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terça-feira, agosto 12, 2025

IT'S A MAD, MAD, MAD, MAD WORLD (1963)

O MUNDO MALUCO
Um filme de STANLEY KRAMER


Com Spencer Tracy, Milton Berle, Sid Caesar, Buddy Hackett, Ethel Merman, Mickey Rooney, Dick Shawn, Phil Silvers, Terry-Thomas, Jonathan Winters, Edie Adams, Dorothy Provine, Jimmy Durante, Jim Backus, etc.


EUA / 154 min (192) / COR / 16X9 (2.76:1)

Estreia nos EUA a 18/11/1963
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 10/5/1965 (cinema Monumental)



J. Algernon Hawthorne: «As far as I can see, American men have been totally emasculated- they're like slaves! They die like flies from coronary thrombosis while their women sit under hairdryers eating chocolates & arranging for every 2nd Tuesday to be some sort of Mother's Day! And this positively infantile preoccupation with bosoms. In all time in this wretched Godforsaken country, the one thing that has appalled me most of all this this prepostrous preoccupation with bosoms. Don't you realize they have become the dominant theme in American culture: in literature, advertising and all fields of entertainment and everything. I'll wager you anything you like that if American women stopped wearing brassieres, your whole national economy would collapse overnight»

“It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” é não apenas uma comédia típica dos anos 60, mas também uma fábula amarga sobre a cupidez e a corrupção, que desenvolve nas dimensões do Ultra-Panavision 70 (sistema de projecção que evoluiu a partir do Cinerama, em que o triplo écran foi reformulado para apenas um, mas de dimensões idênticas) o burlesco da escola de Mark Sennett, Harold Lloyd ou Buster Keaton. E por causa da sua longa duração e do nº de cómicos que nela participa (cerca de 40, a grande maioria dos que se encontravam no activo à data da sua produção), pode-se ainda considerá-la como uma verdadeira comédia épica (Stanley Kramer chegou a afirmar que era seu desejo fazer «uma comédia para acabar com todas as comédias»). Surpreendente catálogo das misérias e baixezas humanas, o filme constitui um sinal das matizes cada vez mais sombrias que a comédia vinha a atingir nos princípios da década de 60.


Depois de uns créditos iniciais bem divertidos e prometedores, o filme arranca com uma viatura em alta velocidade pela estrada do actual deserto Palm da Califórnia do Sul. Depois de ultrapassar quatro outros veículos, não consegue fazer uma curva mais apertada e despenha-se por uma ravina abaixo. O aparato do acidente leva a que os cinco homens ocupantes das quatro viaturas corram em auxílio da vítima, de cuja identidade seremos posteriormente informados: trata-se de ‘Smiler’ Grogan (Jimmy Durante), suspeito de um roubo, que andava há 15 anos fugido da polícia. Os cinco socorristas são Dingy Bell (Mickey Rooney) e Benjy Benjamin (Buddy Hackett), dois amigos que viajam no mesmo carro; Melville Crump (Sid Caesar) um dentista que viaja com a mulher, Monica (Edie Adams); Lennie Pike (Jonathan Winters), um camionista que transporta mobílias; e Russell Finch (Milton Berle), marido de Ermeline (Dorothy Provine) e que viaja em companhia da sogra, Mrs. Marcus (Ethel Merman).

Antes de se finar, o moribundo consegue ainda alertar os cinco homens para a existência do roubo, no valor de 350 mil dólares, que se encontra enterrado debaixo de um grande “W” num parque de Santa Rosita, junto à fronteira com o México e a cerca de 200 milhas para sul. Desconfiados numa fase inicial, os cinco homens mais as três mulheres que os acompanham, começam a pensar que um homem à beira da morte não seria capaz de mentir - o dinheiro era mesmo capaz de existir e poderia ser dividido por todos. Começam a arquitectar as divisões mais estapafúrdias (contabilizando pessoas, carros, ocupantes e descidas à ravina), mas depressa chegam à conclusão de que não se conseguem entender. A partir dali é cada um por si, numa louca corrida ao dinheiro, onde as regras são mandadas às urtigas, interessando apenas o objectivo comum do saque. Entretanto, um chefe de polícia, o capitão Culpepper (Spencer Tracy), que há 15 anos perseguia o ladrão agora morto e que está farto de esperar por uma reforma condigna, vê ali uma oportunidade de se apoderar tranquilamente do dinheiro roubado, para depois atravessar a fronteira para o México. Mas as coisas não são assim tão fáceis e as complicações começam a aparecer…

Durante os 154 minutos que o filme dura em DVD (na versão original a duração era de 192 minutos), vamos testemunhando as mais loucas e diversas peripécias. Novas personagens vão engrossando o núcleo inicial – Sylvester (Dick Shawn), filho de Mrs. Marcus, que vê interrompida uma sessão terapêutica de beat music (uma das sequências mais hilariantes de todo o filme), Phil Silvers (Otto Meyer), um caixeiro-viajante sem escrúpulos, ou J. Algernon Hawthorne, um típico englishman, brilhantemente interpretado por Terry-Thomas. Mas os nomes de cómicos conhecidos não acabam por aqui. Temos ainda direito a pequenos cameos de gente como Peter Falk (um dos motoristas de táxi), Jerry Lewis (um gag delicioso, aquele do chapéu), Norman Fell, Jack Benny, Buster Keaton, entre muitos outros.

No final deste extravagante monumento ao cinema cómico temos direito a uma das mais célebres sequências do género – aquela em que todos os protagonistas se vêem à mercê de uma escada de bombeiros enlouquecida que os vai lançando pelos ares numa enorme praça apinhada de curiosos. Logo depois, e antes do filme acabar, o gag final da banana com todos eles engessados numa enfermaria de hospital. "It's A Mad, Mad, Mad, Mad World" é hoje um clássico incontornável da comédia e traz com ele uma certa nostalgia de um tempo que não volta mais. De lastimar apenas que até à presente data não tenha sido editada uma versão com toda a metragem original do filme.

CURIOSIDADES:

- Na filmagem da sequência da entrada do carro no rio, o  actor Phil Silvers ia-se afogando por não saber nadar.

- O Santa Rosita State Park não existe na realidade. Toda a acção decorre no Portuguese Bend em Rancho Palos Verdes.

- O cómico Stan Laurel não aceitou aparecer no filme devido à morte de Oliver Hardy, em 1957. Quando a dupla (“Bucha e Estica”) se desfez, Stan jurou nunca mais participar no cinema. Promessa que cumpriu até ao dia da sua morte, a 23 de Fevereiro de 1965.

- Só muito relutantemente é que Edie Adams aceitou desempenhar o papel de Monica Crump, devido ao seu marido, o actor-realizador Ernie Kovacs, ter falecido num desastre automóvel pouco tempo antes do filme começar a ser rodado.

- Na ante-estreia do filme no teatro Cinerama, a 17 de Novembro de 1963, esteve presente a maioria da família do Presidente John Kennedy, atendendo a que a sessão se destinava a angariar fundos para o Kennedy Child Study Center em Nova Iorque e para o Joseph P. Kennedy Jr. Institute em Washington. Cinco dias depois o Presidente era assassinado em Dallas.


- Foi filmada uma sequência musical com o grupo as Shirelles, que não chegou a ser incluída no filme. O tema – “31 Flavours” – pode ser ouvido na banda-sonora.

- Bob Hope, Jackie Mason, George Burns, Red Skelton e Judy Holliday foram alguns dos actores ligados à comédia que não aceitaram entrar no filme.

- Devido a questões de saúde, Spencer Tracy só trabalhou nove dias na rodagem do filme, nunca ultrapassando as 4 horas diárias. As cenas mais arriscadas, incluindo a subida do edifício na sequência final, foram todas desempenhadas por um duplo.

- Do elenco principal todos os actores já faleceram.

- “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” conseguiu duas nomeaçãoes para os Globos de Ouro (Filme Musical ou Comédia e Actor de Musical ou Comédia, Jonathan Winters) e também 6 nomeações para os Óscars nas categorias de Cinematografia, Montagem, Canção Original, Som, Música e Efeitos Sonoros, tendo ganho apenas nesta última categoria.




sábado, junho 29, 2019

THE HONEY POT (1967)

O PERFUME DO DINHEIRO
(CHARADA EM VENEZA)
Um Filme de JOSEPH L. MANKIEWICZ



Com Rex Harrison, Susan Hayward, Cliff Robertson, Capucine, Edie Adams, Maggie Smith, Adolfo Celi, etc.


EUA-ITÁLIA / 132 min / 
COR / 16X9 (1.85:1)



Estreia na GRÃ-BRETANHA (Londres) a 21/3/1967
Estreia nos EUA (Nova Iorque) a 22/5/1967
Estreia em MOÇAMBIQUE (LM, Teatro Manuel Rodrigues) a 23/12/1967



"The Honey Pot / O Perfume do Dinheiro" baseia-se, em princípio, no Volpone de Ben Johnson, dramaturgo contemporâneo de Shakespeare. Por Volpone começa aliás: num teatro de Veneza, Mr. Cecil Fox (Rex Harrison) assiste à representação privada da farsa de Johnson, durante a qual Volpone e o seu criado Mosca resolvem simular a morte do primeiro para assim enganar os herdeiros. Na peça, Volpone acaba por ser enganado pelo cúmplice, que, aproveitando-se do testamento, acaba por receber a herança e desalojar o proprietário. No filme, Mr. Fox não acaba sequer de assistir à representação, que interrompe a meio do terceiro acto. No seu palácio veneziano, irá também Mr. Fox simular a sua morte, convidando para assistir aos seus últimos minutos, três mulheres outrora ligadas à sua vida: uma princesa, Dominique (Capucine), uma actriz de Hollywood, Merle McGill (Edie Adams), que ele próprio fez subir na vida, e uma americana milionária, Mrs. Sheridan (Susan Hayward), que se vem a saber depois tratar-se da sua legítima mulher. Para o papel de Mosca (criado e confidente), Mr. Fox escolhe um actor desempregado de nome William McFly (Cliff Robertson). Distribuídos os papéis e planeado o argumento, corre o pano e inicia-se a acção: diz Mr. Fox que pretende, através desta comédia palaciana, saber até que ponto o dinheiro influi na vida das pessoas, até que ponto uma possível herança pode alterar um comportamento. Não iremos aqui revelar o evoluir dos acontecimentos (até para respeitar quem nunca assistiu ao filme); diremos simplesmente que poucas vezes se nos tem deparado um argumento (da autoria do próprio Mankiewicz, e baseado na novela de Thomas Sterling e na peça de Frederick Knott) tão bem construído, tão inteligentemente urdido, tão ardilosamente desenvolvido.


Até cerca do intervalo, o filme desenrola-se definindo as personagens e fazendo engrenar as diferentes peças do mecanismo posto a girar pela vontade de Mr. Fox. Depois, assistimos então a uma encarniçada luta pelo dinheiro. Cada uma das três pretendentes oferece a Mr. Fox um relógio. A princesa traz uma ampulheta que, em vez de areia, tem no seu interior ouro em pó; a actriz, um relógio múltiplo, marcando as horas simultâneamente em diversas cidades do mundo; a terceira, uma relíquia outrora comprada pelo próprio Mr. Fox. No quarto do hipotético moribundo faz-se ouvir portanto o tic-tac ritmado que assinala as horas de espera dos abutres, que anseiam por se lançar sobre a vítima. A presença do tempo, como realidade física, e a única coisa que tem realmente valor na vida de todos nós, é outra das virtudes desta obra, atravessada de ponta a ponta por um humor negro e muitas vezes cruel.


Costuma dizer-se que uma obra de arte é um todo indestrutível. Pelo menos para a verdadeira obra de arte torna-se capcioso tentar destrinçar aspectos de uma mesma realidade que o artista pensou e realizou em simultaneidade. E o filme de Mankiewicz volta a provar-nos a justeza dessa premissa. Pensado como obra, "The Honey Pot" impõe-se como obra, completa, perfeita, acabada. Tudo se conjuga para que assim seja. Os décors sumptuosos de palácios venezianos (da autoria de Boris Juraga e Paul S. Fox), o granulado admirável de uma fotografia colorida sem igual (último trabalho de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Gianni di Venanzo, que faleceu precisamente enquanto rodava este filme), a elegância e a maleabilidade de uma mise-en-scène pensada em função dos personagens e ambientes definidos, tudo conjugado por Mankiewicz adquire uma tonalidade muito pessoal, um significado de verdadeira obra de auteur.


Na interpretação há a destacar um conjunto de actores inultrapassáveis de intenção e rigor. Rex Harrison não é só o actor que nós já conhecíamos, sobretudo de "My Fair Lady"; Cliff Robertson descobre-se numa figura notável de composição; Susan Hayward mostra-nos como o passar dos anos não tem qualquer importância quando se trata de talento puro; Edie Adams é a actriz histérica e nevrótica que Hollywood formaria certamente no seu seio; Capucine possui o charme de uma verdadeira princesa e o talento de uma grande actriz; e que dizer da magnífica Maggie Smith, aqui uma jovem actriz de 32 anos e ainda nos inícios da sua longa e brilhante carreira? Finalmente, Adolfo Celi é o rival italiano de Perry Mason, cuja presença se torna imprescindível para a completa compreensão da comédia. "The Honey Pot" é na verdade, e ainda hoje, uma película admirável, de tal modo rica, exuberante, explosiva, simultâneamente divertida e cruel, elegante e brutal, irredutível a esquemas e convenções que, por muito que tentemos tudo dizer, muito haveria sempre a dizer. Mas não será, afinal, esta uma forma de lhe rendermos homenagem? 


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