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sábado, agosto 16, 2025

THE GREAT ESCAPE (1963)

A GRANDE EVASÃO
Um filme de JOHN STURGES



Com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, James Donald, Charles Bronson, Donald Pleasence, James Coburn, Hannes Messemer, David McCallum, Gordon Jackson, John Leyton, Angus Lennie, Nigel Stock, etc.

EUA / 172 min / COR / 
16X9 (2.35:1)

Estreia na GB (Londres) a 20/6/1963 
Estreia nos EUA a 4/7/1963
Estreia em Portugal a 3/10/1963



Hilts: «I haven't seen Berlin yet, from the ground or from the air,
and I plan on doing both before the war is over»

Baseado em factos verídicos relatados no livro de Paul Brickhill (piloto australiano cujo Spitfire foi abatido em Março de 1943 quando sobrevoava a Tunísia, tendo sido levado prisioneiro para Stalag Luft III, campo localizado perto da cidade polaca de Sagan), “The Great Escape” é um dos melhores filmes (pessoalmente considero-o mesmo o melhor de todos) feitos com a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo. Uma constelação de estrelas masculinas (não existe uma só personagem feminina durante todo o filme) liderada pelo carismático Steve McQueen, uma banda sonora inesquecível de Elmer Bernstein (cujos acordes iniciais do tema principal identificam de imediato o filme) e uma realização segura e eficaz de John Sturges, o realizador de “The Magnificent Seven”, fazem deste filme um fabuloso entretenimento, capaz de resistir heroicamente à passagem dos anos.


Já há mais de meio século que “The Great Escape” se estreou nos cinemas de todo o mundo; mas toda essa temporalidade não é suficiente para o afastar da memória de quantos tiveram a sorte de a ele assistirem num grande écran de cinema, tal como aconteceu comigo, em 1967. Tinha 14 anos nessa altura e vi o filme, numa reprise, a 1 de  Outubro, no cinema Infante, em Lourenço Marques. Nessa idade de transição não havia filme melhor para nos divertirmos numa sala escura – era o espectáculo total, grande em tamanho, grande em excitação, que nos deixava empolgados durante cerca de três horas a fio.


“The Great Escape”, nos seus 172 minutos de duração, encontra-se dividido em três partes distintas: a preparação da fuga (onde nos vamos familiarizando com os principais intervenientes), o processo da fuga propriamente dito (com todas as imprevisibilidades de última hora) - historicamente levada a cabo a 24 de Março de 1944 - e o dia seguinte à grande evasão (onde conheceremos o destino dos 76 homens que conseguiram escapar do campo de prisioneiros). De salientar que a acção se desenrola efectivamente num mero campo de prisioneiros (e não num campo de concentração ou extermínio), onde apesar de toda a vigilância a Convenção de Genebra de 1929 ainda era respeitada, o que até certo ponto explica o êxito da fuga.


Das três partes acima referidas, a última é certamente a mais excitante, com o acompanhamento (em montagem paralela, uma técnica aliás presente em quase todo o filme) do destino  de grande parte dos evadidos. Por terra, mar e ar, todas as opções para atingir a liberdade eram plausíveis, bem como o tipo de transporte utilizado: comboio, barco a remos, bicicleta, avioneta ou motorizada, tudo era passível de ser transformado num veículo práctico para se conseguir atingir o objectivo comum. Neste último caso (a fuga de Steve “Cooler King” McQueen) temos até direito a uma das mais famosas sequências da história do cinema que inclusivé confere a “The Great Escape” o justo epíteto de filme lendário.


Não me custa nada a acreditar que para as novas gerações de cinéfilos “The Great Escape” (sobretudo o primeiro terço do filme), possa ser considerado longo e entediante. Efectivamente hoje em dia não haveria tempo a perder com detalhes, com planificações, com caracterização de personagens. Fosse “The Great Escape” um filme realizado na actualidade e seria certamente mais um dos chamados blockbusters, em que a sequência da evasão ocorreria logo a cerca de vinte minutos do início, para assim se começarem rapidamente a mostrar os inevitáveis efeitos digitais. Por outro lado, o cast seria maioritariamente americano e abrangeria todo o tipo de raça, côr e credo, de modo a ser politicamente correcto. E com certeza absoluta seria inventado pelo menos um personagem feminino, interpretado por uma qualquer actriz de referência, preferencialmente já nomeada para os Óscares.


Fosse “The Great Escape” um filme realizado na actualidade e até o final seria provavelmente alterado, contornando-se a verdade histórica de modo a que o maior número possível de fugitivos pudesse alcançar a liberdade. Mas não sem antes de mais uma série de violentos confrontos com os alemães ter lugar e assim dar aso a serem mostrados mais uns quantos efeitos de pirotecnia gratuita. Por outro lado, o desenrolar do filme não se passaria maioritariamente no interior do campo, seriam certamente introduzidos alguns episódios extra a serem intercaladamente mostrados noutros cenários, de modo a não cansar o espectador. Mas ainda bem que tudo isto não passa de conjecturas, ainda bem que “The Great Escape” foi na verdade, e felizmente, realizado em 1963. Não o tivesse sido e com toda a certeza não se teria tornado no clássico que hoje é, uma das maiores referências do filme de guerra e, porque não, do filme de aventuras também.

CURIOSIDADES:

- O filme foi inteiramente rodado na Europa, tendo o campo de prisioneiros sido construído perto de Munique. Todas as cenas da célebre sequência da motorizada foram filmadas em Fussen, junto aos Alpes e da fronteira com a Áustria. Para as filmagens de interiores usaram-se os estúdios Bavaria em Munique.

- A principal razão pela qual Steve McQueen aceitou protagonizar o papel principal foi a de poder ser ele próprio a interpretar as cenas da fuga em motorizada (uma Triumph TR6 Trophy, modelo preferido do actor). Aliás, não se limitou à sua personagem – é ele também que está aos comandos da motorizada do alemão que em certa altura o persegue. Ou seja, McQueen atrás de McQueen. Exceptua-se o salto sobre a cerca que John Sturges não permitiu ao actor realizar, e que por isso foi executada pelo duplo Bud Ekins (numa Thunderbird Triumph de 1962 modificada para ter um aspecto mais antigo), o qual ganhou grande notoriedade por essa façanha – viria a dobrar de novo McQueen cinco anos depois, no filme “Bullitt”.


- Charles Bronson foi mineiro antes de abraçar a carreira de actor. Por isso utilizou toda a experiência da anterior profissão na rodagem das cenas do seu personagem no filme. Inclusivé a claustrofobia, de que na realidade padecia mesmo. Durante a produção Bronson apaixonou-se por Jill Ireland, na altura mulher de David McCallum. Quatro anos depois viriam a casar-se.

- Steve McQueen chegou a ser detido numa operação stop que a polícia alemã levou a cabo perto do local de filmagens. Não tendo sido reconhecido de imediato, o actor ainda passou algumas horas na prisão, antes que alguns elementos da produção o tivessem ido buscar.

- O actor britânico Donald Pleasence foi na realidade um piloto da Royal Air Force durante a 2ª Guerra Mundial. Chegou mesmo a ser abatido e feito prisioneiro de guerra, tendo inclusivé sofrido algumas sevícias. Renitente ao princípio, John Sturges acabou por aceitar algumas sugestões do actor para a rodagem do filme. Também Richard Attenborough foi piloto da RAF durante a guerra.






terça-feira, agosto 12, 2025

IT'S A MAD, MAD, MAD, MAD WORLD (1963)

O MUNDO MALUCO
Um filme de STANLEY KRAMER


Com Spencer Tracy, Milton Berle, Sid Caesar, Buddy Hackett, Ethel Merman, Mickey Rooney, Dick Shawn, Phil Silvers, Terry-Thomas, Jonathan Winters, Edie Adams, Dorothy Provine, Jimmy Durante, Jim Backus, etc.


EUA / 154 min (192) / COR / 16X9 (2.76:1)

Estreia nos EUA a 18/11/1963
Estreia em PORTUGAL (Lisboa) a 10/5/1965 (cinema Monumental)



J. Algernon Hawthorne: «As far as I can see, American men have been totally emasculated- they're like slaves! They die like flies from coronary thrombosis while their women sit under hairdryers eating chocolates & arranging for every 2nd Tuesday to be some sort of Mother's Day! And this positively infantile preoccupation with bosoms. In all time in this wretched Godforsaken country, the one thing that has appalled me most of all this this prepostrous preoccupation with bosoms. Don't you realize they have become the dominant theme in American culture: in literature, advertising and all fields of entertainment and everything. I'll wager you anything you like that if American women stopped wearing brassieres, your whole national economy would collapse overnight»

“It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” é não apenas uma comédia típica dos anos 60, mas também uma fábula amarga sobre a cupidez e a corrupção, que desenvolve nas dimensões do Ultra-Panavision 70 (sistema de projecção que evoluiu a partir do Cinerama, em que o triplo écran foi reformulado para apenas um, mas de dimensões idênticas) o burlesco da escola de Mark Sennett, Harold Lloyd ou Buster Keaton. E por causa da sua longa duração e do nº de cómicos que nela participa (cerca de 40, a grande maioria dos que se encontravam no activo à data da sua produção), pode-se ainda considerá-la como uma verdadeira comédia épica (Stanley Kramer chegou a afirmar que era seu desejo fazer «uma comédia para acabar com todas as comédias»). Surpreendente catálogo das misérias e baixezas humanas, o filme constitui um sinal das matizes cada vez mais sombrias que a comédia vinha a atingir nos princípios da década de 60.


Depois de uns créditos iniciais bem divertidos e prometedores, o filme arranca com uma viatura em alta velocidade pela estrada do actual deserto Palm da Califórnia do Sul. Depois de ultrapassar quatro outros veículos, não consegue fazer uma curva mais apertada e despenha-se por uma ravina abaixo. O aparato do acidente leva a que os cinco homens ocupantes das quatro viaturas corram em auxílio da vítima, de cuja identidade seremos posteriormente informados: trata-se de ‘Smiler’ Grogan (Jimmy Durante), suspeito de um roubo, que andava há 15 anos fugido da polícia. Os cinco socorristas são Dingy Bell (Mickey Rooney) e Benjy Benjamin (Buddy Hackett), dois amigos que viajam no mesmo carro; Melville Crump (Sid Caesar) um dentista que viaja com a mulher, Monica (Edie Adams); Lennie Pike (Jonathan Winters), um camionista que transporta mobílias; e Russell Finch (Milton Berle), marido de Ermeline (Dorothy Provine) e que viaja em companhia da sogra, Mrs. Marcus (Ethel Merman).

Antes de se finar, o moribundo consegue ainda alertar os cinco homens para a existência do roubo, no valor de 350 mil dólares, que se encontra enterrado debaixo de um grande “W” num parque de Santa Rosita, junto à fronteira com o México e a cerca de 200 milhas para sul. Desconfiados numa fase inicial, os cinco homens mais as três mulheres que os acompanham, começam a pensar que um homem à beira da morte não seria capaz de mentir - o dinheiro era mesmo capaz de existir e poderia ser dividido por todos. Começam a arquitectar as divisões mais estapafúrdias (contabilizando pessoas, carros, ocupantes e descidas à ravina), mas depressa chegam à conclusão de que não se conseguem entender. A partir dali é cada um por si, numa louca corrida ao dinheiro, onde as regras são mandadas às urtigas, interessando apenas o objectivo comum do saque. Entretanto, um chefe de polícia, o capitão Culpepper (Spencer Tracy), que há 15 anos perseguia o ladrão agora morto e que está farto de esperar por uma reforma condigna, vê ali uma oportunidade de se apoderar tranquilamente do dinheiro roubado, para depois atravessar a fronteira para o México. Mas as coisas não são assim tão fáceis e as complicações começam a aparecer…

Durante os 154 minutos que o filme dura em DVD (na versão original a duração era de 192 minutos), vamos testemunhando as mais loucas e diversas peripécias. Novas personagens vão engrossando o núcleo inicial – Sylvester (Dick Shawn), filho de Mrs. Marcus, que vê interrompida uma sessão terapêutica de beat music (uma das sequências mais hilariantes de todo o filme), Phil Silvers (Otto Meyer), um caixeiro-viajante sem escrúpulos, ou J. Algernon Hawthorne, um típico englishman, brilhantemente interpretado por Terry-Thomas. Mas os nomes de cómicos conhecidos não acabam por aqui. Temos ainda direito a pequenos cameos de gente como Peter Falk (um dos motoristas de táxi), Jerry Lewis (um gag delicioso, aquele do chapéu), Norman Fell, Jack Benny, Buster Keaton, entre muitos outros.

No final deste extravagante monumento ao cinema cómico temos direito a uma das mais célebres sequências do género – aquela em que todos os protagonistas se vêem à mercê de uma escada de bombeiros enlouquecida que os vai lançando pelos ares numa enorme praça apinhada de curiosos. Logo depois, e antes do filme acabar, o gag final da banana com todos eles engessados numa enfermaria de hospital. "It's A Mad, Mad, Mad, Mad World" é hoje um clássico incontornável da comédia e traz com ele uma certa nostalgia de um tempo que não volta mais. De lastimar apenas que até à presente data não tenha sido editada uma versão com toda a metragem original do filme.

CURIOSIDADES:

- Na filmagem da sequência da entrada do carro no rio, o  actor Phil Silvers ia-se afogando por não saber nadar.

- O Santa Rosita State Park não existe na realidade. Toda a acção decorre no Portuguese Bend em Rancho Palos Verdes.

- O cómico Stan Laurel não aceitou aparecer no filme devido à morte de Oliver Hardy, em 1957. Quando a dupla (“Bucha e Estica”) se desfez, Stan jurou nunca mais participar no cinema. Promessa que cumpriu até ao dia da sua morte, a 23 de Fevereiro de 1965.

- Só muito relutantemente é que Edie Adams aceitou desempenhar o papel de Monica Crump, devido ao seu marido, o actor-realizador Ernie Kovacs, ter falecido num desastre automóvel pouco tempo antes do filme começar a ser rodado.

- Na ante-estreia do filme no teatro Cinerama, a 17 de Novembro de 1963, esteve presente a maioria da família do Presidente John Kennedy, atendendo a que a sessão se destinava a angariar fundos para o Kennedy Child Study Center em Nova Iorque e para o Joseph P. Kennedy Jr. Institute em Washington. Cinco dias depois o Presidente era assassinado em Dallas.


- Foi filmada uma sequência musical com o grupo as Shirelles, que não chegou a ser incluída no filme. O tema – “31 Flavours” – pode ser ouvido na banda-sonora.

- Bob Hope, Jackie Mason, George Burns, Red Skelton e Judy Holliday foram alguns dos actores ligados à comédia que não aceitaram entrar no filme.

- Devido a questões de saúde, Spencer Tracy só trabalhou nove dias na rodagem do filme, nunca ultrapassando as 4 horas diárias. As cenas mais arriscadas, incluindo a subida do edifício na sequência final, foram todas desempenhadas por um duplo.

- Do elenco principal todos os actores já faleceram.

- “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” conseguiu duas nomeaçãoes para os Globos de Ouro (Filme Musical ou Comédia e Actor de Musical ou Comédia, Jonathan Winters) e também 6 nomeações para os Óscars nas categorias de Cinematografia, Montagem, Canção Original, Som, Música e Efeitos Sonoros, tendo ganho apenas nesta última categoria.




quarta-feira, julho 16, 2025

THE SERVANT (1963)

O CRIADO
Um filme de JOSEPH LOSEY





Com Dirk Bogarde, James Fox, Sarah Miles, Wendy Craig, etc.

GB / 112 min / PB / 4x3 (1.66:1)

Estreia no Festival de Veneza em Setembro de 1963
Estreia no Reino Unido em 1963/11
Estreia em Portugal a 25/9/1970
Estreia em Moçambique (L.M.) em 12/3/1972 (teatro Manuel Rodrigues)



Expatriado americano no Reino Unido (foi um dos incluídos na tristemente célebre lista negra de Hollywood), Joseph Losey sempre trouxe um olhar frio e desencantado ao avaliar os costumes do seu país de adopção. Mas em “The Servant”, a primeira das suas três colaborações com Harold Pinter (as outras seriam "Accident / Acidente", em 1967 e "The Go-Between / O Mensageiro" em1970), a persistência do seu olhar ainda se tornou mais penetrantemente nítida. O guião de Pinter, tipicamente elíptico e oblíquo, e a direcção crispada e áspera de Losey oferecem uma análise sardónica das relações de classe, sexo e poder na Londres dos anos 60. Um jovem algo decadente das classes superiores, Tony (James Fox num dos seus primeiros papéis de estrela), contrata um criado, Barrett (Dirk Bogarde), que parece ser a pessoa ideal para tomar conta dos problemas do dia-a-dia - é discreto, competente e tem classe. Mas as aparências iludem e a máscara servil de Barrett oculta uma perversidade diabólica que gradualmente irá tomar conta da vida do seu patrão. Para isso não hesita em usar a sua amante, Vera (uma excitante Sarah Miles), fazendo-a passar por irmã e introduzindo-a na casa para através dos seus encantos conseguir um controle ainda maior.


A fábula é límpida: herdeiros de um mundo condenado, o escravo torna-se o amo, e vice-versa, muito embora a troca de papéis não evite a continuação de uma exploração mútua. Losey deleita-se perante o espectáculo deste inexorável processo de desagregação e filma tudo com uma refinada elegância, usando a própria câmara de filmar como cúmplice quando com ela explora sinuosamente os espaços claustrofóbicos da casa, transformando-os numa gaiola bem montada e observando os seus residentes de ângulos perturbadores. Divertido, sinistro e enervante, “The Servant” conserva ainda hoje o poder de criar mal-estar. Dirk Bogarde tem aqui um dos papeis-chave da sua carreira (estou a lembrar-me também do excelente desempenho em "Morte em Veneza", a conhecida obra de Luchino Visconti. Inclusivé, o actor tomou em mãos as rédeas da realização deste filme durante duas semanas, período em que Joseph Losey esteve hospitalizado. Após a coonvalescença o realizador não voltou a filmar as cenas entretanto rodadas, o que foi um alívio para os actores e equipa técnica.

Dirk Bogarde e James Fox

sábado, julho 12, 2025

THE BIRDS (1963)

OS PÁSSAROS
Um filme de ALFRED HITCHCOCK



Com Tippi Hedren, Rod Taylor, Suzanne Pleshette, Jessica Tandy, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, etc.

EUA / 119 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia nos EUA (Nova Iorque) a 28/3/1963 
Estreia em França (Festival de Cannes) em Maio de 1963
Estreia em Portugal (Lisboa) a 20/11/1964 (cinemas Alvalade e São Luiz)


Mother in Diner: [to Melanie] 
«Why are they doing this? Why are they doing this? 
They said when you got here the whole thing started. 
Who are you? 
What are you? Where did you come from? 
I think you're evil. EVIL!»

“The Birds” foi considerado por Alfred Hitchcock o filme mais complicado da sua carreira, aquele que lhe exigiu mais tempo de preparação e rodagem. Como confessou a Truffaut na célebre entrevista de 1966: «Costumo gabar-me de nunca olhar para o argumento enquanto rodo um filme. Sei o filme de cor, de uma ponta à outra. Sempre tive medo de improvisar no plateau, porque nessa altura, se há tempo para ter ideias, não há tempo para analisar a qualidade dessas ideias. Há ali muitos operários, electricistas e maquinistas, e eu sou muito escrupuloso com as despesas inúteis. Não posso, na verdade, imitar esses realizadores que fazem esperar uma equipa inteira enquanto se sentam para reflectir, nunca poderia fazer isso. Mas com “The Birds” foi diferente. Sentia-me muito agitado, o que é raro, pois habitualmente gracejo muito durante a rodagem. À noite, quando regressava a casa, para junto da minha mulher, continuava a sentir-me perturbado, emocionado. Qualquer coisa se passava, inteiramente nova para mim: comecei a estudar o guião durante a rodagem e encontrei-lhe fraquezas. Essa crise despertou em mim algo de novo do ponto de vista da criação.»

Quando Hitchcock adaptou a novela de Daphne du Maurier (1907-1989), sua amiga pessoal,  e autora também de “Rebecca” (que Hitch transformou em filme em 1940), retirou-lhe quase exclusivamente a ideia original para o filme. Deixou de lado a meticulosidade e os pormenores anedóticos, substituindo-os por um clima potencialmente criativo. “The Birds” é o filme mais densamente psicológico de Hitchcock, aquele em que existe uma interacção inequívoca entre as sequências de suspense e as personalidades de cada um dos diversos personagens. Essa analogia nem sempre é perceptível numa primeira visão da obra, dai o cair-se frequentemente em apressados e desajustados  juízos de valor, que não raramente remetem para uma subvalorização geral do filme. Mas atente-se em alguns exemplos:


A frivolidade das relações iniciais de Melanie (Tippi Hedren) e Mitch (Rod Taylor) – o filme arranca como se de uma screwball comedy se tratasse - só se começa a transformar em algo mais sério após Melanie ser atacada pela gaivota na baía, no caminho de retorno da casa dos Brenner. Lydia (Jessica Tandy), a mãe de Mitch, começa por exprimir uma atitude egoísta e obstrutiva em relação à atracção que desponta entre o filho e a mulher vinda de San Francisco. Devido aos ataques inexplicáveis dos pássaros sente o seu mundo particular – até aí povoado por uma segurança inquestionável, apesar da morte recente do marido – ser seriamente abalado nos seus alicerces, tornando-se, no final, uma aliada de Melanie (um afectuoso olhar entre as duas é um dos derradeiros planos do filme). O amor sublimado da professora, Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) que se encontrava resignadamente adormecido, tem um novo alento, quer pela presença de uma nova mulher na vida do seu antigo amante quer pelos acontecimentos insólitos que irrompem na pacífica Bodega Bay. E o seu último gesto, antes de ser morta, é salvar a irmã do homem que ama.

Uma das coisas mais notáveis deste filme é a sua magistral gradação do clímax dramático, a implacável progressão dos ataques dos pássaros, que lentamente acabam por impor aos habitantes daquela pequena localidade a incrível realidade: o mundo das aves propõe-se destruir o mundo dos homens. “The Birds” é por isso também o filme de Hitchcock que mais se aproxima, sem contudo neles se consumir, dos universos do sobrenatural e da ficção científica. Até este filme, a principal obsessão de Hitch era a da razão (ou da falta dela) do Mal e dos problemas de culpa a ele associados. Em “The Birds não existe essa culpa, o Mal existe no seu estado absoluto, está simplesmente ali, não podendo ser racionalizado ou subjectivado. É por isso que não há qualquer explicação para os ataques que vão ocorrendo ao longo do filme. Estamos confrontados com um Mal sem causa, sem culpados possíveis, até porque mesmo os agentes desse Mal – os pássaros – não podem por natureza ser culpabilizados.

Voltando à entrevista com Truffaut: «Não teria feito o filme se se tratasse de abutres ou de aves de rapina, o que me agradou foi o facto de se tratar de aves vulgares, de aves de todos os dias». Ou seja, a escolha dos mais inocentes e pacíficos dos animais é claramente intencional, porque a sua transformação em veículos do Mal assume por isso um carácter mais terrível e assustador. Quando a ornitóloga Mrs. Bundy (Ethel Griffies) nos fala da existência de mais de cem biliões de pássaros, quando Mitch diz que as suas investidas parecem obedecer a um plano organizado e sobretudo quando os vemos em acção, a nossa inquietação, como a dos protagonistas, é total, porque estamos perante a irracionalidade absoluta. A ameaça ao nosso quotidiano despreocupado vem de onde menos se espera, o que de certo modo nos coloca de sobreaviso em relação a tudo o que nos rodeia.

Tal como escreve Carlos Melo Ferreira no livro “O Cinema de Alfred Hitchcock”, «”The Birds” é o mistério insolúvel, estando para a obra de Hitchcock como “El Angel Exterminador” para a de Buñuel, “The Shangai Gesture” para a de Von Sternberg, “Le Testament du Dr. Cordelier” para a de Renoir. Sabe-se porque ocorre um tremor de terra. Sabe-se porque rebenta uma bomba atómica. Mas não se sabe porque é que, a partir daquele dia e durante algum tempo, os inofensivos pássaros de Bodega Bay atacam os habitantes da vila, que levam uma vida pacata. Nem se sabe quando (ou mesmo se) e porquê deixarão de atacar. E as relações que se podem estabelecer constituem explicações manifestamente insatisfatórias».

E continuando a citar CMF: «Os personagens podem atribuir-se culpas uns aos outros, Melanie pode ser culpada por ter ido a Bodega Bay, e pelas razões que aí a levaram, pode ser acusada do seu passado escandaloso, pode ser responsabilizada pelo sucedido por todas estas razões: o certo é que nada pode provar a culpa dos pretensos culpados, ninguém pode explicar de forma razoável, aceitável, porque minimamente científica, o mal que se abateu sobre os habitantes de Bodega Bay. Melanie pode funcionar aqui, com os seus lovebirds significando o desejo por Mitch, como a falsa culpada, em que há quem a queira transformar».

O filme destaca-se tecnicamente por uma grande austeridade expressiva; os momentos mais surpreendentes quase não são sublinhados por efeitos de câmara ou de montagem. A excepção será o ataque dos pássaros a Melanie, no sótão da casa de Mitch – aqui temos direito a uma variante, também ela excelente, da célebre sequência do chuveiro de “Psycho”, em que planos ultra-rápidos permitem ao espectador ver o invisível. Mas em tudo o mais a frugalidade dos meios utilizados é por demais evidente; até a música foi abolida de “The Birds”, tornando-se Bernard Herrmann apenas num consultor para o som. Um dos momentos mais admiráveis e célebres de “The Birds” é a do ataque dos pássaros à escola. Relembremos o que Hitchcock confidenciou a Truffaut sobre esta particular sequência:

«Analisemos essa cena no exterior da escola, quando Melanie Daniels está sentada e os corvos se juntam atrás dela. Melanie, inquieta, entra na escola para prevenir a professora. A câmara entra com ela e, pouco depois, a professora diz às crianças: 'Agora vão saír, e quando eu lhes pedir que corram, vocês correm'. Conduzo a cena até à porta e depois corto para passar aos corvos, todos juntos, e permaneço com eles, sem cortar e sem que nada se passe, durante trinta segundos.. Então o espectador pergunta a si próprio: 'Mas que aconteceu às crianças, onde estão elas?' E só nessa altura se começa a ouvir o som de passos de crianças a correrem, todos os pássaros levantam voo e vemo-los passar por cima do telhado da escola antes de se abaterem sobre as crianças.


A velha técnica para obter suspense nesta cena consistiria em dividi-la mais: começar-se-ia por mostrar as crianças a saírem da aula, depois passar-se-ia aos corvos à espera, depois às crianças a descerem a escada, depois aos corvos a prepararem-se, depois às crianças a saírem da escola, depois aos pássaros a levantarem voo, depois às crianças a correrem e finalmente às crianças a serem atacadas. Mas hoje, para mim, esta maneira de proceder está fora de moda».

“The Birds” culmina numa sequência quase bíblica: sobre um poente de tons frios e esverdeados, entre a ameaçadora imobilidade das aves, Hitchcock introduz-nos num lúgubre apocalipse decorativo, que evoca um quadro de Marx Ernst. Todos os cuidados com que os fugitivos se dirigem para a viatura, tentando que o ruído dos seus passos não perturbe a inércia das aves vigilantes evidenciam o absurdo da situação, tanto mais que os pássaros não os atacam, como se esperassem uma ordem invisível para o fazer.


Aqui, neste derradeiro e inesquecível plano, já nem é sequer o medo que está em causa. A imagem que nos acorre ao espírito é a fuga silenciosa ante a presença do Mal, a procura da sobrevivência para além do horizonte. Hitchcock tinha pensado outro final, menos ambíguo, mas mais terrível: o carro dos protagonistas chegava a San Francisco e a ponte que dá acesso à cidade encontrava-se coberta, ao longo de toda a sua estrutura metálica, de milhares de pássaros. Ou seja, a ideia de que a ameaça não tinha ficado para trás e continuava bem real. No entanto, e por razões técnicas, não foi possível realizar-se a filmagem desse final.

Concluímos citando de novo CMF: «”The Birds” é o ponto sem regresso na obra dum artista único, que não impede posteriores obras-primas e que define melhor todo o trabalho do realizador, clarificando-o e dando-lhe, na sua ambiguidade, o seu sentido único como reflexão sobre a vida e a morte, o amor e o desejo, a sobrevivência e o terror. Sobre o Homem. E caracterizando essa obra com uma indelével marca estética: a da irreversibilidade da vida e da morte, mesmo quando aparentemente recuperáveis».


CURIOSIDADES:

- Hitchcock viu pela primeira vez Tippi Hedren num filme publicitário sobre uma bebida dietética. Nesse filme Tippi volta-se sedutoramente ao ouvir um assobio, situação recriada por Hitch (como uma private joke) logo no início do filme, imediatamente antes da sua clássica aparição, ao sair da loja de pássaros com dois cães terriers – companheiros inseparáveis do realizador duranta a rodagem do filme.

- O carro que  Tippi Hedren conduz é um Aston Martin DB2/4 Coupé.

- A sequência do ataque dos pássaros no sótão da casa levou uma semana a ser rodada e originou o internamento de Tippi Hedren numa unidade hospitalar devido a um esgotamento da actriz.

- “The Birds” não acaba com o então habitual “The End” porque Hitchcock queria deixar no ar a ideia de que a ameaça dos pássaros não acabava com o final do filme.

- Melanie Griffith, filha de Tippi Hedren, encontrava-se quase sempre presente durante a rodagem do filme. Um dia Hitchcock ofereceu-lhe uma boneca que era uma réplica perfeita da mãe, dentro de uma caixa de madeira, que a garota julgou tratar-se de um pequeno caixão.


- Segundo Hitchcock o filme contém 371 efeitos especiais, 32 dos quais foram usados na sequência final.

- A escola usada no filme é a Potter Schoolhouse, que esteve activa entre 1873 e 1961, ou seja, já se encontrava encerrada quando o filme foi rodado. Hoje o edifício é uma residência privada.

- Em todos os planos onde se vêm aglomerações de pássaros, grande parte deles não são verdadeiros. Veronica Cartwright lembra-se de ter questionado Hitchcock na altura se os espectadores não iriam notar a imobilidade desses bonecos. O velho mestre respondeu-lhe lapidarmente: «o Cinema é ilusão, minha querida. Basta verem alguns deles mexerem-se para acreditarem que todos os outros estão vivos também».

- Quando o filme foi rodado, a estação de serviço frente ao restaurante Tides não existia, pelo que teve de ser implantada para se filmar a sequência do incêndio. Mais tarde, e dado o grande sucesso do filme, uma nova estação de serviço foi construída no local, a qual se mantém até aos dias de hoje.


Recordemos o que François Truffaut escreveu sobre o filme em 1963:

«Apesar de ser o único cineasta cujos filmes reeditados vinte anos após a sua estreia dão tanto lucro quanto um filme novo, Hitchcock nunca ganhou um Óscar. Decerto, o seu último filme, "Os Pássaros", não é perfeito. Rod Taylor e Tippi Hedren acasalam de modo improvável, e a história sentimental - quase sempre a mesma: a caça ao marido - ressente-se disso, mas quanta injustiça na censura geral! O que me entristece é que nenhum crítico admire a ideia do filme: "Os pássaros atacam as pessoas". Estou convicto de que o cinema foi inventado para que este filme fosse rodado. Pássaros comuns, pardais, gaivotas e corvos vão atacar pessoas comuns: a população de uma aldeia costeira. Aqui está um sonho de artista e, para levá-lo a bom porto, é preciso muita arte e ser o maior técnico do mundo.


Alfred Hitchcock e o seu colaborador Evan Hunter ("Sementes de Violência") conservaram apenas a ideia da short story de Daphne du Maurier: pássaros à beira-mar que resolvem atacar os humanos, primeiro no campo, depois na cidade, à saída das escolas e até mesmo em casa. Nenhum filme de Hitchcock teve uma progressão tão exemplar, já que os pássaros, à medida do desenvolvimento da acção, tornam-se: a) cada vez mais negros; b) cada vez mais numerosos; c) cada vez mais maus. Quando atacam as pessoas, dirigem-se preferencialmente aos olhos. No fundo, irritados por serem capturados e engaiolados - senão mesmo comidos - pelas pessoas, tudo se passa como se um belo dia tivessem decidido inverter os papéis.

              

Hitchcock pensa que "Os Pássaros" é o seu filme mais importante, e esta é também, de certo modo, senão mesmo de modo certo, a minha opinião. Partindo de uma ideia plástica tão forte, Hitch compreendeu que era preciso cuidar da intriga, de maneira que esta fosse mais do que um pretexto para ligar entre si diversas cenas de coragem ou de suspense: criou uma personagem muito bem conseguida, a de uma rapariga de São Francisco, sofisticada e muito snobe, que passa por todas estas provas sangrentas, acabando por descobrir assim a simplicidade, a naturalidade.

Pode considerar-se que "Os Pássaros" é um filme de montagens, é certo, mas são montagens realistas. Na verdade, Hitchcock, cuja mestria aumenta de filme para filme, precisa incessantemente de novas dificuldades: torna-se o atleta completo do cinema. Na verdade, não se perdoa a Hitchcock que nos assuste de forma gratuita. Todavia, acredito que o medo seja uma emoção "nobre" e que pode ser "nobre" assustar. É "nobre" confessar que se teve medo e que se teve prazer nisso. Qualquer dia, só as crianças irão conservar essa nobreza.»


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