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23 setembro, 2008

«I Like It Like That» e «Sound Affects - Africa» - O Mundo Numa Mesa de Mistura


O fenómeno, global, da world music não apaixona apenas aqueles músicos, DJs e produtores que se inscrevem neste "género", que é, obviamente, não um género mas um conjunto alargadíssimo de géneros, estilos, escolas e fusões. Não é por isso de estranhar que muita gente de outras áreas como o rock, o jazz, as electrónicas visitem a world, de forma permanente e apaixonada umas vezes, como curiosidade exótica outras. Mas, seja num como noutros casos, há muitas vezes belíssimos exemplos de como se trabalham (ou re-trabalham) temas da chamada world e áreas similares com vista a um resultado final diferente, muitas vezes ainda mais dançável que o original e com um pé na world e outro nas novas linguagens musicais.

Um belíssimo exemplo disto tudo - já referido há alguns meses neste blog - é o trabalho continuado de uma verdadeira enciclopédia da world music: DJ Click, que na colectânea dupla «Flavour» convoca nomes conhecidos ou emergentes da melhor world music para dançar e, em estado puro ou em remisturas feitas por si próprio, os serve numa bandeja de prata a toda a gente que tenha curiosidade em saber que coisa é essa da world music e se essa "coisa" é ou não é o melhor que se pode dançar numa discoteca ou num festival na praia. Longe da explosão de géneros presente em «Flavour» mas igualmente bastante excitantes pelas propostas que apresentam são os outros dois discos de que se fala a seguir: «I Like It Like That» (Fania/Mr Bongo/Multidisc, *****) e «Sound Affects - Africa» (Bottletop/Mr Bongo/Multidisc, ****). O primeiro, «I Like It Like That», reúne temas originais editados pela mítica Fania Records e remisturas feitas por muita gente conhecida da actualidade (Bugz In The Attic, Louie Vega, Nicola Conté, Gilles Peterson, 4 Hero, Quantic, Bonde do Rolê...), tornando temas na sua origem já altamente dançáveis em momentos de festa pura. A Fania - editora baseada em Nova Iorque que, nos anos 60 e 70, se especializou em música latino-americana (essencialmente salsa mas também o boogaloo, o mambo, o jazz latino...) e para a qual gravaram nomes sonantes como Johnny Pacheco, Celia Cruz, Ray Barretto e Rubén Blades, entre muitos outros. E nesta colectânea, a essência latina dos temas originais está quase sempre bastante presente, apesar de algumas remisturas mais aventureiras, mas saborosíssimas, como o dub aplicado a um tema de Noro Morales por Gilles Peterson & Simbad, ou a nova vocalização em português do Brasil e batida favela funk feitas pelos Bonde do Rolê (na foto, de Manuel Nogueira) sobre um tema de Lenni Sesar.

Igualmente com os temas originais como bónus, «Sound Affects - Africa» mostra remisturas feitas por gente como Bonobo, Freeland, Way Out West, Quantic, Paul Oakenfold ou Fink para originais interessantíssimos de alguns nomes saídos do afro-beat e da juju music da Nigéria e do Gana dos anos 60 e 70, entre eles Honny and The Bees Band, Orchestra Lissanga, Yahoos, Orlando Julius ou Dele Sosimi (ele que foi dos Egypt 80, de Fela Kuti). O resultado é, quase sempre, o sublinhar elegante e respeitosos de uma música já infecciosamente dançável por si, aqui transposta para o presente e com algumas surpresas divertidas como a alusão ao... «Smells Like Teen Spirit», dos Nirvana, na remistura de «Turbulent Times» de Dele Sosimi feita por Paul Oakenfold.

(Texto originalmente publicado, com ligeiras alterações, na «Time Out Lisboa» em Julho passado)

14 novembro, 2007

Bonde do Rolê, M.I.A. e Mexican Institute of Sound - Das Margens Para o Centro


Vêm de lugares exóticos como o Sri Lanka, o Brasil e o México e fazem das músicas mais excitantes da actualidade, contaminando géneros locais com sonoridades globais (e vice-versa), num caldeirão em que o hip-hop, o punk, as electrónicas, o baile funk ou a cumbia têm lugar reservado. M.I.A. (na foto), Bonde do Rolê e Mexican Institute of Sound: para ouvir sem preconceitos («listen without prejudice», como diria o outro)...


M.I.A.
«KALA»
XL Recordings

Depois do fabuloso álbum «Arular» (dedicado ao pai, cujo nome é Arul, aka Arular), a MC, cantora, produtora e compositora M.I.A. volta ao ataque, literalmente, com «Kala» (desta vez, o nome da sua mãe), um álbum em que ela regressa aos «statements» políticos do anterior e a uma missão que ela leva muito a sério: fazer uma música universal, aberta, cheia de referências e prenhe de sentido. Uma música em que o hip-hop, o reggaeton, o grime, o baile funk, o electro, o punk dos Clash, ritmos africanos, didgeridoos e beats violentíssimos, melodias sacadas a filmes indianos e do Sri Lanka se harmonizam num todo único, variadíssimo, sempre dançável e exemplo máximo de como se pode fazer uma música que pode conter em si tantas mas tantas músicas. M.I.A. (que significa «missed in action») chama-se na realidade Mathangi Arulpragasam, nasceu em Londres mas os seus pais são do Sri Lanka (o pai de M.I.A. foi um destacado guerrilheiro Tamil e fundador da Eelam Revolutionary Organisation of Students), país ao qual voltaram depois do nascimento de M.I.A. - a causa Tamil está, aliás, sempre presente nas suas letras, tendo M.I.A. abraçado a causa dos seus pais de corpo e alma. Regressada a Londres, M.I.A. iniciou a sua carreira como pintora, designer, fotógrafa e, principalmente, uma cantora e compositora de enorme sucesso que tem agora em «Kala» (em que participam Timbaland, Diplo, Switch, Afrikan Boy, Blaqstarr...) um pico de criatividade fabuloso. (9/10)


BONDE DO ROLÊ
«WITH LASERS»
Domino Records

Os Bonde do Rolê são um divertidíssimo trio brasileiro de Curitiba que junta os ritmos saídos directamente do baile funk carioca com samples de guitarras eléctricas vindas do metal e letras que fariam corar o Quim Barreiros («Esfrega daqui e roça de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar/pega daqui e lambe de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar»; «James Bond dá o cu; James Bond chupa rôla...»; «Meu ursinho de pelúcia, eu roçava na infância...», entre muitos outros exemplos e com uma boa dose de gemidos sugestivos a ajudar...). A fórmula é simples e absolutamente irresistível! Pegue-se no álbum «With Lasers», ponha-se a rodar e é um nunca mais acabar de dança, risos, boa-disposição: «Dança do Zumbi», «Solta o Frango», «Divine Gosa», «Marina Gasolina», «Bondallica» (este, obviamente, inspirado nos Metallica) levam o baile funk para territórios mais orgânicos, mais rock, mais «universais». E são um achado de criatividade. Os Bonde do Rolê - os DJs e MCs Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot e a vocalista Marina Vello - foram «descobertos» por Diplo (ele também presente no álbum de M.I.A.) e cruzam agora os palcos de todo o mundo. Com justiça. (8/10)


MEXICAN INSTITUTE OF SOUND
«PIÑATA»
Mico/Cooking Vinyl

Produto de uma surpreendente escola mexicana de excelentes DJs que misturam electrónicas com músicas latino-americanas - ouçam-se também os óptimos Nortec Collective, por exemplo -, o Mexican Institute of Sound é a criação de um geniozinho, Camilo Lara, que neste seu segundo álbum, «Piñata» (o primeiro tinha sido «Méjico Máxico»), continua no seu laboratório a misturar de forma inteligente e bastante original géneros completamente diferentes entre si: cumbia, música ranchera (com um vira lá pelo meio, em «Para No Vivir Desesperado»), cha-cha-cha, hip-hop, dub e, por vezes, também baile funk (especialmente presente em «La Kebradita», a fazer o «raccord» com os discos anteriores - e através, se bem que de forma enviesada, da vocalista brasileira Pat C, que canta em dois temas do álbum). E apesar de, por vezes, o trabalho de estúdio estar demasiado presente - no mau sentido - na sua música, de outras estamo-nos completamente nas tintas para que esta música seja «artificial» (feita de samples, de colagens electrónicas...), tal é o apelo dançável que contém. Uma música experimental, arrojada, moderna, muitas vezes a desenhar bandas-sonoras perfeitas para «fiestas» globais e em que os preconceitos não têm lugar. No tema «A Todos Ellos» (no livreto chamado «Por Los Caídos») há uma sentida homenagem aos seus heróis: Johnny Cash, William Burroughs, Nusrat Fateh Ali Khan, Jaco Pastorius, Ian Dury, Ritchie Valens, Nick Drake, James Brown, Jack Kerouak, Joey Ramone, Kurt Cobain, Compay Segundo, Camaron de la Isla, Klaus Nomi, Ali Farka Touré, entre muitos outros... Arrepiante! (8/10)

Nota: os Bonde do Rolê tocam hoje à noite no Santiago Alquimista, em Lisboa, com primeira parte dos nova-iorquinos Holy Hail.