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domingo, setembro 11, 2011

ENTREVISTA COM ELI ROTH


«Os filmes de terror não geram violência, são terapêuticos»


Nascido em Boston, em 1972, Eli Roth foi apelidado pela criti­ca de "inventor do torture porn", uma modalidade do ci­nema de terror independente hard, e agrupado no chamado splatter pack, um grupo de realizadores da sua geração e que fazem filmes de choque semelhantes aos seus, caso de Rob Zombie, James Wan, Leigh Whannell e Neil Marshall. Um rótulo liminar­mente rejeitado por este realizador de espírito independente e "apadrinhado" por Quentin Tarantino, que lhe deu um dos papéis principais em “Sacanas Sem Lei” (2009). Também argu­mentista, produtor e actor, Roth gosta de cinema de ani­mação (fez e deu voz a duas sé­ries de televisão animadas) e foi colaborador de David Lynch. «Estou pronto para vol­tar a realizar um filme em breve», disse ao DN. Mas não será a adaptação de Chamada para a Morte”, de Stephen King, como correu há algum tempo.
- Quando decidiu que queria ser realizador, decidiu logo também que queria fazer filmes de terror?
- Eu queria fazer todo o tipo de fil­mes, mas soube logo que queria fazer filmes de terror, os meus fa­voritos de sempre. Também gos­tava de animação, do Bugs Bunny e de filmes como “O Submarino Amarelo”. Sempre gostei de dese­nhar e pintar, e a minha mãe é pin­tora. Quando era miúdo, passava o tempo a desenhar e a pintar. Nessa altura, os filmes de terror eram uma coisa proibida. Não havia vídeos, não havia cabo e nunca passavam na televisão, porque eram muito violentos. Estavam envoltos numa aura de mistério, ouvíamos os ir­mãos mais velhos descrevê-los. Foi Alien, O Oitavo Passageiro” que me fez querer ser realizador. E também Guerra das Estrelas”, e Tubarão”.

 - Por causa de filmes como Hostel” e Hostel 2”, a crítica pôs-lhe o ró­tulo de "inventor do torture porn", um subgénero do cinema de ter­ror em que as personagens são horrivel e graficamente tortura­das. O que pensa deste rótulo?
- Acho que é ridículo. Mas quando fazemos um filme que mexe com as pessoas, não podemos ficar sur­preendidos se nos metem numa caixa. Eu queria fazer um filme que acordasse as pessoas, que as cho­casse e as pusesse a falar e a discu­tir a violência. Tal como o George Romero e o Tobe Hooper fizeram nos anos 70, eu pretendi fazer um filme que pudesse ser visto repetidas vezes, e discutido a vários níveis. Essa rotulação não passa de uma maneira fácil de me meter, e ao filme, num ghetto, e de o menosprezar. Os fãs não usam esse termo. Um crítico que o usa é logo visto como uma pessoa que não gosta deste tipo de filmes, e não ligam à opiníão dele.
- Aliás, isso é ignorar que o cinema de terror tem uma longa tradição de abordagem da violência, e que tem evoluído com o tempo.
- Exacto. Olhem para os quadros de Bosch ou de Goya. Chamariam a isso arte pornográfica? Um filme como Hostel” é, para mim, mais um passo na evolução do género e fico lisonjeado que as pessoas falem tanto sobre ele. Eu não quis neces­sariamente ser mais violento do que qualquer outro realizador antes de mim, quis foi abordar a violência de uma nova maneira.

- Também tem produzido filmes de terror tradicionais, como “O Último  Exorcismo”, e agora uma fita de artes marciais com o Russell Crowe, “The Man with the Iron Fists”, realizado pelo RZA.
- Quero mostrar às pessoas que sou mais do que um realizador meti­do numa caixa e rotulado, apenas associado à tortura e à violência. E faço-o com filmes como esses.
- Os mestres do terror costumam ser realizadores independentes. Rodou os seus filmes neste siste­ma de produção. É um requisito necessário para fazer cinema de terror que fuja à rotina, às nor­mas e à censura dos estúdios?
- Ajuda sempre ser independente, porque mantém a pureza. Nós sentimos logo quando um filme é fabricado por um estúdio. O studio system funciona bem para certo tipo de filmes, mas o cinema de terror tem que ser perigoso, tem que forçar a nota. Tem que mostrar o impensável, o que não se pode fazer. Veja A Última Casa à Esquerda": é um filme assustador porque a cena de violação é horri­velmente realista, até o próprio violador se sente incomodado de­pois. O remake do estúdio é poli­ticamente correcto, mas a certa al­tura, por nenhuma razão, mostra os seios da rapariga, o que ainda é mais gratuito do que a violação do filme original. E o elemento de transgressão foi eliminado. Os me­lhores filmes de terror recentes são independentes. Olhe, o “Actividade Paranormal”, por exemplo, safou­ -se de não se estrear por causa do lobby dos fãs, porque não o queriam distribuir. Mas já o remake de “Veio do Outro Mundo”, do John Carpenter, é um bom filme de ter­ror de estúdio, e custou 50 milhões de dólares, um orçamento impen­sável para um independente. Os estúdios também podem fazer bons filmes de terror. Tudo depen­de do tema. Se é FC e monstros, os estúdios alinham. Se mete huma­nos, violência e tortura, vai melhor com os independentes.

- Disse numa entrevista que «os fil­mes violentos não geram violên­cia nem incitam a ela». E é verda­de. Mas esse mito tolo persiste. Porquê?
Claro! Há estudos feitos por uni­versidades sobre isso, que mos­tram que os índices de violência diminuem sempre que se estreiam filmes violentos. As pessoas vio­lentas estão todas no cinema [risos]. E o mito persiste porque as pessoas não querem aceitar as suas responsabilidades sociais e fazem dos filmes o bode expiatório. É muito mais fácil culpar o cinema. A violência não começou em 1969 com A Quadrilha Selvagem", do Sam Peckinpah. Os EUA foram fundados com base na violência. A vida é violenta. O que vemos no ci­nema é apenas uma representa­ção da violência. E os filmes de terror têm uma função terapêutica, servem para as pessoas fazerem a catarse dos horrores e da violên­cia da vida real. Os meus filmes re­flectem realidades como Abu Grahib, o uso da tortura pela ad­ministração Bush ou a arrogância dos EUA no mundo pós 11 de Setembro.

(Entrevista de Eurico de Barros, publicada no DN em 11 de Setembro de 2011)