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sábado, 14 de julho de 2018

Duas ou três coisas sobre os exames




Começou o “circo” dos resultados dos exames nacionais. E eu (sabe quem já me conhece) começo logo a borbulhar com as análises que a nossa (triste) comunicação social começa a deitar cá para fora.

O pior é que, no que toca aos exames nacionais, cá no burgo, não é apenas a comunicação social que é triste e pobrezinha. A começar no IAVE (que já se chamou GAVE, e as pessoas liam «gueive» como se fosse uma palavra inglesa) onde os exames são elaborados, até aos professores, aos pais e, especialmente, à opinião pública são todos muito tristes e muito pobrezinhos.

A esta hora já os meus queridos amigos estão a pensar: «Olha-me esta armada em boa!» E posso até parecer estar. O certo é que tive a sorte de estudar Ciências da Educação com bons professores na Universidade de Aveiro que me/nos fizeram ver a educação e a pedagogia de diferentes prismas.

Antes de mais, duvido da necessidade, da justeza e até do rigor dos exames. Os de final do 12º ano, enfim talvez embora nunca nos moldes em que são elaborados. Aqueles que ainda se fazem e os que o anterior ministro quis “repor”, nem pensar!! Para quê?

“Deliro” quando oiço tantas pessoas – algumas/muitas das quais professores – defender que, se antigamente havia exames em todos os ciclos, porque não hão de continuar a ser aplicados? (Aquele senhor ex ministro da Educação também achava…) esquecem-se, ou não sabem, (e o senhor ex ministro também se esqueceu ou não sabia…) que antigamente, no tempo da “bendita” ditadura, o ensino era só para alguns e por isso o objetivo dos exames era o de fazer a seleção dos alunos…

Mas se querem falar dos exames de “antigamente” – e eu fi-los todos desde o da 3ª classe – sempre vos digo que eram bem mais honestos do que são os que os illuminati do IAVE produzem atualmente. É que naquele tempo já sabíamos que se estudássemos que nem loucos, estaríamos em condições de responder mais ou menos acertadamente às questões. Atualmente, em nome de um pseudo desenvolvimento do pensamento lógico e da “bendita” obstaculização à memorização e aplicação de conhecimento, elaboram provas de exames com questões altamente complexas e dúbias que levam que tempos a descodificar completando-as com os “moderníssimos” e “americaníssimos” exercícios de escolha múltipla com quatro hipóteses de resposta muitas das quais altamente rasteirentas.
Digo, e garanto-vos que sei do que estou a falar, que as atuais provas de exame não são honestas, são manhosas, cheias de ardis e artimanhas que em pouco ou nada testam os conhecimentos ou sequer as capacidades dos alunos.  (Costumo dizer aos meus explicandos de Português do 12º ano que, se o Fernando Pessoa tivesse de fazer uma prova de exame sobre um dos seus poemas, havia de se ver bem aflito…)

Por isso, os professores vêem-se forçados, na sua maioria, a treinar os seus alunos para desmontar os possíveis artifícios constantes das provas de exame em detrimento, muitas vezes, de neles produzirem verdadeiras aprendizagens. Os alunos precisam disso, os pais querem isso e as escolas pressionam-nos nesse sentido em nome dos “benditos” rankings que a triste comunicação social inventou e com os quais o público em geral delira!

Depois os nossos “cérebros” queixam-se muito das elevadas taxas de insucesso, do abandono escolar, do ainda baixo número de licenciados e por aí fora. Pois se os exames finais do secundário são mais … como direi? Difíceis, exigentes, maquiavélicos talvez… do que os do superior! Sei de jovens que, como alunos externos, têm já parte das disciplinas de alguns cursos superiores que não podem continuar porque não conseguem nota positiva nos exames finais do 12º ano.  

E outra coisa: o ensino secundário já faz parte da escolaridade obrigatória! Não é mais seletivo, nem devia contar para o acesso ao superior…

Pois é… os “nossos” exames nacionais têm muito que se lhe diga…


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Os Manuais Escolares




É um assunto recorrente na nossa comunicação social. E não apenas no início de cada ano letivo. Sabemos bem que, quando lhes dá jeito, lá vem a questão dos manuais escolares, até porque é um tema sobre o qual toda a gente pensa que tem certezas absolutas. Ou é pelo peso que os alunos têm de carregar às costas, ou é porque deviam poder ser utilizados pelos irmãos e pelos primos e sei lá por quem mais.

Ora bem: a mim parece-me que estes problemas não se resolvem com medidas avulsas. Teria de haver um qualquer governo muito forte que não se importasse de perder uma quantidade de simpatizantes (?!) e que decidisse cortar o mal pela raiz.

Para que os manuais escolares não pesassem quilos e quilos nas mochilas dos alunos e para que pudessem ser reutilizados por quem precise, bastava apenas que nos deixássemos de “mariquices” de forma a retirar mais de metade das imagens – algumas das quais bem tolas e bem feias – que são absolutamente desnecessárias para a aprendizagem do conteúdos e que, na minha opinião, funcionam até como motivo de dispersão da atenção. Qual é a necessidade de os manuais de Português do 9º ano, por exemplo, gastarem páginas e páginas com imagens (horrendas, muitas delas!) das personagens da Auto da Barca do Inferno ou de Os Lusíadas? Os meninos do 9º ano já têm 14/15 anos pelo que não precisam de bonecos ilustrativos…

Em segundo lugar, porque não habituar os alunos – já não digo a partir do 3º ano, vá lá! se bem que não visse nada de mal nisso, mas a partir do 5º ano – a responder às questões propostas nos manuais no seu próprio caderno diário? Assim os manuais poderiam facilmente ser reutilizados sem dramas.
E depois, para quê obrigar os pais a gastarem mais dinheiro em cadernos de atividades (para todas as disciplinas!) que depois raramente são utilizados nas aulas?

Com medidas tão simples como estas que aqui apresento, as mochilas deixavam de fazer escolioses nas criancinhas e os irmãos, os primos, os vizinhos – se não forem de uma exigência petulante – poderiam poupar um bom dinheirinho aos pais.

O pior são as editoras! Ah as queridas editoras que deixariam de ganhar rios de dinheiro à conta… Ah e depois vêm os professores defender que perdem muito tempo a levar os alunos a responderem às perguntas nos cadernos…

Sabe bem quem está habituado a passar por aqui que não sou pessoa de cantar loas ao “antigamente” e que detesto evocar aquele tempo “encantador” do “no meu tempo é que era bom”. Bem sei que eu estudei num tempo bem cinzento da nossa História que foram os finais de 50 e os 60, mas não posso deixar de me lembrar aqui que os manuais por que estudei eram em não sei que mão – arranjava-mos a minha tia que trabalhava num Liceu de Lisboa – e nunca andei carregada de livros.

Claro! Os manuais eram densos e feios e não estou a prescrever isso para a atualidade, mas, meus amigos, nem oito, nem oitenta!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O que é preciso é desacreditar a escola

De vez em quando, especialmente em tempo de pré-férias, quando os reatores das notícias começam e entrar em ritmo lento, os nossos “jornaleiros” lá puxam de novo pelo demagógico e enganoso título “as escolas estão a passar alunos com quatro e cinco negativas”.

Aconteceu esta semana outra vez. Não venho aqui defender nenhuma teoria da conspiração, mas parece que, de há uns tempos para cá, os nossos serviços de notícias e de comentários têm funcionado como uma verdadeira oposição às forças governamentais. Veja-se o triste aproveitamento que foi e continua a ser feito acerca dos trágicos acontecimentos de há duas semanas no pinhal interior aqui do distrito e com o inexplicável assalto ao paiol de Tancos com os respetivos ataques aos elementos do governo, bem como as notícias inventadas de suicídios, aviões despenhados e desaparecidos, manifestações fantasma e assim.

Ora para continuar a desacreditar o governo e a pedir a demissão rápida e pura e dura de ministros, nada melhor do que incendiar a opinião pública sobre um tema por de mais sensível a toda a população e que é a escola. Ou melhor, a “bandalheira” que vai nas escolas!

Desacreditar a escola (pública) é o melhor que podem dar a estes “noticiadores” incendiários. Por isso, vai de desenterrar a velha, velhíssima questão das escolas que “passam alunos com quatro e cinco negativas” para deixar no ar a ideia que isso foi mais uma “orientação” que as escolas receberam do ministério da Educação.

Desculpem-me, mas “vou aos arames” com estas patranhas. Mais ainda se se trata da escola.

Esta questão é tão antiga quanto a publicação do modelo de avaliação dos alunos do ensino básico prescrito pelo ministério do ilustradíssimo Ministro da Educação Roberto Carneiro em 1992. Essa legislação inovadora à época remetia para um profundo conhecimento da realidade de cada aluno por parte dos seus professores e dizia claramente: «A decisão da retenção tem sempre carácter excepcional, depois de se ter esgotado o recurso a apoios e complementos educativos, devendo, portanto, revestir-se de especial cuidado para garantir a sua necessidade, utilidade e justiça

Repare-se nos conceitos que norteavam a retenção de um aluno: o seu caráter excecional e apenas quando se registasse a sua necessidade, utilidade e justiça.

Por essa época, numa das diversas vezes em que fui presidente dos conselhos diretivo e pedagógico, dei passagem a alunos (poucos, diga-se) de 6º e 9º anos que tinham já um grande número de retenções e idade de entrada no mercado de trabalho, garantindo-lhes assim o diploma que lhes permitia irem trabalhar e até tirarem a carta de condução. É que, de facto, não havia necessidade de os reter, nem era útil nem justo para eles nem para a escola retê-los.

Qual não foi o meu espanto, quando recebi um telefonema da minha colega (e amiga) presidente da escola secundária nossa vizinha, a perguntar-me, muito escandalizada, se eu tinha autorizado a passagem desses alunos para o 10º ano. «Não – disse-lhe eu – Apenas lhes dei o diploma da escolaridade básica.» E ela: «Ah, mas eles estão a matricular-se aqui na secundária!» - esperneava ela. «Vocês têm de aplicar o vosso modelo, nós aplicámos o nosso.» - disse-lhe eu. Duvido que ela tenha entendido.


Só que os objetivos do ensino secundário – nesse tempo – eram muito diferentes dos objetivos do ensino básico. Atualmente, com o alargamento da escolaridade obrigatória para o 12º ano (quer se concorde ou não com esse alargamento – e eu não concordo) os objetivos do secundário já não são assim tão diferentes dos do ensino básico como eram nos idos de 90…




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ainda a viagem de finalistas

A primeira notícia deixou-me consternada. Mil alunos portugueses expulsos de Espanha por terem destruído hotel?! Vergonha!

Depois foi a “discussão” aqui em casa, de cabeça quente: «ai, se fosse filho meu!»; «ai, se tivesse sidos eu viria todo o caminho a chorar com medo do que me iria acontecer!»; «filho meu nunca irá!»; «não se sabem comportar, é o que é!”

É um facto que eles – muitos deles – não se sabem comportar. E nem é preciso serem jovens em final do secundário, nem estarem a quilómetros de casa e longe dos pais. Quando, em Julho, vamos para a Senhora da Rocha para o nosso hotel de sempre, até nos «passamos da cabeça» com o comportamento hooligânico que as criancinhas de nove, dez, onze, doze anos têm na piscina interior e no jacuzzi, local que se supõe ser de calma e de relaxe para os adultos. As criancinhas dão saltos de corça para dentro da piscina, jogam a bola e gritam como se não houvesse amanhã! E nunca são mais do que meia dúzia deles e sabem que os paizinhos estão no quarto ali em cima ou até mesmo ali fora, descansadinhos da vida tomando banhos de Sol.

Mas, pensando bem: quem se lembra de enfiar perto de mil jovens com as hormonas primaverilmente aos saltos num mesmo espaço hoteleiro com bar aberto e mais não sei o quê? Esperavam o quê? Que rezassem o terço e fossem para o quarto ver a novela? E depois ainda me lembrei de uma triste experiência que tivemos em Fuengirola nos inícios de 90 quando, ao comprarmos um determinado carro, nos ofereceram uma semana de férias num enoooooooooorme hotel daquela estância balneária. Fomos tão mal tratados, mas tão mal tratados que pensámos nunca mais voltar de férias a Espanha. Não nos deu para destruirmos o quarto, mas garanto-vos que ‘roubei’ todas as toalhas que pude e … pronto!! Lembro-me que só consegui que me falassem bem quando passei a dirigir-me a ‘eles’ em inglês…

Hoje de manhã, ouvi uma entrevista com a responsável pela agência de viagens que tratou da viagem e do alojamento dos jovens que disse que, para além do valor que cada jovem pagou pela semana cada um teve de disponibilizar mais 50 euros para eventuais danos. Quando expulsaram os jovens, os dirigentes do hotel apoderaram-se do tal fundo, sem disso darem conhecimento à agência e recusaram-se a permitir que os representantes da mesma entrassem para verificarem os danos.

Não pretendo, nem pouco mais ou menos, desculpar os comportamentos dos jovens, mas parece-me que há algo – ou muitos ‘algos’ – que estão muito mal contados. Desde meter mil jovens de férias, loucas férias, num mesmo espaço até porem-nos todos a andar logo no segundo dia da semana já paga!

Mas isto sou eu a pensar…





quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Constrangimento

Assim que deu com os olhos nos meus, baixou a cabeça, desviou o olhar, rodou os ombros. Reconheci-o imediatamente, mas correspondi ao afastamento. Há anos, bastos anos, entrou insofrido pelo portão lá da escola, sem atender ao porteiro, cego que ia, e pregou uma (nem sei dizer se foi só uma) bofetada num miúdo. O sururu foi enorme. O porteiro ligou ato contínuo para o gabinete do Conselho, enquanto o agredido, nosso aluno, rapidamente se apresentou à nossa porta para fazer queixa. Eu não podia permitir que um encarregado de educação entrasse pela escola dentro e batesse num aluno que nem sequer era seu filho.

Identificados agressor e agredido, polícia metida ao barulho, grande barafunda. Os miúdos envolvidos já eram grandinhos, catorze ou quinze anos; a mãe do agredido, muito zangada e cheia de razão: apresenta queixa, não apresenta queixa…

Convoquei o pai violento que não se mostrou muito disponível para falar comigo. Instei e lá se convenceu. Veio acompanhado da mulher (minha conhecida, muito conhecida…).

Porquê? O filho sofria de um pequeno atraso de desenvolvimento (que ainda assim não o impedia de fazer a sua escolaridade normal com as adaptações que lhe convinham e a que tinha direito) e, por um qualquer motivo que já esqueci, fora humilhado, agredido mesmo por um colega. Quando ficou a saber, reagiu a quente, muito a quente e os travões da convenção não obedeceram ou nem sequer foram acionados… «Pois, mas aqui na escola há responsáveis para mediar os conflitos e aplicar sanções. Não há espaço para justiceiros à americana…» disse-lhe.

Silêncio. Espaço. Mais silêncio. E então lágrimas a rolarem pela cara de um homem «forte e de barba rija»… E, depois de mais silêncio (em que o meu coração se sentiu apertadinho, apertadinho mesmo) fiquei a saber: ex comando de guerra (da inexplicável guerra colonial) a sofrer há muito de stress pós traumático crónico…

Não interessa contar aqui nem agora como a situação se resolveu. Resolveu-se. A vergonha, o constrangimento por parte daquele homem, porém, foi enorme…

… não admira que anos e anos depois, evitasse o meu olhar, a minha proximidade, apesar de eu ter cumprimentado e conversado afavelmente com a minha amiga, sua mulher. 





quinta-feira, 3 de março de 2016

Interpretações

 Já disse aqui bastas vezes que os exames têm pés de barro, servem para muito pouco ou nada e que quanto mais tarde entrarem no percurso dos alunos, melhor. Além de que a matriz dos “novos” exames – os de Português, que é a área que acompanho, – é completamente obtusa, saída não sei de que cabeças pensantes – e desta vez (pasme-se!) nem culpo o ministro (C)rato porque ela, a dita matriz, é-lhe anterior.

Antes de mais, são enormes: dois ou três longos textos para alunos de 15 anos lerem, entenderem, analisarem e tentarem adivinhar o que algumas das questões pretendem e, depois de tudo isso, terem de escrever um texto de 150 ou 200 palavras (e conta-las, naturalmente…) sobre um tema que nada lhes diz e para o(s) qual/quais não foram minimamente preparados. Tudo isso em 90 minutos. De absoluta concentração. Por acaso até desafiava muitos professores para experimentarem submeter-se a uma prova dessas!

Os de 12º ano então têm uma série de perguntas de escolha múltipla com 4 hipóteses cheias ambiguidades ou rasteiras, para além de perguntas de interpretação tão complexas e tão emaranhadas que costumo dizer que o próprio Fernando Pessoa teria fraca nota se tivesse de responder a semelhantes perguntas sobre qualquer um dos seus belos poemas e de submeter-se aos apertados e tolos critérios de correção impostos.

Ora nem de propósito! Li há dias uma crónica de Manuel Halpern, num Jornal de Letras, que começa assim: «Não sei se este texto virá algum dia a ser utilizado numa prova de português. É hábito de professores e editoras escolher uns quantos textos da imprensa para preencher os seus manuais ou testes. Pelo sim, pelo não, vou evitar expressões equívocas e palavras rebuscadas: não quero que ninguém tenha má nota por minha causa.» 

E a certa altura, diz o seguinte: «Escrevi há tempos uma crónica com o título “Telecomanda-te”. (…) Fui surpreendido ao saber que essa mesma crónica tinha sido utilizada recentemente num teste do 11º ano.(…) O G. não gostou da correção feita pela professora, numa das perguntas de escolha múltipla sobre esse texto meu. Então, resolveu escrever-me na justa ingenuidade que pelo simples facto de eu ser o autor saberia o que queria dizer com o que escrevo. Imagine-se…

Contrastando com a ideia de juventude amorfa – tão divulgada e repetida – G serviu-se das virtudes da tecnologia para me descobrir no Facebook. Enviou-me uma mensagem. (…) Com todo o pragmatismo, perguntava-me o que responderia àquela pergunta sobre o meu próprio texto. Enchi-me de dúvidas. Apercebi-me de que eu, provavelmente, não teria nota máxima na análise sobre o meu próprio texto. Mas, enfim, dei-lhe os argumentos que procurava para refutar a correção da professora. E, claro, 20 valores.»



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Histórias da minha rua (8)

O neto da vizinha tem capacidades, muito boas capacidades, mas gosta pouco de estudar e por isso veio para cá, já no 6º ano, para um estudo acompanhado no âmbito das minhas disciplinas – Inglês e Português. Hoje, já no 10º ano, continua a vir cá estudar comigo.

Ora eu tenho uma sala destinada a receber os alunos que vêm cá estudar comigo e que, de facto, poucas mudanças tem sofrido ao nível do mobiliário: a mesa e as cadeiras que eram de estilo inglês e portanto muito frágeis para o efeito, foram mudadas por um outro conjunto mais resistente e pouco mais.

Um dia destes, o neto da vizinha, fixando as paredes, perguntou: «Será que pode mudar estes quadros que estão nas paredes?» E eu: «Mas porquê, não gostas deles? São tão bonitos!» «Não – diz ele – a questão é que já estou farto de olhar para as paredes e ver sempre o mesmo. Estou farto de ver aqueles peixitos, sardinhas ou lá o que é…»








(desenhos da nossa amiga Clotilde Fava)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Menos chumbos? E voltamos ao «eduquês»?

David Justino, ex-ministro da Educação do governo Barroso e atual presidente do Conselho Nacional de Educação, escolhido para desempenhar esse cargo por este “governo” em 2013, descobriu a pólvora! Veio agora denunciar o número excessivo de reprovações em Portugal e diz que quer os partidos a debater a questão.

Quer os partidos a debater a questão?! Mas está a brincar connosco? Foram porventura os partidos que puseram as escolas no estado em que estão e que decretaram este exagero de exames? Ou foi mesmo o ministro da educação chamado ao poder pelo seu partido que assim determinou? E não venham agora o dr David Justino e os elementos do CNE ou o seu partido ou os senhores professores alegar que não sabiam que as coisas na Educação iam evoluir como evoluíram. O dr (C)rato tinha já estas ideias involutivas, de retrocesso da Escola Pública e de regresso à elitização da educação tendo-as escrito e publicado no funesto livrito «O ‘Eduquês’ em Discurso Directo» em 2006. Não leram? Eu li – lá dizia tudo!


A ideologia ali inscrita e descrita (mal, diga-se de passagem) adicionada ao propalado princípio gestionário do «fazer mais com menos» agarrado com ambas as mãos por este “governo” dele fazendo lema deu nisto.

(in DN de ontem)
Fácil ver que desde que a tónica da avaliação foi posta nos exames que as taxas de retenção aumentaram desta maneira. E desengane-se o senhor ministro (C)rato se acredita que os alunos ficam mais bem preparados, mais bem formados, mais educados, mais cultos só por serem sujeitos aos exames. Os exames vieram, por um lado, criar problemas às escolas porque montar o serviço de exames é um enorme quebra-cabeças, uma enorme perda de tempo, de energias e de recursos. Por outro lado, bem mais penalizador, veio retirar tempo e calma à normal evolução das aulas e da aprendizagem porque professores e alunos (e pais) vivem pressionados pela ideia e pela violência dos exames. Não há a preocupação de os alunos apre(e)nderem e interiorizarem a matéria – há a preocupação de treiná-los para as respostas que as provas de exame exigem. Treinar, treinar, treinar mecanicamente nem que seja!

Depois há as ditas provas que são verdadeiras armadilhas. Tomemos como exemplo o exame de Português do 9º ano. Em hora e meia os miúdos, de 14 anos, tem de ler três textos: um texto informativo com cerca de 40 linhas sobre o qual lhes são apresentadas seis ou sete frases que têm de ordenar de acordo com o dito texto e mais cinco ou seis questões de escolha múltipla com quatro hipóteses cada uma todas elas muito parecidas para eles escorregarem bem; o segundo texto literário (Lusíadas, ou Auto da Barca do Inferno, ou um conto, ou um poema) sobre o qual devem responder a cinco perguntas de compreensão/interpretação; um terceiro texto (Lusíadas ou Auto da Barca) introduz o pedido de escrita de um texto expositivo de cerca de 100 palavras (que tem de ir contando) sobre um tema da matéria; depois vem a parte da gramática com mais seis ou sete questões com alíneas; e por fim é-lhes dado um tema geral sobre o qual devem discorrer entre 180 a 240 palavras. Em 90 minutos!! Treze páginas de exame, com linhas e linhas de ordens e orientações que os miúdos nem conseguem ler e interpretar em 90 minutos! Garanto-vos que eu não conseguiria terminá-lo e, se terminasse, imagino que nota teria!

Fui aluna naquele tempo – que é preciso esquecer e que o senhor Barroso disse que era bom – em que tínhamos exames desde a 3ª classe e a todas as disciplinas, mas posso dizer que as provas eram bem mais sérias e honestas e sem armadilhas ou rasteiras e em que os professores correctores ( e eu sei porque também o fui) não estavam absolutamente espartilhados por folhas e folhas de critérios castradores e absurdos que só levam a que as respostas – e portanto as notas – sejam cortadas.

Assim, dr David Justino, os chumbos não vão baixar tão cedo!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Robert Redford

Da mesma forma que nos anos 60 achava o Alain Delon uma brasa de lindo que era, aí por meados de 80 deixei-me encantar pelo Robert Redford.

Com a minha liberalidade do costume (e para cativar os alunos, claro) abertamente falava nas aulas de inglês de mim, dos meus gostos e não gostos e das minhas preferências. Assim falava, teatralmente, em como gostava do Robert Redford (carregando um bocado nos rrr para tornar a coisa mais apelativa).

Ora estávamos um dia a praticar oralmente as “if-clauses” – que é como quem diz as frases condicionais – e eu propus aos alunos a pergunta «What would you do if you won a million of dollars?» que é como quem diz «O que farias se ganhasses um milhão de dólares». Então uma das minhas alunas teve a saída mais espantosa que se pode imaginar: «I would go to Hollywood and bring Robert Redford for you» (Iria a Hollywood e traria o Robert Redford para si.)  

Grande risota na aula e grandes agradecimentos por parte da professora….




Mas que ele era bonito, lá isso era! Não acham?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Praxes

Hoje estou particularmente feliz. E aliviada. O meu neto mais pequeno deixou a creche e vai entrar no Jardim-de infância público – a escola dos grandes como ele diz.

Ora o meu grande alívio vem do facto de ter ficado a saber que o ministério da Educação lançou hoje uma campanha contra as praxes violentas e abusivas que visa alertar os alunos para o facto de a praxe ser totalmente voluntária e que vai distribuir folhetos a dizer “Não és obrigado a ser praxado!” e “Diz não às praxes agressivas e violentas!” e até criou um e-mail para se poderem denunciar atos violentos e coercivos.

É que uma criança de três anos não é um aluno do ensino superior! Não sabe como defender-se dos “praxadores” nem tem a autonomia, o discernimento ou a sagacidade para perceber dentro da sua cabecinha virgem que de facto não tem de se submeter a esses atos sem qualquer sentido.

E eu, que sou tão crítica da atuação deste ministério, com esta prova de profunda preocupação e cuidado com os nossos mais pequenos, não posso senão congratular-me com esta extraordinária iniciativa!




sábado, 12 de abril de 2014

Cratinices



O ministro (C)rato embandeirou em arco com os resultados do Eurostat que registaram o aumento do número de licenciados em dois pontos percentuais e a redução do abandono escolar em 1,6% no ano de 2013. Muito bem!

Também os resultados apontados no relatório PISA 2012 foram bem favoráveis para Portugal já que refere o nosso país como um exemplo de evolução positiva no que respeita às Ciências, à Leitura e à Matemática tem do os resultados melhorado sobretudo na Matemática. Neste caso o ministro (C)rato, não se sabe muito bem porquê, desvalorizou um bocado as evidências dizendo que «ainda muito há a fazer».

Suponho que se esquece o douto ministro, bem como supostamente os habituais “treinadores de bancada” da educação (Guilherme Oliveira, Henrique Neto, Graça Moura, Ramiro Marques e outros entre os quais muito professorzinho) que, mau grado para eles, estes resultados decorrem em proporção direta com aquilo a que esses senhores apelidaram de “eduquês” e que nasceu das tendências inovadoras suscitadas pelas Ciências da Educação – tão mal vistas por eles – e postas em prática após a chamada reforma do excelente – não me canso de o dizer e repetir – Ministro – este sim escrito com letra maiúscula – Roberto Carneiro.

É que as coisas em Educação não têm resultados imediatos. Não se tomam medidas num ano para os resultados aparecerem no ano seguinte. Sabemos disso. (Saberemos?) Tudo é lento na Educação e os resultados demoram por vezes décadas. (Como na mudança das mentalidades – estas com um ritmo muito mais lento.)

Agora pense-se no retrocesso que vão sofrer os relatórios internacionais que se venham a lavrar acerca da Educação daqui a meia dúzia de anos decorrentes das medidas pedagogicamente infundadas e desconexas que o ministro (C)rato tem vindo a tomar desde que, com grande aplauso de grande parte dos professores, tomou conta deste ministério. A saber:

  • A indizível protecção do ensino privado em desfavor da escola pública;

  • A redução drástica do número de professores por escola;

  • O fecho dos quadros das escolas, não permitindo a substituição dos professores efectivos que se têm aposentados aos milhares – o que produz a não fixação dos docentes às escolas, prejudicando grandemente a aprendizagem dos alunos;

  • O aumento do horário lectivo dos professores (com a respectiva diminuição dos vencimentos e subsídios…) É muito comum haver professores com oito ou nove turmas, o que poderá corresponder à leccionação de 250 alunos. Como se conhecem, se diferenciam, se ensinam se avaliam de forma séria 250 alunos, cada um com o seu ritmo de aprendizagem e os seus condicionalismos?

  • O aumento excessivo da carga burocrática e da exigência informatizada que recaiu sobre os professores e a disparidade de tarefas que têm de desempenhar semanalmente;

  • O aumento desconforme do número de alunos por turma; o número de turmas do 1º ciclo com diferentes anos de escolaridade tem vindo a crescer;

  • A redução do número de aulas no horário semanal dos alunos;

  • A redução violenta dos apoios pedagógicos e técnicos para os alunos com dificuldades de aprendizagem e com necessidades educativas especiais;

  • A loucura dos exames nacionais desde os dez anos. As provas de exame, além de serem um crescendo de rasteiras e armadilhas para o aluno “cair” e um amontoado de “critérios” que espartilham a correcção das mesmas, não provam minimamente o que o aluno sabe ou não sabe. Além disso, os professores vêem-se forçados a gastar aulas e aulas a preparar os alunos para saberem onde hão-de colocar as cruzinhas para contornarem as armadilhas em detrimento da prática da compreensão da leitura, da escrita criativa, do conhecimento articulado das matérias. Digo muitas vezes por brincadeira, mas talvez sem cair em erro que se o Fernando Pessoa tivesse de responder a uma prova de exame do 12º ano sobre um dos seus poemas, certamente não passaria do 10!

  • E por último, mas não em último, o falacioso crescimento da autonomia das direcções das escolas. Tomariam as direcções e os professores gozar da autonomia de que se gozou a partir de finais de 80!

domingo, 16 de junho de 2013

Greves de professores


Tendo sido sindicalizada desde os anos de 75 ou 76, aderi sempre às greves de professores naqueles tempos quentes em que, aqui por Leiria as greves não era muito bem vistas. Lembro-me bem de, lá na “minha” escola a funcionar ainda nas antigas instalações do velho Lyceu de Francisco Rodrigues Lobo, se dar a separação entre as colegas da área da AD darem aulas como se nada fosse e os outros a ficarem na sala dos professores no tempo em que os grevistas ainda cumpriam o horário na escola. Lembro-me como caiu mal – também em mim, diga-se! – quando um colega sindicalista e grevista uma vez abriu, intimidatório, as salas de aulas para ver quem tinha “furado” a greve…

E assim continuei, mesmo depois de me ter des-sindicalizado, a aderir às greves até aos anos 90, quanto comecei a perceber que, com as greves, não incomodava ninguém já que os alunos uivavam de alegria com a falta de aulas, os governos metiam nos cofres uma quantidade de dinheiro, além de que nada se conseguia. Isto aconteceu pela altura em que a nossa tabela salarial passou das letras para os escalões e eu, que estava à beira da letra C – o topo era a letra A – fui integrada no 5º escalão – em 10 – sofrendo um enorme revés na subida na carreira. Os sindicatos nada fizeram e eu “bati com a porta”. 

De há uns anos para cá, e perante a ineficácia das greves de professores, começámos nas escolas a perguntar-nos por que razão não se marcavam greves às avaliações e às provas de exames porque aí sim far-se-ia doer. 
 
Geralmente pouco se liga(va) aos professores – essa cambada de madraços que só trabalhava 22 horas por semana e passava quase meio anos em férias. E agora, depois de o querido líder (C)rato, aos poucos, ter retirado dinheiro e ter aumentado as horas de trabalho aos professores, depois de ter aumentado o número de alunos por turma e ter diminuído as disciplinas dos planos de estudo dos alunos com o único objetivo de poder despedir umas centenas de professores, tropeçando em mentiras em cima de mentiras à laia do que tem feito o querido líder Passos, os sindicatos marcam greve às avaliações – que tem passado mais despercebida e é mais perigosa – e no dia do exame de Português do 12º ano.
Aqui é que foi o elas! O querido líder Passos veio recomendar aos professores que guardassem a sede de greve para o dia da greve geral em 27 de Junho, sem lhe passar pela cabeça que é data em que se realiza o exame de Matemática do 9º ano e outros. 

O vice querido líder Portas veio “puxar o lustro” aos professores apelando para a sua consciência. Aquele senhor que faz discursos para campónios deixando transparecer que está tudo pacífico e sem sinais de instabilidade no 10 de Junho e depois vai para a Europa dizer como estamos mal mercê da austeridade que o FMI tem imposto ao país veio também fingir que está a fazer o seu papel de mediador entre as partes. 

E o querido líder (C)rato, o da implosão da Educação em Portugal, tem-se desmultiplicado em vindas às televisões com aquele seu tom mansinho que tanto encantou os professores – é preciso dizê-lo e repeti-lo! – com a imposição dos exames – que grande parte dos professores, no fundo, gosta mais de classificar (não digo avaliar!) do que levar os alunos a aprenderem (não digo ensinar!) ”arrepelando os cabelos” contra os malandros dos sindicatos, culpando a “comissão arbitral”, prometendo a mudança da lei que não lhe obedeceu e voltar a opinião pública contra os professores afirmando – hipocrisia suprema! – que não vai permitir que “os nossos jovens” sejam prejudicados! 

Prejudicados não serão pelo facto de serem amontoados em salas de aulas que nem dimensão têm (nem mobiliário) para os acomodar? Prejudicados não serão por lhes cortarem disciplinas fundamentais, apoios e professores com um número razoável de turmas que lhes permitam conhecê-los suficientemente bem para poderem acompanhá-los no seu trajeto educativo? Prejudicados não são por serem cada vez mais os que têm de recorrer ao apoio da Ação Social Escolar e a fazer o máximo de refeições nas escolas porque em casa não há o que comer? E outras coisas mais!

E perante tudo isto e sei lá o que mais, diz às televisões o pataroco do atual presidente da Confap muito inchado que vem «confiante da reunião com o senhor Secretário de Estado que lhe garantiu que será assegurado “o superior interesse dos nossos filhos”»! Valha-lhe Deus!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Auto do Relvas

Adaptação do «Auto da Barca do Inferno», de Gil Vicente, feita por Gonçalo, Carolina e Filipe, alunos de 42 anos (14 cada um) da Escola EB23 Dra. Maria Alice Gouveia, de Coimbra, numa aula de Português, que teve direito a uma publicação na biblioteca digital da escola e que merece ser partilhada.


Vem Miguel Relvas conduzindo aos ziguezagues o seu Mercedes banhado a ouro e sai do carro com o seu diploma na mão. Chegando ao batel infernal, diz:


RELVAS – Hou da barca!

DIABO – Ó poderoso Doutor Relvas, que forma é essa de conduzir?

RELVAS – Tirei a carta de scooter e deram-me equivalência. Esta barca onde vai hora?

DIABO – Pera um sítio onde não hai contribuintes para roubar!

RELVAS – Pois olha, não sei do que falais… Quantas aulas eu ouvi, nom me hão elas de prestar?

DIABO – Ha Ha Ha. Oh estudioso sandeu, achas-te digno de um diploma comprado nos chineses ao fim de três aulas?

RELVAS – Um senhor de tal marca não há de merecer este diploma?

DIABO – Senhores doutores como tu, tenho eu cá muitos.

Miguel Relvas, indignado com a conversa, dirige-se ao batel divinal.

RELVAS – Oh meu santo salvador, que barca tão bela, porque nom eu dir eu nela?

ANJO – Esta barca pertence ao Céu, nom a irás privatizar!

RELVAS – Tanto eu estudei, que nesta barca eu entrarei.

ANJO – Tu aqui não entrarás, contribuintes cortaste, dinheiro roubaste e um curso mal tiraste.
Relvas, sem alternativa, volta à barca do Diabo.

RELVAS – Pois vejo que não tenho alternativa. Nesta barca eu irei…Tanto roubei, tanto cortei, não cuidei que para o inferno fosse.

DIABO – Bem vindo ao teu lar, muitos da tua laia já cá tenho e muitos mais virão. Entra, entra, ó poderoso senhor doutor magistrado Relvas.

Pegarás num remo e remarás com a força e vontade com que roubaste aos que afincadamente trabalharam.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Começaram as aulas


 Foi hoje que começaram as aulas. Com menos horas no currículo dos alunos; com disciplinas diferentes; com muito menos professores nas escolas e muitos mais a engordarem as filas para o pedido do subsídio de desemprego e a emagrecerem o número de funcionários públicos que é o que convém para ajudar o governo a manter junto de Frau Merkel a sua imagem de "bom aluno"; com 3,9% do PIB para investimento na educação (ao nível da Indonésia) contra os já então baixos 5,9% gastos em 2009. 

Ah! E com mais horas semanais letivas  para os professores, com exames aos miúdos de dez anos - modelo único em todo o mundo ocidental - e com mais alunos por turma, num máximo de trinta!

Não vem daí nenhum mal ao mundo dizem os "treinadores de bancada" da educação e os Velhos do Restelo desta terra - que são muitos! A minha Mãe, que era professora primária, tinha, nos anos 60  na sala, à volta de 40 alunas das quatro classes e o sucesso no exame da 4ª classe e no exame de admissão era quase sempre total. Eu própria tive turmas de 34 alunos nos anos 80 quando as escolas não tinham salas que chegassem para albergar o boom de alunos nos 7º, 8º e 9º anos de escolaridade quando passou a ser obrigatória. 

E deve ser isso que este ministro (C)rato pensa! Só que ele não sabe porque só vê números que os alunos de hoje não são os alunos desses tempos. As condições e os condicionalismos das diferentes épocas são incomparáveis. A sociedade de hoje nada tem a ver com a dos anos 80 e muito menos com a dos tempos do obscurantismo. Nesses tempos não eram todas as crianças que iam para a escola e as que iam, se não obedecessem cegamente às normas impostas ou que não conseguissem ou não tivessem vontade de aprender, acabavam por sair da escola, fazendo-se assim a triste "seleção".

Atualmente as coisas não funcionam assim. Os alunos todos, de todas as condições, têm o direito e o dever de ir à escola e de sair de lá com um diploma. Por outro lado, a forma de ser e de estar das crianças, bem como a das famílias e a da sociedade em geral, nada tem a ver com a forma de viver de antigamente. Assim, como querem que um professor consiga (man)ter 30 alunos em cada turma, de hora a hora, juntando sete ou oito turmas no seu horário e no fim garanta sucesso a todos ou, pelo menos, à grande parte deles? Será que o senhor ministro (C)rato conseguiria?

(Uma turma de rapazes da 4ª classe de uma escola Conde Ferreira nos anos 50)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Violência na Escola



Soube por colegas e lamentei do fundo do coração. E depois saiu nos jornais: uma aluna do 9º ano agrediu violentamente a professora de Matemática na Escola EB 2,3 da freguesia onde moro.

«Uma aluna do 9º ano da Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos de Marrazes, Leiria, está suspensa preventivamente por ter agredido a professora de matemática, que a tinha expulso da aula por mau comportamento.

 A agressão ocorreu no final da aula, no corredor de acesso à sala, na segunda-feira. A aluna, de 15 anos, deu um empurrão tão forte à professora que esta caiu desamparada no chão e perdeu os sentidos. Foi assistida no Hospital de Leiria, onde fez exames, nomeadamente à cabeça, e recebeu alta, retomando o trabalho na terça-feira.

 A agressora foi de imediato suspensa, enquanto decorre o processo disciplinar instaurado pelo director do Agrupamento de Escolas de Marrazes, José Violante, que considera tratar-se de um incidente grave.»

Algumas ideia me vêm à cabeça a propósito:

1º Como é lamentável o ocorrido! 

2º Que corajosa foi a professora que, no dia seguinte à agressão, se apresentou ao serviço como se nada tivesse acontecido. 

3º Terá a professora apresentado queixa à Polícia? Ouvi dizer que não queria fazê-lo. De facto, nós professores, tendemos sempre a ver os nossos alunos como crianças ou jovens que protegemos e a quem queremos bem em qualquer situação e não como possíveis delinquentes.

4º O que pensará sobre tudo isto a família da aluna? Já terá ido à Escola? Terá já falado com a direção? Terá tido uma palavra para com a professora? De que tipo de família estaremos a falar?

5º Que pode a direção? Para já, suspender de imediato  a aluna - como fez - enquanto decorre o respetivo processo disciplinar e depois de um máximo de dez dias de suspensão das atividades letivas - faltas que nem sequer relevam para a retenção no mesmo ano - e, no fim da pena, receber a aluna nas aulas da mesma professora. Quando muito, pode a direção solicitar, por meio de uma processo tão estupidamente burocrático como a instauração do processo disciplinar, à direção regional que envie a aluna para outra escola que diga que para ela tem vaga...

 6º Sei (e concordo) que a educação básica é obrigatória para todos os jovens até aos quinze anos (e, não tarda, até aos dezoito) pelo que não podem ser forçados a sair da escola (pública, claro!) antes de atingirem aquela idade. Mas, que adianta receber de volta nesta ou noutra qualquer escola de ensino regular alunos que não têm as competências básicas da vida em comunidade porque não lhes foram dadas pela família, alunos que atormentam colegas e adultos com a sua falta de civilidade, com a sua ausência de conhecimento dos comportamentos mínimos e com a seu desinteresse por receberem a educação e instrução consideradas básicas?

Que me desculpem a minha brutal perspetiva destes casos, mas alunos destes (que são, de facto, crianças e jovens infelizes muitas vezes vitimas de ambientes desajustados, bem sei) não deviam frequentar a escola regular. Precisam de uma educação diferente e paralela, em estabelecimentos de ensino paralelos - mas, infelizmente, não os há!