Faz hoje 40 anos que se verificou um resultado inédito no Festival da Eurovisão, realizado em Madrid, ficando 4 canções empatadas em 1º lugar: "Boom Bang-A-Bang" (Lulu, Grã-Bretanha), "Un Jour Un Enfant" (Frida Boccara, França), "Vivo Cantando" (Salomé, Espanha) e "De Troubadour" (Lenny Kuhr, Holanda).
Simone de Oliveira, a representante portuguesa, não conseguiu mais do que o 15º e penúltimo lugar com a canção "Desfolhada", de Nuno Nazareth Fernandes e Ary dos Santos. Apesar da moral portuguesa da época ficar chocada com a frase «Quem faz um filho, fá-lo por gosto» (ou talvez por isso mesmo), a canção transforma-se num enorme êxito da rádio. A Simone é pedido que grave cinco versões em línguas diferentes. Fecha-se nos estúdios da Valentim de Carvalho e ensaia a um ritmo febril. Numa só noite grava tudo, e canta 90 vezes a canção. Pela madrugada as cordas vocais cedem... Um médico especialista suíço diz-lhe então que, um dia, talvez volte a cantar...
Corpo de linho lábios de mosto
meu corpo lindo meu fogo posto.
Eira de milho luar de Agosto
quem faz um filho fá-lo por gosto.
É milho-rei, milho vermelho
cravo de carne bago de amor
filho de um rei que sendo velho
volta a nascer quando há calor.
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Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
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Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
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É trigo loiro é além tejo
o meu país neste momento
o sol o queima o vento o beija
seara louca em movimento.
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Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
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Olhos de amêndoa cisterna escura
onde se alpendra a desventura.
Moira escondida moira encantada
lenda perdida lenda encontrada.
Oh minha terra minha aventura
casca de noz desamparada.
Oh minha terra minha lonjura
por mim perdida por mim achada.