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sábado, agosto 09, 2025

BARRY LYNDON (1975)

BARRY LYNDON
Um filme de STANLEY KUBRICK


Com Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Kruger, Gay Hamilton, Marie Kean, Leonard Rossiter, Philip Stone, Leon Vitali, etc.

GB-EUA / 184 min / COR / 
4x3 (1.85:1)

Estreia na GB e nos EUA a 18/12/1975
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 25/2/1977 (estúdio Apolo 70)



«Penso que tem de se visualizar completamente o problema de pôr a história que se quer contar no rectângulo luminoso. Começa com a selecção do livro; continua através da criação do tipo correcto de financiamento e das circunstâncias legais e contratuais sob as quais vamos fazer o filme. Prossegue com o casting, a criação do argumento, dos cenários, dos adereços, da fotografia e da representação. E quando o filme já foi todo filmado, ele só está parcialmente terminado. Penso que a montagem é a continuação da realização. Os efeitos musicais, visuais e finalmente as legendas fazem parte do processo de contar uma história. E o repartir destes trabalhos por diferentes pessoas é uma coisa péssima.»   (Stanley Kubrick)


“It was in the reign of George III that the aforesaid personages lived and quarreled; good or bad, handsome or ugly, rich or poor they are all equal now”

“Barry Lyndon” foi dos filmes mais ansiosamente aguardados de Kubrick, que vinha de nos ofertar duas genuínas obras-primas do Cinema: “A Clockwork Orange”, em 1971 e sobretudo “2001: A Space Odyssey” em 1968. Oito anos e cinco meses, foi o tempo que decorreu entre a estreia em Lisboa (no Monumental, a 1 de Outubro de 1968) deste último filme e o aparecimento do “Barry Lyndon” no estúdio Apolo 70 a 25 de Fevereiro de 1977. Tempo  demasiado, quando se pensa que pelo meio até houve uma revolução e que só por causa dela tivemos direito em território nacional a mais um filme do genial realizador, essa “Laranja Mecânica” de contornos maquiavélicos, que se estreou nos cinemas Castil e Império a 29 de Novembro de 1974.

“Barry Lyndon” é um longo fresco de três horas, uma viagem obrigatória e fascinante por dezenas de quadros vivos do século das luzes que nenhuma pintura conseguiu representar tão bem como o fizeram as objectivas de John Alcott (algumas delas especialmente encomendadas à NASA, devido à pouca luz existente na maioria dos interiores – filmados, como se sabe, num processo até aí original, em que apenas velas de cera foram usadas como focos de luz). O filme, rodado nas paisagens naturais da Irlanda e Inglaterra (não se construíram quaisquer cenários) é baseado numa obra de pouca implantação de William D. Thackeray, da qual Kubrick conseguiu extrair o que lá não se vislumbrava sequer (uma das suas capacidades mais comuns, essa de conseguir converter romances medianos em absolutas obras de arte – veja-se o caso idêntico da já citada “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess).

A perplexidade dos críticos face à escolha deste escritor por parte de Kubrick foi exactamente a mesma com que esses críticos reagiram à decoração Luis XVI que envolvia a parte final de “2001: Odisseia no Espaço”. Ora acontece que essa decoração e este romance têm exactamente o mesmo século XVIII por enquadramento, o qual era um período histórico muito querido do cineasta. Relembrem-se, por exemplo, o quadro atrás do qual o Quilty da “Lolita” é morto; o castelo dos “Horizontes de Glória” (cujo luxo contrasta com a atmosfera das trincheiras); ou o casino abandonado da “Laranja Mecânica” (onde o bando rival de Alex tenta violar uma “miudoska” junto a uma pintura pastoral).

Uma das características deste século XVIII, na perspectiva de Kubrick, é a justaposição da violência e da morte à arte nele representada. Em “Barry Lyndon” o cineasta restitui a essa época o seu peso histórico, ressalvando para  plano decorativo toda a ligeireza de uma felicidade frívola e vaporosa. O mundo moderno nasceu efectivamente no século das luzes e Kubrick procura aqui as suas origens. Para ele a obra de arte é um diálogo entre o passado e o futuro e onde o presente se encontra excluído; e este princípio kubrickiano tem qualquer coisa de inquietante e destrutivo, uma vez que privilegia a morte face à vida. Para ele o século XVIII é uma época profundamente minada, esperando por uma destruição próxima e onde por detrás do luxo e dos prazeres reina a morte e a desintegração.

Barry Lyndon, personagem cujo trajecto de vida Kubrick acompanha a par e passo e durante um longo período de tempo, vai envelhecendo lentamente de uma ponta à outra do filme, como se a vida pressagiasse, em cada instante, a morte que virá. Barry não chega a morrer mas fica mutilado e imobilizado numa imagem fixa quando sobe para a carruagem que o irá transportar para fora da história e para fora do filme. E fica-nos apenas a voz-off que nos informa do regresso de Barry à Irlanda para de novo se entregar ao jogo, mas sem o proveito de outrora. E que depois o seu rasto se irá perder...

A ascenção e queda de Edmond Barry (sempre o fascínio do poder e do seu controle como tema constante na obra de Kubrick) sugere-nos uma versão prosaica da aventura napoleónica. O percurso de um jovem rural, com uma ambição desmedida que atravessa o mar para ir combater no continente, sobe rapidamente na vida mundana e depois inicia o processo inverso, acabando isolado na sua ilha natal, lembra-nos inequivocamente a própria vida de Bonaparte. Tal como refere a voz-off no filme, «Barry faz parte dos que nasceram suficientemente inteligentes para alcançarem a fortuna mas que são incapazes de a manter. Porque as qualidades e a energia que levam um homem a cumprir a primeira missão são muitas vezes as mesmas que o levam depois à sua perdição»

Barry Lyndon” é um filme extremamente belo, talvez o esteticamente mais perfeito de Kubrick e mesmo da história do Cinema. É uma beleza que se derrama em todos os nossos sentidos, sem excepção, e que por lá se mantém em cada memória do filme. É por isso que é tão gratificante vê-lo tantas e tantas vezes. E mais uma vez a música teve honras de prima-dona. Tal como “Assim Falava Zarathrusta” ou o “Danúbio Azul” dos Strauss identificava “2001” e a “Nona” do Beethoven ou a “Pega Ladra” do Rossini se colavam para sempre à “Laranja” (não esquecendo o “Singin’ in the Rain”) em “Barry Lyndon” é sobretudo a exaltante “Sarabande” de Handel, que faz deste novo concerto kubrickiano uma soirée inesquecível, que vai do ritmo das marchas e da graça das danças de O’Riada até ao Trio de Schubert. Logo desde o momento da première que a associação entre as imagens e a música ficará para sempre convertida num espelho de dupla face, no qual nos iremos revendo ao longo das nossas vidas.

Mas não é apenas a música a narrar a história ambígua de Edmond Barry. Para além dela temos também a excelência do guarda-roupa, a arquitectura dos salões, dos jardins e dos seus lagos, a conferirem à narrativa a distinção suprema da arte kubrickiana. A câmara de filmar regista toda esta beleza transbordante nos mais pequenos pormenores dos gestos, dos olhares e dos espaços envolventes da ociosidade absoluta de uma classe social com comportamentos de autómato e caras de manequim, que por um espaço de tempo relativamente breve vai tolerar a presença do objecto estranho que Edmond Barry representa, antes de o expulsar e remeter definitivamente às suas origens.

Depois daquele dramático duelo final (que levou qualquer coisa como 42 dias a ficar pronto na mesa de montagem), um dos momentos magistrais de todo o filme (e que curiosamente não constava do livro, foi totalmente inventada por Kubrick) onde uma mis-en-scène de enquadramentos xadrezísticos confere uma dimensão quase épica ao confronto entre padrasto e enteado. Depois do já citado “desaparecimento” de Edmond, vem o epílogo quase fantasmagórico no salão de Lady Lyndon. A ordem aristocrática foi enfim restabelecida e de Barry não restará mais nada que uma pequena nota de pagamento para ser assinada. Uma pausa, uma breve recordação e é tudo.

CURIOSIDADES:

- A rodagem do filme estendeu-se por cerca de 300 dias, durante um período de dois anos, tendo-se iniciado na Irlanda por volta de Junho de 1973. Posteriormente a equipa teve de mudar para Inglaterra por se ter tido conhecimento que o nome de Stanley Kubrick constava numa lista do IRA de alvos a abater.

- Robert Redford foi a primeira escolha de Kubrick para o papel de Barry Lyndon mas o actor recusou. Nessa altura, e devido ao estrondoso êxito de “Love Story” alguns anos antes, Ryan O’Neal era o segundo da lista dos actores mais rentáveis de Hollywood, logo a seguir a Clint Eastwood; e a Warner Bros exigiu ao realizador que o nome do actor escolhido fizesse parte dessa lista, caso contrário não financiaria o filme. Como os restantes nomes do Top 10 eram actores já de certa idade ou inapropriados para o papel, Kubrick não teve outro remédio senão entregar o papel principal a Ryan O’Neal, o qual, diga-se, revelou-se essencial para o desempenho daquela personagem.


- Influenciado certamente por Sergio Leone, Kubrick costumava tocar trechos da banda sonora durante a rodagem das cenas para assim influenciar a representação dos actores.

- Marisa Berenson era apenas um ano mais velha do que Leon Vitali, o actor que faz de seu filho mais velho (Lord Bullingdon). Nos meses que antecederam as filmagens a actriz deixou de se expôr ao sol, seguindo as ordens de Kubrick para desse modo adquirir a palidez necessária ao desempenho de Lady Lyndon.

- O filme foi o vencedor de 4 Oscars: Direcção Artística e Cenários, Cinematografia, Guarda-Roupa e Música. Teve ainda mais 3 nomeações: Filme, Realização e Argumento-Adaptado. O grande vencedor da Academia seria nesse ano "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com um total de 5 Oscars. Stanley Kubrick ganharia o BAFTA inglês.







segunda-feira, novembro 25, 2013

2001: A SPACE ODYSSEY (1968)

2001: ODISSEIA NO ESPAÇO
Um filme de STANLEY KUBRICK

Com Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Daniel Richter, Leonard Rossiter, etc.

EUA-GB / 141 min / COR / 16X9 (2.20:1)

Estreia nos EUA a 6/4/1968
Estreia na GB a 10/5/1968 (Londres)
Estreia em PORTUGALl a 1/10/1968
(Lisboa, cinema Monumental)
Estreia em MOÇAMBIQUE a 4/5/1969
(LM, teatro Manuel Rodrigues)


HAL: «I'm afraid. I'm afraid, Dave. Dave, my mind is going. I can feel it. I can feel it. My mind is going. There is no question about it. I can feel it. I can feel it. I can feel it. I'm a...fraid. Good afternoon, gentlemen. I am a HAL 9000 computer. I became operational at the H.A.L. plant in Urbana, Illinois on the 12th of January 1992. My instructor was Mr. Langley, and he taught me to sing a song. If you'd like to hear it I can sing it for you»
Dave Bowman: «Yes, I'd like to hear it, HAL. Sing it for me»
HAL: «It's called "Daisy" [sings while slowing down] Daisy, Daisy, give me your answer do. I'm half crazy all for the love of you. It won't be a stylish marriage, I can't afford a carriage. But you'll look sweet upon the seat of a bicycle built for two»

A reposição de "2001: ODISSEIA NO ESPAÇO" em circuito comercial (muito embora limitada a uma única sala do El Corte Inglês, em Lisboa, com 4 sessões diárias, 11:30, 15:00, 18:15 e 21:30 horas) peca por tardia mas é extremamente oportuna. E isto por causa do filme "Gravidade", já por aqui abordado e ainda em exibição. Quando o filme de Alfonso Cuarón se estreou, não faltaram críticos apressados que, um pouco por todo o lado, soltaram aos quatro ventos verborreias de admiração, tais como "magnífico", "genial" ou "obra-prima". Ou, mais alarvemente, «Um novo 2001!». Uma das coisas que me continua a surpreender hoje em dia é a ligeireza com que se atribui a cotação máxima a qualquer filme melhorzinho que por aí apareça. Tal sobre-valorização significa uma de duas coisas: ou uma falta de cultura cinematográfica gritante (e portanto sem referências antigas para comparação), ou, em alternativa, uma falta de memória muito preocupante. Mas agora, e pelo menos por uma vez, existe a oportunidade de se assistir em paralelo a estes dois filmes em salas de cinema vizinhas, devidamente apetrechadas. Vão vê-los de olhos e mentes bem abertas e descubram as diferenças entre um bom filme e uma obra de génio. (Nota: A cópia em exibição de "2001", não é famosa ao nível da imagem. Pena que a UCI não tenha recorrido à cópia digital - que tenho em casa, em formato blu-ray - na qual o filme atinge todo o seu esplendor).

Filme charneira por direito próprio (há o antes de e há o depois de, e não sómente no campo da ficção científica), 2001: A SPACE ODYSSEY” constitui uma experiência sem paralelo na história do cinema. Stanley Kubrick não foi apenas um cineasta inconformista ou original. Foi um dos maiores artistas do nosso tempo que por acaso se expressou através do celulóide. Todas as obras que nos legou acusam o vigor da sua personalidade e a inquietação das suas preocupações. Intransigente perfeccionista da imagem, manipulador incansável de todas as técnicas, pintor barroco dos esplendores e dos horrores do mundo, analista minucioso dos nossos mitos e da nossa história, Kubrick projectou o universo à sua medida, não sem lhe descobrir, para além de uma meditação irónica sobre o homem, alguns terríveis mistérios.

2001” testemunha da melhor forma o labor deste realizador ímpar, emprestando ao tema todo o fascínio da aventura humana mas também toda a inquietação dos futuros que se constroem na carne e se prolongam no tempo e no espaço. Para os milhões de espectadores que desde 1968 até hoje decretaram o triunfo do filme – apesar daqueles que falaram de “aborrecimento abissal” – “2001” foi sobretudo uma experiência sensorial (não só visual) completamente nova, a percepção de um “espaço” inédito. Ultrapassando o cinema superficial e das superfícies, “2001” abria no écran uma profundidade absoluta, a do puro negro espacial; e através dele devolvia ao espectador o prazer fílmico de seguir o movimento de coisas e objectos, mais do que uma história determinada: ou melhor, de ver a história construir-se e desenrolar-se como facto físico e mutação de imagens.

Reconstruindo o futuro (hoje já presente) na mais criteriosa das mise-en-scènes possíveis, Kubrick teve para tanto de trabalhar intimamente com os mais diversos especialistas, desde o argumentista Arthur C. Clarke (um dos mais férteis e rigorosos ecritores de ficção científica) até aos mais competentes técnicos da N.A.S.A., organismo que lhe disponibilizou milhares de fotografias e informações técnicas. Kubrick e Clarke consultaram profissionais de todos os ramos afim de averiguarem o que seria o mundo nos trinta anos seguintes, desde os meios de locomoção ao vestuário e aos costumes: «Não quisemos ir muito longe no espaço e no tempo porque o que nos parecia mais interessante era a tomada de consciência do homem da existência de vida extraterrestre e o primeiro contacto com esta inteligência. Para além deste estádio, o espírito humano encontra-se desorientado».

Logo a abrir somos introduzidos na pré-história da humanidade. Kubrick chama-lhe "The Dawn Of Man" (“O Alvorecer do Homem”) e dá-nos a ver diversas tribos simiescas que lutam pelo controle de zonas territoriais onde a existência de água é essencial à sobrevivência, e se aconchegam em grutas para se protegerem dos perigos da noite. Subitamente estes primeiros antepassados do homem são postos perante um novo elemento: uma laje negra, lisa e dura. Passada a confusão gerada por aquela presença, inexplicável e misteriosa, o chefe da tribo ousa aproximar-se do monolito e tocar-lhe, no que é imitado pelos outros. Mais tarde, a imagem mental do monolito leva o chefe da tribo a descobrir a possível utilização de um osso como "instrumento", isto é, como uma extensão do braço e da mão do homem, uma arma capaz de lhe dar o controlo da água e das tribos vizinhas: é a primeira e determinante etapa do processo que o irá conduzir à apropriação do universo.

O monolito negro, uma das maiores referências de “2001” (a outra é sem dúvida o computador HAL) é-nos apresentado simultâneamente como uma ameaça e como um sinal de esperança em três momentos decisivos da evolução humana, e que são as partes em que o filme se divide. Não interessa aqui procurar a sua génese. Quer seja uma imagem de Deus, de extra-terrestres ou de uma qualquer força cósmica, o monolito simboliza o desconhecido, o medo pelas coisas ou situações nunca dantes experimentadas mas que por isso mesmo exerce uma tão grande atracção e curiosidade.

Um corte abrupto na sequência (magnífico raccord, da forma do osso para a forma da nave) e eis-nos no ano de 2001, a bordo de Orion III, confortável nave espacial, que leva os homens da Terra até a um satélite artificial. O Dr. Heywood Floyd (William Sylvester) é o único passageiro desta viagem que é continuada até à Lua, agora a bordo de uma outra nave, Avies 1-B. A finalidade da viagem é estudar um misterioso monolito, descoberto na base de Clavius, e que emite sinais em direcção a Júpiter.  Tudo dentro do maior secretismo, inventando-se uma historia de epidemia para desviar a curiosidade dos parceiros soviéticos. Uma visita de Floyd e de outros cientistas americanos ao local do monolito confirma o seu carácter "sobrenatural" e os seus laços com o grande espaço.

A terceira parte do filme fala-nos de uma nova viagem, desta vez até ao próprio planeta Júpiter. Uma nave espacial, a Discovery, pilotada por um computador da novíssima geração 9000 (a quem chamam Hal) e por dois cosmonautas, David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood), leva ainda a bordo (em hibernação) três cientistas. Antes de avistarem o novo planeta, os cosmonautas têm vários problemas com o computador. Hal, devido a uma falha ou a programação secreta, elimina Poole e os três hibernados. Dispõe-se a fazer o mesmo com Bowman, mas este consegue desligá-lo, matá-lo, apesar das suas súplicas.

Depois de consumada a "lobotomia", Bowman reinicia a aproximação a Júpiter a bordo de uma pequena nave. Já sem comunicações, sózinho no espaço, Bowman perde-se na atmosfera de Júpiter e no espaço infinito, atravessando um espaço-tempo enigmático, um túnel de luz e de astros que parece conduzi-lo ao centro do cosmos. Aí, no meio do desconhecido, onde nada possibilita ainda uma explicação e o mistério é absoluto, Bowman irá olhar-se a si próprio, confrontando-se com os seus medos e interrogações, envelhecendo e renascendo num espaço em que se conjuga o passado com o presente, e onde tudo adquire uma importância transcendente (veja-se todo o ritual de Bowman à mesa ou a contemplação da quebra de um simples copo).

E é aqui, ao contrário dos primeiros capítulos do filme que possibilitam uma leitura literal dos acontecimentos, que a impossibilidade dessa mesma leitura se manifesta, suscitando no espectador desconcertado um verdadeiro delírio de interpretação como se houvesse urgência em esclarecer tudo isso: metafísica, religião, ciências..., com convocatória dirigida em boa e devida forma à psicanálise para esta dar a sua versão sobre naves de forma fálica, regresso do feto, tudo à sombra da figura presente-ausente do Pai-monolito. Exercícios louváveis, mas um pouco estafados quanto ao objectivo. Pois, tal como o monolito, o próprio filme é aquele objecto monumental e enigmático que apenas pode ser tocado e não explicado (quando deixar de haver segredo, também não haverá objecto para ver e tocar).

Esse toque também se faz com a vista, querendo Kubrick significar assim aos espectadores (e aos críticos) que caminham por sua conta e risco. E que, de qualquer modo, o objecto resiste: é nesta extraordinária capacidade de resistência ao tacto que “2001” melhor se revela, nas diferenças radicais que o distinguem dos outros filmes, dos chamados filmes "normais". Basta atentarmos no facto de em duas horas e dezanove minutos de filme haver um pouco menos de quarenta minutos de diálogos, para nos apercebermos que 2001” é na sua essência uma experiência não verbal, intensamente subjectiva, cujo objectivo principal é atingir um nível profundo de consciência do espectador, exactamente como a pintura ou a música.

Relembremos Kubrick: «Sempre me pareceu que a artística e verdadeira ambiguidade – se é que pode usar-se este paradoxo – é a mais perfeita forma de expressão. Ninguém gosta que lhe digam nada. Tomemos como exemplo Dostoievski. É extremamente complicado dizer o que sentia por cada uma das suas personagens. Diria que a ambiguidade é o produto final quando se evita a superficialidade e as verdades evidentes».

“2001: A SPACE ODYSSEY” é assim uma espécie de infracção contínua à narrativa; o regresso do monolito ameaça permanentemente o desenrolar da história com o seu próprio mistério. É por isso que não se tem desejo de falar do filme, apenas se sente a necessidade de a ele se voltar, de tempos a tempos; e, o que é extraordinário, tornamos a vê-lo exactamente como o vimos no primeiro dia. Última astúcia de Kubrick para um filme que fala de eternidade e conta os seus recomeços. Não se tem desejo de falar dele, mas é um dos filmes da história do cinema sobre o qual mais se escreveu. É talvez o único decifrado imagem por imagem, segundo por segundo. O único momento de emoção "falada" no filme, é a desconexão de Hal, quando se quer justamente reduzi-lo ao silêncio.

Citando ainda Kubrick: «é possível, mesmo provável, que os habitantes de um outro planeta tenham já atingido o desenvolvimento científico e técnico que será o nosso daqui a mil ou cem mil anos, e que nós vivamos sob o olhar e o controle dessa civilização. Ora, o homem de amanhã, com a longevidade consideravelmente aumentada, tendo à sua disposição constante todo um conjunto de conhecimentos e com os fulgurantes progressos da velocidade dos meios de transporte, poderá possuir os três atributos de Deus: a eternidade, a omnipresença e a ubiquidade».

"2001 é o reflexo preciso dessa confiança inabalável no destino e nas potencialidades humanas. Toda a construção da obra nos afirma isso, documentando, desde a época símia, o constante repto que o Homem opõe ao desconhecido, ao mistério, a todas as lajes negras, lisas e duras que se lhe atravessaram no caminho prefigurando o futuro. Caminho que está longe de terminar, porque para além de Júpiter novos desafios, novos mundos, novos universos esperam a sua aventura. As lajes mais não são do que momentos que se ultrapassam: primeiro habitando a Terra, depois explorando a Lua, finalmente atingindo outros planetas. Passando o ceptro de mão em mão, de geração para geração, de homem em homem. Por isso, é ainda um rosto admirável de criança que nos contempla no derradeiro plano de 2001: A SPACE ODYSSEY”.

Perante um filme como este, é inútil acumular adjectivos, pois quase nada daquilo que se possa aqui dizer será suficiente para lhe fazer justiça. “2001” é uma obra-prima que ultrapassa grandemente o género em que está enquadrada para se situar, por direito próprio, num lugar privilegiado dentro da história do cinema. Ou ainda mais: na arte do nosso tempo. Embora o filme tenha custado 10,5 milhões de dólares, fez um lucro de 31 milhões por todo o mundo em apenas 4 anos, até ao final de 1972 (segundo o sempre preciso IMDB, em 31/12/2001 os lucros do filme já ascendiam a 239,621 milhões de dólares). Ganhou o Óscar para os Melhores Efeitos Especiais, o único Óscar atribuído a um filme de Stanley Kubrick. O que efectivamente não passa de um fait-divers, sabendo-se hoje o estatuto mítico que “2001” adquiriu. O passar dos anos é-lhe completamente transversal e o seu poder permanece intacto ao continuar a recrutar legiões sucessivas de admiradores.

CURIOSIDADES:

- Kubrick escreveu o argumento original do filme ao mesmo tempo que Arthur C. Clark escrevia a novela. Trabalhando simultâneamente, os dois homens iam alterando os dois escritos por sugestões de um e de outro, não se preocupando qual das obras seria em primeiro lugar publicada. Acabou por ser o filme a estrear-se primeiro.

- Inicialmente Kubrick tinha pensado em Alex North para escrever a música do filme. Mas durante a rodagem, ao pôr música clássica no set para criar ambiente, apercebeu-se do efeito que essa música tinha nas imagens já filmadas e optou por usá-la na montagem final. A música composta entretanto por Alex North foi editada mais tarde como "Alex North's 2001".

- Incrementando cada uma das letras de "HAL" obtém-se "IBM". Arthur C. Clark afirmou não se ter apercebido de tal facto na altura, pois caso tivesse reparado nesse pormenor teria alterado o nome do computador. O nome de "HAL" vem de "Heuristically programmed ALgorithmic computer".


- A voz de Hal pertencia a Douglas Rain, que nunca visitou o local de filmagens. Os actores Nigel Davenport e Martin Balsam chegaram a ser considerados para esse papel.

- Kubrick usou várias toneladas de areia importada (que foi entretanto lavada e pintada) para as cenas na superfície da Lua.

- De acordo com Douglas Trumbull, a metragem total do filme era cerca de duzentas vezes superior à usada na montagem final.


- Arthur C. Clarke chegou a afirmar que se as pessoas entendessem totalmente 2001”, era porque qualquer coisa tinha falhado. A intenção tinha sido sempre a de colocar mais interrogações do que dar respostas.

- O tema "Echoes", do album "Meddle" dos Pink Floyd, pode ser sincronizado com a sequência "Jupiter and Beyond the Infinite". Na verdade, ele foi composto de modo a ilustrar essa sequência do filme.

- A filha de Kubrick, Vivian, aparece no filme como sendo a filha do Dr. Floyd (a quem este telefona para lhe dar os parabéns).


- A voz do controlador da missão pertence a Frank Miller, membro da Força Aérea Norte-Americana que na vida real teve a responsabilidade de controlar diversas missões aéreas.

- Dan Richter, que vestiu a pele do macaco Moonwatcher, coreografou a maioria das sequências da primeira parte do filme ("The Dawn of Man").

- De acordo com Isaac Asimov, Stanley Kubrick teria solicitado à Lloyd's de Londres um seguro contra perdas pessoais caso alguma inteligência extra-terrestre fosse descoberta antes do filme se estrear. A companhia inglesa negou-lhe esse pedido.


- O monolito começou por ser um tetraedro negro, mas como não reflectia bem a luz, Kubrick pensou então em utilizar um cubo transparente. Tal também não resultou devido às reflexões criadas pelas luzes do estúdio. O monolito negro finalmente executado tinha as proporções de 1X4X9.

- Ao saír da estreia do filme em Los Angeles, o actor Rock Hudson afirmou: « Will someone tell me what the hell this is about?»

- Quando se estreou, o filme tinha mais cerca de 20 minutos, que foram posteriormente retirados por Kubrick, ao fazer a montagem definitiva com que o filme passou a ser exibido em todo o mundo.  

   

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