Mostrar mensagens com a etiqueta dustin hoffman. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dustin hoffman. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 12, 2025

STRAW DOGS (1971)


CÃES DE PALHA
Um Filme de SAM PECKINPAH

Com Dustin Hoffman, Susan George, Del Henney, Peter Vaughan, T.P. McKenna, Jim Norton, Donald Webster, Ken Hutchison, David Warner, Sally Thomsett, etc.
 
GB-EUA / 118 min / COR / 16X9 (1.85:1)
 
Estreia na GB a 3/11/1971
Estreia nos EUA a 29/12/1971
Estreia em MOÇAMBIQUE a 3/2/1973 
(LM, Teatro Scala)
Estreia em PORTUGAL a 27/4/1973


 
"In the eyes of every coward burns a straw dog"
 
Sam Peckinpah (1925-1984), que pessoalmente nunca considerei um grande realizador, teve no entanto a sua importância entre os finais da década de 60 e os meados dos anos  70. Apelidado de "Mad Sam" ou "Bloody Sam", senhor de um feitio duro e conflituoso, a sua imagem de marca era uma espécie de orquestração da violência no écran, para o que utilizava (e muitas vezes abusava) da chamada câmara lenta ou ralenti. Existem altos e baixos no conjunto das 14 longas-metragens que realizou entre 1961 e 1983, quase todas elas passadas num mundo de homens, onde as personagens femininas eram figuras decorativas ou mesmo inexistentes. As excepções foram muito poucas: Maureen O'Hara logo no seu primeiro filme, "The Deadly Companions", Ali MacGraw em "The Getaway" e sobretudo Susan George neste "Straw Dogs".
 
Juntamente com "The Getaway" [1972] e "Pat Garrett & Billy The Kid" [1973],  "Straw Dogs" perfaz a minha trilogia preferida do autor de "The Wild Bunch", talvez o seu filme mais conhecido, mas que pelo qual nunca morri de amores (revi-o há pouco tempo em blu-ray e essa minha antiga indiferença só se veio a acenturar ainda mais). Quando da sua estreia, nos finais de 1971, em Inglaterra e nos Estados Unidos (eu só o veria pela primeira vez em Fevereiro de 1973, quando o filme se estreou em Moçambique), "Straw Dogs" dividiu de imediato público e crítica, tendo esta última colocado prontamente o dedo acusatório no excesso de violência, elevada a um nível de terror pouco usual, bem como no facto do filme fazer a apologia do exercício da justiça por mãos próprias. Peckinpah chegou a ser apelidado de "fascista" por alguns críticos mais exagerados, mesmo pelos mais lidos e considerados. Lembremos, por exemplo, o que escreveu a norte-americana Pauline Kael: «the first American film that is a fascist work of art.»
 
Julgo, no entanto, que a maioria da crítica da época se equivocou ao fazer a ligação estupro-vingança no filme de Peckinpah, uma vez que a vítima, Amy (Susan George), nunca utiliza tal arma; e o marido, David Sumner (Dustin Hoffman), nem sequer chega a ter conhecimento das sevícias impostas a Amy. A reacção, em crescendo, de David, deve-se tão sómente em proteger a sua casa («This Is My House») e na recusa de entregar à justiça popular Henry Niles (David Warner), um atrasado mental alvo de perseguição por causa do desaparecimento de Janice (Sally Thomsett), uma jovem da aldeia (que efectivamente tinha morrido às suas mãos, mas acidentalmente) e que se encontra refugiado dentro da casa do casal.
 
Mas comecemos pelo início da história: David Sumner, um jovem matemático americano, muda-se com a mulher para a terra natal desta, em Inglaterra, mais precisamente para uma quinta rural (Trencher's Farm, designação incluída no título da obra de Gordon Williams que deu origem ao filme: "The Siege of Trencher's Farm"), na região da Cornualha. A sua intenção é encontrar a paz e tranquilidade necessárias ao seu trabalho, que passa pela escrita de um livro. Mas o provincianismo típico das pequenas comunidades em breve se faz sentir, e David começa desde logo a ser olhado com desconfiança, como o intruso que efectivamente é. Ainda por cima as relações entre o casal não são as melhores do mundo (têm os seus momentos de descontracção mas é sempre a incompreensão mútua, por vezes cruel, que vem ao de cima), o que irá fragilizar ainda mais a posição de David, que de algum modo, e com razão, se considera intelectualmente superior aos habitantes da região, apesar de ser uma pessoa tímida e pouco dada a confrontos físicos.
 
Precisando de mão-de-obra para consertar o telhado da garagem exterior, David contrata alguns homens, entre os quais Charlie Venner (Del Henney), um antigo namorado de Amy. Esta, sensual e provocadora, torna-se rapidamente no centro das atenções masculinas, até porque a relação mais ou menos aborrecida do seu casamento a impele para outras distrações. É esta atitude, um pouco frívola e coquette, que irá fazer subir a tensão entre os trabalhadores. Estes convencem David a ir com eles a uma caçada aos patos e deixam-no sózinho na charneca. Venner volta à casa de Amy e viola-a no sofá da sala. É esta a sequência mais célebre do filme (e a que mais tinta fez correr na altura), não devida ao acto em si, mas por causa da ambiguidade da personagem de Susan George, que após uma resistência inicial, chega a sentir prazer durante a violenta experiência a que é sujeita. Mas depois da primeira vem a segunda violação (por parte de um outro homem) e aí o terror instala-se definitivamente.
 
No final assistimos à transformação gradual de Dustin Hoffman, cujo David Sumner passa de um tímido intelectual a um sanguinário executor. Não, como acima se referiu, em consequência da violentação da mulher (de que nunca toma conhecimento) mas como reacção à invasão do seu espaço. Esses (longos) minutos finais são objecto de uma excelente e eficaz montagem fílmica, um aspecto do cinema em que Peckinpah conhecia efectivamente o terreno que pisava. No fim da carnificina, David não se sente outro homem, apenas aliviado e também admirado pelas suas capacidades até então ocultas. Essa noção de que no fundo nada mudou, podemos encontrá-la no final do filme. No carro em que leva consigo Niles, este confessa: «I don't know my way home». Ao que, passado um pequeno silêncio, David responde: «That's okay, I don't either».
 
Há aqui uma curiosa semelhança com o final do filme que imortalizou Dustin Hoffman, "The Graduate". Tal como Benjamin Braddock, David Sumner ultrapassou uma série de conflitos e hesitações para se conseguir realizar pessoalmente. Não como a pessoa apaixonada do filme anterior, mas agora como executor implacável. E, tal como em "The Graduate" abandona o local do climax em companhia do seu troféu: a noiva no primeiro filme, o deficiente Niles aqui: ambos constituindo a razão pela qual o herói se bateu para além das suas forças. Ou seja, finais idênticos mas vistos por prismas completamente opostos. A diferença está em que a personagem de Hoffman em "Straw Dogs" não merece o carinho que o público incondicionalmente lhe atribuíu no "The Graduate". Mas o intérprete dos dois filmes é o mesmo genial actor que todos conhecemos, e a sua prestação em "Straw Dogs" é de igual modo insuperável. Também a insinuante Susan George tem aqui o papel da sua vida (como a actriz reconheceu em entrevista recente), apesar de todos os conflitos que manteve com o realizador ao longo da rodagem. Mas isso, com Peckinpah, era perfeitamente normal.
 
"Straw Dogs" foi o primeiro filme de Peckinpah rodado na Europa, e aquele em que o realizador se sentiu mais independente dos estúdios de Hollywood. Por outro lado, foi também o primeiro filme fora do género western (não implicando contudo que a ideia central do mesmo não se encontre presente), o que talvez contribuisse para que as cenas violentas tenham sido recebidas com tanta indignação e particular repugnância. O filme mantém-se ainda hoje provocativo e incómodo, não pelo grafismo violento (hoje em dia tão em voga e aqui tão pouco explícito), mas pela atmosfera opressiva que se sente desde o início e que segue em crescente intensidade até final. "Straw Dogs", como outra qualquer obra de arte, desafia-nos constantemente a questionar o mundo em que vivemos. E a famosa sequência da violação é disso mesmo um exemplo: Peckinpah convida-nos a tomar partido pelo lado mais fraco, o da vítima, mas só podemos assumir essa simpatia e essa defesa se partilharmos do prazer que Amy nos transmite durante o odioso acto. Chama-se a isto de subversão dos valores instituídos.
 
Um aviso aos eventuais compradores do DVD: não gastem dinheiro na recente edição em blu-ray (região B), atendendo a que se trata de uma edição medíocre. Inexplicavelmente, a imagem apresenta-se muito escura e saturada, nada tendo a ver com a edição que a prestigiada Criterion lançou em 2003. Procurem-na (apesar de esgotada oficialmente), porque aí sim, o filme é-nos apresentado em todo o seu esplendor, com uma fotografia luminosa, de cores correctamente equilibradas. E ainda por cima trata-se de uma edição dupla, com um disco extra de interessantes suplementos. Em 2011, um tal de Rod Lurie, resolveu filmar uma nova versão de "Straw Dogs", da qual certamente não rezará a história. Não vi nem tenciono ver essa versão, até porque não consigo entender o objectivo de tal empreitada. Gastam-se 10 milhões de dólares para fazer uma cópia que sem qualquer dúvida nunca chegará aos calcanhares do filme original. E até o poster publicitário foi descaradamente copiado! Tais processos parecem ser actualmente uma moda recorrente que infelizmente só denuncia a falta de ideias que proliferam no cinema norte-americano.
 
 CURIOSIDADES:

- Actores equacionados para o papel de David Sumner: Donald Sutherland, Jack Nicholson e Sidney Poitier. Para interpretar Amy Sumner as actrizes inicialmente pensadas foram Diana Rigg, Charlotte Rampling e Helen Mirren

- O título do filme foi retirado de uma frase do filósofo chinês Lao-tzu: «Heaven and earth are not humane, and regard the people as straw dogs.» Os "Straw Dogs" eram usados em sacrifícios religiosos na China antiga

- Pouco satisfeito com a reacção dos frequentadores do pub à entrada de Dustin Hoffman, Peckinpah pediu ao actor uma repetição, mas desta vez sem as calças vestidas. A reacção obtida é a que figura na montagem final do filme

- Devido a um considerado excesso de violência, os censores britânicos (BBFC) proibiram o filme de ser editado em video e DVD. Tal proibição durou entre 1984 e 2002. Mesmo assim, a cópia finalmente editada em Inglaterra tem menos 5 minutos do que a versão original (que só está disponível na edição da Criterion)

- Devido a uma excessiva sessão de copos com o actor Ken Hutchison à beira-mar, Sam Peckinpah contraiu uma pneumonia que o levou a ser internado numa clínica em Londres


- O actor T.P. McKenna, que vemos de braço ao peito, tinha-o mesmo partido, em consequência duma sessão com duas prostitutas em companhia de Sam Peckinpah

- Dustin Hoffman, que nunca foi partidário de filmes violentos, acabou por confessar que apenas tinha aceite o papel de David Sumner por questões financeiras

- Quinze dias antes do início das filmagens Peckinpah convenceu Dustin Hoffmann e Susan George a viverem juntos no mesmo hotel (em camas separadas, entenda-se), de modo a conseguirem criar uma atmosfera de casal entre ambos

- A revista Premiere classificou o poster original do filme em 12º lugar numa lista dos melhores 25 posters de sempre

- Sam Peckinpah foi eleito o melhor realizador de 1971 pela Associação de Críticos de Kansas City e "Straw Dogs" foi nomeado para o Óscar da melhor partitura musical, da autoria de Jerry Fielding. O vencedor foi (muito merecidamente, diga-se) o filme "Summer Of '42", com música de Michel Legrand.







quarta-feira, agosto 05, 2015

MIDNIGHT COWBOY (1969)

O COWBOY DA MEIA-NOITE
Um filme de JOHN SCHLESINGER


Com Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles, John McGiver, Brenda Vaccaro, Bernard Hughes, Ruth White, Bob Balaban, etc.

EUA / 113 min / COR / 16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 25/5/1969 

(New York)
Estreia em MOÇAMBIQUE a 7/8/1970
(LM, Teatro Manuel Rodrigues)


Joe Buck: «I'm brand, spankin' new in this here town and
I was hopin' to get a look at the Statue of Liberty»
Cass: «It's up in Central Park, taking a leak.
If you hurry, you can catch the supper show»

Tinha 17 anos quando vi pela primeira vez este “Midnight Cowboy” na sua estreia em Moçambique. Lembro-me ainda do enorme fascínio que o filme exerceu sobre mim naquela altura e uma das consequências do seu visionamento foi a de ter mudado radicalmente a minha percepção do mundo da marginalidade. Por causa de John Schelesinger, o cineasta britânico (1926-2003) responsável pela exemplar realização do filme, aquela pequena história entre dois desajustados do sub-mundo citadino conseguiu adquirir os contornos quixotescos de uma relação capaz de seduzir o mais cínico dos espectadores. Quando o filme termina, naquela pungente cena do autocarro, Joe Buck e Rico Ratso ultrapassaram já as meras personagens do filme. Desfeitos os sonhos, passaram, através dos nossos olhos, a ser o D. Quixote e o Sancho Pança das ruas de Nova Iorque.

Tudo começa de um modo deliberadamente equívoco: logo no início do filme o écran está branco, e ouvem-se os tiros de um qualquer filme de cowboys. Depois a câmara recua  e apercebe-mo-nos que estamos num drive-in. O travelling recua cada vez mais, até que todo aquele grande espaço vazio esteja em campo. Umas crianças brincam, é meio-dia e, em plano recuado, estende-se um horizonte que nos sugere estarmos no Texas. Depois aparece Joe Buck (Jon Voight), o cowboy que está farto de lavar pratos num snack-bar e quer ir para Nova Iorque viver à custa do corpinho que Deus lhe deu. «Where is Joe Buck?» é a pergunta repetida do dia, visto haver pilhas de louça à espera de serem lavadas. Mas o cowboy está mesmo decidido a ir à procura do El Dorado nova-iorquino. Recebe o dinheiro que lhe é devido, despede-se do companheiro de cozinha e põe-se ao caminho: «I'm goin' where the sun keeps shinin' through the pourin' rain» ouve-se na belissima canção cantada por Nilsson, uma das grandes referências deste filme único.

A viagem será longa, e as estações de serviço, as barracas poeirentas e os anúncios da Coca-Cola vão-se sucedendo a um ritmo natural, tal como os vizinhos fortuitos que vão acompanhando Joe no autocarro. Finalmente a Big Apple, anunciada no inseparável rádio portátil, e a excitação da chegada do nosso cowboy à grande cidade das grandes oportunidades. Mas depressa a dura realidade irá impor as suas regras cruéis, envolvendo o ingénuo Joe Buck  nas teias da selva de betão. Completamente à deriva e de desilusão em desilusão, entre prostitutas, gays ou fanáticos religiosos, será contudo num dos muitos marginais da cidade que Joe Buck irá encontrar algum apoio – o tuberculoso Enrico ‘Ratso’ Rizzo (Dustin Hoffman num dos seus lendários papeis no cinema), desenvolvendo com ele uma picaresca relação de cavaleiro-escudeiro, que nos traz à memória a obra de Cervantes.

Será essa relação, descrita para além do panfletário ou do moralismo fácil, que irá cativar o espectador. Schelesinger consegue estabelecer uma forte ligação com os grandes heróis do cinema a partir duma história envolvendo cidadãos de todos os dias mas também com os desejos comuns de uma vida melhor. Fá-lo inovando a linguagem cinematográfica (que naquela época não era nada pródiga em flashbacks frequentes ou inserts a preto e branco) e de um modo tão exímio que “Midnight Cowboy” passou a ser considerado, com toda a justiça, um dos grandes percursores do American Art Film, tendo influenciado, na década de 70, realizadores até então pouco conhecidos mas que se tornariam rapidamente referências básicas do cinema americano. Falo de um Scorsese, de um Bogdanovich ou de um Coppola, por exemplo.

Foi o primeiro filme americano de John Schlesinger. Sem jamais fazer qualquer concessão e aproveitando-se do facto de poder contar com um grande estúdio (a United Artists) para a distribuição e promoção do filme, o prestigiado realizador inglês conseguiu assim beneficiar de uma total liberdade artística na criação daquela que se viria a tornar a sua obra mais célebre. Graças a uma impecável direcção de casting, Schlesinger conseguiu não só convencer a nata do underground nova-iorquino a participar no seu projecto (Andy Warhol colaborou activamente na famosa sequência da festa psicadélica), como também foi suficientemente persuasivo para poder contar com um duo de actores magníficos. Esta feliz conjugação de talentos deu origem a uma obra poderosa, que descrevia o lado subterrâneo da América e que por isso estava a milhas dos clichés do cinema tradicional de Hollywood.

As actuações de Voight e Hoffman são fabulosas e inesquecíveis, em dois registos completamente diferentes mas que se completam às mil maravilhas. Foram essenciais para o grande êxito do filme e contribuíram para que “Midnight Cowboy” se tornasse num dos filmes mais citados, imitados e mesmo parodiados, não só da história do cinema, como de toda a cultura pop em geral. Mas para além da excelência dessas interpretações ou da mestria da realização, outro factor houve que tornou este filme imortal – o fundo musical, composto por John Barry e a que Fred Neil, por intermédio da voz de Harry Nilsson, adicionou uma das canções mais emblemáticas de todos os tempos:

“Everybody’s Talkin’”:

Everybody's talkin' at me
I don't hear a word their sayin'
Only the echos of my mind
People stop and stare
I can't see their faces
Only the shadows of their eyes

I'm goin' where the sun keeps shinin'
Through the pourin' rain
Goin where the weather suits my clothes
Bankin off of the northeast winds
Sailin' on summer breeze
And skippin over the ocean like a stone

Everybody's talkin' at me
Can't hear a word their sayin'
Only the echos of my mind
I won't let you leave my love behind
No I won't let you leave
I won't let you leave my love behind

Devido à cena de sexo oral, envolvendo Bob Balaban e John Voight no interior de um cinema, “Midnight Cowboy” seria classificado com o temível “X” (maiores de 17 anos) por parte da conservadora comissão etária norte-americana o que, como se sabe, limita drasticamente a possibilidade de um filme ser devidamente publicitado (os anúncios televisivos, por exemplo, ficam desde logo proibidos). Mas por uma vez e para grande surpresa geral, a Academia de Hollywood atribuíu a “Midnight Cowboy” nada menos de 3 Óscares (de um total de 7 nomeações) e logo nas categorias principais: melhor argumento adaptado, melhor realização e, imagine-se, melhor filme do ano! Foi algo inédito na indústria americana, uma corajosa quebra de tabus sem precedentes. Posteriormente aos prémios recebidos, e muito cinicamente, a comissão resolveu alterar a classificação etária para “R” (autorizado a menores de 17 anos, desde que devidamente acompanhados por um responsável familiar), não sem antes tentar que a cena problemática fosse cortada. Mas não tiveram qualquer sucesso.

CURIOSIDADES:

- Um dos executivos da United Artists chegou a enviar uma nota a Schlesinger onde dizia que caso se eliminassem algumas cenas e acrescentassem várias canções, o filme seria um veículo ideal para Elvis Presley. Na verdade Elvis, que durante toda a década de 60 ansiara por conseguir ser um actor credível, tinha-se interessado pelo papel de Joe Buck. Felizmente que Schelesinger sabia bem o que desejava para o seu filme e Elvis não teve outro remédio senão desandar para outras paragens. Nesse mesmo ano de 1969 viria a contracenar com Mary Tyler Moore naquela que seria a sua última participação no cinema: “Change of Habit”.

- Para além da canção escolhida de Fred Neil, “Everybody’s Talkin’”, outras canções chegaram a ser equacionadas: “Cowboy”, de Randy Newman, “Lay Lady Lay”, de Bob Dylan e mesmo uma da autoria de Harry Nilsson, “I Guess the Lord Must Be in New York City”, escrita propositadamente para o filme.



- Também Warren Beatty queria desempenhar o papel de Joe Buck, mas Schelesinger achou que o actor era demasiado famoso para poder ser levado a sério no desempenho de um ingénuo gigolo citadino.

- Dustin Hoffman usou pedras nos sapatos para que o coxear da sua personagem fosse convincente em todas as cenas.

- A participação da actriz Sylvia Miles, no papel da prostituta Cass, foi uma das mais curtas a dar origem a uma nomeação para o Óscar de Actriz Secundária – apenas 6 minutos em cena.



- “Midnight Cowboy” obteve 3 óscares da Academia: melhor argumento-adaptado, melhor realização e melhor filme do ano. Teria ainda mais 4 nomeações: Montagem, Actriz Secundárai (Sylvia Miles) e Actores Principais (Jon Voight e Dustin Hoffman). Relativamente ao lado interpretativo foi mais uma das grandes injustiças da Academia. Para além dos actores de “Midnight Cowboy” tinham também sido nomeados mais dois grandes actores: Peter O’Toole (por “Goodbye, Mr. Chips”) e Richard Burton (por “Anne of the Thousand Days”). Contudo, o prémio iria parar às mãos de John Wayne, o mais fraco de todos os candidatos ao Óscar daquele ano (pelo filme “True Grit”).

- Em Inglaterra o filme seria distinguido com um total de 6 BAFTAS: Argumento, Montagem, Realização, Actor (Dustin Hoffman), Revelação mais promissora (Jon Voight) e melhor filme do ano.



A BANDA-SONORA: