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sábado, julho 06, 2019

L'ORRIBILE SEGRETO DEL DR. HICHCOCK (1962)

O HORRÍVEL SEGREDO DO DR. HICHCOCK
Um Filme de RICCARDO FREDA (as ROBERT HAMPTON)

Com Barbara Steele, Robert Flemyng, Silvano Tranquilli (as Montgomery Glenn), Maria Teresa Vianello (as Teresa Fitzgerald), Harriet Medin (as Harriet White), etc.

ITÁLIA / 88 min / COR / 
16X9 (1.85:1)

Estreia em Itália (Milão), a 23/8/1962
Estreia na GB em 1963
Estreia nos EUA a 2/12/1964





Estamos em Londres, no ano de 1885, e o Professor Bernard Hichcock (Robert Flemyng) é um famoso cirurgião que divide o seu tempo entre um Hospital Universitário (onde dirige eficazmente uma equipa de médicos) e a sua majestosa mansão, onde a esposa, Margaretha (Maria Teresa Vianello), costuma receber a alta sociedade londrina, entretendo-a com os seus dotes musicais. Mas, na intimidade, Margaretha satisfaz os caprichos do marido, o qual, através da administração de um poderoso anestético, a coloca em estado de sono profundo para assim poder satisfazer os seus apetites sexuais. Estamos, obviamente, diante de um tema que desde sempre foi um tema-tabu no mundo do cinema: a necrofilia. Mas um dia as coisas não correm como de costume, e uma overdose do tal anestético leva Margaretha à morte. Depois do funeral (uma sequência à chuva muito elogiada, que levou o crítico Raymond Durgnat a escrever «quanto eficaz uma boa iluminação pode ser, capaz de dar a um filme de terror uma poesia visual única no cinema.»), Hichcock abandona Londres, deixando a mansão entregue à governanta, Martha (Harriet Medin).


Alguns anos mais tarde o Professor regressa em companhia de uma nova esposa, Cynthia (Barbara Steele), pronto a iniciar uma nova vida. Mas as coisas não correm como o desejado, quer no Hospital (onde os seus antigos dotes cirúrgicos parecem encontrar-se em declínio) quer sobretudo em casa, onde os fantasmas do passado se começam a sobrepor à vivência conjugal. Martha continua como governanta omnipresente, e vê na recém-chegada uma afronta à sua falecida patroa, com a qual mantinha as cumplicidades necessárias à concretização dos desejos sexuais do senhor da casa. E não leva muito tempo até que Cynthia comece a ver e a ouvir coisas misteriosas, que a fazem acreditar num regresso dos mortos de Margaretha. Será que está a perder a razão ou os seus mais secretos temores ir-se-ão tornar realidade? Ajudado por uma cinematografia e uma música bastante eficazes, Riccardo Freda consegue criar uma atmosfera envolvente durante todo o filme, que deixa o espectador inquieto até às últimas cenas.


"L'Orribile Segreto Del Dr. Hichcock" (Hichcock sem o "t", para evitar problemas judiciais com o mestre do suspense) é um filme agradável de se ver, sobretudo pelo clima conseguido, uma vez que descarta cenas de violência gratuita e sanguinolenta. E, depois, a maior parte dos actores são convincentes, desde o carrancudo Professor, passando pela perturbante governanta, até à já lendária Barbara Steele, que uma vez mais se sente como peixe na água neste tipo de filmes. Na altura, Barbara encontrava-se presente no cast do "Fellini 8 e 1/2", tendo-se ausentado durante 10 dias para filmar este "Horrível Segredo". A rodagem do filme levou apenas 14 dias, tendo ficado concluído em Abril de 1962, conforme Freda tinha apostado. Existem duas versões disponíveis: a original italiana (cujo download poderá ser feito aqui) e uma cópia americana (cortada em cerca 12 minutos), que infelizmente foi a usada para a edição em Blu-Ray (a evitar portanto). 




CURIOSIDADES:

- A mansão que aparece no filme é a chamada Villa Peruchetti, situada perto de Roma (na Lazio), sendo hoje em dia a Embaixada Búlgara em Itália.

- Robert Flemyng, ao descobrir pela leitura do argumento, que o seu personagem tinha tendências necrófitas, tentou abandonar o projecto, mas o seu contrato não o permitiu.

sábado, janeiro 21, 2017

LAWRENCE OF ARABIA (1962)

LAWRENCE DA ARÁBIA
Um Filme de DAVID LEAN



Com Peter O'Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy, etc.

GB / 216 min / COR / 16X9 (2.20:1)

Estreia em INGLATERRA a 10/12/1962
(Londres, Royal World Premiere)
Estreia em PORTUGAL a 28/11/1963

Jackson Bentley: "What attracts you personally to the desert?"
T.E. Lawrence: "It's clean"

Se há filmes aos quais se associa a impossibilidade de serem feitos de novo hoje em dia, "Lawrence of Arabia" é certamente um dos melhores exemplos. O próprio Steven Spielberg que, como se sabe, tem o céu como limite, reconhece que, mesmo com toda a moderna tecnologia, seriam precisos mais de 250 milhões de dólares para produzir algo semelhante. E de qualquer modo não valeria a pena pois nunca teria a grandeza do original, que ele mesmo considera o melhor filme jamais realizado.

Classificado em 5º lugar na tabela do American Film Institute dos melhores 100 filmes de sempre, este épico incomparável é fruto da persistência e teimosia de David Lean, inglês nascido em Surrey no dia 25 de Março de 1908 (viria a falecer em Londres, a 16 de Abril de 1991), e que começou por trabalhar na montagem de filmes, durante toda a década de trinta. Depois, e a partir de 1942, realizou 16 longas metragens, destacando-se "Brief Encounter / Breve Encontro" (1946), "Oliver Twist" (1948), "The Bridge on the River Kwai / A Ponte do Rio Kwai" (1957), "Doctor Zhivago / Doutor Jivago" (1965), "Ryan's Daughter / A Filha de Ryan" (1970) e "A Passage to India / Passagem Para a India" (1984). Mas "Lawrence of Arabia", que dirigiu aos 54 anos, permanecerá sem dúvida como a sua coroa de glória.


Omar Sharif, um dos emblemáticos actores do filme, interroga-se ainda hoje como foi possível conseguir realizar-se tal empreendimento: «imagino-me no papel do produtor do filme e vir alguém dizer-me que queria investir uma data de dinheiro num projecto de cerca de quatro horas, sem estrelas, sem mulheres e nenhuma história de amor, sem grande acção também e inteiramente passado no deserto, por entre árabes e camelos... Com certeza que levava uma corrida!». Mas felizmente tal não aconteceu com David Lean, por culpa talvez dos 7 Oscars que o seu último filme também recebera.


"Lawrence of Arabia" é um filme que, pelo menos uma vez, deveria ser visto no grande écran de uma sala escura (este ano passou uma cópia digital numa das salas do El Corte Inglês). Só assim se poderá usufruir de toda a sua grandiosidade. Hoje considero-me um privilegiado por ter vivido esse momento único no início da década de 70, quando da reposição do filme em todo o mundo. Apesar de já então se encontrar amputado em cerca de meia hora. Mas mesmo assim, assistir ao vivo, no esplendor dos 70 mm de uma grande sala de cinema (hoje em dia uma impossibilidade estabelecida) foi sem dúvida uma excitante e inesquecível experiência.

É que "Lawrence of Arabia" não é apenas um filme biográfico ou de aventuras, muito embora contenha esses elementos. Acima de tudo, é um filme que usa o deserto como palco de emoções, cativando os espectadores a ponto deles se entregarem totalmente ao puro prazer sensorial de ver e sentir o impacto do vento ou do sol abrasador nas dunas. E isto é algo que não se pode descrever por palavras, tal como não se pode explicar o amor que por vezes sentimos por uma pessoa em especial; e neste caso é o deserto essa outra pessoa, o objecto da nossa paixão.

Acrescente-se agora a memorável música de Maurice Jarre e temos essa paixão elevada aos píncaros do sublime e do êxtase. É esta a razão pela qual as pessoas não se lembram do filme por elementos narrativos; recordam antes uma série de momentos visuais, cuja magia perdura na memória do filme: o apagar de um fósforo a originar o nascer do sol no deserto; a aproximação de uma silhueta no horizonte, como se de uma miragem se tratasse; a travessia do deserto de Nefud; o espectacular ataque a Akaba; o descarrilamento do comboio; a entrada de Lawrence no bar dos oficiais..., e a sequência mais bela - o resgate de Gasim por Lawrence - aqui tudo se conjuga na perfeição. Oberve-se a importância capital da música: começa titubeante, indecisa, a ilustrar a dúvida de Farraj sobre a veracidade da silhueta que mal se distingue ao longe (será ou não uma miragem mais?). Depois, e à medida que a dúvida se transforma em certeza, a música vai crescendo também, até acompanhar o galope desenfreado das duas montadas e os gritos de alegria dos dois homens na iminência do reencontro. É por cenas destas, sem qualquer diálogo, puramente cinemática, que se reconhece a genialidade dos grandes artistas. E David Lean foi sem dúvida um dos maiores.

Uma referência final a Peter O'Toole, que tem aqui um início fulgurante de carreira, com um papel à medida de toda uma vida. Este Irlandês nascido em County Galway (a 2 de Agosto de 1932) mas educado em Leeds, Inglaterra, teve na década de 60 os seus anos de glória no cinema, depois de doze anos passados nos palcos de teatros, nos quais se iniciou com apenas 17 anos; frequentou a Royal Academy of Dramatic Arts, onde teve por colegas Alan Bates, Richard Harris ou Albert Finney. Filmes como "Becket" (1964), "Lord Jim" (1965), "What's New, Pussycat / Que há de Novo, Gatinha?" (1965), "How To Steel a Million / Como Roubar Um Milhão" (1966), "Night of the Generals / A Noite dos Generais" (1969), "The Lion in Winter / O Leão no Inverno" (1969), "Goodbye Mr. Chips / Adeus Mr. Chips" (1969) ou ainda "Man of La Mancha / O Homem da Mancha" (1972), ficarão para sempre associados às magníficas interpretações de O'Toole, que conseguia estar à vontade em qualquer tipo de papel. Nomeado 8 vezes para o Oscar, nunca conseguiu levar para a casa a almejada estatueta, apesar de ser considerado um dos melhores actores da sua geração. Nos Globos de Ouro a sorte sorriu-lhe mais: ganhou aquele prémio por três vezes (nos filmes "Becket", "The Lion in Winter" e "Goodbye Mr. Chips"), num total de oito nomeações. Na déada de 70 problemas de alcool quase que lhe arruinaram de vez a carreira e a própria vida. Conseguiu sobreviver, apesar dos múltiplos tratamentos a que foi submetido lhe terem acabado para sempre com a beleza da juventude, tão bem captada naqueles filmes. Viria a falecer em Londres, a 14 de Dezembro de 2013. Tinha 81 anos.

CURIOSIDADES:

- Quando o filme se estreou, em Dezembro de 62, apresentava uma metragem original de 222 minutos. Pouco tempo depois foram cortados cerca de 20 minutos. Em 1971, quando da primeira reposição, mais 15 minutos foram retirados, sendo esta a versão que foi sendo apresentada nas duas décadas seguintes. Apenas em 1989 se procedeu a uma restauração do filme, que ficou com uma metragem final de 216 minutos. Esta restauração foi levada a cabo por Robert A. Harris, com a colaboração de Martin Scorsese e Steven Spielberg, além do próprio David Lean. Para a gravação de novos diálogos (devido ao mau estado ou mesmo à inexistência dos mesmos em cenas adicionais descobertas) foram de novo chamados os actores principais.

- Vencedor de 7 Oscars: Filme, Realização, Direcção Artística, Fotografia, Montagem, Som e Banda Sonora
Nomeado para mais 3 Oscars: Argumento-Adaptado, Actor Principal (Peter O'Toole) e Actor Secundário (Omar Sharif)
Vencedor de 4 Globos de Ouro: Filme dramático, Realização, Cinematografia e Actor Secundário (Omar Sharif)

- David Lean pretendia o actor Albert Finney para o papel de Lawrence; mas Katharine Hepburn convenceu o produtor Sam Spiegel a contratar Peter O'Toole.


- Apesar da sua longa duração, é um dos raros filmes onde não existe qualquer papel falado por uma mulher.


- Enquanto rodava as cenas de sabotagem dos comboios, a equipa de filmagens encontrou destroços dos verdadeiros comboios que Lawrence fez explodir.


- David Lean tem uma curta aparição como o motociclista que grita para Lawrence "Who are you?", do outro lado do canal do Suez.

- Marlon Brando não aceitou o papel de Lawrence por se ter comprometido em desempenhar Fletcher Christian no filme "Mutiny on the Bounty".

- A interpretação de Peter O'Toole foi considerada pela revista Premiere o melhor desempenho de todos os tempos.

- Em 2007 o American Film Institute classificou "Lawrence of Arabia" no 5º lugar da lista dos Melhores Filmes de Sempre (e em nº 1 do género épico)


  POSTERS

A BANDA-SONORA:

sábado, julho 04, 2015

MUTINY ON THE BOUNTY (1962)

REVOLTA NA BOUNTY
Um filme de LEWIS MILESTONE


Com Marlon Brando, Trevor Howard, Richard Harris, Hugh Griffith, Richard Haydn, Tarita, Gordon Jackson, etc.

EUA / 178 min / COR / 16X9 (2.76:1)

Estreia nos EUA: 8/11/1962
Estreia em Portugal: 18/12/1962


Descontando séries e filmes televisivos, existem 3 versões da conhecida novela de Charles Lederer e James Norman Hall. A original, de 1935, com Charles Laughton e Clark Gable, a mais recente, de 1984, com Anthony Hopkins e Mel Gibson, e esta, do início dos anos 60. Um factor comum aos três filmes são as belissimas interpretações dos personagens de Bligh e Fletcher. Todos os seis actores são bem representativos das respectivas épocas, talvez com Mel Gibson a ser o único a não se enquadrar no universo de "monstros sagrados" dos restantes. A minha dupla preferida é claramente esta, porque Trevor Howard tem um desempenho inolvidável e porque Brando... é Brando. O seu Fletcher Christian é-nos mostrado com contornos simples e contidos, longe do over-acting para onde por vezes o grande actor se deixava resvalar. Aqui as palavras são substituídas por olhares, expressões e posturas, que transmitem ao espectador todas as cambiantes da natureza do personagem. Destaco uma sequência admirável, aquela em que o Capitão Bligh ordena a Christian que regresse a terra para fazer amor com a filha do régulo. Este tinha ficado ofendido pela não consumação do acto sexual da primogénita com o oficial estrangeiro; acto esse, que o próprio Bligh tinha interrompido algumas horas antes...


O filme foi na altura da sua estreia um grande flop comercial, apesar de muitos críticos terem realçado a interpretação de Brando: «It takes some time to see it as a genuine essay in characterization and not as a misplaced caricature, but eventually it is the acting that matters, and here we have Brando at his most commanding» (Daily Mail); «The most remarkable and controversial feature of "Mutiny On The Bounty" is the perfomance of Marlon Brando as Fletcher Christian. From the moment Brando saunters on deck of the Bounty, escorted by two "ladies of quality" to kiss him farewell, it is obvious that he has decided to play his part as the ringleader of the ultimate mutiny in a highly original way. His voice is light and South Kensington in tone; his manner sardonic; and his dress at times seems to come straight from pantomine. The whole effect is richly comic: the perfumed dilettante dabbling in revolution and becoming slightly over-awed and hurt by what he brings about» (Daily Express); «The thing that makes Brando's perfomance heroic is that he is capable of charging his contempt with moral authority. Under the lazy skin one is always aware of a violent, affronted conscience. No actor alive can express such outrage. He is the one who holds the picture together» (The Observer).


À parte do excepcional elenco (não esquecer também Richard Harris) - surpreendente nenhum dos dois actores ter sido nomeado para o Oscar ou Globo de Ouro -, "Mutiny On The Bounty" apresenta-se um pouco desigual na sua estrutura fílmica, sobretudo na longa sequência da ilha que poderia ter sido encurtada, não realçando em demasia o lado folclórico da história. Mas compreende-se, até certo ponto, a necessidade de se mostrar o aspecto pitoresco do Thaiti, um destino paradisíaco sempre muito em voga. Nas conjecturas dos produtores do filme, essa "atracção" suplementar iria atrair mais público às salas, mas tais expectativas revelar-se-iam goradas, não tendo conseguido o êxito esperado.



A verdadeira "atracção" suplementar desta versão de "Mutiny On The Bounty" foi, na verdade, o romance surgido entre Marlon Brando e a protagonista feminina. Tarita Teriipia, uma filha de pescadores de Bora-Bora, era então uma criada de hotel de 19 anos e tinha sido contratada como bailarina para o filme. Durante algum tempo resistiu aos intentos de sedução por parte de Brando. Nas suas memórias, Tarita conta que quando o conheceu, não sentiu nada: «Para mim, o papel só significava um trabalho muito bem pago». Brando, que tinha o dobro da idade de Tarita, divorciou-se da actriz Movita Castañeda (que curiosamente tinha desempenhado o mesmo papel na primeira versão do filme), para casar-se com ela. Apesar de na altura Tarita ter assinado um contrato coma MGM, Brando impediria a sua então companheira de vir a desempenhar mais papéis no cinema. Queria-a em casa, a tomar conta dos filhos. Em 1966 comprou-lhe uma ilha a 20 minutos de voo de Tahití, que converteu no seu refugio privado. Tiveram dois filhos (um rapaz em 1963 e uma rapariga em 1970) e não viveram felizes para sempre: em 1972 cada um foi para o seu lado. Tarita não voltou a casar, estando a caminho de completar 74 anos de idade.


 - A sequência da chegada do navio ao Tahiti foi filmada no mesmo local onde tinha aportado o verdadeiro Bounty, em 1788. Construído de propósito para o filme (a primeira vez que tal aconteceu na história do cinema), o navio viria a afundar-se no Oceano Atlântico em 29 de Outubro de 2012, seis anos após ter sido usado de novo para a rodagem de um filme, "Pirates Of The Caribbean, Dead Man's Chest" (2006). Já o tinha sido, em 1990, no filme "Treasure's Island". Após a conclusão das filmagens, em Março de 1962, e durante 4 décadas, o navio seria objecto de visitas turísticas em S. Petersburg, na Florida.

- Hugh Griffith foi despedido durante as filmagens, devido ao seu estado de embriaguês permanente. É por isso que a sua personagem "desaparece" ao longo do filme. Na verdade, o seu comportanto atingiu tais limites, que o actor foi proibido de regressar ao Tahiti para a rodagem das cenas finais.

- Richard Harris aceitou desempenhar um papel secundário no filme, só para poder trabalhar com Marlon Brando, por quem tinha grande admiração. No entanto, as relações entre os dois actores não seriam as melhores, o que levou Harris a desabafar mais tarde: «It was a nightmarish and a total fucking disaster».


- Último filme de Lewis Milestone. Depois deste, o realizador só rodaria alguns episódios para a TV, incluidos nas séries "The Richard Boone Show" e "Arrest And Trial", em 1964.

- A cena final foi filmada exactamente um ano depois do início da rodagem do filme.

- Para além de improvisar constantemente nos diálogos com Trevor Howard (facto que levava este ao desespero), Marlon Brando chegou a tapar os ouvidos com algodão para não ouvir as deixas do seu interlocutor.




segunda-feira, julho 04, 2011

LOLITA (1962)

LOLITA
Um filme de STANLEY KUBRICK



Com James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers, Gary Cockrell, Jerry Stovin, Diana Decker, Lois Maxwell, etc.

GB-EUA / 152 min / P&B /

4X3 (1.37:1)

Estreia nos EUA a 12/6/1962

Estreia em PORTUGAL a 11/5/1972


Lolita Haze: «I'm really sorry that I cheated so much.
But I guess that's just the way things are»

Apresentado pela primeira vez em 1962, no Festival de Veneza (onde concorreu ao Leão de Ouro), “Lolita” começou por não atraír o grande público, devido sobretudo ao inevitável paralelo entre o filme e o livro, comparação sem grande significado que no entanto perdura até aos nossos dias. Tendo em conta o global desinteresse fílmico de Kubrick pelos problemas da sentimentalidade amorosa, é bastante evidente e significativo o motivo da escolha: o romance de Nabokov desenvolve com ofuscante clareza aquele que é o tema dos temas kubrickiano, aquele a partir do qual se produzem todos os seus filmes: a obsessão.

O facto de Kubrick apostar muito mais no lado subjectivo dessa obsessão, por oposição ao seu objecto físico, ou seja, ao corpo adolescente de Lolita (Sue Lyon) evidencia já o afastamento do conteúdo do romance, enquadrando-se todo o filme numa atmosfera onírica, onde a subtileza é a nota dominante das relações entre Humbert (James Mason, num dos grandes papeis da sua carreira) e as pessoas à sua volta. A relação “normal” entre homem e mulher sempre primou pela ausência no cinema de Kubrick, e esta “Lolita” é um bom exemplo disso. A paixão de Humbert situa-se num plano acima do erotismo e da permissividade, indiferente à idade da “ninfa”, e enquadrando-se num desvio à norma social institucionalizada. É uma espécie de agonia amorosa (que faz lembrar o “Amor-Louco” de Breton), uma exaltação profundamente maior do que aquela que a imaginação pode criar.

Magistralmente interpretada por Shelley Winters, Charlotte Haze, a mãe de Lolita, é o polo atractivo de toda a aversão de Humbert pelos estereotipos presentes no modo de vida americano dos anos 50. Mas enquanto Nabokov não vai além de um certo sarcasmo no modo como descreve essa sociedade, Kubrick apodera-se da figura de Charlotte (e de todos os preconceitos pequeno-burgueses que ela representa) para dar mais ênfase ao tormento de Humbert. Será nesse ambiente de desejos recalcados que o professor se deixará subjugar pela jovem teenager, iniciando o percurso sem retorno que o conduzirá à solidão e à mais negra decrepitude moral.

Já as diversas máscaras de Clare Quilty (espantoso Peter Sellers) estão inteiramente na órbita do imaginário repressivo-depressivo de Humbert As múltiplas aparições de Sellers-Quilty são física e verbalmente grotescas, espelhando toda a culpabilidade de Humbert, e conferindo o peso da realidade e uma dimensão concreta ao delírio da perseguição de que Humbert é vítima. Digamos, para simplificar, que Quilty representa o lado transgressor de Humbert, a materialização dos seus mais secretos desejos.

O filme de Kubrick é considerado ainda hoje como um objecto estranho na sua filmografia. Mas só poderá estar convicto dessa opinião quem passar por “Lolita” apenas um olhar apressado e superficial. Na verdade, todos os temas caros ao realizador estão já contidos nesta adaptação da obra de Nabokov. O argumento, da autoria do próprio escritor, viria a ser nomeado para o Oscar da Academia, mas seriam os Globos de Ouro a perspectivarem o essencial do filme, ao fazerem recaír quatro nomeações sobre o realizador e os três actores (Mason, Winters e Sellers) que foram os principais responsáveis pela envergadura e longevidade da obra.

CURIOSIDADES:

- Errol Flynn chegou a ser equacionado para interpretar o professor Humbert, mas veio a falecer antes do filme começar a ser rodado, a 14 de Outubro de 1959. Laurence Olivier, David Niven, Cary Grant e Noel Coward foram alguns dos actores que rejeitaram o convite.

- Os famosos óculos de Lolita, em forma de coração, apenas foram usados na publicidade do filme.


- Uma das razões de Kubrick ter escolhido Sue Lyon (de entre cerca de 800 candidatas) teve a ver com o tamanho dos seios da jovem actriz, para evitar que a personagem denotasse a pouca idade com que Nabokov a descrevera no livro (12 anos). Além disso, Kubrick teve o cuidado de acrescentar dois anos à sua Lolita (Sue Lyon também tinha a mesma idade - 14 anos -  na altura da rodagem), de modo a aproximá-la mais da adolescência e evitar ao máximo a conotação do filme com o universo pedófilo (estigma do qual no entanto não se viria a livrar).


- Ficaria célebre o tema principal do filme, da autoria de Bob Harris e Nelson Riddle.

- O argumento foi escrito pelo próprio autor do livro, Vladimir Nabokov, mas Kubrick alterou-o substancialmente. Sobretudo no carácter de Peter Sellers, Clare Quilty, que no livro não tem a importância central com que aparece no filme. Até a própria Lolita passou de morena a loura.




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