Mostrar mensagens com a etiqueta shelley winters. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta shelley winters. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 10, 2025

THE POSEIDON ADVENTURE (1972)

A AVENTURA DO POSEIDON
Um Filme de RONALD NEAME


Com Gene Hackman, Ernest Borgnine, Shelley Winters, Red Buttons, Roddy McDowall, Stella Stevens, Jack Albertson, Carol Lynley, Pamela Sue Martin, Arthur O'Connell, Leslie Nielsen, etc.


EUA / 117 min / COR / 
16X9 (2.20:1)

Estreia nos EUA a 13/12/1972
Estreia em MOÇAMBIQUE (L.M.) a 19/5/1973 (cinema Scala)



Reverend Frank Scott: “Please GOD, NOT this woman”

O remake feito em 2006 deste clássico dos anos 70 veio provar, mais uma vez, que toda a técnica digital disponível hoje em dia não é prerrogativa para se conseguir fazer um bom filme. “The Poseidon Adventure” foi realizado num tempo em que a palavra blockbuster ainda não tinha sido inventada; e mesmo que já existisse não teria o significado que tem actualmente – algo produzido com orçamentos colossais mas regra geral com resultados a roçar a imbecibilidade. Do que se falava naquele início dos anos 70 era de “cinema-espectáculo”, ou neste caso concreto, de “cinema-catástrofe”.

“The Poseidon Adventure” veio precisamente enaltecer e aprimorar esse “cinema-catástrofe”, sendo por isso olhado hoje em dia como um dos exemplos mais felizes, e conotado inclusivé como o maior clássico do género. Baseado numa novela de Paul Gallico, o filme relata-nos o desastre ocorrido com o S.S. Poseidon, um transatlântico na sua última viagem, entre Nova Iorque e Atenas. Na noite de 31 de Dezembro, quando todos os passageiros comemoram a chegada do Ano Novo, um terramoto sub-aquático vai ocasionar uma onda gigantesca de 30 metros de altura, cuja força destruidora vai embater no navio virando-o literalmente do avesso.

As explosões sucedem-se, indo submergir toda a zona do restaurante onde se comemorava a passagem de ano. Dez passageiros conseguem sobreviver e é o seu percurso em direcção ao casco do navio (agora situado acima deles) que iremos acompanhar ao longo do filme, através de peripécias diversas e interrogando-nos sempre (ou não, caso conheçamos já o desfecho) quais deles conseguirão chegar sãos e salvos ao fim daquela odisseia.

A ideia do filme é brilhante e executada com grande mestria. Cenários magníficos e deveras originais (tudo se encontra de pernas para o ar, desde o salão onde a aventura pela sobrevivência começa até às casas de banho, cozinhas e todos os outros compartimentos do navio) conferem a “The Poseidon Adventure” um grau de autenticidade pouco comum neste género de filmes. Junte-se a isso um brilhante naipe de actores e o resultado não poderia ter sido melhor. Na primeira meia-hora do filme fomo-nos familiarizando com cada um dos heróis desta grande aventura e por isso iremos sofrer e torcer por todos eles até ao final.

E não se julgue que o conhecimento antecipado da história ou de quem fica pelo caminho tira emoção ao visionamento deste filme. Pelo contrário, “The Poseidon Adventure” está tão bem feito, tão bem construído em todas as suas particularidades e propósitos que a repetição da sua visão nunca nos cansa. Pessoalmente, vi-o pela primeira vez em 1973, pouco depois da sua estreia mundial, e desde essa altura já perdi a conta das vezes em que voltei a vê-lo, e sempre com o mesmo prazer.

Gene Hackman é inesquecível no papel de um reverendo de ideias avançadas, que naturalmente se torna no líder da expedição. Ernest Borgnine é o polícia resingão que casou com uma prostituta (Stella Stevens num desempenho divertidissimo) e Shelley Winters, aqui já com 52 anos, dá-nos uma Belle Rosen sensacional, que está na origem da cena mais comovente do filme. Mas todo o restante elenco – Red Buttons, Roddy McDowall, Jack Albertson e as jovens Carol Lynley e Pamela Sue Martin – é de grande qualidade, como aliás a publicidade do filme teve o cuidado de referir na altura como sendo na sua grande maioria actores distinguidos pela Academia de Hollywood.

Um dos grandes trunfos da “Aventura do Poseidon” é o clima de suspense claustrofóbico que se vai adensando à medida que a história progride. O argumento foi cuidadosamente construído de modo a proporcionar ao espectador uma adrelina sempre em crescendo até ao clímax final. Tudo começa idilicamente no grande jantar de fim-de-ano mas é depois da tragédia acontecer que o filme arranca a todo o gás, levando-nos a nós espectadores com ele. E no entanto como são importantes aqueles primeiros trinta minutos onde, como atrás já se disse, ficamos a conhecer cada um dos principais intervenientes. Sempre que se revê o filme saboreia-se o mais possível a despreocupação de cada um daqueles momentos, devido a saber-se de antemão o que vai acontecer a seguir.

Tenho lido alguns comentários onde se pretende comparar “The Poseidon Adventurea “Titanic”, quer no bom quer no mau sentido. Nada de mais inútil, até porque o filme de Cameron se situa num patamar completamente diferente. A única ilação possível é a de que este filme é um percursor muito honroso de “Titanic”, que porventura nele foi beber grande parte da sua inspiração. Inclusivé a nível técnico, como por exemplo os enormes sistemas hidráulicos para simular o naufrágio, já utilizados neste filme vinte e cinco anos antes.

Sete anos depois o produtor deste filme, Irwin Allen realizou uma espécie de sequela, conhecida como “Beyond The Poseidon Adventure”, com Michael Caine e Sally Fields a encabeçarem mais um cast de conhecidos nomes do cinema daqueles anos. O argumento, sem pés nem cabeça, relatava a história de uma série de aventureiros à procura de um tesouro escondido nos destroços do Poseidon. Era uma vez mais Hollywood a insistir ingloriamente na miragem do lucro fácil e rápido. Mas felizmente que os êxitos sempre foram feitos pelo público e não programados em quaisquer gabinetes.

CURIOSIDADES:

- Paul Gallico inspirou-se em acontecimentos vividos com ele próprio numa viagem a bordo do Queen Mary para escrever a novela que deu origem ao filme

- Todo o filme foi rodado em sequência para tornar visualmente mais compreensível o aumento de esquimoses (algumas fictícias, outras reais) e sujidade, experimentados na pele e nas roupas de cada um dos principais intervenientes

- Muitas das sequências foram rodadas no S.S. Queen Mary, ancorado em Long Beach, na Califórnia. Noutras foi usado um modelo construído com base nesse mesmo navio e que actualmente se encontra em exposição no Museu Marítimo de Los Angeles

- Apesar de terem sido usados cerca de 125 duplos no filme, foram os próprios actores que se sujeitaram às difíceis e cansativas filmagens exigidas pelo argumento - excepto nas sequências mais perigosas - chegando inclusivé a queixarem-se aos produtores do filme por causa da intensidade de algumas dessas cenas

- Shelley Winters engordou cerca de 15 quilos para representar a personagem de Belle Rosen e teve aulas de natação com um treinador olímpico por causa das cenas rodadas debaixo de água

- Petula Clark recusou o papel de Nonnie Parry, atribuido a Carol Lynley. O tema que esta interpreta no filme (na realidade a voz pertence a Renée Armand, trata-se de uma dobragem) – “The Morning After” – foi depois interpretado por Maureen McGovern, conseguindo um certo êxito na altura, devido em grande parte ao sucesso alcançado pelo filme. A canção, da autoria de Al Kasha e Joel Hirshhorn, ganhou o Oscar da melhor canção do ano. Ao filme foi ainda atribuído um Prémio Especial pelos efeitos visuais e teve ainda mais 7 nomeações para os Oscars. Shelley Winters ganhou o Globo de Ouro para a melhor actriz secundária e Gene Hackman arrebatou o BAFTA inglês para o melhor actor do ano.


quinta-feira, setembro 24, 2015

LE LOCATAIRE (1976)

THE TENANT / O INQUILINO
Um filme de ROMAN POLANSKI

Com Roman Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Shelley Winters, Jo Van Fleet, Lila Kedrova, Claude Piéplu, Rufus

FRANÇA / 126 min / COR / 
16X9 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA em Maio de 1976 (Festival de Cannes)
Estreia em PORTUGAL em Novembro de 1976 
(Lisboa, Cinema Mundial)



Trelkovsky: «If you cut off my head, what would I say...
Me and my head, or me and my body?
What right has my head to call itself me?»

“Le Locataire” encerra uma trilogia de Roman Polanski em que o terror psicológico encontra as suas raízes no espaço claustrofóbico de um apartamento. Tal como em “Repulsion” (1965) e em “Rosemary’s Baby” (1968), assiste-se aqui à lenta descida aos infernos de um personagem que se vai desligando da realidade entre quatro paredes. Quer seja em Londres, Nova Iorque ou Paris, o apartamento é para Polanski o berço ideal de todas as nevroses paranoicas. Baseado num romance de Roland Topor, a história adquire alguns contornos auto-biográficos atendendo a que Trelkovsky, o protagonista principal (incarnado pelo próprio Polanski, mas sem qualquer menção nos créditos) é um tímido polaco recentemente chegado a Paris, à procura de duas assoalhadas para viver.


“Le Locataire” é uma obra perfeita no aspecto formal e que consegue desenvolver dentro do espectador um sentimento de inquietação crescente até ao clímax final. Sem grandes dúvidas, estamos diante de um dos pontos mais altos da filmografia de Polanski - ou a temática não fosse uma vez mais o enclausuramento do personagem no seu trágico destino – que reúne todo o seu pensamento, as obsessões, os fantasmas, o pavor que o cinema deste cineasta deixa entrever, por entre insinuações e silêncios. O beco (designação de um seu filme de 1966) é na verdade o cenário por excelência de Polanski - o lugar sem saída para onde são lentamente empurrados os seus heróis amedrontados, tímidos e sensíveis.


Trelkovsky, empregado de escritório, consegue finalmente alugar o apartamento desejado, depois de saber que a antiga inquilina se suicidara, saltando da janela do seu quarto para o pátio das traseiras. O proprietário do imóvel, um certo senhor Zy (Melvyn Douglas), aceita alugar-lhe o apartamento mas com condições previamente definidas. Casa séria e respeitável, não são permitidas visitas femininas, não se toleram desacatos, crianças e animais domésticos é melhor não os ter, o silêncio é de ouro. O tímido Trelkovsky a tudo diz que sim, confessando tratar-se de uma pessoa pacata que a última coisa que pretende é ter conflitos com os vizinhos.


Pouco depois Trelkosky visita a suicidária no hospital, onde trava conhecimento com Stella (Isabelle Adjani), uma amiga da moribunda. Junto à cama, são ambos surpreendidos por um grito lancinante que Simone Choule (assim se chama a vítima) lança na sua direcção, sem qualquer razão aparente. Trelkovsky tenta reconfortar Stella e vão a um cinema local ver um filme de artes marciais com Bruce Lee (“Enter The Dragon), durante o qual se estabelece uma ligação sexual entre os dois. No dia seguinte, ao telefonar para o hospital, Trelkosky é informado da morte de Simone.


Aos poucos o nosso inquilino vai-se começando a familiarizar com as redondezas da nova residência. No café da frente dão-lhe conta dos hábitos de Simone e servem-lhe o leite com chocolate que ela bebia todas as manhãs naquele mesmo local, naquela mesma mesa. E quando Trelkovsky pede os seus cigarros preferidos (Gauloises) não os há, vendem-lhe Malboro, a marca que Simone fumava. A história do “Inquilino” de Polanski afasta-se do tradicional filme de terror (em que a morte é sempre o medo principal), confundindo-se antes com a história da perda progressiva de uma identidade (com a loucura no horizonte), uma transformação dramática que Franz Kafka já descrevera em “A Metamorfose”, obra que terá influenciado seguramente quer a imaginação de Roland Topor, ao escrever “Le Locataire Chimerique”, quer a mestria de Polanski ao dar-lhe vida no écran.


Acatando primeiramente as condições impostas para o apartamento, depois os cigarros e o leite com chocolate que lhe servem contra a sua vontade, e de um modo geral todas as convenções e regras estabelecidas à sua volta, Trelkovsky vai lentamente aceitando o seu destino, um destino a que o ambiente irrespirável circundante condena os mais fracos como ele. É o cerco que se aperta (como as mãos que estrangulam), a ameaça que se agiganta, os rostos que se reproduzem, a animosidade que progride, a agressão que se pressente por detrás de cada olhar desconhecido e já inimigo. Tentando libertar-se de todas as pressões, Trelkovsky vai-se isolando cada vez mais, refugiando-se por detrás do rosto, da silhueta, dos maneirismos de quem o precedeu naquele espaço fechado – e sofrendo as mesmas ameaças, envolvendo-se no mesmo pesadelo quotidiano, caminhando inexoravelmente para um fim idêntico.


“Le Locataire” corporiza essas ameaças em nós, espectadores, lembrando-nos das nossas próprias angústias ao personalizar um estado de espírito colectivo que todos sentimos, uma vez por outra, na agressividade latente que nos circunda nas nossas vidas de todos os dias. Razão de ser de grande parte das esquizofrenias de graus variados que a mesquinhês engendra no seio de uma civilização altamente egoísta e competitiva, onde o homem vacila na procura de um lugar e do horizonte claro de um destino a cumprir em plenitude.


Retratista admirável desses temores secretos que atormentam o cidadão normal, Polanski revela-se simultaneamente um cineasta de um realismo de décors e de figuras inultrapassável e um autor particularmente atento à realidade que se esconde para lá das aparências. O fantástico que se respira numa obra como “Le Locataire” é um fantástico que parte de dados absolutamente concretos. O segredo de Polanski é a forma como os manipula, como os interliga uns aos outros, como, em meia dúzia de planos, instala o horror e sabiamente o prolonga até à exaustão, à loucura, ao suicídio. Um suicídio que mimeticamente se imita, um suicídio que se reedita, que se reforça, que encontra forças para recomeçar tudo de novo.


Na adaptação do romance de Topor, Polanski contou com a preciosa colaboração de um seu auxiliar de sempre, Gérard Brach (falecido em 2006, com 79 anos). Ambos reconstruiram o pesadelo da história com a voluptuosidade mórbida de um fabulista requintado. Na cinematografia um mestre, Sven Nykvist (também falecido em 2006, com 83 anos), que neste filme usou pela primeira vez uma câmara dirigida à distância (a Louma IV), que permite filmar em espaços muito reduzidos. Philippe Sarde assinou a partitura musical (além de protagonizar um pequeno cameo – é o homem que se senta atrás de Trelkovsky e Stella no cinema) inovando também através da utilização de uma harmónica de vidro (instrumento de difícil execução e para o qual Mozart compôs algumas peças no seu tempo). Enfim, e não falando já no naipe de excelentes actores que povoam o filme, poder-se-á dizer que Polanski soube rodear-se de muito boas companhias para o seu “Inquilino”. O resultado é brilhante.


Com “Le Locataire” Polanski evita qualquer efeito espectacular, que aliás não se coadunaria com o aspecto kafkiano da obra. Não existem monstros, algozes ou rios de sangue, todos os clichés do género de terror se encontram ausentes. Mas em contrapartida (ou por causa disso mesmo), o cineasta dá-nos um grande filme, provavelmente um dos seus melhores de sempre (pelo menos o mais assustador), servindo-se de pequenos detalhes (os planos da casa de banho tornaram-se numa imagem de marca do filme) num ambiente onde habita o terror mais íntimo e surrealista. “Le Locataire”, ao longo dos seus anos de existência, nunca deixou de me causar o mais genuíno dos prazeres cinéfilos, independentemente das muitas vezes a que a ele já assisti. Incluindo aquele último plano de gelar o sangue, responsável por tantos pesadelos, mesmo entre os menos sugestionáveis dos espectadores.













LOBBY CARDS:


NOTA: Vale a pena dar uma olhada no texto que o Sérgio Vaz escreveu sobre este filme no seu blogue, "50 Anos de Filmes"

segunda-feira, julho 04, 2011

LOLITA (1962)

LOLITA
Um filme de STANLEY KUBRICK



Com James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers, Gary Cockrell, Jerry Stovin, Diana Decker, Lois Maxwell, etc.

GB-EUA / 152 min / P&B /

4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 12/6/1962

Estreia em PORTUGAL a 11/5/1972


Lolita Haze: «I'm really sorry that I cheated so much.
But I guess that's just the way things are»

Apresentado pela primeira vez em 1962, no Festival de Veneza (onde concorreu ao Leão de Ouro), “Lolita” começou por não atraír o grande público, devido sobretudo ao inevitável paralelo entre o filme e o livro, comparação sem grande significado que no entanto perdura até aos nossos dias. Tendo em conta o global desinteresse fílmico de Kubrick pelos problemas da sentimentalidade amorosa, é bastante evidente e significativo o motivo da escolha: o romance de Nabokov desenvolve com ofuscante clareza aquele que é o tema dos temas kubrickiano, aquele a partir do qual se produzem todos os seus filmes: a obsessão.

O facto de Kubrick apostar muito mais no lado subjectivo dessa obsessão, por oposição ao seu objecto físico, ou seja, ao corpo adolescente de Lolita (Sue Lyon) evidencia já o afastamento do conteúdo do romance, enquadrando-se todo o filme numa atmosfera onírica, onde a subtileza é a nota dominante das relações entre Humbert (James Mason, num dos grandes papeis da sua carreira) e as pessoas à sua volta. A relação “normal” entre homem e mulher sempre primou pela ausência no cinema de Kubrick, e esta “Lolita” é um bom exemplo disso. A paixão de Humbert situa-se num plano acima do erotismo e da permissividade, indiferente à idade da “ninfa”, e enquadrando-se num desvio à norma social institucionalizada. É uma espécie de agonia amorosa (que faz lembrar o “Amor-Louco” de Breton), uma exaltação profundamente maior do que aquela que a imaginação pode criar.

Magistralmente interpretada por Shelley Winters, Charlotte Haze, a mãe de Lolita, é o polo atractivo de toda a aversão de Humbert pelos estereotipos presentes no modo de vida americano dos anos 50. Mas enquanto Nabokov não vai além de um certo sarcasmo no modo como descreve essa sociedade, Kubrick apodera-se da figura de Charlotte (e de todos os preconceitos pequeno-burgueses que ela representa) para dar mais ênfase ao tormento de Humbert. Será nesse ambiente de desejos recalcados que o professor se deixará subjugar pela jovem teenager, iniciando o percurso sem retorno que o conduzirá à solidão e à mais negra decrepitude moral.

Já as diversas máscaras de Clare Quilty (espantoso Peter Sellers) estão inteiramente na órbita do imaginário repressivo-depressivo de Humbert As múltiplas aparições de Sellers-Quilty são física e verbalmente grotescas, espelhando toda a culpabilidade de Humbert, e conferindo o peso da realidade e uma dimensão concreta ao delírio da perseguição de que Humbert é vítima. Digamos, para simplificar, que Quilty representa o lado transgressor de Humbert, a materialização dos seus mais secretos desejos.

O filme de Kubrick é considerado ainda hoje como um objecto estranho na sua filmografia. Mas só poderá estar convicto dessa opinião quem passar por “Lolita” apenas um olhar apressado e superficial. Na verdade, todos os temas caros ao realizador estão já contidos nesta adaptação da obra de Nabokov. O argumento, da autoria do próprio escritor, viria a ser nomeado para o Oscar da Academia, mas seriam os Globos de Ouro a perspectivarem o essencial do filme, ao fazerem recaír quatro nomeações sobre o realizador e os três actores (Mason, Winters e Sellers) que foram os principais responsáveis pela envergadura e longevidade da obra.

CURIOSIDADES:

- Errol Flynn chegou a ser equacionado para interpretar o professor Humbert, mas veio a falecer antes do filme começar a ser rodado, a 14 de Outubro de 1959. Laurence Olivier, David Niven, Cary Grant e Noel Coward foram alguns dos actores que rejeitaram o convite.

- Os famosos óculos de Lolita, em forma de coração, apenas foram usados na publicidade do filme.


- Uma das razões de Kubrick ter escolhido Sue Lyon (de entre cerca de 800 candidatas) teve a ver com o tamanho dos seios da jovem actriz, para evitar que a personagem denotasse a pouca idade com que Nabokov a descrevera no livro (12 anos). Além disso, Kubrick teve o cuidado de acrescentar dois anos à sua Lolita (Sue Lyon também tinha a mesma idade - 14 anos -  na altura da rodagem), de modo a aproximá-la mais da adolescência e evitar ao máximo a conotação do filme com o universo pedófilo (estigma do qual no entanto não se viria a livrar).


- Ficaria célebre o tema principal do filme, da autoria de Bob Harris e Nelson Riddle.

- O argumento foi escrito pelo próprio autor do livro, Vladimir Nabokov, mas Kubrick alterou-o substancialmente. Sobretudo no carácter de Peter Sellers, Clare Quilty, que no livro não tem a importância central com que aparece no filme. Até a própria Lolita passou de morena a loura.




LOBBY CARDS: