
Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)
Cromo XIX.1 - Penguin Cafe Orchestra
Projecto pessoal saído da mente genial, compulsiva e perfeccionista do músico e compositor inglês Simon Jeffes (nascido em 1949, falecido em 1997), a Penguin Cafe Orchestra foi a súmula perfeita de pop, música erudita, minimalismo e músicas vindas de variadíssimos lugares do mundo, desde a inspiração da música dita celta ao exotismo da música havaiana ou indiana. Fundada em 1973 por Jeffes (instrumentos de cordas) e pela violoncelista Helen Liebmann, a Penguin Cafe Orchestra passou 24 anos - até à morte do líder e ao fim, natural, do grupo - a encantar o mundo com uma música que tanto podia incluir cavaquinhos e acordeões como caixinhas-de-música, um harmonium (que deu nome a uma das composições mais famosas do grupo) ou o som de uma marcação telefónica a servir de base rítmica. Audição aconselhada (pelo resumo que faz da obra do grupo): o álbum «Preludes, Airs & Yodels» (1996).
Cromo XIX.2 - Alpha Blondy
Quando em 1980, um ano antes de morrer, Bob Marley tocou na festa da independência do Zimbabué, em Harare, cumprindo o sonho antigo de tocar em África, estaria longe de imaginar que o reggae iria invadir o continente nas décadas seguintes, não só como música importada mas também de criação local. Nomes como Tiken Jah Fakoly, Kussondulola, Askia Modibo, The Mandators, Lucky Dube ou Ismael Isaac são disso prova insofismável. Mas, à frente de todos eles e como precursor do cruzamento do reggae com músicas africanas está o cantor Alpha Blondy, da Costa do Marfim. Alpha Blondy (de seu verdadeiro nome Seydou Koné, nascido a 1 de Janeiro de 1953, em Dimbokoro) estudou nos Estados Unidos e começou a sua frutuosa carreira quando regressou ao seu país natal, onde, desde o primeiro álbum, «Jah Glory» (1983), é uma vedeta nacional. Uma fama que, desde há muito, alastrou mais que justamente a outras paragens, em África e não só.
Cromo XIX.3 - Sanfona
Desaparecida durante alguns séculos, a sanfona é um caso raro de instrumento musical recuperado e acarinhado depois do seu «tempo natural» ter, aparentemente, passado há muito. Inventado durante a Idade Média (provavelmente no século IX, na Galiza, sob o nome de organistrum) e popular até ao século XVIII, a sanfona está agora a viver a sua segunda vida mercê da adesão à sua sonoridade - desde há cerca de trinta anos - de músicos como o francês Valentin Clastrier, os suecos Hedningarna, variadíssimos músicos da folk britânica, dos países do Leste da Europa, da Galiza e de Portugal - onde tem como cultores apaixonados Fernando Meireles (Realejo) ou Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa). O seu som característico - em que cordas são friccionadas não por um arco mas por meio de uma roda, sendo o timbre modificado através de um teclado básico - e em que à melodia se associam outras cordas a vibrar em bordão contínuo (drone), dá-lhe muita da sua magia.
Cromo XIX.4 - Banda do Casaco
Se houve grupo que ousou ir às raízes mais profundas da música portuguesa e, arrancando-as à terra, as usou como parte maior de um «bouquet» onde também podiam entrar os cardos do rock, as flores do jazz ou folhagens vindas da música erudita, esse grupo foi a Banda do Casaco. Invenção de Nuno Rodrigues (ex-Música Novarum) e António Pinho (ex-Filarmónica Fraude), pela Banda do Casaco passaram - entre 1974 e 1984 - músicos como Celso de Carvalho, Carlos Zíngaro, Rão Kyao, Tó Pinheiro da Silva, Zé Nabo ou o baterista Jerry Marotta (que acompanhou Peter Gabriel durante alguns anos) e vozes como as de Né Ladeiras, Concha, Gabriela Schaaf, Helena Afonso ou (em gravações recolhidas no terreno) a cantora Ti Chitas (de Penha Garcia). Letras arrojadas, uma paixão, digamos, bipolar pela música tradicional, rock progressivo, experimentalismo, invenção e uma visão de futuro rara fizeram da Banda do Casaco o mais revolucionário grupo português de sempre.