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quinta-feira, junho 26, 2025

ANTONIONI'S "ZABRISKIE POINT" (1970)

DESERTO DE ALMAS
Um filme de MICHELANGELO ANTONIONI


Com Mark Frechette, Daria Halprin, Rod Taylor, etc.

EUA / 110 min / COR /16X9 (2.35:1)

Estreia nos EUA a 9/2/1970
Estreia em Moçambique (L.M.) a 12/7/1974 (cinema Nacional)
Estreia em Portugal (Lisboa) a 28/4/1978 (cinema Satélite)


Daria: «The radio said somebody stole a plane in L.A. this morning. 
Did you really steal that thing? How come?»
Mark: «I needed to get off the ground»

«Se somos instintivamente levados a fazer causa comum com as rebeliões dos jovens americanos, talvez seja porque nos sentimos atraídos pela sua vitalidade animal natural. Quando em Chicago os adolescentes com mantas sobre os ombros e flores no cabelo são vistos a ser agredidos por homens adultos usando capacetes, ficamos muito perto de formar, sem reservas, uma total aliança com eles» (Michelangelo Antonioni)

Em 1969, Michelangelo Antonioni vai aos Estados Unidos rodar o seu primeiro filme americano. É a época das revoltas estudantis. As manifestações e os ajuntamentos contestatários iniciados em Paris, em Maio de 68, espalharam-se como um rasto de pólvora por toda a Europa e chegaram igualmente à América. No seguimento da escolha de Hubert Humphrey para a candidatura à Presidência, a cidade de Chicago é palco de violentos confrontos entre jovens manifestantes e a Polícia. Antonioni é testemunha ocular destes acontecimentos. A década de 60 está a chegar ao seu termo, após atentados variados (dos Kennedys e Luther King), lutas raciais, revoltas universitárias, a marginalização dos hippies e a guerra do Vietname.

"Zabriskie Point" reflecte essa experiência de Antonioni, e é a sua resposta a uma sociedade marcada pela violência. Um testemunho que coloca no banco dos réus os defensores do regime capitalista. Das paisagens neuróticas do homem moderno cuja descrição povoavam os seus filmes anteriores, Antonioni evolui para um estado radical e revolucionário. Em "Zabriskie Point", ele identifica-se com a juventude americana que quer combater "a América do capital" e coloca-se inequivocamente ao seu lado. É essa juventude e esse combate que as figuras de Mark Frechette e Daria Halprin representam e é através deles que Antonioni nos faz chegar a sua revolta. Uma revolta que no entanto está condenada ao fracasso, pois a violência do sistema impõe sempre a lei do mais forte. Mark acaba baleado pela incompreensão das forças policiais por ter ido devolver a avioneta roubada, devidamente embelezada; e a Daria mais não resta do que a utopia de imaginar a explosão purificadora de uma catarse (o célebre e apocalíptico final ao som da música dos Pink Floyd, onde mobiliário, livros, geladeiras, roupas, vão sendo estilhaçados em mil pedaços).

Apesar dos seus elementos antiamericanos, “Zabriskie Point” é no entanto um filme muito americano. O percurso seguido por Mark e Daria, a sua passagem pelo deserto de Death Valley (outra sequência memorável, desta vez ao som da música dos Grateful Dead) evoca "Easy Rider", de Dennis Hopper (filme muito do agrado de Antonioni), ou algumas dessas viagens de regresso às origens que os westerns tão bem nos souberam proporcionar, ou ainda os textos de Jack Kerouac ou de Sam Shepard (curiosamente, este último é um dos argumentistas do filme). “Zabriskie Point” permanece ainda hoje como uma visão contestatária e muito pop art da América, feita por um realizador que esteve sempre à frente do seu tempo.

CURIOSIDADES:

- O final original do filme era um plano de um avião a desenhar no céu a frase "Fuck You, America". O presidente da MGM, Louis F. Polk não o permitiu

- Durante a pré-produção do filme Antonioni chegou a encontrar-se com Jim Morrison (dos Doors), afim de obter uma contribuição musical. Os músicos apresentaram-lhe o tema "L'America" que no entanto foi rejeitado pelo realizador. Apareceria mais tarde incluido no album LA Woman (1971) da banda

- Harrison Ford chegou a participar no filme mas a cena em que entrava foi cortada. No entanto ainda se pode ver encostado a uma parede na sequência filmada na prisão

- Cerca de cem pessoas (escolhidas entre hippies e actores de uma companhia de teatro)  participaram na chamada "cena da orgia" no deserto de Death Valley. Por causa do filme o local permanece ainda hoje como um ponto de paragem obrigatória para o turismo.

- "Zabriskie Point" foi totalmente interdito em Portugal. No parecer da censura, datado de 10 de Abril de 1970, podia ler-se: "Reprovamos o filme: a revolta da juventude nas primeiras partes e a destruição da civilização na última, são os motivos determinantes. Já não se fala nas cenas pornográficas da 8ª parte, facilmente elimináveis."



- Daria Halprin tinha sido descoberta por Antonioni numa sequência de bailado de um documentário underground chamado Revolution. Depois de ter tido uma relação amorosa com Frechette, e de mais tarde se ter casado (1972) e divorciado (1976) de Dennis Hopper, de quem teve uma filha, afastou-se do mundo do cinema. Em 1978 fundou o "Tamalpa Institute", ainda hoje existente.

- Mark Frechette doou o seu vencimento do filme (60.000 dollars) a uma comunidade de Boston dedicada à astrologia. Chegou a participar em mais dois filmes banais italianos, e depois foi preso quando tentava assaltar um banco. Foi condenado a 15 anos e morreu aos 27 anos na prisão, na sequência de um acidente em que a garganta foi esmagada por um haltere.


segunda-feira, junho 16, 2025

TRISTANA (1970)

TRISTANA, AMOR PERVERSO
Um filme de LUIS BUÑUEL




Com Catherine Deneuve, Fernando Rey, Franco Nero, Lola Gaos, Antonio Casas, Jesús Fernández, etc.


ESPANHA-FRANÇA / 105 min / 
COR / 4X3 (1.66:1)



Estreia em Espanha (Madrid) a 14/3/1970
Estreia em França (Paris) a 29/4/1970
Estreia em Moçambique (L.M.) a 9/3/1972 (cinema Dicca)
Estreia em Portugal (Lisboa) a 13/4/1972 (cinema Londres)



Crianças surdo-mudas brincando na lama, uma linda mulher de joelhos descalçando um velho, uma perna ortopédica esquecida sobre um leito, são imagens que recordam alguns dos mais cruéis quadros de Goya pelos sentimentos que inspiram. Porque Buñuel é desapiedado na sua observação do mundo dos outros: denúncia dos compromissos da igreja, da caridade interesseira, do falso amor romântico. Aqui, a crítica de uma “sociedade ordeiramente desordenada” aparece também como um dos temas fundamentais do trabalho do realizador aragonês, tema cujas fraquezas e grandezas são reveladas em “Tristana”.

O filme é um regresso de Luis Buñuel às suas origens, um ajustamento de contas com a sociedade espanhola esclerosada no respeito pelo passado e moral tradicionais. As pedras cor-de-ocre e castanhas de Toledo, os cafés melancólicos ao estilo fim de século, os rostos solenes dos velhos: cada imagem retém a imensa tristeza das fotografias amarelecidas dos albuns de família. Regressando à Espanha da sua juventude, recriando a sufocante atmosfera da classe média entre as ruas amarelas e os apartamentos uniformemente mobilados, Buñuel empreende uma nostálgica peregrinação de volta ao seu passado e simultaneamente ao arquétipo feminino, que tivera geniais expressões em obras anteriores. Filme que inicia o seu derradeiro período no cinema, os anos setenta, “Tristana” regressa aos elementos indispensáveis absolutos (narrativa rudimentar, direcção sumária), oferecendo ao mesmo tempo um reportório completo de obsessões eróticas, feitichismos e referências ao surrealismo do autor.

Toledo, 1929. Tristana (Catherine Deneuve), uma órfã de 18 anos de idade, vive com o seu tutor Don Lope (Fernando Rey), um velho libidinoso, mas severo, no que resta do que outrora foi uma sumptuosa residência. Don Lope não chora a fortuna esbanjada em prazeres, pois que o seu rendimento ainda lhe permite apresentar-se como um grande senhor. Extremamente sensível em questões de honra, é no entanto bastante tolerante no que respeita à sua própria conduta - aos olhos de Don Lope o desejo justifica qualquer aventura. Ao princípio considera Tristana como filha («minha filha adorada, só te peço que me queiras como a um pai»), mas a jovem é muito bela e inocente, pelo que acaba de ser facilmente seduzida por ele. Don Lope procura ensinar-lhe o poder destrutivo do casamento em relação ao amor (“o cheiro apodrecedor da conjugalidade”).

Tristana escuta a lição mas aplica-a à sua maneira. Desafiando a autoridade caseira, conhece um jovem pintor italiano, Horácio (Franco Nero) por quem se apaixona. Ele oferece-lhe casamento mas Tristana prefere fugir para Itália com o seu novo amante. Depois de alguns anos, sem dinheiro e muito doente, Tristana regressa a Espanha e à casa do seu antigo tutor, que a aceita receber de novo. Para que a infecção não alastre torna-se necessário amputar-lhe uma perna (Alfred Hitchcock, profundo admirador de “Tristana, tinha por hábito dizer a Buñuel, sempre que os dois se encontravam: «Ah, that leg, that damned cut leg»), o que de certo modo agrada a Don Lope, que pensa que assim terá Tristana só para ele.

Após a operação Horácio abandona-a e a personalidade de Tristana altera-se profundamente. Movida por um desejo de vingança, Tristana consegue que Don Lope case com ela, numa subversão total dos seus antigos ideais – Don Lope começa a frequentar a polícia e os sacerdotes, que dantes lhe eram tão detestáveis, consumindo-se progressivamente numa vida sem amor e plena de conformismo hipócrita. Toda essa mudança nas convicções outrora tão arreigadas no espírito do seu velho tutor apenas despertam em Tristana  o mais profundo dos ódios («quanto melhor ele é, mais o odeio», diz ela ao padre). Depois de se ofertar simbolicamente aos prazeres solitários do rapaz surdo-mudo (uma das cenas mais célebres deste filme), Tristana leva a sua vingança até ao fim, abandonando Don Lope aos rigores invernais e à consequente pneumonia que lhe provocará a morte.

Paul Klee disse um dia sobre a pintura: «As telas observam-nos mas, pelo seu olhar, é o artista que nos está a observar». Verdade totalmente aplicável aos filmes, com a particularidade de que o olhar que o realizador poisa sobre nós é mais complexo e mais directo. Frente a Luis Buñuel o mal-estar de certos espectadores é um facto indiscutível, pois a maior parte das vezes pouco ou nada conseguem entender dos seus propósitos. Em “Tristana” o cineasta volta ao tema da agonia e da morte para nos impor a evidência de um mundo em extinção através de dois pólos distintos de uma mesma concupiscência diante da inocência e da virgindade. Don Lope, velho burguês liberal franco-mação, testemunha o fim da sua própria geração. De um humanismo já defunto, revive as etapas do seu fracasso, faz desfilar os fantasmas que povoaram uma existência sem felicidade e vê, ao afastar-se do mundo, como a simplicidade de espírito dobra a esquina das quatro estações da vida.

“Tristana” foi o único dos dez filmes realizados por Buñuel entre 1956 e 1970 cuja exibição foi autorizada em Portugal pelo antigo regime. Por curiosidade refira-se que antes de se decidir por Toledo, Buñuel chegou a pensar rodar o filme em Braga e Viseu. A estreia, ocorrida em Lisboa, no cinema Londres, a 13 de Abril de 1972 (eu vi-o pela primeira vez em Lourenço Marques, onde se estreou no cinema Dicca cerca de um mês antes) despertou um espectacular acolhimento, quer junto da crítica quer junto do público. Foi galardoado com diversos prémios e nomeado para o Oscar do melhor filme estrangeiro de 1971 (o vencedor nesse ano seria o filme de Elio Petri, “Inquérito a um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”). “Tristana” teve assim o mérito de aliciar um grande número de novos entusiastas para o cinema de Luis Buñuel. Foi a porta de entrada para que muitos espectadores pudessem descobrir toda a sua obra. 

Transcrevem-se de seguida alguns parágrafos da auto-biografia de Buñuel, “O Meu Último Suspiro” (Edições Fenda, 2006) em que o cineasta tece alguns comentários sobre “Tristana”: «Ainda que o romance, um romance epistolar, não seja um dos melhores de Galdós, havia muito que me sentia atraído pela personagem de Don Lope. Pensei em Fernando Rey, excelente em “Viridiana”, e numa jovem actriz italiana que me agradava muito, Stefania Sandrelli. Mas apesar de não pertencer de forma alguma ao universo de Galdós, foi com prazer que reencontrei Catherine Deneuve, que me escreveu várais vezes acerca daquele papel. Ainda que, como em “Nazarin”, a personagem principal (acho que Fernando Rey está magnífico naquele papel) seja fiel ao modelo romanesco de Galdós, introduzi alterações consideráveis à estrutura e ao ambiente da obra que voltei a situar, como em “Diário de uma Criada de Quarto”, numa época que eu vivera e em que já se manifestava uma clara agitação social.

Com a ajuda de Julio Alejandro, coloquei em “Tristana” muitas coisas às quais fui sensível a vida inteira, como a torre do sino de Toledo e a estátua mortuária do cardeal Tavera, sobre a qual se inclina Catherine Deneuve. Como nunca voltei a ver o filme, hoje é-me difícil falar dele mas lembro-me de ter gostado da segunda parte, a partir do regresso da jovem mulher a quem acabam por cortar uma perna. Ainda consigo ouvir os passos dela no corredor, o ruído que fazem as muletas e a conversa friorenta dos padres à volta das chávenas de leite com chocolate.»


domingo, agosto 11, 2019

WOODSTOCK (1970)

WOODSTOCK - 3 DIAS DE PAZ, MÚSICA E AMOR
Um filme de MICHAEL WADLEIGH



EUA / 184 min (Director's Cut: 228 min) / COR /16X9 (2.20:1)


Estreia nos EUA a 26/3/1970
Estreia em Moçambique a 24/4/1971
(LM, Teatro Scala)



 

No próximo fim-de-semana faz 50 anos que o concerto histórico de "Woodstock" aconteceu: três dias de paz, música e amor, em que cerca de 500.000 pessoas se reuniram no Verão de 69 numa área de 600 acres de terreno (a fazenda de Max Yasgur, na cidade rural de Bethel, Nova Iorque) para, com um único espírito colectivo, ouvirem alguns dos seus heróis predilectos: Joan Baez, Crosby Stills and Nash, Santana, Joe Cocker, The Who, Janis Joplin, Ten Years After, Canned Heat, Jefferson Airplane, Melanie, Country Joe & The Fish, John Sebastian, Jimi Hendrix... A frase «Não confiem em ninguém com mais de 30 anos.», que foi pela primeira vez usada nos protestos de 1964 pela liberdade de expressão, era na altura um elo de ligação entre os jovens, que desse modo reivindicavam o direito de tomarem a conduta das suas vidas em mãos próprias.

 
 
 


Vale a pena relembrar. Afinal, nenhum outro festival de música teve tanta repercussão e tanta importância como este. Para entender o fenómeno é preciso voltar atrás no tempo. O mundo, e especialmente os Estados Unidos, passava por tempos difíceis de guerra, violência e desilusão. A década de 60, a mais conturbada do século, chegava ao fim, com uma sensação reinante de “e agora ?” no ar. E é nesse clima de final de festa, no último ano da década, que o maior evento de música já realizado encontra terreno fértil para se consolidar.

 
 
 
 
 

O festival foi idealizado e levado a cabo por quatro jovens: John Roberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lang. John era o mais velho dos quatro, tinha 26 anos, e era o herdeiro da fortuna de uma farmácia e de uma fábrica de pasta de dentes. Ele e o seu amigo Joel possuiam um capital para investir e colocaram um anúncio no Wall Street Journal e no New York Times: «Jovens com capital ilimitado procuram oportunidades de investimento legítimas e propostas de negócios interessantes e originais.» Lang e Kornfeld tInham as ideias interessantes e originais, mas não tinham o dinheiro. Os dois pensavam fundar uma gravadora independente especializada em rock, localizada numa cidade afastada de Manhattan chamada Woodstock ou em realizar um festival misto de exposições e música ao vivo. Esta última foi a ideia que acabou por vingar.

 

 
 
 

Vieram de Norte a Sul do Pais. Durante três dias viveram, comeram, dormiram lado a lado para ouvirem a música rock de um geração perdida no tempo - os hippies, uma cultura de gente que apregoava Paz e Amor, no final da «sua» década. O filme "Woodstock", realizado por Michael Wadleigh (com Martin Scorsese como adjunto) e estreado apenas no ano seguinte, em Março de 1970, apresenta-nos os preparativos para o grande concerto histórico: as torres de som, o palco, helicópteros trazendo músicos, as reacções dos habitantes locais bem como a declaração de Woodstock como concerto grátis quando se concluiu que era impossível controlar aquela multidão habituada a não pagar para ouvir música. "Woodstock" mostra-nos a tempestade que alagou os campos mas que não fez desistir aquelas centenas de milhares de espectadores à espera daquele que foi o maior concerto da história. "Woodstock" é um dos pontos altos da tomada de consciência da geração dos anos sessenta nos EUA e, principalmente do movimento de contestação à Guerra do Vietname que viria a culminar na marcha sobre Washington.


 
 
 
 

A música começou na tarde de 15 de Agosto, sexta-feira, às 17:07h e continuou até a metade da manhã do dia 18 de Agosto, segunda-feira. O festival fechou a via expressa do Estado de Nova Iorque e criou um dos piores engarrafamentos da nação. Também inspirou um monte de leis locais e estatais para assegurar que nada como aquilo jamais aconteceria novamente. "Woodstock", como poucos eventos históricos, tornou-se uma espécie de herança cultural, para os EUA e para o mundo. Assim como “Watergate” representa a crise nacional americana, Woodstock é hoje sinónimo do poder dos jovens e dos excessos dos anos 60. «O que nós tivemos aqui foi algo que ocorre uma vez na vida», diz o historiador Bert Feldman. Dickens disse isto primeiro: «Foi o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos.» É uma mistura que nunca será reproduzida novamente.

 
 
 
 
 

O evento tornou-se um verdadeiro ícone da contracultura. A força jovem e a liberdade assustaram os mais velhos e conservadores. As reportagens chegaram na altura a grande parte do planeta, mas em Portugal o festival passou despercebido na imprensa censurada. Apesar do que ficou para a história, "Woodstock" não foi o primeiro grande festival, afinal dois anos antes tinha havido Monterey, onde Jimi Hendrix já tocara, mesmo que fosse a sua prestação em "Woodstock" que tivesse ficado eternizada. O genial guitarrista pegou no hino nacional americano e estilhaçou-o com a guitarra perante os cerca de 25 mil resistentes que na madrugada do último dia ainda lá se encontravam. Devido à impossibilidade de controlo das entradas, "Woodstock" deu um prejuízo gigantesco - mais de 10 milhões de dollars, aos dias de hoje - e se não fosse o sucesso do documentário sobre o festival, os promotores nunca teriam sido capazes de pagar as dívidas. Muitos dizem que "Woodstock" foi o fim de toda a ingenuidade e utopia que cercavam os anos 60. Outros dizem que foi o apogeu de todas as mudanças e desenvolvimento na sociedade. Mas todos concordam que o festival foi um marco incontornável na história da música.

 
 
 
 
 
CURIOSIDADES:

- A montagem do filme teve por base 120 horas de material filmado.

- A edição do realizador, feita em 1994, apresenta pela primeira vez diversas actuações não incluídas na versão estreada nos cinemas: Grateful Dead, Janis Joplin, Jefferson Airplane ou Canned Heat. Outros grupos, que actuaram no festival, nunca apareceram em qualquer versão do filme. Casos dos Creedence Clearwater Revival (estes a pedido expresso de John Fogerty, devido a problemas registados no som, durante a actuação do grupo), Mountain, The Band e Tim Hardin.

- Apesar de ter actuado com Crosby, Stills And Nash, Neil Young não aparece no filme (apenas na banda sonora, nos temas “Sea of Mdness” e “Wooden Ships”). Isso deveu-se a uma birra do cantor e compositor canadiano, que se recusou terminantemente a ser filmado.

- Joni Mitchell foi convidada para participar no Festival, mas o seu empresário não a autorizou a deslocar-se para garantir a sua presença no programa televisivo “The Dick Cavett Show”. Companheira de Graham Nash na altura, Joni compôs depois o tema “Woodstock”, que foi um enorme êxito para os Crosby, Stills and Nash.


- O tema “Freedom”, que tornou a actuação de Richie Havens uma das mais míticas do festival e do filme, nem sequer constava do alinhamento inicial. Foi devido à muita insistência do público que Havens resolveu cantá-la. O cantor já se aguentava há mais de três horas em palco (a pedido da organização que na altura não tinham nenhum outro artista para continuar o espectáculo), com um público entusiasta sempre a puxar por ele. Com o repertório esgotado, Havens, em último recurso, iniciou uma improvisação em torno de um blues tradicional, "Motherless Child", repetindo a palavra 'freedom' como um mantra. Foi o primeiro grande momento do festival.

- Country Joe McDonald foi inopinadamente atirado para o palco, com uma guitarra acústica e sem o seu grupo, os The Fish. E Country Joe entraria para a história da música com um golpe de asa que no momento lhe ocorreu. Transformou a sua canção "Fish Cheer" em "Fuck Cheer" - e assim levou aquele gigantesco anfiteatro humano a gritar um imenso e libertador 'Fuck!'. Foi o segundo momento memorável do concerto.

- Quando o sitarista Ravi Shankar subiu ao palco, pelas 22h do primeiro dia do festival, a chuva apareceu. Quarenta minutos depois, Shankar e os seus músicos saíram de cena, para se abrigarem do aguaceiro. De seguida, os Incredible Sring Band recusaram-se a actuar, alegando falta de condições técnicas e de segurança, o que obrigou os organizadores a forçarem a ida para o palco de Melanie, muito antes do previsto. A jovem cantora folk, que estava com uma tosse nervosa, subiu aterrorizada ao estrado. Sob uma chuva torrencial, mas perante uma enorme audiência rendida ao ambiente místico criado por uma constelação de velas acesas empunhadas pelos espectadores que se encontravam na colina, Melanie dirá mais tarde que, enquanto fazia ouvir a sua voz, vivia uma experiência interior que estava no mesmo comprimento de onda de quem a escutava.

- O pedido de Michael Lang para que os artistas duplicassem o tempo das actuações foram uma bênção para uma banda desconhecida de San Francisco, o grupo de Carlos Santana, que recebeu um dos cachês mais baixos do festival, cerca de 750 dollars. Nos antípodas dos "trocos" que receberam, Santana e respectiva banda, embora chamados de emergência ao palco, puseram o público em transe com o seu rock latino, sustentado por uma secção rítmica poderosa e uma guitarra eléctrica incendiária. A interpretação inesquecível do tema "Soul Sacrifice" é uma das cenas imortalizadas pelo filme, e Carlos Santana viu a sua carreira lançada para os píncaros que hoje conhecemos.

- Os Who chegaram a Bethel cerca do meio-dia de sábado, 16, e só entraram em palco perto do nascer do sol de domingo. Estiveram, pois, horas infindáveis à espera da sua actuação, com o líder do grupo, o guitarrista Pete Townshend, a mostrar um desânimo inquietante. Não tinha com que se entreter - Townshend não era grande apreciador de alucinogénios. Pior: os The Who estiveram mesmo perto de não tocar. Às tantas, surgiu um diferendo financeiro entre o agente do grupo e os organizadores do festival, que demorou a ser resolvido. Chegados a um acordo, a banda britânica deu um concerto memorável, tocando na íntegra a sua ópera-rock "Tommy", editada dois meses antes. Os The Who saíram de Woodstock com uma aura mítica, mas posteriormente sempre afirmaram que tinham detestado o festival.

- Antes de subir ao palco, Joe Cocker teve de acalmar os seus músicos, nitidamente paralisados de medo ante a imensa multidão que viam à frente. Dois deles chegaram mesmo a vomitar, tal era o pânico. Mas tudo se recompôs, até que um Joe Cocker possesso interpretou a sua versão de "With a Little Help From My Friends", um original dos Beatles. A voz poderosa e os movimentos corporais alucinados arrebataram o público, num dos grandes momentos de "Woodstock" imortalizados pelo filme de Wadleigh.

- Os Led Zeppelin, grupo que na época se encontrava no topo, declinou o convite para actuar em Woodstock. Nesse mesmo fim-de-semana deram um concerto em New Jersey, não muito longe do local onde decorria o festival. Também Bob Dylan, The Jeff Beck Group (com Rod Stewart), Iron Butterfly, Jethro Tull, Procol Harum, The Byrds e The Moody Blues, entre outros, não aceitaram tocar em Woodstock. Os Beatles chegaram a ser contactados, mais por cortesia do que por qualquer esperança na sua aparição pública (como se sabe o grupo tinha abandonado há já alguns anos os espectáculos ao vivo). No entanto John Lennon chegou a equacionar a sua presença como integrante da Plastic Ono Band.

- O festival redundou num enorme fiasco financeiro. Os únicos itens que deram algum dinheiro foi o filme e a banda-sonora, precisamente onde os promotores não tinham investido.

- "Woodstock" foi distinguido com o Óscar do melhor documentário, tendo também sido nomeado para as categorias de Montagem e Som.





ALGUNS DOS QUE JÁ PARTIRAM:
Alan Wilson (“Canned Heat”) - 3/9/1970 (27 anos)
Jimi Hendrix (“The Jimi Hendrix Experience”) - 18/9/1970 (27 anos)
Janis Joplin - 4/10/1970 (27 anos)
Keith Moon ("The Who") - 7/9/1978 (32 anos)
Tim Hardin - 29/12/1980 (39 anos)
Bob Hite (“Canned Heat”) - 6/4/1981 (36 anos)
Felix Pappalardi (“Mountain”) - 17/4/1983 (43 anos)
Richard Manuel (“The Band”) - 4/3/1986 (42 anos)
Paul Butterfield (“The Butterfield Blues Band”) - 4/5/1987 (44 anos)
Tom Fogerty ("Creedence Clearwater Revival") - 6/9/1990 (48 anos)
Jerry Garcia (“Grateful Dead”) - 9/8/1995 (53 anos)
Rick Danko (“The Band”) - 10/12/1999 (56 anos)
John Entwistle ("The Who") - 27/6/2002 (57 anos)
Noel Redding (“The Jimi Hendrix Experience”) - 11/5/2003 (58 anos)
Spencer Dryden (“Jefferson Airplane”) - 11/1/2005 (66 anos)
Mitch Mitchell (“The Jimi Hendrix Experience”) - 12/11/2008 (61 anos)
Ravi Shankar - 11/12/2012 (92 anos)
Alvin Lee (“Ten Years After”) - 6/3/2013 (68 anos)
Richie Havens - 22/4/2013 (72 anos)
Johnny Winter - 16/7/2014 (70 anos)
Joe Cocker - 22/12/2014 (70 anos)
Marty Balin (“Jefferson Airplane”) - 27/9/2018 (76 anos)