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domingo, 3 de janeiro de 2010

Prados-juncais do Estuário do Rio Cávado II

Os estuários são habitats complexos, geomorfologicamente muito dinâmicos. Basta observar uma sequência de fotografias aéreas de diferentes idades para nos apercebermos que as pequenas "ilhas" sedimentares que compõem os estuários - os mouchões - minguam, expandem-se, coalescem e desagregam-se ao longo do tempo.


Mouchões no Estuário do Rio Cávado

O aumento da cota da superfície do solo num mouchão afasta a toalha freática da superfície e diminui o risco de submersão na preia-mar. No Estuário do Cávado, e nos demais estuários temperados nacionais, este processo conduz à substituição dos prados-juncais por matos de Ulex europaeus subsp. latebracteatus (Fabaceae) «tojo-arnal».


Mouchão com prado-juncal encimado por tojal de Ulex europaeus subsp. latebracteatus (Fabaceae) «tojo-arnal» (arbusto-baixo, em floração, na esquerda e ao centro da foto), parcialmente colonizado por Acacia longifolia (Fabaceae) «acácia-de-espigas» (arbusto-alto mais abundante na metade direita da foto). Na margem do esteiro (canal) observa-se um juncal de Juncus acutus (Juncaceae).

Num estádio mais avançado da sucessão ecológica, nos biótopos mais abrigados do vento, é possivel que estes tojais coexistissem com um pinhal de Pinus pinaster (Pinaceae) «pinheiro-bravo», uma árvore sem dúvida indígena em grande parte da orla costeira ocidental de Portugal continental. ...


Ulex europaeus subsp. latebracteatus «tojo-arnal» (lado direito da foto) e Cytisus multiflorus (Fabaceae) «giesta-branca» (à esquerda da foto) em flor. N.b. regeneração natural de Pinus pinaster «pinheiro-bravo»

... Infelizmente esta dinâmica foi coarctada pela chegada de uma temível invasora de origem australiana, a Acacia longifolia (Fabaceae) «acácia-de-espigas».


Acacia longifolia (Fabaceae) «acácia-de-espigas» preste a florir. N.b. espigas de flores inseridas nas axilas dos filódios (folhas reduzidas a pecíolos espalmados que desempenham a função do limbo foliar) de ramos do ano anterior

[Fotos CA, 1-I-2010]

sábado, 2 de janeiro de 2010

Prados-juncais do Estuário do Rio Cávado I

O Estuário do Rio Cávado (Concelho de Esposende) no dia 1 de Janeiro de 2010:


Os prados-juncais de Juncus acutus (Juncaceae) e Festuca rubra subsp. littoralis (Poaceae) dominam a vegetação do sapal deste estuário, e de todos os sapais dos estuários temperados de Portugal Continental. Para saber mais clicar sobre estes Habitats Natura 2000 clicar aqui [1130 Estuários], e aqui [1330 Prados salgados atlânticos (Glauco-Puccinellietalia maritimae]).


Prado-juncal no Estuário do Rio Cávado. N.b. manto de Festuca rubra subsp. littoralis (Poaceae) e, um pouco mais atrás, tufos de Juncus acutus (Juncaceae); num passado recente acumulava-se menos biomassa de Festuca porque estes prados eram intensamente pastoreados por vacas.

A Armeria maritima (Plumbaginaceae) encontra o seu óptimo ecológico nos prados-juncais. Algumas plantas desta espécie estão já em flor:




A Primavera aproxima-se ;-)

sábado, 21 de novembro de 2009

Vale da Vilariça (Moncorvo)

O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.


Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.

Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.

Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.


Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.






Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]

Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.

domingo, 25 de outubro de 2009

Eryngium corniculatum (Apiaceae)

Nas charcas temporárias com água livre até à entrada do Verão é frequente um outro Eryngium, o E. corniculatum.

Eryngium corniculatum (Apiaceae) [Miranda do Douro, Fonte da Aldeia]. N.b. ao fundo, no canto superior esquerdo, Mentha cervina (Lamiaceae), outra planta característica de charcas com águas livres até ao estio; próximo do canto inferior direito observa-se uma inflorescência de Polypogon maritimus (Poaceae)

Eryngium corniculatum (Apiaceae) [Miranda do Douro, Fonte da Aldeia]. As flores de Eryngium estão organizadas em inflorescências tipo capítulo, ao contrário da grande maioria das Apiaceae que possuem umbelas compostas.

O E. corniculatum é um excelente bioindicador do habitat prioritário Rede Natura 2000, "3170 Charcos temporários mediterrânicos".

Página de rosto da ficha do habitat "3170 Charcos temporários mediterrânicos" realizada pela ALFA-Associação Lusitana de Fitossociologia para o Plano Sectorial Rede Natura 2000 (clicar aqui para obter a ficha completa).

[fotos C. Aguiar]

sábado, 26 de setembro de 2009

Sapal externo I


Sapal externo no Estuário do Rio Sado. N.b. a baixa mar deixou a descoberto lamaçais desprovidos de vegetação vascular, e plataformas de sedimentos colonizadas por comunidades de sapal externo, dominadas por gramíneas ou amarantáceas [foto C. Aguiar]

Os sapais são ecossistemas semiterrestres (= anfíbios). Prosperam em zonas costeiras protegidas da agitação marítima, i.e. de baixa energia. Os sistemas de ilhas barreira (e.g. Ria Formosa), os sistemas lagunares (e.g. Vouga) e os estuários (e.g. Minho, Lima, Mondego, Tejo, Sado e Mira) são particularmente adequados à diferenciação de sapais.
A génese, dinâmica e alguns aspectos da ecologia do sapais estão diponíveis, por exemplo, aqui. Neste post explorei as diferenças entre sapal externo e sapal interno. Falta agora resolver os chamados sapal externo baixo, médio e alto.

O sapal externo é banhado por águas de origem sobretudo marítima, necessariamente com um elevado teor em sal. Por se situar na faixa intermareal, o sapal externo está, ao sabor das marés, sujeito a um ciclo bidiário de emersão-submersão. Na preia-mar inunda-se de água; na baixa-mar a água abandona o sapal externo através de uma intricada rede de canais.


Sapal externo e lamaçais no estuário do Tejo durante a baixa-mar. N.b. rede de drenagem [foto C. Aguiar, tirada durante uma viagem na carreira aérea Bragança-Lisboa]

A duração da submersão da vegetação de sapal depende de pequenas variações na altitude dos sedimentos, relativamente ao nível médio do mar. O sapal externo baixo situa-se a cotas muito próximas do nível médio do mar, consequentemente, está submetido a períodos de submersão muito prolongados. O sapal baixo contacta com lamaçais (colonizados ou não por plantas vasculares aquáticas marinhas) e com o sapal médio. O sapal médio está intercalado entre o sapal baixo e o sapal alto. Acima do sapal médio situa-se o sapal externo alto, uma estreita faixa de vegetação halófila fugazmente, ou raramente, atingida pela água das marés. Estes três tipos de sapal externo organizam-se, portanto, em bandas perpendiculares ao sentido da variação do gradiente "duração da submersão", a cotas progressivamente mais elevadas, nas plataformas de sedimentos de sapal (tema para um post um destes dias).

Geralmente, assume-se que as plantas de sapal externo, e implicitamente as suas socializações (comunidades), se organizam espacialmente ao longo do já referido gradiente microtopográfico, em função da sua tolerância à anoxia radicular (falta de oxigénio ao nível das raizes). Bem, não é assim tão simples. À medida que a cota aumenta, as raízes das plantas estão, de facto, sujeitas a menores períodos de anoxia , mas também a maiores oscilações da temperatura e do teor em sal do solo. A química do solo varia também acentuadamente na mesma direcção, mas este é um tema fracamente especializado.

Nos sapais mediterrânicos o teor em sal aumenta acentuadamente em direcção ao sapal alto. O mecanismo é simples. A água do solo evapora-se, por capilaridade mais água salgada atinge a superfície do solo evaporando-se em seguida; o sal que fica para trás concentra-se próximo da superfície do solo. No sapal de Castro Marim chegam a formar-se crosta de sal “salt pans”. As chuvas, por seu turno, provocam descidas bruscas na concentração de sal, rapidamente repostas por capilaridade.
Nos sapais atlânticos (de clima temperado) a acumulação de sais no sapal alto é relativamente lenta (porque faz menos calor e a insolação é menor do que nos sapais mediterrânicos) e as chuvas mais frequentes. As comunidades de sapal alto atlânticas estão, por isso, sujeitas a menores concentrações e a variações temporais menos intensas da concentração de sal no solo do que os sapais mediterrânicos. Como a mediterraneidade climática em Portugal continental aumenta de norte de para sul, existe um forte gradiente latitudinal nas características do solo do sapal alto e, consequentemente, na sua flora. Este gradiente latitudinal é menos nítido (o "turnover" latitudinal de espécies é menor) nos sapais baixo e médio, porque a intensidade da anoxia radicular é, provavelmente, o factor dominante na estruturação das comunidades de sapal baixo e médio.

Para quem gosta de botânica: a flora do sapal alto mediterrânico é maravilhosa; marcar quanto antes uma visita aos estuários a sul do Rio Mondego!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sapal externo vrs. sapal interno

Se gosta de botânica, e de geobotânica (= ciência da vegetação), tem, quanto antes, de se iniciar na exploração dos nossos sapais. Aprender a distinguir as plantas halófilas e sub-halófilas, e perceber a forma como se organizam ao longo dos gradientes ecológicos prevalecentes no sapal é uma experiência indispensável Acredite, nem se dá pelo passar das horas.
Como começar?
Para entender os sapais é necessário, em primeiro lugar, identificar os dois gradientes fundamentais que controlam a organização da vegetação de sapal. O primeiro é um gradiente de salinidade, de montante para jusante; horizontal, portanto. O segundo, um gradiente vertical, microtopográfico, chamemos-lhe assim.
O primeiro gradiente é fácil de discernir nos sapais abastecidos por cursos de água doce. A jusante, na direcção do mar, onde o teor em sal do solo e da água é mais elevado, situa-se o sapal externo, dominado por gramíneas e por amarantáceas de caules carnudos e articulados. A montante, quando a influência da água do mar se rarefaz, encontra-se o sapal interno, geralmente colonizado por plantas não a moderadamente halófilas, muitas delas de fisionomia graminóide (i.e. com a forma de gramíneas) e de grande biomassa. Exemplos: Bolboschoenus (Scirpus) maritimus (Cyperaceae) «triângulo», Arundo donax (Poaceae) «cana», Phragmites australis (Poaceae) «caniço» e Typha latifolia (Typhaceae) «tabúa-larga».


Neste sapal alentejano observa-se em primeiro plano um sapal externo médio de Sarcocornia fruticosa orlado, lá trás, por uma comunidade de Arundo donax (Poaceae) «cana». Neste exemplo, a lavagem dos sais pelas águas de escorrência superficial e subsuperficial, concatenada com a acumulação de um pequeno coluvião, são suficientes para que se diferencie uma estreita faixa de solo adequada ao desenvolvimento de uma comunidade característica do sapal interno.

Bolboschoenus maritimus (Cyperaceae) «triângulo»

Bolboschoenus maritimus (Cyperaceae) «triângulo», pormenor da inflorescência


Phragmites australis (Poaceae) «caniço»

Typha latifolia (Typhaceae) «tabúa-larga»

Para saber mais sobre este tema haverá que ler a ficha Rede Natura 2000 dedicada aos estuários (clicar aqui).


Ficha Rede Natura 2000 dedicada aos estuários realizada pela ALFA-Associação Lusitana de Fitossociologia


O dito gradiente microtopográfico fica para o próximo post ;)
[fotos C. Aguiar]