Edição original em LP Columbia 8E 062 40136
(PORTUGAL 1972, Março 17)

Em 1969, o Duo Ouro Negro partiu para os Estados Unidos em digressão. A experiência que ali tiveram foi determinante para o que conheceríamos três anos depois. «Don’t forget your blackground», exclamaria em 1972 Raul Indipwo, voz saída de "Blackground", precisamente, álbum histórico da banda angolana. Despertados para o activismo dos Black Power, atentos ao jazz que se criava em terras americanas, a que se juntava o interesse pelos movimentos independentistas das colónias africanas, aquela que era então a mais internacional das bandas portuguesas gravaria em Lisboa um álbum de vibrante afirmação cultural através da música. Miguel Augusto Silva, fundador da editora Armoniz (que relançou agora o álbum original em vinil de 180 gr) refere que, apesar de ser hoje em dia um disco quase desconhecido, teve à época grande impacto, a que não terá sido alheio o facto de ter sido apresentação ao vivo, meses antes do lançamento, no histórico Festival de Vilar de Mouros de 1971. «Teve tanta importância na carreira deles que foi reeditado duas vezes, em 1974 e em 1985, com capas diferentes das originais». Em "Blackground", conta Miguel Augusto Silva, Raul Indipwo e Milo MacMahon «inspiram-se nas tradições de Angola e vão mais longe que antes na pureza [dessa abordagem] e na utilização das línguas tradicionais do país. Dão um novo contexto às músicas africanas, mostrando como estas saem de África e como voltam através de outras formas musicais».
É um disco sob influência da pintura de Eleutério Sanches, o grande artista angolano desaparecido em 2016, autor da capa. É um disco de sobreposições culturais – dos povos de Angola, do rock e do jazz, de uma história feita de escravatura, sangue e lágrimas, de viagem, de miscigenação, de superação. Mergulhando nele, falando com todos os envolvidos, Miguel Augusto Silva conseguiu revelar todas as camadas que o compõem. É da sua investigação que se percebe, exemplo determinante, que Raul Indipwo recorreu às recolhas da Diamang para, trocando as voltas ao propósito original - o de preservar o som de música e instrumentos em risco de desaparecer -, colocar aqueles músicos em diálogo frutuoso com o presente. Assim, podemos por fim compreender em toda a sua dimensão este álbum magistral em que o Duo Ouro Negro cria um portentoso fresco da música africana, e angolana em particular, partindo das suas raízes ancestrais até frutificar, do outro lado do oceano, no Missouri, no Mississipi, no Amazonas, no Rio de la Plata. Até se transformar em jazz, em rock, em blues ou em psicadelismo, abraçando o mundo antes de regressar a casa. Para o concretizar, o Duo Ouro Negro beneficiou de um contexto especial. «O início dos anos 1970 é um período muito particular e rico pela presença de músicos de várias proveniências em Portugal», afirma Miguel Augusto Silva. «Tínhamos os músicos britânicos ligados ao movimento mod e ao psicadelismo, como o Mike Sergeant e o Terry James Thomas [que pertencera aos Magic Mixture, banda de culto do psicadelismo inglês], músicos americanos como o Kevin Hoidale, um belga como o Adrien Ransy e, claro, os músicos angolanos». Todos contribuíram para que "Blackground" nascesse.
Luis N’Gambi, membro dos Rocks de Eduardo Nascimento, cruzara-se com o Duo Ouro Negro ainda em Luanda, mas foi em Lisboa que Raul pediu a sua colaboração. Disse-lhe Raul: «Preciso de um viola de música africana, mas que tenha também conhecimento de outras linguagens». Membro de uma banda yé-yé que, nos seus concertos, incluía também música africana («quando tocávamos na Holanda, adoravam essa parte do espectáculo»), foi imediatamente recrutado para o projecto: «A ideia era a união de músicos de várias expressões musicais. Era trazer a origem de África e fazê-la expandir-se pelo mundo». Com Kevin Hoidale a organizar a componente eléctrica com o baixista Zé Nabo, os guitarristas Terry James Thomas e Mike Sergeant e o baterista Adrien Ransy – «o Kevin foi importantíssimo para definir uma base musical sólida», afirma Luís N’Gambi -, com Raul Indipwo a dar corpo à música que brotava das suas mãos, da sua voz unida à de Milo Mac-Mahon, do dedilhado ágil de Luís N’Gambi e das percussões de Bonga, "Blackground" foi gravado no primeiro semestre de 1971 nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d’Arcos, sob a supervisão do lendário produtor Hugo Ribeiro, falecido em Dezembro de 2016, e homem que fora responsável, anos antes, pela contratação do Duo Ouro Negro pela editora. Seria lançado no mercado um ano depois, em 17 de Março de 1972.
Mais de quatro décadas depois, Bonga recorda-o. «Não se resumia às canções, ia muito mais longe», diz o responsável pelo vigor do pulsar rítmico do disco. O Duo Ouro Negro convocou-o para o gravar quando era ainda Barceló de Carvalho, campeão nacional de atletismo pelo Benfica. O homem que se tornaria Bonga na Holanda, quando, exilado, edita o fundamental "Angola 72", tinha perfeita noção do monumento que ajudava a construir. «Nele, mostrou-se que éramos povo, que éramos gente com história e cultura. Entrámos no mundo pela porta da frente. Mostrámos que esta mesma raça, mal tratada, espezinhada, estava presente no auge da criatividade e da cultura de todos os continentes. Não era musiquinha para mexer a bunda da mulata, exótica – os racistas ainda estavam nessa -, não eram só cantorias. Partia da sua terra, Angola, e viajava pelo continente para se apresentar ao mundo inteiro». Nas páginas do encarte de 12 páginas que acompanha a reedição lemos Raul Indipwo: «Houve uma certa audácia da nossa parte. Mas sem audácia andamos para trás em vez de avançarmos como deve ser. Isto é a concretização de muitos anos de trabalho. É a realização de um projecto muito antigo que me levou a estudar Etnografia, Música e História».

A primeira canção de "Blackground", homónima, inicia-se com uma breve apresentação da viagem que se seguirá. Narra-a Kevin Hoidale. É ele que faz ecoar as palavras escritas por Raul Indipwo - “don't forget your background, don't forget your blackground” - sobre o som da festiva roda de dança, a txianda, também ela recolha da Diamang, que nos introduz no cenário. Depois, é uma explosão de cor em jazz rock e Hammond alucinado, entre vozes harmonizadas em tom grave e a acidez de um solo de guitarra. Mais à frente, encontraremos "N'djimba". Canta Milo e canta Raul enquanto Sacamueca e seu discípulo, Mutondo, fazem ouvir as suas marimbas, vindas de longe no tempo e no espaço. Vozes celestiais, as magníficas vozes hamonizadas do Duo Ouro Negro, respondendo ao ressoar cintilante da marimba numa canção criada num gesto moderníssimo, samplagem antes de se ter inventado nome para isso. Cantado em chokwe, em quimbundo, em inglês em português, "Blackground" é uma pungente história de um povo e sua música, uma história de Humanidade, um inspiradíssimo e tocante festim musical. Tem o clássico "Amanhã", uma das canções mais populares do Duo Ouro Negro, semba tropicalista feito festa e resistência. Tem o tradicional "Napangula" que se verte em fervor eléctrico. Tem "Ondyaiya", canção cuanhama, a dançar o funk do baixo e o psicadelismo do Hammond ou essa "Georgina" resgatada ao cancioneiro moçambicano. Tem Milo e Raul em diálogo com a "N'djimba" de mestre Sacamueca e os rios todos que, dois dos lados do Atlântico, se unem no hino africano, hino sul-americano, gospel da América a norte que é "Yemanjá". Muitas e diversas são as camadas de que se faz "Blackground". Tantas quantas aquelas de que se revestem os seus criadores. Tantas quanta a incompreensão que continua a rodear o Duo Ouro Negro.
Apresentado em antestreia no festival de Vilar de Mouros, em 1971, ganharia também vida no palco do São Luiz, em Lisboa, num espectáculo de cerca de duas horas com forte componente cenográfica. Acabou, porém, por ter vida curta. Kevin Hoidale regressa aos Estados Unidos em 1973 (morreria em Minneapolis em 2012), Luis N’Gambi partira um ano antes para uma carreira no Brasil com a cantora, e sua mulher, Paula Ribas. Bonga, acossado pelo regime pelas ligações aos independentistas angolanos, fez o mesmo, exilando-se na Holanda, onde iniciaria a sua carreira a solo. Apesar de reeditado alguns anos mais tarde e da tentativa de lhe recuperar o espírito em 1981, num álbum duplo editado pela Orfeu (onde foram incluídas novas versões de quatro temas do disco original), "Blackground" foi-se desvanecendo enquanto obra ímpar, subsistindo enquanto título de culto citado por coleccionadores. «Apesar de todas as mudanças, nós somos os mesmos, com o mesmo objectivo: cantar o nosso povo, a nossa terra», defendia Milo Mac-Mahon em 1982, em entrevista ao semanário O Tempo. Raul Indipwo acrescentava: «Nós vamos ficar na História como os precursores, a nível mundial, de uma expansão cultural angolana e até portuguesa. A nível nacional, não há ninguém maior do que nós. A Amália é do nosso tamanho. Só que é a mulher mais linda que Portugal tem nas cantigas. Nós, Ouro Negro, somos a coisa mais linda que Angola e uma interpenetração de culturas podem ter». Olhando hoje, não é esse o tamanho que lhes está reservado. Não é esse o tamanho que lhes atribuem. (in jornal "Público")
