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quarta-feira, setembro 03, 2025

THE BRIDGES OF MADISON COUNTY (1995)

AS PONTES DE MADISON COUNTY
Um filme de CLINT EASTWOOD




Com Clint Eastwood, Meryl Streep, Annie Corley, Victor Slezak, Jim Haynie, Sarah Kathryn Schmitt, etc.

EUA / 135 min / COR /16x9 (1.85:1)

Estreia nos EUA a 2/6/1995
Estreia em Portugal a 29/9/1995




Robert Kincaid: "This kind of certainty comes but once in a lifetime"

"As Pontes de Madison County" é a história de Robert Kincaid, fotógrafo famoso, e de Francesca Johnson, mulher de um agricultor do Iowa. Kincaid, de 52 anos, é fotógrafo da National Geographic - um estranho e quase místico viajante dos desertos asiáticos, dos rios longínquos, das cidades antigas, um homem que se sente em desarmonia com o seu tempo. Francesca, de 45 anos, noiva italiana do pós-guerra, vive nas colinas do Iowa com as memórias ainda vivas dos seus sonhos de juventude. Qualquer deles tem uma vida estável, e no entanto, quando Robert Kincaid atravessa o calor e o pó de um Verão do Michigan e chega à quinta dela em busca de informações, essa estabilidade desaba e as suas vidas entrelaçam-se numa experiência de invulgar e estonteante beleza que os marcará para sempre. Baseado no best-seller de 1993 de Robert James Waller“As Pontes de Madison County” conseguem, nas mãos classicistas de Clint Eastwood, atingir um apaixonante grau de pureza e simplicidade. Como nos seus melhores filmes (e este é sem dúvida alguma um deles) Eastwood opta por uma direcção sóbria, feita de respirações, de compassos, veículos ideais para a propagação das emoções. Longe de querer ser pretensiosamente dramático, Eastwood soube ser sensível na abordagem que fez do magnífico argumento que tinha entre mãos. O resultado é um filme apaixonante em que questões tão vulgares como oportunidades, perdas ou sacrifícios são elevadas ao nível do sublime.


Conforme escreve Maria João Madeira em "O Contador de Histórias" (um artigo sobre os filmes da autoria de Eastwood), «A intensidade emocional do filme vem da depuração, contenção e realismo com que Eastwood a filma, rigorosa e precisamente como sempre, o que no registo do melodrama mais se impõe e ele cumpre. Os olhares, os gestos e os silêncios alimentam a púdica mise-en-scène (não é um melodrama excessivo de tonalidades sirkianas que se trata). O espectro das convenções sociais ocupa o lugar que elas têm (e a personagem secundária da mulher ostracizada como adúltera que se torna a melhor amiga de Francesca, reforça essa ideia reflectindo, por outro lado, o que lhe podia ter estado reservado).»

(...) «Nesta história é masculino o papel daquele que é deixado sózinho e magoado (como ele lhe diz não é monge nenhum mas nunca sentiu por outra pessoa o que sente com ela), é ele quem perde o lugar. A mais citada das cenas, a mais memorável das cenas de "Madison County", exemplarmente filmada no que tem de suspensão e no que tem de suspense, diz isto mesmo quando o filma à chuva como uma figura encharcada, destroçada, já quase espectral, vindo do outro lado da rua para se especar defronte do carro de Francesca e do marido dela antes de se dirigir ao seu carro e seguir à frente deles. À beira de um cruzamento, o semáforo está vermelho. O vidro retrovisor do carro dele deixa ver o fio que ela lhe ofereceu e ele traz ao pescoço. A luz do semáforo demora uma pequena eternidade, durante a qual Francesca, sentada ao lado do marido, vai apertando a maçaneta da porta em gestos de sufocada hesitação. A luz passa a verde e o carro da frente demora a arrancar. Fá-lo por fim, voltando à esquerda. O carro detrás vira à direita. Lá fora a chuva continua torrencial. (Há quem diga que o mundo se divide entre as pessoas que choram durante a projecção desta cena e as que o não fazem).»


«Embora nunca tenhamos voltado a falar um com o outro, permanecemos tão intimamente ligados quanto é possível a duas pessoas estarem-no. Não consigo encontrar palavras para exprimir isto adequadamente. Ele exprimiu-o melhor quando me disse que tínhamos cessado de ser dois seres distintos e que nos tínhamos tornado num terceiro ser formado por nós dois. Nenhum de nós existia independentemente desse ser. E esse ser foi deixado à deriva»

CURIOSIDADES:

- A ponte onde Francesca se encontra com Robert (Cedar Bridge) foi destruída durante um incêndio em 3 de Setembro de 2002.

- Quem pretendia realizar este filme em 1993 era Sydney Pollack, que contava com Robert Redford para o desempenho de Robert Kincaid. Nessa altura, as actrizes pensadas para o papel de Francesca eram, entre outras, Susan Sarandon, Jessica Lange, Barbara Hershey e Angelica Huston.

- A casa de campo usada nas filmagens encontrava-se abandonada há mais de 30 anos, tendo sido completamente restaurada durante a produção do filme. 

 

quinta-feira, novembro 14, 2013

THE FRENCH LIEUTENANT'S WOMAN (1981)

A AMANTE DO TENENTE FRANCÊS
Um Filme de KAREL REISZ


Com Meryl Streep, Jeremy Irons, Leo McKern, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell, Lynsey Baxter, Peter Vaughan, etc.
 
GB / 124 min / COR / 16X9 (1.85:1)
 
Estreia na GB em Agosto de 1981
Estreia nos EUA a 18/9/1981
Estreia em PORTUGAL a 25/12/1981
(Lisboa, cinema S. Jorge)

 

Sarah: «I am the French Lieutenant's... whore»


Há já algum tempo que não passava pela FNAC. Esta semana, no Cascais Shopping, tive uma agradável surpresa pela qual aguardava há muito: a edição portuguesa em DVD de “A Amante do Tenente Francês”, filme que nunca mais me saíu da memória, desde que o vi no écran do cinema S. Jorge nos princípios dos anos 80. Data desta altura a minha paixão por Meryl Streep, paixão essa que ao longo dos anos foi murchando pouco a pouco, aliás como toda a boa paixão que se preze. Mas aqui a actriz ainda continuava em estado de graça, depois de ter protagonizado a inesquecível série “Holocausto” (recentemente também disponível em Blu-ray), aparecido fugazmente no “Manhattan” de Woody Allen e assumido papeis relevantes em “The Deer Hunter / O Caçador” (1978) e “Kramer vs. Kramer” (1979). Este seu duplo desempenho como Sarah/Anna seria o arranque a sério para uma carreira fulgurante, mantendo-se ainda hoje como uma das suas prestações mais inesquecíveis.


“The French Lieutenant’s Woman” é baseado num conhecido e homónimo romance do britânico John Robert Fowles (1926-2005), escritor cuja obra é por norma situada entre o modernismo e o pós-modernismo. Harold Pinter (1930-2008), outro britânico célebre (Prémio Nobel da literatura em 2005), escreveu o argumento do que a princípio parecia um romance infilmável, e Karel Reisz (1926-2002), também britânico, mas de ascendência checa, passou para o celulóide as duas histórias da obra, publicada pela primeira vez em 1969. À semelhança desta, em que Fowles aborda os amores proibidos da Inglaterra vitoriana segundo a perspectiva cultural dos anos 60, também o filme vai evoluindo entre as duas épocas, ao introduzir um filme dentro do filme. Mike (Jeremy Irons) e Anna (Meryl Streep) são dois actores que mantêm uma relação de adultério, ao mesmo tempo que vão vivendo uma outra história de amor fictícia (localizada em 1897), nos personagens de Charles e Sarah.


Charles Smithson é um naturalista amador, seguidor das teorias darwinianas, que divide as suas atenções entre o estudo de fósseis e a corte à sua noiva, Ernestina Freeman (Emily Morgan), filha de um rico homem de negócios, e com quem planeia casar-se em breve. Mas um dia conhece Sarah Woodruff (belíssima sequência no paredão do cais, a culminar naquele icónico close-up de Streep) e tudo se altera. Sarah é uma mulher independente, mas estigmatizada por um escandaloso (pelos padrões da época) relacionamento com um tenente da marinha francesa chamado Varguennes, que é casado, e que a teria abandonado depois dela se servir. A população de Lyme, onde a acção se situa, chama-lhe “a tragédia”, ou, ainda pior, “a puta do tenente francês”. É toda essa aura misteriosa que envolve Sarah, aliada ao seu ar frágil e desprotegido, que intriga Charles, vindo a despertar nele uma curiosidade crescente por aquela mulher solitária e proscrita. Pouco a pouco, através de alguns encontros furtivos, a atracção instala-se entre os dois, transformando-se, rápida e naturalmente, numa forte ligação amorosa.


Como não podia deixar de ser (para ser fiel à ideia central do romance de Fowles), Karel Reisz apresenta-nos todo o seu filme em montagem paralela, em que a ficção se confunde com a realidade, entrelaçando-se as duas histórias de amor nos percursos vividos pelos duplos personagens. Daqui resulta um momento único e apaixonante do cinema romântico, meticulosamente construído, e magistralmente servido pelas interpretações brilhantes de Irons e, sobretudo, Meryl Streep, a qual, nunca é demais dizê-lo, tem aqui um desempenho inolvidável, que chega a roçar a perfeição, num jogo de expressões e emoções raramente visto em cinema. A actriz ganharia o BAFTA inglês e o Globo de Ouro na categoria drama, mas perderia o Oscar para Katharine Hepburn (pelo filme “On Golden Pond / A Casa do Lago”). Dá para acreditar?
 

A música de Mozart faz sobressair a excelente cinematografia de Freddie Francis, e o filme está recheado de sequências inesquecíveis, como a já citada cena do paredão, o monólogo de Sarah a contar a sua história a Charles ou aquela única noite de amor vivida no quarto de hotel de Exceter. Dos três finais que Fowles apresenta no seu romance, dois deles são aqui usados para finalizar o filme. Não são alternativos, mas ocorrem como tudo o resto em simultâneo, permitindo ao espectador, tal como ao leitor do livro, uma escolha pessoal, de acordo com a sua sensibilidade e posicionamento. A opção é, uma vez mais, entre a ficção e a realidade. Mas onde começa uma e termina outra?

CURIOSIDADES:

- Nos anos 70 foi feita uma primeira tentativa de adaptação do romance ao cinema (a interpretação estaria a cargo de Vanessa Redgrave), mas a dificuldade de se escrever um guião credível acabou por abortar o projecto.
 
- Chama-se "Cobb" o paredão do cais de Lyme, onde decorre aquela sequência com Sarah, no meio das ondas a rebentarem à sua volta. Pela perigosidade da situação Meryl Streep não participou das filmagens, pertencendo a um dos directores artísticos a silhueta que se vê ao longe. Foi em estúdio que depois foram filmados os magníficos close-ups, que se tornariam na imagem de marca do filme.