Mostrar mensagens com a etiqueta 2011. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2011. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, agosto 26, 2015

SOURCE CODE (2011)

O CÓDIGO BASE
Um filme de DUNCAN JONES



Com Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Michael Arden, etc.

EUA-CANADA / 93 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 28/3/2011
Estreia em PORTUGAL: 14/4/2011

Colter Stevens: «Christina, what would you do if you knew you had less than one minute to live?»
Christina Warren: «I'd make every second count»

Em 1938, uma jovem tenta provar durante uma viagem de comboio, a existência de uma passageira idosa desaparecida, apesar dos outros passageiros negarem a sua existência. Em 1993, um jornalista da meteorologia vê-se subitamente preso no mesmo dia, sendo obrigado a vivê-lo vezes sem conta. Em 2001, Jake Gyllenhaal descobre um vórtice temporal e recebe mensagens vindas do futuro. Passados dez anos..., imagine agora que abre os olhos e, subitamente, dá por si num comboio rumo a Chicago. Sentada à sua frente encontra-se uma bela rapariga e apesar de não a conhecer de lado algum, ela fala consigo como se fossem velhos amigos. Com a desorientação natural do momento, mal se dá conta da senhora que passa por si e lhe derruba café nos sapatos. A sensação de confusão aumenta quando, nos lavabos do comboio, olha para o espelho e o rosto que vê reflectido não é o seu, apesar de ser o mesmo que se encontra no seu bilhete de identidade. Começa a ficar deveras inquieto, mas antes que consiga perceber o que se passa, o comboio explode.


Volta a abrir os olhos e desta vez encontra-se numa apertada cápsula escura. A sua memória continua difusa. Ouve uma voz vinda de um monitor: «Descobriu a bomba, capitão?» «Qual bomba? Mas onde é que eu estou?», responde de modo trémulo. «A sua localização não interessa, o que importa é localizar a bomba no comboio e descobrir quem é que a colocou. Vamos reenviá-lo... não se esqueça que só tem 8 minutos!» Um clarão e dá por si novamente no mesmo comboio, frente à mesma rapariga, que lhe repete as mesmas palavras. A mesma senhora volta a entornar-lhe café nos sapatos. Tudo se repete, mas tudo parece também ligeiramente diferente. Com mais perguntas do que respostas a correrem-lhe na cabeça, há no entanto uma ideia recorrente que não o larga: «Tens 8 minutos para encontrar a bomba.» Pouco tempo depois, e para complicar ainda um pouco mais as coisas, dizem-lhe que afinal... já morreu há dois meses em combate.



E assim, de explosão em explosão, de constantes "viagens" entre o comboio e a pequena cápsula, o processo repete-se, ad infinitum. É enclausurado entre estes dois intrigantes universos que vive o personagem principal de "Source Code", o capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), especialista em missões no Afeganistão. Sentimos uma sensação estranha de déjà vu, como se estivéssemos a assistir a uma frenética versão hitchcockiana de "O Feitiço do Tempo". Neste seu segundo filme (o primeiro, dois anos antes, tinha sido o claustrofóbico "Moon - O outro lado da Lua"), Duncan Jones demarca-se definitivamente do estigma de ter um pai tão célebre como é David Bowie, e assina um empolgante e vertiginoso thriller de ficção científica, que o confirma como um dos mais interessantes jovens realizadores da actualidade (nasceu em Londres, a 30 de Maio de 1971).


Tal como Christopher Nolan (apenas um ano mais velho, mas já com uma dezena de filmes em carteira), também Duncan Jones percebeu que é possível seguir as regras de Hollywood e manter o traço inegável de autor. O seu toque pessoal é sentido ao longo do filme, não só por retomar os temas da individualidade e solidão de "Moon", mas pela forma como transforma este "Source Code" num caso de eficiência narrativa. De qualquer modo, para além do seu mérito pessoal, Jones tem que agradecer - e muito - a Ben Ripley, pelo excelente argumento que lhe colocou nas mãos. Como o conceituado crítico Roger Ebert tão bem evidenciou, «Here's a movie where you forgive the preposterous because it takes you to the perplexing» Ou seja, por outras palavras, esqueçam o absurdo ou a inveromilhança da história e deixem-se imergir de livre vontade no prazer e na emoção que "Source Code" transmite. De certeza que darão por muito bem empregue a hora e meia que o filme dura.


POSTERS

PORTFOLIO

domingo, novembro 17, 2013

THE BEST EXOTIC MARIGOLD HOTEL (2011)

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD
Um Filme de JOHN MADDEN


Com Judi Dench, Tom Wilkinsom, Bill Nighy, Penelope Wilton, Maggie Smith, Ronald Pickup, Celia Imrie, Dev Patel, Tena Desae, Diana Hardcastle, Lilete Dubay, etc.

GB - EUA - EMIRADOS ÁRABES / 
124 min /COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia em ITÁLIA a 30/11/2011
(Encontro International de Cinema de Sorrento)

Estreia na GB a 17/2/2012 (Festival de Glasgow)
Estreia em PORTUGAL a 19/4/2012
Estreia nos EUA a 4/5/2012
  

Sonny: «Everything will be all right in the end.
If it's not all right, then it's not yet the end»


"The Best Exotic Hotel Marigold" foi mais um presente a que tive direito, simplesmente por ser assinante dos canais de cinema Premium da TV por cabo. Passe a publicidade, a verdade é que ultimamente tem-me acontecido com frequência passar por um filme em modo de zapping e deparar-me com algo que me desperta de imediato o interesse, levando-me a rebobinar(abençoada tecnologia esta) e regressar ao início do filme. Foi o que aconteceu ontem, pela tardinha, com esta deliciosa comédia, da qual nunca tinha ouvido falar, nem sequer quando se estreou entre nós em Abril do ano passado. Mas, como diz o ditado, "mais vale tarde do que nunca".



Os consagrados actores britânicos que constituem o trunfo maior do filme, estão todos eles como as suas personagens - na chamada terceira idade -, aquele período em que já perdemos as ilusões de "sermos imortais" e passamos a deitar contas à vida para que lhe possamos sugar o tutano que porventura ainda reste, e depois comprar um bom lugar que nos conduza sem grandes sobressaltos durante a derradeira viagem. Mas, antes do mais, deixem-me apresentar estes sete súbditos do reino de Sua Majestade: Evelyn Greenslade (Judi Dench) acaba de enviuvar de um casamento duradouro, e tem de se desfazer da casa para pagar as dívidas do marido; nunca foi senhora do seu destino enquanto casada e pela primeira vez quer ser ela própria a controlar o seu tempo e não ir viver para junto do filho. Graham Dashwood (Tom Wilkinson) é um juiz prestes a atingir a idade da reforma mas o ponto-limite de saturação dos tribunais chega antecipadamente e por isso decide voltar à Índia, à terra que o viu nascer, onde deixou, há 40 anos, alguém muito especial da sua juventude.

Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) são o típico casal em crise, com uma vivência cansada, que há muito adoptaram a falsidade como meio de continuarem a preservar algo que já não tem qualquer significado. Muriel Donnelly (Maggie Smith, num papel fabuloso) é uma velha azeda e rabugenta, antiga perceptora e eterna solteirona, que ainda por cima tem a necessidade urgente de ser operada a uma anca; está numa longa lista de espera e o médico aconselha-a a viajar para a Índia, onde poderá ser operada de imediato. Norman Cousins (Ronald Pickup) é o típico e presumido velho gaiteiro que se recusa a encerrar a sua vida sexual e que por isso anda sempre em busca de novas conquistas. Finalmente, Madge Hardcastle (Celia Imrie), uma avó que vive com a filha, genro e netos; no íntimo anseia pelos mesmos desígnios de Norman, mas com o objectivo de juntar o útil ao agradável: sexo sim, mas com uma boa conta bancária por detrás.

Estes sete aventureiros, uma espécie de brigada do reumático, respondem a um anúncio sobre uma estadia de sonho num hotel de Jaipur, na Índia - o "The Best Exotic Marigold" do título - e embarcam juntos, rumo ao paraíso prometido. Depois de algumas peripécias chegam finalmente ao seu destino, onde os aguarda Sonny Kapoor (Dev Patel), o solícito e expedito maitre-d'hotel. É aqui que o filme atinge os momentos de maior comicidade, uma vez que a realidade que espera os fleumáticos ingleses é o oposto daquilo por que todos eles ansiavam. No espaço temporal de cerca de 50 dias que dura o filme, haverá tempo um pouco para tudo: descobertas e desilusões, encontros e desencontros, hábitos que se mudam ou se partilham, partidas e chegadas. Mas comodiz Sonny, «Everything will be all right in the end». E o "fim" não chegará enquanto tudo não bater certo!

"The Best Exotic Marigold Hotel" é um excelente motivo para se passar duas horas frente a um écran: coloca-nos no rosto um sorriso permanente, salpicado aqui e ali por uma sonora gargalhada ou também por uma ou outra lágrima ao canto do olho, e ainda nos dá tempo para pensarmos um pouco mais a sério no que vale ou não vale a pena fazermos com as nossas vidas tão efémeras. Clichés? Muitos, certamente. Mas o cliché, que é por definição uma forma estereotipada de dizer o que toda a gente já ouviu dizer, não é, na minha opinião, um termo pejorativo. O que o torna desagradável ou enfandonho é o modo arbitrário como ele tantas vezes nos é transmitido. O que, obviamente, não é o caso aqui.

"The Best Exotic Marigold Hotel" é baseado na novela "These Foolish Things" (2004), de Deborah Moggach, de onde Ol Parker extraiu um óptimo argumento, que tanto tem de simples como de apelativo. Nele está sempre presente o choque de culturas tão diferentes como a britânica e a indiana. É verdade que em tempos coloniais essas duas culturas coexistiram, mas na verdade nunca se compreenderam lá muito bem uma à outra. O realizador, John Madden (também ele inglês, como não podia deixar de ser), faz realçar essas diferenças, fazendo-nos percorrer as ruas, os mercados, as casas, por onde palpita a vida despreocupada dos locais, em contraponto aos preconceitos dos visitantes («as luzes, as cores, os sorrisos. O modo de as pessoas verem a via como um privilégio, e não como um direito»). A cinematografia (de Ben Davis) é quente e luminosa, ou não fosse a Índia um país onde a exuberância das cores faz parte fundamental do leque dos seus atractivos naturais. Uma referência final à excelência da música de Thomas Newman e à existência de uma sequela, com a mesma equipa técnica e artística, cuja estreia mundial deverá ocorrer ainda durante este ano.

CURIOSIDADES:
- Indicam-se de seguida as datas de nascimento dos 7 actores ingleses, indo do mais novo para o mais velho: Madge Hardcastle (15/7/1952), Bill Nighy (12/12/1949), Tom Wilkinson (5/2/1948), Penelope Wilton (3/6/1946), Ronald Pickup (7/6/1940), Maggie Smith (28/12/1934) e Judi Dench (9/12/1934).

- Os personagens Norman e Madge eram para ser interpretados por Peter O'Toole e Julie Christie. Os nomes de John Hurt e Eileen Atkins também chegaram a ser equacionados.

- Tom Wilkinson (Graham) é casado com Diana Hardcastle (Carol)




terça-feira, outubro 22, 2013

MIDNIGHT SON (2011)

O FILHO DA MEIA-NOITE
Um Filme de SCOTT LEBERECHT



Com Zak Kilberg, Maya Parish, Jo D. Jonz, Larry Cedar, Arlen Escarpeta, etc.

EUA / 88 min / COR / 16X9 (1.78:1)

Estreia no CANADA a 19/7/2011 
(Fantasia Festival)
Esreia na GB a 11/1/2013



Depois de três curtas-metragens (duas delas galardoadas em festivais de cinema), esta agradável surpresa é o primeiro filme de fundo de Scott Leberecht, que também escreveu o argumento, mas cujos créditos, até agora, têm sido firmados no campo dos Efeitos Visuais, em filmes como “Eraser”, “Flubber” ou “Sleepy Hollow”. Por isso seria de esperar uma utilização maciça de artifícios técnicos nesta estreia. Nada disso, “Midnight Son” é um filme muito contido, sem pressas, que se limita a mostrar o estritamente necessário à história que quer contar. Leberecht aproveita da melhor maneira o material que ele próprio inventou, adoptando um estilo simples e directo, quase contemplativo.


Jacob (Zak Kilberg, no seu papel mais importante até à data) é um guarda-nocturno que, por imposição da sua profissão, passa os dias encerrado num porão, onde vive sózinho. Desde criança que padece de um problema de pele, a qual é muito sensível à luz solar. Aos poucos começa a perceber que o seu organismo também vai dando mostras de algumas anormalidades, dada a sua dificuldade em se manter saciado. Consulta um médico que lhe diagnostica uma anemia. O mal-estar vai no entanto progredindo e Jacob interroga-se, meio divertido, meio incrédulo, se não será ele um qualquer tipo de “vampiro”, dado o seu gosto por sangue. Mas aquilo que a princípio não passaria de um tola suposição, vai-se confirmando cada vez mais real e o pânico começa a instalar-se no seu dia-a-dia. Após conhecer Mary (a sensual Maya Parish), com quem, invariavelmente, não consegue chegar ao fim do acto amoroso, Jacob tenta desesperadamente encontrar um modo de tranquilizar os seus receios mais íntimos. Mas estes vão-se materializando cada vez mais....



Apetece-me dizer que “Midnight Son” é um filme de vampiros sem vampiros. Na verdade, o que aqui ressalta é a solidão e a tristeza dos personagens trágicos que habitam a história. Leberecht deixa de lado qualquer violência gratuita (tantas vezes vista noutros filmes do género) e foca-se sobretudo na criação de uma atmosfera dramática e realista, pincelada aqui e acolá por tons poéticos. A fotografia de Lyn Moncrief ajuda a recriar tal atmosfera, tal como o acompanhamento musical, assinado por Geoff Levin e Kays Al-Atrakchi, apesar de discreto e focado essencialmente em efeitos sonoros. Muito bem realizado, com um convincente e equilibrado elenco, “Midnight Son, que foi rodado quase inteiramente na noite de Los Angeles, é um filme muito agradável de se seguir, que nos transmite sentimentos de solidão e perda, subjacentes a qualquer história de amor. Um pequeno aviso: Não aconselhável aos fans dos filmes da saga “Twilight”.



segunda-feira, junho 25, 2012

WAR HORSE (2011)

CAVALO DE GUERRA
Um filme de STEVEN SPIELBERG


Com Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, David Thewlis, etc.

EUA / 146 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 4/12/2011 (New York)
Estreia no BRASIL a 6/1/2012
Estreia em PORTUGAL a 23/2/2012


“Terminal de Aeroporto” [2004] foi o último filme (bastante) interessante de Steven Spielberg. A partir daí – e já lá vão 8 anos – a carreira do realizador americano não tem parado de me desiludir. Um remake escusado (“Guerra dos Mundos”), um thriller histórico apesar de tudo ainda com algum interesse (“Munich”), o pior de todos os episódios de Indiana Jones (“O Reino da Caveira de Cristal”), feito apenas a pensar no box-office, e a transformação de um ícone da banda desenhada num simples boneco animado (“Tintin – O Segredo do Licorne”) compõem o ramalhete. É demasiado tempo para se poder ainda esperar um retorno aos inquestionáveis méritos do passado.

“War Horse” confirma essa minha desilusão, a qual por certo não será caso único entre os antigos admiradores de Spielberg. Baseado numa novela para crianças escrita em 1982 por Michael Morpurgo (levada à cena em 2007 num teatro londrino) o filme denota toda uma intenção de apelar à emotividade fácil das plateias. Mas Spielberg já não é o feiticeiro de antigamente. Pode voltar a pegar nos ingredientes que usou toda a vida, e seguir a mesma receita, mas claramente já não tem o condão de conseguir obter o feitiço com o qual nos costumava seduzir. Falhada a poção mágica, o que resta é um filme de retalhos, com a lamechice predominante a tentar elevar-se ao nobre panteão das emoções. Que, obviamente, não consegue atingir. As situações de faca e alguidar são tantas que, passado um bocado, ficamos completamente imunes.


Com um argumento frágil e previsível, por vezes incongruente (a dispersar-se por pequenas histórias, cada uma delas mais piegas do que a anterior), um fundo musical cansativo (John Williams a baralhar e a dar de novo) a pautar uma metragem longa demais, e um naipe de interpretações medíocres (salva-se Emily Watson no papel da mãe do protagonista principal), “War Horse” apresenta como única grande qualidade a sua magnífica fotografia, assinada por Janusz Kaminski, colaborador habitual de Spielberg. E mesmo essa vai buscar os seus melhores momentos a clássicos do passado, como os filmes de David Lean (a carga da cavalaria a partir do campo de trigo, a lembrar “Dr. Zhivago”) ou, mais descaradamente, plagiando “Gone With The Wind” naqueles vermelhos intensos do epílogo (até alguns enquadramentos são tirados quase a papel químico da obra imortal de Victor Fleming).

Num filme em que se morre sem se verter uma única gota de sangue (a pensar-se antecipadamente na classificação etária?), é justo no entanto destacar uma sequência pelo seu raro brilhantismo: a corrida desenfreada de Joey (o cavalo-estrela do filme) por entre trincheiras antagonistas, e que acaba com ele imobilizado pelo arame farpado em terra de ninguém. Mas até essa sequência – que é uma das poucas razões pelas quais o filme deverá ser visto - é continuada logo depois por uma ridícula, risível “expedição” de salvação, levada a cabo por dois soldados inimigos, vindos cada um deles do seu lado das trincheiras. Palavra de honra que cheguei a pensar que Spielberg deveria ter ouvido, com muita atenção, a “Ida à Guerra” do nosso saudoso Raul Solnado.



Custa um pouco a acreditar, mas o AFI (American Film Institute) considerou "War Horse" como o melhor filme do ano. Por outro lado, o filme foi nomeado para 6 Óscares, 2 Globos de Ouro e 5 BAFTAS! O que só prova a eficácia que a marca Spielberg continua a ter no mundo do cinema, mesmo que seja roupa em segunda mão. Entretanto, o orçamento inicial (66 milhões de dólares) foi duplicado pelas receitas em todo o mundo (cerca de 134 milhões). Grandes incentivos portanto, para que Spielberg continue alegremente a sua descida imparàvel, rumo à mediocridade. E já se anunciam mais Tintins e também a 5ª parte de Indiana Jones (Harrison Ford de muletas?).

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

THE DESCENDANTS (2011)

OS DESCENDENTES
Um filme de ALEXANDER PAYNE


Com George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Judy Greer, Beau Bridges, Matthew Lillard, etc.


EUA / 115 min / COR / 16X9 (2.35:1)


Estreia nos EUA a 2/9/2011
(Festival de Telluride)
Estreia em PORTUGAL a 19/1/2012
Estreia no BRASIL a 27/1/2012


Matt King: [to Elizabeth] «Goodbye, Elizabeth.
Goodbye, my love, my friend, my pain, my joy.
Goodbye. Goodbye. Goodbye»

"The Descendants" é um filme com várias surpresas. Todas elas surpresas boas. A primeira de todas, a que salta mais à vista, é que, afinal, George Clooney consegue ser um bom actor. Provavelmente porque aquela personagem lhe assente que nem uma luva, ou porque lhe tenha sido suficiente ser ele próprio, sem grandes invenções. Mas na verdade parece haver ali muito mais representação do que a necessária para promover campanhas publicitárias do Nespresso. Já galardoado com o Globo de Ouro, nomeado para o próximo Óscar, o actor de 50 anos é, pode dizer-se, o grande trunfo deste filme. Trocando o habitual charme por uma postura mais vulgar, insegura, por vezes desajeitada, Clooney é extremamente convincente no papel de Matt King, um homem que nunca aprendeu a lidar com a própria famíla. Quer com as filhas, de cujos problemas sempre passou ao lado, quer com a mulher, que só a iminência da morte o faz acordar para a realidade.
Outra grata surpresa do filme é, de um modo geral, a grande qualidade do elenco secundário, desde Judy Greer, no papel da mulher do amante de Elizabeth King, passando pela pequena Amara Miller (Scottie, a filha mais nova) e culminando na grande revelação que é Shailene Woodley, uma actriz de 20 anos, vinda do mundo das séries televisivas e que tem aqui o seu primeiro grande papel no cinema. Shailene é de tal modo brilhante que, a espaços, consegue roubar o filme ao próprio Clooney. Como quando revela o segredo da relação extra-conjugal da mãe, naquela reacção (um misto de surpresa, pudor e diversão) à palmada que o pai lhe dá no rabo ou, sobretudo, na sequência da piscina, quando toma conhecimento do estado irreversível da mãe e oculta o pranto debaixo da água (um dos grandes momentos deste filme, senão mesmo o maior de todos e que nos ficará para sempre na memória).
Terceira surpresa: o equilíbrio com que o filme percorre a corda bamba, sem nunca resvalar para o melodrama piegas (uma palavra que agora está na moda) e convencional. E seria muito fácil, dada a história que nos é contada: a de Matt King, um advogado e proprietário de terras no Hawaii, sempre muito ocupado com os seus afazeres e por isso pouco presente na sua própria vida familiar. Herdeiro principal, juntamente com uma série de primos, de um grande território virgem, pode vir a tornar-se, a curto prazo, num dos homens mais ricos da região. Só que um acidente de barco atira-lhe a mulher para uma cama de hospital, em coma profundo. As prioridades são assim dramaticamente alteradas e Matt vê-se a braços com as duas filhas, raparigas problemáticas,das quais se tenta aproximar. Como se tal não bastasse, fica a saber que a mulher mantinha uma relação extra-conjugal e que tencionava divorciar-se. Entretanto os médicos revelam-lhe a dura realidade: o coma de Elizabeth é irreversível e ele tem de tomar a difícil decisão de autorizar que a desliguem das máquinas, apesar de a própria ter deixado tais instruções por escrito.
Alexander Payne é um atípico realizador americano. Oriundo de uma família grega (de apelido Papadopoulos), Payne, nascido a 10 de Fevereiro de 1961, em Omaha, Nebraska, estudou na Universidade de Salamanca, em Espanha, vindo mais tarde a licencear-se em História pela Universidade de Stanford, após o que concluiu com êxito o curso de cinema da UCLA, em 1990. Admirador confesso de Kurosawa, Buñuel, Ashby, Leone e Scorsese, Payne realizou a sua primeira longa-metragem há já 15 anos: "Citizen Ruth" [1996], com Laura Dern como protagonista. A partir daí, apenas mais 4 filmes: "Election" [1999], "About Schmidt" [2002], no qual conseguiu arrancar um magnífico desempenho a Jack Nicholson, "Sideways" [2004], talvez o seu melhor filme até à data, e agora, sete anos depois, este "The Descendants".
O cinema de Payne, pelo menos nos últimos três filmes (os únicos que vi), começa a evidenciar algumas constantes: personagens solitários, de baixa auto-estima, por vezes presos a certas angústias, histórias que oscilam constantemente entre o cómico e o trágico, o recurso frequente a monólogos, o tratamento, enfim, de relações humanas conflituosas, onde frequentemente o adultério e outros tipos de traições se encontram presentes, para além, também, do recurso habitual a um humor irónico e pouco convencional. Tudo isto misturado com muito bom gosto e servido sempre por uma excelente qualidade técnica. Por último, e talvez o mais importante de tudo, Alexander Payne é dos raros realizadores americanos que consegue ter a última palavra na montagem final dos seus filmes, sendo também argumentista de todos eles. A solo, ou acompanhado, como é o caso aqui, com Nat Faxon e Jim Rash.
Em "The Descendants" a missão de adaptar a obra homónima da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings (que no filme desempenha o papel de Noe, a secretária de Matt), parece ter sido especialmente complexa, dada a profusão de sentimentos que o personagem principal atravessa. Mas o resultado final é bastante satisfatório, muito ajudado pela montagem escorreita de Kevin Tent e pela fotografia luminosa de Phedon Papamichael, a qual, apesar de nos mostrar muitas das maravilhas naturais do Hawaii, se afasta bastante do imaginário turístico. Um único senão: a utilização da voz-off para a narração na primeira pessoa, a denotar uma certa preguiça na transcrição da obra literária para o grande écran. Mas, de uma maneira global, estamos aqui em presença de um filme muito agradável de se olhar, apesar dele se desprender uma certa tristeza. Mas se o filme é por vezes triste, mesmo sombrio, os toques humorísticos conseguem dar-lhe a volta e torná-lo numa comédia dramática, original e refrescante.
Alexander Payne é, sem qualquer dúvida, um cineasta a ter em conta. Quer pelos filmes já realizados quer sobretudo pelas boas expectativas geradas. Aguardam-se os próximos capítulos. Entretanto, é já na madrugada da próxima segunda-feira, dia 27 de Fevereiro, que se realiza a cerimónia de entrega dos Óscares da Academia. Parece que Billy Crystal volta a ser o desejado anfitrião, e "The Descendants" encontra-se nomeado para 5 estatuetas: Filme, Realização, Montagem, Argumento-Adaptado e Actor Principal (George Clooney). Que injustiça Shailene Woodley não ter sido indigitada para melhor actriz secundária, tal como aconteceu nos Globos de Ouro. Felizmente que a jovem actriz tem já arrecadados diversos prémios em outros certames de cinema, quase todos atribuídos por associações de críticos: San Diego Film Critics, National Board of Review, Hollywood Film Festival, Hamptons International Film Festival, Florida Film Critics Circle, Dallas-Fort Worth Film Critics, para além de numerosas nomeações, numa demonstração inequívoca da sua grande revelação neste filme.
(NOTA: O filme veio a vencer apenas o Óscar do melhor Argumento-Adaptado)