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terça-feira, junho 25, 2019

LA BÊTE HUMAINE (1938)

A FERA HUMANA
Um Filme de JEAN RENOIR


Com Jean Gabin, Simone Simon, Fernand Ledoux, Blanchette Brunoy, Gérard Landry, etc.

FRANÇA / 100 min / 
P&B / 4X3 (1.37:1)

Estreia em FRANÇA a 23/12/1938
Estreia em PORTUGAL a 7/11/1939



"La Bête Humaine / A Fera Humana", realizado em 1938, conta a história de um subchefe de estação, Roubaud (Fernand Ledoux), que, depois de ter discutido com um superior, teme ser despedido. Pede então à sua jovem esposa, Séverine (Simone Simon), que intervenha junto do "grande patrão", um vago padrinho que ela conhecera na adolescência e que a mãe conhecera ainda melhor. Quando Séverine regressa, tudo fica resolvido, mas, adivinhando o preço que foi pago, Roubaud fica louco de ciúmes e põe de pé uma maquinação pela qual acaba por matar o padrinho sob o olhar de Séverine, no comboio entre Paris e Le Havre. No comboio. o casal homicida foi visto por Jacques Lantier (Jean Gabin), empregado dos caminhos-de-ferro. No decurso da investigação policial, Roubaud encarrega Séverine de assegurar o silêncio de Lantier e, naturalmente, tornam-se os dois amantes. Pouco a pouco, Lantier vai adivinhando, ou descobrindo, a verdade. Séverine gostaria que Lantier matasse Roubaud, com quem, depois do homicídio, a vida conjugal se tornou impossível. Lantier, decididamente, não consegue matar Roubaud, mas estrangula Séverine durante um atque de loucura e atira-se para o vazio, na manhã seguinte, a partir da locomotiva da qual era o mecânico-chefe.


No romance de Émile Zola, Jacques Lantier estava no campo a ver o comboio passar e avistava, num clarão, o gesto criminoso de Roubaud, assistido pela sua mulher. Foi Jean Renoir quem decidiu colocar Lantier no corredor do comboio, fazendo-o vislumbrar a cúmplice. Esta invenção de Renoir foi adoptada por Fritz Lang quando foi levado a realizar um remake do filme (1854), em Hollywood, com o título "Human Desire / Desejo Humano". Uns anos antes, Fritz Lang havia já calçado as botas de Renoir, ao rodar "Scarlet Street / Almas Perversas", um remake de "La Chienne" (1931). Bem vistas as coisas, parece que Jean Renoir e Fritz Lang tinham em comum o gosto por um mesmo tema: marido velho, mulher jovem e amante. Jean Renoir e Fritz Lang têm também em comum uma predilecção pelas actrizes-gatas, as heroínas de tipo felino. Gloria Grahame é a réplica ianque perfeita de Simone Simon, e Joan Bennett foi uma heroína tanto de Renoir quanto de Lang. E as comparações ficam-se por aqui, porque o autor de "La Bête Humaine" e o de "Human Desire" não procuram a mesma coisa.


Sobre o romance de Zola, Jean Renoir operou o que convencionalmente se designa ascese; recentemente, deu explicações a esse respeito: «O que me ajudou a fazer "La Bête Humaine" foram as explicações dadas pelo herói sobre o seu próprio atavismo; disse para comigo: não será tão belo, mas, se um homem com a beleza de Jean Gabin disser isto num exterior, com muito horizonte em fundo e talvez até com vento, pode ser que ganhe algum valor. Foi a chave que me ajudou a fazer este filme.» É assim que trabalha Jean Renoir, em busca de um equilíbrio constante: um pormenor humorístico compensa um sublinhado trágico; nuvens a correrem nas costas de Gabin contando o seu "mal", locomotivas a passarem atrás da janela do quartinho onde Fernand Ledoux começa a desconfiar da mulher. "La Bête Humaine" é, provavelmente, o melhor filme de Jean Gabin. «Jacques Lantier interessa-me tanto quanto Édipo Rei», disse Renoir deste drama que Claude Givray descreve perfeitamente: «Há o filme triângulo ("Le Carrosse d'Or / A Comédia e a Vida"), o filme círculo ("The River / O Rio Sagrado") e "La Bête Humaine", que é um filme em linha recta, isto é, uma tragédia.» (François Truffaut)


CURIOSIDADES:

- Jean Gabin aprendeu a conduzir locomotivas de propósito para o filme

- "Lison", o nome que Lantier dá à sua locomotiva, é também o nome de uma estação entre Paris Saint Lazare - Cherbourg, bem como um rio na França Oriental

domingo, maio 06, 2012

THIS LAND IS MINE (1943)

ESTA TERRA É MINHA
Um Filme de JEAN RENOIR


Com Charles Laughton, Maureen O'Hara, George Sanders, Walter Slezak, Kent Smith, Una O'Connor, Philip Merivale, Nancy Gates, etc.


EUA / 103 min / P&B / 4X3 (1.37:1)


Estreia nos EUA a 7/5/1943
Estreia em FRANÇA a 10/7/1946
Estreia em PORTUGAL a 24/6/1954


O mais desprezado dos filmes americanos de Jean Renoir. A acção desenrola-se (como a do "Journal d'une Femme de Chambre") numa pequena  cidade de França, reconstituída no estúdio, em Hollywood. Este canto de França em estuque é, na realidade, um país imaginário, como o de "Monsieur Verdoux" ou de certos Fritz Lang, como em "Os Carrascos Também Morrem". «Com "Vivre Libre", quis mostrar aos americanos um aspecto um pouco menos convencional da França ocupada... Talvez tenha sido inábil, talvez não haja compreendido o estado de espírito que reinava em França após a libertação. O certo é que fui brindado com inúmeras cartas injuriosas provenientes de França e vilipendiado pela imprensa parisiense. Senti-me sinceramente magoado por não ter sido compreendido.» (Jean Renoir: A minha experiência americana, Cinémonde, 1946).
"This Land is Mine", apesar da realização clássica, de uma prudência nada habitual em Renoir - tratava-se de convencer, custasse o que custasse, o público americano - é um belo filme, em que se reconhece imediatamente o nosso autor, pelo menos no personagem e na representação de Charles Laughton, o qual se assemelha tanto com o realizador como Pierre Renoir em "La Marseillaise". Ê, além do mais, e quer queiramos quer não, um filme tipicamente francês, e não é por acaso que pensamos constantemente em Daudet de "La Derniêre Classe". Bardêche, que fez recuar os limites da desenvoltura crítica ao dar conta, numa das edições da sua História do Cinema, de um filme americano de Renoir que nunca foi filmado ("Terre des Hommes", extraído de Saint-Exupéry!), resgata-se com uma análise muito honesta de "Vivre Libre":
 «Embora cometa o mesmo tipo de erro, o filme de Jean Renoir, "Vivre Libre", é menos chocante para as cobaias convidadas a contemplar as suas proezas. Laughton desempenha um admirável mestre-escola que tem muito medo dos bombardeamentos, que gosta do bem-estar, da malga de leite, da sua velha mãe, que sente um grande respeito pelo inspector da Academia e pelas autoridades de ocupação e que, por fim, se transforma num carneiro enraivecido: as sessões do tribunal militar são públicas como as audiências do civel; o patriotismo é em estilo flamejante; os professores, lágrimas nos olhos, arrancam as páginas dos manuais de história consagrados a Joana d' Arc, à escola laica e a Jules Ferry; e o filme termina com coros de alunos que cantam como salmos os artigos da Declaração dos Direitos do Homem.
Estas evocações altamente republicanas levam-nos a sorrir e o filme foi severamente criticado em França. Foi um acolhimento bastante injusto, pois, com defeitos inevitáveis, tipicamente defeitos de "ausência", Renoir tentava compreender a situação de um país ocupado; o seu filme é o de um homem inteligente que utiliza dados que não se podem imaginar à distância, mas, no fim de contas, há certamente menos disparates e indignidades no seu filme do que noutros posteriormente realizados em França, com temas semelhantes.» Estamos de acordo com as considerações de Maurice Bardêche.
François Truffaut

Efectivamente, não é difícil admitir que "This Land Is Mine" não é a mais requintada das obras de Renoir em matéria de nuances psicológicas, antes utiliza o cliché sobre diversos temas da época: a França ocupada, os nazis, o colaboracionismo ou a resistência. Mas uma vez aceite a veia propangadista do filme - não esqueçamos que foi esse o seu objectivo principal - resta-nos, ainda assim, um belo objecto cinematográfico, mesmo sem conseguir atingir o esplendor das grandes obras de Renoir. "This Land Is Mine" é, sobretudo hoje, visto à distância de várias décadas, um filme bastante emotivo e agradável de se (re)ver. A cena final, então, ainda que de todo inverosímel (um resistente a defender liricamente as suas ideias diante de um tribunal colaboracionista, sem que ninguém o impeça, mesmo os nazis que se limitam a abandonar a sala), é um grande momento desse enorme actor que foi Charles Laughton, permitindo-se figurar entre as melhores sequências jamais rodadas sobre os estigmas da segunda guerra mundial.
Apesar (ou por causa) de uma grande economia de meios, Renoir consegue evidenciar algumas sequências memoráveis deste filme, para além da já citada cena final do tribunal: a introdução da personagem de Lory (submisso a uma mãe castradora que não hesita em obter ilicitamente o leite matinal para o seu menino), o jantar de conveniência em casa de Louise e Paul (atente-se nesse momento único e hilariante que é a iniciação de Laughton no tabagismo), a censura dos livros em plenas salas de aula (em que os alunos vão seguindo o exemplo dos professores e arrancando uma a uma as páginas proibidas) ou ainda a visita do Major Von Keller a Lory na prisão (e o testemunho deste dos fuzilamentos que ocorrem no pátio). Tudo cenas que nos fazem recordar o grande cineasta que Renoir sempre foi, mesmo filmando, em solo americano, um filme de encomenda como este. "This Land Is Mine" viria  a receber o Óscar do Melhor Som, único na filmografia de Renoir. Um filme que se aconselha (re)descobrir, sobretudo por parte daqueles que sempre o votaram ao ostracismo.


CURIOSIDADES:

- George Sanders, o actor que no filme interpreta o papel de Georges Lambert e que acaba suicidando-se, fez idêntica opção na vida real. Aos 65 anos, no dia 25 de Abril de 1972, isolou-se num hotel de Castelldefels, perto de Barcelona, e ingeriu 5 garrafas de nembutal. Deixou a seguinte nota escrita: «Querido mundo, deixo-te porque estou aborrecido. Sinto que já vivi o suficiente. Deixo-te com as tuas preocupações idiotas. Boa sorte!»

terça-feira, abril 10, 2012

NANA (1926)

NANA
Um filme de JEAN RENOIR


Com Catherine Hessling, Pierre Lestringuez, Jacqueline Forzane, Werner Krauss, Jean Angelo, etc.


FRANÇA / 150 min / P&B / 
4X3 (1.20:1)


Estreia em FRANÇA a 27/4/1926
(Paris, Moulin Rouge)
Estreia nos EUA a 9/12/1926
(New York)



Nana, actriz modesta, tem ambições. Após alguns êxitos em papéis truculentos, experimenta um insucesso total ao interpretar o papel de uma mulher distinta. Decide, então, ser apenas pega, por conta de vários amantes, que leva mais ou menos ao suicídio. Morre de bexigas doidas. Para Renoir, “Nana” é o primeiro dos seus filmes «de que vale a pena falar». Custou exactamente um milhão e, embora tenha sido projectado com um certo êxito, foi um desastre financeiro. Tinha, na altura da estreia, 2700 metros. É a primeira vez em que, com Renoir, o “jogo” se sobrepõe à acção e à “plástica”. “Nana” foi realizado sob a influência directa de “Folies de Femmes” (“Foolish Wives”, de Eric Von Stroheim); provavelmente por isso, é a cupidez da heroína tão realçada. É também, pela mesma razão, o único filme de Renoir onde o dinheiro tem tanta importância.

Mas o que neste filme há de novo e de muito pessoal, é o constante paralelismo entre os criados e os patrões: Renoir lembrar-se-á de “Nana” ao filmar “La Règle du Jeu” e, depois, “Le Journal d’une Femme de Chambre”. Por reacção, provavelmente, à “ênfase” do seu filme precedente, Renoir aproxima-se aqui dos personagens, filmados constantemente em planos americanos, encostados a tal ponto às paredes que é necessário um dos quatro longos travellings, efectuados sobre o chassis de um velho Ford de pneus vazios, para nos darmos conta do luxo e da amplidão dos cenários, por vezes trucados, concebidos por Claude Autant-Lara. Encontra-se em “Nana” o que virá a ser a temática de Renoir: o amor do espectáculo, a mulher que se engana na sua vocação, a comediante que se procura, o apaixonado que morre vítima da sua sinceridade, o politiqueiro desesperado, o homem criador de espectáculos. Em suma, Nana rima com Elena.
François Truffaut

Esta segunda obra de Jean Renoir (se não contarmos com “Une Vie Sans Joie”, cuja realização foi atribuída em exclusivo a Albert Dieudonné, depois de um longo litígio nos tribunais) é, ainda hoje, de um pessimismo sombrio, cuja crueldade chega a roçar o fantástico. A imagem que o cineasta nos dá da mulher (não só de Nana mas de todo o género feminino) é quase assustadora. E a sua dimensão, abissal, varia na proporção inversa do comportamento dos homens, invariavelmente fracos e submissos. Com influências marcantes de “Foolish Wives”, de Stroheim, como refere Truffaut (filme pelo qual Renoir era obsessivo), “Nana” transcende o realismo da obra de Zola transmitindo-nos um ambiente extremamente estilizado, a que não será alheia a constante presença de Catherine Hessling, na altura mulher de Renoir (ver comentário mais abaixo de Andre Bazin), e que faz da sua interpretação um frenético caleidoscópio de maneirismos gestuais.

Ela é a diva idolatrada, o caminho mais curto para a perdição, a doença contra a qual os homens não têm qualquer imunidade. O artificialismo da personagem, mostrado através de uma maquilhagem intencionalmente excessiva, dispara em todas as direcções, dizimando e humilhando tudo à sua volta. Mas apesar de todos os excessos interpretativos e da longa duração do filme (duas horas e meia!) “Nana”, que só agora tive ocasião de ver pela primeiríssima vez, conseguiu seduzir-me, vindo confirmar algo que já sabia há muitos anos, o facto de Jean Renoir ter sido um cineasta muito criativo, de raros e multifacetados talentos.


A obra muda de Renoir é dominada pela sua principal intérprete, Catherine Hessling, primeira mulher do cineasta francês. Foi para ela, em torno da sua extraordinária personalidade, que Renoir realizou, após “Une Vie Sans Joie”, “La Fille de l’Eau”, “Nana”, “Charleston” e “La Petite Marchande d’Allumettes”. Haverá que compartilhar da admiração de Renoir por aquela que foi sua mulher e ao mesmo tempo a sua musa inspiradora? É verdade que essa admirável rapariga de grandes olhos claros, sombreados de carvão, rosto de boneca provocante, corpo imperfeito mas estranhamente articulado, como o das mulheres em certos quadros impressionistas (não esqueçamos que Catherine foi modelo de Auguste Renoir), amalgamava de forma perturbadora o mecânico e o vivente, o feérico e o sensual, numa insólita encarnação de feminilidade.

Mas parece-me que Renoir a vê menos como realizador do que como pintor. Seduzido, subjugado pela graça original desse corpo e desse rosto, preocupa-se menos em dirigir a sua intérprete em função do personagem e da economia dramática da cena do que em contemplá-la no máximo de atitudes. Esta intenção, mais ou menos consciente, vislumbra-se claramente em “Charleston”, cujo argumento frágil e fantasista não passa de um pretexto para uma extraordinária e incoerente exibição de Catherine Hessling. De modo que a actriz pode muito bem ter ajudado Renoir a revelar a si próprio o que permanece essencial na sua arte, ao retardar a passagem necessária da direcção de actores à realização propriamente dita.
Andre Bazin



sexta-feira, abril 06, 2012

LA GRANDE ILLUSION (1937)

A GRANDE ILUSÃO
Um filme de JEAN RENOIR


Com Jean Gabin, Dita Parlo, Pierre Fresnay, Erich Von Stroheim, Julien Carette, Georges Péclet, Marcel Dalio, etc.


FRANÇA / 114 min / P&B / 
4X3 (1.33:1)


Estreia em FRANÇA a 4/6/1937
Estreia em PORTUGAL a 1/11/1937
(Lisboa, cinema Tivoli)
Estreia nos EUA a 12/9/1938

Lieutenant Rosenthal: «Frontiers are an invention of men. 
Nature doesn't give a hoot»

«Não seremos arrastados pelo gosto do paradoxo a desacreditar o único filme de Renoir que foi compreendido e admirado desde início, por todos os públicos e em todos os países do mundo. Na verdade, pensamos que “La Grande Illusion” é um filme tão bom como “Toni”, “Les Bas-Fonds” ou “L’Homme du Sud”, mas que o seu enorme êxito resulta, se não de um mal-entendido, pelo menos das aparências. Tudo aquilo de que gostamos em Renoir e que geralmente lhe censuram, as mudanças de tom, a desenvoltura, o despropósito, as digressões, a crueza e o irmão desta, o preciosismo, aqui se encontra, mas ao serviço de um contexto patriótico e sabemos como os filmes de guerra, de resistência e de evasão agradam à priori, quer sejam barrocos (“Roma Città Aperta”), líricos (“J’Accuse”), pseudo-poéticos (“Algures na Europa”), literários (“La Bataille du Rail”), românticos (“Kanal”), cómicos (“Stalag 17”), inteligentes (“L’Espoir”), demagógicos (“Vivere In Pace”), abstractos (“Un Condamné à Mort s’est échappé”) ou despidos de qualquer interesse (“A Última Esperança”). Em resumo, todos os exageros, todos os paroxismos são autorizados dentro do género, e “La Grande Illusion” não escapa à regra.
Aclamado por Roosevelt, por Céline e pelo marechal Goering, proibido na Bélgica pelo ministro Henri Spaak, irmão do co-argumentista, amputado na Alemanha por Goebbels em todas as cenas em que o judeu é simpático, “La Grande Illusion” foi boicotado no Festival de Veneza por Mussolini, o qual mandou conceder o Grande Prémio a “Un Carnet de Bal”, de Julien Duvivier. Em França, o crítico Georges Altmann protestou contra o anti-semitismo do filme. A grande ideia de “La Grande Illusion”, que mais tarde animará “La Marseillaise” e, sobretudo, “La Règle du Jeu”, é que o mundo se divide horizontalmente e não verticalmente: Renoir explica claramente que a ideia de classe subsiste mesmo quando certas classes desaparecem por si. Em contrapartida, é necessário abolir a ideia de fronteira, responsável por todos os mal-entendidos. Há que referir que outra razão do êxito de “La Grande Illsusion” é que, nele, a psicologia sobrepõe-se à poesia, o que é raro no autor de “Elena et les Hommes”. É talvez o menos “louco” dos filmes franceses de Renoir
François Truffaut
Não podia estar mais de acordo com as ideias de Truffaut sobre este filme, um Renoir atípico que no entanto foi o seu maior (único?) êxito junto do público. Passados todos estes anos, o argumento de “La Grande Illusion” encontra-se hoje algo datado, o que na verdade não é de estranhar, dado o clima político da época em que o filme foi rodado. Resta ainda uma curiosa ambiguidade na sua ideologia (não é um filme de esquerda nem tão pouco poderá ser reivindicada por correntes direitistas) e na ideia, muito bem salientada por Truffaut, da abstração absurda das fronteiras que teimam em dividir os homens. Renoir, e o argumentista, Charles Spaak, falam aqui da sua geração, duramente marcada pela guerra, pela prisão, pela agitação das castas e das mentalidades. Procuram exprimir a sua crença profunda na igualdade e na fraternidade, à margem dos abismos sociais e das lutas fraticidas, e mostrar que mesmo em tempo de guerra, os combatentes podem continuar a ser homens. Quanto ao amor, é mostrado apenas como um breve período de tréguas no meio da tormenta.
Quando "La Grande Illusion" foi relançado em 1958, o próprio Renoir apareceu na introdução do filme a explicar a sua génese: «A história de "La Grande Illusion" é rigorosamente verídica e foi-me narrada por vários dos meus camaradas de guerra. Principalmente por Pinsard. Ele pertencia aos caças e eu a uma esquadrilha de reconhecimento. Por vezes, acontecia termos de fotografar as linhas alemãs. Várias vezes me salvou a vida ao intervir no momento em que os caças alemães se tornavam mais activos. Ele próprio foi abatido sete vezes, foi feito prisioneiro sete vezes e sete vezes se evadiu. As suas evasões estão na origem de "La Grande Illusion". Mas uma história de evasão, mesmo apaixonante, não basta para fazer um filme. Tem de se construir um argumento. Para isso contribuiu Charles Spaak, cuja colaboração foi fácil e sem história. À nossa amizade juntou-se a nossa fé comum, a nossa crença profunda na igualdade e na fraternidade dos homens.»
Mas, como muito bem refere Andre Bazin nos seus escritos sobre a obra de Renoir, houve mais uma ajuda de peso a ter em conta, a do próprio Eric Von Stroheim, actor-realizador banido de Hollywood, que os produtores tinham conseguido no último momento contratar para o papel do comandante Von Rauffenstein: «Ora, Renoir, que sempre proclamou a sua admiração pelo realizador maldito, cuja influência sobre a sua obra é, aliás, considerável, não podia resignar-se a utilizar semelhante recruta na dimensão do papel extremamente reduzido que lhe atribuía a versão inicial. Começa, então, no dia a dia, uma fecunda colaboração entre Stroheim e Renoir, donde resulta não apenas a extraordinária figura do actual Von Rauffenstein, como ainda um dos mais belos achados do filme: o desdobramento do tema do aristocrata, entre o capitão francês e o comandante alemão. Desdobramento que permite um diálogo e uma meditação acreca da nobreza muito mais subtis que a simples antítese entre Maréchal e Boeldieu.»
...«A exactidão do pormenor em Renoir resulta tanto da imaginação como da observação da realidade, da qual ele sabe sempre evidenciar o facto significativo que não convencional. A sequência mais exemplar deste ponto de vista é, sem dúvida, a célebre cena da festa onde se anuncia a reconquista de Douamount. Com esta ideia brilhante, um realizador hábil não podia deixar de evidenciar o seu talento. Mas Renoir acrescenta-lhe dez achados que fazem dela algo bem mais importante do que um trecho de antologia. Um único exemplo: a ideia de começar a fazer entoar A Marselhesa não por um francês, mas por um oficial inglês mascarado de mulher. É o grande número destas invenções realistas que torna sólida a qualidade de "La Grande Illusion"
Pessoalmente, gostava de lembrar aqui outra sequência genial, antes da festa, a chegada do caixote com roupas femininas. A prova de um vestido por um soldado origina, de repente, uma perturbação geral perante aquele pobre simulacro de feminilidade, em que todos aqueles homens de linguagem desbragada deixam de repente de gracejar. Renoir consegue transmitir-nos esse constrangimento apenas através de dois simples efeitos técnicos: o abaixamento do som e a estaticidade de todos os presentes, enquanto a câmara não se detém, continuando a evoluir por entre eles num travelling silencioso. Tanto bastou para que tal cena ficasse para sempre guardada na nossa memória.
Outra cena a que Renoir emprestou o seu inegável talento de grande cineasta é passada já depois da evasão de Maréchal (Jean Gabin) e Rosenthal (Marcel Dalio). Os dois homens discutem violentamente. O primeiro recusa-se a seguir o companheiro que se magoou num pé e anda muito devagar. Vemos Rosenthal ficar sózinho, a vociferar contra o abandono de que foi vítima. Ao fim de algum tempo, aparece Maréchal que vem de novo ter com ele. Não vemos Gabin arrepender-se e voltar atrás; vemos sómente Dalio a coxear. A câmara faz aqui as vezes do olhar da personagem, criando uma elipse muito bem conseguida do ponto de vista psicológico e dramático, porque condensa num só segundo (o momento em que Gabin reaparece) a evolução mental do homem que sente remorsos, evolução que o espectador apreende retrospectivamente em apenas alguns segundos.
Voltemos a citar Andre Bazin a propósito do significado do título do filme: «Mas há que dar à palvra "ilusão" um sentido resolutamente positivo e até militante. As grandes ilusões são, sem dúvida, os sonhos que ajudam a viver. Mas é, sobretudo, a grande ilusão do ódio que divide arbitrariamente homens a quem nada realmente separa, as fronteiras e a guerra resultantes delas, as raças, as classes sociais. A mensagem do filme é, pois, uma demonstração a contrário da fraternidade e da igualdade dos homens. A guerra, fruto do ódio e da divisão, revela paradoxalmente a falsidade de todas as fronteiras morais íntimas da consciência. Se porém, as fronteiras são derrubadas, é porque existem. Aqui se evidencia um outro tema caro a Renoir e que ele muitas vezes exprimiu nas suas conversas. É que os homens estão menos separados pelas barreiras verticais do nacionalismo do que pela clivagem horizontal das culturas, das raças, das classes, das profissões, etc.»
CURIOSIDADES:


- O uniforme usado por Gabin pertencia a Jean Renoir, que o usou durante a 1ª Guerra Mundial


- Quando os alemães ocuparam Paris, o ministro da propaganda Goebbels quis destruir o negativo original do filme. Mas Frank Hansel, um oficial nazi cuja profissão antes da guerra era a de arquivista fílmico, conseguiu levar o negativo para Berlim, onde se manteve até à invasão russa de 1945, altura em que transitou para um arquivo de Moscovo. Quando Renoir decidiu restaurar o filme no final dos anos 50, começou a trabalhar numa cópia julgando que o original tinha sido de facto destruído pelos alemães. Mas, por coincidência, houve nessa altura uma troca de arquivos entre Moscovo e Toulouse, onde se encontrava o célebre negativo, que regressou assim a território francês


- Nascido em Viena d'Áustria, Erich Von Stroheim tinha passado tantos anos nos Estados Unidos que practicamente já não falava alemão quando filmou "La grande Illusion"


- A criança que desempenha o papel de Lotte veio a falecer de gripe algumas semanas antes do filme ser estreado


- "La Grande Illusion" foi o primeiro filme estrangeiro a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme, em 1939 (o vencedor nesse ano foi "You Can't Take It With You", de Frank Capra)




sexta-feira, março 30, 2012

BIO-FILMO: JEAN RENOIR

Nascido a 15 de Setembro de 1894, em Paris
Falecido a 12 de Fevereiro de 1979, em Los Angeles, EUA
Jean Renoir é, em primeiro lugar, a história de um desafio: ser o filho de um génio é, digam o que disserem, a pior coisa que pode acontecer a alguém. Ao lado de algumas excepções, quantos destinos trágicos? Quantos seres fantasmáticos, vítimas da autodestruição, não podendo desviar os olhos daquele que lhes infligiu a vida, repisando vezes sem fim o injusto desprezo que sentem por si próprios? O génio paternal cega-os, rebuscam-no incansavelmente, fascinados como pobres falenas. Jean Renoir saiu ileso da admiração que tinha pelo pai. Mas não se pense que este cineasta, com um rosto de bebé gigante, com a voz rouca e ofegante, atravessou sempre a vida a sorrir. Teve o seu quinhão de dramas, pois infelizmente a dor é a grande parteira do talento. Guardou certamente em si cavernas obscuras das quais se manteve muito púdico. Mesmo se não teve, como Joseph Von Sternberg, uma visão quase monomaníaca da sujeição do homem à mulher, os seus filmes oferecem “espécimes de criaturas” que nos provocam arrepios nas costas: Nana, La Chienne, Madame Bovary, são monstros adoráveis. São peritas na arte e na maneira de humilhar um homem, de o fazer sofrer e, acessoriamente, de o arruinar.
Valentine Tessier em "Madame Bovary"
Uma outra característica: amou sobretudo o povo, os vagabundos, alguns aristocratas, e votou à burguesia comerciante o desprezo de um Charles Fourier. Também ele dedicou um ódio eterno ao comércio. É talvez por isso que os seus filmes foram quase sempre, como se diz, “desastres” comerciais. O produtor Daryl Zanuck, sem querer, rendeu-lhe homenagem ao dizer-lhe um dia: «Senhor Renoir, o senhor não é dos nossos.» Isto explica a sua atitude na época da Frente Popular, a sua simpatia pelo Partido Comunista. Mas por mais que tenha amado as ideias generosas, foi antes de tudo um artista: procurou menos desmontar os mecanismos da luta de classes que mostrar os prejuízos da estupidez, da vaidade, do snobismo, que são de todos os tempos e de todos os países.
Com Marcel Dalio no set de "La Règle du Jeu"
Renoir sempre manifestou uma grande simpatia pelo ser humano. E, sobretudo, tinha uma coisa deliciosa que era a ausência total de retórica: não nos impingia discursos. Era um sujeito que fazia um filme por prazer, sentia um enorme gozo, não tinha qualquer pretensão de nos falar de problemas muito sérios. Era capaz de nos falar com um grande à-vontade, uma grande frescura, uma grande imaginação. Há coisas de que qualquer outro realizador era capaz de fazer uma tremendíssima chatice e ele faz um filme delicioso como é “A Regra do Jogo”, por exemplo, em que põe em causa uma série de coisas: toda uma sociedade, todo um comportamento a vários níveis sociais, etc., e faz isso com uma grande alegria, com aquela grande frescura que é, realmente, uma característica de Renoir, que foi sempre um optimista sobre a natureza humana.
Thomas E. Breen e Adrienne Corri em "The River"
Mas não era só humana a natureza que prendia a atenção de Renoir. As suas personagens não esqueciam o lado animal, tinham sempre presente a ligação à àgua, à terra. Nesse sentido, Renoir foi sempre um cineasta profundamente biológico, ao sentir que o ser humano fazia realmente parte da Natureza e não qualquer coisa que estivesse em contradição com ela. Outra das grandes qualidades de Renoir era que todas as suas personagens são profundamente humanas, profundamente autênticas: mesmo num filme de massas como é, por exemplo, o caso de “La Marseillaise”, as personagens do filme são verdadeiramente humanas e é sempre a partir, digamos assim, das aventuras de meia-dúzia de pessoas, que nós acompanhamos o desenrolar da história. Ora, essas personagens são-nos profundamente simpáticas e é sempre através delas que nós vemos a Revolução Francesa e a marcha sobre Paris. Portanto, em Renoir, parece que há sempre um caminho diferente, por exemplo, do de Eisenstein, pois Renoir procura chegar ao social através do ser humano pessoal e, nisto, talvez se possa estabelecer uma relação com o carácter crente de Renoir. No entanto, se Renoir era crente, devia ser um crente muito pouco dogmático. Assim, “O Rio Sagrado” é um filme profundamente místico e religioso, mas vê-se que Renoir terá tido, muito possivelmente, tanta simpatia pelo cristianismo como pelo budismo.
Eric Von Stroheim e Pierre Fresnay em "La Grande Illusion"
 Enquanto Roosevelt dizia de "A Grande Ilusão" [1937] que era «uma película que todos os democratas do mundo deveriam ver», Goebbles qualificava Jean Renoir, devido à mesma película, como «o inimigo cinematográfico número um». Define-se assim este realizador francês, que começou por acumular uma insuportável cadeia de fracassos comerciais, para se colocar, posteriormente, no grupo dos grandes clássicos do cinema. O contributo de Renoir não está apenas na sua requintada sensibilidade, mas também e fundamentalmente, na medida em que traduz com o seu trabalho a síntese de uma série de condicionamentos históricos, que vão desde a origem burguesa do realizador - nunca desprezada por ele, muito pelo contrário, aproveitada em todas as suas dimensões - ao compromisso político da Frente Popular. O seu valor reside, em suma, na aceitação dos seus condicionalismos e no pleno aproveitamento deles para reflectir plasticamente o momento que vive. Pintor sem o pretender, os seus filmes começam num naturalismo que se aproxima da realidade sem sofisticações, sem "maquilhagens", como ele próprio diria. Naturalismo sensual que procura reflectir a realidade sem maniqueísmos, plenamente entregue à captação da autenticidade, mais que ao respeito por uma poética determinada.
Nora Gregor e Jean Renoir em "La Règle du Jeu"

 Que o realizador de "A Regra do Jogo" não conseguisse em todos os seus filmes a perfeição narrativa daquele, de modo algum nos pode fazer pensar numa decadência estrepitosa ou, se o quisermos, desagradável. A simplicidade narrativa de todas as suas obras; o sentido da encenação, que começa indispensavelmente na necessidade da própria situação que se filma mais que em imposições estéticas; a valorização dada a cada uma das personagens, consideradas sempre como seres irrepetíveis, e a estrutura das situações, que se desenrolam sempre a partir das necessidades dessas personagens e, portanto, com a fluidez natural do quotidiano, colocam Jean Renoir entre os mestres íntimos do naturalismo, da liberdade, da improvisação, da honestidade.           
"Gabrielle e Jean", pintura de Auguste Renoir
 Jean Renoir nasceu no bairro/colina de Montmartre, em Paris, no dia 15 de Setembro de 1894. O seu pai era Pierre-Auguste Renoir, o conhecido pintor (tinha na altura 53 anos e já era famoso). A sua mãe foi Aline Charigot, que tinha servido de modelo ao pai por diversas vezes. Passa uma infância feliz entre Montmartre e Cagnes-sur-Mer (no sul de França), onde os pais costumavam passar os invernos e onde acaba por se fixar definitivamente em 1907. Para se ocupar da criança, veio viver com a família uma prima da mãe de Renoir, Gabrielle, que ficaria conhecida por ter sido um dos modelos favoritos de Auguste Renoir. Também o pequeno Jean é representado inúmeras vezes nas telas do pai, coisa que o futuro realizador não apreciava particularmente. Aos 8 anos, Renoir entrou para o colégio religioso da Santa Cruz em Neuilly, um dos bairros chics de Paris. Saiu assim do ambiente familiar, que descreveu em termos em que a ironia não esconde certo “susto”: a mãe, severa, o pai permanentemente ocupado com o seu trabalho que, acima de tudo, era preciso venerar e a doce presença de Gabrielle. Ao colégio chamou “prisão elegante”. Mas é lá que assiste pela primeira vez a um filme completo, “Les Aventures de l’Auto-Maboul”, que o fascinou: «Daria bom dinheiro para voltar a ver esse programa. Era cinema do melhor», escreveu em 1938.
Pintura de Auguste Renoir
 No entanto, o seu verdadeiro primeiro contacto com o cinema data de alguns anos antes, em 1897. Acompanhava Gabrielle numas compras e os armazéns a que foram (lojas Dufayel) tinham uma das primeiras salas de cinema: «Mal nos sentámos, fez-se escuro. Uma máquina aterradora lançou um raio luminoso que atravessou perigosamente a obscuridade. No écran apareceram imagens incompreensíveis. Tudo isto acompanhado, por um lado, pelo som dum piano, por outro, por uma espécie de marteladas, vindas da máquina infernal. Desatei a chorar e tiveram que me levar dali para fora. Não suspeitei que o ruído ritmado da cruz de malata iria ser, mais tarde, para mim, a mais doce das músicas.» Em 1907 a família Renoir deixa Paris e ruma a Provença. Renoir é matriculado num liceu de Nice, onde três anos depois termina os estudos secundários sem particular brilho. A cerâmica interessava-o e o pai encorajou-o nessa direcção. Nesse ano, com 16 anos, Renoir ingressa na Universidade de Aix-en-Provence, onde frequenta cursos de filosofia e matemática.
Pintura de Auguste Renoir
 Em 1913, quando se preparava para entrar na Escola Militar de Saumur (queria ser cavaleiro), rebenta a Primeira Guerra Mundial e é enviado para a Frente, no leste de França. No início de 1915 ele e o irmão Pierre são gravemente feridos (Renoir fractura o colo do fémur, o que o tornou inapto para o serviço militar; em consequência disso, coxeou ligeiramente toda a vida) e nesse mesmo ano a mãe, diabética, vem a falecer. É durante a convalescença que Renoir descobre o cinema. “Os Mistérios de Nova Iorque”, título dado por Charles Pathé, na Europa, à versão do filme americano “The Exploits of Elaine de Gasnier e Mackenzie” (com Pearl White) entusiasmou-o de tal modo que os amigos lhe passaram a chamar Elaine Dodge. Depois, foi a revelação de Charlot: «Falar de entusiasmo não chega. Fiquei transtornado. O génio de Chaplin revelou-se-me. Durante anos, ignorei o nome do meu ídolo. Foi um oficial escocês que encontrei num comboio que me fez descobrir a verdadeira identidade de Charlot. Também me fez descobrir o whisky da sua terra. Essas duas revelações deram-me idêntico prazer… Tornei-me num fanático do cinema. Charlie Chaplin converteu-me. Chegava a ver três filmes por dia, duas sessões à tarde e uma à noite. Interessava-me sobretudo o cinema americano. Evitava os filmes franceses, demasiado intelectuais para meu gosto.»
O cineasta quando novo
 Do ponto de vista da carreira a seguir, a vocação do jovem Renoir continuava incerta. Apesar do ferimento, conseguiu obter o brevet de aviador (como para Hawks, a aviação, nos seus tempos heroicos, seria uma das suas paixões) mas novo acidente, numa aterragem forçada, obriga-o a interromper essa actividade. Apesar do seu gosto pelo cinema, não pensava ainda que essa fosse profissão que se pudesse seguir. O irmão mais velho, Pierre Renoir (1885-1952), que seria um grande actor de teatro e cinema (entrou em vários filmes do irmão) e que, à época, obtivera já o primeiro prémio de tragédia no Conservatório, era de opinião que o cinema não fora feito para os franceses: «A nossa bagagem literária e artística é muito pesada e impede-nos de avançar nessa direcção. Deixemos o cinema aos americanos.» Essa bagagem parecia não pesar muito sobre Jean, apesar – ou por causa – do ambiente familiar. Confessou abominar o género de teatro clássico que o irmão fazia. Quanto ao pai, segundo testemunho do filho, nada o enfurecia mais que os “intelectuais” que «não sabem nem ver, nem ouvir, nem tocar.» O trabalho, a técnica, a “mão”, eram, para o célebre pintor, valores muito mais importantes que a “inspiração” ou as grandes elocubrações sobre a arte. Por isso, continuando a pensar que Jean e o mais novo dos Renoirs, Claude (o Coco dos quadros) tinham algum jeito para a cerâmica, mandou construir um atelier e um forno, perto da nova propriedade onde habitavam, as Colettes, nos arredores de Nice. Para lá foi viver Jean Renoir, em Novembro de 1918, quando a guerra acabou e passou à disponibilidade com o posto de tenente. Tinha 24 anos.
Catherine Hessling em "Nana"
Renoir conhece em Colettes Andrée Heutschling, último modelo do pai (que adoptaria o pseudónimo de Caherine Hessling no cinema), com quem casaria em Janeiro de 1920. O casamento durará oficialmente até 1943, apesar do casal viver junto apenas durante 10 anos. Subsistindo confortavelmente com a herança que o pai, falecido a 3 de Dezembro de 1919, lhe deixara a si e aos irmãos, Renoir é constantemente tentado por Catherine (que lhe dá um filho, Alain, em Outubro de 1921) para fazer cinema. Para se preparar para a ambicionada profissão, conta-se que viu mais de dez vezes o filme “Foolish Wives”, de Eric Von Stroheim (que em 1937 participará como actor em “La Grande Illusion”). Descobre também uma nova admiração: David Wark Griffith. Até aí limitara-se a admirar actores: Chaplin, Pearl White, Mary Pickford, Lilian Gish. O irmão Pierre ensinou-lhe que “por detrás dos actores” havia um personagem essencial: o realizador: «Rapidamente, comecei a distinguir entre os estilos de filmes dirigidos por realizadores diferentes. Foi um novo período da minha vida. Seguia, com o coração a bater, os trabalhos de Griffith. A maravilha das maravilhas era o grande plano. Não mudei de opinião. Sobretudo, os grandes planos de mulheres. Alguns grandes planos de Lilian Gish, outros de Mary Pickford, mais tarde de Greta Garbo, ficaram-me para sempre na memória. A ampliação permite saborear o grão da pele. Um ligeiro movimento dos lábios revela-nos algo da vida interior dessa mulher ideal. Consigo gramar o filme mais chato do mundo se tiver um grande plano bonito duma actriz de que eu goste. O meu gozo com os grandes planos é tão grande que já me aconteceu meter nos meus filmes sequências perfeitamente inúteis para a acção, só porque me dão a possibilidade dum belo grande plano.»
A sua primeira experiência no cinema não foi das mais felizes, por entre processos judiciais e disputas com Albert Dieudonné, o suposto co-realizador de “Catherine ou Une Vie Sans Joie” (onde a sua mulher era protagonista), que terá sido o primeiro filme de Jean Renoir. Mas os tribunais deram razão a Dieudonné quando este se afirmou como único realizador e o filme acabou por ser distribuído em 1927, sem qualquer impacto. No entanto, e não obstante esse contratempo, Renoir descobre que o cinema era de facto a sua vocação e realiza, no espaço de dois anos, as suas primeiras obras, financiadas com o dinheiro ganho com a venda dos seus objectos de cerâmicas (que as pessoas compravam para poderem dizer que possuíam um vaso de Renoir): “La Fille de L’Eau” e “Nana”. A estreia deste último, na grande sala do Moulin Rouge, passou-se entre assobios e aplausos: «Essa apresentação foi o prelúdio do que viria a ser a história da minha carreira. Estava no meu destino ser empurrado aos extremos – os meus espectadores são ou contestatários ou entusiastas. Jamais o meio termo.» O filme custou um milhão de francos (soma fabulosa para a época) e os Renoirs ficaram arruinados. Para pagar as dívidas, venderam os quadros de Auguste: «Cada venda parecia-me uma traição. Nunca me senti tão ligado à memória do meu pai.»
Catherine Hessling em "La Fille de l'Eau"
Apesar de lhe ter passado pela cabeça abandonar o cinema, Renoir acaba por se associar a Jean Tedesco, director do Teatro Vieux Colombier e consegue improvisar um estúdio num canto das instalações. É aí que passa a filmar, e nos três anos seguintes surgem mais alguns filmes de encomenda, onde se destacam “Sur Un Air de Charlestone” e “La Petite Marchande d’Allumettes”, que foi o primeiro a ser distribuído em Portugal. “Tire au Flanc” é o seu último filme mudo, no qual obteve a colaboração, pela primeira vez, de Michel Simon, o seu actor preferido. Embora as características do seu cinema ainda não se assumam nestes primeiros filmes, Renoir procura já, sob as várias influências, uma gramática que combine as melhores lições de Griffith e Chaplin com o sentido do décor e da direcção de actores vindos do cinema alemão e com uma liberdade de movimentos de câmara a que o cinema assistia pela primeira vez.
Nenhum dos filmes foi um êxito. Mas Renoir tornou-se um nome conhecido. O que levou a que lhe confiassem duas outras obras “de encomenda”: “Le Tournoi Dans la Cité” e “Le Bled”, ambos de 1929. O primeiro foi estreado em Bruxelas, em sessão de gala para a família real; o segundo destinou-se a comemorar o centenário da Argélia. No mesmo ano, estreou-se como actor em dois filmes, dirigidos pelo realizador brasileiro, o seu amigo Alberto Cavalcanti. Fez de lobo no “Petit Chaperon Rouge” (Catherine Hessling foi o capuchinho vermelho) e de “malabar” em “La Petite Lili” (uma vez mais com Catherine). Em todos os filmes realizados nos anos 20 (Renoir só “tomou a sério” “Charleston”) prevalece a ideia do divertimento, dando ao termo o seu significado etimológico e que, na história da música, assumiu no século XVIII. Por outro lado, esses filmes, sobretudo através de Hessling (presente em quase todos) e de Michel Simon, mostram-nos o actor como emanação do autor, máscara de que este se reveste para iludir com outras aparências a aparência da sua ilusão: «Aparência – radar invisível e inanalisável, em que tanto acredito e cujos efeitos ultrapassam qualquer explicação científica.»
 Em 1929, obrigado à inércia devido ao fracasso dos seus últimos filmes mudos, Renoir viaja para a Alemanha com Pierre Braunberger, onde assiste a representações de peças de Bertolt Brecht. Graças a Braunberg, que dirige os estúdios de Billancourt, Renoir filma em 6 dias o seu primeiro filme sonoro, “On Purge Bébé”, com Michel Simon e Fernandel. O filme irá ser um grande sucesso, permitindo-lhe filmar, logo de seguida, “La Chienne”. Entretanto separa-se finalmente de Catherine, escandalizada por não ter o papel principal nesse filme. A nova companheira de Renoir, a técnica de montagem Marguerite Houllé, assina “Marguerite Renoir” no genérico dos seus filmes.
Michel Simon e Janie Marèze em "La Chienne"
 Com o advento do sonoro (de que Renoir foi um entusiasta de primeira linha, ao contrário de muitos realizadores da época), a década de 30 foi um período muito rico para o cinema francês e Renoir afirma-se cada vez mais, realizando 15 filmes, entre os quais as suas obras mais conhecidas e abrangendo diversos géneros: o policial (“La Nuit du Carrefour”, “Le Crime de Monsieur Lange”), o filme de guerra (“La Grande Illusion”), o filme histórico (“La Marseillaise”), a fábula (“Boudou Sauvé des Eaux”), a comédia satírica (“La Règle du Jeu”) ou ainda adaptações literárias (“Madame Bovary”, “Les Bas-Fonds”, “La Bête Humaine”), sem esquecer também um filme inacabado (“Une Partie de Campagne”). É durante este período que Renoir descobre o melhor e o pior do público e da crítica. E os opostos encontram-se bem definidos em dois filmes fundamentais: “La Grande Illusion” [1937] e “La Règle du Jeu” [1939].
"Partie de Campagne"
 Se no primeiro caso o realizador viu nascer o seu maior êxito de bilheteira e um grande respeito (que lhe valeu o Prémio do Melhor Conjunto Artístico no Festival de Veneza, uma categoria que o Júri lhe atribuíu de propósito para contornar as pressões políticas do governo italiano contra o filme), numa notável história em volta de prisioneiros de guerra, no segundo o escândalo foi atroz, e levou pessoas a quererem incendiar cinemas, pois era bem visível que Renoir mostrava a decadência da burguesia e a fragilidade da França face ao nazismo que estava à porta, o que irritou meio mundo, mesmo depois de ter sido feita uma montagem alternativa. Os alemães exigiram a sua destruição quando chegaram a Paris; em Portugal, foi proibido durante mais de trinta anos. Tinham razão: poucos filmes – ou nenhum – foram como este tão subversivos. No entanto, o filme ganhou, juntamente com “La Grande Illusion”, um estatuto de clássico absoluto pelo seu arrojo, mise-en-scène perfeita e linguagem cinematográfica de excelência, onde os jogos de profundidade de campo, a fluidez da câmara, um ritmo de montagem perfeito e os vários níveis da narrativa são constantes.
Jean Gabin e Simone Simon em "La Bête Humaine"
 No início dos anos 40 começa a viver com Dido Freire, filha de um diplomata brasileiro e sobrinha de Cavalcanti, com quem estará até à morte (casará com ela já na América, depois de adquirir a nacionalidade americana). Quando chega a 2ª Guerra Mundial, Renoir encontra-se em Itália. Regressa a Paris, mas em Junho de 1940, quando a Alemanha invade a França, parte para Argel e depois para Lisboa, onde passa algumas semanas (tendo sido alvo de uma homenagem da revista “Animatógrafo”) antes de rumar aos Estados Unidos, onde desembarca, em Nova Iorque, a 31 de Dezembro. Obtém permissão para trabalhar e é em solo americano que viverá até ao fim da vida, não deixando contudo de passar longas estadias na Europa. Em Janeiro de 1941 assina um contrato com a Fox e tal como aconteceu com outros realizadores imigrados (Fritz Lang, Douglas Sirk), o exílio transforma drasticamente a carreira de Renoir, sem que no entanto o consiga fazer parte da engrenagem de Hollywood.
 Renoir deparou-se com uma grande dificuldade em encontrar projectos que o satisfizessem, apesar de ter feito seis filmes (e colaborado num colectivo de propaganda, “Salute to France”), antes de reatar relações com o seu país natal. De destacar “This Land Is Mine”, onde dirigiu Charles Laughton e Maureen O’Hara. Por entre uma realização irrepreensível e um leque de cenas inesquecíveis (tal como a representação bigger than life de Laughton) o filme, como refere o crítico Luís Miguel Oliveira, é um verdadeiro “grito de guerra”, com uma temática que já marcava o seu cinema da fase francesa. Em 1945 surge “The Southerner”, um competente exemplo do drama realista que conta as dificuldades de uma família pobre que tenta fazer da agricultura um meio de sustento, por entre a inveja dos vizinhos. No ano seguinte temos “The Diary of a Chambermaid”, onde Renoir concede espaço para Paulette Goddard brilhar ( a actriz já se encontrava divorciada de Chaplin nessa altura). Dezoito anos mais tarde Luis Buñuel faria o mesmo filme, com Jeanne Moreau como protagonista (o romance de Octave Mirbeau foi a obra adaptada em ambas as versões).
Paulette Goddard em "The Diary of a Chambermaid"
 Renoir sente-se só na América (inclusive é alvo de uma vigilância discreta do FBI), mas também sente idêntica solidão em França, que visitou no fim da guerra. «Existe uma raça de verdadeiros solitários. São raros. Os que nascem solitários conseguem isolar-se num mundo inteiramente fabricado por eles próprios. A maior parte dos solitários só aparentemente pertence a esta categoria. Nasceram para fazer parte do mundo que os rodeia. Só após um acontecimento, regra geral doloroso, se tornaram solitários. Esses, têm muita dificuldade em não quebrar a sua solidão. Embora, quanto mais envelhecesse, mais proclamasse essa verdade consoladora de que o mundo é uno, a verdade é que me lançava no estudo de personagens cuja única ideia era a de fechar a porta a esse fenómeno perfeitamente concreto que se chama a vida. Era um erro da minha parte.»
 1947 marcaria a realização do último filme de Renoir nos Estados Unidos, “The Woman on the Beach”, uma das suas obras mais belas e enigmáticas, com Robert Ryan, Joan Bennett e Charles Brickford envolvidos num triângulo amoroso com consequências invulgares. O misticismo de Bennett, a mente assombrada de Ryan e a cegueira física e moral de Bickford compõem um excelente filme com tons de film noir. E é a partir daqui que a carreira de Jean Renoir entra no seu período final. Em Outubro de 1949 Renoir regressa a França numa breve visita, enquanto se preparava para realizar um novo filme que seria passado na Índia, “The River”. O sempre esclarecido João Bénard da Costa chegou a afirmar que o filme estava para a obra de Renoir um pouco como as “Afinidades Electivas” estavam para a obra de Goethe, a “Mensagem” para a de Fernando Pessoa ou a “Clemência de Tito” para a de Mozart: «são coisas muito grandes, muito belas, mas que parecem pouco características, sem que isso seja secundário.»
Adrienne Corri em "The River"
Premiado em Veneza, “The River” foi um êxito de bilheteira e da crítica e marca um ponto de viragem no percurso artístico de Renoir, o seu regresso à ribalta, perante um público e uma crítica que se encontravam nessa altura a redescobrir toda a sua obra anterior. Nos cinco anos seguintes o cineasta dirige três filmes que se encaixam como uma trilogia, ainda que não tivessem sido pensados como tal. É a conhecida como a “trilogia do espectáculo”, onde se reportam fantasias cómicas de um certo período, em que poderosos jogos de cor coreografam as relações entre as classes alta e baixa, entre os espectadores e os actores, que tornam o mundo num imenso teatro: “Le Carrosse d’Or” (com a portentosa Anna Magnani), “French CanCan” (a imortalizar o célebre Moulin Rouge de Paris, e com Jean Gabin e Françoise Arnoul) e ainda “Elena et les Hommes” (com a belíssima Ingrid Bergman – de quem Renoir se tornara muito amigo - a liderar o elenco com Jean Marais e Mel Ferrer), uma comédia de amor e poder que tem como fundo histórico a Belle Époque. Este filme foi realizado em duas versões, a francesa e a inglesa, sendo a primeira considerada por Renoir como a versão de referência.
Mel Ferrer e Ingrid Bergman em "Elena et les Hommes"
 É nestes meados dos anos 50 que na revista Cahiers du Cinéma começam a aparecer, como críticos, os futuros realizadores da chamada Nouvelle Vague: Rivette, Godard, Truffaut, Chabrol, Rohmer, Resnais, todos eles unânimes em considerar Jean Renoir o mestre incontestado, o “Boss”, como o alcunhavam. É a contribuição decisiva para que a obra de Renoir passe a ser venerada na história do cinema. “Le Testament du Docteur Cordelier” (baseado na obra de Stevenson) e “Le Déjeuner Sur L’Herbe” (que conheceu um considerável sucesso) são os dois filmes, de contornos televisivos, que Renoir realiza em 1959, antes do seu derradeiro filme de ficção, “Le Caporal Épinglé” ver a luz do dia em 1962, ano em que publica uma biografia do pai. Em 1966 assina o seu primeiro romance, “Les Cahiers du Capitaine Georges” e em 1969 Renoir despede-se do cinema com “Le Petit Théâtre de Jean Renoir”. Regressa definitivamente a Los Angeles, onde vem a receber um Oscar Especial em 1975 pelo conjunto da sua obra.
Com Jean-Luc Godard
 «Os meus amigos franceses fazem-me sempre a mesma pergunta: “Porque escolheste viver na América? És francês, e precisas do ambiente francês”. A minha resposta é que o ambiente que me fez o que sou, é o cinema. Sou um cidadão da cinematografia. Para um cidadão da cinematografia, que melhor lugar para viver – e morrer - que Hollywood?» As suas memórias, “Ma Vie et Mes Films” tinam sido publicadas no ano anterior, por altura dos seus 80 anos. Depois de ver editados mais três romances seus (“Le Coeur à l’Aise”, “Le Crime de l’Anglais” e “Geneviève”), Jean Renoir viria a falecer a 12 de Fevereiro de 1979, aos 84 anos, deixando uma excepcional variedade de registos na Sétima Arte. Foi depois enterrado na aldeia de Essoyes, na Borgonha, ao lado do pai. No dia da sua morte, Orson Welles assinou uma nota necrológica no Los Angeles Times, intitulada “The Greates of All Directors”. Certamente que sabia do que falava.
"Le Déjeuneur sur l'Herbe"

 FILMOGRAFIA:

1969 – Le Petit Théâtre de Jean Renoir
1962 – Le Caporal Épinglé / O Cabo de Guerra
1959 – Le Testament du Docteur Cordelier / O Testamento do Médico e do Monstro
1959 – Le Déjeuner Sur L’Herbe / Um Piquenique no Campo
1956 – Elena et les Hommes / Elena e os Homens
1954 – French CanCan
1953 – Le Carrosse d’Or / A Comédia e a Vida
1950 – The River / O Rio Sagrado
1946 – The Woman on the Beach / A Mulher Desejada
1946 – The Diary of a Chamber Maid / O Diário de Uma Criada de Quarto
1945 – The Southerner / Semente de Ódio
1943 – This Land Is Mine / Esta Terra é Minha
1943 – The Amazing Mrs. Holliday / A Alegre Viuvinha (co-realização com Bruce Manning)
1941 – Swamp Water / Águas Sombrias
1939 - Tosca (terminado por Carl Koch)
1939 – La Règle Du Jeu / A Regra do Jogo
1938 – La Bête Humaine / A Fera Humana
1938 – La Marseillaise
1937 – La Grande Illusion / A Grande Ilusão
1936 – Les Bas-Fonds / O Mundo do Vício
1936 – Une Partie de Campagne / Passeio ao Campo
1936 – La Vie Est à Nous (co-realização com André Zwoboda e Jacques Becker)
1936 – Le Crime de Monsieur Lange / O Crime do Senhor Lange
1935 – Toni
1934 – Madame Bovary
1933 – Chotard et Cie
1932 – Boudou Sauvé des Eaux / Boudou Querido
1932 – La Nuit du Carrefour
1931 – La Chienne
1931 – On Purge Bébé
1929 – Le Bled
1929 – Le Tournoi Dans la Cité
1928 – Tire-au-Flanc
1928 – La Petite Marchande d’Allumettes / A Pequena Vendedora
1927 – Marquitta / Marquita
1927 – Sur un Air de Charleston
1926 – Nana
1924 – La Fille de L’Eau / O Turbilhão do Destino
1924 – Catherine ou Une Vie Sans Joie (co-realização com Albert Dieudonné)
 
Jean Renoir