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segunda-feira, agosto 11, 2025

SWEET CHARITY (1969)

A RAPARIGA QUE QUERIA SER AMADA
Um filme de BOB FOSSE


Com Shirley MacLaine, John McMartin, Chita Rivera, Paula Kelly, Stubby Kaye, Barbara Bouchet, Ricardo Montalban, Sammy Davis Jr., Ben Vereen, etc.


EUA / 149 min / COR / 16X9 (2.20:1)


Estreia nos EUA a 1/4/1969
Estreia em Moçambique (L.M.) a 12/9/1969 (teatro Scala)
Estreia em Portugal (Lisboa) a 22/1/1970 (cinemas Mundial e Vox)



Oscar Lindquist: «The odds against us are at least a hundred to one»
Charity Hope Valentine: «Those are the best odds I ever had»


«Adoro o cinema - acho que foi uma paixão que começou quando vi pela primeira vez um filme, qualquer coisa parecida com uma fita de Tarzan. Não vejo limites para as possibilidades do cinema, à excepção dos limites do espírito do realizador. Também acho que fui durante toda a minha vida um pintor frustrado. A câmara permitiu-me finalmente a hipótese de fazer um pouco de pintura. Realizei "Sweet Charity" com base mais na minha ignorância do que na minha coragem.» (Bob Fosse)

O fascínio das "possibilidades do cinema" e o fascínio pela "pintura com a câmara" são constantes óbvias do cinema de Bob Fosse. Neste inovador filme, baseado livremente nas “Noites de Cabíria” (1957) de Federico Fellini, Fosse fragmenta os números musicais, quer multiplicando as interferências dos processos mecânicos do cinema (imagens fixas, encadeados, exposições duplas, zooms, etc.) quer coreografando os ângulos de câmara e o que a câmara apanha, mais do que coreografando bailarinos.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas basta chamar a atenção para números como "My Personal Property", "If My Friends Could See Me Now" e "I'm A Brass Brand", em que os problemas de transição espacial e temporal dentro do mesmo número são eliminados com o recurso ao jump-cut, recurso que permite a Fosse mostrar Shirley MacLaine a dançar em sucessivos espaços não relacionados, dando a cada número um movimento que a dança de MacLaine, pouco apta nesse campo, não lhe poderia efectivamente proporcionar.

Aliás, quando não é obrigada a dançar, Shirley MacLaine é perfeita no seu papel de anti-Cinderela, uma composição tocante e comovente na sua generosidade e ingenuidade sem limites. E se um dia me perguntarem o que é uma actriz, responderei citando a cena do Registo Civil, em que Shirley vai trauteando a marcha nupcial enquanto Oscar diz que não pode casar com ela. Mais uma fabulosa interpretação da mana mais velha do Warren Beatty, entre tantas outras que a famosa actriz nos habituou ao longo dos anos.


"Sweet Charity" é um filme / peça musical que não poderia ter uma designação mais feliz. Charity Hope Valentine (um nome escolhido a dedo também) é uma acompanhante de um salão de dança de Nova Iorque (evidentemente que nesses antigos espaços a dança mais não era do que um pretexto para outro tipo de companhia…) que ambiciona largar essa vida e assentar com o “homem dos seus sonhos”. Mas a realidade sobrepõe-se a esse desejo, só possível mesmo de concretizar em contos de fadas e príncipes encantados, ainda que Charity possua um coração do tamanho do mundo, onde alberga toda uma paixão pela vida.

Bob (Louis) Fosse (1927 – 1987), coreógrafo e realizador americano nascido em Chicago de mãe irlandesa e pai norueguês (foi o último dos seis fllhos do casal), tentou o Cinema logo no início dos anos 50, com a ambição de se vir a tornar num novo Fred Astaire. Depois de algumas aparições como actor, chega a coreografar dois musicais (“The Pajama Game”, em 1954 e, no ano seguinte, “Damn Yankees”), antes de se mudar, com certa relutância, para a Broadway. É aqui que desenvolve os seus dotes de coreógrafo, incluindo “Sweet Charity” em 1966, peça que o traria de novo ao mundo do cinema dois anos depois.

Quando o filme se estreou nos EUA), auspiciou-se o renascimento do musical como género. É evidente que tal não aconteceu: o género não renasceu e provavelmente nunca mais renascerá - questão que se prende menos com a aparição de génios individuais do que com as estruturas de produção do cinema americano a partir da década de 60 - mas "Sweet Charity" representou um momento de inegável frescura, que hoje em dia ainda se mantém, muito por causa dos fabulosos números musicais, para além da já citada brilhante interpretação de Shirley MacLaine.

Bob Fosse ainda nos deixaria três filmes incontornáveis: “Cabaret” (1972), que lhe valeria o Oscar de melhor realizador; “Lenny” (1974), com mais uma nomeação; e o semi auto-biográfico “All That Jazz” (1979), igualmente nomeado para o melhor realizador e também argumentista, de parceria com Robert Alan Arthur. Este último filme ganharia ainda a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1980. Em 23 de Setembro de 1987 Bob Fosse encontrava-se em Washington, onde uma nova produção de “Sweet Charity” iria subir à cena no National Theater. À hora de início do espectáculo, por volta das 7 da tarde, Bob sofreu um ataque de coração no seu quarto do Hotel Willard. Levado de urgência para o hospital, viria a falecer algumas horas depois. Tinha 60 anos.


Como já vem sendo hábito, quem quiser o DVD do filme terá de o mandar vir de fora, pois infelizmente em Portugal acabaram de vez com as vendas de filmes (vá-se lá saber a razão). Esta edição PAL é facilmente encontrada em qualquer loja da net e por um preço muito acessível. Inclusivé traz legendas em português e diversos bonus, incluindo o final alternativo que Fosse filmou na altura, receando que a Universal não gostasse do original. Pelos vistos gostou, e foi pena. Porque este outro final, apesar de ser um “happy ending”, não o é de modo taxativo. E, por outro lado, é muito mais condizente com o tom geral do filme. Confesso que aquele grupinho “hippie” do final original sempre me soou um pouco a falso e uma cedência aos costumes da época. Uma das facetas mais reconhecidas na personalidade de Bob Fosse sempre foi o cinismo, algo que trouxe mais-valias em outros projectos do realizador. Mas não aqui, em “Sweet Charity”. Por isso façam a experiência de concluir o filme com os dois finais alternativos e vejam como ele pede aquele “happy-ending” – não nos esqueçamos que se trata de um musical, apesar da inspiração colhida no drama de Fellini.

CURIOSIDADES:

- Primeiro filme de Chita Rivera, Lee Roy Reames, Chelsea Brown e Ben Vereen

- A produção original da Broadway (da autoria de Neil Simon e já coreografada por Bob Fosse) estreou-se no Teatro Palace de Nova Iorque, em 29 de Janeiro de 1966, onde se manteve durante 608 apresentações.

- “Sweet Charity” foi nomeado para 3 Óscares (Banda-Sonora, Guarda-Roupa e Direcção Artística e Cenários), tendo concorrido também para o Globo de Ouro do melhor Musical ou Comédia.




LOBBY CARDS:


domingo, junho 15, 2025

THE APARTMENT (1960)

O APARTAMENTO

Um filme de BILLY WILDER


Com Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen, David Lewis, etc.

US /125m / PB /16X9 (2.39:1)

Estreia nos EUA: 15/6/1960

Estreia em PORTUGAL: 9/11/1961 (Lisboa, cinema São Jorge)


Fran Kubelik: «Some people take, some people get took. And they know they're getting took and there's nothing they can do about it.»

Foi depois de ver o filme "Brief Encounter" (1945), de David Lean, que Billy Wilder interiorizou a personagem de alguém que alugava o quarto aos dois amantes do filme e que em seguida tinha de voltar para a cama ainda quente. A ideia de realizar um filme a partir dessa premissa teve de se manter durante 15 longos anos até ao abrandamento da censura norte-americana lhe permitir realizar a obra projectada no seu pensamento. Sérgio Vaz escreveu no seu blogue de cinema que «"O Apartamento" é um dos melhores filmes que já foram feitos. Nada menos do que isso. Pertence àquela categoria excepcional dos pouquíssimos filmes perfeitos, em que nada sobra, nada falta. Tudo o que se vê na tela é obra de gênio. É, muito provavelmente, a comédia dramática mais dramática, mais triste, mais amarga que já foi feita.»


Concordo, uma vez mais, com a opinião deste meu amigo paulista: "O Apartamento" é na verdade um filme perfeito. Tudo o que lá se encontra, desde os diálogos mais simples até aos movimentos de câmara mais elaborados, não é por acaso. Tudo tem um objectivo, mesmo que nas primeiras visões não se note. Mas veja-se o filme repetidamente (como eu não me canso de fazer) e decerto que não se arrependerão pelo facto de a cada visão poderem descobrir novos sentidos e novas nuances, o que só prova a genialidade de Billy Wilder
Repare-se, logo no início do filme, aqueles dois travelings (um de baixo para cima, a mostrar o edifício da empresa e outro em profundidade, a mostrar o enorme espaço do escritório comum). Em dois simples movimentos de câmara Wilder mostra-nos o principal tema do filme: o desejo da subida hierárquica dos muitos milhares de funcionários daquela empresa. Wilder vai focar-se apenas num em particular, mas a situação descrita poder-se-ia aplicar a muitos outros.



Do ponto de vista da moral, em "O Apartamento" não existem inocentes. Todos, sem excepção, querem aumentar a sua auto-estima e o conveniente status-social. É um mundo de "vampiros", onde cada um vai buscar o seu prazer e segue o seu desejo com egoísmo. Até C.C. Baxter (Jack Lemmon, no pico da sua carreira aos 35 anos) e Fran Kubelik (Shirley Maclaine, também no seu melhor e com apenas 26 anos) são pessoas calculistas e ambiciosas. O primeiro, cujo salário na empresa Consolidated Life de Nova York é de apenas 70 dólares, reside num apartamento de solteiro de duas assoalhadas, cuja renda mensal é de 85 dólares. É obrigado por isso a "rentabilizar" o local, emprestando (leia-se "alugando") a chave do mesmo várias vezes por semana a alguns dos seus superiores, para que estes lá possam ir com as colegas habituais para darem a "facadinha" da praxe. Com isso, ganha em duas frentes: o de conseguir um dinheiro extra mensal e a possibilidade de progredir rapidamente na carreira. Já Miss Kubelik, ascensorista tida como de "acesso" difícil, é a amante actual do patrão da empresa e vê, nessa ligação e na possibilidade de um futuro casamento (dependente do divórcio com a esposa legítima poder acontecer), a sua grande chance de trepar pela hierarquia social. Uma vantagem que se junta à sua aparente afeição por Jeff Sheldrake.



O cinema de Billy Wilder foi quase sempre conotado com a morbidez e a subversão. E esses dois substantivos, mesmo sem o parecer numa primeira e rápida visão, atingem um dos seus pontos mais altos aqui, em "O Apartamento". Numa crítica ao filme publicada no nº 113 dos Cahiers du Cinéma por Jean Douchet, em Novembro de 1960, pode ler-se: «Para Wilder, os homens arrastam-se na imundície. A sua condição, que resulta da sua indolência, é quase desesperada. A salvação só pode vir de uma tomada de consciência desse estado. A nostalgia da pureza nasce de um desgosto profundo. As personagens de Wilder, definitivamente, são românticas, idealistas, mergulhadas na torpeza, ela própria consequência da decadência de uma civilização, do apodrecimento de uma sociedade.»



Até a cena final, que grande parte do público toma por um "happy-ending", é ambígua e pessimista. Baxter e Miss Kubelik estão juntos, é verdade. Mas com o que é que se entretêm? Beijos e carícias? Uma relação mais íntima no quarto ao lado? Não, limitam-se a jogar às cartas! E o último diálogo que se ouve no filme é este: 

C.C. Baxter: «You hear what I said, Miss Kubelik?
 I absolutely adore you.»
Fran Kubelik: «Shut up and deal...»

Ou seja, nada nos garante que a vida que os espera seja um caminho de rosas. Para já, não passam de um homem e de uma mulher, que nem sequer atingiram o estatuto de amantes, e que estão ambos desempregados. Perderam as suas ilusões ao recusarem compromissos e colocaram-se à margem da sociedade, pois quem não se submete ao jogo do poder perde toda a esperança de alcançar a tão desejada aceitação social.



No livro biográfico de Hellmuth Karasek sobre Billy Wilder, o realizador recorda a palestra que deu em 1961 em Berlim Oriental, perante uma plateia de artistas e intelectuais comunistas, que aplaudiram o filme de pé: «Fui elogiado como crítico social», conta Wilder, «como alguém que tivesse desmascarado o mundo capitalista da mercadoria e dos empregados, onde cada um tinha que se vender. Levantei-me e falei. Disse que aquilo que era mostrado (no filme) poderia de facto acontecer em toda parte, tanto em Tóquio quanto em Londres, em Paris como em Munique. Só não poderia acontecer numa cidade do mundo, Moscovo. Aplausos lisonjeiros dos convidados na sala. Não poderia acontecer em Moscovo, continuei, porque lá Lemmon não poderia de forma alguma emprestar seu apartamento. Porque três outras famílias ainda morariam com ele ali. Silêncio e perplexidade na plateia.»


"O Apartamento" foi nomeado para 10 Óscares de Hollywood: Filme, Realização, Argumento-Original, Direcção Artística (P/B), Montagem, Actor Principal, Actriz Principal, Actor Secundário, Cinematografia (PB) e Som. Saíria vencedor apenas nas cinco primeiras. Wilder, Lemmon e MacLaine ganhariam ainda os BAFTA ingleses. Seria, por muito tempo, o último filme rodado a preto e branco a vencer a categoria de melhor filme do ano. Teriam de passar 33 anos para que outro filme a preto e branco conseguisse a almejada estatueta: "A Lista de Schindler" (1993), dirigida por Steven Spielberg, o qual, antes de decidir ele próprio ocupar-se da realização, ter pensado propor a Billy Wilder tal incumbência.



segunda-feira, dezembro 14, 2015

SOME CAME RUNNING (1958)

DEUS SABE QUANTO AMEI
Um filme de VINCENTE MINNELLI



Com Frank Sinatra, Shirley MacLaine, Dean Martin, Martha Hyer, Arthur Kennedy, Nancy Gates, Leora Dana, Betty Lou Keim, Larry Gates, etc.

EUA / 137 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 18/12/1958
  
Dave Hirsh: «You're right, teacher. You're a hundred percent right.
I've been a bad boy. I've been naughty. 
Matter of fact, I don't even belong in your class»

"Some Came Running" é um dos filmes mais característicos dos anos 50 (falo dos cenários, adereços e locais de filmagem mas também das mentalidades, dos usos e costumes da época); é também o apogeu do melodrama psicológico e da carreira de Vincente Minnelli, e um dos mais belos e pungentes filmes de toda a história do Cinema. Como eventualmente tais predicados ainda seriam poucos para enaltecer um dos meus "filmes da vida", acrescento-lhe ainda mais alguns: uma fotografia panorâmica deslumbrante (nunca a cor e o Cinemascope foram utilizados assim, com tanta precisão e inteligência, de parceria com uma utilização rigorosa dos espaços - o filme é quase todo ele rodado em planos americanos), uma partitura musical de grande qualidade (assinada por Elmer Bernstein) e um punhado de interpretações inolvidáveis, donde se destaca, naturalmente, uma sublime Shirley MacLaine, quiçá no melhor papel de toda a sua vida. Mas não sou o único que nutre um amor desmedido por "Some Came Running". Para João Bénard da Costa, também ele foi um dos "filmes da sua vida", tendo-lhe dedicado um excelente artigo, publicado no jornal O Independente em 23 de Junho de 1989. Deixo-vos com parte dessa homenagem:


A sensação que temos, quando relembramos este filme, é que houve tempo para tudo e subitamente não há tempo para nada. Houve tempo para conhecermos a família de Dave (Frank Sinatra), com o irmão pusilânime, a cunhada sinistra e a sobrinha bonita. Houve tempo para conhecermos a professora puritana, essa Miss French (Martha Hyer) que às vezes lembra Eva-Marie Saint e que usava carrapito com medo que lhe soltassem os cabelos, como Sinatra fez naquela única e incrível tarde de amor deles. Houve tempo para muitos batoteiros e muitas pegas, paisagem acidental e essencial para dela emergirem Bama (Dean Martin), o homem que nunca tirava o chapéu, e Ginny (Shirley Maclaine), a mulher que nunca largava a mala de mão em forma de coelhinho de peluche. Houve tempo, até para uma bela e efémera secretária, Miss Barclay (Nancy Gates), que rima com todo o resto. Só não houve tempo para o tempo do mais belo amor da mais bela mulher, Ginny-Shirley, essa que veio a correr e morreu no fim para salvar Sinatra, que lhe deitou a cabeça em cima da berrante almofada amarela que a pedido dela lhe dera, e que era a coisa de que ela mais gostava no mundo.


«Menina e moça me levaram de casa da minha mãe. Qual fosse a causa daquela minha levada, era pequena não na soube entào.» "Some Came Running" fez-me sempre lembrar o começo da novela de Bernardim. Quando Shirley MacLaine acorda no autocarro onde até aí não a víramos (a câmara só nos mostrara Sinatra a dormir), depois de ler o anúncio da companhia transportadora («and leave the driving to us») ou de ouvir o primeiro diálogo dela com Sinatra («You're a nice kid. I like you. Take care»), sinto essa sensação de «levada», um dia, menina e moça (Shirley MacLaine que o não era, era-o mais do que outra nenhuma), de «casa da minha mãe» (sempre gostei mais dessa variante do texto do que da usual, que diz «de casa de meus pais») por causas que os pequenos nunca sabem, que faz parte de serem pequenos nunca saberem. Há, no filme de Minnelli, uma mesma dupla acentuação da inocência, a mesma saudade por um quente mundo perdido, a mesma viagem, o mesmo lento sublinhar do tempo, do "então". E, mais importante ainda, a mesma equivalência nas cores, no décor e nos olhos de Shirley MacLaine para as labiais de Bernardim, com o corte final (a "dental") do "então", no movimento sublime, duma rapidez feita tanto de reflexo, como da ausência de reflexão, com que a moça menina se atira para cima do corpo de Sinatra, apanhando em cheio nas costas a bala que a ele era destinada.

Centro deste filme prodigioso, o mais bonito personagem que o cinema alguma vez inventou, Ginny é menina e moça perdida na vida e perdida na morte, no sentido em que também se diz "mulher perdida", "mulher da vida", tão belas expressões, E no fim, no enterro dela, percebemos que se Dean Martin nunca tirou o chapéu, foi para o tirar nesse momento, para a única mulher que a esse gesto obrigava. Metera-se, uma noite, num autocarro e atravessara centenas de quilómetros porque Sinatra, sentimental de mais quando bebia de mais, a convidou a segui-lo. Passada a bebedeira, na manhã da chegada a Parkman, ele já nem se lembrava dela. Mas lembrava-se ela e ficava, numa ida sem volta, apesar da nota de 50 dólares que Sinatra lhe metia na mão. E ficava, atrapalhada, atrapalhante, sem perceber de que terra era, sempre com coisas a mais nas mãos (a tal carteira, a tal almofada, as flores artificiais), sempre com os penduricalhos, sempre a pintar os olhos, a pôr rimel nas pestanas, «leaving the drive to others».

E há as duas sequências mais inesquecíveis. A primeira é quando decide ir até à escola, conhecer a professora por quem Sinatra se apaixonara, para "tirar a limpo" aquela história. A professora ensina literatura e explica aos alunos que as bebedeiras de Poe, as drogas de Quincey, a "neurótica promiscuidade" de Baudelaire não os tornavam menores. «Eram grandes homens, grandes na força, grandes nas fraquezas.» A campainha toca no fim desse parvo discurso. E enquanto os estudantes saem, aparece na frente daquela mulher que sabe tudo e não percebe nada, a mulher que não sabe nada e percebe tudo. Vem nervosíssima, timidíssima, amedrontadíssima. Se a professora gostar tanto de Sinatra quanto Sinatra gosta dela, todos os seus sonhos morrerão ali. Como ela própria diz, na profundidade de campo da aula vazia, contra um quadro onde está escrito um texto de Zola: «You don't know how scared I was. I want him to have whatever he wants. Even if it means you instead of me.» Durante toda a sequência, não disse nem fez uma coisa feia. Só ganhou o campo-contra campo porque a professora era incapaz de olhar para além do campo dela e ver para além das aparências a "rival" que não tinha nada, «not even a reputation».

A segunda sequência é pouco depois, quando Sinatra chega a casa, possesso de dor de corno, porque Miss French lhe dera com os pés («I don't like your life. I don't !ike what you think. I don't like the people you like») na ressaca desse face a face com a "pega". Sinatra insulta-a a despropósito. Há uma panorâmica sobre ela e ela a dizer «You gotta remember I'm human. I've feelíngs». Depois, Sinatra arrepende-se. Mas tudo quanto tem para dar àquela mulher que antes tinha dito que era capaz de fazer tudo, tudo quanto ele lhe pedisse (e veio a fazer mais) é perguntar-lhe: «Do you clean that place for me?» E o que a frase podia ter de horrível ou frustrante é salvo pelo sorriso de Shirley e aquele «Oh! Could I?», como se acabasse de receber o mais belo dos presentes. Corte e Sinatra lê-lhe o romance com que acabara de ganhar um prémio. Sentada no chão, os braços à volta dos joelhos, de calças cor-de-rosa, Shirley está toda nele e nada no que ele diz.

E, quando ele a acusa de não ter percebido uma palavra do que ouvira, ela responde com esta tirada prodigiosa: «No, I don't. But that don't means I don't like the story. I don't understand you, neither, but that don't means I don't like you. I love you, but I don't understand you. What's the matter?» Vira a cara para o lado, amuada. Há uma "pausa côncava de assombro" preenchida apenas pela espantosa partitura de Elmer Bernstein. A câmara fica fixa no rosto de Sinatra, e tudo quanto o filme e a vida até aí acumulara nele (tempo, décor, cidade, néons, família, a loura e frígida professora) sai cá para fora no inesperado pedido de casamento. Segue-se a incredibilidade de Shirley («Não deves brincar com essas coisas») e depois o abraço, abraço incrível de entrega e doação. Há o degrau e a coda volta ao início: «You gotta remember, I'm human.»

Nestas duas sequências - como na sequência final do crime, como em todo o filme - Minnelli atinge o apogeu da sua arte. Há cineastas, como há pessoas, que procedem por silogismos e assim destroem tudo e se destroem a si próprias. Há cineastas, como há pessoas, que estão para além de qualquer lógica e transfiguram tudo o que tocam em oração e oblação. Nessa delirante irracionalidade do amor, apanágio de tão raros. Como diria Shirley MacLaine: «Thanks, awfully, so awfully much.»

CURIOSIDADES:

- Joanne Woodward não aceitou desempenhar o papel de Ginny Moorehead por não querer trabalhar com Frank Sinatra

- A revista alemã Der Spiegel classificou "Some Came Running" como o melhor filme de todos os tempos

- Na cena da morte de Ginny, Shirley MacLaine não era suposta colocar-se à frente da bala. Foi Frank Sinatra o autor da ideia: «Let the kid take the bullet; maybe she'll get an Oscar.» O argumento foi alterado e Shirley recebeu a sua primeira nomeação.

- "Some Came Running" obteve 5 nomeações para os Óscares, nas categorias de Actriz Principal (Shirley MacLaine), Actor Secundário (Arthur Kennedy), Actriz Secundária (Martha Hyer), Guarda-Roupa (Walter Plunkett) e Canção Original ("To Love and be Loved", música de Jimmy Van Heusen e letra de Sammy Cahn). Shirley MacLaine foi ainda nomeada para o Globo de Ouro. Mas foi Susan Hayward, no filme "I Want To Live!" quem arrebatou os dois troféus nesse ano.



segunda-feira, maio 28, 2012

GAMBIT (1966)

LADRÃO ROUBADO
Um filme de RONALD NEAME


Com Shirley MacLaine, Michael Caine, Herbert Lom, Roger C. Carmel, Arnold Moss, etc.

EUA / 109 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA: NY, 21/12/1966
Estreia em PORTUGAL: Lisboa, 27/11/1968

Harry: «Now will you stop asking questions?»
Nicole: «It's only human to be curious Harry»
Harry: «Yes, well as far as I'm concerned you're far too human»

Antecipando a estreia da nova versão de “Gambit” (a 12 de Outubro nos EUA), uma realização de Michael Hoffman, argumento dos irmãos Coen (mas por que carga d’água é que os manos não realizaram eles próprios o filme?) e interpretação de Cameron Diaz e Colin Firth, e ainda o septuagenário Tom Courtenay  e a octogenária Cloris Leachman (actores importantes de outras décadas e ainda no activo, mas de quem não tenho ouvido falar há muitos anos), resolvi rever o filme original, do qual guardava muito boas recordações. O resultado não podia ter sido melhor: cerca de 100 minutos de puro e inteligente entretenimento (coisa rara nos tempos que correm), com dois dos meus actores favoritos dos anos 60, Michael Caine e Shirley MacLaine.

A história é de Sidney Carroll, na qual a nova versão se deve de igual modo inspirar (pelo menos a publicidade adianta que se trata da nova versão de “Gambit”) e conta-se em meia dúzia de palavras: Harry Dean (Michael Caine), um inglês recém-iniciado nas artes do roubo e da falsificação (um tanto ou quanto inexperiente portanto) propõe-se executar o plano perfeito para se apoderar de um busto feminino pertencente a um árabe riquíssimo, Mister Shahbandar (Herbert Lom, o inspector-chefe da série da “Pantera-Cor-de-Rosa”), e cujo preço seria incalculável (na verdade o objectivo era ligeiramente diferente, mas deixo tal revelação para os que nunca viram o filme). Para isso resolve pagar os serviços de uma bailarina oriental de um cabaret de Hong Kong, Nicole Chang (Shirley MacLaine), devido à sua extraordinária semelhança com a mulher da escultura, por quem o magnate do petróleo teria tido paixão avassaladora, antes da mesma vir a falecer, cerca de dez anos antes.

No filme temos direito a duas versões da mesma empreitada: assistimos em primeiro lugar ao que acontece enquanto Harry Dean explica o plano ao sócio, onde tudo se desenrola na perfeição. E depois a acção “real”, em que, como seria previsível, tudo (ou quase tudo) sai mal, começando logo pela jovem bailarina que na versão idealizada não abre uma única vez a boca, mas que afinal fala pelos cotovelos. Este modo de apresentar a história (o antes e o depois) funciona às mil maravilhas, simultaneamente com o humor que acompanha a cada passo as peripécias do larápio e da sua “ajudante”, a qual, com o decorrer do filme, acaba por inverter os papéis, sendo ela a principal responsável por levar o roubo a porto seguro.

“Gambit” é um estilo de cinema bem típico dos anos 60, uma comédia inteligente, bem estruturada e muito bem filmada, e em que o charme particular de ambos os actores contribuiu decisivamente para o sucesso junto do público. Ronald Neame, o realizador britânico, ex-fotógrafo, que seis anos depois nos daria um dos filmes-catástrofe mais eficazes de sempre (“The Poseidon Adventure”), mostra-se aqui perfeitamente à vontade, dirigindo elegantemente um filme que se mantém fresco e viçoso como há quase 50 anos atrás. A descobrir, ou a rever, antes da estreia da nova versão, lá mais para depois do Verão.

 CURIOSIDADES:

- Shirley MacLaine, na altura uma actriz de topo, tinha sempre o direito de veto na escolha do seu partenaire. Foi ela quem escolheu Michael Caine, depois de ver o trabalho do actor inglês em “Alfie”

- O “gambit” é uma táctica do jogo de xadrez que consiste em sacrificar uma peça para se obter uma posição mais vantajosa no tabuleiro


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