Cansado escuto os três apitos indicando que um barco vai partir. Vou até à janela e vejo partir o navio italiano que todo o dia ocupara o cais. Conseguem-se escutar as mensagens com as indicações do programa (italiano, inglês e francês) que vai saindo pelos altifalantes. E eu que tenho tanto, tanto, que fazer, navego também naquelas águas ... e senti uma imensa saudade.
Saudade de uma viagem sem preocupações, sem contar "o tempo" e sem sentir a sua falta. Estamos num tempo sem esperança. E quando não existe esperança não existe triunfo, nem futuro.
Li a entrevista de Sócrates, os meios de comunicação social fizeram mais fumo do que fogo. As frases isoladas parecem impróprias, mas no contexto ficam brandas e quase suaves. É a entrevista de um homem que se sente injustiçado. E quem é que nunca se sentiu injustiçado?
Sobre a esquerda, sobre a direita, sobre a moderação diz uma frase em que me revejo: "Aos idiotas que andaram apaixonados por coisas que tiveram de negar faz-lhes muita impressão um tipo que sempre foi a merda de um moderado! Como dos dois lados. Sempre achei que o compromisso é a base da democracia! Era um daqueles tipos que aos 16 anos achava que a revolução, como método político, não fazia sentido! Não gosto de radicalismos, da atitude de sim ou sopas! Os que dizem que metade de um prazer não é prazer não sabem que metade de um prazer ainda é prazer. E que o caminho do reformismo é o caminho".
Sim, sei que a revolução pode ajudar, pode dar o empurrão, mas é preciso que se saiba e conheça o caminho. Acredito que cada geração deveria de aprender com os erros das gerações passadas e ser-se sempre, sempre, mais tolerante, mais humano., mas não mais humilde!
Falou da "falsa humildade" de muitos que batem com a mão no peito ("cultura católica"). Como eu o compreendo! Diz: "Aqueles gajos que se achavam a aristocracia pensavam que eu tinha que ir lá pedir, pedir se podia, pedir autorização. E eu pensei, raios vos partam, vou vencer-vos a todos! E foi o que fiz!"
Mas esta nossa independência paga-se e custa muito... Se não nos vencem... criam-nos sombras, ditos..., e quase chegamos a acreditar no "mostrengo".
Cansado, sem vontade de trabalhar, mas não querendo entregar tudo ao Outro, sinto que tenho que lutar, que tenho de ter esperança.
Tal como no poema de Pessoa, O Mostrengo, é preciso não temer. Voltar ao trabalho e dizer "aqui [...] sou mais do que eu".
Escuto uma música que me volta a dar serenidade: Grosse Sonate A-dur (1832) de Richard Wagner. A que escuto, em casa, é tocada por aquele que acho o melhor interprete, para piano, de Wagner: Stephan Möller. Uma gravação mais velha do que eu, tocada num disco que tem quase tantos anos como os meus. "E mais que o mostrengo, que me a alma teme [...] manda a vontade" (Fernando Pessoa).