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sexta-feira, agosto 15, 2025

PAINT YOUR WAGON (1969)

OS MARIDOS DE ELIZABETH
Um filme de JOSHUA LOGAN



Com Lee Marvin, Clint Eastwood, Jean Seberg, Harve Presnell, Ray Walston, etc.

EUA / 158 min / COR / 
16X9 (2.20:1)

Estreia nos EUA a 15/10/1969
Estreia em MOÇAMBIQUE (L.M.) a 25/9/1970 (teatro Manuel Rodrigues)




«Gotta dream boy, gotta song
Paint your wagon and come along…»

Ben Rumson: “There's two kinds of people, 
them goin' somewhere and 
them goin' nowhere. And that's what's true”

“Paint Your Wagon” é uma deliciosa comédia musical, adaptada por Paddy Chayefsky da produção original estreada na Broadway em 12 de Novembro de 1951. Foi o único filme produzido por Alan Jay Lerner, que também escreveu o argumento (substancialmente diferente) da sua própria peça. O filme estreou-se no Outono de 1969, numa altura em que o filme musical estava um pouco fora de moda, nomeadamente nas preferências da juventude da altura, mais virada para outros géneros de filmes. Daí “Paint Your Wagon” não ter atingido o sucesso ambicionado pelos seus produtores.

Eu pertencia a essa juventude (tinha 17 anos) mas adorei o filme quando o vi pela primeira vez no esplendor dos 70 mm e das 6 bandas estereófonicas. Já se passou mais de meio século desde que "Paint Your Wagon" se estreou em Lourenço Marques, no Teatro Manuel Rodrigues. Havia uma grande curiosidade em ver dois dos actores mais “duros” da época actuarem - e cantarem (!) - numa comédia musical. O resultado não podia ter sido mais excitante. A belissima banda sonora e a excelência das representações foram motivos mais do que suficientes para que “Os Maridos de Elizabeth” (na bígama tradução portuguesa) se tornasse num dos filmes mais amados daquele final da década de sessenta. Depois, aquela história de uma vivência a três, acima de tabus e preconceitos, enquadrava-se perfeitamente nas novas ideias libertárias que a juventude de Woodstock tentava introduzir na moral e nos costumes vigentes na sociedade dessa altura. Até essa altura apenas tinha visto um musical, o quase "obrigatório" "The Sound of Music", que na altura não me despertou um interesse por aí além (viria a aumentar o apreço por esse filme alguns anos depois). Mas "Paint Your Wagon" teve o mérito de me despertar para o filme-musical. A partir dessa altura comecei a descobrir os clássicos de antigamente bem como começar a assistir ao que de novo se começava a produzir nessa área.

Os diálogos de "Paint Your Wagon" (um dos seus trunfos mais evidentes) são de um brilhantismo exemplar, extrapolando as vivências daqueles garimpeiros do ouro para as sociedades modernas, com uma série de situações hilariantes a sucederem-se a um ritmo vertiginoso. Mas o grande responsável pela notoriedade alcançada por “Paint Your Wagon” foi sem dúvida Lee Marvin, actor para o qual o filme parece ter sido escrito de encomenda. A sua personagem, Ben Rumson, um hedonista sem-vergonha, ficará para sempre guardada na memória, mesmo na daqueles que por qualquer obscura razão não gostaram deste filme magnífico. Até a cantar a sua prestação não é menos excelente, tal como o testemunha o grande êxito alcançado pela canção “Wandrin’ Star” que em Março de 1970 valeu um disco de ouro ao actor – esteve durante três semanas no 1º lugar dos singles mais vendidos na Grã-Bretanha, relegando para 2º lugar o tema “Let It Be” dos Beatles.

Por arrasto a banda-sonora alcançou de igual modo um grande sucesso, ao contrário do próprio filme que devido às más críticas se saldou por um fracasso comercial. As canções de Lerner e Loewe, os arranjos e a direcção de musical de Nelson Riddle e ainda a contribuição de Andre Previn (que escreveu novas canções de propósito para esta versão no cinema) fizeram do respectivo album um triunfo nos quatro cantos do mundo. Além de “Wandrin’ Star”, Lee Marvin interpreta mais três temas (“The First Thing You Know”, “Best Things” e o final “I’m On My Way”). Clint Eastwood também colabora em “Best Things”, mas canta de igual modo três temas a solo, “I Still See Elisa”, “I Talk To The Trees” e “Gold Fever”. Os dotes vocais não serão a especialidade do actor e realizador de eleição que todos conhecemos mas também não envergonham ninguém. Quanto a Jean Seberg, a actriz foi dobrada por Anita Gordon em “A Million Miles Away Behind The Door”. A banda sonora foi nomeada para o Oscar da especialidade, mas viria a perder para “Hello Dolly!”, de Lennie Hayton e Lionel Newman. Para os interessados deixo aqui o link para poderem descarregar o álbum.

CURIOSIDADES:

- A grande maioria dos figurantes do filme eram jovens hippies que se encontravam a viver nos bosques onde os exteriores de “Paint Your Wagon” foram rodados (Big Bear Valley e San Bernardino National Forest, na California).

-Apesar de ser um musical, nenhum coreógrafo foi contratado para o filme. De todas as canções apenas “They Call The Wind Maria” foi interpretada por um profissional, o barítono Harve Presnel.

- Lee Marvin tinha na altura 44 anos, apenas mais seis do que Clint Eastwood. Consta que durante toda a rodagem se encontrava quase sempre bêbado, o que certamente ajudou na brilhante composição que o actor fez da personagem de Ben Rumson.


LOBBY CARDS:



sexta-feira, julho 31, 2015

BIO-FILMO: LEE MARVIN

Nascido a 19/2/1924, em Nova Iorque, EUA
Falecido a 29/8/1987, em Tucson, Arizona, EUA

Ele era um bêbado incorrigível, dentro e fora dos écrans, e entrou nos filmes mais violentos da sua época. Mas primeiro e acima de tudo, Lee Marvin foi um actor fantástico e um dos mais cool que o cinema nos deu a conhecer. Lembrado pelas muitas personagens de “durões” que interpretou ao longo de 4 décadas (dos anos 50 aos anos 80), a sua época de “ouro” centra-se na segunda metade dos anos 60, na qual se inserem os seus filmes mais famosos: “Cat Ballou” (1965) (que lhe trouxe o seu único Óscar, bem como o Globo de Ouro na categoria de actor principal), “The Ship Of Fools” (1965) (uma magnífica interpretação, destacando-se de um grande lote de actores consagrados), “The Dirty Dozen” (1967) (talvez o filme mais popular de todos, mas que Marvin detestava por achá-lo uma fraca caricatura da guerra), “Point Blank” (1967) (um dos seus papeis mais marcantes)  ou “Paint Your Wagon” (1969) (uma deliciosa comédia musical, ao lado de Clint Eastwood e Jean Seberg, onde interpreta um dos maiores hits daquele ano, “Wandrin’ Star”).


Filho de um publicitário e de uma designer de moda, Lee Marvin nasceu em Nova Iorque, a 19 de Fevereiro de 1924 (o nome “Lee” foi-lhe atribuído em honra do general confederado Robert E. Lee), e começou bem cedo a fazer jus à fama de “macho”, ao ser expulso de várias escolas durante a juventude. Nos inícios da 2ª Guerra Mundial, Lee Marvin alistou-se no Corpo de Fuzileiros Navais, sendo ferido com alguma gravidade em Junho de 1944, durante a batalha de Saipan. Passou o resto da guerra em convalescença, na sua cidade natal, onde mais tarde conseguiu o primeiro emprego como aprendiz de canalizador, em Woodstock. Essa profissão levá-lo-ia um dia a reparar as instalações sanitárias de um teatro, onde se manifestou a sua paixão pelas luzes da ribalta. Chegou a substituir um actor doente durante um ensaio, e, pouco depois, começou a frequentar um curso de representação, o que o levou a desempenhar pequenos papeis em produções teatrais e também televisivas.


No início dos anos 50, já casado com a sua primeira mulher, Elizabeth (que lhe daria 4 filhos), Lee Marvin mudou-se para Hollywood e as suas participações em filmes não pararam de crescer, quer em quantidade quer em importância, tornando-o, pouco a pouco, num actor bastante conhecido, sobretudo em papeis de “vilão”, e também por causa da sua aparência física, que o cabelo grisalho prematuro evidenciava ainda mais. O primeiro filme em que participou como actor principal foi “Eight Iron Man” (1952), de Edward Dmytryk. Seguiu-se “The Big Heat” (1953), um filme realizado pelo prestigiado Fritz Lang, que o ajudaria a cimentar ainda mais a sua imagem de marca. Durante toda a década de 50, Lee Marvin participou também em inúmeras séries televisivas, a mais célebre das quais foi “M Squad” (1957-1960), onde desempenhou o papel do detective Frank Ballinger em mais de 100 episódios.


“The Killers” (1964), de Don Siegel, seria o seu primeiro papel importante da nova década de 60 e no ano seguinte receberia o seu único Óscar (e também o Globo de Ouro) pela sua interpretação de um pistoleiro em constante estado de embriaguez no filme “Cat Ballou” (1965), no qual contracenava com Jane Fonda. Outros prémios atribuídos durante a sua carreira poderão ser conferidos aqui. Lee Marvin, que nunca foi uma pessoa sentimental, guardava apenas 4 recordações da sua carreira: A estatueta do Óscar («I think half of this belongs to a horse somewhere out in the [San Fernando] Valley», foi uma das frases com que brindou o público) a distinção que recebeu do National Cowboy Hall of Fame pelo filme “The Man Who Shot Liberty Valance” (1962), o Disco de Ouro pela venda de 1 milhão de exemplares da canção “Wandrin’ Star” e o sapato de salto alto com que a actriz Vivien Leigh o agrediu no filme The Ship Of Fools” (1965).


A grandeza de um actor também se mede pelos papeis a que diz não. E ao longo da sua carreira, Lee Marvin recusou entrar, por motivos diversos, em muitos filmes que se tornariam grandes êxitos de bilheteira: “Per Qualche Dollaro In Piú” (1966), “The Wild Bunch” (1969), “Patton” (1970), “Dirty Harry” (1971), “The French Connection” (1971), “Deliverance” (1972), “Salvador” (1986), foram alguns desses filmes. Depois de em Dezembro de 1986 ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica abdominal, Lee Marvin foi hospitalizado no Tucson Medical Center, no Arizona, em 13 de Agosto de 1987, por causa de uma gripe. Quinze dias depois o actor viria a falecer de um ataque cardíaco fulminante. Tinha apenas 63 anos (vivia desde 1970 com a segunda mulher, Pamela) e foi sepultado junto ao boxeur Joe Louis, no cemitério nacional de Arlington.


FILMOGRAFIA:

1986 – The Delta Force / Força Delta
1984 – Canicule (Dog Day) / Ventos de Violência
1983 – Gorky Park / O Mistério de Gorky Park
1981 – Death Hunt / Caçada Implacável
1980 – The Big Red One / O Sargento Da Força Um


1979 – Avalanche Express / O Expresso Avalanche
1976 – The Great Scout & Cathouse Thursday / Barafunda No Faroeste
1976 – Shout At The Devil / Armadilha Internacional
1974  Apache Chronicle
1974 – The Klansmen / O Homem Do Klan
1974 – The Spikes Gang / A Quadrilha De Spikes
1973 – The Iceman Cometh / O Homem De Gelo
1973 – Emperor Of The North Pole / Desafio De Gigantes
1972 – Pocket Money / Dinheiro Trocado
1971 – Prime Cut / Carne De Primeira
1970 – Monte Walsh / Um Homem Difícil De Morrer


1969 – Paint Your Wagon / Os Maridos De ElizabethNomeado para o Globo de Ouro
1968 – Hell In The Pacific / Duelo No Pacífico
1967  Sergeant Ryker / Sargento Ryker
1967 – Point Blank / À Queima-Roupa
1967 – The Dirty Dozen / Doze Indomáveis Patifes
1966 – The Professionals / Os Profissionais
1965 – Ship Of Fools / A Nave Dos Loucos
1965 – Cat Ballou / Mulher FelinaVencedor de 1 Óscar e de 1 Globo de Ouro
1964 – The Killers / Contrato Para Matar
1963 – Donovan’s Reef / A Taberna Do Irlandês
1963  The Americanization Of Emily / Herói Precisa-se
1962 - The Man Who Shot Liberty Valance / O Homem Que Matou Liberty Valance
1961 – The Comancheros / Os Comancheros
Na série televisiva "M SQUAD"





1958 – The Missouri Traveler / O Viajante Do Missouri
1957 – Raintree County / A Árvore Da Vida
1956 – The Rack / Suplício
1956 – Pillars Of The Sky / Pilares Do Céu
1956 – Attack / Ataque
1956 – Seven Men From Now / Sete Homens Para Matar
1955 – Shack Out On 101
1955 – I Died A Thousand Times / Morri Mil Vezes
1955 – Pete Kelly’s Blues / Melodia Negra
1955 – A Life In The Balance / Entre A Vida E A Morte
1955 – Not As A Stranger / Médico E Só Médico
1955 – Violent Saturday / Sábado Trágico
1955 – Bad Day At Black Rock / A Conspiração Do Silêncio


1954 – The Raid / A Ferro E Fogo
1954 – The Caine Mutiny / Os Revoltados Do Caine
1954 – Gorilla At Large / O Gorila À Solta
1953 – The Wild One / O Selvagem
1953 – Gun Fury / A Fúria Das Armas
1953 – The Big Heat / Corrupção
1953 – The Stranger Wore A Gun / O Forasteiro Estava Armado
1953 – The Glory Brigade / A Brigada Da Glória
1953 – Seminole / Massacre
1952 – Eight Iron Men / Oito Homens De Ferro
1952 – Hangman’s Knot / O Laço Do Carrasco
1952 – The Duel At Silver Creek / A Cidade Do Pecado
1952 – We’re Not Married! / Não Estamos Casados (não creditado)
1952 – Diplomatic Courier / Correio Diplomático (não creditado)
1952 – Hong Kong (não creditado)
1951 – Dawn Among The Sheltering Palms (Friendly Island) / A Ilha Do Amor
1951 – Teresa (não creditado)
1951 – You’re On The Navy Now / Marinheiros De Água Doce (não creditado)

quarta-feira, julho 29, 2015

POINT BLANK (1967)

À QUEIMA-ROUPA
Um filme de JOHN BOORMAN



Com Lee Marvin, Angie Dickinson, John Vernon, Keenan Wynn, Carrol O'Connor, Lloyd Bochner, Michael Strong, Sharon Acker, etc.

EUA / 92 m / COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA: 30/8/1967
Estreia em PORTUGAL: Lisboa (cinemas Condes e Roma) 18/5/1968

À primeira vista, tudo nos diz que se trata de uma simples história de gangsters. A publicidade é quase isso que sugere, a figura de Lee Marvin não a desmente. A história é tradicional (extraída de um romance de 3.a ordem de Richard Stark) - Walker participa num assalto a convite do seu melhor amigo, Mal Reese (John Vernon, na sua estreia no cinema). Um desentendimento de processos cria a ocasião: Walker é traído pelo amigo, que o deixa quase morto, e pela mulher, que o abandona. Mas Walker resiste, recusa a morte. E lentamente, reconstruíndo-se como rosto, reconstruíndo-se como corpo, reajustando os fragmentos duma experiência interrompida, recompondo a realidade desfeita, lentamente Walker regressa, lentamente prepara a vingança. É essa peregrinação solitária, ou quase, que o filme nos descreve: furiosa, obsessiva restituição das coisas à sua verdade justa. A traição desequilibrara os eixos da realidade. Walker percorre o real (corredores, ruas, cidades) para lhe atribuir o equilíbrio perdido. Lutando contra uma engrenagem que o despreza e ignora, WaIker opõe-lhe o desespero da sua solidão. Mas (sabemos nós) ao lutar  contra a engrenagem é a engrenagem que o move; a sua vingança, livremente executada, teve afinal a necessidade de um mecanismo de precisão. Novamente a realidade se desequilibra, novamente ela se estilhaça: mas Walker descobriu no amor o eixo frágil mas imenso duma verdade suspensa.


Se quisermos fazer o elogio de "À Queima-Roupa" teremos de analisar os vários elementos que contribuem para a sua qualidade. Em primeiro lugar, este filme tem um peso específico, uma textura própria, que o torna denso e opaco. As imagens nunca estão reduzidas à categoria de instrumentos para contar uma história, mas funcionam como pedaços de uma realidade irredutível a qualquer esquematismo ou significação. Cada sequência possui uma força íntima que nos esmaga pela sua energia e riqueza transbordantes. Dos objectos aos rostos, dos gestos às palavras, tudo tem a medida exacta da realidade. Mas esta realidade não é a realidade imediata: é uma realidade construída, é o produto da complexa elaboração de mil factores que a transformam em presença e enigma, em nudez e dissimulação. Para tal contribui certamente um apuradíssimo sentido dos ambientes, a espantosa construção de um espaço que nunca é indiferente, que é sempre, na sua asfixia, no seu desacerto ou desvario, uma das personagens nucleares de toda a obra.


Acentuemos ainda os elementos de irrealidade que marcam a primeira parte do filme. Boorman utiliza com mestria uma banda sonora extremamente trabalhada, e o resultado é a desarticulação do real, é a multiplicação do presente numa pluralidade de tempos. Recordando para a vida, Walker não sabe distinguir o presente do passado, o actual da recordação. Isso permite uma desagregação das coordenadas do espaço e do tempo. E uma vez que não há em Walker a mais leve sombra de «vida interior», uma vez que toda a «psicologia» foi banida em benefício duma análise rigorosa dos comportamentos, as recordações não aparecem com a auréola poetizante que lhes é tradicional. A recordação e o presente coexistem, fundem-se, sobrepõem-se numa violência quase insuportável.


Por outro lado, o que nos fascina são as várias obsessões que cortam transversalmente o itinerário linear do filme. A sua insistência acaba por produzir um clima ambíguo, mórbido, exaltante, sedutor, terrível na sua intensidade. De uma boite  enlouquecedora a um corredor sem fim, de uma multidão que é preciso atravessar às águas como obstáculo a transpor, do encontro serenamente desenhado pelo vento ao grito selvagem da separação e da morte, em tudo este filme nos perturba, e envolve, e enleia. Acrescentemos ainda que Boorman soube reduzir as personagens às suas dimensões físicas, destituindo-as de qualquer dimensão «psicológica». E é nessa redução que elas se humanizam, que elas se esquivam aos modelos do drama tradicional e se nos impõem na sua ambiguidade inteiriçada e convulsiva. Boorman não insufla suplementos de alma aos seus intérpretes; ensina-os a dominarem o corpo, a existirem como corpos que existem num espaço.


Há ainda a violência. Mas essa violência é linguagem. Porque Walker perde o sentido da realidade e só o recupera através da violência. É vê-lo entrar numa casa, de pistola em punho, animal ofegante de espanto, frágil até na sua solidão e desamparo. É vê-lo depois, na cedência do amor (que é um desvio que pode dar sentido a esse plano), na fadiga das cenas finais, no seu olhar exausto. Walker utiliza a violência como a única linguagem de que dispõe para reconstítuir o seu mundo. E se disséssemos também que "À Queima-Roupa" é um filme feito de ternura, com a presença obsessiva do mar, com a ondulação dos gestos, com a alegria pressentida no traço balanceado da câmara lenta? Porque douce est la parole de l' eau (escreveu um dia Tzara, poeta).


Walker, um dos personagens mais cool da história do cinema, é Lee Marvin, compacto, maciço, esmagador, num desempenho talhado à sua medida. A seu lado, Angie Dickinson, para além de todo o sex-appeal que sempre lhe foi reconhecido, revela-se uma espantosa actriz, especialmente em duas sequências (a cena de amor simulado com Reese e a luta impotente com Walker). Quando os olhos dela se alargam imperceptivelmente em ternura e serenidade, nós sentimos que a sua beleza tem a rara qualidade de nos comover. Há ainda Sharon Acker (a mulher de Walker), com um monólogo esplêndido, pela contenção com que é dito, e pelos silêncios de Lee Marvin, que o entrecortam. É talvez um dos mais belos momentos do filme.


CURIOSIDADES:

- Primeiro filme rodado na ilha de Alcatraz, após o encerramento da prisão em 1963.

- A mansão onde Walker se encontra com Brewster, situa-se em Hollywood Hills, e foi alugada de propósito para o filme. Foi nesta mesma casa que Os Beatles se hospedaram quando visitaram Los Angeles. O nome da rua inspirou uma canção dos Fab 4: "Blue Jay Way", composta por George Harrison em 1967.

- Este mesmo argumento, da autoria de Richard Stark (pseudónimo de Donald E. Westlake), daria origem a outro filme em 1999: "Payback (A Vingança)", dirigido por Brian Helgeland e com Mel Gibson no protagonista principal.


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