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domingo, agosto 31, 2025

NOVECENTO (1976)

1900
Um filme de BERNARDO BERTOLUCCI


Com Robert De Niro, Gérard  Depardieu, Dominique Sanda, Laura Betti, Sterling Hayden, Anna Henkel, Alida Valli, Stefania Sandrelli, Donald Sutherland, Burt Lancaster, etc.


ITÁLIA / 315 min / COR / 
16X9 (1.85:1)


Estreia em ITÁLIA a 16/8/1976
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 12/2/1977 (cinemas São Jorge e Mundial)
 


Alfredo Berlinghieri: «Desejo que o meu siga as leis»
Leo Dalcó: «E eu desejo que o meu seja ladrão»

Com a duração total de cinco horas e vinte minutos, “Novecento” é um fresco empolgante, épico e popular, que ressuscita e reabilita o romanesco, numa tradição que encontra sómente em "Gone With the Wind" um termo de comparação possivel. Simultâneamente crónica de uma família feudal em decadência, e panorâmica histórica, “Novecento” reserva-se já o lugar de clássico absoluto dos anos 70. Todo o filme, que tem por fundo as transformações históricas do século XX, gira à volta de três gerações, correspondentes ao decorrer temporal em dois estratos sociais diferentes e centralizando a acção na terra natal de Bertolucci, o aclamado realizador italiano.

Enquanto concentra a história nos bastidores, Bertolucci descarrega toda a sua nostalgia de encarar a vida na vivência de Olmo e Alfredo, quando eles se abstraem do que os rodeia para se entreolharem nas suas próprias personalidades. Se são a infância e a adolescência os terrenos mais permeáveis ao eclodir dessa nostalgia, será apenas na meia-idade e na velhice que ela atingirá o seu significado maior por entretanto já ser só saudade. Isto é o que Bertolucci nos consegue admiravelmente sugerir ao fazer-nos acompanhar o crescimento de Olmo e Alfredo durante quase meio século.

Politicamente, o filme tem o mérito de não querer enganar ninguém, de não pretender fazer passar gato por lebre. O dualismo surge desde a primeira cena e Bertolucci nem por um momento se contradiz ao longo de toda a odisseia. Descreve os dois trilhos sobre os quais a humanidade assenta: a classe abastada, prepotente e exploradora e a classe pobre, oprimida e explorada. A partir deste enquadramento histórico, um precipício intransponível: nem os de lá passam para cá, nem os de cá passam para lá.

Mas esta caricatura ideológica é também o lado menos conseguido de “Novecento”. Falta-lhe isso a que poderíamos chamar o “charme discreto” do cineasta em surpreender o espectador. Bertolucci decidiu impor em vez de propor. Se isso pode ser lido como sinal de honestidade, também pode ser interpretado como ingenuidade ou falta de senso. Assim, e visto à distância de 50 anos, Novecento” surge-nos agora irremediavelmente datado na mensagem política que encerra. Há muito que as sociedades e os regimes políticos deixaram de ser vistos alternadamente como antros de ódios ou espelhos de virtudes. O “bem” e o “mal” não se compadecem com demarcações básicas e existem em todas as gentes e em todos os cantos do mundo. Certamente que sempre assim foi. Só que no fim da 2ª Guerra Mundial as posições estavam extremadas e era muito fácil e prático estabelecer a divisão entre o mundo dos “bons” e o mundo dos “maus”.

Mas Bertolucci é mesmo um realizador de grande talento e por isso fez deste filme um painel de indiscutível beleza. Lírico e épico, viscontiano, profundo e sensível, é um poema de imagens, rostos e movimentos. Tal como o realizador referiu numa entrevista, existem quatro partes distintas na composição do filme, associadas a tantas outras estações do ano: a infância dos dois protagonistas principais (Verão), o seu re-encontro já na fase adulta (Outono), o pesadelo da tirania fascista (Inverno) e por fim a Libertação, no fim da 2ª Guerra Mundial (Primavera).

Mas se Bertolucci foi o artífice principal, o outro grande autor de “Novecento” é sem dúvida Ennio Morricone, pela música magnífica com que revestiu o celulóide. Inspirada na cultura popular e na recolha do folclore italiano, com uma integração perfeita em todo o desenrolar da história, pode-se concluir que a música de Morricone valoriza extraordinariamente o filme de Bertolucci. Quase nos arriscamos a dizer que na sua montagem sonora, estamos perante um outro filme. E isto porque, apesar de técnica e artisticamente impecável, o filme de Bertolucci, à partida vincadamente panfletário, acaba por inexplicavelmente atingir um resultado prático de sinal contrário.

Com argumento do prório Bernardo Bertolucci, do seu irmão Giuseppe e Franco Arcalli, e uma belissima cinematografia de Vittorio Storaro, o filme brinda-nos ainda com um elenco internacional de grande excelência. Com Depardieu (Olmo) e De Niro (Alfredo), ainda nos princípios das respectivas carreiras, mas a encabeçarem composições de personagens inesquecíveis. Donald Sutherland e Laura Betti (nos pérfidos Attila e Regina), Burt Lancaster e Sterling Hayden (nos decanos Alfredo e Leo Dalco) ou ainda as sensuais Dominique Sanda e Stefania Sandrelli (Ada e Anita).
“Novecento” foi estreado em Itália na “Mostra de Cinema de Veneza”, em Agosto de 1976. Em Lisboa a estreia ocorreu no dia 12 de Fevereiro de 1977, em dois cinemas: São Jorge (1ª parte) e Mundial (2ª parte). Lembro-me de ver as duas partes no mesmo dia - matiné no São Jorge e soirée no Mundial - tal a ânsia de consumir sem demoras aquele grande acontecimento cultural. Nos EUA, e para não fugir à regra, o filme foi alvo de censura e drasticamente reduzido a 4 horas, Mais uma vez os americanos não puderam assistir nas salas de cinema à versão original apresentada na maioria das cidades europeias (ao longo dos anos muitos serão os filmes tornados quase que incomprensíveis para o público americano devido a este tipo de aberrações cometidas pelos produtores ou censores). Apenas em 1993, quando a versão video foi editada, tiveram a possibilidade de ver a totalidade da obra. E sómente no pequeno écran, é claro.

CURIOSIDADES:

- O orçamento inicial do filme – 6 milhões de dolares – foi comparticipado em partes iguais por três produtoras: United Artists, Paramount e 20th Century Fox. No fim da rodagem (um longo período de 14 meses, desde Julho de 1974 a Setembro de 1975) elevou-se a ceca de 10 milhões, o que o tornou o filme mais caro de todo o cinema italiano.

- A pintura que aparece durante o desenrolar dos créditios é “Il Quarto Stato”, de Giuseppe Pellizza da Volpedo.

- Donald Sutherland detestou de tal maneira o seu desempenho como o sádico Attila, que durante anos não conseguiu ver o filme.

- Mais de 12.000 figurantes participaram no filme.

sexta-feira, setembro 27, 2013

ULTIMO TANGO A PARIGI (1972)

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS
Um Filme de BERNARDO BERTOLUCCI

Com Marlon Brando, Maria Schneider, Jean-Pierre Léaud, Massimo Girotti, Catherine Allégret, Maria Michi, etc.

ITÁLIA - FRANÇA / 136 min / COR / 
16X9 (1.75:1)

Estreia nos EUA: 14/10/1972 
(New York Film Festival)
Estreia em ITÁLIA - FRANÇA: 
Roma - Paris, 15/12/1972
Estreia em PORTUGAL: 
Lisboa, cinema S. Jorge, 30/4/1974



Após o genérico, onde dois retratos de Francis Bacon se justapõem ao som do saxofone de Gato Barbieri, a câmara inicia um plongé em direcção a uma ponte do metro de Paris e foca-se num homem de meia idade que leva as mãos à cabeça num grito de desespero: «Fuckin' God...!!!». O comboio passa em cima da ponte, enquanto nos apercebemos de uma silhueta feminina ao longe, em passo acelerado, que ultrapassa o homem, deitando-lhe um breve olhar. A jovem (Maria Schneider) e o homem (Marlon Brando), são perfeitos desconhecidos mas em breve irão encontrar-se por coincidência num apartamento vazio que ambos pretendem alugar. Por razões diametralmente opostas: ele para esquecer o passado recente (o suicídio e adultério da mulher); ela pretendendo transformar o noivado com um aspirante a realizador (Jean-Pierre Léaud) numa relação mais duradoura, onde o casamento será provavelmente o patamar seguinte.


É este o início de "O Último Tango em Paris", um dos filmes que me fez saír de Portugal na primeira semana de Setembro de 1973, rumo a Londres, onde então se podia ver a maior parte dos filmes que se encontravam proibidos em território nacional. Vi-o num domingo à noite, 2 de Setembro, no Prince Charles Cinema, bem no meio da capital inglesa, em Leicester Square. Foi uma espécie de ante-estreia, por causa da Revolução do 25 de Abril, cujos ventos de mudança trariam o filme a Portugal apenas 8 meses depois. A estreia ocorreu em Lisboa, a 30 de Abril de 1974, no cinema São Jorge, e no meio de enormes filas que se alongavam no passeio da Av. da Liberdade. Em Moçambique, onde nessa altura eu me encontrava a viver, a primeira projecção de "O Último Tango em Paris" iluminou o écran do Teatro Manuel Rodrigues de Lourenço Marques um pouco mais tarde, nos princípios de Setembro, mas de igual modo entre grande frenesim, agitando filas que ultrapassavam vários quarteirões. Habituais espectadores ou não, toda a gente queria ver aquele filme. Até houve lugar para uma divertida caricatura que reproduzo de seguida.


Na verdade, naqueles princípios da década de setenta, poucos filmes causaram tanto impacto no mundo do cinema (talvez apenas "A Laranja Mecânica" se lhe pudesse comparar) como este "Último Tango em Paris". Banido um pouco por todo o lado, as razões para as proibições sucessivas teriam provavelmente menos a ver com as cenas de sexo (que nunca são explícitas ou muito menos "pornográficas", conforme muitos zeladores da moral pública quiseram fazer crer) e mais com o carácter niilista do protagonista principal (Brando) nas suas atitudes anti-sociais e anti-religiosas. Curiosamente, na tradicionalmente púdica sociedade americana, o filme foi muito bem acolhido, a ponto da respeitada crítica Pauline Kael ter escrito: «Bertolucci and Brando have altered the face of an art form. Who was prepared for that?»

Passados 40 anos, o que prevalece em "Último Tango Em Paris" é de facto a arte suprema de fazer cinema. Esquecidos os estigmas anedóticos que na altura lhe quiseram imputar (como o rabo do Brando ou a muita falada "cena da manteiga"), aquilo que o filme nos lega é toda uma atmosfera única, íntima e envolvente, criada pela mestria de todos os artistas que participaram no projecto: Bertolucci, com certeza, na sua dupla função de argumentista e realizador, mas também Vittorio Storaro, com o seu estilo visual único, Gato Barbieri na sua decisiva contribuição musical ou os editores Franco Arcalli e Roberto Perpignani, autores da magnífica montagem do filme. E, claro, os actores, com grande destaque para Marlon Brando, que depois de desempenhar, no mesmo ano, o papel de Don Vitor Corleone no "Padrinho", nos brindava de novo com esta fabulosa interpretação - era o melhor actor do mundo no seu melhor ano de sempre!


Como se começou por referir, dois quadros de Francis Bacon abrem o filme. São imagens de carne ensanguentada, de olhos desorbitados, de músculos contorcidos, que anunciam desde logo o tom geral, um misto de solidão e desespero existenciais. A utilização dessas pinturas não é inocente ou arbitrária - Bertolucci inspirou-se nelas para reproduzir no seu filme as cores e as técnicas do artista e assim definir a relação dessacralizada entre Brando e Schneider. Os protagonistas entregam-se a um jogo erótico onde tudo é permitido, porque só interessam os momentos partilhados no isolamento daquele apartamento. Tudo o que fica para lá da porta de entrada não interessa, o passado de cada um deles não interessa, o futuro também não. «No names», é a regra de ouro imposta por Paul.


Relutante ao princípio, Jeanne acaba por aceitar as exigências de Paul, por sentir naquela relação anónima, sem compromissos, a excitação da descoberta de novos prazeres. Entrega-se alegremente, sem restrições ou pudor, porque se sente protegida pelo anonimato. Coisa que não acontece na sua relação normalizada com o noivo, onde a chatice e a ausência de prazer são notas dominantes. Mas um ponto de viragem irá ocorrer na nova relação: Paul liberta-se de toda a sua raiva interior junto ao leito de morte da mulher (magnífico monólogo de Brando) e sente-se como renascido, pronto a iniciar uma nova relação com a rapariga do apartamento. É a esperança que volta - a mudança radical de visual e indumentária indica-o - e corre para junto de Jeanne. O décor é o mesmo do início do filme (a ponte da estação de metro) mas os personagens são já muito diferentes.


Perante a hipótese de um futuro (que até aí nunca surgira naquela relação), Jeanne sente-se traída. O que anteriormente se tinha revelado aventura inconsequente, passará a ser intromissão. Os sentimentos impõem-se, o mistério quebra-se, o jogo chega ao fim. Agora Jeanne já só quer libertar-se daquele homem incómodo para reassumir a sua verdadeira condição pequeno-burguesa. E por isso lhe foge, indo refugiar-se na casa paterna. A insistência de Paul, que a segue até aí, só irá agravar ainda mais a insegurança de Jeanne face à escolha que lhe é exigida. O medo invade-a, a desorientação começa a tomar proporções alarmantes. E o ponto crucial, de não retorno, chega quando Paul confessa que a ama e que quer saber o nome dela. «Jeanne», responde, ao mesmo tempo que dispara a pistola retirada momentos antes de uma gaveta.
.

«Our children... our children will remember», balbucia Paul enquanto se dirige para a varanda (close-up magnífico do rosto de Brando), onde acaba por sucumbir. A câmara regressa lentamente a Jeanne, que ensaia já uma auto-justificação para o crime:

«Je sais pas qui c'est...»
«Il m'a suivie dans la rue...»
«Il a essayé de me violer...»
«C'est un fou...»
«Je sais pas comment il s'appelle...»
«Je connais pas son nom...»
«Je sais pas qui c'est...»
«Il a voulu me violer...»
«Je sais pas...»
«Je le connais pas...»
«Je sais pas qui c'est...»
«C'est un fou...»
«Je connais pas son nom...»




CURIOSIDADES:

- A ideia central para o filme teve origem nas fantasias sexuais de Bertolucci, que um dia sonhou encontrar na rua uma mulher muito sensual e ter tido sexo com ela, sem saber de quem se tratava.

- De acordo com Maria Schneider, a famosa “cena da manteiga” não estava no argumento, tendo sido decidida durante as filmagens por Brando e por Bertolucci, sem sequer a consultarem. Apesar de, como é óbvio, o acto de sodomia ter sido fingido, as lágrimas dela no filme são verdadeiras, por se sentir humilhada daquela maneira. Só pouco antes da sua morte, em 3 de Fevereiro de 2011, é que voltou a falar com Bertolucci.

- Depois da estreia do filme em Itália, o tribunal de Bolonha intimou Bertolucci, Brando, Schneider e o produtor Alberto Grimaldi, sob a acusação de terem feito um filme “pornográfico”. Apesar de todos terem sido ilibados, Bertolucci perdeu os seus direitos civis (incluindo o “direito de votar”) durante 5 anos.


- Na sua auto-biografia, “Songs My Mother Taught Me”, Brando confessa a razão porque recusou fazer uma cena de nu frontal: «o meu pénis ficava do tamanho de um amendoim no set de filmagens»

- Jean-Pierre Léaud tinha um tal respeito por Brando que tudo fez para não se encontrar nunca com ele. Por causa disso, todas as sequências em que entra foram filmadas aos sábados, dia da semana em que Brando recusava trabalhar.

- Jean-Louis Trintignant e Dominique Sanda chegaram a ser equacionados para interpretarem os personagens principais. Por outro lado, Jean-Paul Belmondo e Alain Delon recusaram o papel de Paul

- O filme teve duas nomeações para os Óscares, nas categorias de Realizador (Bernardo Bertolucci) e Actor Principal (Marlon Brando).

LOBBY CARDS:


PORTFOLIO - "ULTIMO TANGO A PARIGI" / "O ÚLTIMO TANGO EM PARIS" (1972)