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quinta-feira, dezembro 19, 2013
quarta-feira, dezembro 18, 2013
HOW TO STEAL A MILLION (1966)
COMO ROUBAR UM MILHÃO
Um filme de WILLIAM WYLER
Com Audrey Hepburn, Peter O'Toole, Hugh Griffith, Eli Wallach, Charles Boyer, Fernand Gravey, Marcel Dalio, Jacques Marin, Moustache, etc.
EUA / 123 min / COR / 16X9 (2.35:1)
Estreia nos EUA a 13/7/1966
(Los Angeles)
Estreia na GB a 19/8/1966
Simon Dermott: «Why must it be this particular
work of art?»
Nicole Bonnet: «You don't think I'd steal something that
Nicole Bonnet: «You don't think I'd steal something that
didn't belong to me, do you?»
Simon Dermott: «Excuse me, I spoke without thinking»
Simon Dermott: «Excuse me, I spoke without thinking»
Do
mesmo ano de “Gambit” (mas estreado
cinco meses antes), esta deliciosa comédia de William Wyler desenrola-se em terrenos muito próximos, conseguindo
no entanto superiorizar-se ao filme de Ronald Neame. A dupla de actores (Audrey Hepburn e Peter O’Toole) funciona de igual modo às mil maravilhas, denotando
também uma química muito particular entre os dois, mas a excelência dos
diálogos e a qualidade da realização é do melhor que a década de sessenta
produziu nesta área muito particular da comédia romântica. Hepburn justifica aqui toda a sua elegância e charme (num filme
bastante superior ao tão sobrevalorizado “Breakfast
at Tiffany’s" [Blake Edwards, 1961]) e O’Toole
deixa bem claro que era nestes anos um actor prodigioso, qualquer que fosse o
género de filme em que participasse.
Mas
passemos à história: Charles Bonnet (Hugh
Griffith, a quem este mesmo Wyler
deu um papel inesquecível em “Ben-Hur”,
o Sheik Ilderim) é o herdeiro de uma linhagem de falsificadores de obras de
arte que ganha a vida em leilões e exposições, apesar das constantes objecções
da filha, Nicole (Audrey Hepburn): «I keep telling you, Papa, when you sell a fake masterpiece, that is a crime!», ao que o pai responde: «But I don't sell them to poor people, only to millionaires». Um dos seus “tesouros” mais
importantes, a Venus de Cellini, que fora esculpida pelo pai tendo como modelo a
avó de Nicole, é o centro de atenções numa grande exposição de um dos maiores
museus de Paris. A peça irá ser protegida por um avultado seguro contra todos
os riscos, no valor de 1 milhão de dólares. Mas para que tal se concretize é
mandado vir um perito para verificar a autenticidade da peça.
Como
seria previsível, o pânico instala-se nos Bonnet mas a filha tem a brilhante
ideia de roubar a estatueta do Museu antes da chegada do investigador de arte.
Para isso irá contar com a preciosa ajuda de Simon Dermott (Peter O’Toole), um elegante ladrão que
ela própria tinha surpreendido dentro de casa a tentar roubar um quadro (- «For a burglar you're not very brave, are you?» / - «I'm a society burglar. I don't expect people to rush about shooting me») e com o qual vem a estabelecer uma curiosa
relação (- «You're mad. Utterly mad. I suppose you want to kiss me goodnight?» / - «Oh, I don't usually, not on the first acquaintance. But you've been such a good sport...»). Nem tudo corresponde à
verdade, como se virá a descobrir mais tarde, mas os dados estão lançados para
a concretização de uma das melhores, e mais bem escritas comédias românticas dos
anos 60.
“How
To Steal A Million”
foi o antepenúltimo filme de William
Wyler (antes de “Funny Girl” em
1968 e “The Liberation of L.B. Jones”,
em 1970) e o segundo em que dirigiu Audrey
Hepburn (depois de “Roman Holiday”,
em 1953). Tendo conseguido reunir um lote de bons actores, para além dos
principais protagonistas – o já citado Hugh
Griffith, Eli Wallach, ou até Charles Boyer num pequeno papel, não
esquecendo Moustache (o guarda do
Museu que tem sempre a garrafa de vinho à mão e que parece saído de um dos
álbuns das aventuras de Tintin), Wyler
teve nesses contributos um valioso aliado que lhe permitiu, sem grandes
invenções, realizar um filme do agrado de várias gerações, uma vez que
“How To Steal A Million” soube atravessar graciosamente a sempre difícil barreira do
tempo.
CURIOSIDADES:
- O
actor George C. Scott, que tinha sido contratado para o papel de Leland foi
despedido logo no primeiro dia de filmagens por ter chegado atrasado ao set e
substituído por Eli Wallach.
- O
carro de Nicole é um Autobianchi Bianchina Special Cabriolet (conhecido no
mercado por Fiat “Sport” 500) e o de Simon é um Jaguar Type-E.
- O
livro que Nicole lê na cama – “Hitchcock Magazine: La Revue du Suspense” – é a
versão francesa da “Alfred Hitchcock Mystery Magazine”, que foi publicada pela
primeira vez em 1956
-
Como piada ao conhecido costureiro Hubert de Givenchy – que fez alguns dos
vestidos mais conhecidos de Hepburn
– Simon diz a seguinte frase depois de a obrigar a vestir-se como uma criada de
limpezas (uma das cenas mais divertidas do filme): «That does it. For one
thing, it gives Givenchy a night off»
quarta-feira, novembro 13, 2013
MY FAIR LADY (1964)
MINHA
LINDA LADY
Um Filme de GEORGE CUKOR
Com Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway, Wilfried Hide-White, Gladys Cooper, Jeremy Brett, Theodore Bikel, etc.
Estreia em PORTUGAL a
4/12/1964
(Lisboa, cinema Monumental)
Cukor nunca gostou nada disso. Mais tarde, disse: «Nunca gostei de Beaton. Para mim, é a única nota destoante no filme. Particularmente, acho errado o fato que Audrey Hepburn usa na sequência do 'The Rain in Spain' que devia ser apenas clean mas não 'chic', qualquer coisa que Mrs Pearce tivesse arranjado na loja da esquina, o que acentuaria o lado cómico da situação. E detesto o fato que ele lhe fez para as corridas. Devia ser um fato que a esmagasse, em que ela não se sentisse à vontade, e não aquele vestido a sublinhar-lhe um elegância que ainda não devia existir. Beaton, com aquele vestido, estragou a progressão dramática da cena e fez-lhe perder, outra vez, o lado cómico. Não é verosímil que alguém, tão à vontade naquele vestido, diga depois (para o cavalo) 'Mexe-me esse cu' (o célebre 'move your blooming ass')».
Se sublinho este aspecto, é porque, nas reticências postas por alguns dos mais fervorosos cukorianos a este filme, se tem acentuado muito o lado decorativo do filme, em que, dizem, o excesso de bonito prejudica o belo. Se isso aconteceu uma ou outra vez (e a sequência de Ascot é um exemplo) vem de Beaton e não de Cukor. Mas, pessoalmente, em nada diminui o meu entusiasmo por esta obra admirável, até porque (compreendendo, embora, as razões de Cukor) acentua no filme o lado teatral, que, desde o genérico, está presente, com o leit-motiv das flores.
O que sempre foi mais específico no universo cinematográfico de Cukor foi a transposição (genial) da ilusão teatral na ilusão cinematográfica. Estamos sempre no lugar da ilusão, na floresta de enganos. Ora, em "My Fair Lady" (resumidamente, variaçâo sobre o tema da gata borralheira) essa dimensão é fundamental. É porque tudo no cinema é mágico que é possível transformar Audrey Hepburn (que Cukor dirige inultrapassavelmente) de florista da praça em fair lady. E sobre todas as outras imagens, a que prevalece é mesmo, pela varinha de condão do realizador, a da fair lady, naquele plano sublime que nos dá a vê-la a subir a escada, no baile da Embaixada (e aí seja prestada a devida vénia ao fato desenhado por Beaton).
Todo este filme é mágico, desde as flores do genérico ou do décor da praça às sequências-chave da entrada de Audrey Hepburn em casa de Higgins, do ‘The Rain in Spain’, da festa, ou do regresso do baile. Mas para quê distinguir? Tudo neste filme me parece perfeito. Vi-o não sei quantas vezes, nestes 35 anos, e de cada vez só me apetece repetir, dirigido a Cukor, o prodigioso "Bravo Eliza" de Gladys Cooper, no final. E a ambiguidade da peça é restituída no fabuloso final, com Rex Harrison a berrar «Where the devil are my slippers?». Quem perdeu o sapatinho em "My Fair Lady"? Cinderella ou Pigmalião?
- James Cagney foi a primeira escolha para o papel de Alfred Doolittle. Quando o actor desisitiu, no último minuto, foi prontamente substituído por Stanley Holloway, que já o tinha interpretado na versão teatral da Broadway. Para o papel do Professor Higgins, o leque de escolhas foi mais variado: Peter O’Toole, Cary Grant, Noel Coward, Rock Hudson, Michael Redgrave e George Sanders.
Um Filme de GEORGE CUKOR
Com Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway, Wilfried Hide-White, Gladys Cooper, Jeremy Brett, Theodore Bikel, etc.
EUA / 170 min
/ COR / 16X9 (2.20:1)
Estreia nos EUA a 21/10/1964 (New York)
(Lisboa, cinema Monumental)
A
magia que se desprende deste filme é algo inexplicável, que tem de ser
experimentado para nos podermos dar conta de toda a sua envolvência. A minha
relação pessoal com “My Fair Lady” começou muito cedo, julgo até
que foi o meu primeiro contacto com um espectáculo em cima de um palco. Teria
os meus sete, oito anos, quando na viragem da década de 50 para a de 60, os
meus pais me levaram a ver a versão teatral da peça num qualquer teatro da
cidade de Johannesburg. Evidentemente que na altura não consegui apreender o
significado do enredo, mas a experiência vivida foi deveras gratificante. Não
faço a mínima ideia de que companhia se tratava, se era sul-africana se era
estrangeira, mas aquelas músicas, aqueles cenários, todo aquele movimento
cénico me despertou para algo até então desconhecido.

Cinco ou seis anos depois veio o filme, que se estreou na magnífica sala do teatro Manuel Rodrigues, em Lourenço Marques (no glorioso formato dos 70 m/m), pouco antes de “The Sound of Music”. Estes dois filmes, a par de “West Side Story”, foram os meus primeiros musicais, que mais tarde me levariam a descobrir os clássicos dos anos 30, 40 e 50. Foi também a primeira vez que vi a belíssima Audrey Hepburn num écran de cinema. E que estreia, logo no papel que a iria imortalizar (a grande maioria dos cinéfilos prefere-a como Holy Golightly em “Breakfast at Tiffany’s”, de 1961, mas para mim a sua coroa de glória será sempre esta Eliza Doolitle, a vendedora de flores resgatada da miséria por causa de uma simples aposta entre dois dignos cavalheiros da classe burguesa). Não me vou alongar mais no comentário, até porque subscrevo na totalidade aquilo que o saudoso director da Cinemateca, João Bénard da Costa, escreveu em 1999 sobre “My Fair Lady”, e que passo a transcrever. Os parágrafos que se seguem são bem eloquentes e mais do que suficientes para apresentar o filme aos que porventura ainda não tiveram a oportunidade (e a felicidade) de a ele assistir.
Cinco ou seis anos depois veio o filme, que se estreou na magnífica sala do teatro Manuel Rodrigues, em Lourenço Marques (no glorioso formato dos 70 m/m), pouco antes de “The Sound of Music”. Estes dois filmes, a par de “West Side Story”, foram os meus primeiros musicais, que mais tarde me levariam a descobrir os clássicos dos anos 30, 40 e 50. Foi também a primeira vez que vi a belíssima Audrey Hepburn num écran de cinema. E que estreia, logo no papel que a iria imortalizar (a grande maioria dos cinéfilos prefere-a como Holy Golightly em “Breakfast at Tiffany’s”, de 1961, mas para mim a sua coroa de glória será sempre esta Eliza Doolitle, a vendedora de flores resgatada da miséria por causa de uma simples aposta entre dois dignos cavalheiros da classe burguesa). Não me vou alongar mais no comentário, até porque subscrevo na totalidade aquilo que o saudoso director da Cinemateca, João Bénard da Costa, escreveu em 1999 sobre “My Fair Lady”, e que passo a transcrever. Os parágrafos que se seguem são bem eloquentes e mais do que suficientes para apresentar o filme aos que porventura ainda não tiveram a oportunidade (e a felicidade) de a ele assistir.
George
Bernard Shaw (1856-1950) estreou a peça Pygmalion ("a
romance in five acts", como
a subintitulou) em 1914, a poucos meses do início da primeira guerra mundial. A ideia
básica (de que a primeira canção do filme - "Why Can't the English Learn to Speak?" logo se faz
eco) era, dentro do humor característico de Shaw, a de que «it is
impossible for an Englishman to open his mouth without making some other
Englishman despise him». Correlativa
a essa, outra ideia-base característica da fase socialista de Shaw e da sua
ligação ao movimento fabiano: a de que as diferenças fonéticas eram uma base
fundamental da divisão de classes e era voluntariamente mantida e sustentada
pela classe dominante "que não ensinara os ingleses a falar". Ensinado,
qualquer homem ou mulher do povo podia passar por um lord ou por uma lady. E Shaw cita em apoio dessa
metamorfose o caso do teatro: qualquer filha dum porteiro pode, "se adquirir uma nova língua",
fazer de Rainha de Espanha no teatro.
Expresso no título, havia ainda o velho mito pigmaleónico: a paixão do criador
pelo objecto da sua criação, com a revolta de Eliza Doolittle em ser,
precisamente, tratada como um objecto, ou como a estátua do mito grego.
A peça foi um êxito monstro, com múltiplas reposições a seguir à guerra e nos anos 20 e 30. Em 1938, o próprio Shaw colaborou estreitamente na primeira versão cinematográfica da peça, co-realizada por Anthony Asquith e Leslie Howard, com este último no papel de Higgins e Wendy Hiller como Eliza Doolittle. O filme (que nada tinha que ver com um musical), foi, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, êxito tão grande quanto a peça o fora nas vésperas da primeira. Para as comemorações do centenário do nascimento de Shaw (1956), Alan lay Larner e Frederick Loewe (autores de peças musicais tão conhecidas como Brigadoon, Paint Your Wagon ou Camelot - todas transpostas, depois, para o cinema) receberam a encomenda de transformar Pygmalion num musical anunciado com o título “Lady Liza”, depois convertido em “My Fair Lady” (da letra de uma canção de embalar: "London Bridge is Falling Down / My Fair Lady").
A peça foi um êxito monstro, com múltiplas reposições a seguir à guerra e nos anos 20 e 30. Em 1938, o próprio Shaw colaborou estreitamente na primeira versão cinematográfica da peça, co-realizada por Anthony Asquith e Leslie Howard, com este último no papel de Higgins e Wendy Hiller como Eliza Doolittle. O filme (que nada tinha que ver com um musical), foi, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, êxito tão grande quanto a peça o fora nas vésperas da primeira. Para as comemorações do centenário do nascimento de Shaw (1956), Alan lay Larner e Frederick Loewe (autores de peças musicais tão conhecidas como Brigadoon, Paint Your Wagon ou Camelot - todas transpostas, depois, para o cinema) receberam a encomenda de transformar Pygmalion num musical anunciado com o título “Lady Liza”, depois convertido em “My Fair Lady” (da letra de uma canção de embalar: "London Bridge is Falling Down / My Fair Lady").
Rex Harrison e Stanley Holloway criaram os personagens de
Higgins e Alfred Doolittle, enquanto Eliza marcou a apoteótica consagração da então
descoberta Julie Andrews. A peça estreou-se em Londres em Março de 1956, numa
produção de Oliver Smith e o acolhimento do público ultrapassou todas as
expectativas, tanto aí, como, depois, na Broadway. Só em Nova Iorque, a peça
teve 2717 representações, mantendo-se cerca de seis anos em cena. Em 1961, a
Warner comprou os direitos para a adaptação cinematográfica, em que se começou
a trabalhar logo que a peça saiu dos palcos. Harrison e Holloway foram imediatamente
contratados para repetir as sua famosas criações, mas Jack L. Warner recusou-se
(numa opção muito polémica e muito criticada) a manter Julie Andrews,
temendo-se duma imagem que o cinema ainda não divulgara. Em vez dela, escolheu Audrey Hepburn,
à época no auge da sua carreira.
O que mais se lhe censurou foi que Audrey Hepburn, ao contrário dos outros actores, não sabia cantar e teve que ser dobrada por Marni Nixon. Disse-se que esta afectou as árias, dando-lhes um estilo à Jeanette MacDonald. Gary Carey escreveria que «a música de Frederick Loewe não é tão sacrossanta que precise desta espécie de tratamento sagrado, de opereta. Se Harrison consegue cantar as suas canções em recitativos americanizados, não há nenhuma razão para que Hepburn não cantasse as dela na sua própria, humana e vulnerável voz» (Marni Nixon era uma cantora bastante conhecida e já tinha dobrado, antes, Deborah Kerr em "The King And I" e Natalie Wood em "West Side Story").
O que mais se lhe censurou foi que Audrey Hepburn, ao contrário dos outros actores, não sabia cantar e teve que ser dobrada por Marni Nixon. Disse-se que esta afectou as árias, dando-lhes um estilo à Jeanette MacDonald. Gary Carey escreveria que «a música de Frederick Loewe não é tão sacrossanta que precise desta espécie de tratamento sagrado, de opereta. Se Harrison consegue cantar as suas canções em recitativos americanizados, não há nenhuma razão para que Hepburn não cantasse as dela na sua própria, humana e vulnerável voz» (Marni Nixon era uma cantora bastante conhecida e já tinha dobrado, antes, Deborah Kerr em "The King And I" e Natalie Wood em "West Side Story").
Nomeado
para 14 Oscars, "My
Fair Lady" ganhou seis: melhor filme, melhor realização, melhor
actor (Rex Harrison), melhor fotografia (Stradling),
melhor som e melhor guarda-roupa (Cecil Beaton). Curiosamente, dos actores
principais, foram nomeados, além de Harrison (premiado), Stanley Holloway e Gladys Cooper,
mas não os que hoje nos parecem mais notáveis: Audrey Hepburn e Wilfrid
Hyde-White, o
assombroso Coronel Pickering. E o Oscar feminino desse ano foi para a actriz
preterida, Julie Andrews, por causa de “Mary Poppins”... George Cukor, chamado a realizar
o filme quando todas as questões de cast já
estavam resolvidas (só teve que arbitrar uma hipótese deixada em aberto de
confiar o papel de Higgins a Cary Grant que rejeitou porque «Cary's English was not
impeccable enough for him to play a speech expert») foi o obreiro fundamental da transformação duma glorious musical play num glorious musical film. E, finalmente, o
cineasta, dos maiores que Hollywood alguma vez teve, obteve o Oscar para que já
tinha sido designado antes, quatro vezes, sem sucesso: em "Little Women"
(33), "The Philadelphia Story" (40), "A Double Life” (47) e "Born
Yesterday" (50).

Das muitas peripécias que rodearam as filmagens, só valerá a pena reter as que persistentemente o opuseram a Cecil Beaton (Sir Cecil Beaton, se dobrar a língua, como convém) no que diz respeito à production design e ao guarda-roupa. Beaton (celebérrimo nome, como fotógrafo e decorador) já havia assinado a peça e o esplendor dos seus fatos e concepção (no palco) tinham contribuído poderosamente para o êxito da peça. Defendera uma visão eduardiana (reinado de Eduardo VII), com um toque das encenações wagnerianas (na peça, Higgins e o Coronel encontravam Eliza à saída de uma representação de Wagner), sustentando teoricamente a opção pelo facto de Bernard Shaw ter sido dos primeiros críticos ingleses a defender apaixonadamente Wagner.
Das muitas peripécias que rodearam as filmagens, só valerá a pena reter as que persistentemente o opuseram a Cecil Beaton (Sir Cecil Beaton, se dobrar a língua, como convém) no que diz respeito à production design e ao guarda-roupa. Beaton (celebérrimo nome, como fotógrafo e decorador) já havia assinado a peça e o esplendor dos seus fatos e concepção (no palco) tinham contribuído poderosamente para o êxito da peça. Defendera uma visão eduardiana (reinado de Eduardo VII), com um toque das encenações wagnerianas (na peça, Higgins e o Coronel encontravam Eliza à saída de uma representação de Wagner), sustentando teoricamente a opção pelo facto de Bernard Shaw ter sido dos primeiros críticos ingleses a defender apaixonadamente Wagner.
Cukor nunca gostou nada disso. Mais tarde, disse: «Nunca gostei de Beaton. Para mim, é a única nota destoante no filme. Particularmente, acho errado o fato que Audrey Hepburn usa na sequência do 'The Rain in Spain' que devia ser apenas clean mas não 'chic', qualquer coisa que Mrs Pearce tivesse arranjado na loja da esquina, o que acentuaria o lado cómico da situação. E detesto o fato que ele lhe fez para as corridas. Devia ser um fato que a esmagasse, em que ela não se sentisse à vontade, e não aquele vestido a sublinhar-lhe um elegância que ainda não devia existir. Beaton, com aquele vestido, estragou a progressão dramática da cena e fez-lhe perder, outra vez, o lado cómico. Não é verosímil que alguém, tão à vontade naquele vestido, diga depois (para o cavalo) 'Mexe-me esse cu' (o célebre 'move your blooming ass')».
Se sublinho este aspecto, é porque, nas reticências postas por alguns dos mais fervorosos cukorianos a este filme, se tem acentuado muito o lado decorativo do filme, em que, dizem, o excesso de bonito prejudica o belo. Se isso aconteceu uma ou outra vez (e a sequência de Ascot é um exemplo) vem de Beaton e não de Cukor. Mas, pessoalmente, em nada diminui o meu entusiasmo por esta obra admirável, até porque (compreendendo, embora, as razões de Cukor) acentua no filme o lado teatral, que, desde o genérico, está presente, com o leit-motiv das flores.
O que sempre foi mais específico no universo cinematográfico de Cukor foi a transposição (genial) da ilusão teatral na ilusão cinematográfica. Estamos sempre no lugar da ilusão, na floresta de enganos. Ora, em "My Fair Lady" (resumidamente, variaçâo sobre o tema da gata borralheira) essa dimensão é fundamental. É porque tudo no cinema é mágico que é possível transformar Audrey Hepburn (que Cukor dirige inultrapassavelmente) de florista da praça em fair lady. E sobre todas as outras imagens, a que prevalece é mesmo, pela varinha de condão do realizador, a da fair lady, naquele plano sublime que nos dá a vê-la a subir a escada, no baile da Embaixada (e aí seja prestada a devida vénia ao fato desenhado por Beaton).
Todo este filme é mágico, desde as flores do genérico ou do décor da praça às sequências-chave da entrada de Audrey Hepburn em casa de Higgins, do ‘The Rain in Spain’, da festa, ou do regresso do baile. Mas para quê distinguir? Tudo neste filme me parece perfeito. Vi-o não sei quantas vezes, nestes 35 anos, e de cada vez só me apetece repetir, dirigido a Cukor, o prodigioso "Bravo Eliza" de Gladys Cooper, no final. E a ambiguidade da peça é restituída no fabuloso final, com Rex Harrison a berrar «Where the devil are my slippers?». Quem perdeu o sapatinho em "My Fair Lady"? Cinderella ou Pigmalião?
CURIOSIDADES:
- James Cagney foi a primeira escolha para o papel de Alfred Doolittle. Quando o actor desisitiu, no último minuto, foi prontamente substituído por Stanley Holloway, que já o tinha interpretado na versão teatral da Broadway. Para o papel do Professor Higgins, o leque de escolhas foi mais variado: Peter O’Toole, Cary Grant, Noel Coward, Rock Hudson, Michael Redgrave e George Sanders.
- Jack L. Warner pagou
a exorbitante quantia de 5,5 milhões pelos direitos de autor. Um recorde para a
época, que só seria ultrapassado em 1978, quando a Columbia pagou a quantia de
9,5 milhões pelos direitos de “Annie”.
- Quando Audrey Hepburn foi informada que a sua
voz não tinha a firmeza suficiente e que iria por isso ser dobrada, a actriz
pura e simplesmente foi-se embora. No dia seguinte – num típico e gracioso
gesto dela – Audrey desculpou-se
perante todos pelo seu «wicked behavior».
- De acordo com
Alexander Walker, um dos biógrafos de Rex
Harrison, a canção ‘I’ve grown accustomed to her face” tinha um significado
especial para o actor, que duração a representação na Broadway a tinha dedicado
à sua terceira mulher, Kay Kendall, entretanto falecida.
- Logo após a
conclusão da filmagem do número musical “Wouldn’t it be loverly?”, no Covent
Garden, em 22 de Novembro de 1963, Audrey
Hepburn anunciaria à equipa técnica o assassinato do Presidente John F.
Kennedy, ocorrido minutos antes, em Dallas.
- Os produtores queriam
que fosse Vincente Minnelli a dirigir o filme. Mas dado o seu elevado cachet, a escolha recaíu depois em George Cukor.
- Rex Harrison ficou muito desapontado quando Audrey Hepburn foi escolhida para interpreter Eliza (a sua preferência recaía em Julie Andrews, com quem tinha contracenado na versão teatral). Chegou a referir numa entrevista da época: «Eliza Doolittle is supposed to be ill at ease in European ballrooms. Bloody Audrey has never spent a day in her life out of European ballrooms.» Anos mais tarde, pediram-lhe para escolher a sua actriz favorita, com quem tinha contracenado na sua carreira. Sem hesitação respondeu: «Audrey Hepburn em “My Fair Lady”».
- Rex Harrison ficou muito desapontado quando Audrey Hepburn foi escolhida para interpreter Eliza (a sua preferência recaía em Julie Andrews, com quem tinha contracenado na versão teatral). Chegou a referir numa entrevista da época: «Eliza Doolittle is supposed to be ill at ease in European ballrooms. Bloody Audrey has never spent a day in her life out of European ballrooms.» Anos mais tarde, pediram-lhe para escolher a sua actriz favorita, com quem tinha contracenado na sua carreira. Sem hesitação respondeu: «Audrey Hepburn em “My Fair Lady”».
- Para a restauração do filme,
feita em 1994, Robert A. Harris e James C. Katz socorreram-se de diversos
métodos para lhe restituir as características originais. Os créditos de
abertura foram recriados digitalmente, usando bocados de frames ainda existentes e o negativo de 65 m/m foi também scanarizado a partir do formato original
do Vistavision (e posteriormente alargado). Relativamente ao som, foi de novo
usada a fita magnética de seis bandas magnéticas, usada para a versão do filme em 70 m/m,
mas agora adaptada às novas tecnologias: Dolby Digital e DTS 5.1. A restauração
levou 6 meses a ser concluída e custou cerca de 600 mil dólares.
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