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quarta-feira, março 05, 2014

ON CONNAIT LA CHANSON (1997)

É SEMPRE A MESMA CANTIGA
Um filme de ALAIN RESNAIS



Com Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Pierre Bacri, André Dussolier, Agnès Jaoui, Lambert Wilson, Jane Birkin, etc.

FRANÇA / 120 min / COR / 16X9 (1.85:1)

Estreia em FRANÇA a 12/11/1997
Estreia em PORTUGAL a 25/9/1998 
(Lisboa, cinema Nimas)


LA MUSIQUE AU TRAVAIL

Autor clássico do moderno cinema francês, experimentador incansável, Alain Resnais continua a interessar-se pela dimensão musical dos filmes. Desta vez, decidiu mesmo acrescentar canções à banda sonora – uma maravilha! Face a este muito musical "On Connait La Chanson", torna-se quase inevitável recordar que, em 1991, antes de se abalançar ao fabuloso díptico que foi "Fumar / Não Fumar", Alain Resnais dirigiu uma média-metragem destinada à televisão e à edição videográfica intitulada "Gershwin", uma espécie de ensaio sobre o compositor americano, que fazia parte de uma série, a “Enciclopédia Audiovisual”.

Na obra de Resnais, este ensaio tem um lugar especial, fazendo realçar aquilo que tem estado sempre presente nela, ou seja, a sua dimensão musical, que se vai tornando mais importante filme após filme, para se tornar dominante nos mais recentes. "Gershwin" poderá servir de eventual baliza nesta evolução, mas o espectador atento que tenha acompanhado a obra do cineasta observou certamente como a música, em Resnais, tem sido um elemento cada vez mais presente e dominador.

Se nos anos 50 / 60 os movimentos de câmara de "Hiroshima Meu Amor" e "O Último Ano em Marienbad" tinham uma componente musical, em filmes mais recentes como "A Vida É um Romance" e "Amor Eterno" a música adquire uma função diegética aliada à pesquisa estética que Resnais nunca abandona. Tal função era ainda mais destacada em "I Want To Go Home" (entre nós apenas visto na televisão), título imediatamente anterior a "Gershwin".

"Fumar / Não Fumar" e este "On Connait La Chanson" surgem inteiramente sob o signo das melodias. Se não se canta no primeiro, as imagens (e a música recorrente) de transição de sequência para sequência funcionavam como melodias de passagem, de demarcação (um pouco à maneira das canções de "Ondas de Paixão", de Lars von Trier), espécie de refrões que dividem as sequências em estrofes.

O que "On Connait La Chanson" se faz é, de certo modo, a mesma coisa, mas em vez das melodias servirem de transição estão agora incluídas na história, cumprindo uma espécie de função metonímica, colocando, de repente, na boca (ou cabeça) dos personagens uma música popular, daquelas que constituem um património pessoal (e colectivo) guardado na memória de cada um.

Em certos momentos, e em certas situações, às vezes acode-nos um acorde ou um fragmento de uma cantiga que nos ficou na memória em determinado tempo. E surge-nos como? Exactamente através da voz de que nos lembramos de ter ouvido entoá-la (daí a utilização do playback). É desta forma que as canções surgem em "On Connait La Chanson" , pedaços e fragmentos delas, consoante a personagem e o momento em que ela se encontra, verdadeira música do tempo, tanto daquele em que decorre a acção do filme, como o do passado do personagem que a evoca.

O processo não é novo? De facto não é. E Resnais não se esquece de o referir na legenda de abertura em que dedica o filme a Dennis Potter, escritor, argumentista e realizador inglês falecido há pouco tempo. Muitas coisas se viram já na televisão criadas por Potter com este processo, de "The Singing Detective / O Detective Cantor" a "Lipstick On Your Collar / Bâton no Colarinho", passando pela obra prima que é "Pennies From Heaven / Dinheiro do Céu", que de série televisiva passou a filme dirigido por Herbert Ross. Resnais fez "On Connait La Chanson" da mesma forma, mas importa sublinhar que não se trata de uma mera cópia do modelo. Trata-se, na verdade, de uma perfeita confluência de estilos, um encontro feliz de diversas matérias e registos narrativos.

"On Connait La Chanson" é um filme irónico, divertido, pitoresco, percorrido por uma imensa ternura pelas suas personagens, mesmo quando as mostra a luz menos favorável (veja-se a figura composta por Lambert Wilson) ou quando se dizem coisas mais amargas. Neste aspecto, destaque-se toda a fabulosa sequência final, onde a câmara passa como uma medusa (numa imagem que vai servindo de ligação entre as várias cenas) de um grupo humano para outro, de uma emoção para outra.

Vencedor de 7 Césars (Filme, Argumento, Montagem, Som, Actor Principal - André Dussolier e Actores Secundários - Jean-Pierre Bacri e Agnès Jaoui), o filme teria ainda mais 5 nomeações para os mesmos Césars (Realização, Música, Direcção Artística, Actriz Principal - Sabine Azéma, e Actor Secundário - Lambert Wilson). Além dos Césars foi o vencedor do prémio Louis Delluc e foi ainda nomeado para o Urso de Ouro do Festival de Berlim. A primeira exibição teve lugar a 12 de Novembro de 1997, em França, e a estreia em Portugal ocorreu quase um ano depois, no cinema Nimas em Lisboa, a 25 de Setembro de 1998.

Indicam-se de seguida todas as canções (e respectivos intérpretes) trauteadas durante o filme, algumas apenas por breves segundos:

- "J'ai deux amours" - Joséphine Baker
- "Paroles...Paroles" - Dalida et Alain Delon
- "Et moi dans mon coin" - Charles Aznavour
- "C'est dégoûtant mais nécessaire" - Koval
- "Afin de plaire à son papa" - Simone Simon
- "Je ne suis pas bien pourtant" - Gaston Ouvrard
- "Je me donne" - Albert Préjean
- "J'aime les filles" - Jacques Dutronc
- "Déjà vu" - Michel Sardou
- "Nathalie" - Gilbert B
écaud
- "Dans la vie faut pas s'en faire" - Maurice Chevalier
- "Et le reste" - Arletty et Aquistapace
- "Je m'en fous pas mal" - Edith Piaf
- "Vertige de l'amour" - Alain Bashung
- "L'école est finie" - Sheila
- "Je suis malade" - Serge Lama
- "Avec le temps" - Léo Férré
- "Avoir un bon copain" - Henri Garat
- "Quoi?" - Jane Birkin
- "Résiste" - France Gall
- "Amusez-vous" - Albert Préjean
- "La tête qu'il faut faire" - Henri Garat
- "Sous les jupes des filles" - Alain Souchon
- "La dernière séance" - Eddy Mitchell
- "La plus belle pour aller danser" - Sylvie Vartan
- "Je suis venu te dire que je m'en vais" - Serge Gainsbourg
- "Je vous dérange" - Eddy Mitchell
- "Ça c'est vraiment toi" - Téléphone
- "Quand on perd la tête" - Dranem
- "Ma Guele" - Johnny Hallyday
- "Mon p'tit loup" - Pierre Perret
- "Le mal aimé" - Claude François
- "J'veux pas que tu t'en ailles" - Michel Jonasz
- "Ce n'est rien" - Julien Clerc
- "Chanson populaire" - Claude François
- "Le blues du blanc" - Eddy Mitchell


sábado, outubro 05, 2013

BREAKDOWN (1997)

AVARIA NO ASFALTO
Um Filme de JONATHAN MOSTOW




Com Kurt Russell, J.T. Walsh, Kathleen Quinlan, etc.

EUA / 93 min / COR / 16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 2/5/1997
Estreia em PORTUGAL a 14/8/1997



Um casal que viaja num jeep tem uma avaria no meio do deserto americano. A mulher, Amy (Kathleen Quinan) pede boleia a um camionista para ir buscar um pronto-socorro a um local habitual de paragem, chamado "Belle's Dinner". Passado algum tempo, o marido, Jeff Taylor (Kurt Russell), que ficou a aguardar junto do veículo, descobre que alguém desligou uns fios no motor e que afinal se trata de uma sabotagem levada a cabo numa estação de serviço onde pouco antes se tinham abastecido. Retoma a marcha, para se ir encontrar com Amy no "Belle's Diner". Só que esta parece ter desaparecido...


Eis um frenético thriller de acção - sem efeitos especiais, sem monstros, sem terroristas, sem armas fatais - mas que contudo acelera o ritmo cardíaco do espectador, fazendo-o ficar colado à cadeira durante cerca de hora e meia. A óptima ideia do argumento (escrito pelo próprio director, Jonathan Mostow, em colaboração com Sam Montgomery) é a de ter situado esta história num contexto plausível - um homem perdido numa paisagem isolada e inóspita, que se vai ver cara a cara com um bando organizado que assalta os viajantes incautos, para os assassinar de seguida. Ou seja, algo que poderia acontecer a qualquer um, sobretudo naqueles espaços sem fim do deserto californiano.


"Breakdown" lida assim com uma história que muito facilmente se podia banalizar nos estereotipos e convenções de Hollywood. Simplesmente tal não acontece, e Mostow consegue manter o material à superfície, mercê de uma utilização bem doseada do suspense, e ao desenvolvimento de uma narrativa lógica a partir de uma situação que, como é apresentada, parece demasiado real e nos leva a recear certos veículos que connosco se cruzam nas estradas.


Descendente directo de "Duel", a brilhante estreia de Spielberg, e lembrando por vezes "Deliverance", de John Boorman, este "Breakdown", produzido pelo italiano Dino de Laurentis, é um road movie que se assemelha aos westerns de antigamente mas é, sobretudo, um eficaz divertimento, de contornos hitchcockianos onde a música de Basil Poledouris e a montagem non-stop, sempre em crescendo, têm um contributo decisivo. Kurt Russell também é fundamental para o êxito do projecto, ao interpretar convincentemente um citadino envolvido numa situação a que não está habituado e onde tem de lutar pelo resgate da mulher e pelas suas próprias vidas. Ponham os cintos de segurança e deixem-se levar por esse deserto fora...