Obrigada, Maria Luisa!
«[...] a partir da inventio do sarcófago do apóstolo São Tiago, esta terra passou a ser conhecida e definida como a terra do apóstolo São Tiago ou, na tradição escandinava, como Jacobsland. A origem de tudo isto está na descoberta por parte do bispo de Iria Flavia, Teodomiro, no início do século IX, de uma edícula ou de uma sepultura num lugar desabitado. Essa terra foi o germe do que viria a ser a cidade de Compostela: uma encruzilhada e uma necrópole. Mais do que um campo de estrelas (campus stellae), como era popularmente definida a nova cidade jacobeia, tratava-se de uma terra "bem-posta" ou composita, o que poderia ser interpretado como "lugar bem edificado" ou um local de sepultamento.
«A descoberta, rapidamente apropriada pelos monarcas cristãos do reino galaico-asturiano, mudou a posição da Galiza como finisterra e converteu tal facto no pilar essencial para as relações da terra dos Galegos com a história universal., como costumavam dizer os historiadores da geração Nós. A Galiza reforça, assim, o seu estatuto de ponto de referência da cultura europeia quando ressoam em Compostela - devido á crença de estar ali enterrado o corpo de um dos 12 apóstolos - os ecos de além-Pirenéus trazidos por peregrinos de todos os cantos do continente europeu. De repente, numa terra distante, descobriu-se o túmulo de São Tiago [...]. A inventio deu origem a um santuário e, pouco depois, a uma civitas cujo primeiro habitante foi Bretenaldo Franco, um peregrino de paragens longínquas [...]. Essa operação política e religiosa situou a cidade de Santiago no mesmo paralelo religioso que Roma e Jerusalém, tornando-se uma sé apostólica, obtida oficialmente pelo arcebispo Gelmírez em 1120. Por essa altura, Compostela passara a ser um íman cultural da cristandade. [...]
«Paralelamente ao estabelecimento das fronteiras territoriais da Galiza, o Caminho de Santiago abriu uma enorme via para a comunicação de ideias, de pessoas e de mercadorias.»
Ramón Villares - Galiza: terra irmã de Portugal. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2022, p. 39-40, 42