voltar a "estar com os azuis":

"Hootenanny

Comissário: Ruben de Carvalho

De sábado 28 de janeiro a sexta 3 de fevereiro

Grande e Pequeno Auditório

Preço: Grande Auditório – 18€; até aos 30 anos – 5€

Pequeno Auditório – 5€ (preço único)






“Os blues são a verdade sobre as realidades da vida traduzida em palavras e música, inspiração, sentimento e compreensão.” Willie Dixon





Sugar Blue
Debbie Davies (na foto)
Eeco Rijken Rapp e David Herzel


Ruben de Carvalho apresenta assim esta terceira edição do Hootenanny:

“No terceiro Hootenanny dedicado aos blues, de todo se justifica que novamente se procure a palavra daquele a quem chamaram o «laureado poeta dos blues» (e também «pai dos modernos Chicago blues»!): Willie Dixon, desaparecido exactamente há duas décadas, em janeiro de 1992.
Empenhado não apenas na criação e gravação, mas também na conservação dos blues tradicionais, Dixon escreveu, entre as várias soberbas sínteses que lhes dedicou: Os blues são as raízes e as outras músicas os frutos. E é necessário conservar vivas as raízes porque isso significa que as outras músicas poderão continuar. Os blues são as raízes da música americana. Enquanto a música americana viver, assim também viverão os blues».
Se por aqui seria possível deixar a razão de ser deste novo ciclo e se aos seus participantes se podia confiantemente deixar a demonstração da verdade do que escreveu o autor do incontornável Hoochie Coochie Man, acresce que o Hootenanny abre o seu programa de 2012 com um músico que de 1981 a 1983 integrou a Willie Dixon's Chicago Blues All Stars e a ele continuou ligado durante toda a sua carreira: Sugar Blue.
Mas, para este ano propõe-se uma viagem com alguns aspectos particulares.
Por um lado, a citada presença de Sugar Blue, uma figura que bem representa o retrato feito por Dixon, na sua versatilidade de bluesman premiado e de músico de estúdio participante em registos que vão dos Rolling Stones a Bob Dylan. Os blues são as raízes...
Mas teremos também uma pouco habitual apresentação: uma presença feminina - instrumental.
A esmagadora maioria das mulheres que largamente contibuiram para o panorama da música nascida no Delta do Mississipi destacaram-se sobretudo como cantoras. Sem elas não seria mesmo possível pensar a sua história. Acompanhando-se por vezes ao piano, menos frequentemente à guitarra, a voz tem sido o instrumento feminino de eleição. Durante muitas décadas o ambiente acentuadamente masculino e mesmo machista da cena blues contribuiu e consagrou largamente esta situação, mas, nomeadamente após os anos 70/80 a situação modificou-se - contudo com um aspecto curioso: ainda hoje a maioria das intérpretes instrumentais de blues são - brancas!
Trata-se de um percurso já bastante estudado que, reflectindo naturalmente o processo geral de emancipação feminina, apresenta traços comuns: mais do que o caminho (que pareceria lógico) do rock para os blues, ele acaba por ser essencialmente o do início na folk branca, cantada e acompanhada com guitarra acústica (e de larga presença nos mais liberais campus universitários), e, depois, a crescente paixão pelos blues e a transição para a guitarra eléctrica e uma manifesta predileção pelos estilos mais electrificados, nomeadamente Chicago, Debbie Davis aí estará para o demonstrar.
Finalmente, uma outra comprovação do pensamento de Willie Dixon: um concerto de boogie woogie!
Para quem faça um desconfiado franzir de festa, socorremo-nos do incontornável Dictionaire de Jazz de Philippe Carles para a Bouquins:
Boogie-woogie (...) O boogie-woogie é originariamente uma forma especial de interpretar os blues ao piano que terá surgido nas barrelhouses e honky tonks no início do século XX, especialmente no Texas.
Porquê Texas, falar-se-á adiante. O intérprete, considerado uma autoridade mundial, vem... da Holanda: Eeco Rijken Rapp!
Para quem sabe que a Holanda é, há muitos anos, uma espécie de «sucursal» europeia de New Orleans - não admirará!
E Dixon continua a ter razão: os blues são a raiz...”

Programa:

Sábado 28 de janeiro, 21h30, Grande Auditório
Sugar Blue
Preço: 18€ • Até aos 30 anos: 5€

Harmónica, voz Sugar Blue
Guitarra, voz Rico McFarland
Contrabaixo, voz Ilaria Lantieri
Teclados, voz Sonny Axell
Bateria Pooky Styx


Nascido no Harlem e baptizado James Whiting, pode dizer-se que Sugar Blue começou a sua carreira mesmo antes de a iniciar... Sua mãe era cantora e bailarina do lendário Apollo Theater e ali foi criado entre música e músicos, conhecendo e convivendo com celebridades que incluiram mesmo uma amiga de sua mãe - Billie Holiday.
Presenteado ainda adolescente por um tio com uma harmónica, a sua formação musical é algo invulgar num bluesman: as primeiras tentativas com a sua blues harp andaram bastante à volta dos hits da época, que incuiam tanto o R&B/soul de Stevie Wonder como o folk de Bob Dylan, mas, a influência do meio musical que o rodeava, cedo o despertou para o jazz. Com destaque para Dexter Gordon e Lester Young. Tal facto marcou decisivamente o seu estilo: a harmónica não é um instrumento habitual nas formações de jazz, mas Sugar Blue introduziu no seu estilo uma evidente e inconfundível marca jazzy, e especialmente de sax. Acrsce que tambem desde os primeiros passos revelou uma voz cheia e expressiva e um talento de compositor que lhe proporcionou criar composições a seu gosto. Há, por exemplo, quando canta e depois toca, uma sonoridade e uma continuidade invulgares que abrem caminho a diálogos ou figuras rítmicas de especial riqueza.
A conselho do veterano Memphis Slim e já depois de ter gravado com figuras como Brownie McGhee (outra significativa influência), no final dos anos 70 rumou a Paris. Já era entretanto Sugar Blue, nome artístico cuja divertida adopção ele próprio conta:
- Precisava de um nome (...) mas os bons já estavam todos usados! «Muddy», «Blind Lemon», «Sonny Boy»... até que uma noite eu e um amigo vínhamos de um concerto - de Doc Watson - e alguém atirou pela janela fora uma caixa de velhos 78 rotações; apanhei um e era «Sugar Blues» pelo Sidney Bechet. É isto, disse eu, é perfeito! E assim fiquei...
Em Paris, Sugar travou-se de amizades com alguns dos músicos dos Rolling Stones que o convidaram para várias das suas gravações, a mais famosa das quais é o famoso solo de harmónica em «Miss You», do álbum «Some Girls». Até 1982 participou em diversas gravações de grupos europeus e em espectáculos, mas nesse ano resolveu regressar aos Estados Unidos e, um ano depois, organizava a sua própria banda para a qual recebeu um Grammy em 1985 pela gravação do seu espectáculo em Montreux.
Art Blakey, B.B. King, Muddy Waters, Lionel Hampton, Fats Domino, Ray Charles, são apenas alguns dos nomes com os quais Sugar tem partilhado o palco, simultaneamente com 11 álbuns gravados.





Quarta 1 de fevereiro, 21h30, Pequeno Auditório
Debbie Davies
Preço único: 5€


Guitarra Debbie Davies
Bateria Don Castagno
Contrabaixo Mathew Lindsey


Pouco se pode acrescentar sobre um guitarrista de blues - neste caso, uma guitarrista - depois de se dizer que já partilhou palcos e estúdios com lendas como Coco Montoya, Duke Robbillard, James Cotton, Charles Musselwhite e, muito em particular, que integrou os lendários Icebreakers de Albert Collins. Acrescente-se que foi galardoada em 1997 com o prestigiado W.C. Handy Award para Melhor Artista Feminina Contemporânea e em 2010 com o igualmente importante Blues Music Award para a Melhor Artista Tradicional e ter-se-á uma ideia bastante geral de Debbie Davis, sobre quem coco Montoya disse que «é um dos laços diectos à origem desta música. Sabe tudo sobre o que os blues são e podem escutá-lo na paixão com que toca».
Contudo, não é apenas por ser branca que Debbie é um caso pouco frequente no panorama dos blues. Nascida na California (mais exactamente em Los Angeles) e filha de músicos profissionais, com doze anos começou a tocar guitarra o que, ao tempo, significava quase inevitavelmente guitarra acústica. Embora desde sempre atraída pela sonoridade de Ray Charles ouvida nos discos familiares, tudo se modificou quando começou a ouvir Eric Clapton e os Bluesbreakers de John Mayall.
Este facto de nos anos 70 ter sido através da invasão pop/rock inglesa que muitos jovens brancos da West Coast se familiarizaram com música do seu próprio país (de que nascera afinal a novidade britânica!) reflecta a realidade californiana e verificou-se com muitos outros artistas e grupos que descobriram as blues... via Londres!
Após uma estadia em S. Francisco, Debbie regressou a Los Angeles e acabou em 1984 a integrar o grupo Cadillac, uma então invulgar banda feminina de blues dirigida por Maggie Mayall, mulher de John e que entretanto se fixara na Califórnia. As coisas desenvolveram-se de tal forma que, quatro anos depois, Albert Collins convidava-a para integrar os seus Icebreakers, o que, como ela própria disse, «tornou os blues uma coisa verdadeiramente tridimensional para mim».
Em 1991 o pouco conhecido entre nós (mas notória celebridade nos EUA) cantor country Jimmy Bufett convidou-a para montar o espectáculo Ladyfingers Revue, abertura da tournée que Bufett realizou então por toda a América, após o que Debbie se dedicou a uma carreira a solo ou como acompanhante de outros solistas e trabalho para bandas sonoras.
Ao longo da sua carreira, gravou doze álbuns entre os quais a crítica entusiasticamente saudou Blues Blast, registado em 2007 que dá não só uma vibrante imagem do seu virtuosismo, como igualmente da expressividade da sua voz, qualidade muitas vezes ocultada pelo vigor da sua execução instrumental.


Sexta 3 de fevereiro, 21h30, Pequeno Auditório
Eeco Rijken Rapp e David Herzel
Preço único: 5€

Piano Eeco Rijken Rapp
Bateria David Herzel


Em 2006 um jovem holandês iniciou uma presença no YouTube que rapidamente se transformou num êxito internacional: dedicada integralmente ao boogie-woogie, incui não apenas excertos de filmes de executantes históricos como uma bem elaborada sequência de vídeos de instrução sobre o estilo. A foto do autor, Ecco Rijken Rapp, que igualmente ilustra coloca-o de pé, junto a uma velha linha férrea. Fica assim desde logo demonstrado que a sua ligação ao boogie-woogie não é puramente musical, mas que perfeitamente sabe que entre esse estilo de executar blues ao piano e as velhas locomotivas de caminho de ferro a vapor há muito em comum. Estamos, assim, face a um apaixonado - e a um estudioso
Assim é, de facto. Nascido na Holanda, em Apeldoorn, Rijken Rapp começou a aprender piano clássico aos seis anos, estudo que prosseguiu durante mais de dez anos. Sucedeu contudo que, com 16 anos, assistiu a um concerto de boogie-woogie, coisa natural no País europeu onde seguramente mais jazz se ouve por habitante.
A opção foi imediata e o nosso pianista lançou-se sobre todas as gravações e pautas dos grandes executantes, acabando por, com toda a naturalidade, se fixar no inimitável estilo de Albert Ammons. A sua vida modificou-se por completo desde então e, além da presença na net que faz dele um repeitado divulgador internacional do estilo, começou a apresentar-se em concertos por toda a Europa, umas vezes a solo, outros em duo (na boa tradição de Ammons e Pete Johnson).
Em muitos desses concertos (como será o caso do Hootenanny) Eco faz-se acompanhar pelo baterista David Herzel - consituindo um grupo que baptizaram de Boogielicious - duo de resto comum, nomeadamente após a era do swing dos anos 30 e a importância assumida pela bateria nas grandes orquestras: o estilo boogie-woogie com os seus poderosos e marcantes baixos (a left hand like God, a designação cunhada para o percursor William Turk por Eubie Blake) pode prescindir do contra-baixo, mas ganha subtileza com a presença da bateria.»

22 fevereiro, 2011

É Senegal... Ninguém Leva a Maal!


O trocadilho é desculpável... Porque vem aí o Carnaval, mas ainda muito mais importante do que isso é a música do... Senegal!!! Aqui, para si e mais uma vez em textos recuperados do arquivo da "Time Out", apresentamos os álbuns mais recentes dos senhores Carlou D, Baaba Maal (na foto), Nuru Kane e Cheikh Lô.


Cheikh Lô
"Jamm"
World Circuit/Megamúsica

O senegalês Cheikh Lô é, possivelmente, um dos cantores e músicos africanos que mais géneros usa, sem limites nem fronteiras, no seu incansável trabalho de congregador de diferentes sonoridades: mbalax do Senegal, highlife do Gana, rumba congolesa, reggae, blues, jazz, funk, flamenco e muitos outros géneros convivem harmoniosamente na sua música, uma música que nunca esquece no entanto de onde vem e quais são os seus pilares. Por exemplo, no seu novo álbum, "Jamm", Cheikh Lô faz uma versão maravilhosa de “Il N'Est Jamais Trop Tard” uma das poucas canções que não é cantada em wolof, ao lado de um tema também em francês e outro parcialmente interpretado em espanhol), um clássico com quase 50 anos dos Bembeya Jazz National. E o resto das canções, por ele compostas, trazem também esse ou outros lastros brilhantes. (*****)



Baaba Maal
"Television"
Palm Pictures

Príncipe da música senegalesa (o rei é Youssou N'Dour!) e do mbalax na sua forma mais moderna, vanguardista e excitante – porque também há um mbalax apimbalhado e esse até é melhor... não conhecer -, Baaba Maal está de regresso com mais um excelente álbum. Com o apoio do produtor Barry Reinolds e dois dos Brazilian Girls – o teclista Didi Gutman e a vocalista Sabina Sciubba -, que dão parte da base instrumental, para além de Sabina ajudar bastante nos coros e voz dialogante, "Television" está muito longe de ser um álbum de música tradicional africana. Nele está lá a voz de Maal (a cantar em pulaar) e as percussões tradicionais mas também flamenco, trip-hop, música irlandesa, guitarras indie-rock ou tecno, tudo irmanado numa grande festa global, tal como celebrada na canção “International”. (****)


Carlou D
"Muzikr"
World Village/Harmonia Mundi

Saído de um dos mais conhecidos e respeitados grupos de hip-hop africanos, os Positive Black Soul, o senegalês Carlou D assina agora um extraordinário álbum a solo em que o hip-hop surge, musicalmente, apenas a espaços – embora a sua influência seja decisiva, isso sim, nas letras (muitas delas de características interventivas e assombradas pela fé Baye Fall, já que Carlou é um dos seguidores do Cheikh Ibra Fall). De resto, este é um disco em que Carlou D canta e mergulha de cabeça na tradição da música mandinga (há aqui uma kora e uns balafons quase sempre), nos blues, em aproximações à música árabe ou ao reggae, no jazz e na soul. "Muzikr" é um álbum absolutamente surpreendente e imediatamente candidato a um dos melhores do ano. (*****)


Nuru Kane
"Number One Bus"
Iris Music/Harmonia Mundi

Segundo álbum do senegalês Nuru Kane, "Number One Bus" é a continuação natural de "Sigil",mas agora com um grau de verdade e sofisticação – embora uma sofisticação que passa mais pela simplicidade de processos do que por um “abarrocamento” das harmonias – muito superior ao do primeiro. De resto, está tudo lá: a luta política, a fé Baye Fall, o mbalax, a sua paixão pela música gnawa desenvolvida na Argélia (Kane, para além de guitarra e baixo, também toca guimbri e no seu grupo BFG há vários músicos do norte de África), os blues, a pop e o rock, o reggae... E, apesar de "Number One Bus" ser um álbum variado e em que cada tema tem o seu lugar, sente-se que todas estas influências estão agora incrivelmente bem digeridas. (*****)

14 novembro, 2010

Nobody's Bizness... ou, agora, Um Assunto de Todos Nós (a começar por mim)


Está quase: no dia 18 de Novembro, quinta-feira próxima, os Nobody's Bizness (aqui representados numa foto-montagem do camarada Mário Pires) mostram ao vivo no Maxime, em Lisboa, o seu segundo álbum, "It's Everybody's Bizness Now". Já a seguir segue o texto de apresentação do álbum, assinado por, hummmm... António Pires, fã confesso e incondicional da banda!

Nobody's Bizness
It's Everybody's Bizness Now

A História dos blues está feita de encruzilhadas. A lendária encruzilhada na quinta Dockery onde Robert Johnson terá vendido a alma ao diabo em troca de se tornar o melhor guitarrista de sempre. A escolha que foi apresentada pelo destino a T-Bone Walker, John Lee Hooker, B.B. King ou Muddy Waters: continuo a tocar guitarra acústica ou passo para a eléctrica e a minha música chega assim a mais pessoas (e, quem sabe, até mudo o futuro de toda a música popular)? A decisão de vida que Ali Farka Touré teve que tomar: serei para sempre taxista ou mecânico de automóveis ou tenho como missão vir a ser músico profissional e lançar as pontes definitivas entre os blues e a música da África Ocidental? Ou a encruzilhada que Eric Clapton encontrou quando percebeu que a sua vida não podia continuar dependente do álcool e das drogas duras: deixo esta merda ou serei para sempre conhecido como “o drogado que deixou o filho cair da janela e morrer”?

Ao fim de alguns anos a cantar e a tocar as canções dos bluesmen que mais amam e admiram, as questões que os Nobody's Bizness encontraram na sua encruzilhada pessoal não foram tão dramáticas nem tão românticas ou bizarras quanto estas, mas foram, mesmo assim, difíceis de resolver: continuaremos para sempre a fazer versões ou vamos em frente, pomos a cabeça no cepo e mostramos o que valemos também enquanto autores? E foi isso mesmo que fizeram. Ou, pelo menos, a cinquenta por cento. Depois de, em 2005, terem editado um álbum ao vivo gravado na Capela da Misericórdia, em Sines, onde interpretavam temas de Robert Johnson, Willie Dixon ou Lonnie Chatmon, os Nobody's Bizness têm agora um álbum em que seis das doze canções têm assinatura do grupo (com a preciosa ajuda de João MacDonald nas letras de uma delas). E saíram-se brilhantemente da tarefa! Nos seus originais estão toda a paixão e ensinamentos que sempre retiraram dos blues, mas também o amor que têm pela country, pelo bluegrass, pela folk norte-americana (ou por um eventual eixo canadiano que une Leonard Cohen, Neil Young e Joni Mitchell), pelo jazz e por uma visão aberta das músicas do mundo. E, ao lado de várias versões de Willie Dixon (ainda e sempre) ou William Broonzy, aqui estão meia dúzia de originais que põem desde já os Nobody's Bizness num elevadíssimo patamar criativo.

Uma outra encruzilhada, digamos paralela (se é que se pode falar de paralelas quando também se fala de encruzilhadas – mas essa é uma boa questão para os geómetros resolverem), que os Nobody's Bizness encontraram foi a opção de gravar, ou não, em estúdio. Tendo o palco como território natural para a sua música, como é que o brilho da voz de Petra, a magia da harmónica e a profundidade de voz de Catman, as finíssimas filigranas das guitarras e banjos dos irmãos Ferreira e os tapetes voadores de Luís Oliveira e Isaac Achega poderiam ser recriados – porque é de recriar que aqui se trata – em estúdio? A questão era complicada mas resolveu-se de forma fácil: tendo como aliado Paulo Miranda, que com os Nobody's Bizness co-produziu o disco no seu AMP Studio, em Viana do Castelo, o grupo lisboeta rapidamente descobriu no estúdio minhoto uma extensão da sua sala de ensaios onde todos se sentiram confortáveis e a sua música pôde fluir livremente. E, se o primeiro álbum circulou por um grupo restrito de fãs fiéis e habituais, os Nobody's Bizness são agora everybody's bizness, para ouvir de ouvidos limpos e alma aberta.

António Pires
Outubro de 2010


A banda:

Petra Pais – voz
Catman – voz, harmónica e teclas
Luís Ferreira – guitarras, dobro e banjo
Pedro Ferreira – guitarras, banjo e coros
Luís Oliveira – baixo e coros
Isaac Achega – bateria e percussões

Produção:

Nobody's Bizness e Paulo Miranda

Convidados:

Francisco Silva (Old Jerusalem) e Ana Figueiras (Unplayable Sofa Guitar) nos coros
de “”When monday comes”

Alinhamento:

1 – I want a little boy (Murray Mercher/Billy Moll)
2 – Don't go no further (Willie Dixon)
3 – Time waster (Nobody's Bizness)
4 – When monday comes (Nobody's Bizness)
5 – Nobody (no guidance song) (Nobody's Bizness)
6 – This pain in my heart (Willie Dixon)
7 – When the lights go out (Willie Dixon)
8 – Roll mamma (Nobody's Bizness)
9 – Blues for the month of june (João MacDonald/Nobody's Bizness)
10 – The blues don't care (Gwill Owen/Charles Olney)
11 – Black, brown & white (William Broonzy)
12 – Show's up! (Nobody's Bizness)

27 julho, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (VII)


O futuro do fado no masculino
por António Pires, Publicado em 17 de Setembro de 2009


Quando se fala de fado - e, principalmente, de novo fado ou de novos fadistas - pensa-se geralmente na geração de novas cantoras, muitas delas excelentíssimas, que o fado de Lisboa gerou nos últimos quinze ou vinte anos: Mísia, Mariza, Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth, Joana Amendoeira, Ana Sofia Varela, Kátia Guerreiro, Cristina Branco, Carminho... A lista é quase infindável. Fala-se menos dos homens, alguns deles com uma qualidade idêntica à de algumas das mulheres referidas, ou por vezes maior. Quando se fala dos homens, vêm sempre à baila - e com justiça, aliás - os irmãos Moutinho: Camané, Hélder e Pedro. Mas não é deles que se fala aqui hoje. É de dois fadistas menos conhecidos mas que merecem ser seguidos com a máxima atenção nos próximos anos: Ricardo Ribeiro e António Zambujo (na foto). Com apenas um álbum, homónimo, em nome próprio - mas com uma parceria fundamental no surpreendente e histórico álbum "Em Português", do mestre do oud libanês Rabih Abou-Khalil, em que o fado se cruza com a música árabe e faz também algumas tangentes ao flamenco -, Ricardo Ribeiro é dono de uma voz (ia escrever "vozeirão") única e completamente arrepiante. Já António Zambujo é o homem que tem na sua voz não apenas as vozes do fado mas também outras vozes (Cateano Veloso, Brel, Antony Hagerty...), e isso faz do seu fado um outro fado, fresco e originalíssimo. É necessário descobri-los e ouvi-los.





Estamos todos com os azuis
por António Pires, Publicado em 24 de Setembro de 2009

Um dos maiores segredos da música feita em Portugal é um grupo que se prepara agora para editar o seu primeiro álbum de estúdio, depois de um outro gravado ao vivo na Capela da Misericórdia de Sines. Chama-se Nobody's Bizness e faz dos melhores blues que se podem ouvir em qualquer parte do mundo. Quem já teve o privilégio de os ver nas suas (agora raras) residências mensais no Catacumbas, Bairro Alto, ou em mais alguns sítios, sabe com o que vai contar. Ou talvez não, porque os Nobody's Bizness também apresentam no disco temas originais, e excelentes!, em que os blues se cruzam com a folk norte-americana, o jazz ou a música country de uma forma original, emotiva e, de certa forma, portuguesa: os blues não estão distantes, na essência e talvez na sua origem ancestral, do fado (como também não o estarão da morna, da milonga ou do chorinho). E os Nobody's Bizness não estão sós nesta releitura à portuguesa dos blues, da country, da folk e de outras formas musicais cristalizadas nos Estados Unidos no século XIX ou inícios do século XX: The Soaked Lamb é outro grupo que parte da nascente dos blues e depois os leva para o céu; Old Jerusalem é um cantautor de enorme talento que vai à folk ianque para a personalizar e transformar; os Unplayable Sofa Guitar pegam na country e fazem dela gato-sapato, electrificando-a e distorcendo-a em rock; e os A Jigsaw (na foto) fazem canções maravilhosas a partir das mesmas bases musicais. Estamos muito bem servidos.




Amália Hoje, Rão Kyao Amanhã?
por António Pires, Publicado em 01 de Outubro de 2009

O incrível sucesso do projecto Hoje - embora muito mais relevante do ponto de vista comercial que artístico, tal como aponta uma das melhores "críticas de música" jamais feitas em Portugal, num sketch d'Os Contemporâneos - é, pelo menos, revelador de que o fado, quando mudado com profissionalismo, tem tantas potencialidades de renovação como o tango (via Gotan Project), o jazz manouche (via Caravan Palace), o flamenco (via Ojos de Brujo) ou a música balcânica (via Shantel), etc. No entanto, o colectivo que já vendeu mais de 40 mil exemplares do seu disco "Amália Hoje" - e que inicia hoje, dia 1, uma mini-digressão de apresentação do disco que o leva à Figueira da Foz, aos Coliseus de Lisboa e Porto e a Vila do Conde - não descobriu a pólvora. No já longínquo ano de 1983, Rão Kyao (na foto), directamente saído do circuito do jazz, teve igualmente um enorme sucesso com o álbum "Fado Bailado", em que o saxofone substituía a voz na interpretação de muitos fados e, muitos deles, bem conhecidos na voz de... Amália Rodrigues. O mesmo Rão Kyao que depois gravaria álbuns próximos do fado como "Viva o Fado", "Fado Virado a Nascente" ou o novíssimo "Em'Cantado", editado esta semana, em que o músico conta com as vozes de fadistas como Camané, Carminho, Ricardo Ribeiro ou Ana Sofia Varela. Vai ser curioso observar como "Em'Cantado" poderá ou não sofrer - para o bem e para o mal - os efeitos do furacão Hoje.

16 junho, 2009

Tinariwen e Sun Ra Arkestra no Arrábida World Music Festival


Os malianos Tinariwen (na foto, de Eric Mullet) - que vão apresentar o seu novo álbum, «Imidiwan: Companions» -, a Sun Ra Arkestra (que agrupa músicos que acompanharam o mítico, e místico!, teclista Sun Ra), o cabo-verdiano Tcheka, o iraniano-português Mazgani, Paulo Furtado na pele de The Legendary Tiger Man, os Heavy Trash (a fabulosa explosão de blues eléctricos de Jon Spencer e Matt Verta-Ray) e DJ Café del Mar são os nomes que integram o cartaz do nóvel Arrábida World Music Festival, que decorre no Forte de S.Filipe, Setúbal, nos dias 3 e 4 de Julho. Seguem-se as informações mais relevantes sobre o festival:

«Dia 3 de Julho

PALCO WORLD
Tinariwen
Tcheka

PALCO BLUES
Legendary Tiger Man

LOUNGE - CAFÉ DEL MAR(IBIZA)
DJ Café del Mar

Dia 4 de Julho

PALCO WORLD
Sun Ra Arkestra
Mazgani

PALCO BLUES
Heavy Trash


O AWM - Arrábida World Music Festival 2009 assume-se como um desafio da Câmara Municipal de Setúbal no sentido de projectar a região e as suas potencialidades geográficas, culturais e sociais, bem como, criar e associar à mesma um evento de culto que se pretende diferenciado e capaz de se afirmar como um dos principais acontecimentos temáticos a nível nacional.

Criar um projecto único para uma região em permanente evolução, com qualidades reconhecidas, contribuirá decisivamente para a captação de novos públicos e para a afirmação da Península de Setúbal numa vertente cultural e de entretenimento indispensável à valorização da mesma.

O cenário sugerido é o da Serra da Arrábida que lhe dá o nome, propondo-se o mítico Forte de S. Filipe com o Rio Sado como pano de fundo como palco principal deste projecto.

Proporcionar emoção e uma experiência única com algum arrojo, através de uma abordagem "vegetal", orgânica e global, constitui a motivação para a criação de uma identidade própria.

O Arrábida World Music Festival é o evento da marca "Setúbal. É um Mundo".

O recinto idílico do Forte de S. Filipe envolvido numa mística única foi programado criteriosamente por uma equipa de produção que definiu o layout numa perspectiva de total convívio com os diversos momentos do Festival. Para isso foram criados 2 espaços específicos:
Zona 1 - Zona Lúdica

Área lúdica de acesso para o grande público conviver directamente com o espírito do festival. Aqui irá encontrar artesanato e restauração do mundo e um playground para os mais jovens. Poderá ainda fazer uma visita às catacumbas do castelo numa viagem em que tudo pode acontecer».

Mais informações, aqui.

06 abril, 2009

Debashish Bhattacharya e James Blood Ulmer Também em Sines


E mais dois nomes a juntar ao rol de artistas alinhados para a edição deste ano do FMM de Sines: o indiano Debashish Bhattacharya (na foto) e o norte-americano James Blood Ulmer. O comunicado da organização:


«Debashish Bhattacharya (Índia)

Desde que descobriu a “slide guitar”, com apenas três anos, Debashish Bhattacharya (n. 1963) tem devotado a sua vida a tornar-se um dos melhores intérpretes deste instrumento, com grande tradição na Índia, sendo hoje reconhecido como um dos seus “pandit” (mestre). Melhor artista da Ásia / Pacífico nos BBC Radio 3 World Music Awards 2007, Debashish transformou a “slide guitar”, criando versões adaptadas que usa como veículo para incursões de profundidade rara pela raga indiana. Ao lado do seu irmão Subhasis, na tabla, e das únicas mulheres indianas que tocam as percussões tradicionais “pakhawaj” e “mridangam”, Chitrangana Agle Reshwal e Charu Hariharan, Debashish apresenta-se em Sines com um espectáculo baseado nos seus últimos dois discos, “Calcutta Chronicles” (que lhe valeu uma nomeação para um Grammy em 2008) e “O Shakuntala”.


James Blood Ulmer (EUA)

O guitarrista e vocalista James Blood Ulmer (n. 1942) tem um percurso ligado a praticamente todos os géneros da música afro-americana. Guitarrista desde os 4 anos (o pai, pastor, ofereceu-lhe um instrumento com o objectivo de prepará-lo para a pregação), começou a carreira profissional trabalhando em grupos de R&B e funk. Desde muito cedo atraído pelo jazz, conhece e toca com Ornette Coleman, cuja subversão da componente harmónica em favor da improvisação livre, atonal, terá grande influência na sua produção dos anos 70 e 80. Hoje a sua música é mais estruturada e tem vindo a ganhar ascendência a rica história dos blues e a tradição que o rock tem no seu instrumento. O seu último disco, “Bad Blood in the City: The Piety Street Sessions” (2007), produzido por Vernon Reid, evoca a tragédia do Katrina e é o melhor exemplo do James Blood Ulmer actual, “bluesman” de corpo inteiro que teremos o privilégio de ouvir na última noite de música no Castelo».

04 dezembro, 2008

Festival One Man Band - Com Muitos Blues (E o Resto)


Quatro dias de concertos, neste e no próximo fim-de-semana, em dois locais diferentes (Guimarães e Torres Novas), com muitos nomes dos blues - mas não só - mas todos (ou quase) com uma característica comum: cantarem e tocarem vários instrumentos ao mesmo tempo. Sejam os que usam guitarras e bombos sejam os que utilizam a ajuda de novas tecnologias, os artistas foram todos escolhidos por Paulo Furtado (na foto), que também actua sob o seu alias The Legendary Tiger Man, destacando-se na programação os nomes dos bluesmen muito poucoo ortodoxos Son of Dave e Bob Log III e o da blueswoman Becky Lee. A programação completa:

Guimarães - Centro Cultural Vila Flor

5 Dezembro
The Legendary Tiger Man + Becky Lee

6 Dezembro
Bob Log III + Dj Session "Sean Riley"

12 Dezembro
Son Of Dave + DJ Session "A boy named Sue"

13 de Dezembro
Projecto Especial "Slimmy + Dj Ride" + DJ Session "Da Flux"

Torres Novas - Teatro Virginia

5 Dezembro
Bob Log III ´Dj Session "Sean Riley"

6 Dezembro
Becky Lee ´Dj Session "Da Flux"

12 Dezembro
Projecto Especial "Slimmy + Dj Ride" + DJ Session "Dj Ride"

13 de Dezembro
Son Of Dave + DJ Session "A boy named Sue"

08 abril, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLII.1 - Fairport Convention


Os Fairport Convention - uma das mais importantes bandas da folk inglesa, se não a mais importante - foram formados em 1967 e contam agora nas suas fileiras com Simon Nicol, Dave Pegg, Ric Sanders, Chris Leslie e Gerry Conway, mas pelo grupo passaram muitas outras luminárias da folk como Dan Ar Braz, David Swarbrick, Paul Warren, Richard Thompson, Sandy Denny e Trevor Lucas, entre muitos outros. Misturando com segurança e uma linguagem ferozmente pessoal a música tradicional (ou de inspiração tradicional) inglesa com rock - os Fairport Convention são geralmente apontados como o primeiro grupo inglês de «folk eléctrico» -, a banda rapidamente atingiu um estatuto inultrapassável. Igualmente organizadores, desde 1977, do importante festival folk Cropredy Festival, o melhor espelho da sua arte encontra-se na caixa... «The Cropredy Box» (1998).


Cromo XLII.2 - «Anthology of American Folk Music»



Contendo temas gravados nos anos 20 e no início dos anos 30 do Séc. XX, e originalmente editada em seis LPs em 1952, a «Anthology of American Folk Music» - reeditada em 1997 numa caixa de três CDs duplos, através da Smithsonian Folkways Recordings - é um tesouro em que se encontram mais de oito dezenas de canções folk, country e blues, memórias «vivas» da história da música norte-americana e de nomes incontornáveis que esta colectânea deu a conhecer a um vasto auditório: The Carter Family, Leadbelly, Dick Justice, Mississippi John Hurt, Alabama Sacred Harp Singers, Clarence Ashley, The Memphis Jug Band, Blind Lemon Jefferson ou Robert Johnson, entre muitíssimos outros. A colectânea foi organizada pelo lendário etnomusicólogo, arquivista, realizador de cinema e pintor Harry Smith, que assim «pôs a render» - e ainda bem! - a sua vasta colecção de velhos discos de 78 rpms.


Cromo XLII.3 - Umm Kulthum


Antes, muito antes de o termo «world music» ter sido cunhado - em meados dos anos 80, numa reunião de editores, distribuidores e lojas, em Londres -, já muitos outros artistas e grupos tinham saltado fronteiras e espalhado músicas «locais» em lugares estrangeiros. E um dos mais importantes nomes desse fenómeno foi o da cantora, compositora e actriz egípcia Umm Kulthum (de nome completo Umm Kulthum Ebrahim Elbeltagi, aka Um Kalthoum, Oum Kalsoum e uma boa mão-cheia de outras grafias do seu nome diferentes), nascida a 31 de Dezembro de 1904, em Tamay ez-Zahayra, falecida a 3 de Fevereiro de 1975. Tendo ficado conhecida pelas suas longuíssimas canções (em espectáculos que duravam entre três a seis horas interpretava apenas três ou quatro temas diferentes), Umm tem, ou teve, entre os seus admiradores Charles De Gaulle, Jean-Paul Sartre, Maria Callas, Salvador Dalí, Bob Dylan, Led Zeppelin, Jah Wobble ou Bono.


Cromo XLII.4 - R. Carlos Nakai


Usada - e abusada - na chamada música «new age», a música para flauta dos índios norte-americanos é muito mais do que aquilo que esses discos de «meditação», «auto-ajuda» ou «contemplação» querem fazer parecer. E o melhor exemplo disso mesmo é a obra, de qualidade ímpar, do flautista R. Carlos Nakai, índio semi-navajo semi-ute, nascido a 16 de Abril de 1946, em Flagstaff, no Arizona. Iniciando a sua carreira discográfica em 1983, com o álbum «Changes», Nakai é o mais conhecido e admirado flautista índio norte-americano, vencedor de vários Grammys e um músico que, apesar de ancorado na música tradicional, está aberto a colaborações com muitos outros músicos de várias áreas (do jazz à música erudita, nomedamente com Philip Glass) e de outras origens geográficas (Nawang Khechog, do Tibete; a Wind Travelin’ Band, do Japão; Keola Beamer, do Havai...).

17 março, 2008

Coimbra em Blues - Os Sacerdotes e Os Acólitos


Os blues são uma religião estranha. Uma religião em que se encontram, ou se encontraram, se cruzam, ou se cruzaram, feiticeiros africanos das margens do Niger, xâmanes de voodoo, pastores evangélicos do Mississippi, pregadores lunáticos do fim do mundo e dos vários graus do pecado... e de todo mal que se pode encontrar em casa ou no fundo de uma garrafa. Pactos faustianos, relatos de sessões de sexo contra a parede ou histórias de crimes sangrentos e de traições amorosas fazem parte dos evangelhos do género. Aliás, como de quase todos os outros evangelhos conhecidos.

E, na sexta edição do Coimbra em Blues, no Gil Vicente, houve sacerdotes - e até uma sacerdotiza - de variadíssimas tendências dos blues, uns blues que se podem encontrar em todo o lado: dos Estados Unidos a Portugal, de África a Inglaterra. E para a primeira celebração, a abrir o festival, veio da América o lendário guitarrista Gary Lucas que, juntamente com os Dead Combo - os primeiros acólitos valorosos dos muitos que se seguiriam -, deu um concerto inesperado e fabuloso: com as guitarras de Lucas em primeiro plano (principalmente quando ele se atirava a solos na sua guitarra-dobro National) e a guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro Gonçalves a acompanhar, os blues tomaram uma dimensão diferente e fizeram-se muitas outras músicas, soando por vezes a Carlos Paredes em ácidos, de outras a Morricone em transe índio, de outras ainda a Jeff Buckley sem a voz (e aqui já era mais fácil ter essa sensação: Gary Lucas e os Dead Combo interpretaram dois temas co-compostos por Lucas com Jeff Buckley: «Mojo Pin» e «Grace»). Na segunda noite, a dupla inglesa de cantores e guitarristas Steve Morrison e Billy Jenkins deu outro espectáculo fantástico, com Jenkins a servir de sacerdote - ele é o padre que benze o público no início do espectáculo, ele é o guitar-hero frenético, ele é o cantor da voz profunda e grave e por vezes assustadora - e Morrison de acólito perfeito - ele é o contraponto de suavidade, de calma e lirismo. E os dois, separados ou em uníssono, resultam incrivelmente bem. Uma ligação que, infelizmente, não aconteceu no concerto seguinte, o dos Afrissippi, projecto que junta o cantor e guitarrista (semi-senegalês, semi-mauritano) Guelel Kumba com vários músicos norte-americanos, todos eles em busca das raízes dos blues algures na zona mandinga. Raízes que estão lá - e basta ouvir Ali Farka Touré, os Tinariwen ou Afel Bocoum... - mas que aqui, nos Afrissippi, soam mais a tese do que a música verdadeira. Kumba canta em fulani, a sua música é feita de muitas músicas antigas africanas, as pontes com os blues estão lá, bem nítidas, mas os acólitos puxam sempre aquilo para os blues-mesmo-blues e há ali quase sempre uma certa sensação de artifício e de união mal resolvida. Mas se, nos Afrissippi, o artifício incomoda, o mesmo artifício é incrivelmente bem-vindo no concerto que abre a noite seguinte: o de Ruby Ann (ela que, em Coimbra, liderava os Boppin'Boozers), cantora e compositora portuguesa agora radicada em Paris. Sacerdotiza, patroa, pin-up e excelente entertainer, Ruby Ann e os seus fantásticos músicos serviram um festim de blues, rock'n'roll, rockabilly, country, vaudeville, tudo junto ou separado, e até uma versão de um tema de Patsy Cline. A festa estava lançada. Uma festa que continuaria, em grande, com o cantor e muitíssimo bom guitarrista - ele, que constrói as suas guitarras, seja um «guinjo», mistura de banjo com guitarra eléctrica, ou uma guitarra de lata feita a partir de uma caixa de tabaco - Super Chikan (na foto). Viajando por várias frentes dos blues - das mais clássicas aos seus cruzamentos com o rock (ele raiou os limites do... heavy-metal!) ou do funk (ele raiou os limites do... disco-sound!), e muitas vezes em distorções hendrixianas, Chikan deu um espectáculo memorável, festivo, incrivelmente bem-disposto e onde foi muito bem acolitado por uma teclista incendiária e um inesperado convidado na harmónica: um rapaz francês branquinho que toca aquilo como se tivesse nascido no sul dos Estados Unidos e fosse mais negro que o carvão. Inesquecível!

30 janeiro, 2008

Coimbra em Blues - De África ao Mississippi, Passando por Portugal


Que as músicas tradicionais estão na base das músicas, digamos, modernas, é um dado adquirido. E o exemplo mais óbvio - já referido por diversas vezes neste blog, não sendo por isso necessário entrar em grandes detalhes sobre o assunto - é o dos blues, música de raiz africana, nos Estados Unidos transformada, a pouco e pouco, num fenómeno global avassalador: o rock e todas as suas outras ramificações, por lá e por todo o mundo à volta. A sexta edição do festival Coimbra em Blues - que decorre mais uma vez no Teatro Gil Vicente, dias 13, 14 e 15 de Março - dá bem conta dessas ligações primevas: o que une a zona mandinga de África ao delta do Mississippi - e de como os blues estão em todo o lado, dos Estados Unidos a Inglaterra e a... Portugal.

Mais uma vez com direcção artística de Paulo Furtado (WrayGunn, The Legendary Tigerman), o Coimbra em Blues começa com concertos, dia 13, do norte-americano Gary Lucas em parceria com os portugueses Dead Combo (na foto), num «duelo» encomendado pelo próprio festival. No dia seguinte, a 14, há lugar para os blues vindos das ilhas britânicas com o duo de Billy Jenkins & Steve Morrison e para o encontro de músicos da África Ocidental e dos Estados Unidos no projecto Afrissippi. Para terminar, dia 15, o festival apresenta os blues e o rock'n'roll da coimbrã mas cidadã do mundo Ruby Ann e a guitarra incendiária de James «Super Chikan» Johnson. Um grande programa para um festival que, segundo o press-release de apresentação, «ensaia uma nova combinação entre a dimensão experimental e a dimensão celebratória, que tem caracterizado a sua forma particular. Trata-se de conhecer o repertório, sim, nas suas reinterpretações, mas também, e talvez sobretudo, de conhecer o legado dessa forma de canção popular no seu potencial de recriação e contaminação inter-genérica e trans-geográfica. A matriz originária continua a ser reconhecível através da presença infecciosa dos blues nos cruzamentos entre géneros musicais, mas é esse cruzamento que lhe garante renovada vitalidade; cruzamentos incentivados pelo próprio festival de Coimbra, como acontece este ano com a colaboração entre Gary Lucas e Dead Combo». A anteceder o festival, dia 12, é apresentado o filme «The Future is Unwritten», de Julien Temple, documentário dedicado a Joe Strummer, dos Clash.

06 dezembro, 2007

Hazmat Modine, Bob Brozman e Colombiafrica - (Im)puras Misturas


Os leitores regulares do Raízes e Antenas já se devem ter apercebido que na secção de críticas de discos procuro sempre que haja um fio condutor, um universo comum qualquer, que os una e que, por isso, faça sentido falar de dois, três ou quatro discos diferentes num mesmo texto. Desta vez, essa regra foi mais ou menos quebrada: porque não há nada de aparentemente parecido (que raio de frase!) entre estes discos destes três nomes - Hazmat Modine (na foto), Bob Brozman e Colombiafrica-The Mystic Orchestra - a não ser, a não ser... que qualquer deles é dificílimo de colocar numa gaveta qualquer juntamente com uns quaisquer outros discos. O que, paradoxalmente, acaba por fazer algum sentido tê-los a todos aqui reunidos...


HAZMAT MODINE
«BAHAMUT»
Jaro Medien GmBH/Harmonia Mundi

O álbum começa com uma harmónica visceralmente blues a dar o mote para um reggae fumegante que acaba por fazer lembrar, tudo, em conjunto, o «Summertime», mas como se o «Summertime» tivesse nascido numa intersecção onírica qualquer entre Nova Orleães e Kingston. E o envolvimento é mágico: ao lado da harmónica há tubas, guitarras, uma claviola, bateria... e outra harmónica. E «Bahamut» continua com um tema de bluegrass, primitivo, lindíssimo, em que às músicas mais antigas da América do Norte se junta o canto gutural dos Huun-Huur-Tu, de Tuva (e sim, o resultado é a banda-sonora de um western por rodar em que cowboys ianques fazem música em conjunto com os índios norte-americanos, primos dos povos siberianos). E depois há um filme só aparentemente mudo em que se comunica através de sinais sonoros, cifras, palavras mágicas, ao ritmo de um swing irresistível. E isto tudo, em conjunto, é só uma pequena amostra do que são os Hazmat Modine, grupo nova-iorquino que soa a... nada que tenha soado até agora. Está lá quase toda a história da música dos Estados Unidos, principalmente a música negra, mas estão lá também lanças cravadas em muitos outros lugares do mundo: de Tuva à Jamaica, de África aos Balcãs (cf. no cimbalom mágico de «Ugly Rug») e à China (eles atrevem-se a tocar um sheng, o instrumento chinês que deu origem aos órgãos...). E o que mais espanta nisto tudo é que este «Bahamut» é o primeiro álbum do grupo! Um álbum para ouvir vezes sem conta e que deixa a vontade, em salivação contínua, de que os Hazmat Modine venham cá tocar um dia. (9/10)


BOB BROZMAN ORCHESTRA
«LUMIÈRE»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Outra surpresa magnífica: o igualmente nova-iorquino Bob Brozman - ele que é um reconhecido génio da slide-guitar e já colaborou com músicos da Ilha da Reunião, do Japão, da Guiné, da Índia (o maravilhoso Debashish Bhattacharya), do Havai... em busca de uma música comum a muitos povos diferentes - atreve-se em «Lumière» a tocar todos os instrumentos de cordas deste álbum, mais de duas dezenas (e se se olhar com atenção para a capa do álbum ver-se-ão inúmeros clones de Brozman, isto é, a sua-muito-sua «orchestra»). Instrumentos de cordas que vão desde a sua slide National a cavaquinho, kantele, gandharvi, alaúde, charango, baglama... numa profusão de timbres e de misturas irresistível. E a música acompanha esta busca quase de coleccionador fanático de instrumentos de todo o mundo (porque, para além das cordas, ainda há inúmeras percussões, tocadas por Brozman ou por Daniel Thomas). Uma música que é uma viagem imaginária por variadíssimos locais do planeta, uma viagem em que ora estamos no México ora na Índia, ora nas Caraíbas ora na Argentina, ora num acampamento cigano em que Django Reinhardt acabou de ressuscitar ora no meio de um luau com dançarinas semi-nuas a distribuir colares feitos de flores ora nas margens do Mississippi a beber aguardente de cana com Robert Johnson. Como se o antigo conceito de música «exotica» voltasse a fazer sentido algumas dezenas de anos depois, mas com um acrescento de verdade, de alegria, de humor e de paixão que a música «exotica» não tinha na sua origem. Há momentos deste álbum que são tão encantatórios que nos fazem desejar que houvesse mil Bob Brozmans diferentes. E, pelos vistos, até há! (9/10)


COLOMBIAFRICA - THE MYSTIC ORCHESTRA
«VOODOO LOVE INNA CHAMPETA-LAND»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Há poucas semanas falou-se neste blog de «Made In Dakar», o novo álbum da Orchestra Baobab, e de como a música cubana - num movimento de retorno às origens - iluminava a música «naturalmente» africana desta banda sediada no Senegal. E ouvir-se agora «Voodoo Love Inna Champeta-Land», da Colombiafrica-The Mystic Orchestra, é um «upgrade» natural dessa ideia. O álbum dos Colombiafrica é um disco extraordinário em que músicas dos dois lados do Atlântico - a champeta colombiana, a cumbia, o calipso ou a salsa cubana mas também a soul e o funk norte-americanos convivem com músicas africanas (estas também já contaminadas por ritmos «modernos» americanos) como o afro-beat, os soukous, o highlife do Gana, a mbaqanga sul-africana... numa mistura excitantíssima, variadíassima e interminável de ritmos e vozes e instrumentos. Se se quiser exagerar um bocadinho, dir-se-ia que isto são contaminações de contaminações de contaminações intermináveis, mas que isso é muito bom: ouve-se este álbum e é impossível deixar de dançar ou estalar os dedos ou querer estar num sítio qualquer que não aqui (um sítio que, na realidade, não existe!). O projecto Colombiafrica foi criado pelo colombiano Lucas Silva, que reuniu vedetas locais da champeta como Viviano Torres, Luis Towers e Justo Valdez com nomes incontornáveis da música africana como os históricos guitarristas Diblo Dibala, Caien Madoka, Dally Kimoko, Rigo Star e Sékou Diabaté (este dos Bembeya Jazz) ou o cantor Nyboma (dos Kékélé, outro grupo que faz sempre a ponte entre África e a América Latina). E, o mais importante de tudo, este é um álbum que é uma festa - uma linda festa feita de irmãos distantes mas afinal tão próximos - do princípio ao fim. (9/10)

08 novembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXX.1 - Yungchen Lhamo


A maior embaixadora da música tibetana - e também uma importante porta-bandeira da liberdade para o seu país anexado pela China -, a cantora Yungchen Lhamo («yungchen», que é mesmo o seu nome de origem, significa curiosamente «deusa do canto», o que nos faz acreditar que o seu destino esteve desde sempre traçado) nasceu em Lhasa, capital do Tibete, em 1966, tendo começado em criança a cantar temas religiosos budistas, prática proibida pelas autoridades chinesas. Em 1989, Yungchen atravessa os Himalaias e inicia o seu exílio com uma visita ao Dalai Lama, em Dharamsala, na Índia. Daí parte para a Austrália, onde edita o seu primeiro álbum, «Tibetan Prayer» (1995), antes de se fixar em Nova Iorque e começar a gravar para a editora inglesa Real World. Os seus discos e concertos (em que costuma apresentar-se sem qualquer acompanhamento) são um grito de esperança e uma manifestação artística arrepiante.


Cromo XXX.2 - Hector Zazou


Músico, produtor e compositor dos mais versáteis que a música conheceu nas últimas décadas, o francês Hector Zazou - nascido a 11 de Julho de 1948, falecido a 8 de Setembro de 2008 - passou pelo rock e as suas margens (com os Barricades e o projecto ZNR) mas foi na sua demanda por uma música universal que se tornou uma referência fundamental da world music. Três álbuns de reinvenção das músicas africanas ao lado de Bony Bikaye, o disco que recuperou para a actualidade os cantos da Córsega («Les Nouvelles Polyphonies Corses»; de 1991), o lindíssimo «Sahara Blue» (baseado na poesia de Rimbaud; de 1992), o absolutamente inventivo «Chansons des Mers Froids» (onde visita e adapta canções tradicionais dos países nórdicos, do Japão ou da Gronelândia; de 1995) ou «Lights In The Dark» (cantos sagrados celtas; 1998) chegam para o colocar no panteão. Para já não falar de quem ele se faz rodear nos seus álbuns: John Cale, Sakamoto, Manu Dibango, Varttina, Bjork, Sylvian, Khaled...

Cromo XXX.3 - «The Blues» de Martin Scorsese

O realizador e produtor Martin Scorsese assina, com a sua produção da série de filmes «The Blues», o maior trabalho cinematográfico de sempre acerca de um género musical. Um trabalho feito de amor pela música, pelo rigor com que se conta a história de um género - o primeiro episódio da série, realizado pelo próprio Scorsese, «Feel Like Going Home», demonstra claramente as origens dos blues em África -, pela riqueza de intervenções e abordagens diferentes feitas pelos realizadores convidados para com ele colaborarem nos vários episódios: Wim Wenders, Richard Pearce, Charles Burnett, Marc Levin, Mike Figgis e Clint Eastwood. Todos eles a contarem uma parte da história, de África para os campos de algodão do sul dos Estados Unidos, do delta do Mississippi para Memphis e Chicago, a sua evolução para o rock e como se espalhou pelo mundo. Uma obra de arte maior e um hino à música.


Cromo XXX.4 - The Skatalites



Há quem diga - eles, pelo menos, dizem-no - que sem os Skatalites não existiria ska, reggae, rocksteady, dancehall e toda a música jamaicana conhecida. É capaz de ser exagero - outros nomes estão também na génese da música moderna jamaicana (e nas suas ramificações pelo mundo) - mas é verdade que os Skatalites foram uns dos principias pioneiros de um som novo nascido na Jamaica que, nos anos 50 e 60 do séc. XX, juntava o mento e o calipso caribenhos a géneros vindos dos Estados Unidos: o jazz, o rhythm'n'blues e o emergente rock'n'roll. Com um período inicial de enorme fulgor no início dos anos 60, criando música própria ou acompanhando outros artistas - nomeadamente Prince Buster -, os Skatalites têm uma carreira fugaz feita à volta do mítico Studio One mas reaparecem para reclamar a sua herança em 1986, depois do ska e da música jamaicana em geral terem conquistado o planeta. Ainda andam por aí.

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.

21 fevereiro, 2007

Coimbra em Blues - Com os Azuis e Outras Cores



Três bandas de proveniência diversa - Alabama 3, Hell's Kitchen e Black Diamond Heavies - e três dos mais importantes «one-man-bands» da actualidade - Son of Dave, Bob Log III (na foto) e Scott H. Biram - vêm este ano mostrar em Coimbra que os blues são um território alargado e muitas vezes já bastante longínquo da música mandinga da África Ocidental, dos blues acústicos do delta do Mississippi ou até dos blues eléctricos de Chicago. O programa da edição deste ano do festival, que decorre dias 15, 16 e 17 de Março no Teatro Académico de Gil Vicente, é ainda completado com uma exposição e a exibição de filmes dedicados ao género.

No primeiro dia, 15, podemos assistir ao «one-man show» do canadiano Son of Dave (pseudónimo de Benjamin Darvill, ex-Crash Test Dummies) e ao concerto do trio suiço Hell's Kitchen - Bernard Monney (guitarra e voz), Cédric Taillefert (percussão) e Nicolas Roggli (contrabaixo). No dia 16 há lugar para o blues-punk do «misterioso» norte-americano Bob Log III (que canta sempre de capacete, tem uma obsessão doentia por seios e, conta a lenda, com o grau de confirmação de todas as lendas - isto é... nenhuma -, ficou sem a mão direita na infância, substituida por uma garra de macaco; ah!, e que poderá ser um dos... Strokes) e da banda do sul dos Estados Unidos Black Diamond Heavies, que apresenta muitos originais mas, por vezes, também versões de temas dos seus heróis: John Lee Hooker, T-Model Ford, Muddy Waters, Lou Reed e Tom Waits. No dia 17, o festival encerra com os sempre surpreendentes Alabama 3, aqui num concerto acústico (para quem não se lembra, recorde-se que os londrinos Alabama 3 são aquela banda do genérico d'«Os Sopranos», alegres viajantes entre a electrónica, o rock, os blues, o hip-hop, a country, inventores - e sacerdotes - da Igreja de Elvis Presley e perigosíssimos cadastrados, pelo menos no seu site) e Scott H. Biram e a sua mistura de blues, hillbilly, punk e heavy-metal. Como aperitivo para os concertos há sessões de cinema com os filmes «Honky Tonk», de Tav Falco, e «You See Me Laughin': The Last of The Hill Country Bluesmen», de Mandy Stein (dia 12), o histórico «Black & Tan», de Duddley Murphy, e «Feel Like Going Home», de Martin Scorsese, o filme da série «The Blues» que traça a viagem deste género entre África e os Estados Unidos (dia 14). Uma exposição de fotografias tiradas durante a 4ª edição do festival, da autoria de Nuno Patinho e Pedro Medeiros, pode ser visitada entre os dias 12 e 19. Mais informações aqui e aqui.

10 junho, 2006

Nobody's Bizness - É Só Um Aviso...


A voz de Petra é maravilhosa nos blues e jazzes que canta; as guitarras - principalmente a slide-guitar - parecem mesmo nascidas nas margens do Mississippi; a voz e a harmónica de CatMan dão o lado mais sério, grave e rezingão; e também há um baixo e, agora, uma bateria e por vezes um piano (nas mãos mágicas de CatMan). E tudo isto é blues - puros, verdadeiros, cheios de alma e vísceras e coração - feito por portugueses e agora disponível em CD («Ao Vivo na Capela da Misericórdia - Sines 2005», ed. You Are Not Stealing Records), e adivinha-se outro para breve; no MySpace (http://www.myspace.com/nobodysbiznessband); e ao vivo em variadíssimos locais, principalmente no Catacumbas, Bairro Alto (onde vão voltar na quarta-feira, depois de nesta semana terem lá dado um concerto inesquecível). É só um aviso (ou vários)...