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quarta-feira, julho 02, 2025

THE DEAD ZONE (1983)

ZONA DE PERIGO
Um Filme de DAVID CRONENBERG



Com Christopher Walken, Brooke Adams, Herbert Lom, Tom Skerritt, Anthony Zerbe, Martin Sheen, etc.
 
EUA / 103 min / COR / 16x9 (1.85:1)
 
Estreia nos EUA a 21/10/1983
Estreia em Portugal (Lisboa) a 16/2/2006 (cinemateca portuguesa)



Johnny Smith: “If you could go back in time to Germany, before Hitler came to power, knowing what you know now, would you kill him?”

Fui desde sempre um grande apreciador do cinema de David Cronenberg, esse realizador canadiano nascido em Toronto a 15 de Março de 1943, que gosta de usar o corpo humano como matéria prima ideal para a moldagem dos seus filmes. Este “The Dead Zone” não será um dos mais representativos desse cinema mas consegue envolver-nos numa atmosfera psicológica bem delineada, onde não será alheia a paisagem invernal em que decorre toda a acção do filme. Apesar do próprio Cronenberg ter lamentado o facto de a versão em video possuir um tom demasiado claro, penso que a brancura da neve contribui decisivamente para a criação dessa atmosfera que é uma característica fundamental de “The Dead Zone” e uma das razões porque eu gosto tanto deste filme.
 
Adaptado de uma novela de sucesso de Stephen King, “The Dead Zone” conta-nos a curiosa história de um professor, Johnny Smith (Christopher Walken), que um acidente de viação irá atirar para um coma profundo de cinco anos na cama de um hospital. O despertar, que para Johnny é como se fosse o dia seguinte, traz-lhe a revelação da dura realidade: encontra-se praticamente paralizado da cintura para baixo e Sarah (Brooke Adams), a mulher com quem estava para se comprometer nas vésperas é agora casada e mãe de uma criança. Pouco depois Johnny descobre em si próprio a estranha capacidade de visualizar acontecimentos passados ou futuros que lhe ocasionam insuportáveis dores de cabeça, acompanhadas por uma sensação que ele próprio descreve como a de uma “morte antecipada”.
 
Com o passar do tempo Johnny volta a conseguir andar, embora com dificuldades, e aprende a usar o seu novo dom para alterar o destino e evitar assim que certos acontecimentos trágicos se venham a concretizar, nem que para tal seja necessário sacrificar a própria vida. Cronenberg sempre se sentiu atraído pelo corpo humano e o modo como esse corpo nos pode eventualmente afectar ou mesmo destruir. Em “The Dead Zone” essa obsessão continua, se bem que vista agora por um prisma ligeiramente diferente – não temos aqui nenhum vírus ou parasita, o habitual horror é desta vez substituído pela fragilidade, a qual progressivamente se vai apoderando do corpo de Johnny Smith.
 
Como habitualmente Cronenberg sente-se confortável na adaptação de outras histórias que não as suas, o que o torna menos indulgente e mais linear no modo de as filmar. Essa linearidade de processos, a sua montagem fluida, invisível, confortam a fé do espectador naquilo que lhe é dado a observar. Nada de magia ou atmosferas góticas, é a estrutura narrativa que conduz o espectador à inquietude fundamental de observador. “The Dead Zone” é, segundo o próprio realizador, um filme essencialmente sobre perda e sacrifício, o que não o impede de constituir também um excitante thriller, feito com mestria e inteligência, e recheado de cenas que por certo perdurarão na memória dos apaixonados deste género de cinema.
 
CURIOSIDADES:
 
- A novela de Stephen King, onde o filme é baseado, inspirou-se de facto num personagem real, o físico Peter Hurkos, o qual alegava que os seus poderes lhe tinham aparecido após uma queda de um escadote em que teria batido com a cabeça no chão

- O trecho do poema que Johnny lê aos seus alunos no início do filme é a parte final de “The Raven”, da autoria de Edgar Allen Poe

- Os intervenientes na sequência da 2ª Guerra Mundial falam todos em polaco

- David Cronenberg foi premiado por este filme nos Festivais de Avoriaz (França) e de Fanta (Itália). Por sua vez, “The Dead Zone” foi considerado o melhor filme de horror de 1983 pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Film dos EUA.


terça-feira, junho 14, 2011

L'ARGENT (1983)

O DINHEIRO
Um filme de ROBERT BRESSON

Com Christian Patey, Vincent Risterucci, Caroline Lang

FRANÇA-SUÍÇA / 85 min / COR / 
4X3 (1.66:1)

Estreia em FRANÇA a 18/5/1983
(Festival de Cannes)
Estreia em PORTUGAL a 19/9/1983
(Cinemateca Portuguesa)
Estreia nos EUA a 24/9/1983
(Festival de Nova Iorque)


«Nem realizador nem cineasta. Esquece que fazes um filme.
Quando filmo, não realizo nada. Agarro o real, bocados do real, que, depois, disponho em conjunto numa certa ordem.»
(Robert Bresson à l’Express, 23/XII/1959)

Aos 82 anos Robert Bresson despedia-se do cinema com este filme. A sua carreira, iniciada tardiamente nos princípios dos anos 40 (o realizador e argumentista francês nasceu em Auvergne, a 25 de Setembro de 1901) abrangeria um total de apenas 13 longas-metragens, todas elas filmadas de forma muito personalizada, em que o recurso a uma mise-en-scène simples e austera, quase conventual (Bresson foi sempre profundamente religioso) se tornou na imagem de marca do seu trabalho. Este “L’Argent” não é diferente, antes reflecte toda a coerência do cinema de Bresson:
- Enquadramentos em planos aproximados e, mesmo, muito aproximados (em que no entanto os verdadeiros grandes planos são muito raros) que nos apresentam as personagens em partes dos cenários que as envolvem, e que insistem em mostrar ao espectador apenas aquilo que essas personagens vêm ou tocam («um só olhar desencadeia uma paixão, um assassínio, uma guerra. É  a força ejaculadora do olhar. E montar um filme é ligar as pessoas umas às outras e aos objectos, através dos olhares»).

- Uma fotografia clássica, orientada e cuidada, como tantas outras que disponham de um bom técnico atrás da câmara mas evidenciando-se por respeitar profundamente a história que pretende contar («a pintura ensinou-me que o que havia a fazer no cinema não eram imagens belas mas sim imagens necessárias. São como as palavras de um dicionário, só têm poder e valor pelas suas posições e relações»).

- Uma importância central conferida aos sons, em detrimento da música («Quando um som pode substituir uma imagem, esta deve ser suprimida. Um som nunca deve vir socorrer uma imagem, nem uma imagem socorrer um som. É preciso que os ruídos se tornem música. Mas só devem ser usados depois de se esgotar tudo o que se tem a dizer pela imobilidade e pelo silêncio»).

- Actores não profissionais que practicamente não representam, e que parecem a cada instante debitarem monocordicamente as suas deixas, como se falassem apenas para eles próprios («não se trata de representar “com simplicidade” ou representar “com intensidade”, mas de não representar de todo. Quando penso num filme, quando o escrevo e me vêm dizer: devia contratar um actor... É evidente que o que eu estou a escrever falhava completamente, se contratasse um actor, devia recriar tudo, transformar tudo, porque o que vai fazer o actor implicaria uma escrita totalmente diferente»).

Todos estes elementos se encontram neste derradeiro filme de Bresson. Como sempre se encontraram nos seus outros filmes também. Não há que enganar: se por acaso nos ocultassem qualquer informação sobre o filme que iríamos ver, bastavam escassos minutos para sabermos estar diante de uma obra de Bresson. A isso se chama um autor, na verdadeira acepção da palavra.

“L’Argent” esteve quase para não se fazer devido a problemas financeiros. Como nenhum produtor queria correr riscos desnecessários, o filme acabou por ser subsidiado pelo Estado francês. Jack Lang, o ministro da cultura dessa altura acabou por dar luz verde ao projecto, na condição que a sua própria filha tivesse um papel no filme. Bresson não teve outro remédio senão aceitar os termos propostos para poder realizar o seu filme. A filha do ministro é Caroline Lang, que interpreta Elise, a mulher do personagem central, Yvon Targe (Christian Patey). Baseado livremente num conto de Leo Tolstoy (“Faux Billet”), “L’Argent” evoca no entanto muito mais o universo de Dostoievski. Yvon faz-nos lembrar o Michel de “Pickpocket”, ambos trangressores da lei vigente. Mas enquanto este é o agente responsável por essa transgressão, o Yvon de “L’Argent” é alguém inofensivo que no entanto se deixa imergir numa espiral de acontecimentos que fatalmente o irão conduzir ao crime e à tragédia. Uma tragédia no sentido mais clássico, visto que Yvon (como todos à sua volta) é empurrado por um acaso que não controla nem consegue prever as consequências.

Bresson despede-se do seu público com um filme absolutamente negro, sem o vislumbre de qualquer esperança ou redenção (em contraste com a fotografia clara e luminosa de Pasqualino De Santis). É um ataque em força a um mundo regido pelo dinheiro e pelos falsos valores, onde se publicitam os luxos em capas de revistas. Já não existe lugar para os valores reais, apenas para as aparências e o supérfluo. Lucien (Vincent Risterucci), outra das personagens centrais do filme, funde-se com essa sociedade do seu tempo – uma sociedade sem escrúpulos, sem outra motivação que não a satisfação imediata de ambições e desejos. Ele mente, engana, rouba, numa simbiose perfeita com um mundo onde tudo se vende e tudo se compra. E é por causa da indiferença e do egoísmo das pessoas, que Yvon se irá transformar num criminoso depois de se ver vitimizado numa engrenagem onde reina a falsidade e o oportunismo. Yvon, o inocente, combate o Mal com um Mal ainda maior e sobretudo mais hediondo - porque a sua vítima, a Senhora dos Cabelos Grisalhos, é a única personagem de "L'Argent" que nos é apresentada como desprendida de obrigações monetárias para com a vida. Já reformada, entre ela e o dinheiro apenas existe o vínculo da sobrevivência.

Bresson dá-nos a contemplar esse caminho trágico do mal, como uma corrente que atravessa as sociedades dos nossos dias. E fá-lo, como sempre, à sua maneira muito peculiar, em que cada plano apresenta uma evidência desconcertante, como se não pudesse ser filmado de outra maneira. “L’Argent” foi nomeado para a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1983 e Robert Bresson foi distinguido nesse ano como o melhor realizador do certame, em parceria com Andrei Tarkovsky (pelo filme “Nostalgia”). A partir daqui o realizador retirar-se-ia do mundo do cinema, depois de não ter conseguido obter os apoios necessários à concretização dum projecto antigo sobre o Livro do Genesis. Viria a falecer em Paris, a 18 de Dezembro de 1999. Tinha 98 anos.