A jovem que me atendeu no balcão
do pão foi a mesma que me atendeu na charcutaria. Tão mal-humorada! Não
indelicada, mas de cara tão fechada (diria
“com umas trombas!”, mas o respeito por ela não mo permite) um ar tão
aborrecido! Entende-se – deve ser um daqueles trabalhos temporários que
explodem para o ar no verão, especialmente no Algarve.
Sabemos como os jovens são
explorados, violentamente explorados nos empregos e não apenas a nível da
restauração ou dos supermercados, mas também os jovens engenheiros, os jovens
escriturários, os jovens advogados, os jovens economistas, os jovens…
Explorados de facto porque a procura é inferior à oferta, porque não há quem os
defenda, mas especialmente os “nossos” empregadores são meros patrões(zecos),
muito longe que estão, com raras exceções, de serem verdadeiros empresários.
Quando cheguei à caixa para pagar
as compras, a joven(zinha) deitava lume pelos olhos e vociferava para a colega
da caixa ao lado «adoro estas cenas!
Quantas horas mais tens de dar? Das nove às sete não lhe chega…» etc. etc.
O cliente que estava atrás de mim
entrou na conversa, que eram realmente muitas horas seguidas e “sempre a bombar”.
Aí a joven(zinha) rebentou: «e não temos
ordem de ir à casa de banho, nem de parar para beber água, só na casa de banho
é que não temos câmaras de vigilância, o almoço é na cave no meio das
mercadorias e a correr, não temos direito a receber horas extraordinárias,,, e
interrompeu-se porque a senhora que estava a ser atendida já se tinha enganado
no código do multibanco.
Quando começou a atender-me, eu
apenas lhe disse: «Sindicato, minha
querida, sindicato!» E ela, rápida: «Que
sindicato?!»
De facto, que sindicato? Sindicatos, agora, só mesmo o das
enfermeiras com aquela senhora bem escavacada que grita GREVE! GREVE! Enquanto aumenta
o seu ordenadito lá no partido. Sindicatos só mesmo os dos médicos que vêm às
televisões apregoar pelo SNS que, pela calada, ajudam a enterrar. Sindicatos só
mesmo aquele, inefável, dos professores a gritar GREVE! GREVE! Vamos destituir
o ministério como da outra vez…
E eu, tão tonta, de repente, a
sentir-me no tempo em que ainda acreditava no Pai Natal e na Fenprof-pré-Mário.
Eu a sentir-me orgulhosa por a minha mãe, anos 60, ser professora em colégios e
ser sindicalizada… Tão parva! A falar à joven(zinha) em sindicatos…
De facto, agora, que sindicatos?
Apenas os do setor público. Os do setor privado não podem, não têm força para
regatearem nas televisões a queda de ministros, a queda de governos.
E os trabalhadores do privado,
temporários, a recibos verdes, a prazo, se refilam e falam no sindicato, vão
para a rua ou para onde os patrões(zinhos) os quiserem mandar…