A1. Epopeia (1ª Profecia) (A. Pinho/L. Linhares) 2:34
A2. Na Ilha Virgem (A. Pinho/L. Linhares s/ motivo popular) 5:13
A3. Digo-Dai (A. Pinho/L. Linhares s/ motivo popular) 2:13
A4. Só Marinheiros e Escravos se Afundam com a Nau (A. Pinho/L. Linhares) 2:22
A5. Homenagem Póstuma (A. Pinho/L. Linhares) 2:10
B1. Por Vós (Desgostoso, Carrancudo e Magro) (A. Pinho/L. Linhares) 2:31
B2. Centenário (A. Pinho/L. Linhares) 1:34
B3. Sebastião Morreu! (A. Pinho/L. Linhares) 1:26
B4. Epílogo (A. Pinho/L. Linhares) 1:54
B5. Os Bem-Aventurados (A. Pinho/L. Linhares) 2:28
B6. «25» (A. Pinho/L. Linhares) 3:18
B7. 2ª Profecia (Bandarra/L. Linhares) 2:55
Arranjos: Jorge Machado
Sonoplastia: Moreno Pinto
Capa: Lídia Martinez
Produção: João Martins e Luís Vilas-Boas

“Epopeia” é hoje justamente considerado o álbum mais mítico de todo o cancioneiro português. Não necessariamente por ser o melhor de todos (haverá certamente outros que no mínimo lhe possam discutir o podium), mas por ser aquele que pouco a pouco vai perdurando tão sómente nas memórias daqueles que em 1969/1970 tiveram a oportunidade de o resgatar das lojas de discos. Primeiro na edição original da Philips (com uma original capa desdobrável, que seria alvo da censura marcelista) e depois numa outra edição mais modesta da editora Fontana (nº de catálogo 647 3010). Decorrido meio século, o álbum continua practicamente inacessível, apesar de em 1998 ter sido transcrito para CD, não a partir dos masters originais (que uns dizem que se perderam e outros que se encontram nos arquivos da Philips na Holanda), mas utilizando um vinil de duvidosa qualidade. Esta versão que Rato Records agora disponibiliza a todos os seus fieis seguidores, foi substancialmente melhorada, constituindo talvez a melhor alternativa para se ouvir hoje em dia esta preciosidade. Pelo menos até que algum editor responsável tenha a coragem de lançar uma versão condigna de "Epopeia". O que, com toda a tecnologia hoje em dia disponível, não deverá ser algo de inantigível.

Adoptando os Descobrimentos como tema de fundo, o álbum vai navegando em sonoridades originais e surpreendentes, adoptando um estilo único, totalmente distinto do que se fazia na época, tendo porventura nos Beatles a influência mais directa. Por exemplo, em "Só Marinheiros e Escravos se Afundam com a Nau" («Para esquecer a fome, vão lembrando as glórias passadas de Portugal, por entre as brumas da memória»), com aqueles magníficos violinos a lembrar "Eleanor Rigby". Ou o começo de "Digo Dai", ao que parece a canção mais conhecida do álbum, que remete o ouvinte mais atento para os "Piggies" do álbum branco. A parafernália dos instrumentos utilizados (violinos, violoncelos, cravos, órgãos, coros, baixo eléctrico, percussões várias, harpa...) é adornada por arranjos sublimes, que conferem ao album uma riqueza inestimável. «Eu sempre tive a mania de ser diferente. Não queria um grupo com um nome parecido com os que havia. Sempre gostei muito de aliterações e de coisas começadas pela mesma letra porque acho que têm ritmo. Alguém disse Filarmónica, isto no jardim da vivenda dos meus pais. Gostei da palavra, achava que soava bem, mas era redutora. Então faço aquilo que ainda hoje faço na minha vida. Pego no dicionário e vou à letra "éfe". Queria outra palavra que começasse por "éfe". Que destruísse a Filarmónica e que ligasse bem. E de repente encontro a palavra Fraude. Os outros arrepiaram-se, mas acabaram por aceitar.» (António Pinho a "O Mirante").

Com orquestrações opulentas sobre mantos psicadélicos, quando magníficas harmonias vocais descendem de flautas pastoris, quando bombos ritmam a evidência (“Sebastião Morreu!”) ou quando passamos por “Por Vós (Desgostoso, Carrancudo e Magro)”, “Epopeia” é um Manifesto Anti-Dantas compactado em sarcasmo e corrosão pop e, senhores, todo o album é um ataque feito de imaginação febril ao sítio onde mais doía ao Estado Novo (e onde continuará a doer na mesquinhez generalizada do nosso tempo): o asqueroso ridículo de uma ditadura que corrompia, corroía, embrutecia e estupidificava a vida de todos os dias. O que aconteceu à Filarmónica Fraude? Sobre a incapacidade congénita de o país preservar e lidar com a sua memória caíu a discriminação habitual que sofre a cultura pop por estes lados, caíu a falta de visão da nossa indústria musical, caíu o carácter único de uma banda nascida em Tomar que, sem pensar muito nisso, estava a criar uma ideia de contracultura musical informada e actuante. O problema, lá está, é que estavam sózinhos.
Não completamente sózinhos, na verdade. Os Filarmónica Fraude foram protegidos de Luís Villas-Boas, o senhor Hot Clube, que lhes co-produziu “Epopeia” com João Martins, o homem que os contratou para a Phillips e um dos autores de 23.ª Hora, programa histórico da Rádio Renascença. Foram recomendados pelo Duo Ouro Negro, que viu mais longe, cobertos de elogios nas páginas do Diário de Lisboa por Fernando Assis Pacheco, que os descobriu a tocar num hotel do Alvor, e entrevistados por Maria Teresa Horta na revista Mundo da Canção, onde apresentavam carta de intenções tão sintética quanto certeira: «Pretendemos fazer o retrato de um país: o retrato de um país actual, que no fim de contas é o Portugal de mil e quinhentos e mil e seiscentos.» Tiveram exposição radiofónica com canções como a versão do tradicional “O Menino”, deram vários concertos durante um curto período (no Zip Zip, num batelão no Tejo) e, depois, entre a incorporação na tropa que ceifava quase todas as bandas («toda a nossa pop na década de 1960 era vista como as crianças a divertirem-se antes de irem para tropa e para a Guerra no Ultramar», aponta Rui Miguel Abreu) e o fim oficial, lá ficou a Filarmónica à espera de ser redescoberta.