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sábado, junho 28, 2025

RAGTIME (1981)

Um filme de MILOS FORMAN



Com James Cagney, Howard E. Rollins Jr., Elizabeth McGovern, Brad Dourif, Moses Gunn, Kenneth McMillan, Pat O’Brien, Mary Steenburger, James Olson, Mandy Patinkin, Debbie Allen, Donald O’Connor, Norman Mailer, Jeff Daniels, etc.

EUA / 155 min / COR / 16X9 (2.39:1)


Estreia nos EUA: 1981, Novembro 20
Estreia em Portugal (Lisboa): 1982, Maio 6





“Ragtime” é o elo perfeito, o casamento feliz e duradouro entre a música de Randy Newman e a cinematografia de Milos Forman. Desse conjunto harmonioso, a partitura musical tem a sua autonomia assegurada, conseguindo existir por si própria. Sobrinho de Alfred Newman (1900-1970), um compositor reconhecido em Hollywood pelas muitas bandas-sonoras que compôs para o cinema, Randy Newman ficará na história da música mais por causa dos seus discos de música popular do que propriamente pela meia-dúzia de vezes que se aventurou por trilhos cinemáticos. “Ragtime” é a excepção que confirma a regra: uma banda-sonora arrebatadora que confere ao filme de Milos Forman  uma força enorme. Valeu-lhe a nomeação para dois Óscares de Hollywood (música e canção, "One More Hour"), mas perderia para Vangelis (“Chariots of Fire”) e Burt Bacharach (“Arthur’s Theme”), respectivamente.



Milos Forman (1932-2018), checo por nascimento (Cáslav, 18 de Fevereiro), perdeu os pais ainda criança, que vieram a morrer em campos de concentração nazis (o pai em Buchenwald, a mãe em Auschwitz). Educado por familiares, começou mais tarde a frequentar a Academia do Filme de Praga, realizando os seus principais filmes entre 1964 e 1967: “O Ás de Espadas”, “Os Amores de Uma Loura” (nomeado para o Óscar de melhor filme em língua estrangeira) e “O Baile dos Bombeiros”, nos quais começou a introduzir um estilo de humor muito próprio. Quando no Verão de 1968 a chamada “Primavera de Praga” é interrompida pela invasão das forças do Pacto de Varsóvia, Forman encontra-se em Paris negociando a produção do seu primeiro filme americano. 



Os directores do estúdio checo para o qual ele trabalhava resolvem demiti-lo, alegando que Forman se encontrava fora do país ilegalmente. Forman decide então não voltar ao seu país e viaja para os EUA, onde fica hospedado no célebre Hotel Chelsea, sem que lhe seja cobrada a estadia durante um ano. Consegue finalmente emprego como professor de cinema na Universidade da Columbia. Em 1971 estreia o primeiro filme rodado em solo americano, “Taking-Off”, que vem a vencer o Prémio especial do Júri do Festival de Cannes. Quatro anos depois chega a consagração total com o filme “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, que ganha os 5 Óscares principais: Filme, director, actor principal (Jack Nicholson), actriz principal (Louise Fletcher) e argumento-adaptado (Bo Goldman e Laurence Hauben). A reputação de Forman na indústria do cinema americano é assim consolidada, e um ano depois adquire a nacionalidade americana.



Ao longo da sua carreira, que não é muito vasta, Milos Forman assinaria outros filmes importantes, “Hair” (1979), “Amadeus” (1984), de longe o seu filme mais premiado, com 8 Óscares, 2 Globos de Ouro e 4 Baftas, entre muitos outros troféus em todo o mundo, “Valmont” (1989), “Larry Flynt” (1996) ou “Homem na Lua” (1999). “Ragtime” viria a ter 8 nomeações para os Óscares e 7 para os Globos de Ouro, mas não venceria em qualquer categoria. Uma injustiça das grandes, uma vez que “Ragtime” é provavelmente (pessoalmente tenho essa opinião) o melhor filme de Milos Forman. Tinha 48 anos quando o realizou, mais onze do que Randy Newman, nascido em 28 de Novembro de 1943.



Milos Forman tomou aparentemente uma decisão básica logo no início da produção do romance best-seller de E. L. Doctorow. Decidiu deixar de lado a confusão caleidoscópica de pessoas, lugares e coisas do livro e  concentrar-se apenas numa das várias narrativas. Em vez de contar dezenas de histórias, “Ragtime” segue principalmente a história de Coalhouse Walker Jr. (Howard E. Rollins Jr.), um pianista negro que insiste que a justiça seja feita após ser insultado por alguns bombeiros voluntários, que lhe danificam o carro. É a sequência preferida do realizador e muito provavelmente a que o fez realizar o filme. Forman refere as circunstâncias pelas quais Coalhouse entra e afecta a vida de uma família do interior do estado de Nova York na primeira década do século. A família mora em White Plains, numa vasta e arejada mansão antiga, e é composta por pai (James Olson), mãe (Mary Steenburger) e irmão mais novo (Brad Dourif), para além de um avô e um filho pequeno.



Logo no início do filme seguimos o despertar da paixão desse irmão pela corista Evelyn Nesbit (Elizabeth McGovern). Isso antes da saga de Coalhouse Walker alterar a sua vida. Coalhouse (uma actuação fabulosa de Howard E. Rollins Jr., que eclipsa todo o restante elenco) conhece a família por acidente, ou talvez pelo destino. Uma jovem negra dá à luz o filho de Coalhouse, e então a família acolhe a mulher e o filho, contratando-a como empregada doméstica, devido à alternativa ser a prisão para a jovem e o envio do recém-nascido para uma instituição. Coalhouse vem visitá-los. Ele quer casar-se com a mãe do seu filho, uma vez que já ganha dinheiro suficiente para os sustentar. Tudo está pronto para a cerimónia, quando acontece o que já se referiu, o incidente com os bombeiros, que vem alterar tudo. Enfurecidos pelo facto de um homem negro possuir o seu próprio automóvel, um moderno Modelo T, bloqueiam a passagem do carro em frente à estação. Quando Coalhouse abandona o local para ir chamar a polícia, os homens decidem divirtir-se, espalhando esterco de cavalo no banco da frente do carro. E Coalhouse não consegue descansar e ficar bem com a sua consciência até ver todos os danos restaurados pelos próprios bombeiros. Para piorar a situação, a mulher com quem pretende casar vem a falecer em consequência de uma agressão bárbara, quando ingenuamente procurava ajuda junto aos eleitores brancos de um novo presidente. A história desenvolve-se rapidamente por entre os aspectos raciais próprios daquela época (não esquecer que estamos nos inícios do século XX) e Coalhouse barrica-se na Biblioteca Morgan de Nova Iorque, impondo as leis do (seu) jogo.

A biblioteca é cercada por forças policiais, lideradas pelo comissário Rhinelander Waldo (James Cagney) e a tensão vai sendo sempre crescente até ao trágico epílogo, que eclode após a ordem de disparar. Os companheiros de Coalhouse conseguem escapar, mas ele será abatido sem dó nem piedade, de modo a que a sua história não chegue aos tribunais. Percebe-se bem a razão pela qual Milos Forman optou pela história de Calhouse Walker Jr., em detrimento de todas as outras que compõem o livro original e que só são abordadas na sua relação com o tema principal. O que Forman pretendeu foi fazer um filme não apenas sobre o racismo branco (embora o lado liberal também seja abordado), mas sobretudo um filme sobre o orgulho e a raiva de se ser negro naquele princípio de século. 



O grande trunfo de "Ragtime" está sobretudo no naipe dos grandes actores escolhidos, especialmente Howard E. Rollins Jr. (1950-1996) no papel de Calhouse, que acompanhamos em diversas matizes, que vão do amor romântico e juvenil a um grito dilacerante: «Senhor, por que me encheste de tanta raiva?» Depois temos ainda Mary Steenburgen, uma mãe de voz clara e ética, que surpreende a todos com as mais variadas tomadas de posição; Pat O'Brien com duas óptimas cenas como um advogado corrupto e cansado do mundo ou Kenneth McMillan como o odioso e cobarde chefe dos bombeiros. «As pessoas dizem-me que você é nojento», chega a dizer-lhe James Cagney, num papel que se revelaria o último da sua gloriosa carreira no cinema. Morreria alguns anos depois, a 30 de Março de 1986, com 86 anos.



“Ragtime” é um filme magnífico e esplenderoso, que retrata todos os seus personagens com grande clareza. Entendemos a posição de cada um e, na maioria das vezes, até sabemos o porquê. Forman cerca-os com alguns dos outros personagens do romance de Doctorow (incluindo Harry Houdini, Teddy Roosevelt ou o arquiteto Sanford White), mas no filme eles são apenas uma atmosfera, uma fachada. A decisão de Forman se centrar na história de Coalhouse é assim totalmente justificada, porque para além dele ser exímio a contá-la aos espectadores, é na verdade o núcleo mais importante de toda a narrativa original.

CURIOSIDADES:

- O produtor do filme, Dino de Laurentis, solicitou a Milos Forman que incluísse um nome importante no casting, o que facilitaria a venda do filme, sobretudo na Europa. Forman recordou-se que James Cagney o tinha convidado recentemente para o ir visitar à sua propriedade e Forman anteveu a possibilidade de vir a contratar o célebre actor que se encontrava retirado há cerca de 20 anos. Cagney não o reconheceu de início, mas ao saber que Forman tinha realizado o filme “Hair”, lembrou-se  de algo que tinha guardado sem entender muito bem a razão: era o poster original da apresentação de “Hair” na Broadway. Ofereceu-o a Forman e este disse-lhe que era um sinal para que  viesse a participar no seu filme. O actor acedeu, com a condição de fazer um test-screen e de não assinar qualquer contrato. Assim foi, e no fim ficaram todos a ganhar.

- Milos Forman contratou Donald O'Connor a pedido de James Cagney. O'Connor estava com problemas pessoais e profissionais, e Cagney queria ajudá-lo.

- Uma sequência de cerca de dez minutos no Lower East Side, com a activista social Emma Goldman, foi cortada da versão final, por influência directa do produtor e do escritor do livro. Nessa sequência, Goldman leva Evelyn Nesbit de volta ao seu apartamento, explica suas preocupações com mulheres que usam roupas íntimas restritivas, tira-as a Nesbitt e tenta recrutá-la para a causa socialista. No blu-ray do filme a sequência, a preto e branco (não existia um negativo a cores) está incluída como extra, e Forman sempre se arrependeu de ter cedido. Tinha toda a razão, uma vez que a sequência é bem esclarecedora da moralidade daqueles tempos.



- Mary Steenburgen estava grávida durante as filmagens. Ass roupas antigas usadas pela actriz escondiam a gravidez.

- Da duração de duas horas e trinta e cinco minutos do filme, 49 minutos são musicais. O álbum da banda sonora inclui 13 minutos de música inédita no filme. Isso implica que Randy Newman compôs mais de uma hora de música apenas para vê-la cortada. Uma canção, "Change Your Way", deveria ser cantada por Scatman Crothers nos créditos iniciais, mas a cena nunca foi filmada. A música pode ser ouvida no álbum da banda sonora, cantada por Newman. Quem estiver interessado, pode fazer o respectivo download aqui: 

https://ratosreturn.blogspot.com/2024/11/randy-newman-ragtime-ost-1981.html

- O filme é notável por apresentar vários actores para os quais esta foi uma das suas primeiras aparições num filme americano: Samuel L. Jackson , Debbie Allen , Jeff Daniels , Andreas Katsulas, Ethan Phillips , Elizabeth McGovern , Stuart Milligan e John Ratzenberger .










sábado, fevereiro 22, 2014

BLOW OUT (1981)

EXPLOSÃO
Um Filme de BRIAN DE PALMA


Com John Travolta, Nancy Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, etc.

EUA / 107m / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 24/7/1981
Estreia em PORTUGAL a 30/4/1982 (Lisboa, cinemas Alfas, Berna e Mundial)



Por esta altura, Brian De Palma tornava-se mais descarado – provavelmente por estar já farto das acusações de plágio aos filmes de Hitchcock – e inclui no seu filme referências mais que óbvias a outros universos fílmicos. Se bem que tenha referido, numa entrevista, que a inspiração para “Blow Out” lhe apareceu durante a montagem de “Dressed To Kill” (a sua obra imediatamente anterior), a verdade é que, para além do mestre do suspense, sempre presente (veja-se por exemplo a sequência das cabines telefónicas, decalcada de “North By Northwest”), De Palma não hesita em socorrer-se de filmes conhecidos, como “The Conversation” (1974), do seu amigo Francis Coppola ou, sobretudo “Blow-Up” (1966), de Michelangelo Antonioni para escrever e dirigir o seu próprio filme. É aliás este último clássico do realizador italiano que está sempre presente. Troque-se a imagem pelo som e as semelhanças são de facto inequívocas.


Mas será que, no fim de contas, podemos perdoar mais esta acção de “plágio” ao realizador americano? Sinceramente acho que sim, porque apesar de se ter apropriado de todas essas ideias alheias, De Palma consegue criar um interessante thriller, ágil e desenvolto, de tensão constante, que resiste muito bem a múltiplas visões. E quando isso acontece, a razão não se prende com a curiosidade do espectador – que já sabe como aquilo irá acabar – mas sim com o modo como a história nos é contada. Consequentemente, é a mestria do realizador que vem ao de cima, ao conseguir despertar-nos interesse para além do enredo propriamente dito, bastando para tal o rigor da mise-en-scène. Ou seja, a Brian De Palma interessa fundamentalmente pegar numa situação e desenvolvê-la, até dela ter extraído todas as potencialidades dramáticas. E é nesse terreno, estritamente cinematográfico, onde a expressividade da imagem (e do som) ganha uma força preponderante, que sobressai o melhor do cinema de De Palma.


Jack Terry (John Travolta) é um sonoplasta que trabalha num pequeno estúdio, especializado em filmes de terror de série B. Possui um vasto arquivo de sons que vai usando aqui e ali para sonorizar certas passagens dos filmes. “Blow Out” inicia-se no visionamento de uma sequência de um desses filmes (onde parece ter havido o cuidado de implantar o maior número possível de clichés por frame), em que os técnicos não conseguem encontrar o grito adequado para colocarem na boca da personagem que vai ser esfaqueada em mais uma “cena do chuveiro”. As audições sonoras sucedem-se mas cada uma é pior que a anterior. Impaciente, Jack resolve dar um passeio nocturno para descontrair, aproveitando para adicionar mais alguns sons à sua colecção.


Nessa deambulação, de contornos algo voyeuristas, Jack testemunha um acidente em que uma viatura se despenha da ponte existente sobre o lago onde se encontra. Atira-se à água, mas só tem tempo de resgatar um dos ocupantes, uma jovem, que iremos saber tratar-se de Sally (Nancy Allen, na altura mulher de Brian De Palma), uma espécie de “prostituta de ocasião”, um engodo usado por um proxeneta, Manny (Dennis Franz) para chantagear figuras públicas. Já no hospital, Jack fica a saber que a vítima mortal era o candidato a Governador com mais possibilidades de vir a ser eleito. Evocando uma questão moral, o responsável pela campanha tenta abafar o caso, convencendo Jack a testemunhar que no carro sinistrado não se encontrava nenhuma mulher. Com alguma relutância Jack acede ao solicitado, mas pouco depois vem a descobrir que as coisas não são tão simples assim e que o acidente foi premeditado, na tentativa concretizada de se assassinar o candidato.


Perante a hostilidade que o ameaça (a ele e a Sally, ligados entretanto por uma cumplicidade de cambiantes amorosas), Jack inicia uma investigação por sua conta e risco, que o leva a reunir várias fotografias do “acidente”, surgidas na imprensa, adicionando ao pequeno filme daí extraído o som registado no gravador. A partir daqui é a fuga para diante, com o assassino (John Lithgow) na sua peugada, determinado a eliminar qualquer testemunha do crime. Brian De Palma faz que cada situação despolete outras, num clima crescente de inquietação, que termina com a morte de Sally e o aproveitamento do seu derradeiro grito para a dobragem da “cena do chuveiro” do filme de terror do início. «É um bom grito…, é um bom grito...», vai repetindo Jack ao acompanhar a montagem.


“Blow Out” é a prova clara de que o chamado “plágio” não deverá ser antecipadamente censurado. Na verdade, somos todos influenciados pelo passado, quer o queiramos quer não. O que realmente importa não é o que se copia, mas como se copia. Há quem o faça bem, há quem o faça mal. Brian De Palma situa-se sem qualquer dúvida no primeiro caso. Pegou em (boas) ideias constantes em filmes anteriores e desenvolveu-as, dando-lhe o seu cunho muito pessoal. Não vejo qualquer problema nisso. Porque, no fim, foi o cinema que ficou a ganhar: “Blow Out” é um filme muito agradável de se seguir, onde o visual se sobrepõe à lógica narrativa. De Palma estabeleceu há muito as regras do seu cinema e cumpre-as mais uma vez.


CURIOSIDADES:

- John Travolta sofria de insónias na altura da rodagem do filme, o que de algum modo o ajudou a protagonizar a personagem de Jack Terry (por coincidência – ou talvez não – os dois nomes iniciam-se pelas mesmas letras, “J” e “T”)

- Foi por causa deste filme que Quentin Tarantino (admirador confesso do cinema de Brian De Palma) ofereceu um dos papéis principais de “Pulp Fiction” (1994) a John Travolta







quinta-feira, novembro 14, 2013

THE FRENCH LIEUTENANT'S WOMAN (1981)

A AMANTE DO TENENTE FRANCÊS
Um Filme de KAREL REISZ


Com Meryl Streep, Jeremy Irons, Leo McKern, Hilton McRae, Emily Morgan, Charlotte Mitchell, Lynsey Baxter, Peter Vaughan, etc.
 
GB / 124 min / COR / 16X9 (1.85:1)
 
Estreia na GB em Agosto de 1981
Estreia nos EUA a 18/9/1981
Estreia em PORTUGAL a 25/12/1981
(Lisboa, cinema S. Jorge)

 

Sarah: «I am the French Lieutenant's... whore»


Há já algum tempo que não passava pela FNAC. Esta semana, no Cascais Shopping, tive uma agradável surpresa pela qual aguardava há muito: a edição portuguesa em DVD de “A Amante do Tenente Francês”, filme que nunca mais me saíu da memória, desde que o vi no écran do cinema S. Jorge nos princípios dos anos 80. Data desta altura a minha paixão por Meryl Streep, paixão essa que ao longo dos anos foi murchando pouco a pouco, aliás como toda a boa paixão que se preze. Mas aqui a actriz ainda continuava em estado de graça, depois de ter protagonizado a inesquecível série “Holocausto” (recentemente também disponível em Blu-ray), aparecido fugazmente no “Manhattan” de Woody Allen e assumido papeis relevantes em “The Deer Hunter / O Caçador” (1978) e “Kramer vs. Kramer” (1979). Este seu duplo desempenho como Sarah/Anna seria o arranque a sério para uma carreira fulgurante, mantendo-se ainda hoje como uma das suas prestações mais inesquecíveis.


“The French Lieutenant’s Woman” é baseado num conhecido e homónimo romance do britânico John Robert Fowles (1926-2005), escritor cuja obra é por norma situada entre o modernismo e o pós-modernismo. Harold Pinter (1930-2008), outro britânico célebre (Prémio Nobel da literatura em 2005), escreveu o argumento do que a princípio parecia um romance infilmável, e Karel Reisz (1926-2002), também britânico, mas de ascendência checa, passou para o celulóide as duas histórias da obra, publicada pela primeira vez em 1969. À semelhança desta, em que Fowles aborda os amores proibidos da Inglaterra vitoriana segundo a perspectiva cultural dos anos 60, também o filme vai evoluindo entre as duas épocas, ao introduzir um filme dentro do filme. Mike (Jeremy Irons) e Anna (Meryl Streep) são dois actores que mantêm uma relação de adultério, ao mesmo tempo que vão vivendo uma outra história de amor fictícia (localizada em 1897), nos personagens de Charles e Sarah.


Charles Smithson é um naturalista amador, seguidor das teorias darwinianas, que divide as suas atenções entre o estudo de fósseis e a corte à sua noiva, Ernestina Freeman (Emily Morgan), filha de um rico homem de negócios, e com quem planeia casar-se em breve. Mas um dia conhece Sarah Woodruff (belíssima sequência no paredão do cais, a culminar naquele icónico close-up de Streep) e tudo se altera. Sarah é uma mulher independente, mas estigmatizada por um escandaloso (pelos padrões da época) relacionamento com um tenente da marinha francesa chamado Varguennes, que é casado, e que a teria abandonado depois dela se servir. A população de Lyme, onde a acção se situa, chama-lhe “a tragédia”, ou, ainda pior, “a puta do tenente francês”. É toda essa aura misteriosa que envolve Sarah, aliada ao seu ar frágil e desprotegido, que intriga Charles, vindo a despertar nele uma curiosidade crescente por aquela mulher solitária e proscrita. Pouco a pouco, através de alguns encontros furtivos, a atracção instala-se entre os dois, transformando-se, rápida e naturalmente, numa forte ligação amorosa.


Como não podia deixar de ser (para ser fiel à ideia central do romance de Fowles), Karel Reisz apresenta-nos todo o seu filme em montagem paralela, em que a ficção se confunde com a realidade, entrelaçando-se as duas histórias de amor nos percursos vividos pelos duplos personagens. Daqui resulta um momento único e apaixonante do cinema romântico, meticulosamente construído, e magistralmente servido pelas interpretações brilhantes de Irons e, sobretudo, Meryl Streep, a qual, nunca é demais dizê-lo, tem aqui um desempenho inolvidável, que chega a roçar a perfeição, num jogo de expressões e emoções raramente visto em cinema. A actriz ganharia o BAFTA inglês e o Globo de Ouro na categoria drama, mas perderia o Oscar para Katharine Hepburn (pelo filme “On Golden Pond / A Casa do Lago”). Dá para acreditar?
 

A música de Mozart faz sobressair a excelente cinematografia de Freddie Francis, e o filme está recheado de sequências inesquecíveis, como a já citada cena do paredão, o monólogo de Sarah a contar a sua história a Charles ou aquela única noite de amor vivida no quarto de hotel de Exceter. Dos três finais que Fowles apresenta no seu romance, dois deles são aqui usados para finalizar o filme. Não são alternativos, mas ocorrem como tudo o resto em simultâneo, permitindo ao espectador, tal como ao leitor do livro, uma escolha pessoal, de acordo com a sua sensibilidade e posicionamento. A opção é, uma vez mais, entre a ficção e a realidade. Mas onde começa uma e termina outra?

CURIOSIDADES:

- Nos anos 70 foi feita uma primeira tentativa de adaptação do romance ao cinema (a interpretação estaria a cargo de Vanessa Redgrave), mas a dificuldade de se escrever um guião credível acabou por abortar o projecto.
 
- Chama-se "Cobb" o paredão do cais de Lyme, onde decorre aquela sequência com Sarah, no meio das ondas a rebentarem à sua volta. Pela perigosidade da situação Meryl Streep não participou das filmagens, pertencendo a um dos directores artísticos a silhueta que se vê ao longe. Foi em estúdio que depois foram filmados os magníficos close-ups, que se tornariam na imagem de marca do filme.


quinta-feira, outubro 31, 2013

Ms. 45: ANGEL OF VENGEANCE (1981)

VINGANÇA DE UMA MULHER
Um filme de ABEL FERRARA



Com Zoë Tamerlis, Albert Sinkys, Darlene Stuto, Helen McGara, Nike Zachmanoglou, Jimmy Laine (Abel Ferrara), etc.

EUA / 80 min / COR / 4X3 (1.37:1)

Estreado nos EUA a 24/4/1981
Estreado em PORTUGAL a 13/11/1981
(Lisboa, cinema Odeon)



She was abused and violated. It will never happen again!

Mais um filme em que o móbil central é o da vingança de uma mulher. À semelhança da história de “I Spit On Your Grave”, a premissa em “Ms 45: Angel of Vengeance” é também uma dupla violação exercida sobre a mesma mulher (fora e dentro de portas). Mas as semelhanças ficam-se por aqui, como adiante se verá. Thana (interpretada pela actriz americana Zoë Tamerlis – ou Lund – nascida em Nova Iorque, a 9/2/1962 de mãe sueca e pai romeno; e falecida em Paris, a 16/4/1999), é uma costureira muda, empregada num atelier nova-iorquino, que num dia azarento é assaltada e violada num beco da cidade; como se tal não bastasse, ao chegar a casa sofre novo assédio sexual por parte de um assaltante que se consegue introduzir no seu apartamento. Do primeiro homem (interpretado pelo próprio Abel Ferrara) não mais se ouvirá falar; mas o segundo acaba morto às mãos de Thana (nome derivado do grego Thanatos, que significa morte), a qual, para se defender, golpeia-o na cabeça com um ferro de engomar. Para se desembaraçar do corpo corta-o em pedaços, colocando-os em diversos sacos de plástico no frigorífico para depois, pouco a pouco, os ir distribuindo pelos caixotes de lixo da cidade.

O argumento prossegue no mesmo tom, centrando-se em episódios mais ou menos sangrentos e traçando uma evolução psicológica demasiado galopante para a protagonista, que de jovem-caldinho-sem-sal passa em apenas meia dúzia de dias a mulher fatal, liquidando uma série de homens que de algum modo se lhe atravessam no caminho, lembrando-lhe não só os actos de que foi vítima mas sobretudo fazendo-a sentir que o seu estado psíquico se está a descontrolar rapidamente. Thana mata para se proteger a ela própria - não tanto como defesa de um qualquer acto iminente mas sim resguardando-se antecipadamente de uma agressão que a sua mente, cada vez mais perturbada, a faz acreditar ser de novo possível. Ou seja, enquanto que em “I Spit On Your Grave” tínhamos uma vingança directa sobre os responsáveis pelas violações, aqui essa vingança exerce-se indiscriminadamente. Não tem um objectivo particular, antes dispara, literalmente, em todas as direcções, percorrendo por várias vezes um caminho que vai da solidão do apartamento de Thana à hostilidade sempre presente nas ruas da cidade, até se consumir, já mergulhada em absoluta irracionalidade, na festa final do halloween.

Abel Ferrara, cineasta independente nascido na Bronx (em 19/7/1951), consegue ultrapassar o argumento um tanto ou quanto linear e superficial, por vezes incongruente, que Nicholas St. John, seu habitual colaborador, lhe atirou para as mãos; e fá-lo de forma convincente, tornando-o num  filme cheio de interesse, por vezes mesmo cativante. O thriller aparentemente banal que “Ms 45: Angel of Vengeance” poderia ter sido, é moldado superiormente por Ferrara, que consegue incutir-lhe um estilo muito próprio, dominando eficazmente o ritmo, os ambientes ou a direcção de actores (a grande maioria não ultrapassa uma confragedora mediocridade, mas são exemplarmente resgatados pela sobriedade e segurança do realizador).

“Ms 45: Angel of Vengeance” é estilisticamente uma obra deveras curiosa e muito sugestiva (Quentin Tarantino que o diga), filmada como se de um filme fantástico se tratasse (Thana faz lembrar uma personagem de banda desenhada), tendo por cenário natural as ruas de Nova Iorque, a um tempo mórbidas e perigosas, como poucos cineastas tiveram o ensejo de as mostrar no grande écran. Por outro lado, Ferrara consegue operar uma transformação vampírica na sua heroína, para quem o crime se torna numa autêntica droga. Acompanhamos a sua descida aos infernos passo a passo (a câmara raramente se afasta dela), assistimos à sua degeneração num monstro frio e mecânico que espalha um ódio visceral pelo género homem com a ajuda de um símbolo fálico por excelência – aquele revólver 45, que paradoxalmente a liberta da timidez inicial para descobrir todo um poder de sedução até então adormecido.

Não se pode falar deste filme mítico sem invocar a mulher por detrás da sua trágica heroína – Zoë Lund, actriz, compositora, pianista, modelo, romancista, argumentista (seria a co-autora de outro filme de Ferrara, “Bad Lieutenant”) e activista política, que infelizmente morreu cedo demais, aos 37 anos, vitimada por uma overdose de heroína. Com uma filmografia escassa (apenas 6 longa-metragens), Zoë Lund, conhecida também como Zoë Tamerlis, tornou-se uma das figuras inesquecíveis do cinema fantástico. A sua beleza, frágil e serena, ficará para sempre ligada às personagens a que deu vida.




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