BEIJA-ME, IDIOTA
Um filme de BILLY WILDER
Com Dean Martin, Kim Novak, Ray Waltson, Felicia Farr, Cliff Osmond, Barbara Pepper, Tom Nolan, etc.
EUA / 125 min / P/B / 16X9 (2.35:1)
Estreia nos EUA (L.A.) a 18/12/1964
Estreia em PORTUGAL (Porto) a 27/5/1971

«Thank heaven for Mr. Billy
Wilder»
(da crítica do Times, quando da estréia londrina do filme)
"Kiss Me, Stupid" (o título é a última frase do filme e o exacto equivalente do “Nobody
is Perfect” do "Some Like it Hot" ou do “Shut up and deal”
do "The Apartment") foi a mais acidentada produção dos anos de glória
wilderianos. Os acidentes começaram quando Peter Sellers que devia fazer o
papel de Spooner (imaginem-no) teve um grave problema cardíaco (o primeiro) e
foi obrigado a deixar o plateau ao fim de três semanas de
rodagem. Ray Walston, memorável pelo seu “Diabo” na peça e no filme "Damn Yankees" (Stanley Donen, 58) e que já aparecera em "The
Apartment" como um dos frequentadores da casa de Lemmon, foi chamado à
pressa para o substituir. Não sei como seria Sellers. Mas Walston é a cópia
conforme (ainda mais crua e ainda mais cruel) do Tom Ewell do "The Seven
Year Itch". Logo que o vemos a dar lições de piano com a t-shirt com
Beethoven, nos lembramos desse outro marido, com quem compartilha uma
imaginação não menos delirante e um cotidiano não menos baço. Ao outro,
entrava-lhe Marilyn pela casa abaixo; a este, trouxeram-lhe Kim Novak, de
umbigo à mostra, Polly the Pistol chamada. E bem se podia chamar Polly la
Douce, como a sua Irma, a que Shirley deu jeito e feitio.

Mas estou a pôr o carro adiante dos bois, na pressa de ir ao filme. Estava
a falar de acidentes e desses o menor foi o da substituição de Sellers por
Walston. Mal o filme ficou pronto (e Wilder gastou rios de dinheiro a reconstituir
em estúdio a rua da vilória da Nevada, réplica correcta e aumentada da Rua
Casanova de "Irma la Douce") saltou-lhe em cima a catolicíssima
Legião da Decência. Desta vez, para eles, Wilder fora longe de mais e, (sic),
tinha produzido um filme sórdido, tão repugnante estética como eticamente.
«Diálogos impúdicos e sugestivos, um lúbrico tratamento de sexo conjugal e
extra-conjugal, uma mórbida atração pela libertinagem, obrigam a condenar este
filme por absoluta imoralidade». Nos anos 60, ao contrário dos anos 50, esta pia veemência já não era
habitual. A United Artists estremeceu e recusou-se a distribuir o filme. Wilder
- num gesto sem precedentes - cortou a cena da roulotte em que
Dean Martin e Felicia Farr iam para a cama ao som do "Oh, Sophie",
cantado pelo papagaio, e chamou os dois actores para refilmar a que agora se vê.
E vemos efetivamente Dean Martin a adormecer como um anjinho. Só que ninguém
nos jura (não ficamos lá para ver e o papagaio, que ficou, continua a cantar)
que Dean Martin tenha dormido toda a noite. Tudo nos leva a concluir pelo
contrário e a elipse acaba por ser bem mais maldosa.

Como era óbvio, não foi tal corte que acalmou as Ligas. A letra dada ao
filme (C) queria dizer “Condemned” e Monsenhor Little, porta-voz da tal liga,
advertiu 40 milhões de católicos que não podiam ver o filme sem cometer mortal
pecado. Podia funcionar como chamariz, mas até não funcionou. Em contraste
com "Some Like it Hot" (designação de Wilder para o
Oscar), "The Apartment" (Oscar do melhor filme em 1960 e Oscar
para Wilder), "Irma la Douce" (designação de Shirley MacLaine) e
- todos - enormes sucessos comerciais, "Kiss Me, Stupid" foi
um flop e teve, na América, péssimas e irritadas críticas. Só
na Europa lhe fizeram justiça. A razão não está, como se disse, no miscast de
Dean Martin (“almost repellent in his leering”) ou na do “harsh and ugly” Ray
Walston. Fundamentalmente, a razão está no retrato desapiedado e implacável que
Wilder dá da América provinciana (que era preciso sempre tratar com carinho) e
da mulher americana, figura sacrossanta em sociedades matriarcais.

Apesar de
tudo, "Seven Year Itch", "The Apartment" ou "Irma
la Douce" eram sobretudo sátiras ao homem, com Marilyn e Shirley a
desencadearem imediatas “simpatias”. Aqui, nem Felicia Farr (demasiado tonta e
demasiado tronco - lá está o molde demasiado explícito e demasiado “sugestivo”)
nem Kim Novak (coisas de umbigos) salvam as mulheres casadas de se parecer
demais com putas e as putas de se parecer demais com mulheres casadas. Essa
identificação é que era insuportável. Cherchez la Femme. E não falo
já (será preciso?) da única mãe do filme, essa que vemos na penumbrosa
seqüência em que Zelda prefere ir para Kim Novak ou para os copos do que ficar
mais tempo a ouvi-la (tudo o que Orville dissera dela, era pouco). «I’ve
been pursued for years by that nasty word - vulgarity», disse um dia
Wilder, que acrescentou: «They object not to the vulgarity in my art, but to
the lack of art in my vulgarity». Tinha razão para se irritar. "Kiss
Me, Stupid", o filme por que mais o atacaram, é a obstinada recusa a
embelezar um mundo arrepiantemente sórdido. Nesse sentido, é um dos mais
cáusticos olhares sobre alguma sociedade americana, precisamente a que mais bem
tratada costuma ser.

E, agora, abram muito os olhos e os ouvidos, porque Wilder, em ajuste de
contas, não perde pitada. Ainda o genérico está a correr (em Las Vegas) e já um travelling nos
atira dum carro para um anúncio de "A Place in the Sun", filme de
George Stevens sobre a “tragédia americana”. Não vamos visitar esse filme, mas
Dean Martin em show, um show que bem pode ter
inspirado Herman José para o Estebes (nem faltam as coristas a dar à perna).
Não há de facto nada mais repelente, mais abrilhantado e mais estúpido do que
esse Dino (atenção à origem italiana) de que Dean Martin vai ser personagem de
antologia. Em corpo inteiro (reparem no gag dos criados, digno
de Lubitsch) está o “american swinger” a que uma só noite de castidade dava as
tais dores de cabeça. No seu desvio para Nevada - em rota para Hollywood - há algumas insinuações
e a história do isqueiro não é inocente.

Depois vamos para outras dores de cabeças. As de Orville J. Spooner, a quem
a coleção de camisolas (Beethoven, Bach e Brahms) não tiravam os ciúmes. «If
the music be the food of love, play on». Mas quando lhe davam os “ataques” não
ouvia Rachmaninoff, como o seu irmão gêmeo do Itch, mas o som do
órgão que tocava na Igreja. É com esse acorde que expulsa “the male Lolita”,
enquanto obviamente Felicia Farr é demasiada areia para a sua camioneta. É então que o espantoso gordo - seu “brother in distress” - interrompe a
viagem de Dino e o faz andar de casa de banho em casa de banho a trautear-lhe
“Monas Lises”. E logo que surge a idéia da noite para Dino, o que Dino vê da
“mulher do anfitrião” é uma fetichizada genitália. Para um sex-maniac não
está mal, entre os duches e as garrafas de Chianti. A simbologia é excessiva
para Spooner que se lembra de Cagney e vai buscar uma toranja ao frigorífico.
Mas nem isso funciona e o único recurso é a troca de mulheres.

Não vou desenvolver: essa troca vai bastante mais longe do que Spooner
alguma vez vez imagina, para satisfação das duas e - por fim - para satisfação
dele também. «This is the way of all flesh». Por Why, por Where, e por What começam
as últimas perguntas que ainda tenta fazer, na noite do triunfo e das
televisões, quando Kim Novak passa de carro. Como única resposta, obtém o “kiss
me, stupid”. E só peço ainda que reparem na cadeia de três lugares (“conversadeira”,
chama-se em Portugal) na constipação de Kim Novak, nas “small moons”, na
história da lagosta, no pedido de Felicia Farr para ouvir a "Melancholic
Baby", no papagaio e nas notas. E o filme que começou com Dino a cantar acaba com Dino a cantar. Todos
retiraram daquela noite a quatro alguma satisfação. Polly teve a ilusão de ser
Mrs. Spooner; Mrs. Spooner teve a sensação de ser Polly; Spooner teve a ilusão
de ser Gershwin; Dino teve várias sensações e nenhuma dor de cabeça. Todos tiveram
a inteligência da sua estupidez e a estupidez da sua inteligência. Coisas que acontecem a quem, ao chegar a clímax, se descobre sem
combustível. Coisas de néons, bang-bang e
papagaios com muito boa memória. "Kiss Me, Stupid": um humor de perdição. Thank heaven for Mr. Billy Wilder. (João Bénard da Costa)


