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domingo, 22 de setembro de 2024

Acerca da "Floresta-Relíquia" do Bussaco

https://www.rtp.pt/play/p12458/e795854/hora-de-agir?fbclid=IwY2xjawFcXL9leHRuA2FlbQIxMQABHcC-3dKo4GCOhJJrE8AFsC7XgBt3qTkMykjHjnochzqWV-EkPeulK6n1Gw_aem_Qlh1nzM5EBrL7IOO8W6zvw

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Notas de uma viagem a Portugal através de França e Espanha

Heinrich Friedrich Link foi um naturalista alemão que visitou Portugal, acompanhando pelo conde de Hoffmansegg, entre 11 de Fevereiro de 1798 e 1799, para estudar a flora portuguesa. A sua natureza observadora registou muito dos usos, costumes locais que moldavam a paisagem naquela época. Algumas das observações que fez na serra do Gerês são muito pertinentes e mostram a antiguidade cultural de algumas das práticas. Link refere na sua obra “Notas de uma viagem a Portugal através de França e Espanha” que a serras só tinham árvores junto aos rios e que a maior parte dos montes estava revestida por mato. O povo deitava fogo ao mato de três em três anos para renovar os pastos mas também para afugentar os animais perigosos. O vale do rio Homem não era cultivado mesmo naquela altura, em contraste com todas as zonas do Minho. Também lhe chamou a atenção a considerável quantidade de gado que era criado nas serras. Curiosamente, Link reparou que as pessoas ingeriam grandes refeições com muito carne, algo que se tornaria mais difícil no século XIX. Um dos objectivos dos dois cientistas era medir a altitude das serras daquela zona, o que não puderam fazer porque os monges boçais do mosteiro de S. Maria de Bouro lhe quebraram o barómetro que tinha resistido a toda a viagem. Em compensação Link descobriu uma planta nova para a ciência na zona de Leonte que chamou de Agrostis juressi. Depois da sua descrição, muitos botânicos procuraram esta planta naquelas serras, de tal maneira que o botânico Julio Henriques refere concretamente que “Depois do Prof. Link, nunca mais foi esta espécie encontrada no Gerez”. No verão de 2006 encontrei uma população na vertente galega do maciço geresiano, a poucos quilómetros da Portela do Homem. Tendo em conta o habitat da espécie, visitamos os ambientes turfosos com vegetação pioneira de baixa cobertura situados nas proximidades da localização galega, na vertente portuguesa, o que resultou na redescoberta de uma população no vale do rio junto à Portela do Homem.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O fogo e a paisagem

Num post anterior falei da relação entre as montanhas e o fogo e comentei o paradoxo de apesar das plantas dos matos mediterrânicos terem desenvolvido funcionalidades que as ajudam a propagar os incêndios, esse factor não aumenta a frequência dos mesmos. A técnica da queimada não tem as mesmas vantagens nestas áreas e por isso não é usada para renovar pastos. Queimar os matos significa queimar também as pequenas árvores que lá se encontram no meio, e em épocas mais antigas isso significava abdicar de um bem precioso, o combustível. Esse conhecimento foi obtido da pior maneira, através de séculos e séculos de más práticas, muitas vezes fomentadas pelos governantes, numa tentativa de “domesticar” este território e que levaram ao desenvolvimento do “slash-and-burn” na Península Ibérica. E essa domesticação teve como consequência a diminuição do fundo de fertilidade dos solos e o desaparecimento da maioria das florestas contínuas. Contudo, a lenta morte anunciada do pastoreio extensivo e o abandono agrícola do interior podem trazer a maior mudança paisagística sofrida na Península Ibérica dos últimos 500 anos. A questão é saber se essa mudança é positiva ou se vai levar a alterações em termos de uso de solo com consequências bem piores.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As montanhas e o fogo

Depois de ver um mapa com a distribuição dos incêndios florestais em Portugal Continental, fiquei admirado com a incidência de fogos nas zonas montanhosas do norte de Portugal, em comparação com algumas zonas da Terra Quente e da Terra Fria, onde praticamente não existiam ocorrências. E se olharmos para o tipo de plantas que ocorrem nos matos e matagais das áreas de menor altitude de Trás-os-Montes, a surpresa ainda é maior. Estevas, rosmaninhos, alecrins, tomilhos são arbustos que desenvolveram funcionalidades para aumentar a sua combustibilidade, tal como os óleos aromáticos que produzem em grande quantidade, uma estratégia destinada a promover o fogo e deste modo, manter uma paisagem aberta adequada ao seu desenvolvimento. Contudo algumas das zonas onde estas plantas mais abundam são das que menos ardem. Nas zonas montanhosas, pelo contrário, dominam as “lignotuber”, plantas arbustivas com uma capacidade de regeneração muito grande como as urzes, carquejas e tojos. A acumulação de reservas na raiz permite que se desenvolvam muito rapidamente após um incêndio, dependendo claro da intensidade do mesmo. Se a maioria das plantas das zonas montanhosas atlânticas não possuísse essa estratégia, as nossas paisagens de montanha teriam provavelmente um aspecto muito diferente.

sábado, 7 de novembro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) III

O Engº Malato Beliz questionava, em 1987, a carácter indígena do castanheiro em Portugal, com base em dois argumentos: 1) o castanheiro está sempre associado à presença do homem; 2) e ausente dos bosques caducifólios mais bem conservados. Os surtos de tinta do castanheiro iniciados no século XIX não explicam esta ausência porque os solos de bosque são supressivos (impedem a acção) para o agente desta doença.
O castanheiro é, ou não, uma planta indígena de Portugal continental? Um pergunta importante, para uma importante planta cultivada.
Comecemos pelo princípio.
Os grãos de pólen depositados em turfeiras são a principal fonte de informação para reconstruir a história do castanheiro, e de muitas outras plantas, em Portugal, mas não a única (os autores clássicos, e.g. Plínio o Velho e Columella, a genética [estudos filogeográficos] e os macrorrestos vegetais [e.g. pedaços carbonizados de madeira], são também importantes).
As turfeiras são depressões permanente encharcadas que acumulam sedimentos orgânicos, ácidos e de lenta decomposição. Os grãos pólen que acidentalmente tombem numa turfeira degradam-se muito lentamente. Algumas trufeiras acumularam sedimentos e, por conseguinte, grãos de pólen, durante milhares de anos. Quanto maior profundidade, maior a antiguidade dos grãos de pólen e dos sedimentos que os contêm. Com técnicas apropriadas estes grãos de pólen podem ser identificados (geralmente ao nível da espécie ou do género), contados e, com maior ou menor precisão, indirectamente datados. O coberto vegetal variou ao longo do tempo, e, por esse motivo, a concentração e os tipos de pólen que se acumularam nas turfeiras. As sondagens paleopalinológicas são, por isso, uma fonte essencial de informação na reconstrução da paisagem vegetal, e dos climas passados, sobretudo nos últimos 11.500-14.000 anos antes do presente (BP).

Lama Grande (Montesinho, Bragança). Uma antiga turfeira drenada para o cultivo da batata semente nos meados do séc. XX.

É consensual que o castanheiro se refugiou na Península Ibérica durante a última glaciação (concluída cerca de 11.500 anos BP). Nas sondagens paleopalinológicas obtidas no norte e centro do território continental Português, ou em regiões espanholas vizinhas, os grãos de pólen de castanheiro são mais ou menos constantes num pequeno período quente chamado Interestadial Tardiglaciar (ca. 14.000-12.700 BP). O castanheiro acompanha a regressão da vegetação arbórea associada ao Dryas recente, um curta pulsação fria com cerca de mil anos de duração (ca. 12.700-11.500 anos BP, datas calibradas), e não recupera com a chegada do Holocénico (de 11.500 anos BP até hoje), ou as suas concentrações polínicas nas sondagens paleopalinológicas são tão baixas que existe o risco do seu pólen ser confundido com outros pólenes análogos (e.g. Sedum e Hypericum).
Alguns autores defendem que a C. sativa seria uma espécie pioneira de solos florestais intactos, o que justificaria a sua raridade durante o período de máxima expansão dos bosques holocénicos (grosso modo entre 1/4 e 1/2 do Holocénico) e a sua (modesta e pontual) recuperação, antes da romanização, em consequência de um incremento das actividades humanas durante as idades do bronze e ferro. Outros autores, com base em macrorrestos recolhidos em Portugal, propõem que o castanheiro teria persistido até muito tarde no NW de Portugal, em bosques de biótopos (sítios) húmidos e quentes, possivelmente próximos do litoral.
O mais provável - os dados paleopalinológicos e a ecologia actual da espécie assim o indicam - é que o castanheiro se tenha extinguido no território continental Português, num momento impossível de precisar, algures durante o último quarto do Holocénico. Se o castanheiro teve como habitat preferencial solos florestais húmidos (não encharcados), ricos em nutrientes, das terras baixas do NW de Portugal, é admissível que estes tenham sido, na sua totalidade, reclamados pela agricultura. Os castanheiros que hoje se cultivam no país são domesticados de origem, por enquanto, muito discutida. O castanheiro não é, portanto, indígena de Portugal!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Serra de Montesinho vrs. Serra de Nogueira III


Recordo o tema em discussão nos dois últimos posts: por que razão a Serra da Nogueira em 1910 e, cem anos depois, em 2009, está dominada por comunidades de Quercus pyrenaica «carvalho-negral» enquanto, a menos de 30 km de distância em linha recta, em a direcção norte, a Serra de Montesinho está coberta por urzais (matos baixos) de Erica australis subsp.aragonensis?
O comentário do João Pinho ao primeiro post da série identificou (e esgotou), numa penada, as causa das dissemelhanças entre as Serras de Montesinho e de Nogueira. Vale a pena reler o post para perceber a extraordinária erudição ecológica dos antigos florestais (e do J. Pinho). Também eles foram tocados pelo espírito das Luzes que permeou a elite cultural novecentista portuguesa.
Resumiria do seguinte modo a cadeia causal que explica a actual, e passada, paisagem vegetal destas serras. Na falda norte da Serra de Nogueira (a falda sul tem outra litologia) dominam rochas básicas muito tectonizadas (esmagadas pelas forças tectónicas) enquanto o Montesinho é uma serra granítica, como reconheceu o ZG. As rochas básicas dão origem a solos mais espessos e quimicamente férteis do que as rochas ácidas, sobretudo do que os xistos. A resiliência e resistência à perturbação dos carvalhais são máximas em solos fundos, ricos em bases de troca (e.g. cálcio) e com uma reserva mineral de fácil meteorização. A ruptura do ciclo das bases mediado pelo fogo de origem antrópica abre caminho à dominância dos urzais. Durante a primeira metade do Holocénico as Erica habitaram, principalmente, afloramentos rochosos; na segunda metade serviram-se do Homem para se expandir e perpetuar! As características da Serra de Nogueira impediram a persecução desta estratégia.
Como a rochas básicas são muito raras no quadrante W da Península Ibérica, os matos baixos da Serra de Nogueira estão insaturados, sendo constituídos por pequenos arbustos (e.g. Halimium e Helianthemum) quando o solo potencialmente suportaria plantas mais produtivas e maior biomassa.

Serra da Estrela: Nave de Stº António. O pastoreio com ovelhas transformou uma paisagem de matriz florestal produtiva e diversa numa rupideserta (sensu Brockmann-Ierosch & Rubel, 1930; ver aqui).

O Abade de Baçal trocou causas com efeitos. Os Beneditinos eram exímios criadores de gado e, certamente, excelentes classificadores de terras. Vieram para a Serra de Nogueira porque bons solos garantiam boas côngruas. Alguns autores recentes, que por motivos ideológicos se recusam a aceitar a importância das variáveis ambientais na estruturação e evolução dos sistemas tradicionais de exploração dos recursos naturais, continuam a insistir na “mão invisível do frade”!

Levantam-se agora novas questões. Concretamente, que características do substrato geológico condicionam o "assembling" das comunidades vegetais das duas Serras? Que dialéticas funcionais ocorreram entre a litologia e outros factores e condições ecológicas? Por exemplo, de que modo a litologia condicionou os usos pretéritos? De que modo a litologia impediu, ou retardou, a convergência das paisagens boscosas primitivas em paisagens sucessionais regressivas?
Um blogue não é o local certo para esta discussão. De qualquer há algo de muito importante e útil que emerge da comparação da vegetação nas duas Serras. O impacto da agricultura e da pastorícia foi maior nos ecossistemas naturais e nas biocenoses da montanha ácida do que nestes pequenos oásis de rochas básicas, ricas em nutrientes, de que é exemplo a Serra de Nogueira. A montanha ácida, mais de 11% do território continental português, é, talvez, a porção de Portugal mais alterada e degradada pela acção do homem. Os urzais de montanha são as escaras de milhares de anos pilhagem de nutrientes (“nutrient mining”) por uma agricultura e pastorícia ávida de nutrientes. E são um testemunho da miséria endémica que universalmente caracteriza as comunidades agrícolas tradicionais (esta tema fica desenvolver um destes dias).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Serra de Montesinho vrs. Serra de Nogueira II

O Abade de Baçal, o mais conhecido erudito bragançano, para explicar a abundância de árvores e bosques na Serra de Nogueira e em outras áreas geograficamente próximas, propõe nas suas "Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança" (Alves, 1909-1918) a seguinte hipótese (vd. este post):

“Numa larga facha de terrenos de mais de vinte quilómetros de comprimento e passante de cinco de largura, que, do ponto central de Castro de Avelãs, onde existiu o famoso mosteiro Beneditino, se estende às povoações de Oleirinhos, ..., Castro de Avelãs, Gostei, ..., Nogueira, Rebordãos, ... e Pinela, deixou o frade essa famosa mata de castanheiros bravos e enxertos que ainda hoje faz a riqueza da terra, a par de outras de carvalhos, também valiosas”; “nas mesmas condições está a mata de castanheiros-enxertos, entremeada de carvalhos, que se estende desde Vinhais por rio de Fornos, ... e Soutelo, com ramificações em Paçó, ... e Mofreita, tudo no concelho de Vinhais”; “Idem, idem a de Parâmio, ... e Ozeive ...”; “Verdadeiramente, não temos elementos para mostrar, embora existam muitos, que todas estas matas são obra de frade; no entanto é mui provável conjuntura ...”.

Mais uma imagem dos carvalhais de Q. pyrenaica da Serra de Nogueira [foto C. Aguiar]

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Serra de Montesinho vrs. Serra de Nogueira I

Na Ilustração Transmontana de 1910 encontrei um relato de uma visita de estudo dos alunos do Seminário de Bragança às serras que rodeiam a minha cidade de Bragança.
A parte mais interessante da narrativa é uma descrição comparativa do coberto vegetal das Serras de Nogueira e de Montesinho.
Diz o autor (Pereira, 1910):
Serra de Montesinho: “É certo que, com a nudez arborea que por este lado [Serra de Montesinho] nos descontenta, contrasta singularmente o aspecto das montanhas a oeste da cidade [Bragança], regularmente vestidas d’arvoredo. Desde o Castro [de Avelãs], seguindo pela Castanheira, Formil, Gostei, Donai, etc. a arborização ostenta-se, ora em macissos, ora esparsa, mas efeitando mais ou menos o terreno e embellezando a paysagem”.

Aldeia espanhola de Hermisende na Serra da Teixeira, mesmo ao lado da Serra de Montesinho. N.b. Paisagem vegetal dominada por urzais; árvores concentradas em torno do povoado; o povoado funciona como uma "ilha de fertilidade".


Serra de Nogueira: “É certo que por aquelle lado a árvore não escassêa [Serra de Nogueira]; mas mesmo por ahí se notam largas manchas d’ermo, que outr’ora foram mattas cerradas de carvalho, hoje, mercê do machado destruidor, reduzidas a vegetação rasteira.”

Serra de Nogueira. N.b. Paisagem vegetal de matriz florestal (de bosques autóctones). Em 1910 os carvalhais estavam reduzidos a toiças mais ou menos rasteiras; hoje mercê da redução dos cortes para lenha evoluíram para bosque de alto-fuste.


Peço agora a colaboração dos leitores deste Blog. Pedia-vos que propusessem hipóteses para explicar por que razão a Serra da Nogueira em 1910 e, cem anos depois, em 2009, está dominada por comunidades de Quercus pyrenaica «carvalho-negral» enquanto, a menos de 30 km de distância em linha recta, em a direcção norte, a Serra de Montesinho está coberta por urzais (matos baixos) assanhados de Erica australis subsp. aragonensis. A altitude e a precipitação são semelhantes nos dois maciços montanhosos. Não precisam de conhecer estas Serras, e muito menos a sua vegetação, para darem a vossa opinião, anonimamente, se o entenderem.
[fotos C. Aguiar]

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vinhas do Sabor

O "Voyage en Portugal ..." (vd. este post) faz uma referência curiosa à videira-europeia (Vitis vinifera). O Conde de Hoffmansegg ao percorrer o termo de Brunhoso (concelho de Mogadouro) constatou que “caminhos difíceis atravessam uma espessa floresta onde cresce a vinha selvagem que sobe pelas árvores”. Esta passagem refere-se, claramente, a bosques não ripícolas.
Em 1867 as vinhas durienses foram invadidas por uma praga temível: a filoxera (Daktulosphaira vitifoliae, Homoptera). Pouco anos mais tarde, logo no início da década de 7o do mesmo século, a filoxera devastou por completo as vinhas durienses: a videira-europeia demonstra uma susceptibilidade absoluta a este insecto. A depressão económica subsequente só foi ultrapassada quando as videiras-europeias começaram a ser enxertadas em Vitis de origem norte-americana.
As videiras-europeias observadas pelo conde Hoffmansegg nos sobreirais, ou nos azinhais, sobranceiros ao rio Sabor não sobreviveram à filoxera. Hoje em dia as videiras-europeias ferais que persistem na região estão acantonadas às margens de curso de água permanentes, por exemplo, ao rio Sabor.  Nestes habitats as raízes desta liana são ciclicamente submersas pela água obviando, deste modo, os ataques de filoxera. 
A memória da tragédia da filoxera está a perder-se. Muita gente, porque é mais fácil,  porque está na moda, voltou a plantar estacas de videira-europeia ... e a filoxera está de volta ao Douro.

Vitis vinifera «videira-europeia» [foto C. Aguiar]

domingo, 31 de maio de 2009

Paisagem vegetal transmontana no início do séc. XIX

A primeira fonte objectiva de informação sobre a paisagem sobre a paisagem vegetal de Trás-os-Montes é o “Voyage en Portugal, par le Conte de Hoffmansegg” escrito por J. Link e publicado em 1805. Este livro descreve a viagem realizada em Trás-os-Montes pelo botânico prussiano conde de Hoffmansegg no ano de 1800.

Transcrevo, apenas, duas referências a Mirandela (traduzidas do francês) que revelam uma paisagem mais intensivamente "utilizada" do que a de hoje:

"[no limite norte da Cova de Mirandela] todos os lados das montanhas são cultivados até ao cume”;

"[na proximidade de Mirandela] as montanhas estavam ornadas de grandes e belas flores de Ladanum [Cistus ladanifer] e os vales cobertos de ricas searas”.

Esteval de Cistus ladanifer [foto C. Aguiar]

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Paisagem vegetal transmontana no séc. XVI

O Doutor João de Barros, um erudito quinhentista pioneiro da história e da gramática portuguesa, visitou Trás-os-Montes em 1547. Na sua “Geographia d’entre Douro e Minho e Tras-os-Montes”, provavelmente datado de 1549, oferece-nos uma das primeiras descrições da paisagem transmontana. Transcrevo três passagens daquele texto que corroboram a hipótese de uma desflorestação do interior de Portugal continental  francamente mais precoce do que é geralmente admitido.

 “Estendese esta comarca de Traslosmontes des Galiza athe o Douro e he muito montuosa e monte e terras àsperas”.

”Os monte dali [terras de Mirandela e Lamas] são muito suaves, cheios de alecrim, rosmaninho, ruda, macella, manjerona, dormideiras e outras eruas cheirosas, e muito pouco tempo ha que ali se plantàrão as primeiras oliveiras e agora ha muito azeite na terra."

 “Esta terra [Vale da Vilariça] tem mais pombas e pombais que entre Douro e Minho, e a causa he porque as muitas aruores dantre Douro e Minho as segigão em ellas os Gauioens, Açores e outras aves de rapina lhe fasem muito dano, o que não fazem tanto em Traslosmontes, que ha menos aruores.”