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quarta-feira, julho 16, 2025

THE SERVANT (1963)

O CRIADO
Um filme de JOSEPH LOSEY





Com Dirk Bogarde, James Fox, Sarah Miles, Wendy Craig, etc.

GB / 112 min / PB / 4x3 (1.66:1)

Estreia no Festival de Veneza em Setembro de 1963
Estreia no Reino Unido em 1963/11
Estreia em Portugal a 25/9/1970
Estreia em Moçambique (L.M.) em 12/3/1972 (teatro Manuel Rodrigues)



Expatriado americano no Reino Unido (foi um dos incluídos na tristemente célebre lista negra de Hollywood), Joseph Losey sempre trouxe um olhar frio e desencantado ao avaliar os costumes do seu país de adopção. Mas em “The Servant”, a primeira das suas três colaborações com Harold Pinter (as outras seriam "Accident / Acidente", em 1967 e "The Go-Between / O Mensageiro" em1970), a persistência do seu olhar ainda se tornou mais penetrantemente nítida. O guião de Pinter, tipicamente elíptico e oblíquo, e a direcção crispada e áspera de Losey oferecem uma análise sardónica das relações de classe, sexo e poder na Londres dos anos 60. Um jovem algo decadente das classes superiores, Tony (James Fox num dos seus primeiros papéis de estrela), contrata um criado, Barrett (Dirk Bogarde), que parece ser a pessoa ideal para tomar conta dos problemas do dia-a-dia - é discreto, competente e tem classe. Mas as aparências iludem e a máscara servil de Barrett oculta uma perversidade diabólica que gradualmente irá tomar conta da vida do seu patrão. Para isso não hesita em usar a sua amante, Vera (uma excitante Sarah Miles), fazendo-a passar por irmã e introduzindo-a na casa para através dos seus encantos conseguir um controle ainda maior.


A fábula é límpida: herdeiros de um mundo condenado, o escravo torna-se o amo, e vice-versa, muito embora a troca de papéis não evite a continuação de uma exploração mútua. Losey deleita-se perante o espectáculo deste inexorável processo de desagregação e filma tudo com uma refinada elegância, usando a própria câmara de filmar como cúmplice quando com ela explora sinuosamente os espaços claustrofóbicos da casa, transformando-os numa gaiola bem montada e observando os seus residentes de ângulos perturbadores. Divertido, sinistro e enervante, “The Servant” conserva ainda hoje o poder de criar mal-estar. Dirk Bogarde tem aqui um dos papeis-chave da sua carreira (estou a lembrar-me também do excelente desempenho em "Morte em Veneza", a conhecida obra de Luchino Visconti. Inclusivé, o actor tomou em mãos as rédeas da realização deste filme durante duas semanas, período em que Joseph Losey esteve hospitalizado. Após a coonvalescença o realizador não voltou a filmar as cenas entretanto rodadas, o que foi um alívio para os actores e equipa técnica.

Dirk Bogarde e James Fox

quinta-feira, julho 14, 2011

THE GO-BETWEEN (1970)

O MENSAGEIRO
Um filme de JOSEPH LOSEY


Com Julie Christie, Alan Bates, Margaret Leighton, Michael Redgrave, Dominic Guard, Michael Gough, Edward Fox, Richard Gibson


GB / 118 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia na GB em Dezembro de 1970
Estreia nos EUA a 29/7/1971 (New York)
Estreia em Moçambique a 22/9/1972
(LM, cinema Infante)


O que de início nos surpreende em "O Mensageiro" é uma discreção, uma reserva no plano dos acontecimentos que não parece estar na tradição de Losey. Grande parte dos seus filmes anteriores caracterizava-se por uma sobrecarga de eventos e significações que por vezes atingia certos limites (jà) perturbantes. Não acontece isso com “O Mensageiro”. Sentimos aqui a plenitude afirmativa duma maturidade, dum classicismo: o curso linear do filme capta-nos pela nitidez, pela transparência dos propósitos, pelo equilíbrio das propostas.
Os eixos da ficção movem-se com uma segurança irrepreensível, e o jogo dos temas desenrola-se sem quebras, sem desvios: é a polarização já conhecida entre a brutalidade natural e o requinte social (entre o instinto e o protocolo); são alguns emblemas que nos restituem um longínquo dinamismo de infância (as corridas e lutas dos dois rapazes pelos corredores e pelas escadas da grande casa que habitavam); é a evocação duma certa mitologia de que dificilmente nos desprendemos (o gosto de exercer a omnipotência da magia); é ainda o borboletear ofegante de Leo em torno de um determinado saber sexual (dum saber sabido, dum saber insciente: a ver, a reconhecer) que o filme circunscreve sem nunca nomear; há ainda uma caracterização dos lares e dos grupos sociais assinalados nas suas mais gritantes diferenças de classe; é o traçado eufórico de correrias através dos campos.
Com tudo isto Losey narra uma história que nos interessa, sem sabermos muito bem onde está o nosso interesse, e sem nunca nos demarcarmos com precisão do próprio interesse que agita os passos e gestos de Leo, o protogonista. Porque, quer se saiba o que se pergunta, quer se não saiba, todo o saber (sobre o) sexual é um saber que esbarra nos seus próprios evidentes limites de se referir a algo que se situa numa dimensão outra, que é a da verdade como história pessoal e assunção do próprio não saber como núcleo irredutível e fundamento da proliferação fantasmática.
Todo o mensageiro pressupõe uma mensagem. A vulgaridade desta mensagem (a que vem nas mãos de Leo) aparece como o véu que oculta outra mensagem: mas qual? Porque Leo, ao transportar, é ele o transportado, porque é o desejo de saber mais que o move e o justifica. E, com ele, nós, seguindo as linhas duma ficção que não tem outras razões para nos atrair. Que o filme nos transpor­te, eis o que deriva sem dificuldades do seu agenciamento cuidadoso e inteligen­te. Que a nossa atenção se deixe conduzir para estes percursos do prazer, nada disso constitui motivo de surpresa. Mas sucede que o filme não parece ultrapassar esse plano da fascinação envolvente, do esteticismo depurado.
É certo que a narrativa se desenrola na voz e na memória da personalidade que muitos anos an­tes a viveu, e que é o seu drama (viveu ele sem amor? porque se recusou a saber? porque fugiu às respostas? corria em direcção à verdade, ou corria para a contor­nar e dela fugia?) que, no final, se vem sobrepor aos dados da história que durante todo o tempo nos preocupou. Mas tal artificio narrativo não chega para criar fendas num filme em que chegamos a deplorar a ausência de um pouco de desmesura que desarrume o concertado trabalho de um cineasta tao competente como o é Losey. “O Mensageiro” é uma das obras mais frias e reflectidas do autor de “O Criado”. Que o tom do filme coincida com o próprio protagonista é circunstância interessante, mas que não basta para nos implicar no espaço demasiado pré-construído da ficção que esse protagonista suporta.
Eduardo Prado Coelho in “Isto é Espectáculo” nº 7, Junho de 1977