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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

DUO OURO NEGRO: "Blackground" (II)

Edição original em LP Orfeu DASPEAT 401
(PORTUGAL, 1981)

MINHA TERRA É LINDA

Original released in LP Orfeu FPAT 6004
(PORTUGAL, 1979)

N'gola, 1483...
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproximava veloz, cada vez mais, com o vento... Era o Homem Branco que chegava: numa mão uma cruz, na outra uma espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos Kissanges, marimbas e Txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com Terra Negra. Então N'gola viu a sua Terra esventrada gritar de dor e transformar-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua Terra. N'gola adormeceu num sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou... e a Voz dizia: « não durmas mais... não durmas mais...» Era Novembro e as acácias vestiam-se de garrido vermelho. O sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de tamarindo e jambo... uma Lindeza! (Raul Indipwo)


A segunda metade dos anos 70 foi atribulada para o Duo Ouro Negro. Depois de participarem em 1974 no Festival RTP da Canção, com a canção "Bailia dos trovadores", lançam o single "Poema para Allende / Tentando ir mais alto" em 1975, e fazem a última gravação da década para a EMI-Valentim de Carvalho com o album "Epopeia / Lamento do Rei". No ano seguinte é lançado um disco ao vivo. Em 1979, voltam a gravar um novo album de originais, desta vez para a Orfeu, por sinal um dos LPs de maior sucesso do duo. Um álbum magnífico, que teve a participação de Mike Sergeant na guitarra e do já conhecido Zé Nabo no baixo. "Lindeza!", foi o nome escolhido pelos cantores para homenagear a Terra-Mãe («minha terra é grande mas será maior se eu a fizer crescer»). Não existem pontos fracos neste album, que pessoalmente considero um dos melhores da música portuguesa: quase 4 décadas volvidas, continua a ouvir-se repetidamente, com o mesmo prazer de sempre. Tanto quanto julgo saber, esta preciosidade nunca foi editada em CD, por isso têm aqui a oportunidade de aceder a uma cópia de grande qualidade, que Rato Records vos disponibiliza. Um grande obrigado ao Carlos Santos, pela ajuda dada na remasterização do vinil original.  

Músicos:

Vocais - Duo Ouro Negro (Raúl Indipwo e Milo MacMahon)
Acordeão - José Cid
Guitarra Acústica [Violão] – Mário Silva, Raúl Indipwo
Baixo – Zé Nabo
Guitarra – Mike Sergeant
Kalimba [Kissangi] – Raúl Indipwo
Guitarra de 12 cordas – D'Jilá Jr.
Vozes de Apoio (femininas) – Formiga, Pom

O Regresso De Um Album Histórico


Edição original em LP Columbia 8E 062 40136
(PORTUGAL 1972, Março 17)


Em 1969, o Duo Ouro Negro partiu para os Estados Unidos em digressão. A experiência que ali tiveram foi determinante para o que conheceríamos três anos depois. «Don’t forget your blackground», exclamaria em 1972 Raul Indipwo, voz saída de "Blackground", precisamente, álbum histórico da banda angolana. Despertados para o activismo dos Black Power, atentos ao jazz que se criava em terras americanas, a que se juntava o interesse pelos movimentos independentistas das colónias africanas, aquela que era então a mais internacional das bandas portuguesas gravaria em Lisboa um álbum de vibrante afirmação cultural através da música. Miguel Augusto Silva, fundador da editora Armoniz (que relançou agora o álbum original em vinil de 180 gr) refere que, apesar de ser hoje em dia um disco quase desconhecido, teve à época grande impacto, a que não terá sido alheio o facto de ter sido apresentação ao vivo, meses antes do lançamento, no histórico Festival de Vilar de Mouros de 1971. «Teve tanta importância na carreira deles que foi reeditado duas vezes, em 1974 e em 1985, com capas diferentes das originais». Em "Blackground", conta Miguel Augusto Silva, Raul Indipwo e Milo MacMahon «inspiram-se nas tradições de Angola  e vão mais longe que antes na pureza [dessa abordagem] e na utilização das línguas tradicionais do país. Dão um novo contexto às músicas africanas, mostrando como estas saem de África e como voltam através de outras formas musicais»


É um disco sob influência da pintura de Eleutério Sanches, o grande artista angolano desaparecido em 2016, autor da capa. É um disco de sobreposições culturais – dos povos de Angola, do rock e do jazz, de uma história feita de escravatura, sangue e lágrimas, de viagem, de miscigenação, de superação. Mergulhando nele, falando com todos os envolvidos, Miguel Augusto Silva conseguiu revelar todas as camadas que o compõem. É da sua investigação que se percebe, exemplo determinante, que Raul Indipwo recorreu às recolhas da Diamang para, trocando as voltas ao propósito original - o de preservar o som de música e instrumentos em risco de desaparecer -, colocar aqueles músicos em diálogo frutuoso com o presente. Assim, podemos por fim compreender em toda a sua dimensão este álbum magistral em que o Duo Ouro Negro cria um portentoso fresco da música africana, e angolana em particular, partindo das suas raízes ancestrais até frutificar, do outro lado do oceano, no Missouri, no Mississipi, no Amazonas, no Rio de la Plata. Até se transformar em jazz, em rock, em blues ou em psicadelismo, abraçando o mundo antes de regressar a casa. Para o concretizar, o Duo Ouro Negro beneficiou de um contexto especial. «O início dos anos 1970 é um período muito particular e rico pela presença de músicos de várias proveniências em Portugal», afirma Miguel Augusto Silva. «Tínhamos os músicos britânicos ligados ao movimento mod e ao psicadelismo, como o Mike Sergeant e o Terry James Thomas [que pertencera aos Magic Mixture, banda de culto do psicadelismo inglês], músicos americanos como o Kevin Hoidale, um belga como o Adrien Ransy e, claro, os músicos angolanos». Todos contribuíram para que "Blackground" nascesse.


Luis N’Gambi, membro dos Rocks de Eduardo Nascimento, cruzara-se com o Duo Ouro Negro ainda em Luanda, mas foi em Lisboa que Raul pediu a sua colaboração. Disse-lhe Raul: «Preciso de um viola de música africana, mas que tenha também conhecimento de outras linguagens». Membro de uma banda yé-yé que, nos seus concertos, incluía também música africana («quando tocávamos na Holanda, adoravam essa parte do espectáculo»), foi imediatamente recrutado para o projecto: «A ideia era a união de músicos de várias expressões musicais. Era trazer a origem de África e fazê-la expandir-se pelo mundo»Com Kevin Hoidale a organizar a componente eléctrica com o baixista Zé Nabo, os guitarristas Terry James Thomas e Mike Sergeant e o baterista Adrien Ransy – «o Kevin foi importantíssimo para definir uma base musical sólida», afirma Luís N’Gambi -, com Raul Indipwo a dar corpo à música que brotava das suas mãos, da sua voz unida à de Milo Mac-Mahon, do dedilhado ágil de Luís N’Gambi e das percussões de Bonga, "Blackground" foi gravado no primeiro semestre de 1971 nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d’Arcos, sob a supervisão do lendário produtor Hugo Ribeiro, falecido em Dezembro de 2016, e homem que fora responsável, anos antes, pela contratação do Duo Ouro Negro pela editora. Seria lançado no mercado um ano depois, em 17 de Março de 1972. 


Mais de quatro décadas depois, Bonga recorda-o. «Não se resumia às canções, ia muito mais longe», diz o responsável pelo vigor do pulsar rítmico do disco. O Duo Ouro Negro convocou-o para o gravar quando era ainda Barceló de Carvalho, campeão nacional de atletismo pelo Benfica. O homem que se tornaria Bonga na Holanda, quando, exilado, edita o fundamental "Angola 72", tinha perfeita noção do monumento que ajudava a construir. «Nele, mostrou-se que éramos povo, que éramos gente com história e cultura. Entrámos no mundo pela porta da frente. Mostrámos que esta mesma raça, mal tratada, espezinhada, estava presente no auge da criatividade e da cultura de todos os continentes. Não era musiquinha para mexer a bunda da mulata, exótica – os racistas ainda estavam nessa -, não eram só cantorias. Partia da sua terra, Angola, e viajava pelo continente para se apresentar ao mundo inteiro». Nas páginas do encarte de 12 páginas que acompanha a reedição lemos Raul Indipwo: «Houve uma certa audácia da nossa parte. Mas sem audácia andamos para trás em vez de avançarmos como deve ser. Isto é a concretização de muitos anos de trabalho. É a realização de um projecto muito antigo que me levou a estudar Etnografia, Música e História».


A primeira canção de "Blackground", homónima, inicia-se com uma breve apresentação da viagem que se seguirá. Narra-a Kevin Hoidale. É ele que faz ecoar as palavras escritas por Raul Indipwo - “don't forget your background, don't forget your blackground” - sobre o som da festiva roda de dança, a txianda, também ela recolha da Diamang, que nos introduz no cenário. Depois, é uma explosão de cor em jazz rock e Hammond alucinado, entre vozes harmonizadas em tom grave e a acidez de um solo de guitarra. Mais à frente, encontraremos "N'djimba". Canta Milo e canta Raul enquanto Sacamueca e seu discípulo, Mutondo, fazem ouvir as suas marimbas, vindas de longe no tempo e no espaço. Vozes celestiais, as magníficas vozes hamonizadas do Duo Ouro Negro, respondendo ao ressoar cintilante da marimba numa canção criada num gesto moderníssimo, samplagem antes de se ter inventado nome para isso. Cantado em chokwe, em quimbundo, em inglês em português, "Blackground" é uma pungente história de um povo e sua música, uma história de Humanidade, um inspiradíssimo e tocante festim musical. Tem o clássico "Amanhã", uma das canções mais populares do Duo Ouro Negro, semba tropicalista feito festa e resistência. Tem o tradicional "Napangula" que se verte em fervor eléctrico. Tem "Ondyaiya", canção cuanhama, a dançar o funk do baixo e o psicadelismo do Hammond ou essa "Georgina" resgatada ao cancioneiro moçambicano. Tem Milo e Raul em diálogo com a "N'djimba" de mestre Sacamueca e os rios todos que, dois dos lados do Atlântico, se unem no hino africano, hino sul-americano, gospel da América a norte que é "Yemanjá". Muitas e diversas são as camadas de que se faz "Blackground". Tantas quantas aquelas de que se revestem os seus criadores. Tantas quanta a incompreensão que continua a rodear o Duo Ouro Negro.


Apresentado em antestreia no festival de Vilar de Mouros, em 1971, ganharia também vida no palco do São Luiz, em Lisboa, num espectáculo de cerca de duas horas com forte componente cenográfica. Acabou, porém, por ter vida curta. Kevin Hoidale regressa aos Estados Unidos em 1973 (morreria em Minneapolis em 2012), Luis N’Gambi partira um ano antes para uma carreira no Brasil com a cantora, e sua mulher, Paula Ribas. Bonga, acossado pelo regime pelas ligações aos independentistas angolanos, fez o mesmo, exilando-se na Holanda, onde iniciaria a sua carreira a solo. Apesar de reeditado alguns anos mais tarde e da tentativa de lhe recuperar o espírito em 1981, num álbum duplo editado pela Orfeu (onde foram incluídas novas versões de quatro temas do disco original), "Blackground" foi-se desvanecendo enquanto obra ímpar, subsistindo enquanto título de culto citado por coleccionadores. «Apesar de todas as mudanças, nós somos os mesmos, com o mesmo objectivo: cantar o nosso povo, a nossa terra», defendia Milo Mac-Mahon em 1982, em entrevista ao semanário O Tempo. Raul Indipwo acrescentava: «Nós vamos ficar na História como os precursores, a nível mundial, de uma expansão cultural angolana e até portuguesa. A nível nacional, não há ninguém maior do que nós. A Amália é do nosso tamanho. Só que é a mulher mais linda que Portugal tem nas cantigas. Nós, Ouro Negro, somos a coisa mais linda que Angola e uma interpenetração de culturas podem ter». Olhando hoje, não é esse o tamanho que lhes está reservado. Não é esse o tamanho que lhes atribuem. (in jornal "Público")

sábado, 7 de dezembro de 2019

DUO OURO NEGRO: "Raul e Milo"


A 4 de Junho de 2006, desaparecia a segunda metade do Duo Ouro Negro, um dos três nomes (os outros dois são Eusébio e Amália Rodrigues) que nos idos de sessenta lograram dar a conhecer Portugal aos quatro cantos do mundo. Apenas porque tinham qualidade, demasiada qualidade para ficarem restringidos a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado, onde, já nesse tempo, a inveja e a mesquinhez reinantes eram incompatíveis com uma carreira nacional de grande sucesso. Por isso Raul e Milo se fizeram à estrada, levando a sua música a ouvidos mais limpos e a mentes mais arejadas. Fizeram bem, até por usarem Portugal unicamente como trampolim. Afinal aquela música nada tinha a ver com o fado ou o folclore lusitano, e só por circunstâncias políticas da época se poderiam confundir.


Em Fevereiro de 1974, entrevistado por Regina Louro para a revista «Flama», Milo apontava, com algum sarcasmo, algumas razões para há muito tempo não actuarem em Portugal: «Quais são os artistas portugueses que têm actuado aqui? A verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para cantarmos. Os teatros têm os seus elencos, os cinemas o que querem é vender filmes, a televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num plano inferior a nós. Ao artista português mais não resta do que esperar pelo Verão para ir a feiras, festas na província, ou a um ou outro casino nas estâncias balneares. Fora desse período está condenado a uma carreira internacional».


UMA MIRAGEM

Houve um tempo, um tempo breve, em que pareceu que a música popular portuguesa podia ser assim: uma coisa intercontinental, afro-europeia e euro-africana, que pregava um estilo de vida dominado pela elegância e a alegria; atenta às mudanças do mundo e a cada uma das novas tendências internacionais; ecuménica, capaz de acolher no seu seio a memória do antigo reino dos Kwaniamas enquanto gerava luminosas versões de canções dos Beatles cantadas em português e acotovelava as grandes estrelas da época, como Eartha Kitt, Peter Ustinov, Maria Callas, Charles Aznavour ou Gina Lolobrigida. Houve um tempo em que o Duo Ouro Negro, que nasceu no sul de Angola na segunda metade da década de 50, de lá saíu como uma estrela cadente, para fazer escala em Lisboa antes de partir em direcção a outras e mais vibrantes constelações. Houve um tempo em que pareceu que Angola ia ser assim. Sendo originalmente um trio, foi já como duo que Raul Indipwo e Milo MacMahon - então conhecidos ainda com os seus nomes lusitanos, Raul Aires Peres e Emílio Pereira – se tornaram conhecidos graças às suas espantosas harmonias vocais e a um domínio exímio da guitarra. A princípio projectavam apresentar um elenco do folclore angolano e das suas várias etnias e línguas. Mas a canção que foram estrear ao Cine-Teatro Restauração, em Luanda, e que se tornou o seu primeiro grande êxito, já havia excedido esses limites. No seu registo impressionista e misterioso, "Kurikutela", cujo nome significa «comboio» e celebra o veículo de ferro onde «Toda a gente leva pressa/ de chegar à sua terra/ Estão os parentes à espera» ainda hoje se dá a ouvir como um caso à parte.

Na esplanada do Hotel Panorama (ilha de Luanda), refrescando-se com uma Coca-Cola e uma laranjada (1964)

Após o êxito conseguido na capital angolana chegam a Lisboa em 1959 pela mão do empresário cinematográfico Ribeiro Belga e, apesar da concorrência em voga no mundo da canção, conquistam em absoluto o público com actuações no Cinema Roma e no Casino Estoril, gravam três discos (inicialmente acompanhados pelo conjunto de Sivuca, depois pela orquestra de Joaquim Luís Gomes), passam pelos écrãs da RTP (onde nessa época se actuava sempre em directo) e regressam a Angola pouco antes do eclodir da guerra, em 1961. Até 1985, ano do falecimento de Milo (a 20 de Fevereiro), decorrerá então o período efervescente do Duo Ouro Negro, marcado por diversas fases e pela polarização do reportório (como todos, submetido à vigilância da censura prévia) entre os registos pop mais inanes e lustrosos de romantismo radiofónico, e outras canções que, não sendo de intervenção política, serão no mínimo de intervenção ideológica. O próprio ano de 1961, em que publicam "Garota" («...se eu beijar sua boca/ Deixará de ser garota/ Passará a ser mulher») e "Mãe Preta" (uma canção espantosa que fala da escravatura glosando a melodia do "Barco Negro" cantado por Amália) é um bom exemplo deste estado de coisas algo esquizóide: celebrados como verdadeiros ídolos em Angola – e ali impedidos pelos censores de interpretarem em palco parte do seu reportório – a presença mediática que conquistaram na metrópole fez com que aqui fossem olhados como um novo trunfo do regime, a garantia de que, apesar da guerra, a existência de um Portugal pluricontinental, como «muitas raças, um só povo» era um dado indesmentível.



O que não pode ser desmentido, porém, é que o verdadeiro trunfo do Duo Ouro Negro sempre foi a perspicácia e a actualidade da sua visão africanista, que também poderemos interpretar como uma fidelidade às origens. E isto apesar dos triunfos internacionais que lhes surgem pela frente logo na primeira metade dos anos 60, quando percorrem o norte da Europa e de lá regressam com versões em português dos Beatles ("Agora Vou Ser Feliz", em 1964, com nova letra sobre a melodia de "I Wanna Hold Your Hand") e de Charles Aznavour ("La Mamma") - antes ainda das actuações no Olympia parisiense (1965), das galas para os Príncipes do Mónaco (1966), do convite para o primeiro grande espectáculo televisivo da UNICEF e das primeiras actuações no Rio de Janeiro (1967). Estas últimas motivaram aliás nova explosão criativa, de início patente em temas como "Quando Cheguei ao Brasil": «Minha terra era Cabinda/ No Maiombe eu nasci/ Meu cantar era marimba/ Antes de vir para aqui// Quando cheguei ao Brasil/ Sem a minha liberdade/ Quando cheguei ao Brasil/ Tudo em mim era saudade». Era a celebração da diáspora africana, mas também o início do período afro-latino, que ao longo dos anos daria origem a temas como o espantoso "Moamba, Banana e Cola" (1969, com a orquestra de Jorge Leone), "Iemanjá" (1971), ou o encíclico "África Latina" (1979).


Comparativamente, a longa digressão pelo Extremo Oriente – a que o Duo se remete na primeira metade dos anos 70, após a sua exibição na Expo de Tóquio – não parece ter deixado grandes marcas no reportório que praticavam. Mais do que a miragem do que o nosso passado comum poderia ter sido, é a história de uma miragem de futuro, também ela invulgar, e que pode sintetizar-se, afinal, em breves linhas: «Sou da África Latina/ Sou do século 21/ Nossa gente está por cima/ Todos juntos somos um». É a grande vantagem das canções.

NOTA: Esta dupla coletânea, que uma vez mais aqui se disponibiliza, resultou do alargamento de um primeiro apanhado de trinta canções do Duo Ouro Negro intitulado "30 Pedaços de Saudades". Esse CD ocupa aqui a primeira parte desta coletânea (Disco 1)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

MUXIMA - Homenagem Ao Duo Ouro Negro

Edição original em CD Farol FAR 91796
(PORTUGAL, 2010)

A tribute band dedicated to Duo Ouro Negro, a popular Angolan duo from the 1960s and '70s, Muxima is a Portuguese quartet who made their Top Five hit album debut with "Homenagem ao Duo Ouro Negro" in 2010. Founded in 1956 in Benguela, Angola, a country in southwest Africa that was an overseas province of Portugal until 1975, Duo Ouro Negro was comprised of Raul Indipwo and Milo MacMahon. They made their commercial recording debut in 1959. Though they were active throughout the '70s, they were most popular during the '60s, when they scored numerous hits and performed Portuguese-language covers of popular music of the era such as the Beatles ("Agora Vou Ser Feliz") and Charles Aznavour ("La Mamma"). Founded with the intent of paying tribute to the 50th anniversary of Duo Ouro Negro, Muxima is a quartet comprised of Janita Salomé (who hails from Portugal), Filipa Pais (Portugal), Ritinha Lobo (Cape Verde), and Yami (Angola). The album includes some Duo Ouro Negro favorites such as "Amanhã," "Maria Rita," and "Vou Levar-te Conmigo." Produced by Manuel d'Oliveira and Hélder Moutinho. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

DUO OURO NEGRO: "Mulowa Afrika"


Edição original em LP Columbia SPMX 5005
(PORTUGAL, 1967)


“Afrika Mulowa” foi o 2º álbum editado pelo Duo Ouro Negro. Composto maioritariamente por temas extraídos do folclore angolano, o LP continha ainda uma canção tradicional de Goa (“Canção da Despedida”), além do hit “Iliza (Gomara Saiá)”, um tema inspirado nas deambulações de Raul e Milo por Lourenço Marques (assim se chamava a capital de Moçambique), mais concretamente na célebre Rua Araújo, onde fervilhavam os cabarets e as casas de prostituição. O álbum teve o acompanhamento musical do grupo Thilo’s Combo e também do coro feminino da Emissora Nacional. Mais tarde, “Afrika Mulowa” viria a ser reeditado, primeiro em 1974 e depois em 1982, com uma nova capa, que reproduzia uma pintura africana de Raul Indipwo. Essa reedição seria alargada a outros países, como a França, a Alemanha, o Brasil, a Argentina ou os Estados Unidos, tendo neste último sido rebaptizado com o nome de “The Music of Africa Today”, para além de uma nova capa de gosto muito duvidoso.



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