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domingo, julho 13, 2025

DER TIGER VON ESCHNAPUR / DAS INDISCHE GRABMAL (1959)

O TIGRE DE ESCHNAPUR / O TÚMULO ÍNDIO
Um filme de FRITZ LANG




Com Debra Paget, Paul Hubschmid, Walter Reyner, Claus Holm, Sabine Bethmann, etc.

RFA / 97 + 101 min / COR / 
4X3 (1.37:1)

Estreia na Alemanha a 22/1/1959
Estreia em Portugal (versão reduzida): 10/3/1961 (Cinema Condes)



Filme composto por duas partes, foi rodado por Fritz Lang logo após o seu regresso dos Estados Unidos em 1957, onde esteve exilado durante cerca de 25 anos. Nesse ano fez uma das suas muitas viagens à Índia, pensando realizar um filme sobre o famoso Taj Mahal, mas o projecto não foi avante. Por essa altura o produtor alemão Artur Brauner contactou-o para um regresso à Alemanha, sugerindo-lhe as histórias do "Tigre de Eschnapur" e do "Túmulo Índio". Prometia-lhe absoluta liberdade. Para Lang este convite era a concretização de um sonho antigo, pelo que não hesitou.

Trata-se de uma aventura sem grandes implicações ideológicas ou temáticas, fugindo inclusive ao estilo característico de Lang, mas ainda assim muitissimo interessante. A história fala-nos de um arquitecto alemão, Harald Berger (Paul Hubschmid), que é convidado a viajar até à Índia para reformar a urbanização da capital, mas que pelo caminho encontra Seetha (Debra Paget), uma bailarina, prometida do marajá Chandra (Walter Reyer), a quem salva das garras de um tigre. Amores e conspirações completam o quadro, fornecendo a paisagem indiana o necessário exotismo. Na 2ª parte Berger vê-se envolvido numa luta de poder, entre o marajá e o irmão, Ramigani. Seetha é obrigada a casar com Chandra, como única forma de salvar o arquitecto, e este é amarrado numa das masmorras do castelo, enquanto Seetha tem de dançar diante de uma cobra, numa verdadeira prova de coragem perante os homens e os deuses…


Esteticamente o filme é muito belo, evocando o imaginário dos anos 20 e particularmente o abstraccionismo dos “Nibelungos”, do próprio Lang. A utilização do décor e do espaço é simplesmente portentosa, sobretudo nas sequências rodadas nos salões, terraços e subterrâneos do palácio. Aliás é uma faceta conhecida de toda a obra de Lang, a alternativa entre os espaços abertos e cerrados, entre o movimento para a liberdade e o movimento para o abismo.

A aparente convencionalidade do argumento é ultrapassada pela maturidade de Lang, que lhe permite combinar o máximo de inacessibilidade com o máximo de acessibilidade. É tão possível dizer-se que, uma vez mais, os temas da morte, da vontade de poder e do destino tudo dominam e a tudo presidem, como filiá-los nos grandes romances de aventuras do século XIX, de Júlio Verne, Karl May ou Emilio Salgari. Em última análise, nós espectadores, abandonamo-nos ao prazer de uma história bem contada, que tem a ver com contos de fadas e o mundo da infância e da adolescência.

Se o filme tem uma poderosa carga mágica (o episódio do faquir do Tigre, a dança da cobra ou a maldição da deusa do Túmulo, para apenas citar alguns exemplos cimeiros) essa magia é inseparável duma moral, que no termo da obra de Lang é da exaltação do amor. Estamos num mundo de volumes, de luzes e de cores, em que a luta se trava tanto entre os sentimentos como entre as formas. Num mundo em que a genealogia da moral postula o mito e em que a fábula se encerra na moral da fábula.


CURIOSIDADES:

- Existe um versão mutilada com apenas 95 minutos dos dois filmes, dobrada em inglês e com o título de "Journey to the Lost City".

- Um dos filmes predilectos de Steven Spielberg, que inclusivé esteve na génese da criação da personagem de Indiana Jones.


 
 

segunda-feira, dezembro 23, 2013

HIROSHIMA MON AMOUR (1959)


HIROSHIMA MEU AMOR
Um Filme de ALAIN RESNAIS



Com Emmanuelle Riva, Eiji Okada, etc.


FRANÇA-JAPÃO / 90 min / 
PB / 4X3 (1.37:1)


Estreia em FRANÇA a 10/6/1959
Estreia em PORTUGAL a 27/4/1974
(Lisboa, Cinema Londres)



«...Eu bem suspeitava que um dia me havias de aparecer.
Esperava-te com uma paciência sem limites, calma.
Devora-me.
Deforma-me à tua imagem, a fim de que nenhum outro,
depois de ti, compreenda a razão de tanto desejo.
Vamos ficar sós, meu amor.
A noite não acabará.
O dia não voltará a romper para ninguém.
Jamais. Nunca mais. Por fim.
Matas-me. Fazes-me bem.
Choraremos conscienciosamente
e com boa vontade o dia defunto.
Nada mais teremos a fazer senão chorar o dia defunto.
O tempo passará. Apenas o tempo.
E mais tempo há-de vir.
O tempo virá em que não saberemos
que nome dar ao que nos unirá.
O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória.
Depois desaparecerá por completo.»


Palavras de “Hiroshima Mon Amour”, palavras de Marguerite Duras que pela primeira e última vez escreveu todo um livro para ser filmado, quase como se dum roteiro se tratasse. Alain Resnais tinha conseguido, quase por acaso, a colaboração preciosa de uma das mais famosas escritoras francesas. A cumplicidade desse feliz encontro resultou num dos mais belos filmes da história do Cinema. Um filme que em boa hora regressa à cumplicidade de uma sala de cinema - o Nimas, em Lisboa.

Desde as primeiras imagens (uma marca fossilizada, corpos nus enlaçados emergindo de um banho de cinzas), desde as primeiras frases, elevando-se em voz-off, em tom de declamação («não viste nada em Hiroshima..), banhamo-nos num clima envolvente, misto de dor e doçura, que não só se manterá ao longo de todo o filme como impregnará toda a obra de Alain Resnais: a interpenetração do amor e da morte, tendo como filigrana o peso da lembrança. É como se todo o sofrimento do mundo se confrontasse com a efemeridade do sentimento, e com o traumatismo da memória. Memória individual e memória colectiva, indissoluvelmente ligadas. «Sou obsecado pela morte, pelo tempo que passa, pelo desgaste das coisas...», declarou o cineasta numa entrevista da época.

Se na pintura os limites são dados pela tela que se oferece àquele que a contempla, no cinema a tela é o tempo. Em "Hiroshima Mon Amour" tudo pretende traduzir um lirismo investido de um rigor quase matemático, através de múltiplas justaposições: masculino / feminino, amor / inimigo, destruição / vida, memória / esquecimento. Esta última dualidade é na verdade o âmago central de todo o filme: Resnais, e claro, Duras, propõem mostrar-nos que a memória é uma forma do esquecimento, que o esquecimento não poderá efectivar-se totalmente sem que primeiro a própria memória tenha concretizado a sua obra.

O diálogo de Marguerite Duras dispensa qualquer comentário: «Eu conheço o esquecimento», diz a mulher francesa, que, perante a negativa do japonês, insiste: «Como tu, também eu sou dotada de memória. Tentei lutar com todas as minhas forças contra o horror de já não compreender o porquê dessa recordação. Como tu, também eu esqueci; porque negar a evidente necessidade da memória?»

Se há uma ilusão da memória, há uma realidade do esquecimento. É o que nos vai demonstrar o episódio simétrico de Nevers. Hiroshima e Nevers estão ligadas, antes de tudo, por elos de facto. A morte do seu amante alemão, em Nevers, representa para a heroína uma catástrofe exactamente idêntica à de Hiroshima. É uma morte, um fim, alguma coisa que não suporta um "depois". E, no entanto, houve um depois: o depois é o esquecimento, e o esquecimento culmina na repetição.


Assim como o esquecimento de Hiroshima, esquecimento inevitável, uma vez que é necessário que os sobreviventes continuem a viver, implica a possibilidade de se produzirem outras Hiroshimas, também a repetição, quinze anos depois dessa aventura da juventude, de um amor impossível com o japonês assinala a profundidade e a necessidade do esquecimento. E assim como a jovem ao visitar os museus, os hospitais, as ruínas da cidade destruída, ao ver os jornais de actualidades, teve a ilusão de reviver o acontecimento («A ilusão é de tal modo perfeita - diz ela - que até os turistas choram»), também, ao ver o japonês, ela tem a ilusão de rever o alemão.

Depois dos dois regressos simétricos e sucessivos a Hiroshima e a Nevers, o sentido do filme torna-se evidente. Não é a história de um amor ou de dois amores, é, realmente, a história de um esquecimento. «Lembrar-me-ei de ti como do esquecimento do próprio amor; pensarei nesta história como no horror do esquecimento.» Para "saber" o que era essa história de Nevers teria sido necessário que ela a contasse. O que dá sentido aos acontecimentos é exactamente a narrativa. Mas se ela pôde contar a história é porque essa história "se podia contar". E se ela se podia contar é porque acaba precisamente por se apresentar à memória sob a forma do esquecimento: «Vês, a nossa história podia-se contar», diz a jovem francesa, que acrescenta logo a seguir: «Vê como te esqueço.»

As últimas sequências do filme levam-nos a assistir a uma dupla separação, que, simbolicamente, é apenas uma: a heroína separa-se do japonês, mas também de Nevers: «História de quatro vinténs, entrego-te ao esquecimento.» Ao mesmo tempo, é o japonês que ela vota ao esquecimento: «Como com ele, o esquecimento começará pelos teus olhos, pela tua voz. E acabará por te submergir totalmente.» No cabaret a ruptura torna-se nítida. Simbolicamente, um outro homem toma o lugar do amante; e no olhar deste vemos nascer pouco a pouco o receio da separação: «Esquecer-te-ei, repara como te esqueço já.»

Nesse momento o círculo está definitivamente fechado, o futuro e o passado como que se inclinam sobre o presente, vindo colar-se estreitamente sobre esse tempo puro, aberto para um futuro vazio. Esgotaram-se, literalmente, todos os meios e a nossa lassitude física traduz esta impressão de vazio interminável que é a própria imagem que Marguerite Duras e Alain Resnais nos quiseram dar do tempo.

O comité do Festival de Cannes de 1959 rejeitou a selecção de "Hiroshima Mon Amour", julgando inoportuna a sua inclusão na competição internacional - corria-se o risco de desagradar os americanos. Para Resnais esta história sabia-lhe a déjà vu: já em 56 se passara o mesmo com "Nuit et Brouillard" que, ao documentar os campos de concentração nazis, poderia ofender as susceptibilidades germânicas - dissera o júri de então. Passados alguns dias, e devido a pressões de gente ilustre do cinema (casos de Louis Malle, Claude Chabrol, François Truffaut, René Clair ou Roberto Rossellini), o filme teve autorização para ser exibido no Festival, mas apenas extra-competição. Concederam-lhe o Prémio da Crítica Internacional e o Prémio Especial da Sociedade de Escitores de Cinema e Televisão.

A celeuma em torno do filme provocou uma guerra entre indefectíveis entusiastas e irritados detractores. Entre "sublime" e "idiota" esgotaram-se os adjectivos. Que reabilitava os colaboracionistas, que era um panfleto anti-americano, foram as principais objecções políticas; artisticamente os opositores apontavam-lhe o arteficialismo do texto, a inconclusividade moral de toda a história, o desequilíbrio entre as partes, dizendo que a sequência em que o japonês insiste em perseguir a mulher francesa roçava as raízes do irrisório.

Mais clarividente, a crítica anglo-saxónica comparava esta controvérsia com a que fôra gerada por "Citizen Kane", entregando qualquer juízo para a posteridade. Meio século passado, parece sobremaneira feliz a comparação entre os dois filmes: hoje já ninguém tem dúvidas que "Hiroshima Mon Amour" é um marco decisivo na história do cinema.

Estreado em França a 10 de Junho de 1959, o filme só chegaria a Portugal dois dias após o 25 de Abril, estreando-se então no cinema Londres, em Lisboa. Não sei se chegou a correr em circuitos paralelos, mas eu vi-o muito antes, em Lourenço Marques, a 26 de Agosto de 1972, numa sessão do Cine-Clube local (pois, era usual nessa altura termos destes privilégios culturais). Nos Estados Unidos a estreia ocorreu a 16 de Maio de 1960, tendo inclusivé sido nomeado para o Oscar do melhor Argumento.

O filme revelou uma actriz francesa, Emmanuelle Riva (de seu verdadeiro nome Paulette Germaine Riva), na altura com 32 anos e que mostrava na tela tudo quanto Duras idealizara no papel: «Nela, tudo passa pelo olhar, desde a palavra ao movimento. Este olhar está esquecido de si próprio. Esta mulher olha por sua conta. O seu olhar não consagra o seu comportamento, ultrapassa-o sempre.»


Aqui ficam alguns excertos de uma entrevista da actriz, publicada no primeiro número do “Cinéfilo”, em 30 de Setembro de 1973:
«”Hiroshima Mon Amour” foi evidentemente uma experiência muito importante! Resnais ainda não tinha dirigido actores - era a sua primeira longa metragem - e ele mesmo dizia que não sabia dirigi-los. Mas havia uma grande precisão no argumento, resultado do trabalho conjunto Duras-Resnais. Toda a história do filme estava escrita com muito pormenor, muito detalhadamente, o que nos ajudou muito. Também foi um incentivo a relação de amizade que já existia entre os dois. Havia uma compreensão tácita, em meias palavras, apenas com um olhar...»

«Cultivar uma imagem teria sido muito fácil, depois de “Hiroshima Mon Amour”. Quiseram fazer de mim um ídolo. Mas não me subiu à cabeça. Pelo contrário. Tive de espezinhar esse ídolo. Eu acho que os ídolos são pouco sãos. Classificam os actores, põem-lhes etiquetas - eu quis fugir a isso.»

«Acho quase um milagre quando, entre duas pessoas, uma não pretende alimentar-se da outra ou não a tenta dominar com o seu poder. É preciso arrancar essas ervas daninhas para ficar só a boa raíz. O que interessa é a troca entre duas pessoas de igual para igual, duas pessoas a par. Sem posse, sem destruição. É tão simples e tão difícil. Não sabemos viver o amor, por isso ele dura pouco. O amor tem uma estrutura frágil, é uma caixinha com qualquer coisa que não é deste mundo, é uma prenda.»

A actriz, falecida aos 89 anos em 27/1/2017, teve na sua carreira cerca de setenta títulos (excluindo os trabalhos para TV). Um dos últimos, de 2012, foi o pungente "Amour", onde aparece ao lado do também octogenário (três anos mais novo) Jean-Louis Trintignant. Eiji Okada, o actor japonês que com ela contracena em “Hiroshima Mon Amour”, faleceu aos 75 anos, em 14 de Setembro de 1995 com um ataque cardíaco. Marguerite Duras também já nos deixou, um cancro levou-a aos 81 anos (a 3 de Março de 1996). Bem como Alain Resnais, que partiu no dia 1 de Março de 2014, com 91 anos, deixando viúva Sabine Azéma, a excelente actriz que participou em muitos dos seus filmes, e com quem estava casado desde 1998.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

BEN-HUR (1959)

BEN-HUR
Um filme de WILLIAM WYLER



Com Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkins, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell, Sam Jaffe, Finlay Currie, Frank Thring, etc.

EUA / 212 min / COR / 16X9 (2.76:1)

Estreia nos EUA a 18/11/1959
(New York)
Estreia em ITÁLIA a 21/10/1960




Pontius Pilate: «Messala is dead. What he did 
has had its way with him» 
Judah Ben-Hur: «The deed was not Messala's. I knew him, well, before the cruelty of Rome spread in his blood.

Rome destroyed Messala as surely 
as Rome has destroyed my family»


"Ben-Hur" é o épico dos épicos, um filme grandioso seja qual for o prisma pelo qual para ele se olhe. Desde o argumento, sempre emotivo e envolvente, passando pela primorosa realização e direcção de actores, pelas maravilhas que são a fotografia, os cenários, o guarda-roupa e a banda sonora, até às inesquecíveis interpretações (principais e secundárias), tudo se conjugou harmoniosamente neste dinossauro excelentissimo que teima em não desaparecer nos anais do tempo. Pelo contrário, a sua permanência na memória dos mais velhos ou a descoberta de que é alvo por parte dos mais novos, parece ter um propósito bem definido: a de nos lembrar, a todos, que houve um tempo em que os filmes se faziam com muito amor e dedicação, para lá do aspecto económico.

Havia uma outra entrega, as pessoas davam aquilo que tinham e o que não tinham, chegando mesmo ao sacrifício supremo, como o produtor  Sam Zimbalist, que veio a falecer durante a rodagem do filme, vítima de um fulminante ataque de coração, consequência provável da enorme pressão a que estava sujeito. Porque, convém não esquecer, o investimento colossal colocado na produção (cerca de 16 milhões de dólares, um recorde para a época), tinha por objectivo principal salvar a MGM de uma bancarrota anunciada. Tal objectivo foi largamente ultrapassado, dado que o filme se veio a tornar num sucesso gigantesco, tendo logo na altura dado um lucro de cerca de 70 milhões de dólares, apenas nos EUA.


Enquadrado no género bíblico, é pertinente lembrar aos mais distraídos que a personagem principal, Judah Ben-Hur, existiu apenas na imaginação de um general da Guerra da Secessão (1861-1865), chamado Lewis Wallace (1827-1905), que mais tarde veio a ser governador do Território do Novo México (durante esse período chegou a conceder a amnistia ao famigerado Billy the Kid) e embaixador na Turquia durante 4 anos (1881-1885). Agnóstico convicto, Wallace tinha por finalidade desmitificar o Cristianismo quando começou a escrever o livro pelo qual seria imortalizado, "Ben-Hur". Mas as pesquisas que levou a cabo em variadissimas bibliotecas depressa mudaram o sentido da obra, o que aliás se reflecte na evolução do personagem principal. Publicado em 1880, o livro não conheceu sucesso imediato. Só mais tarde é que se viria a tornar num enorme campeão de vendas, traduzido para dezenas de idiomas, incluindo o braille.


Curiosamente, a primeira apresentação pública de "Ben-Hur" foi feita em cima de um palco, no Teatro Manhattan em Nova York, corria o ano de 1899. Com adaptação de William Young e música de Edgar Stillman Kelley, a peça foi representada em diversas cidades americanas, entre o ano da estreia e 1916. A necessidade de representação das cenas mais emblemáticas da obra, nomeadamente a batalha naval e a corrida das quadrigas, obrigou a autênticos malabarismos inventivos que contribuíram para o sucesso do espectáculo durante todos aqueles anos.


Com o advento do cinematógrafo, "Ben-Hur" conheceu a sua primeira adaptação logo em 1907, dois anos após o falecimento de Wallace. Como não podia deixar de ser, dadas as limitações técnicas da época, essa curta metragem, com cerca de 12 minutos de duração, era apenas uma sucessão de pequenos quadros filmados por uma câmara estática e em que a maioria do tempo era ocupado pela corrida das quadrigas. A companhia Kalem, que produziu o filme, foi processada pelos herdeiros de Wallace por violação de direitos autorais. O tribunal deu-lhes razão e ordenou à produtora o pagamento de uma larga indemnização aos queixosos.


A segunda adaptação ao cinema surgiu quase vinte anos depois, em 1925, no apogeu do cinema mudo. Realizado por Fred Niblo e com Ramón Novarro no papel principal, "Ben-Hur: A Tale of the Christ" surpreende ainda hoje pela técnica e pela exuberância de meios, ambas muito avançadas para a época em que o filme foi produzido. Embora se trate de um filme a preto e branco, várias sequências foram coloridas à mão e, em algumas delas, usou-se um sistema que daria origem mais tarde ao Technicolor. Esquecida por muitos, esta versão seria restaurada nos fins da década de 80 e normalmente acompanha as edições sucessivas em DVD do filme de William Wyler de 1959.

E eis-nos finalmente chegados à grande e definitiva versão de "Ben-Hur". Primeiro filme galardoado com um total de 11 Óscares (seriam precisos quase 40 anos para que um outro filme, no caso o "Titanic" de James Cameron [1997], conseguisse igualar tal proeza), "Ben-Hur" não venceu unicamente na categoria de Argumento-Adaptado, para a qual também tinha sido indigitado. Recebeu ainda 4 Globos de Ouro (num total de 9 nomeações), um prémio especial conferido a Andrew Marton pela direcção da sequência da corrida das quadrigas e o BAFTA inglês pelo melhor filme do ano. A belissima banda sonora, da autoria do conhecido Miklós Rozsa, também não seria esquecida, ao receber o respectivo Grammy. Toda esta catadupa de prémios surgiu em relação directa com o valor do filme, o qual, mesmo após completar meio século de existência, continua a ser considerado, pela crítica e pelo público, como uma das obras mais espantosas de toda a história do Cinema.

Como se começou por escrever no início desta prosa, todos os aspectos (técnicos e artísticos) do filme contribuíram significativamente para a sua grandeza. Mas, acima de tudo, a interpretação de Charlton Heston (1923-2008) como o Príncipe de Hur é algo que ninguém consegue dissociar de "Ben-Hur". Fala-se no filme e é o seu rosto que aparece em primeiro lugar. Podemos dizer que Ben-Hur é Charlton Heston e que Charlton Heston é Ben-Hur. Grande e multi-facetado actor (muitas vezes alvo de críticas por causa da sua defesa intransigente do uso pessoal de armas de fogo), Charlton Heston nasceu para interpretar papeis bigger than life no cinema (quem não se lembra do Moisés de "The Ten Commandments" [1956], "El-Cid" [1961], "55 Days at Peking" [1963] ou "Planet of the Apes" [1968], por exemplo?), mas a personagem de Judah Ben-Hur ficará para sempre como o ponto mais alto de toda a sua brilhante carreira de mais de uma centena de filmes. E não é por que tenha ganho o Óscar de melhor Actor Principal, aliás merecidissimo.

Desde os tempos do cinema mudo que "Ben-Hur" foi coleccionando dezenas de argumentos, uns atrás dos outros. E mesmo poucas semanas antes do início das filmagens em Roma, nos estúdios da Cinecittà, William Wyler ainda não tinha entre mãos um argumento pronto a ser filmado (aconteceu por várias vezes ter de se filmar o que tinha sido escrito nas vésperas). Daí resultaram uma série de improvisações e a colaboração de vários escritores, se bem que, no genérico final, apenas apareça o nome de Karl Tunberg. Sabe-se hoje que foi Gore Vidal (conhecido pelas suas convicções ateístas e homossexuais) quem escreveu grande parte do argumento final, devendo-se a ele toda a sequência do reencontro de Messala (Stephen Boyd, também ele num papel memorável) com Ben-Hur, rodada intencionalmente como se se tratasse de um conflito entre um qualquer casal de apaixonados.

Sem qualquer diálogo explícito foi, segundo o próprio Vidal, a melhor maneira de salientar a grande frustração de Messala ao ser "abandonado" pelo Príncipe de Hur, o que conduz de imediato às acções de retaliação sobre a família e o próprio companheiro de infância, quase como se tratasse de um acto de ciúmes. A verdade é que a orientação imposta por Vidal resultou em cheio e é esta sequência inicial que vem depois relevar o sentimento de vingança de Ben-Hur. O sub-título do filme diz-nos que se trata de um conto do tempo de Cristo; mas, na realidade, o que está no âmago de "Ben-Hur" é a história de dois homens, unidos na infância, mas que o poderio romano vem separar e transformar em inimigos mortais.

São necessárias três horas e meia (um pouco mais, se se contar com a overture inicial e o intervalo) para vermos este longo fresco épico. Mas é um tempo que passa a correr, tantas são as sequências inesquecíveis do filme: o já citado encontro inicial de Messala e Ben-Hur, o acidente no telhado que despoleta todos os acontecimentos, o juramento de vingança de Ben-Hur (mais um excelente confronto entre os dois actores principais), a travessia do deserto e o primeiro encontro com Cristo (uma "figura" nunca filmada de frente - mas sempre de um modo relevante - e que foi interpretada por um cantor de ópera chamado Claude Heater, não creditado no genérico), a escravidão nas galés e a batalha naval contra a frota macedónica, a celeberrima corrida das quadrigas (largos meses de preparação para cerca de 10 minutos de filme) com o derradeiro e pungente encontro de Messala com Ben-Hur, o resgatamento de Miriam (Martha Scott), a mãe de Ben-Hur, e da irmã Tirzah (Cathy O'Donnell) do Vale dos Leprosos e, por fim, toda a sequência final do calvário de Cristo, esteticamente uma das mais conseguidas de todas as muitas dezenas que esse episódio foi transposto para o cinema.

Por tudo o que atrás se escreveu e também pelo muito que não se disse, "Ben-Hur" é um filme que, no mínimo, toda a gente devia ver pelo menos uma vez na vida. A minha iniciação foi já um pouco tardia, tendo ocorrido nas férias de Verão de 1971, mais precisamente dia 2 de Setembro, numa matiné de quinta-feira do cinema Roma, em Lisboa. Foi tardia, mas nem por isso deixou de ser espectacular, atendendo a que a versão em cartaz era a de 70 mm e 6 bandas estereofónicas. Nestes 40 anos regressei ao filme vezes sem conta. A última foi ontem, dia de Natal, por causa da nova versão em blu-ray. É uma pena que filmes como "Ben-Hur" não sejam exibidos periodicamente em grandes salas de espectáculo (parece que a situação está a mudar um pouco, já se começam a ver por aí alguns clássicos do passado). Mas quem tiver uma boa aparelhagem caseira poderá, ainda assim, disfrutar com enorme prazer de um dos filmes mais excitantes de toda a história da Sétima Arte.


CURIOSIDADES:

- "Ben-Hur" foi inteiramente filmado em Roma, nos estúdios Cinecittà, durante cerca de 9 meses. A arena da corrida das quadrigas foi o maior cenário construído até à época, tendo custado um milhão de dólares. Nessa sequência – dirigida em 94 dias por Andrew Marton, Mario Soldati e Yakima Canutt, utilizaram-se cinco câmaras, quinze mil figurantes, dezoito quadrigas e 76 cavalos. Foi também criada uma enfermaria para tratamento de prováveis acidentes, mas apenas foram assistidas algumas pessoas da assistência com pequenas queimaduras solares.

- Para filmar o início da corrida (e outros planos ao longo da mesma), o director de fotografia Robert Surtees usou uma grua de mais de trinta metros de altura: o espectador vê as quadrigas desfilando na pista como se sobrevoasse a arena. O efeito é realçado pela utilização do processo cinematográfico Camera 65, um aperfeiçoamento do CinemaScope. Apesar de na Itália haver cavalos brancos, os quatro que foram utilizados nas filmagens vieram da Checoslováquia, transportados em primeira classe num avião fretado e ao qual teve de se retirar os assentos dos passageiros.



- Charlton Heston aprendeu a conduzir as quadrigas, sendo ele próprio que aparece em muitos dos planos filmados. As cenas mais arriscadas, como o salto dos cavalos, foram no entanto executadas por duplos.

- Paul Newman foi o primeiro actor abordado para interpretar o papel principal. Devido à má experiência no filme "O Cálice de Prata", Newman recusou o convite dizendo que nunca mais haveria de interpretar um papel em que tivesse de usar uniformes romanos. Outros actores que chegaram a ser equacionados foram Burt Lancaster e também Rock Hudson. Para o papel de Messala, foram Robert Ryan, Stewart Granger e Leslie Nielsen os actores convidados. O último chegou a realizar um teste, que pode ser visto num documentário que acompanha a edição do filme em DVD.

- Como a maioria dos actores tinham olhos azuis, William Wyler quis que Messala e todos os restantes romanos se diferenciassem dos demais, tendo obrigado Stephen Boyd, Jack Hawkins e outros a usar lentes de contacto para escurecer os olhos. Wyler recebeu 1 milhão de dólares para dirigir o filme (já tinha sido assistente de realização na versão muda de 1925)



- "Ben-Hur" foi o único filme de temática religiosa a ser aprovado pelo Vaticano

- A MGM queria que um autêntico barco romano fosse utilizado nas cenas de batalha, pelo que foi contratado um engenheiro apenas para esse fim. Quando ele apresentou o design do barco aos responsáveis do estúdio, estes disseram que ele se afundaria, pois era muito pesado. Ainda assim o barco foi construído e, ao ser colocado no oceano, inicialmente flutuou. Porém uma pequena onda foi suficiente para afundar a embarcação. Por causa disso, as cenas da batalha foram rodadas num gigantesco tanque, com cabos a prender o barco. Após a construção do tanque, era preciso dar à água (que estava marron-escura) o tom azul-mediterrâneo necessário para que as cenas parecessem reais. Foi utilizado um composto químico que realmente azulou a água, mas também formou sobre ela uma crosta, que precisou de ser toda retirada do tanque por operários da MGM. Durante as filmagens um dos figurantes caiu na água e lá ficou por muito tempo. Ao sair, estava totalmente azul, e teve o seu salário pago pela MGM até a pele voltar ao normal



- Martha Scott já tinha desempenhado o papel de mãe de Charlton Heston no filme "The Ten Commandments", três anos antes

- Miklós Rózsa compôs a trilha sonora de "Ben-Hur", em oito semanas

- "Ben-Hur" foi o primeiro filme a conseguir 11 Óscares da Academia. Se pensarmos que nessa altura só havia 12 categorias a que eram atribuídas as estatuetas, podemos concluir que a percentagem conseguida (91,7 %) nunca foi ultrapassada até hoje. A lista completa dos Óscares atribuídos a "Ben-Hur" pode ser consultada aqui






A BANDA-SONORA COMPLETA: