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terça-feira, março 01, 2016

A PASSAGE TO INDIA (1984)

PASSAGEM PARA A ÍNDIA
Um filme de DAVID LEAN

Com Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers, Richard Wilson, Art Malik, etc.

UK-US / 164 m / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 1984, Dezembro 14 (New York)
Estreia em Portugal: 1985, Fevereiro 28 (Lisboa)
Estreia na Grã-Bretanha: 1985, Março 18 (London)


Derradeiro filme do prestigiado director inglês David Lean (1908-1991), que ressurgia de um hiato de 14 anos (desde que rodara “Ryan’s Daughter”), “A Passage To India” transporta-nos para o início dos anos 20, altura em que à frente da monarquia inglesa se encontrava o rei Jorge V, e a Índia era uma colónia do império britânico, onde se manteria até 1947. Com argumento do próprio David Lean, “A Passage to India” começou por ser uma novela que o romancista Edward Morgan Forster (1879-1970) escreveu em 1924, após regressar de uma estadia na Índia, onde tinha exercido as funções de secretário do Maharajah de Dewas. Mais tarde, a escritora e jornalista Santha Rama Rau (1923-2009), nascida em Madras, na Índia, adaptou a novela para o teatro. A peça subiu ao palco do Ambassador Theatre de Londres, a 31 de Janeiro de 1962, onde se manteve durante 109 sessões.


Adela Quested (Judy Davis), uma jovem inglesa, viaja para a Índia em companhia de Mrs. Moore (Peggy Ashcroft), uma senhora de idade um pouco avançada, que se vai encontrar com o filho, Ronny (Nigel Havers), recém-nomeado juiz, e que se encontra noivo de Adela. Esta, contudo, está longe de sentir a excitação própria de quem se prepara para selar o acordo nupcial. Hesitante, aparentemente frígida, começa no entanto a deixar-se envolver pela mística e sensualidade indianas, onde existe pouco espaço para a rigidez dos princípios ingleses, nos quais foi educada. Mas a sua própria sexualidade começa a vir ao de cima e isso causa-lhe um certo receio e incómodo. As duas companheiras de viagem travam conhecimento com um médico, o Dr. Aziz Ahmed (Victor Banerjee), cujo dia-a-dia oscila entre o servilismo e a admiração que nutre pelo povo inglês. Organiza uma pequena excursão às lendárias grutas de Marabar, no decurso da qual Adela sofre um acidente que posteriormente a leva a acusar Aziz de violação.


Como não podia deixar de ser, sobretudo num regime fortemente imperialista como foi o britânico, o caso é levado a tribunal, no sentido dos poderes instituídos condenarem rapidamente e sem apelo o jovem médico caído em desgraça, de modo a fazer dele um símbolo da eficácia da justiça britânica. Naquela época vigorava o princípio de “culpado, até prova em contrário” e portanto as perspectivas de uma absolvição eram practicamente nulas. No entanto, e para desapontamento das autoridades inglesas, Adela recupera o bom senso e retira a queixa contra Aziz, argumentando de que nada se tinha passado da forma como inicialmente dera a entender. O médico é libertado e levado em ombros como herói nacional. Mas a sua crença nos ingleses fica seriamente abalada, nomeadamente na relação de amizade que estabelecera com o professor Richard Fielding (James Fox).


“A Passage To India” é um filme que aponta o dedo aos excessos coloniais e ao confronto cultural entre dois povos, que apesar do longo período de convivência (entre 1858 e 1947), nunca chegaram a entender-se. A opressão exercida pelos ingleses (a nível político, mas não só) tinha na altura pouca oposição por parte dos indianos, com excepção de uma ou outra réplica verbal, o que de resto é mostrado no filme através da personagem do jovem advogado Ali (Art Malik), um mais que provável futuro líder do movimento nacionalista indiano. Quanto a Aziz, o seu percurso ideológico vai aos poucos evoluindo, desde a recusa de qualquer tipo de confrontamento até ao levantar do dedo acusatório aos seus algozes.


“A Passage To India”, apesar da sua forte conotação política (e no romance original de Forster essa conotação era muito mais acentuada), é um filme muito belo de se ver, aliás como toda a obra de David Lean. A australiana Judy Davis está sublime nos seus 29 anos, sobretudo nos grandes planos que o fotógrafo Ernest Day conseguiu extrair do seu belo rosto (a “peregrinação” pelo bosque das estátuas é nesse sentido exemplar), tal como Peggy Ashcroft (Óscar para a melhor actriz secundária, o que fez dela, aos 77 anos, a actriz mais velha a receber o prémio), conhecida actriz inglesa, que deambulou décadas pelos palcos ingleses. Banerjee e Malik são dois dos melhores actores indianos de sempre, e todo o restante elenco encontra-se em plano bastante elevado, apesar dos constantes conflitos que a maioria dos actores teve com David Lean. Uma referência final a Alec Guinness, que compõe aqui uma pequena personagem (o excêntrico Dr. Godbole), mas que confere ao filme um toque exótico de humor. Para além de Ashcroft, o filme receberia ainda o Óscar para a melhor partitura musical (teve no total 11 nomeações), da autoria de Maurice Jarre, um nome crónico dos filmes dos anos 60.


Do lado crítico choveram louvores, como que a compensar o ostracismo a que a última obra de David Lean, “Ryan’s Daughter”, tinha sido votada em 1970. Rogert Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu: «O romance de Forster é um dos pontos altos da literatura deste século, e David Lean transformou-o agora numa das melhores adaptações para o cinema que eu já vi. Lean é um artesão meticuloso, célebre por não poupar esforços para que cada plano fique excatamente do modo como ele o imaginou.» A Variety apelidou o filme de «impecavelmente fiel, lindamente interpretado e ocasionalmente lânguido,» acrescentando que «Lean conseguiu, até certo ponto, ter sucesso na difícil tarefa de capturar o tom simultaneamente elegante e irónico de Forster.» Finalmente, a Time Out London descreveu “A Passage To India” como «um esforço curiosamente modesto, abandonando o estilo épico vigoroso dos últimos anos de Lean. Embora tenha seguido fielmente a maior parte do livro, Lean afasta-se do ódio que Edward Forster nutria pela presença britânica na Índia, e consegue reunir o elenco mais sólido em muitos anos. E mais uma vez cede ao seu gosto pelos cenários, demonstrando a sua capacidade de um modo que o cinema britânico nunca pôde igualar em toda a sua história.»


CURIOSIDADES:

- A relação entre David Lean e Alec Guinness foi-se deteriorando ao longo das filmagens e atingiu o ponto mais baixo quando Guinness descobriu que a maior parte das cenas por ele filmadas tinham ficado na mesa de montagem, nomeadamente uma em que o actor interpretava uma dança indiana, que lhe tinha levado muitas semanas a aprender. Os dois homens nunca mais se falaram.

- David Lean queria que Peter O’Toole interpretasse a personagem de Fielding, mas o actor recusou.

Peggy Ashcroft assistiu em Londres à última representação de “A Passage To India”. Nessa altura travou conhecimento com Edward Forster, que lhe disse que um dia ela haveria de interpretar a personagem de Mrs. Moore. Ashcroft respondeu-lhe que seria altamente improvável, dada a diferença de idades entre ela (na altura com 54 anos) e Mrs. Moore.


As grutas que no filme se chamam “Marabar” foram criadas pela produção nas colinas de Savandurga e de Ramadevarabetta. No entanto, a cerca de 35 km a norte de Gaya, existem umas grutas verdadeiras, chamadas Barabar.

PORTFOLIO:


LOBBY-CARDS:

terça-feira, outubro 26, 2010

THE NUN'S STORY (1959)

A HISTÓRIA DE UMA FREIRA
Um filme de FRED ZINNEMANN


Com Audrey Hepburn, Peter Finch, Edith Evans, Peggy Ashcroft, Dean Jagger

EUA / 149 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 18/6/1959 
(New York)




Sister Luke: “You can cheat your sisters, 
but you cannot cheat yourself or God”

Esta é a história de Gabrielle Van Der Mal (Audrey Hepburn), a filha mais velha de um reputado cirurgião belga (Dean Jagger) que nos anos anteriores à eclosão da Primeira Guerra Mundial dá entrada num convento para se tornar uma freira. Inteligente, herdando as aptidões paternas para o exercício da medicina, a Irmã Luke, como passa a ser conhecida, tem dificuldades em se adaptar às rigorosas regras impostas às noviças enclausuradas, nomeadamente no que concerne a obediência cega e inquestionável das ordens recebidas das suas superiores.

Os seus estudos de medicina tropical irão levá-la como missionária ao Congo Belga, onde contrai o vírus da tuberculose. O longo período de tratamento, bem como as aptidões reveladas como assistente do Dr. Fortunati (Peter Finch) vão adensar a luta interior da jovem freira entre a carreira profissional e a vida religiosa. Pouco tempo depois do regresso à terra natal eclode a Grande Guerra e durante a ocupação da Bélgica o seu pai é assassinado pelos nazis. A Incapacidade de encontrar dentro de si o perdão para os algozes paternos, é a gota d’água que a faz renunciar aos votos e abandonar para sempre os interiores do convento, iniciando uma nova vida, quem sabe se como uma ajuda mais na resistência aos invasores do seu País.


Depois de adquirir os direitos do livro de Kathryn Hulme (que baseou a sua personagem numa freira verdadeira, Marie-Louise Habets), Fred Zinnemann apercebeu-se de que em Hollywood não havia nenhum interesse naquele projecto. Tudo se alterou após Audrey Hepburn ter manifestado o desejo de desempenhar o papel principal – estalou de imediato uma guerra entre as mais conhecidas produtoras e da qual a Waner Brothers sairia vencedora. A razão de tal disputa revelar-se-ia bem fundamentada, uma vez que o filme se tornou um dos maiores sucessos de 1959, quer a nível do público quer a nível financeiro. Anos mais tarde a própria Hepburn classificá-lo-ia como o seu filme de eleição entre toda a sua filmografia.

Na realidade Audrey Hepburn tem aqui uma das melhores interpretações da sua maravilhosa carreira e nunca esteve tão bela como neste filme. Em grande parte devido à fabulosa cinematografia de Franz Planer, um mestre das sombras e da cor, que consegue neste filme um dos seus trabalhos mais perfeitos; mas a segura direcção de actores de Zinnemann também não será alheia ao sucesso de “The Nun’s Story”, um filme que estranhamente não divide os espectadores segundo qualquer dicotomia assente em crenças religiosas. Pode-se gostar ou não do filme por diversas razões, mas nunca por causa da religião (ou falta dela) de cada um.


A vida e os rituais do interior de um convento nunca foram mostrados com o detalhe presente neste filme. Tenha-se ou não interesse por todos aqueles procedimentos austeros e mesmo desumanos, a verdade é que o conflito espiritual existente na irmã Luke (e extensivamente em todas as pessoas que procuram aquele tipo de fé e devoção) é-nos transmitido de um modo muito realista, dado o pormenor com que a realização de Zinnemann nos vai conduzindo ao longo de todos aqueles claustros e corredores.


Este filme estava como que esquecido, relegado para segundo ou terceiro plano na memória dos cinéfilos. Por isso se saúda a sua recente edição em DVD. Não é uma obra-prima do cinema, nem sequer de um grande filme se trata. Mas é agradável revê-lo 50 anos depois e sobretudo admirar o desempenho dos actores, onde evidentemente sobressai a luminosidade de Audrey Hepburn uma das poucas actrizes (só me lembro de momento de mais uma, a minha adorada Marilyn) que despertava verdadeiro fascínio em qualquer câmara que a filmasse.


CURIOSIDADES:

- Elementos do corpo de ballet da Opera de Roma foram contratados para entrarem nas sequências – verdadeiras coreografias - rodadas dentro do convento

- O papel da irmã Luke foi oferecido a Ingrid Bergman, mas a actriz afirmou considerar-se velha para desempenhar tal papel, sugerindo o nome de Audrey Hepburn para o mesmo

- As cenas que de certo modo induzem a uma tensão sexual entre o médico do hospital, Dr. Fortunati e a irmã Luke, estão completamente ausentes na novela

- Durante a preparação da personagem da irmã Luke, Audrey Hepburn conheceu a verdadeira ex-freira Marie-Louise Habets de quem se tornou amiga

- O filme foi rodado em Roma, Bruges, Stanleyville e numa colónia de leprosos no Congo Belga


- Fred Zinnemann teve de se opôr energicamente a Jack Warner que pretendia introduzir um fundo musical na última cena, em que Audrey Hepburn troca meticulosamente o hábito de freira por roupas civis, abre a porta da cela e se encaminha lentamente para a saída do convento. Felizmente que levou a sua avante, conseguindo uma das melhores cenas de todo o filme, devido exactamente ao despojamento com que foi rodada.

- O filme foi nomeado para 8 Oscars, mas não conseguiu vencer em qualquer categoria. Lembre-se que tinha um concorrente de peso, o histórico “Ben-Hur”, que arrebatou nesse ano um total de 11 Oscars. O Oscar da melhor actriz foi para Simone Signoret em “Room at the Top”, mas Audrey Hepburn viria a ganhar o BAFTA inglês para essa mesma categoria, bem como o prémio da Associação de Críticos de Nova Iorque e do Festival Internacional de San Sebastian.