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quinta-feira, dezembro 09, 2010

SOLYARIS (1972)

SOLARIS
Um filme de ANDREI TARKOVSKY




Com Natalya Bondarchuk, Donatas Banionis


U.R.S.S. / 190 min (versão original); 169 min / COR / 16X9 (2.35:1)


Estreia na U.R.S.S. a 20/3/1972
Estreia em França em Maio de 1972 
(Festival de Cannes)
Estreia em Portugal a 7/5/1976 
(Lisboa, cinema Caleidoscópio)


Hari: «Did you ever think of me?»
Kris Kelvin: «Only when I was sad»

Não restará hoje dúvidas para ninguém, que aquando da estreia de “2001: Odisseia no Espaço” em 1968, se assistia à mais ousada e completa descrição do mundo da ficção científica no cinema. A visão tecnológica e o belo cenário do povoamento do espaço por sumptuosas aeronaves que esmagam o tempo e o homem, deverão ter levado o realizador soviético Andrei Tarkovsky a tentar responder a Kubrick (e por extensão aos EUA) com uma outra visão do futuro, mais humana e com um pendor quase religioso. Tarkovsky sempre afirmou só ter visto “2001” alguns anos depois de ter concluído “Solyaris”. Mas tal foi desmentido pelo director de fotografia, Vadim Ioussov, segundo o qual ambos tinham assistido ao filme de Kubrick num dos Festivais de Cinema de Moscovo, tendo na altura ficado muito bem impressionados. Anos mais tarde, numa entrevista, Tarkovsky contrariaria tal opinião, afirmando considerar "2001" um filme estéril.
Assim, se por um lado “2001” é profundamente mais tecnológico, mais sumptuoso, e com um argumento repartido por várias etapas, “Solyaris” confronta o homem nas suas inquietações perante um cenário futurista que não consegue decifrar. Construído num único e (muito) lento percurso, o filme de Tarkovsky evoca a história do planeta Solyaris, rodeado por um oceano de plasma vivo, o qual actua de forma inquietante e misteriosa nos habitantes desse planeta. A fantasia descrita num romance do escritor polaco Stanislas Lem foi o ponto de partida utilizado pelo cineasta soviético para nos transmitir uma visão mais psicológica e pessimista do futuro em oposição ao carácter mais filosófico e animador do filme de Kubrick.
Em “Solyaris”, o cientista Kris Kelvin (Donatas Banionis) voa até Solyaris para descobrir o mistério que envolve o planeta, mas acaba ele próprio por se envolver nesse mistério. O oceano intervém no sub-consciente dos habitantes, tendo o poder de materializar as suas recordações. Kelvin reencontra em carne e osso a sua ex-mulher, Hari (Natalya Bondarchuk), que se tinha suicidado algum tempo antes. Numa primeira e lógica reacção tenta livrar-se daquela aparição que o perturba, mas acaba por aceitá-la, imaginando-a real, mesmo tendo consciência de que tudo aquilo não passa de uma ilusão provocada pelo mar de Solyaris.
A preocupação de Tarkovski é assim a constante renovação do homem feita através de uma digressão pelo seu próprio mundo, que tem o seu fecho em círculo, com o regresso ao lugar onde o filme se iniciou. Todo o pessimismo que “Solyaris” contém é ainda mais acentuado por um ritmo exageradamente lento, quase insuportável, acabando por criar um pesado ambiente em redor dos personagens. Fornecendo apenas pistas, não dando nunca explicações, “Solyaris” é, em última análise, um desafio ao espectador, à sua imaginação criativa, que o levará (ou não)  a arquitectar os segredos que se estendem por detrás do planeta misterioso.
Devido a toda a uma série de pressões impostas pelas autoridades soviéticas (chegou-se a criar uma comissão de censura só para fiscalizar o filme), Tarkovsky demarcar-se-ia no futuro sobre a sua completa responsabilidade no projecto: «”Solyaris” é dos meus filmes aquele de que menos gosto por não ter conseguido eliminar todas as suas relações com a ficção-científica. Stanislas Lem, depois de ler o argumento, apercebeu-se da minha tentativa de retirar da história todas as alusões ao género e não gostou nada. Inclusivé, ameaçou suspender a sua autorização como autor do romance original, de modo a que ele não pudesse ser filmado»
“Solyaris” foi apresentado no Festival de Cannes de 1972, onde arrecadou o Grande Prémio Especial do Júri. Nessa estreia o filme tinha uma duração ainda mais longa, que ultrapassava as três horas de projecção, tendo sido uma das razões que levou ao cansaço e à desilusão de um público que esperava mais do autor de “A Infância de Ivan” (1962) e de “Andrei Rublyov” (1966). Por isso as cópias que foram exportadas para exibição além-fronteiras foram reduzidas em cerca de meia-hora. Em Lisboa o filme teve direito a uma ante-estreia no cinema S.Luiz, a 5 de Maio de 1976 (com a presença dos dois actores principais do filme), continuando depois a sua exibição normal no cinema Caleidoscópio.
“Solyaris” foi editado num duplo DVD em Portugal pela Midas Filmes, no ano de 2007. A cópia apresentada, de 169 minutos de duração, respeita o formato original (2.35:1) e a banda sonora inclui as versões russa, inglesa e francesa, todas elas em dolby surround 5.1. Esta edição inclui ainda diversos documentários e entrevistas.
Em 2002 o realizador americano Steven Soderbergh faria uma versão do filme com George Clooney e Natascha McElhone nos principais protagonstas.