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sábado, 4 de abril de 2020

Às Vezes Chegam Cartas

Edição original em LP UPAV U-90001
(PORTUGAL, Fevereiro 1990)

«Quando eu for grande quero ser / uma pedra do asfalto / o que lá estou a fazer / só se nota quando falto.» A quadra é de Manuela de Freitas e pertence a um dos mais belos temas do LP "Correspondências", de José Mário Branco. E é, talvez, também a frase que melhor resume a atitude do músico, de quem não se ouvia um trabalho novo desde "A Noite", publicado há cinco anos. Este longo hiato tem, por certo, uma explicação, até porque "Correspondências", gravado desde meados de 1989, teve que esperar ano e meio até ser publicado porque nada menos do que quatro editoras recusaram fazê-lo. Ouvindo o disco, nove cartas em forma de canção, todas elas com um destinatário explícito, não se entendem as razões de semelhante desinteresse: José Mário Branco permanece, no essencial, fiel às características que o transformaram numa referência fundamental da música portuguesa contemporânea, mas não tem medo de se arriscar por novos caminhos, em busca de uma linguagem sempre nova, por vezes mesmo surpreendente. "Quando Eu For Grande" é a prova dessa coerência (o arranjo vocal traz-nos à memória alguns dos grandes momentos do GAC (Grupo de Acção Cultural) e mesmo do álbum "A Mãe"), da mesma forma que "Sentido Único" nos fornece os elementos capazes de interpretar a sua evolução musical - que, acrescente-se, se faz em muitos e diversificados sentidos. Dono de uma linguagem própria, filiada na "grande família" da música popular, e que recusa (felizmente) os pós-modernismos da moda em favor de um experimentalismo digno e arrojado, José Mário Branco decidiu, pela primeira vez, entregar a responsabilidade pêlos arranjos a outros músicos (José Peixoto, José Martins, Júlio Pereira e Nuno Rebelo), assinando apenas dois deles. O resultado é muito interessante, na medida em que o ouvinte não sai defraudado pela quase "ausência" de Zé Mário na área que, desde sempre, lhe mereceu os melhores elogios do público. E também porque permite olhar sobretudo para o Zé Mário compositor e intérprete, afinal as duas vertentes fundamentais de qualquer trabalho seu. Um regresso que se saúda, portanto. Na esperança de que não seja preciso aguardar mais cinco anos para se ouvir um novo disco seu. (in RateYourMusic)


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

domingo, 22 de dezembro de 2019

JOSÉ MÁRIO BRANCO / A COMUNA: "A Mãe"

Edição original em LP Comuna CLP-1001
(PORTUGAL 1978, Janeiro 19)

Mãe - filha da revolução 

Naquele Verão, quando se retirou de férias com a família para Odeceixe, José Mário Branco atravessava um período particularmente difícil. Desde que chegara a Portugal, a 30 de Abril de 1974, disposto a «mergulhar a fundo» no processo revolucionário aberto pelo derrube da ditadura, muitas coisas tinham seguido caminhos inesperados. O Grupo de Acção Cultural-Vozes na Luta, grupo musical que ajudara a fundar, passava agora sem ele; o PCP(R), partido de que fora membro activo, afastara-o em nome de uma campanha «proletarizante» que fomentava o desprezo pelos intelectuais; o projecto de festival popular «Reviver Lágrimas de Alegria», que ele idealizara como forma de comemorar o terceiro aniversário do 25 de Abril naquele ano de 1977, morria atrofiado em folhas de papel travadas por desprezo ou indiferença; e, a piorar as coisas, crescia perante ele a evidência de um casamento à beira do fim e chegava-lhe aos ouvidos a dolorosa notícia de que tinha sido diagnosticada em José Afonso a doença incurável que viria a vitimá-lo. Do casamento findo (que as férias em família confirmaram) e da doença de José Afonso nasceram duas canções: "Treze Anos, Nove Meses" e a primeira versão de "Zeca". Mas o festival sabotado provocou nele uma imensa depressão, agravada pela expulsão do partido a que antes entregara a sua vida. 

Foi quando a depressão começava a dar lugar ao vazio que, ainda em férias, recebeu um telefonema. Alguém da Comuna queria falar com ele. Um novo convite? Em 1976 recusara musicar "O Muro" , peça baseada nas "Aventuras de João Sem Medo", de José Gomes Ferreira, invocando falta de tempo e de disponibilidade - havia a música do GAC, a política do PCP(R). Agora, afastados ambos, tempo e disponibilidade podiam ser geridos de outra forma. Disse que sim, quando do outro lado do fio a actriz Manuela de Freitas o convidou, em nome da Comuna, para musicar uma versão da peça "A Mãe" , de Bertolt Brecht. E começou de imediato a trabalhar. Em Setembro, findas as férias e aberto um novo capítulo na sua vida, já tinha escrito a primeira canção. A ideia de encenar Brecht num grupo de teatro de pesquisa como era a Comuna nasceu de uma conjugação de factores. Manuela de Freitas recorda uma «espécie de congresso» onde, ao longo de três dias, o grupo fez o balanço do seu trabalho e discutiu os caminhos a seguir. Porquê Brecht? Porque para um grupo considerado anti-brechtiano e conotado sobretudo com as propostas de Peter Brook e Grotowski («havia aquela ideia de que nós não sabíamos representar textos, só sabíamos grunhir», diz Carlos Paulo, outro dos membros do grupo) era simultaneamente uma provocação e um desafio. 

Porquê "A Mãe"? Porque a peça passara pouco tempo antes pelo palco da Comuna, representada por um grupo amador, e a companhia residente ficou rendida ao texto. Manuela de Freitas, em particular. Mas não só. Carlos Paulo: «Ficámos fascinados. Uma obra que até nem era das mais representadas de Brecht, porque panfletária, permitia-nos criar um musical possível, em 78/79». A ideia de trabalhar com José Mário Branco já vinha de antes. De tal modo que, apesar da indisponibilidade do cantor em 1976, a Comuna usou com autorização dele o tema "Perfilados de Medo" (do álbum "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades") na peça "O Muro". E na peça seguinte, "Em Maio" , o grupo insistiu com José Mário Branco para que compusesse uma canção original, o que veio a acontecer. Chamava-se "Travessia do Deserto", foi inspirada num poema de Sophia de Mello Breyner e mais tarde figurou no álbum "Ser Solidário" (1982).

No dia 23 de Dezembro de 1977 "A Mãe" é apresentada em ante-estreia no casarão cor-de-rosa da Comuna, na Praça de Espanha, em Lisboa. Mas a estreia comercial só ocorre a 19 de Janeiro de 1978. Pelo meio, todos os elementos do grupo recolhem aos estúdios da Rádio Triunfo, em Lisboa, para gravação do disco agora reeditado, com as canções e alguns (curtos) diálogos da peça, de modo a dar maior consistência ao registo fonográfico daquilo que é, no essencial, uma peça de teatro embora musicada (o album é colocado à venda no Teatro, no próprio dia da estreia).

Entre essas duas datas, Portugal vivia um conturbado período de crise política e económica. O PS, então no Governo, anunciava um programa de austeridade para 1978; o Presidente da República Ramalho Eanes entregava ao actual Presidente Jorge Sampaio (nessa altura líder do grupo Intervenção Socialista) a chefia de uma missão diplomática a Moçambique; e Mário Soares, ainda longe da Presidência da República (cargo que ocupou entre 1986 e 1996), depois de ter visto o seu governo cair no Parlamento a 8 de Dezembro, era reconduzido vinte dias depois ao cargo de Primeiro-Ministro à frente de uma coligação PS-CDS. Nos anúncios dos jornais, como saldos de uma revolução finada, anunciavam-se a 300 escudos medalhas de bronze com a efígie de Vasco Gonçalves e o «lema» «Revolução ou Reacção» e «finalmente em português!» as obras escolhidas de Lenine. Primeiro volume, 250 escudos... Cinemas e teatros não se apresentavam no seu melhor. Mesmo assim, nos ecrãs portugueses, as atenções dividiam-se entre a estreia de «A Guerra das Estrelas», de George Lucas, e a reposição de «2001, Odisseia no Espaço», de Kubrick. Pelo meio ficavam «New York, New York» , de Scorsese, «Inserts» , de Byrum, e o implacável Clint Eastwood na pele de «Dirty Harry». 

Nos palcos lisboetas, o Teatro da Graça encenava «Uma Abelha na Chuva» (de Carlos de Oliveira), a Casa da Comédia «A Dama Pé de Cabra», o Grupo 4 «Os Macacões» e, no Trindade, estava Augusto Boal com «Zumbi», de Guarnieri e Edu Lobo. No Porto, a Seiva Trupe apresentava os «Contos Cruéis» (Jorge de Sena) e o TEP «Os Emigrantes». Na televisão, que já disputava fortemente as audiências entre os consumidores de espectáculos, a primeira telenovela brasileira a ser exibida em Portugal («Gabriela») dava lugar à segunda («O Casarão»), enquanto o concurso «A Visita da Cornélia» chegava ao fim, entre aplausos e apupos. Em termos discográficos, "Enquanto há força", de José Afonso (1978), "Pano-Cru", de Sérgio Godinho (1978), "Um homem na cidade", de Carlos do Carmo (1977), "Madrugada dos Trapeiros", de Fausto (1977), "Chão Nosso", dos Trovante (1977) e "Lisboémia", de Júlio Pereira (1978) são os títulos mais em evidência no período que vê nascer e crescer, em palco e em disco, "A Mãe"

Mas voltemos à Comuna. As reacções à estreia da peça são entusiásticas, aquém e além fronteiras. Carlos Porto, no Diário de Lisboa de 28/1/78, classifica-o como «um dos melhores espectáculos da Comuna, o que significa um dos melhores espectáculos do teatro português de há seis anos a esta parte. (...) Ao mesmo tempo de Brecht e da Comuna, ao mesmo tempo didáctico e comovente, ao mesmo tempo político e poético (...) Mais do que indispensável.» Fernando Midões, por seu turno, escreve no Diário Popular (24/1/78): «Pela segunda vez em Portugal, a função da música em teatro, como era pretendida por Brecht, teve realização absoluta (...) tanto mais que José Mário Branco 'fez Brecht aqui', partindo (e compondo) consciente e inspiradamente de raízes nacionais (chulas, toadas transmontanas, etc.), cantando com cortes, respiração e andamentos que desmentem, em definitivo, a proclamada indisponibilidade de transmitir, através da nossa língua, a oralidade e a intenção, enquanto versificadas, do discurso brechtiano.» O Diário de Notícias descreve-o como «uma proposta de prazer, vitalidade e inteligência,» a revista Seara Nova como «um espectáculo claro, justo, necessário e exemplar» e o jornal alemão Stuttgarter Zeitung, referindo-se à apresentação no Festival Internacional de Teatro de Stuttgart (1978), classifica-o de «inimitável «e «inconfundível»: «Para estes jovens actores (...) nada há de supérfluo ou de casual. Os aplausos de fogo foram justos para este espectáculo.» 

Em França, onde corre 18 localidades, "A Mãe" é vista como um espectáculo marcadamente português. «O Brecht, no fundo, serviu-nos de pretexto para falarmos de nós, de Portugal, daquele período, dos sonhos e das ingenuidades, das contradições todas que estávamos a viver», diz Carlos Paulo. Prova disso é que, no colectivo da Comuna, sob a direcção de João Mota (responsável pela versão cénica e encenação), o texto original de Brecht - traduzido para português por Yvette Centeno e Teresa Balté e editado pela Ática em Janeiro de 1978 - foi objecto de diversas adaptações, não só nas letras e músicas das canções como no próprio texto da peça de modo a conferir-lhe outro fôlego. "A Mãe" que sobe ao palco da Comuna e assegura quase um ano de representações já não é a de Brecht mas sim uma outra "Mãe", nascida das interrogações da revolução portuguesa e com a patente partilhada entre Máximo Gorki, autor do romance original, Bertolt Brecht e a própria Comuna. Os próprios nomes dos protagonistas são aportuguesados para criar uma maior identificação do público. E é assim que a velha mãe Pelãgia Vlassova passa a chamar-se, na pele de Manuela de Freitas, Maria Rodrigues - uma combinação entre os nomes da actriz (Maria Manuela) e da mãe do encenador, João Mota (Rodrigues). Os novos nomes, aliás, ou vêm dos próprios actores ou de alguém conhecido. Pavel, o filho, é rebaptizado como Carlos por ser esse o nome do actor que o interpreta: Carlos Paulo.

José Mário Branco, que além de dirigir as vozes dos actores nas partes musicadas teve a seu cargo um pequeno papel (o de um cozinheiro conciliador), diz com algum humor que esta peça é «um produto típico de João/de Freitas/Branco» - ou seja, do trabalho conjugado de João Mota, Manuela de Freitas e José Mário Branco com todo o elenco da Comuna na época. «Para nós, actores» - recorda agora Carlos Paulo - «foi um trabalho de criação lindíssimo porque foi sendo feito connosco e veio complementar o que até aí fazíamos. Para nós, a música era um elemento estranho que nos era metido numa determinada altura de um espectáculo. A partir de - "A Mãe" conseguimos descobrir que a música podia ser mais um elemento criativo, harmónico e enriquecedor. Crescemos todos muito com este trabalho. E perdemos o medo de cantar, que é uma coisa que o actor tem sempre. O Zé Mário deu-nos uma grande confiança.» As canções de "A Mãe" foram interpretadas apenas pêlos actores da Comuna. De fora vieram só os músicos, como Júlio Pereira e Luís Pedro Faro (que também colaborou nos arranjos). Mais tarde, o próprio José Mário Branco voltou a trabalhar com a Comuna, juntamente com Manuela de Freitas, nas peças "A Pécora", de Natália Correia (1989) e "O Estrangeiro em Casa", de Richard Démarcy (1990). 

E para o futuro, o que ficou? Manuela de Freitas diz que «ficou sobretudo a recordação de uma grande comunhão com o público, a sensação de que o teatro devia ser sempre assim, com o público como co-criador de cada espectáculo. Um teatro que já não há. "A Mãe" foi o culminar do trabalho da Comuna, o expoente máximo do sentido desse trabalho.» E ficou também uma outra proximidade com a música. Na peça seguinte, a Comuna trabalhou, por exemplo, com José Afonso. Outros músicos que colaboraram, com maior ou menor assiduidade, com o grupo foram José Pedro Caiado, Eduardo Paes Mamede, Luís Pedro Faro e Carlos Mendes. Para quem, à época, não viu a peça (e jamais a verá, dado que não existem registos fílmicos ou videográficos), a audição do disco que agora se reedita pode ser uma experiência tão curiosa quanto enriquecedora: desde logo pela forma como vozes e instrumentos são utilizados na sugestão de ambiências contraditórias (opressivas, épicas, exaltantes, alegóricas, quase infantis); como se contêm ou despoletam emoções; como da frieza erudita da música de Hanns Eislerfoi possível passar, sem decalques nem transposições primárias, para uma leitura emocionada e vigorosa de um clássico quase panfletário. Hoje, mesmo com as revoluções e os ideais comunistas já arrumados no museu da História, a audição de canções como "Qual é Coisa Qual é Ela (Elogio do Comunismo)", "ABC", "Os Meninos de Amanhã" ou "Cantiga de Alevantar" (onde José Mário Branco misturou de forma magistral o «leva, leva» dos pescadores algarvios a dois cantos tradicionais, de aboiar e fúnebre, recolhidos por Michel Giacometti) pode, mais do que questionar as propostas ideológicas aqui contidas, levar à constatação de que a arte, - quando é de arte que se trata - sobrevive à efemeridade das mensagens políticas. 

Com "A Mãe", se é certo que o Teatro da Comuna ganhou alguma coisa ao aproximar-se da música, não será menos verdade que José Mário Branco ganhou muito com o teatro, primeiro em Paris, mais tarde com a breve mas fecunda experiência na Comuna ("A Mãe" e "Homem Morto, Homem Posto"). Os próximos passos da sua carreira (Teatro do Mundo, "Ser Solidário", "A Noite") aí estão a confirmá-lo. 
Nuno Pacheco, 1996

JOSÉ MÁRIO BRANCO: O 2º Album

Edição original em LP Guilda da Música DP 020
(PORTUGAL, Dezembro 1972)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Ser solidário assim, pr'além da vida..."



Edição original em LP Edisom 603306   
(PORTUGAL 1982, Abril 14)


Na data em que José Mário Branco nos deixou aos 77 anos de idade, é altura de voltar a partilhar a sua obra mais abrangente de sempre (no sentido dos diversos estilos musicais nele incluídos); este duplo "Ser Solid(t)ário", acrescido do manifesto "F.M.I.". Há momentos, na vida de todos os dias, em que pessoas e coisas parecem confluir para um ajuste de contas com a História. 1980 foi um ano pródigo em momentos assim, limiar de décadas e de mundos em mudança. Nele perderam a vida Sartre e Lennon, o arcebispo Óscar Romero e o marechal Tito, Marcello Caetano e Sá Carneiro. Cada morte a encerrar pequenos ciclos, a desfazer encruzilhadas ou, como no caso da Jugoslávia pós-Tito, a reacender longínquas faúlhas de guerra. "Ser Solid(t)ário" revela-se ao mundo na voragem desses dias. Na noite de 21 de Novembro de 1980, nove anos depois do lançamento histórico de "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", o cantor e compositor José Mário Branco sobe ao palco do Teatro Aberto, em Lisboa, para a estreia de um novo espectáculo musical. Vestido de branco, silhueta recortada na penumbra da sala, começa por cantar, dedilhando a guitarra: «Que caminho tão longo! / que viagem tão comprida! / que deserto tão grande / sem fronteira nem medida! / águas do pensamento / vinde regar o sustento / da minha vida.» Um caminho aberto em Paris, continuado no Portugal revolucionário de 74/75, desgastado entre a música e a política por sucessivas desilusões no final da década de 70.


E, sempre presente, o teatro. Não aquele, palco passageiro onde agora cantava, mas outros, onde nos últimos anos tinha empregue muito do seu esforço criativo: a Comuna, primeiro; o Teatro do Mundo, depois. Da Comuna acabara por sair em Janeiro de 1979, solidário com um grupo de actores então expulsos por divergências de estratégia e reportório. O Teatro do Mundo, fundara-o pouco depois da cisão, a 23 de Janeiro desse ano, juntamente com outros actores vindos da Comuna: Manuela de Freitas, Jean-Pierre Taillade, Fernanda Neves, Gabriela Morais. E ainda Cucha Carvalheiro, actriz que José Mário Branco já conhecia do exílio em França, e António Branco, sobrinho do cantor. Por graça, na estreia de "Ser Solid(t)ário", ele não resistiu a dizer que demorara dois anos a atravessar a Praça de Espanha (o Teatro Aberto ficava mesmo em frente do casarão cor-de-rosa da Comuna, do outro lado da praça). Dois anos de travessia do deserto, à semelhança do que diz a canção (composta para uma peça da Comuna), mas também de introspecção e febre criativa. 


Mas "Ser Solid(t)ário" tinha sido pensado para estrear como disco, com 15 temas mais o "F.M.I.", e não propriamente como espectáculo. Pronta em Março de 79, a maqueta circulou pelas editoras sem que nenhuma lhe pegasse. José Mário Branco e o Teatro do Mundo pensaram então em levá-lo aos palcos. Esperaram até Setembro de 1980 e, como o disco se mostrasse inviável, montaram o espectáculo. Disponível a sala do Teatro Aberto, planearam doze actuações com uma sequência rara em espectáculos do género: quintas, sextas e sábados às 21h45 e domingos às 18h30. Da ficha de "Ser Solid(t)ário", produzido pelo Teatro do Mundo com direcção artística de Trindade Santos, constavam os nomes de Júlio Pereira (cordas), Pedro Luís (teclados), Rui Cardoso (sopros), Zé da Cadela (bateria) e José Mário Branco (cordas e voz). Nos coros, estavam Fernanda Neves (actriz no Teatro do Mundo), António Branco e Gustavo Sequeira (membros do Quarteto Música em Si, que em Março de 1980 se apresentara no Festival RTP da Canção com "Esta Página em Branco", cujo arranjo, assinado por José Mário Branco, foi elogiado pelos críticos, referindo-se ao seu autor como "um dos mais originais, sensíveis e competentes orquestradores portugueses"). 


Nunca, até "Ser Solid(t)ário", um cantor se expusera desta maneira. Quem assiste mais do que uma vez ao espectáculo, vê a cena repetir-se, como um ritual, noite após noite. Num crescendo, a música vai conquistando espaço por entre a plateia, rendida em aplausos. Quase duas horas após o início, já num "estado de aquecimento emocional" (como lhe chamou José Mário Branco), o público exige o regresso do cantor ao palco. É então que ele apresenta o tão ansiado "F.M.I." . «Um texto que eu escrevi de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 1979». Começa irónico, mordaz, a provocar sorrisos de autocomplacência ou assentimento. Mas depressa impõe um pesado silêncio pelo tropel das palavras, o desafio, o insulto. Partindo de um tema que no discurso musical lembra "Talking Union", de Pete Seeger, José Mário Branco evolui para algo muito próximo das invectivas radicais de Ferré ou da ironia provocatóría de Almada Negreiros na "Cena do Ódio". 



Mas vai mais longe: como numa espiral, a raiva acumulada cede lugar ao choro, ao sussurro, ao desencanto. «Não pode haver razão para tanto sofrimento...», diz, em voz velada, exausto, passada a violenta tempestade de sentimentos contraditórios que o leva a gritar bem alto o seu ódio ao vazio: «Mãe, ó mãe!! / Eu quero ficar sózinho / Eu não quero pensar mais. / Mãe, eu quero morrer, mãe / Quero... desnascer / Ir-me embora / sem sequer ter de me ir embora...» Mas a esperança subsiste para lá de todas as tempestades do espírito. E o deserto consente a miragem redentora, a vitória da luz sobre as trevas, o "d" de solidário a afastar o "t" de solitário (trocadilho presente na capa do disco e inspirado num conto de Camus) num abrir de braços para um futuro sem tempo, algures no cosmos: «O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram». Assim, «para lá da vida». «Por sobre a morte». Para concluir, na simplicidade da paz reencontrada: «Dizia, valeu a pena a travessia?... Valeu, pois.» 


Nascido na ressaca do processo de expulsão da Comuna, com retroactivos por ter sido expulso do PCP(R) em 1979, o "F.M.I." surge para José Mário Branco da «necessidade de encontrar um sentido para a vida fora dos clichés ideológicos». E é, tal como a primeira peça do Teatro do Mundo ("A Secreta Família", estreada em Julho de 1979), uma espécie "de vómito" emotivo. «Um texto profundamente confessional e catártico, uma conversa que me é permitida exclusivamente com a gente da minha geração... E na qual as outras gerações (a de antes e a de depois) são só atingidas por tabela» (Expresso, 9/4/82). Daí que, em 1982, o "F.M.I." surgisse num disco à parte, em maxi-single, e selado com a seguinte indicação: "Por determinação expressa do autor fica proibida a audição pública, total ou integral, deste disco." 


Mas voltemos ao palco do Teatro Aberto. Naqueles dias de Novembro, a sala esgotou a lotação. Um êxito de bilheteira, entradas a 150$00 para um espectáculo com um orçamento de produção na casa dos 500 contos. Quanto ao disco, recusado no circuito comercial, foi posta a circular uma carta-cupão onde se propunha um original contrato com o público: «Quer você ajudar a produzir o meu próximo LP?», escrevia José Mário Branco na carta, para quem o quisesse ler. «Bastará que o compre já, ao preço barato de 500$00, que sinta alguma razão para nos confiar essa quantia, e que possa esperar dois ou três meses para ter nas suas mãos o duplo álbum "Ser Solidário" Esperariam cerca de ano e meio, mas nenhum dos subscritores do cupão (perto de 800), preenchido à saída do espectáculo ou por via de publicação graciosa em jornais e revistas, se mostrou muito incomodado com o atraso. 



E quando finalmente o disco viu a luz do dia, a 14 de Abril de 1982, a ocasião foi celebrada com um único espectáculo que superlotou a sala da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. De novo a travessia do deserto, a raiva e a esperança, o exorcizar de velhos fantasmas, a evidência da morte no ciclo da vida. E a certeza de ter cumprido uma meta, fechado um ciclo geracional. Falando sobre o disco, disse ele então ao Expresso (9/4/82): «"Ser Solidário" é uma obra feita já a olhar para a frente, embora não fale daquilo para que está a olhar. Mas fala de tal maneira definitivamente que encerra mesmo um ciclo, pelo menos no que diz respeito à minha obra. Mas não só. Talvez tenha sido eu - e digo-o sem vaidade, com a maior lucidez possível - a tomar a iniciativa de encerrar um ciclo aberto há dez anos com "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" e com as "Cantigas do Maio" do Zeca Afonso, e que fica encerrado com este álbum. Daqui para a frente já nada poderá ser a mesma coisa.» 


Passados quinze anos sobre a primeira edição, "Ser Solidário" acabou por reencontrar em CD o formato original, com o "F.M.I." como estação derradeira de uma viagem proposta ao longo das restantes quinze canções, compostas em parte entre 1979 e 1980, e onde diversos géneros musicais se cruzam e fundem, como num caleidoscópio, da balada urbana ao rock, passando pelo Jazz, a marcha, o fado, a chula: 

"Travessia do Deserto": inspirada num poema de Sophia de Mello Breyner e escrita em 1977 para a peça "Em Maio", da Comuna; 

"Queixa das Almas Jovens Censuradas": composta no exílio, em Paris, sobre um poema de Natália Correia, e integrada em 1971 no álbum "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"; 

"Vá, Vá...": também composta em Paris. «É uma reacção radical minha, no exílio, ao que se poderia chamar os defeitos dos intelectuais de esquerda de café» (Público, 14/2/96). Vá-Vá, nome de um célebre café da Avenida de Roma, dá o mote e o título; 

"A Morte Nunca Existiu": de novo o belíssimo poema de António Joaquim Lança, já incluído no álbum "Margem de Certa Maneira", em 1972, mas agora com novos arranjos;


"Fado da Tristeza": o primeiro de dois fados incluídos no disco. «A minha primeira parceria a sério com Manuela de Freitas»

"Fado Penélope": escrito e musicado por José Mário Branco, regista a sua reconciliação com um género musical, o fado, que por influência de Fernando Lopes Graça ele sempre desprezara. 

"Qual é a Tua, ó Meu?": um tema onde nomes de ruas e bairros lisboetas configuram uma marcha popular quase brejeira num elogio à liberdade; 

"Eu Vim de Longe, eu Vou p'ra Longe (Chulinha)": composta já no contexto do Teatro do Mundo, em 1979, é uma espécie de retraio pragmático do percurso político do cantor, das suas crenças e desilusões; um dos temas mais repetidos à data da edição do LP, em concertos ou na rádio; 


"Inquietação": escrita ainda na Comuna, na fase de ensaios da peça "Homem Morto, Homem Posto", em 1979; 

"Não te Prendas a uma Onda Qualquer": composta sobre um poema de Brecht, em 1978, para a peça "Homem Morto, Homem Posto", da Comuna;

"Linda Olinda": uma brincadeira onomatopaica escrita por Mário Jorge Bonito, em Paris, e musicada por José Mário Branco; a "linda Olinda" é Cucha Carvalheiro, actriz de teatro e amiga de ambos; 

"Treze Anos, Nove Meses": outro balanço, desta vez do primeiro casamento do cantor, no momento em que ele chegava ao fim (o título corresponde ao tempo que durou a relação); letra e música foram escritas de um fôlego, numas férias em Odeceixe, em 1977; 


"Sopram Ventos Adversos": mais um poema de Manuela de Freitas, preexistente à sua passagem a canção; o tema "Maiden Voyage", de Herbie Hancock, foi integrado na música por sugestão de Trindade Santos; 

"Eu Vi Este Povo a Lutar": texto militante, música épica, bombos e timbalões a marcarem o compasso; canção escrita originalmente para o filme "A Confederação", de Luís Galvão Teles, estreado em 1978; 

"Ser Solidário": composta também durante o período de trabalho com a Comuna, ao mesmo tempo que "Inquietação". É o corolário sofrido e consciente dos "ventos adversos", das "inquietações" latentes, das raivas soltas. «Ser solidário assim, pr'além da vida / Por dentro da distância percorrida / fazer de cada perda uma raiz / E improvavelmente ser feliz»

Em Dezembro de 1982, numa entrevista à revista "Mundo da Canção", José Mário Branco insistia na ideia de que este disco «encerra realmente um ciclo. Por isso ele é tão heterogéneo, tão multi-estilístico. É, como eu tenho dito, um disco repositório de experiências, um disco património.» E será também, para quem assim o entenda e queira, um testemunho essencial à compreensão das contradições e ansiedades de uma geração que fez do radicalismo de esquerda bandeira e que, mais tarde, da descrença nele guardou as dores e cicatrizes de um estado de alma. Uma inquietação permanente, como diz o cantor: «Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / Qualquer coisa que eu devia resolver / Porquê, não sei / Mas sei / Que essa coisa... é que é linda». Nuno Pacheco, 1996 (no livreto da reedição)


NOTA: Eu fui uma das 800 pessoas que na altura comprei o disco por antecedência, sem obviamente ter a certeza de que um dia ele seria editado. Mas os tempos que então se viviam ainda eram tempos de esperança, de confiança nas pessoas. Por isso, foi com uma alegria imensa que vivi aquela noite inesquecível de 14 de Abril, uma quarta-feira, quando o "Ser Solid(t)ário" me veio parar às mãos, após o concerto de apresentação na Aula Magna, em Lisboa. Ainda o conservo, como uma jóia rara e preciosa. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

JMB: "Mudam-se os Tempos..."

Edição original no LP Guilda da Música 003
(PORTUGAL, Novembro de 1971)




Tal como se referiu no post dos "Sobreviventes", este album foi apresentado no dia 26 de Novembro de 1971, em Lisboa, no Cinema Roma, juntamente com o EP introdutório à obra do Sérgio Godinho. Sem a presença dos dois músicos, na altura exiliados em França, a sessão foi transmitida em directo pelo "Página Um" da Rádio Renascença, um programa da autoria do jornalista Adelino Gomes. Ambos os trabalhos musicais foram passados na íntegra, bem como entrevistas dos dois intérpretes feitas a partir de Paris. Recorde-se que, à semelhança dos "Sobreviventes", também este album foi gravado no Strawberry Studio do Chateau d'Hérouville, onde anteriormente tinha sido gravado o mítico "Cantigas do Maio" de José Afonso (com produção e direção musical do próprio Zé Mário Branco). Estes dois albuns de estreia do Sérgio e do Zé Mário foram efectivamente duas obras que contribuiram decisivamente para agitar a música portuguesa dessa altura, que parecia perdida (José Afonso à parte) num beco sem saída. Esse "abanão" traduziu-se numa nova dinâmica da canção, quer em termos musicais quer em termos de linguagem poética.



Neste "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (título premonitório do que estava para vir) vinha incluído um texto de apresentação de José Duarte que aqui se recorda: «Primeiro em afirmações definitivas num jornal cor de rosa, depois em cantigas do amigo D. Dinis, a seguir com canções em circuito concêntrico, por fim numa esplanada de Paris - assim conheci José Mário Branco. Estamos perante um mural sonoro de Portugal das últimas gerações, um mural onde as cores são a mordacidade, a caricatura: uma simbologia transparente com tipos populares: uma grande romaria viva e em movimento. Um mural onde os temas são a emigração e o regresso, as guerras e os senhores, a juventude perdida, a esperança sem fundo, o medo e os fantasmas, o tempo e as novidades; tal como em "Perfilados de Medo", a linha quebrada de sons electrónicos é uma interferência, uma ameaça na arquitectura vocal e obstinada do arranjo do medo. Assim, esta obra combate uma tradição onde a palavra é o som mais inteligível. Assim se encerra a fase confusa da nova música portuguesa. Assim se inaugura uma época nova onde também cantar bem e compôr melhor serão condições a exigir à canção útil; da afirmação da palavra à desafinação das cordas, à percussão das peles e teclas, à imaginação nos arranjos, à criação melódica, à vocalização justa: aqui o circo foi desmantelado com todas as ferramentas do som». "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" tornar-se-ia num expressivo sucesso público, vendendo rapidamente a sua primeira tiragem de 5000 exemplares.

sábado, 2 de junho de 2018

Os Inéditos do Zé Mário

Edição original em CD Duplo 
Warner Music Portugal 0190296911965
(PORTUGAL 2018, Junho 1)

Canções feitas para filmes, maquetes restauradas a partir de bobines originais, singles e temas obscuros há muito perdidos e agora recuperados. Eis "Inéditos 1967-1999" - que não tem só inéditos. A capa, tão simples que só tem autor e título inscritos em fundo branco, até já motivou na internet comparações curiosas com o “álbum branco” dos Beatles (de título homónimo, mas assim nomeado devido à capa). Ouve-se o disco e logo no primeiro tema surge um dedilhado de guitarra e a voz de José Mário Branco a cantar versos nunca ouvidos: “Quantas Sabedes Amar, amigo”. É quanto basta para perceber que "Inéditos 1967-1999" está recheado de pérolas.

O título do disco merece discussão, porque alguns dos 26 temas do álbum de 2 CDs que José Mário Branco acaba de editar não são inéditos, foram já lançados em EPs, LPs e singles. Todos em formato físico e em grande medida há muito tempo perdidos, é certo. É o caso das "Seis Cantigas de Amigo" que J.M.B. gravou para os Arquivos Sonoros Portugueses, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (a que acresce uma maquete que ficou de fora da seleção desse EP). É também o caso de “Ronda do Soldadinho” e “Mãos ao Ar!”, um par de temas editados em formato single. Ou ainda “Le Proscrit de 1871”, uma colaboração do músico com o grupo francês Organon.

Mais temas esquecidos recuperados? As canções escritas para os filmes portugueses “Gente do Norte” (“Cantar da viúva de emigrante”) e “O Ladrão do Pão” (“Fuga do Mar”), por exemplo, mas também “Quantos é que Nós Somos”. Esta última foi registada num disco de homenagem a Otelo Saraiva de Carvalho, "Obrigado Otelo", editado em 1989. Além de “Quantos é que Nós Somos”, o álbum incluía temas de Carlos do Carmo (“O Madrugar de um Sonho”), Chico Buarque (“Bancarrota Blues”) e Billy Bragg (“Rotting on Remand”), entre outros.

Estes são temas a que um colecionador de discos dificilmente torcerá o nariz, sobretudo se for minimamente conhecedor e fã da obra musical de José Mário Branco. Mas são outros, os nunca antes registados em CD e vinil, os grandes trunfos. Entre eles destacam-se a maquete, só agora revelada, “Fim de Festa”, o quarteto instrumental em três andamentos “Fantaisie Languedocienne” e os temas compostos propositadamente para filmes de Paulo Rocha e Jorge Silva Melo, respetivamente "A Raiz do Coração" (2000) e "Agosto" (1987). Da banda sonora do último, J. M. B. recuperou cinco canções.

Quer as canções nunca editadas — algumas inclusivamente restauradas a partir das bobines originais — quer os temas raros recuperados de edições esgotadas em vinil, foram selecionados pelo próprio José Mário Branco para integrar este disco. “Cuidadosamente”, assinala a editora e constata o ouvinte. (in Observador)
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