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terça-feira, maio 08, 2012

AVÉ-MARIA CHEIA DE GRAÇA...


O caldo entornou-se. O jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: «Gostava que fizessem isso à sua mãe?» Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidissimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala. Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Exibia-se, 1985, "Je Vous Salue Marie", de Godard, então inédito em Portugal por miúfa dos distribuidores. Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos. O João foi claro: «Nessas coisas, sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos.» Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou. Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus. Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no magnífico portão da rua.
Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema. A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma excitação misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em ave-marias e salve-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas. As luzes reacenderam-se, iluminando um belo e poético caos. Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que "Je Vous Salue Marie" era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cineclubistas, com algum saudoso comunismo, apontavam à polícia os insurrectos: «É aquele..e aquele.» Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas ajudavam a polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: «Pides!» Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: «Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível?» Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriem Roussel no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?
(Manuel S. Fonseca, in jornal Expresso, 17/3/2012)

quinta-feira, agosto 19, 2010

IN CAMERA - JEAN-LUC GODARD

MASCULIN FÉMININ (1966)

MASCULINO FEMININO
Um filme de JEAN-LUC GODARD



Com Jean-Pierre Léaud, Chantal Goya, Marlène Jobert, Brigitte Bardot ,etc.


FRANÇA / 110 min / PB / 4X3 (1.37:1)


Estreia em FRANÇA a 22/3/1966
Estreia em PORTUGAL: Maio de 1973
(Lisboa, Cinema Estúdio 444)


A Coca-Cola, a C.G.T., De Gaulle, Paris 1965, o Vietname, os Beatniks, Bessie Smith, Bob Dylan, France Gal, Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Bach, o Amor, o Sexo, o Erotismo, a Pornografia, a Violência. a Luta de Classes, a Adolescência, a Vida. Tudo isto é o filme de Godard. Não existe dum lado a Arte e do outro a Vida. Depois de Jean Rouch ter feito “Chronique d'un Été” (Paris 1961) essa obra extraordinária de humildade, sinceridade e pesquisa, Godard dá-nos a sua crónica de Paris 1965. E para Godard Paris 1965 é, antes de mais, a adolescência, isto é, a esperança.


A juventude que vive na sociedade de consumo, que aprecia os seus produtos e que ao mesmo tempo a contesta, os que lutam e os que se divertem, os que admiram os que lutam e os que nem sabem que se luta. Ano de 1965, ano de eleições, ano de esperança e ano de desencanto. Paul (Jean-Pierre Léaud) procura participar na luta política sem deixar por isso de ter o direito de ter problemas de mulheres e encontra (a deliciosa) Madeleine (Chantal Goya) a quem se lamenta das agruras dos 16 meses de serviço militar que acaba de cumprir.


Depois é uma série de apontamentos duma extraordinária sensibilidade e frescura sobre a vida quotidiana de alguns adolescentes - jovens de Paris com as suas preocupações (frívolas e sérias), utilizando o cinema verdade como uma técnica (como o próprio Godard diz), com longos interrogatórios, em 15 partes. E é essencialmente pelos olhos de cinco adolescentes (que já deixaram de o ser) que Godard nos mostra o mundo, «este mundo de homens mais crueis que as pedras». São os longos diálogos em que os assuntos mais frívolos alternam com os mais sérios, fazendo-se a transição duns para outros com uma candura exemplar.


Trata-se de um filme tão rico, tão cheio de referências, que se torna difícil sintetizá-lo. E existem pormenores que facilmente escapam num primeiro visionamento. Por exempIo; o carácter lésbico das relações de Madeleine e Elisabeth (Marlène Jobert), que aliás nada tem de culposo. Simone de Beauvoir disse-nos que quando era rapariguinha também ela teve uma fase homossexual como todas as adolescentes. São os ciúmes de Elisabeth pelo primeiro beijo de Paul e Madeleine que quando são referidos ainda não se sabe se são dele ou dela, são as carícias furtivas de Elisabeth a Madeleine logo que Paul vira as costas (para ir protestar à cabina de projecção ou para assobiar uma área de Bach), é o seu desacordo final sobre o desejo de Elisabeth ir viver com eles.


Há também a questão do título. Godard diz no filme que «esta é a geração dos filhos de Marx e da Coca-cola» e acrescenta «que entenda quem quiser».
De facto trata-se da geração dos filhos do socialismo e da sociedade de consumo, quer se queira quer não. Mas porquê este "Masculino-Feminino"? Seria demasiado simplista dizer-se que Paul é um filho de Marx e Madeleine uma filha da Coca-Cola (ou melhor da Pepsi-Cola). Também se poderá querer salientar o espírito masculino, interrogador e aventureiro, e o feitio feminino mais resignado e acomodadiço, sendo este último o que de facto sobrevive. No final é-nos dito que Paul morreu porque se afastou demais para ter o enquadramento que desejava para uma fotografia e caíu. Na impossibilidade de abarcar a totalidade da vida escolheu a morte. Talvez traumatizado com a opacidade da vida.