Mostrar mensagens com a etiqueta 1999. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1999. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, setembro 02, 2015

THE ASTRONAUT’S WIFE (1999)

A MULHER DO ASTRONAUTA
Um filme de RAND RAVICH



Com Charlize Theron, Johnny Depp, Joe Morton, Clea Duvall, Nick Cassavetes, Donna Murphy, Samantha Eggar, etc.

EUA / 109 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA: 27/8/1999
Estreia em PORTUGAL: 16/6/2000



«How well do you know the one you love?»

O comandante Spencer Armacost (Johnny Depp) e o capitão Alex Strek (Nick Cassavetes, filho de Gena Rowlands e do saudoso John Cassavetes) são dois astronautas que partem numa missão espacial. Ao tentarem reparar um satélite, algo de estranho acontece. Há uma explosão e a NASA perde o contacto com os dois homens durante uns intermináveis dois minutos. Após a interrupção, as ligações com a Terra restabelecem-se e ambos os astronautas regressam do espaço, sãos e salvos, como se nada tivesse acontecido. Mas depressa as pessoas mais chegadas começam a perceber que alguma coisa mudou na maneira de ser dos dois homens. O capitão Alex é o primeiro a evidenciar alguns sinais preocupantes, vindo a morrer repentinamente de um aneurisma cerebral. A mulher, Natalie (Donna Murphy), suicida-se ainda durante o serviço fúnebre. Saber-se-á mais tarde que ela estava grávida de gémeos. Tal como a mulher do comandante, Jill Armacost (lindíssima Charlize Theron), cada vez mais assustada, por desconfiar que as vidas que tem dentro de si têm uma origem extra-terrestre. Sherman Reese (Joe Morton), um funcionário entretanto despedido da NASA por causa das suas investigações particulares, chega a avisar Jill do perigo que ela corre, mas pouco tempo depois desaparece, previsivelmente assassinado.


Percebe-se que Rand Ravich tenha sido influenciado pelo clássico de Polanski, “Rosemary’s Baby”, ao escrever o argumento do seu filme. Mas, apesar de ser uma homenagem bem intencionada, “The Astronaut’s Wife” é um filme de algum modo falhado, que deixa algo a desejar. Foi a primeira e última incursão do escritor no campo da realização, o que desde logo denota uma certa imaturidade, apesar de ter conseguido, honra lhe seja feita, um bom timing na narração da história. De qualquer modo o suspense é genuíno, em crescendo ao longo da projeção, apesar do desenlace final ser tão previsível quanto decepcionante. O filme vale sobretudo pela presença luminosa de Charlize Theron, que voltava a interpretar um personagem dramático, na linha do que tinha feito dois anos antes no filme “The Devil’s Advocate / O Advogado do Diabo”, curiosamente com muitos pontos de contacto com este “The Astronaut’s Wife”. Quem está uns bons furos abaixo do habitual é Johnny Depp (uma representação algo apática e monótona), que nesse mesmo ano teve um excelente desempenho no filme “The Ninth Gate”, de Roman Polanski. Concluindo, “The Astronaut’s Wife” é um filme agradável de se ver, não aborrece, e é uma razoável opção de entretenimento. Mas, acima de tudo, destina-se aos fans da Charlize Theron.

PORTFOLIO

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

THE END OF THE AFFAIR (1999)

O FIM DA  AVENTURA
Um Filme de NEIL JORDAN




Com Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea


GB-EUA / 102 min / COR / 
16X9 (1.85:1)


Estreia nos EUA a 2/12/1999
Estreia em Portugal a 18/2/2000



Diz-se da eternidade que é, não uma extensão do tempo, 
mas uma ausência dele.
Os amantes ciumentos são mais respeitáveis e menos ridículos que os maridos ciumentos. Os amantes traídos sáo trágicos, nunca são cómicos. (Graham Green)

Maurice: «I'm jealous of this stocking»
Sarah: «Why?»
Maurice: «Because it does what I can't. Kisses your whole leg.
And I'm jealous of this button»
Sarah: «Poor, innocent button»
Maurice: «It's not innocent at all. It's with you all day. I'm not»
Sarah: «I suppose you're jealous of my shoes?»
Maurice: «Yes»
Sarah: «Why?»
Maurice: «Because they'll take you away from me»

Esta é a segunda e feliz adaptação ao cinema de “The End of the Affair”, um dos melhores romances de Graham Greene, cuja narrativa semi-autobiográfica dramatiza a relação do autor com Catherine Walston. Em 1955, Edward Dmytryk fez a primeira versão com Van Johnson e Deborah Kerr nos principais papéis. Neil Jordan pode agora considerar-se com mais sorte ao poder contar com Ralph Fiennes e sobretudo Julianne Moore para os papeis dos dois amantes. Sem esquecer Stephen Rea, que compõe de igual modo magistral a figura do marido enganado cujo amor pela mulher é capaz de aguentar qualquer sacrifício.
Esta é uma história de amor. Do amor das personagens, do amor dado pelos intérpretes, do amor pelos curtos segundos que só o cinema parece conseguir filmar. Mas todo o filme gira também à volta da culpa, essa consequência natural de um catolicismo tortuoso, tão comum na época e uma das imagens de marca dos romances de Greene. Culpa de amar e ser amado, culpa de desejar a felicidade por cima das convenções mundanas. Os personagens movem-se em terrenos desgastados pela moral vigente, que faz cansar e até desesperar quem procura libertar-se da tutela do divino e viver simplesmente uma vida terrena, em toda a sua plenitude.
Neil Jordan confirma mais uma vez o amor com que dirige os seus actores cujos desempenhos são essenciais na elegante fluidez deste filme admirável. A realização chega a atingir patamares poéticos de um lirismo raro no cinema da actualidade, apesar de não se coibir de mostrar o lado mais erótico da paixão. No fundo é todo um mosaico de emoções que está subjacente à relação amorosa e que Jordan filma de maneira exemplar, fazendo lembrar por vezes o classicismo de um “Brief Encounter”, de Lean. O recurso a flashbacks repetidos mas vistos por perspectivas diferentes dá ainda mais a noção da inquietude dos sentimentos que envolvem cada um dos dois amantes. "The End of the Affair" é também uma grande produção inglesa, com os seus específicos valores: reconstituição histórica imaculada, desempenhos sólidos do elenco, fotografia, música e montagem de primeirissima grandeza, tudo a funcionar em pleno para um objectivo maior.
Apesar da atmosfera romanesca e de nostalgia com que os cenários recriam a Londres dos anos da Guerra (a que não será estranha a bela partitura musical de Michael Nyman), a cidade como que se situa em segundo plano face à claustrofobia revelada pela câmara de filmar em volta dos dois amantes. Nunca vi a versão dos anos 50 (uma obra menor ao que tenho ouvido dizer) mas li o livro de Greene. E Jordan consegue efectivamente extrair do romance a complexa teia de sentimentos descrita pelo escritor. Muita coisa é diferente mas um filme não é literatura, vai muito para lá das palavras escritas em papel. Julgo apenas que a cena final do “milagre” (a mancha que desaparece da face da criança) é desnecessária, até porque ausente no romance (o assunto é abordado mas sem o ênfase colocado no filme), podendo erradamente ser interpretada como uma espécie de “recompensa” pelo sacrifício da relação amorosa. O único final apropriado é mesmo todo o ódio de Ralph Fiennes para com um Deus que lhe retirou o grande amor da sua vida:
«Não tenho paz, e não tenho amor, a não ser só por ti, Sarah. Sou um homem de ódio. Deus, conheço a tua astúcia. És Tu quem nos leva a uma altura, de onde nos ofereces o universo inteiro. E és um demónio porque nos tentas a saltar. Eu, porém, não quero a tua paz, nem quero o teu amor. Eu queria algo muito simples e muito fácil: queria ter Sarah a vida inteira, e Tu levaste-a. Com os teus grandes desígnios arruínas a felicidade humana como o ceifeiro, nos campos, destrói um ninho de ratos. Odeio-Te, Deus, odeio-Te como se existisses. Já fizeste bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para aprender a amar. Deixa-me em paz para sempre!»
Termino com a citação de parte de um artigo publicado por Linda Santos Costa na revista “Leituras” do jornal Público de 8 de Abril de 1995:
«... Que faz da história de amor em tempo de guerra, que é “O Fim da Aventura, um romance que nos fascina e comove até às lágrimas? Explicá-lo seria o mesmo que explicar o amor, cedendo à tentação de o reduzir às secreções internas que regulam a intensidade dos impulsos passionais e levam a falar de uma “química do amor”, pois há muito, nesta história, que releva da forma como está construída: a sábia alternância de pontos de vista, o modo gradual e circular como nos é dado o acesso à “verdade” dos acontecimentos, a construção da intriga, com o seu quê de policial, que nos faz estar suspensos das páginas a vir, temendo (e desejando) que o enigma jamais seja desvendado.»
CURIOSIDADES:

- “The End of the Affair” teve duas nomeações para os Ocars nas categorias de Actriz Principal e Cinematografia. Julianne Moore seria preterida a favor de Hilary Swank em “Boys Don’t Cry”

- Miranda Richardson e Kristin Scott Thomas chegaram a ser equacionadas para o papel de Sarah Miles. Julianne Moore, que tinha adorado o livro, escreveu uma carta ao realizador Neil Jordan solicitando-lhe a entrada no filme. O que conseguiu.

- Catherine Walston, a amante de Greene na vida real que inspirou o romance, faleceu com 62 anos em 1978. Segundo o biógrafo do escritor, Michael Shelden, Catherine não permitiu que Greene a visitasse antes de morrer por não querer que ele a visse no adiantado estado de doença em que se encontrava.